Open-access Bakhtin e a Linguística: um diálogo iniciado nos anos 1920

RESUMO

Em diversas obras do Círculo (Bakhtin, Volóchinov, Medviédev), a referência a Saussure e/ou às especificidades da Linguística, enquanto ciência da língua, pode ser encontrada em diálogo, mais ou menos polêmico, entre pensadores e tendências epistemológicas, teóricas e metodológicas que propõem diferentes abordagens para a complexidade representada pela linguagem humana e, consequentemente, para seu estudo. Neste artigo, o objetivo é circunscrever e discutir a presença da Linguística, enquanto ciência da língua instaurada por Saussure, nos escritos de Mikhail Bakhtin. Após uma introdução, o texto se organiza em três seções, que tratam (1) de uma forte presença de Saussure nos escritos do Círculo; (2) do diálogo de Bakhtin com a ciência na unidade da cultura; (3) do diálogo com a ciência linguística da escola de Genebra em “O problema do conteúdo, do material e da forma”; e, finalmente, de considerações inconclusas, mas necessárias. Destacam-se importantes momentos-chave de reflexão em textos assinados por Bakhtin, em que Saussure (ainda que não nomeado, mas designado pela ciência por ele estabelecida) merece destaque, como contraponto científico-filosófico necessário para a constituição de outra possibilidade de compreensão e estudo da linguagem: a perspectiva dialógica. Como resultado, espera-se demonstrar que, desde os anos 1920, o diálogo Bakhtin/Saussure se estabelece, para distinguir e qualificar duas formas complementares de compreensão da linguagem e do lugar da ciência na unidade da cultura.

PALAVRAS-CHAVE:
Bakhtin; Saussure; Linguística; Diálogo

ABSTRACT

In several works by the Circle (Bakhtin, Vološinov, Medvedev), the reference to Saussure and/or the specificities of Linguistics, as a science of language, can be found in a dialogue, more or less controversial, between thinkers and epistemological, theoretical and methodological trends that propose different approaches to the complexity represented by human language and, consequently, to its study. In this article, the objective is to circumscribe and discuss the presence of Linguistics, as a science of language established by Saussure, in the writings of Mikhail Bakhtin. After an introduction, the text is organized into three sections, which deal with (1) Saussure’s strong presence in the Circle’s writings; (2) Bakhtin’s dialogue with science in the unity of culture; (3) the dialogue with the linguistic science of the Geneva school in “PCMF”; and, finally, of inconclusive but necessary considerations. Important key moments of reflection stand out in texts signed by Bakhtin, in which Saussure (although not named, but designated by the science he established) deserves to be highlighted, as a necessary scientific-philosophical counterpoint for the constitution of another possibility of understanding and study of language: the dialogical perspective. As a result, it is expected to demonstrate that, since the 1920s, the Bakhtin/Saussure dialogue has been established to distinguish and qualify two complementary ways of understanding language and the place of science in the unity of culture.

KEYWORDS:
Bakhtin; Saussure; Linguistics; Dialogue

No meio do caminho, tinha um (muito bem-vindo) diálogo com Saussure

Só é possível compreender o significado da palavra para o conhecimento, para a criação artística [...], depois de se ter compreendido a sua natureza puramente verbal e linguística [...].

Mikhail Bakhtin

O Grupo de Pesquisa Linguagem, Identidade e Memória (LIM- CNPq/PUC-SP)1 constituído em 2000, no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem - LAEL, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP, reúne pesquisadores de diferentes Instituições de Ensino Superior (IES) do Brasil e do exterior e seus componentes articulam-se de forma sistemática em torno dos Estudos Bakhtinianos, da Análise Dialógica do Discurso (ADD) e da Verbo-visualidade, considerando formas de construção de sentidos e identidades em diferentes domínios: trabalho, literatura, artes, educação, ensino, livro didático, tradução, divulgação científica, mídia, dentre outros.

Em 2021, parte desse grupo propôs-se a comparar algumas traduções do ensaio “O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária” (doravante “PCMF”), publicado em 1924 por Mikhail Bakhtin (Bakhtin, [1924] 1993a). As diretrizes desse minucioso trabalho surgiram por especificidades da recepção do texto em língua portuguesa, uma vez que não existe uma sua tradução posterior à publicação, na Rússia, das Obras reunidas2 de Bakhtin (cf. Grillo, 2009), como acontece com outros trabalhos do mestre russo. De fato, nas últimas duas décadas, houve o surgimento de novas traduções e publicações de várias obras de Bakhtin e de Volóchinov3 no Brasil, mas a única publicação em português do ensaio “PCMF” compõe a coletânea Questões de literatura e de estética: a teoria do romance (Bakhtin, 1993c - doravante QLE), cuja primeira edição data de 1988.

Mesmo reconhecendo a importância do trabalho dos tradutores que atuaram na edição brasileira de QLE, o mencionado subgrupo do GPLIM já havia enfrentado alguns estranhamentos no difícil texto, cujo estudo acabava apontando para a necessidade de comparação com algumas edições em outras línguas. Surge, então, o projeto de colocar em diálogo essas leituras de um “mesmo” texto em diferentes traduções: italiano, francês, espanhol, inglês.

O lento trabalho, ainda em curso, desenvolve-se tendo como base a leitura comparada, parágrafo a parágrafo, de “PCMF” nessas várias traduções, tendo como fio condutor a tradução em português de 1988, na sua 3ª. edição (1993a). O estudo já indicou algumas impropriedades na tradução brasileira, como, entre outros exemplos: a opção por “tamanho” (Bakhtin, 1993a, p. 19) num trecho em que se lê “forma” em outros idiomas; o emprego de “ato estético” (Bakhtin, 1993a, p. 34) em trecho que se refere, indubitavelmente, ao potente conceito “ato ético” e o provável erro de digitação que leva a edição em português a trazer “objeto estático” (Bakhtin, 1993a, p. 50) em trecho que, em qualquer outra língua, lemos “objeto estético”.

Nesta primeira publicação derivada do trabalho em conjunto, porém, o foco não é pensar numa possível nova edição comentada do texto em português. A leitura vagarosa e insistente do texto acabou por deixar evidente a presença de Saussure nas discussões de Bakhtin. O estopim que apontou para essa discussão relevante em “PCMF” foi a leitura minuciosa do seguinte parágrafo:

A linguística só é uma ciência na medida em que domina o seu objeto: a língua. A língua é definida linguisticamente por um pensamento puramente linguístico. Um enunciado isolado e concreto sempre é dado num contexto cultural e semântico-axiológico (científico, artístico, político, etc.) ou no contexto de uma situação isolada da vida privada; [...]. Não há enunciados neutros, nem pode haver; mas a linguística vê neles apenas o fenômeno da língua, relaciona-os apenas com a unidade da língua, mas não com a unidade de conceito, de prática de vida, da História, do caráter de um indivíduo, etc. (Bakhtin, 1993a, p. 46; itálicos no original).

Para atingir os objetivos propostos, mais especificamente circunscrever e discutir a presença da Linguística, enquanto ciência da língua instaurada por Saussure, nos escritos de Mikhail Bakhtin, destacando nesse panorama “PCMF”, e considerando essa presença também em Valentin Volóchinov, este artigo apresenta, além desta introdução, mais três seções - 1) Saussure e a Linguística: uma forte presença nos escritos do Círculo; 2) O diálogo de Bakhtin com a ciência na unidade da cultura; e 3) O diálogo com a ciência linguística da escola de Genebra (Ferdinand Saussure) nos anos 1920; assim como as Considerações inconclusas, mas necessárias.

1 Saussure e a Linguística: uma forte presença nos escritos do Círculo

A composição de um panorama geral da presença de Saussure nos escritos do Círculo foi uma das formas escolhidas pelos autores neste artigo para estabelecer a natureza das relações existentes entre uma perspectiva dialógica da linguagem e seu diálogo com a Linguística enquanto ciência da língua, com destaque para o ensaio “PCMF” (Bakhtin, 1993a [1924]). Como se sabe, Mikhail Bakhtin e os demais membros do denominado Círculo instauram Ferdinand de Saussure (1857-1913) como um interlocutor privilegiado para que eles pudessem construir, epistemológica, teórica e metodologicamente, sua própria concepção de linguagem, assim como novas possibilidades de seu estudo, questão filosófico-científica vital, especialmente entre os anos 1920 e 1930. E que não deixa de ter continuidade na volta de Bakhtin do exílio, como se constata em Problemas da poética de Dostoiévski (1963), mais especificamente no capítulo 5 “O discurso em Dostoievski”.

Na verdade, os linguistas soviéticos descobriram o Curso de linguística geral (doravante CLG), de Ferdinand de Saussure, nas versões francesas de 1916 e 1922, acontecimento que foi acompanhado de resenhas produzidas em dois grandes centros: Moscou e Leningrado. O texto de Saussure, CLG, que só seria traduzido para o russo em 1933, chega em um momento de crise da Linguística soviética, de abertura para transformações, tendo sido recebido, segundo trabalhos realizados por vários estudiosos da linguagem e das ideias linguísticas, caso de Natalia Sljusareva, Inna Ageeva, Irina Ivanova, Patrick Sériot, Ekaterina Velmezova, Valéry Kouznetsov, dentre outros, com acaloradas manifestações pró e contra4.

Embora não se possa precisar quando exatamente os pensadores do Círculo leram Saussure pela primeira vez, diferentes obras, de diferentes épocas, mostram essa potente interlocução. Sabe-se, por uma nota de Volóchinov em MFL (2017, p. 165, nota 27) que a leitura de CLG antecede sua tradução para o russo e as referências ao mestre genebrino começam a aparecer já nas obras da primeira metade dos anos 1920. Essas referências não são esporádicas e meramente contestatórias. Saussure é alçado por Volochínov, e mesmo por Bakhtin, como um dos mais importantes de seus interlocutores, juntando-se aos formalistas russos, à estilística clássica, ao marxismo ortodoxo e até mesmo à psicanálise. Certamente essa foi uma das estratégias para que, desse amplo, polêmico, mas certamente produtivo diálogo, aflorasse uma nova concepção de linguagem e seu estudo, respondendo àquele momento de crise nos estudos linguísticos.

A presença de Saussure em obras do Círculo tem sido trabalhada, em geral com destaque para Volóchinov, como se pode constar, entre outros5, em alguns dos importantes estudos produzidos no Brasil e no exterior:

Linguagem e diálogo: as ideias linguísticas do Círculo de Bakhtin (2003) e “Voloshinov: um coração humboldtinia?” (2006), de Carlos Alberto Faraco; “Da crítica de Saussure por Voloshinov e Iakubinski” (2006), de Mika Lähteenmäki; “Saussure e Volochínov: uma relação conturbada” (2008), de Sandra Cristina Porsche; “Recherches saussuriennes en Russie” (2013), de Valery Kouznetsov; “Bakhtin e Saussure: convergências e divergências (2002)”, de Valdir Flores (Brait, 2016, p. 95).

No que se refere às relações estabelecidas entre Bakhtin e a ciência da língua, objeto deste artigo, é possível retroceder a trabalhos inaugurais, caso de Para uma filosofia do ato responsável (doravante PFA) (2010 [início dos anos 1920]), O autor e a personagem na atividade estética (2023 [1920-1924], “O problema do conteúdo, do material e da forma na criação literária (1988/1993 [1924], ou a trabalhos posteriores, caso de “O discurso no romance” (1988/1993b/2015 [1934]), e neles localizar momentos em que determinadas concepções do mestre genebrino são tomadas como contraponto epistemológico necessário à argumentação bakhtinianamente desenvolvida.

Situando a questão especificamente em PFA, destacamos um eixo central desse trabalho, situado nas oposições vida e cultura, concreto e abstrato, unidade e unicidade, arte e vida, possível e real; universal e singular; repetível e irrepetível; lei e evento; indiferente e valorado (não indiferente).

O olhar para esse conjunto revela, de imediato, o forte embate entre teoricismo, pensamento abstrato, mundo da abstração, que englobaria a filosofia e a ciência, de um lado, e a existência vivida, irrepetível, de outro. Essas oposições, entretanto, não se dão de forma binária excludente. Na verdade, elas são apresentadas bakhtinianamente, dialogicamente. Ou seja, convivendo em tensão, nos limiares, nas fronteiras do pensamento filosófico científico. Isso se evidencia, nessa obra e em outras, quando Bakhtin coloca a questão sem negar validade ao pensamento abstrato, à abstração. Ele está centrado em uma interlocução epistemológica polêmica, constitutiva de sua época, de maneira a tomar a Linguística estabelecida por Saussure, a ciência da língua, a partir dos pilares de um pensamento centrado no abstracionismo, no teoricismo, sem que seja necessário trazer o nome de Saussure (o pensador) ou especificamente da ciência linguística.

É nesse sentido que Saussure e sua Linguística são evocados por Bakhtin em PFA: como interlocutores epistemologicamente necessários para construir o esboço de sua filosofia moral, traçar os pilares de sua arquitetônica dialógica, construtos que regem seu pensamento estético-filosófico, presentes, de diferentes maneiras, em todas as suas obras posteriores.

Nessa mesma direção, e para confirmar essa hipótese, outro trabalho será destacado: “O discurso no romance”, mais especificamente em seu item “A estilística atual e o romance” (Bakhtin, 2015, p. 23-45). Também aqui, ao discutir a questão do heterodiscurso [pluridiscurso/ plurilinguismo]6, o pensador russo introduz as limitações do que ele denomina estilística tradicional, especificamente no que se refere ao diálogo social das linguagens no romance (2015, p. 30; itálicos do autor). Se a discussão se dá de uma perspectiva epistemológica, como acontece, mutatis mutandis, em PFA, é em uma nota de rodapé que encontramos a explicitação do problema:

A redução do fenômeno estilístico à individualização do fenômeno linguístico é igualmente característica das duas maiores escolas linguísticas da atualidade: da Escola de Genebra de Ferdinand de Saussure (Charles Bally e Albert Sechehaye) e da escola de Karl Vossler (Leo Spitzer, Georg Loesch e outros), por maiores que sejam as diferenças entre essas escolas na concepção do próprio fenômeno linguístico e dos métodos de análise estilística concreta (Bakhtin, 2015, p. 31).

A presença de Saussure, para além da nota, está no corpo do texto, como, por exemplo em “[...] a estilística se transforma numa peculiar linguística de línguas individuais ou numa linguística da enunciação (linguistique de la parole, segundo a terminologia de Saussure” (Bakhtin, 2015, p. 31; itálico do autor). A referência à linguística da parole é absolutamente necessária para que Bakhtin possa argumentar na direção de uma estilística do discurso, a qual deverá envolver uma dimensão sociológica, implicando, também, a questão dos gêneros. Se quisermos estabelecer uma relação com PFA, no sentido do arcabouço argumentativo, o que o pensador russo retoma são os eixos regidos pelos binômios vida e cultura, concreto e abstrato. Esses elementos possibilitarão o encaminhamento de uma noção de estilo, de unidade estilística, dentro de uma perspectiva discursiva, sociológica-dialógica.

Essa nova estilística, pensada coerentemente enquanto arcabouço teórico e metodológico, repousa, basicamente, em mais um binômio: a perspectiva da unidade da língua, da unificação e estratificação linguística, como expressão das forças centrípetas, de um lado, e, de outro, o plurilinguismo (o heterodiscurso), as forças centrífugas, que trabalham no sentido da descentralização. Segundo Bakhtin (2015, p. 42):

Cada enunciação concreta do sujeito do discurso é um ponto de aplicação tanto das forças centrípetas quanto das forças centrífugas. [...] E essa comunhão ativa de cada enunciado no heterodiscurso7 vivo determina a feição linguística e o estilo do enunciado em grau não inferior à sua pertença ao sistema normativo-centralizador da língua única.

A presença de Saussure no trabalho “O discurso no romance”, portanto, apontando para a necessidade de uma estilística dialógica, uma estilística do discurso, parece, pelo destaque concedido aos conceitos de forças centrípetas e forças centrífugas que movem a língua, retomar os binômios como forma de, na tensão, construir novos conhecimentos sobre a linguagem, trazendo a vida para dentro da teoria, que necessariamente se constitui como abstração.

E se em “O discurso no romance” Bakhtin toma como ponto a ser trabalhado o gênero romance, a prosa literária, convocando Saussure como contraponto essencial, isso também vai se dar em “Os gêneros do discurso” (2016), estudo datado de 1952-1953. São as mesmas questões de fundo, aqui denominadas epistemológicas, teóricas, metodológicas, colhidas na reflexão filosófica-ético-estética tecida em PFA, que parecem mover Bakhtin a aprofundar um construto, que passa por todos os pensadores do Círculo: o conceito de gêneros do discurso e seu papel na arquitetônica dialógica. Mais uma vez, Bakhtin elege Saussure como interlocutor representante da cultura, do teoricismo, de uma perspectiva linguística inaugural e sem precedentes naquele momento.

No item I, intitulado “O problema e sua definição” (Bakhtin, 2016, p. 11), encontramos uma primeira afirmação que reitera a ideia de que a unidade nacional de uma língua não está descartada e que Bakhtin a invoca para compor o binômio unidade/unicidade, que rege sua reflexão, possibilitando desenvolver seus argumentos a favor do gênero do discurso: “Compreende-se perfeitamente que o caráter e as formas desse uso [da linguagem em todos os campos da atividade humana] sejam tão multiformes quanto os campos da atividade humana, o que, é claro, não contradiz a unidade nacional da língua” (itálicos nossos).

Isso posto, Bakhtin inicia seu raciocínio de que “O emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos, proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana” (2016, p. 11). No sentido de concretizar e defender sua concepção de gêneros, evoca alguns estudiosos que, de alguma maneira trataram da questão, incluindo Saussure:

[...] estudaram-se também os gêneros discursivos do cotidiano (predominantemente as réplicas do diálogo cotidiano) e, ademais, precisamente do ponto de vista da linguística geral (na escola de Saussure, em seus adeptos modernos - os estruturalistas, nos behavioristas americanos e, em bases linguísticas totalmente distintas, nos seguidores de Vossler). Contudo, esse estudo tampouco poderia redundar em uma definição correta da natureza universalmente linguística, uma vez que estava restrito à especificidade do discurso oral cotidiano [...] (2016, p. 13-15).

Portanto, é nesse primeiro momento em que o problema do gênero é colocado, aí incluído o enunciado, que Saussure é invocado. A afirmação final do item sublinha a ideia aqui defendida de que o pensador russo não descarta a importância das unidades da língua em sua proposta, prevendo que o estudo dos gêneros auxiliará, ainda mais, o estudo das unidades do sistema: “O estudo da natureza dos enunciados e dos gêneros discursivos é, segundo nos parece, de importância fundamental para superar as concepções simplificadas da vida do discurso, do chamado “fluxo discursivo”, da comunicação, etc. [...] (2016, p. 22).

No item 2, intitulado “O enunciado como unidade da comunicação discursiva. Diferença entre essa unidade e as unidades da língua (palavras e orações)”, duas observações podem ser feitas a respeito da presença de Saussure. Primeiramente, ao mencionar os cursos de Linguística geral existentes na Rússia naquele momento, os quais apresentavam esquemas muito simplificados a respeito da relação falante/ouvinte, Bakhtin afirma que essa visão está presente “inclusive em alguns tão sérios quanto o de Saussure” (2016, p. 24). Essa distinção é importante para levarmos em conta a importância do mestre genebrino, de sua concepção de língua como sistema, nas reflexões de Bakhtin, mais uma vez como contraponto qualificado ao apontar para uma estilística do discurso que inclui os gêneros.

A segunda encontra-se na afirmação: “Não se pode dizer que esses esquemas sejam falsos e que não correspondem a determinados momentos da realidade; contudo, quando passam ao objetivo real da comunicação discursiva eles se transformam em ficção científica” (2016, p. 24). Aqui vemos reiterado o respeito que Bakhtin dispensa aos estudos linguísticos, com destaque para os de Saussure, de forma a sublinhar a importância científica da Linguística, contrapondo, por exemplo, o conceito de parole, produto da coerência do pensamento de Saussure, ao conceito de discurso, forjado na concepção coletiva de linguagem do Círculo, com base na relação eu/outro.

A distinção entre o conceito de oração, unidade da língua, e o de enunciado, unidade da comunicação discursiva, essencial para a definição do conceito de gênero, parece ter o objetivo explícito de definir o enunciado com maior propriedade, reiterando o diálogo argumentativo com a Linguística, assim como afirmando as fronteiras existentes entre essas unidades pertencentes a diferentes dimensões da linguagem.

Bakhtin ainda se debruça especificamente sobre a língua no seu Questões de estilística no ensino da língua (2013 [1945]). Nesse texto, que Gogotichvíli (2013, p. 49) atribui, junto aos demais textos aventados nesta seção, a um “ciclo linguístico” bakhtiniano, a autora identifica dois leitores presumidos, sendo um deles “um linguista, embora a ‘leitura linguística’ do artigo seja obviamente menos transparente e clara” (Gogotichvíli, 2013, p. 49). Também aqui Bakhtin vai levantar pontos de uma teoria dialógica do discurso para o estudo e o ensino da língua russa - mas que, segundo Grillo e Américo (2013, p. 94), “é relevante não apenas para o ensino da língua russa, mas também para qualquer língua materna, inclusive para o português”.

No “diálogo polêmico [de Bakhtin] com os métodos de ensino de língua materna existentes na Rússia naquele momento” (Brait, 2013, p. 9), Bakhtin vai sentir falta de uma presença, mesmo que mínima, dos estudos linguísticos mais recentes, quando diz que “o problema é que uma abordagem mais ou menos sistemática de estilística das formas gramaticais isoladas não aparece na nossa bibliografia metodológica. Essa abordagem da questão não foi sequer colocada - nem se coloca atualmente - em nossa literatura” (Bakhtin, 2013, p. 24; itálicos nossos).

Referente a este trecho, na nota 4 (Bakhtin, 2013, p. 24), o autor evoca nominalmente Saussure e representantes de uma gramática estilística: “A gramática estilística (e seu fundamento: a estilística linguística) foi melhor estudada na França. Seus fundamentos científicos foram os trabalhos da escola de Ferdinand de Saussure [...]”. O tom elogioso de Bakhtin sobre a estilística saussureana não é despiciendo, num texto em que palavras bastante duras são direcionadas a outras correntes da estilística, como a de Tchernichiov, que “não é capaz de ensinar quase nada ao nosso professor” (Bakhtin, 2013, p. 24); Potebniá, cujas análises “não são capazes de dar respostas às suas questões práticas” (Bakhtin, 2013, p. 24); ou Barkhudárov, cujos textos “não fornecem ao professor nenhuma ajuda nessa área” (Bakhtin, 2013, p. 24).

A deferência à estilística linguística de Saussure, entretanto, não exime o presumido leitor linguista do diálogo polêmico velado com a teoria do autor genebrino. Tanto é que Gogotichvíli (2013, p. 56) ressalta que “Bakhtin de fato problematiza os postulados fundamentais da linguística e, em particular, aqueles critérios que tradicionalmente são vistos como fundamento da classificação gramatical dos fenômenos linguísticos”. A proposta dialógica bakhtiniana para o ensino de língua materna coloca a “estilística gramatical [...] no epicentro da preocupação teórica de MMB na área da linguística” (Gogotichvíli, 2013, p. 50), em oposição, portanto, à orientação “monológica” da linguística teórica. Mesmo num campo que muitos poderiam tomar - e ainda tomam - como estéril de relações dialógicas, como é a gramática normativa, Bakhtin afirma e reafirma a imprescindibilidade das relações dialógicas no aprendizado e no uso de seus conhecimentos.

E para finalizar esse panorama não exaustivo sobre diferentes formas de presença da Linguística saussureana, enquanto ciência da língua, nas reflexões bakhtiniananas, uma obra, cuja primeira edição aconteceu em 1929, Problemas da obra de Dostoiévski (2022), e teve sua segunda edição anos depois de “Gêneros do discurso”: Problemas da poética de Dostoiévski (1963), será aqui mobilizada em sua quarta edição brasileira (2008).

Essa obra, um potente exemplo de estudo de um gênero do discurso, no caso o gênero romance polifônico, apresentado por Bakhtin a partir do conjunto da obra de Dostoiévski, foi acrescida, na edição de 1963, do capítulo 5, intitulado “O discurso em Dostoiévski”. Trazemos aqui o trecho inicial do capítulo, como forma de reiterar, mais uma vez, a maneira pela qual Bakhtin encara a linguística saussureana, que tem na língua seu objeto, e sua relação com a metalinguística, conjunto de disciplinas cujo objeto é o discurso, que ele propõe, pela primeira vez, exatamente nesse capítulo.

Algumas observações metodológicas prévias.

Intitulamos este capítulo “O discurso em Dostoiévski” porque temos em vista o discurso, ou seja, a língua em sua integridade concreta e viva e não a língua como objeto específico da linguística, obtido por meio de uma abstração absolutamente legítima e necessária de alguns aspectos da vida concreta do discurso. Mas são justamente esses aspectos, abstraídos pela linguística, os que têm importância primordial para os nossos fins. Por este motivo as nossas análises subsequentes não são linguísticas no sentido rigoroso do termo. Podem ser situadas na metalinguística, subentendendo-a como um estudo - ainda não constituído em disciplinas particulares definidas - daqueles aspectos da vida do discurso que ultrapassam - de modo absolutamente legítimo - os limites da linguística. As pesquisas metalinguísticas, evidentemente, não podem ignorar a linguística e devem aplicar os seus resultados. A linguística e a metalinguística estudam um mesmo fenômeno concreto, muito complexo e multifacético - o discurso, mas estudam sob diferentes aspectos e diferentes ângulos de visão. Devem completar-se mutuamente e não fundir-se. Na prática, os limites entre elas são violados com muita frequência (Bakhtin, 2008, p. 207).

Esse trecho esclarece a perspectiva teórico-metodológica adotada por Bakhtin para dar conta do objeto de estudo designado discurso. É precisamente o momento em que ele explicita alguma coisa que já vinha sendo reiteradamente anunciada, desde PFA, passando pelos outros trabalhos aqui comentados: a diferença existente entre o objeto específico da linguística, obtido por meio da abstração absolutamente legítima, e o objeto de uma metalinguística, a língua em sua integridade concreta. Bakhtin evidencia que é o ponto de vista sobre o objeto que vai diferenciar a linguística - ciência impulsionada por Saussure e que tem na abstração seu paradigma teórico-epistemológico, da metalinguística - ciência, naquele momento, ainda a ser construída, assumindo o objeto a partir do paradigma da integridade concreta. Essa postura bakhtiniana diante da constituição do objeto de uma ciência sem dúvida lembra a afirmativa saussureana de que “Bem longe de dizer que o objeto precede o ponto de vista, diríamos que é o ponto de vista que cria o objeto” (Saussure, 2006 [1916], p. 15). Mas reafirma, especialmente para os interesses deste trabalho, a reflexão a partir do binômio, que estava definido em PFA, centrado em cultura-vida, abstrato-concreto.

Na segunda seção deste artigo, veremos como se dá, especificamente, o diálogo de Bakhtin com a ciência na unidade da cultura, especialmente na década de 1920, considerando essa última em suas dimensões ética, estética e cognitiva.

2 O diálogo de Bakhtin com a ciência na unidade da cultura humana

A relação do pensamento bakhtiniano com as proposições saussureanas inscreve-se em uma problemática mais ampla que é a da sua relação com a ciência linguística, em particular, e com a ciência, em geral. Seu modo de conceber a Linguística e o lugar que lhe concede na construção da teoria dialógica da linguagem foram tratados acima. Aqui, cabe evocar sua concepção do lugar da ciência na cultura e sua relação com os demais domínios culturais, a saber, o ético e o estético, a partir de três textos da década de 1920.

Em “PCMF”, a estética geral que aparece sendo construída pressupõe uma relação com a ciência. Já no início do ensaio Bakhtin postula que para se chegar ao conceito de estético de forma “segura e precisa [...] há necessidade de uma definição recíproca com outros domínios, na unidade humana da cultura” (Bakhtin, 1993a, p. 16). Mas ele adverte que a ciência não pode servir de refúgio contra o subjetivismo que venha a decorrer de uma determinada abordagem estética: “como antigamente, e mesmo ainda hoje às vezes, a teoria da arte, com os mesmos objetivos, se apega à psicologia e até mesmo à fisiologia; no entanto, a salvação é fictícia [...]” (Bakhtin, 1993a, p. 27; itálicos nossos).

De fato, embora necessariamente relacionados na unidade da cultura, o ético, o estético e o cognitivo se distinguem em seu modo de participar da cultura e Bakhtin tratará de estabelecer essas diferenças. Da ciência, ele nos diz:

Cada fenômeno da cultura é concreto e sistemático, ou seja, ocupa uma posição substancial qualquer em relação à realidade preexistente de outras atitudes culturais e por isso mesmo participa da unidade cultural prescrita. Mas estas relações do conhecimento, do procedimento e da criação literária, no que tange à realidade preexistente, são profundamente diferentes. O conhecimento não aceita a avaliação ética nem a formalização estética, mas afasta-se disso (Bakhtin, 1993a, p. 31; grifos no original).

Ao longo do texto, para cada aspecto do objeto estético - o conteúdo, o material e a forma - Bakhtin demonstra ser necessário especificar a relação com a ciência e com o ato. Primeiramente, no que concerne ao conteúdo, essa relação é fundamental: “Fora da relação com o conteúdo, ou seja, com o mundo e os seus momentos, mundo como objeto do conhecimento e do ato ético, a forma não pode ser esteticamente significante, não pode realizar suas funções fundamentais” (Bakhtin, 1993a, p. 35). Isto é, “a forma esteticamente significante é a expressão de uma relação substancial com o mundo do conhecimento e do ato [...]” (Bakhtin, 1993a, p. 35). No entanto, mesmo sendo no conteúdo do estético que o conhecimento científico aparece com mais peso, ele não tem um lugar autônomo nem principal:

O conteúdo não pode ser puramente cognitivo, completamente privado do elemento ético; ademais, pode-se dizer que é ao campo ético que pertence a primazia essencial do conteúdo. A forma artística não pode realizar-se em relação ao conceito puro e ao juízo puro [...]. O mais incorreto seria considerar o conteúdo como um conjunto teórico, cognitivo, como um pensamento, como uma ideia (Bakhtin, 1993a, p. 39).

A não existência desse lugar principal em nada diminui a importância do conhecimento, pois ele é fundamental para esclarecer “interiormente o objeto estético [...]” (Bakhtin, 1993a, p. 40); mas “[...] o que é verdadeiro do ponto de vista cognitivo torna-se elemento da realização ética (Bakhtin, 1993a, p. 41).

Essa ideia apresenta uma equivalência com o que é formulado em PFA, texto contemporâneo de “PCMF”. Ali, Bakhtin nos mostra que a ciência e o conhecimento teórico conceitual obedecem ao critério de uma verdade geral ou universal, própria a um dado sistema de possibilidades, ideia que se confirma em “PCMF”: “ao penetrar na ciência, a realidade se despe de todos os seus valores para tornar-se uma realidade do conhecimento nua e pura, onde somente a unidade da verdade é soberana” (Bakhtin, 1993a, p. 31-32). Importante sublinhar que a relação com os valores não é a mesma na ciência e na arte, “o ser estético está mais próximo da unidade real do existir-como-vida do que está o mundo teórico”, afirma Bakhtin em PFA (2010, p. 66).

Se não há dúvida de que no pensamento bakhtiniano a dimensão axiológica predomina e define o lugar do conhecimento no objeto estético, não há nada que justifique interpretações relativistas, pois, como o filósofo russo defende em “PCMF”, “ao sublinhar a ligação do elemento cognitivo com o ético, deve-se notar que o acontecimento ético não relativiza os juízos que ele integra nem é indiferente à sua profundidade, amplidão e veracidade puramente cognitivas (Bakhtin, 1993a, p. 41; grifo nosso)8.

Assim, após tratar do aspecto do conteúdo do objeto estético, ele aborda o aspecto material do objeto estético. Nesse ponto, as considerações de Bakhtin desenvolvem-se no âmbito da criação literária, notadamente da poesia, o que o leva naturalmente a refletir sobre a ciência especificamente linguística, o que será tratado mais detidamente adiante. Em alguns momentos, porém, ele amplia a reflexão para outras ciências, pondo em diálogo o trabalho do linguista com o de profissionais de outras áreas da ciência, como o psicólogo e o físico, sempre fazendo suas relações entre ético, estético e cognitivo:

[...] o objeto estético, enquanto conteúdo e arquitetônica da visão artística, é um modo de existência totalmente novo, que não pertence ao domínio da física nem ao da psicologia e, naturalmente, tampouco ao da linguística: é uma existência estética singular que cresce nos limites da obra graças à superação de sua determinação extra-estética e material-objetal (Bakhtin, 1993a, p. 51; itálicos nossos).

Finalmente, quanto ao aspecto da forma no/do objeto estético, ela é para Bakhtin aquilo que liberta a criação do elemento cognitivo e do acontecimento ético. Ao mesmo tempo em que o cognitivo e o ético constituem a realidade pré-existente com que cada objeto estético se relaciona, essa realidade será superada e isolada no processo de criação. O artista será criador de realidade sem ser dela participante. Ou seja, ele não participa da realidade diretamente, caso contrário, estaria nela imerso e não poderia lhe dar acabamento.: “[...] a unidade é criada não pelo pensamento lógico, mas pelo sentimento de uma atividade valorizante” (Bakhtin, 1993a, p. 65). Nesse sentido, do ponto de vista do artista-criador,

[t]odas as ligações vocabulares sintáticas, para se tornarem. composicionais e realizarem a forma no objeto artístico, devem ser penetradas pela unidade do sentimento de uma atividade ligadora, atividade esta orientada sobre a unidade das ligações objetais e semânticas de caráter cognitivo ou ético; devem ser penetradas pela unidade do sentimento da tensão e do englobamento formador, do envolvimento exterior do conteúdo ético-cognitivo (Bakhtin, 1993a, p. 65).

Bakhtin continua a reflexão sobre o objeto estético e conclui que “é verdade que não é uma criação a partir do nada, ela pressupõe a realidade do conhecimento e do ato, que ela apenas transfigura e formaliza” (Bakhtin, 1993a, p .69). Mais uma vez se pode dizer que, tal como em PFA, a tese central é a necessária articulação entre os três domínios que integram a unidade da cultura. E mais: embora de modo diferente, as considerações sobre a relação necessária entre os domínios culturais da estética, da ética e da ciência valem para o criador, para o contemplador e para o pesquisador (o esteta ou analista estético).

Essa concepção da unidade da cultura humana, presente como vimos em PFA e “PMCF”, ainda é evidente num texto anterior a PFA, “Arte e responsabilidade” (Bakhtin, 2006, [1919], p. XXXIII), cujo segundo parágrafo começa assim: “Os três campos da cultura humana - a ciência, a arte e a vida - só adquirem unidade no indivíduo que os incorpora à sua própria unidade”.

De todo modo, o que está sempre em jogo é a articulação das diferentes esferas, o que nos leva a pensar que esta é de fato a grande preocupação filosófica de Bakhtin e talvez se possa dizer que há um princípio regulador a respeitar quando se pensa em articular os três domínios culturais: ele se refere à questão da totalidade e do acabamento. Sem caber aqui um detalhamento, entende-se que tanto na ciência como na vida, no cognitivo como no ético, o inacabamento é constitutivo: “há o mundo uno da ciência, a realidade una do conhecimento, fora da qual nada pode tornar-se significante de forma cognoscível; esta realidade do conhecimento não é acabada e está sempre aberta” (Bakhtin, 1993a, p. 32). Tomá-los como totalidades é violentá-los naquilo que eles têm a oferecer ao nosso entendimento. Somente na arte, no objeto estético, a totalidade é possível e necessária: o gesto estético totaliza e apenas ele pode criar totalidades na medida exata em que leva em conta e se liberta do cognitivo e do ético.

Para concluir nossas reflexões sobre a relação de Bakhtin com a ciência, podemos dizer que carece de fundamento qualquer interpretação que configure Bakhtin como um pensador anticiência. Seria negar o admirável trabalho empreendido em “PCMF” - e ainda nos outros dois textos evocados nesta seção - para definir o lugar da ciência em um universo tão aparentemente distante como o domínio da arte.

Na próxima seção, teceremos reflexões especialmente em torno do papel da ciência da língua, a linguística da escola de Ferdinand Saussure, na construção desse método da análise estética nos escritos dos anos 1920 de Bakhtin.

3 O diálogo com a ciência linguística da escola de Genebra (Ferdinand Saussure) em “PCMF”

Nos limites desta seção, interessa-nos, principalmente, a participação da Linguística Geral desenvolvida por Saussure na orientação metodológica de uma ciência da arte no trabalho dos formalistas russos, e as limitações que essa orientação científica aporta na relação entre uma poética de base formalista e uma filosofia estética sistemática e geral que dê conta de compreender cientificamente a singularidade de uma obra de arte e outros fenômenos estéticos.

Nesse sentido, Bakhtin (1993a, p. 16-17; itálicos do autor) considera que:

A ausência de uma orientação estético-geral e sistemático-filosófica, a ausência de uma observação constante, sistematicamente refletida, das outras artes, da unidade da arte - como domínio de uma única cultura humana - conduz a [poética] russa contemporânea a uma simplificação extrema do problema científico, a uma abordagem superficial e insuficiente do objeto de estudo [...].

A relação com a linguística saussureana, portanto, não se dá em uma perspectiva antilinguística, mas na compreensão dos limites de cada ciência, principalmente quando, sem uma orientação filosófica definida, a palavra da linguística enquanto material é tomada pelos formalistas como uma das bases mais importantes para a sua poética. É o que Bakhtin chama, como hipótese de trabalho, de estética material:

[...] a poética agarra-se à linguística, temendo afastar-se um passo dela (na maioria dos formalistas e em V. M. Jirmúnski), e às vezes chega mesmo a querer ser um ramo da linguística (em V. V. Vinográdov) (Bakhtin, 1993b, p. 17; itálicos do autor).

Talvez possamos considerar, como hipótese de trabalho deste artigo, o argumento de Bakhtin (1993a, p. 20) que, tendo como premissa os princípios da estética material, mostra-nos que “[...] a situação torna-se um pouco mais complexa e não tão evidentemente absurda à primeira vista, em particular, é claro, quando o material é a palavra, objeto de uma disciplina humana: a linguística”.

Na perspectiva bakhtiniana, a primeira tarefa da estética é “[...] compreender o objeto estético na sua singularidade e estrutura puramente artística, estrutura que a partir de agora chamaremos de objeto estético arquitetônico” (Bakhtin, 1993a, p. 22; itálicos do autor). A análise estética da obra de arte literária também pode se realizar, independentemente do objeto estético, “[...] como um fenômeno da língua, isto é, de modo puramente linguístico, sem qualquer consideração quanto ao objeto estético que ela realiza, somente nos limites da conformidade científica que rege seu material” (Bakhtin, 1993a, p. 22). Essa é a segunda tarefa da estética, a única que, segundo Bakhtin, pode ser realizada pela estética material, ou pela estética dos formalistas russos, considerado como “[...] o estudo não estético da natureza da obra, como objeto das ciências naturais ou da linguística” (1993a, p. 23; itálico nosso).

A crítica de Bakhtin ao método formal russo, e não à linguística, se refere àquele “[...] dissolver inteiramente as formas arquitetônicas nas composicionais” (1993b, p. 25). Para o filósofo russo:

A expressão máxima dessa propensão é o método formal russo, onde as formas de composição e do gênero tentam absorver todo o objeto estético e, além do mais, onde não existe uma diferença rigorosa entre as formas linguísticas e composicionais (1993a, p. 25).

Assim sendo, a Linguística, disciplina científica que domina seu material: a palavra linguística - aparece como um “refúgio” da estética material da arte literária. Ao sair dos limites da ciência linguística, há implicações para a teoria da arte formalista quando esta é submetida à crítica da estética filosófica geral proposta por Bakhtin.

É na terceira parte do ensaio objeto de nossa reflexão coletiva, “O problema do material”, que poderemos aprofundar a compreensão que Bakhtin tem da linguística, notadamente a saussureana, enquanto ciência da palavra. É a esse conjunto de problemáticas envolvendo essa compreensão que iremos nos debruçar a partir de agora, comparando, com Bakhtin, a análise linguística com a análise estética e descrevendo os objetos e princípios da primeira, ou seja, do material enquanto a palavra linguística.

De acordo com Bakhtin, “[...] dissolvendo a lógica e a estética, ou mesmo só a poética, na linguística, nós destruímos a originalidade tanto do campo lógico e estético como, em igual medida, do campo linguístico” (1993a, p. 45). E qual é a originalidade do campo linguístico?

Numa leitura bastante profunda de CLG, Bakhtin considera que

[...] a linguística não permanece indiferente às particularidades da linguagem científica, artística, religiosa, mas para ela trata-se de particularidades puramente linguísticas da própria linguagem. [...]

A linguística só é uma ciência na medida em que domina o seu objeto: a língua. A língua é definida linguisticamente por um pensamento puramente linguístico (1993a, p. 46).

A compreensão da natureza puramente verbal e linguística da palavra, ou do signo linguístico, como Saussure sistematiza em CLG, irá ao encontro de um outro conceito muito caro a Bakhtin e ao Círculo, que estará presente em todo o conjunto da obra de Bakhtin, Volóchinov e Medviédev: o enunciado.

Um enunciado isolado e concreto sempre é dado num contexto cultural e semântico-axiológico (científico, artístico, político, etc.) ou no contexto de uma situação isolada da vida privada; apenas nesses contextos o enunciado isolado é vivo e compreensível: ele é verdadeiro ou falso, belo ou disforme, sincero ou malicioso, franco, cínico, autoritário e assim por diante. Não há enunciados neutros, nem pode haver; mas a linguística vê neles somente o fenômeno da língua, relaciona-os apenas com a unidade da língua, mas não com a unidade de conceito, de prática de vida, da História, do caráter de um indivíduo, etc. (1993a, p. 46; itálicos nossos).

É importante ressaltar a definição precisa que Bakhtin dá à língua como objeto da linguística e seu sistema de signos linguísticos na distinção entre langue e parole:

É só isolando e libertando o momento puramente linguístico da palavra e criando uma nova unidade linguística com suas subdivisões concretas, que a linguística domina metodicamente o seu objeto, uma língua indiferente aos valores extralinguísticos (ou, se se preferir, cria um novo valor puramente linguístico, ao qual ela relaciona qualquer enunciado) (Bakhtin, 1993a, p. 46; itálicos do autor).

Para Bakhtin, do ponto de vista científico, ou seja, enquanto uma ciência humana,

[a]penas libertando-se sistematicamente da tendência metafísica (a substancialização e a reificação da palavra), do logismo, do psicologismo, do estetismo, é que a linguística constrói o caminho em direção ao seu objeto, concebe-o metodicamente e com isso torna-se pela primeira vez, uma ciência. (1993a, p. 46-47).

É desse lugar, da linguística como ciência, que Bakhtin aponta para caminhos complementares, ainda não desenvolvidos pela Linguística, seja no campo da sintaxe (pouco desenvolvida até 1924), seja no campo da semasiologia, ou semiologia, como aparece no CLG, em “Lugar da língua nos fatos humanos. Semiologia” (Saussure, 2006, p. 23-25 [1916]). E Bakhtin observa que há ainda a necessidade de a Linguística dominar de forma metódica seu objeto mais uniformemente: “[...] longos enunciados da vida corrente, diálogos, discursos, tratados, romance, etc., pois estes enunciados também podem e devem ser definidos e estudados de modo puramente linguístico, como fenômenos da língua” (1993a, p. 47).

A construção do ponto de vista da análise linguística continua na argumentação sobre os estudos da sintaxe dos grandes conjuntos verbais (a composição como parte da linguística), apresentando uma distinção que se fará mais clara no ensaio “Os gêneros do discurso” (Bakhtin, 2016), aquela entre oração linguística e enunciado:

[...] até hoje [1924] a linguística ainda não ultrapassou cientificamente a oração complexa: este é o mais longo fenômeno da língua já explorado linguística e cientificamente; tem-se a impressão de que a língua precisamente linguística e metodicamente pura de repente termina ali e de repente tem início a ciência, a poesia, etc.; entretanto a análise linguística pura pode ser levada mais adiante, por mais difícil que pareça e por mais tentador que seja introduzir aqui pontos de vista alheios à linguística (1993a, p. 47).

Tornando precisa a sua concepção da ciência linguística, seus objetos e limites até então, 1924, Bakhtin passa a formular perguntas sobre a contribuição do objeto da linguística - a língua - para a análise do objeto estético: “Mas que importância tem a língua concebida de modo estritamente linguístico para o objeto estético da poesia?” (1993a, p. 47; itálicos do autor). Podemos especular que seja precisamente essa pergunta que tenha colaborado com a visão de um Bakhtin antilinguística (conforme se vê em vários escritos atuais), pela compreensão do problema de caráter estético da pergunta. Ou seja,

[...] do significado da língua linguística no seu todo como material para a poesia [...]. Para a poesia, como para o conhecimento e para o ato ético e sua objetivação no direito, no Estado, etc., a língua é apenas um elemento técnico (1993a, p. 47-48; itálicos do autor).

Partindo da premissa de que “a língua, na sua determinação linguística, não entra no objeto estético da arte literária” (1993a, p. 48; grifos do autor), Bakhtin elenca como, no domínio da cultura, a poesia precisa da língua na sua totalidade:

[...] a poesia utiliza tecnicamente a língua linguística de modo bem particular: a poesia precisa da língua por inteiro, de todos os lados e com todos os seus elementos; ela não permanece indiferente a nenhuma nuança da palavra na sua determinação linguística” (1993a, p.48; itálicos do autor).

O pensador considera que é na poesia “que a língua revela todas as suas potencialidades [...] a originalidade da face sonora da palavra no seu aspecto qualitativo e quantitativo, [d]a multiplicidade das entonações possíveis, do sentido do movimento dos órgãos de articulação, etc.” (1993a, p. 48). Esse é o trabalho do artista assim como do esteta em seu processo de trabalho em segundo grau, a análise da natureza extraestética do material.

O objeto estético criado pela contemplação artística, “ou melhor, na existência estética enquanto tal, no objetivo último da obra” compõe o que Bakhtin chama de “a contemplação estética em primeiro grau” (1993a, p. 48). Esse trabalho técnico “desaparece no momento da percepção artística, como desaparecem os andaimes quando o prédio é concluído” (1993a, p. 48-49). Bakhtin faz uma ressalva, em uma nota de rodapé (1993a, p. 49), observando que o objeto estético não existe antes da produção da obra estética e independentemente dela, em qualquer outro lugar ou forma. Para ele, o objeto estético é construído discursiva e dialogicamente.

Mas é importante evitar mal-entendidos, principalmente entre aquelas e aqueles que sugerem em Bakhtin uma perspectiva antilinguística9, não compreendendo o caráter de elemento técnico da linguística na arte literária:

[...] denominamos elemento técnico na arte tudo o que é absolutamente indispensável à criação da obra de arte na sua determinação físico-matemática ou linguística - a isso relaciona-se também todo o conjunto da obra de arte acabada, tomada como coisa, mas que não entra diretamente no objeto estético, que não é um componente do todo artístico; os elementos técnicos são os fatores da impressão artística, e não os constituintes esteticamente significativos do conteúdo dessa impressão, ou seja, do objeto estético (1993a, p. 49; itálicos do autor).

Dentro do debate em que o ensaio se insere - de uma crítica ao formalismo russo, ou à estética material, e sua dependência da Linguística -, Bakhtin contribui com um conjunto de perguntas pertinentes que diferenciam a análise linguística, do ponto de vista científico da ciência linguística, da proposição de uma ciência da arte literária:

Mas será que nos cabe perceber a palavra no objeto artístico precisamente em sua determinação linguística? Será que devemos perceber a forma morfológica da palavra como precisamente morfológica, sintática, e a série semântica como precisamente semântica? Será que devemos perceber um conjunto poético na contemplação artística como um todo verbal, e não como o conjunto acabado de um acontecimento qualquer, de uma aspiração qualquer, de uma tensão interior, etc.? (1993a, p. 49; itálicos do autor).

Considerações inconclusas, porém necessárias

É necessário reiterar que este é o primeiro resultado de discussões e estudos sistemáticos coletivos mensais em torno de “PCMF”, comparando diferentes traduções, conforme expusemos incialmente. Mas a leitura do ensaio bakhtiniano de 1924, muito especialmente no trecho que destacamos na primeira seção deste artigo (1993a, p. 46), nos motivou a responder à chamada do número temático de Bakhtiniana, convidando autores a refletirem a respeito de possíveis diálogos entre Bakhtin e Saussure (Émile Benveniste, também presente na chamada, escapou aos limites deste texto).

Um artigo que ponha em diálogo os diálogos de várias pessoas que pesquisam as obras do mestre russo não poderia, sem trair a si mesmo, fechar as discussões num único trabalho de Bakhtin. De fato, a pedra no meio do caminho, que nos fez perceber a presença de Saussure em “PCMF”, nos convidou a trazer para o debate outras obras. O diálogo com a Linguística está posto em vários trabalhos aqui mencionados, e implícito nas discussões que Bakhtin faz sobre estética geral e ciência como um todo, nos textos aqui citados e no conjunto de sua obra.

Assim, retomamos outros textos da década de 1920: “Arte e responsabilidade” [1919] e PFA [início dos anos 1920]; da década de 1930, “O discurso no romance”; e ainda textos mais recentes, “Os gêneros do discurso” [1952-1953] e Problemas da poética de Dostoiévski [1963]. A seguir, buscando aprofundar a compreensão da relação de Mikhail Bakhtin com a ciência da linguagem, recorremos ao modo como o filósofo russo entende a ciência, ao lado da arte e da vida, inserida na unidade da cultura humana (na seção 2). É no terceiro item que retomamos “PCMF”, abordando mais explicitamente o diálogo de Bakhtin com a ciência linguística da escola de Genebra naquele texto.

E, então, podemos observar o posicionamento dos primeiros textos bakhtinianos se manter e ser reiterado no todo da obra do filósofo russo: a criação literária, foco primeiro do ensaio, é vista não apenas como um todo verbal, composto de unidades morfológicas, sintáticas, semânticas, objeto da Linguística; mais do que isso, como o conjunto acabado de um acontecimento qualquer, de uma aspiração qualquer, de uma tensão interior, etc.; é vista como “discurso”, como ele dirá adiante, em PPD; discurso que alia a Linguística - não descartada, e também importante para a análise do enunciado concreto -, com o que ele vai denominar metalinguística. Enfim, segundo ele, ambas se complementam, sem se fundir.

Com esse primeiro artigo, espera-se contribuir com contrapalavras ao debate em torno de uma posição que insiste em ver Bakhtin como antilinguística, como antissaussureano. A linguística e a metalinguística [análise/teoria dialógica do discurso], assim como os conceitos em tensão enfeixados pelos binômios unidade e unicidade, abstrato e concreto, unidades linguísticas e unidades discursivas, podem, conforme projetados em PFA, conferir um status inclusivo e não excludente para a linguística e para um de seus mais importantes idealizadores: Ferdinand de Saussure. Em perfeita consonância com um pensamento estético-filosófico regido pelo dialogismo.

REFERÊNCIAS

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    » https://doi.org/10.5020/23180714.2017.32.1.40-46
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  • BAKHTIN, Mikhail. O discurso no romance. In: BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. 3. ed. Tradução Aurora F. Bernardini, José Pereira Júnior, Augusto Góes Júnior, Helena S. Nazário, Homero F. de Andrade. São Paulo: UNESP/HUCITEC, 1993b. p. 70-210. [1934-1935].
  • BAKHTIN, Mikhail. Questões de literatura e de estética: teoria do romance. 3. ed. Tradução Aurora F. Bernardini, José Pereira Júnior, Augusto Góes Júnior, Helena S. Nazário, Homero F. de Andrade. São Paulo: UNESP/HUCITEC, 1993c.
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  • BEZERRA, Paulo. Prefácio. In: BAKHTIN, Mikhail. Teoria do romance I. A estilística. Tradução, prefácio, notas e glossário de Paulo Bezerra. São Paulo: Editora 34, 2015. p. 7-14.
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    » https://revistas.pucsp.br/index.php/bakhtiniana/article/view/60878
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  • GRILLO, Sheila. Obras reunidas de M. M. Bakhtin. Resenha. Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso, São Paulo, v.1, n.1, p. 170-174, 2009. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/bakhtiniana/article/view/3007/1938 Acesso em: 21 de março de 2024.
    » https://revistas.pucsp.br/index.php/bakhtiniana/article/view/3007/1938
  • SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. Organizado por Charles Bally e Albert Sechehaye, com colaboração de Albert Riedlinger. Prefácio à edição brasileira de Isaac Salu. Tradução de Antônio Cheline, José Paulo Paes e Izidoro Blikstein. São Paulo: Cultrix, 2006. [1916].
  • SÉRIOT, Patrick. Volosinov e a filosofia da linguagem. Trad. Marcos Bagno. São Paulo: Parábola Editorial, 2015.
  • VOLÓCHINOV, Valentin. (Círculo de Bakhtin). Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Tradução, notas e glossário Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Ensaio introdutório Sheila Grillo. São Paulo: Editora 34, 1917.
  • Declaração de disponibilidade de conteúdo
    Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
  • Pareceres
    Tendo em vista o compromisso assumido por Bakhtiniana. Revista de Estudos do Discurso com a Ciência Aberta, a revista publica somente os pareceres autorizados por todas as partes envolvidas.
  • 1
    Consultar: https://dgp.cnpq.br/dgp/espelhogrupo/23694. Acesso em: 9 mar. 2024.
  • 2
    A publicação foi resultado de um projeto, liderado pelos detentores do espólio bakhtiniano, que teve início na década de 1990 e se encerrou em 2015 (Grillo, 2009).
  • 3
    Para um panorama dessas publicações, ver https://traducoesdocirculo.wordpress.com/tabelas/. Acesso em: 9 mar. 2024.
  • 4
    Para maiores detalhes, ver Brait (2015).
  • 5
    Ao menos dois artigos publicados na revista Bakhtiniana também tratam da relação Bakhtin/Saussure, sob pontos de vista específicos: BATISTA; HENRIQUES (2022); e GOMES (2023).
  • 6
    Para Bezerra (2015, p. 12-13), “No Brasil consagrou-se o termo ‘heteroglossia’ como tradução da palavra russa raznorétchie [...], que significa ‘diversidade de discursos’ ou ‘heterodiscurso’, minha opção ao traduzir. O termo russo também foi traduzido como ‘plurilinguismo’, que é mais palatável ao leitor brasileiro, porém difere do original russo e do sentido que Bakhtin lhe atribui”.
  • 7
    “plurilinguismo”, “pluridiscurso”. Cf. nota de rodapé anterior.
  • 8
    Cf. ainda PFA (2010, p. 50), no trecho em que Bakhtin julga necessário ser preciso a esse respeito.
  • 9
    Cf., por exemplo, Sériot (2015); Arena (2017).

Parecer I

Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS

Parecer I

Sou de parecer favorável à publicação do artigo. O título corresponde ao conteúdo do texto. O objetivo está explicitado e coerentemente desenvolvido no artigo. A bibliografia é toda ela pertinente, está atualizada e foi bem aproveitada na sustentação do texto. Embora as relações Bakhtin/Saussure sejam um tema recorrente nos estudos bakhtinianos, há, no artigo, uma abordagem interessante, na medida em que, sem desconsiderar outros textos de Bakhtin, centra a discussão no que se encontra em "Problemas do conteúdo, do material e da forma" (artigo que aguarda uma nova tradução para o português que corrija os incontáveis defeitos da primeira tradução, tema, aliás, dos autores do texto sob análise). Traz, portanto, contribuições para a área. Por fim, o texto está claro, bem organizado e escrito em linguagem adequada. APROVADO

  • recomendação: aceitar

Histórico

  • Parecer recebido em
    05 Abr 2024

Parecer II

Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS

Parecer II

O texto colocado sob exame, em suas linhas gerais, está correto (o título é adequado, a formulação linguística correta, as partes tecnicamente bem determinadas - Resumos, Introdução, argumentos, conclusões (inconclusas, mas necessárias) -, a bibliografia é muito bem apresentada, os objetivos bem delineados etc. Enfim, do ponto de vista geral, o texto atende a todas as exigências de um trabalho publicável em um periódico científico.

Isso posto, vale fazer algum comentário acerca da originalidade da reflexão desenvolvida e de sua contribuição para o campo de conhecimento ao qual se adscreve. Sobre isso, cabe dizer que o artigo apresenta uma sólida e original linha de raciocínio. Eu diria mesmo que suas considerações têm valor heurístico amplo, que pode ter implicação, inclusive, na leitura das relações epistemológicas entre outros autores, e não apenas entre Bakhtin e Saussure, tônica do artigo em avaliação. Explico-me: a tese de que Saussure é um interlocutor epistemológico necessário a Bakhtin para que este construa a sua teorização é brilhante e merece ser divulgada. Essa tese fica evidente em passagens como “Saussure e sua Linguística são evocados por Bakhtin em PFA: como interlocutores epistemologicamente necessários para construir o esboço de sua filosofia moral, traçar os pilares de sua arquitetônica dialógica, construtos que regem seu pensamento estético-filosófico, presentes, de diferentes maneiras, em todas as suas obras posteriores” (p. 6). Também em passagens como “A presença de Saussure no trabalho “O discurso no romance”, portanto, apontando para a necessidade de uma estilística dialógica, uma estilística do discurso, parece, pelo destaque concedido aos conceitos de forças centrípetas e forças centrífugas que movem a língua, retomar os binômios como forma de, na tensão, construir novos conhecimentos sobre a linguagem, trazendo a vida para dentro da teoria, que necessariamente se constitui como abstração” (p. 8). É nesse sentido que vejo que a ideia de “interlocução epistemológica necessária”, num excelente deslocamento para o campo da ciência das reflexões dialógicas de Bakhtin, pode servir de instrumento de análise epistemológica entre outros pensadores (contribuição do texto para o campo do conhecimento ao qual se adscreve). Nessa direção, se há uma recomendação a ser feita para qualificar ainda mais o raciocínio exposto no artigo, é que se dê destaque - talvez no resumo - a essa ideia, uma verdadeira ferramenta de leitura epistemológica, derivada da concepção bakhtiniana de linguagem. É verdade que no resumo lemos: “Saussure (ainda que não nomeado, mas designado pela ciência por ele estabelecida) merece destaque, como contraponto científico-filosófico necessário para a constituição de outra possibilidade de compreensão e estudo da linguagem: a perspectiva dialógica”. No entanto, não está ali dito que esse “contraponto” é uma grande categoria de análise epistemológica desenvolvida com base na teoria bakhtiniana. Sugere-se destacar isso. Sou de parecer favorável à publicação do texto. APROVADO

  • recomendação: aceitar

Histórico

  • Parecer recebido em
    11 Abr 2024

Disponibilidade de dados

Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    13 Dez 2024
  • Data do Fascículo
    Jan-Mar 2025

Histórico

  • Recebido
    28 Mar 2024
  • Aceito
    17 Out 2024
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