Open-access O retorno de Tatiana, uma história sobre a maternidade negra

RESUMO

O objetivo desta pesquisa é analisar de que modo está representada a maternidade da mulher negra no conto O retorno de Tatiana, de Miriam Alves, considerando a referência às matrizes afro-diaspóricas e de como estas trazem a ancestralidade nesta narrativa. A discussão está comprometida com teorias e conceitos próprios da literatura afro-brasileira contemporânea na intersecção com paradigmas teóricos oriundos do pensamento feminista negro. Ao engendrar um meio de liberdade e de transcendência, Miriam Alves suscita a reflexão sobre a interdição da maternidade de mulheres negras até os modos como estas podem exercer a maternidade por meio da matrifocalidade e da maternidade por extensão, também pensando a religiosidade de matriz afrodescendente como local de cura para o útero-matriz da personagem principal. O conto pode ser instituído como assentamento de resistência, sendo a força ancestral manifestada no modo de viver, de sentir e de escrever.

PALAVRAS-CHAVE:
Miriam Alves; Matrifocalidade; Orixás; Contos afro-brasileiros

ABSTRACT

The objective of this research is to analyze how the motherhood of black women is represented in the short story O retorno de Tatiana [Tatiana’s Return], by Miriam Alves, considering the reference to Afro-diasporic matrices and how they bring ancestry to this narrative. The discussion is committed to theories and concepts specific to contemporary Afro-Brazilian literature at the intersection with theoretical paradigms originating from black feminist thought. By engendering a means of freedom and transcendence, Miriam Alves raises reflection on the prohibition of motherhood for black women and the ways in which they can exercise motherhood through matrifocality and motherhood by extension, also thinking the religiosity of Afro-descendant origin as a place of healing for womb-matrix of the main character. The short story can be instituted as a settlement of resistance, with the ancestral force manifested in the way of living, feeling and writing.

KEYWORDS:
Miriam Alves; Ancestry; Matrifocality; Orishas; Afro-Brazilian Short Stories

1 O que faz Tatiana sangrar?

No livro Em busca dos jardins de nossas mães, Alice Walker afirma que uma mulher deve trazer luz à outra, e que este é um belo momento para ser mulher negra. A autora afro-americana afirma: “[...] compreendo que toda mulher é capaz de trazer de verdade outra mulher a este mundo” (Walker, 2021, p. 41). É isto que nos traz Miriam Alves: a história de uma mulher negra tomando por base um grande eixo - a literatura como assentamento de resistência (Sales, 2020) e constituinte de saberes sendo tecidos a partir do acúmulo ancestral de matrizes africanas, contadas por meio de histórias de mulheres negras comuns, mas que se tornam caminho para a transformação.

Portanto, ao centralizar a história na ancestralidade, Alves exalta a epistemologia que confronta a manutenção de um sistema que mantém pessoas negras reféns do escalonamento social a partir da origem étnico-racial. Ancestralidade é liberdade, é meio para contestar e subverter o poder das imagens de controle (Collins, 2019), as quais tentam condicionar mulheres negras.

A ancestralidade carrega vivências e experiências para as mulheres negras, a partir de local narrativo, que não é marcado pela estrutura da colonialidade do saber. Para dizer sobre a importância da arte e da literatura como legítimas criadoras de pensamento, trago a voz de Patricia Hill Collins sobre a intelectualidade e a validade do que produzem as mulheres negras:

É contribuição intelectual ao feminismo não apenas o conhecimento externado por mulheres reconhecidas no mundo acadêmico, mas principalmente aquele produzido por mulheres que pensaram suas experiências como mães, professoras, líderes comunitárias, escritoras, empregadas domésticas, militantes pela abolição da escravidão e pelos direitos civis, cantoras e compositoras de música popular (Collins, 2018, p. 11).

A partir desse ponto de vista, Collins dialoga com a perspectiva do vivido-concebido, ao permitir, de forma concreta, a formulação de propostas críticas que fissuram o cânone acadêmico, sustentado por ideologias teóricas positivistas, evolucionistas e unidimensionais (Zacarias, 2021). Portanto, é o entendimento que permite à Escrevivência e à Amefricanidade a possibilidade de serem perspectivas de produção de conhecimento e de estéticas oriundas do acúmulo não do cânone nacional, mas “[...] desde dentro para desde fora [...]” (Souza, 2016, p. 26), tanto como críticas literárias, quanto como novas formas de produção estética, a partir da

[...] utilização da vivência negra para informar a construção de textos, é a pessoa negra se colocando no lugar de quem vai falar sobre sua própria história e assim cobre uma série de lacunas do vazio histórico. É uma forma de afirmar a própria existência por ser uma escrita contagiada pela subjetividade do sujeito (Zacarias, 2021, p. 23).

Pelo exposto, a escolha de O retorno de Tatiana como objeto de análise se dá pelo fato de o conto elaborar e visibilizar outra experiência negra, desde dentro, e, por meio da Escrevivência, entendo que a história constrange o silêncio sobre a experiência da maternidade negra, do corpo feminino negro e de como pode se desenvolver uma rede de afetos entre mulheres negras a partir do acúmulo ancestral. Dessa maneira, quando se conta uma história individual, mas com ressonâncias coletivas, é possível pensar a importância da autorrepresentação e das histórias de “[...] adaptação, resistência, reinterpretação e criação de novas formas” (Gonzalez, 2018, p. 329) de mundo, tendo como principal referência a América afrodiaspórica.

2 Maternidade negra no colo de Nanã

O retorno de Tatiana é um dos onze contos constantes na antologia Mulher Mat(r)iz (2011), livro em cujo prefácio Moema Augel anuncia que “[...] os contos tratam, de uma maneira ou de outra, da mulher, da matriz, fonte, origem, umbigo” (Augel, 2011, p. 13), ao que acrescento: maternidade, base, início, útero. “Parir. Procriar. Buscar... Parir. Procriar. Manter o pulsar da vida, útero do destino” (Alves, 2011, p. 47, grifos da autora).

Tatiana é uma mulher que vive em segurança, tem lar, possui bom emprego, a partir do qual garantiu lugar social de privilégio, e faço esta afirmação para comparar à representação de mulheres negras em outras obras, as pertencentes ao cânone nacional, para exemplificar: a Tia Nastácia, de Monteiro Lobato, de O sítio do pica-pau amarelo, a empregada doméstica abdicada; também há a mulata hipersexualizada, a Gabriela, de Gabriela cravo e canela, de Jorge Amado; a Rita Baiana, de O cortiço, de Aluísio Azevedo, como alguém que carrega a sensualidade de maneira primitiva e animalizada, pelo simples fato de ser negra, para citar apenas poucos exemplos. Nota-se, portanto, com a vida segura de Tatiana, o quanto este conto já carrega, em suas páginas, a anunciação contra-discursiva sobre o que pode ser uma mulher negra na literatura brasileira.

Tatiana vai bem em seu emprego, até que engravida, é abandonada por seu namorado, faz o aborto, e, na sequência, passa por uma crise existencial/neurose que a acompanha durante o percurso de todo o conto, sobre a qual tomamos conhecimento por meio de sua própria voz, uma vez que a narrativa é desenvolvida a partir de dois movimentos: 1) a voz de Tatiana, um fluxo que surge por meio de suas palavras, que são digressões apresentadas em meio ao texto, marcadas por itálico; 2) a voz do narrador onisciente. Ambas as vozes remetem à sua experiência de aborto e ao que veio depois dele, o trauma e a vertigem, a queda do céu; além de outras dimensões subjetivas, marcadas pela presença-ausência do filho que não teve e que marca a experiência vivida. A voz da consciência de Tatiana tece a potência sensível do conto, a voz e a letra, o pensamento explícito por meio de estética particular em performance que mobiliza a linguagem para lançar luz sobre a experiência do corpo de Tatiana, de “[...] pele entre o azeitonado e o cobre sendo fundido”.

Por meio das divagações escritas pela protagonista, é que a sua irmã, Lau, pôde “[...] construir uma ponte até o interior de Tati [...]” (Alves, 2011, p. 50) e entender pelo que passou a sua irmã e ir em seu socorro, mobilizando a presença de outras mulheres e de seus saberes ancestrais para recuperar a lucidez e a saúde claudicantes de Tatiana. O conto é construído a partir de um acúmulo de matriz africana, desde a primeira página, quando anuncia que Tati “[...] procurou até pai de santo [...]” (p. 47), até a última página, quando “[...] a Mãe de Santo pediu-lhe que retornasse dali a quarenta dias. Lau tranquiliza-se. Tati voltaria” (p. 55).

Matei!... Matei minha semente... Matei...! Semente de três meses... Matei. Matei meu útero” (Alves, 2011, p. 50; grifos da autora). Enquanto repete a palavra matei, Tatiana demonstra o conhecimento daquilo que deveria ser o seu destino e a sua própria fé: procriação, ter filhos, parir repetidas vezes, gerar em seu “útero destino”, aprisionada pela condição de seu próprio corpo. Tatiana, fértil, jovem, teria um compromisso com a maternidade, deveria ser matriz de vida, mas interrompe a gravidez, portanto, o ciclo de vida, e este é o gatilho para sua profunda crise emocional.

A ciência e a medicina não encontram cura para o que desconhecem, aquilo que não sabem nomear. No conto afro-brasileiro de Miriam Alves, a cura para Tatiana encontra-se no retorno à tradição de religiões de matriz africana. Enquanto repete as palavras parir e procriar, Tatiana revela a sua própria crise, transição conflituosa que desembocará em revolução pessoal. Porém, os conflitos da personagem, embora existenciais e indivisíveis, são questões que estão em uma encruzilhada entre indivíduo e sociedade, digo isto porque a maternidade ainda se configura como experiência central na vida de mulheres (Bairros, 1995). Contudo, para as mulheres negras, essa maternidade é interditada, e Alves nos traz essa discussão quando apresenta a personagem da mulher negra que aborta e é abandonada pelo homem, impossibilitada de constituir família e de dar continuidade ao ciclo da vida, pois seu corpo seria a sua própria condição (Beauvoir, 1975).

Tatiana tem essa condição-destino introjetada, o pensamento firme e persistente da maternidade, de ser contra o aborto, inclusive, como afirma a sua irmã: “[...] e pensar que Tati era contra abortos, vivia criticando o planejamento familiar, um nome para esterilização em massa fomentada pelo governo, dizia”. Sobre Tatiana, pode-se afirmar, consoante o pensamento de Isildinha Baptista Nogueira, que, em alusão à política do Estado, “[...] através da esterilização em massa de mulheres negras tendo os anos de 1980, como exemplo, mais representativo”,

Na situação atual, o negro pode ser consciente de sua condição e das implicações histórico-políticas do racismo, mas isso não impede que ele seja afetado pelas marcas que a realidade sociocultural do racismo deixou inscritas na sua psique (Nogueira, 2021, p. 34).

De acordo com a estudiosa, Tatiana tem a consciência sobre a opressão sofrida em relação ao entrecruzamento entre gênero e raça em sua vida, conforme também pontua a intelectual negra Mirian Cristina dos Santos, em análise sobre O retorno de Tatiana:

Nota-se que o aborto aparece vinculado à mulher solitária, sem apoio do parceiro ou da família. Nesse sentido, no conto em questão, essa prática surge enquanto violência emocional e simbólica, ao cobrar da mulher fértil o compromisso com a maternidade. Nesse processo, Tatiana é torturada emocionalmente pelo rompimento do ciclo da vida (Santos, 2018, p. 84).

Portanto, entende-se, a partir das análises, que Tatiana traz consigo o entendimento sobre como a interseccionalidade de “raça”, gênero e maternidade afetam a sua vida de maneira negativa, ancorando-se em percepções ruins sobre a sexualidade das mulheres negras, conforme aponta sua irmã, quando diz que Tati entendia a esterilização em massa, fomentada pelo governo, à qual “[...] ela chamava de castração do pobre. Eliminar a pobreza, eliminando o pobre” (Alves, 2011, p. 52).

É interessante notar que, a partir da vida e da experiência do corpo dessa personagem, por meio da literatura e da intelectualidade de uma mulher negra, são trazidas discussões que estão presentes na vida comum de outras mulheres, portanto, a literatura não escapa à vida. Em Grandes mães, reais senhoras, artigo presente no livro Guerreiras de natureza: mulher negra, religiosidade e ambiente, Gizêlda Melo Nascimento também problematiza, como a personagem Tatiana, as vidas oriundas de úteros de mulheres negras:

[...] o beco conotando espaço de exclusão social onde vidas e vozes fervilham e proliferam à margem da esfera socialmente reconhecida; o beco conotando também um grande útero onde vidas negras são inesgotavelmente concebidas apesar da corrente contra ela. As vias e vidas desviadas, alijadas pela cortante e (cor)reta linearidade histórica. Vozes fora da rota ocidentalizada sociedade brasileira (Nascimento, 2008, p. 48).

O que se depreende do trecho da obra em destaque e da crítica social de Nascimento, é que há corpos que são indesejáveis e interditados, como aponta Conceição Evaristo (2009, p. 23): “[...] a personagem feminina negra não aparece como musa, heroína romântica ou mãe. Mata-se no discurso literário a prole da mulher negra, não lhe conferindo nenhum papel no qual ela se afirme como centro de uma descendência”. Consoante o pensamento de Evaristo, Eduardo de Assis Duarte também faz pontuações sobre a esterilidade da mulher negra na literatura nacional:

Nessa ordem, a condição de corpo disponível vai marcar a figuração literária da mulata: animal erótico por excelência, desprovida de razão ou sensibilidade mais acuradas, confinada ao império dos sentidos e às artimanhas e trejeitos da sedução. Via de regra desgarrada da família, sem pai nem mãe, e destinada ao prazer isento de compromissos, a mulata construída pela literatura brasileira tem sua configuração marcada pelo signo da mulher fornicaria da tradição europeia, ser noturno e carnal, avatar da meretriz. Chama a atenção, em especial, o fato dessa representação, tão centrada no corpo de pele escura esculpido em cada detalhe para o prazer carnal, deixar visível em muitas de suas edições um sutil aleijão biológico: a infertilidade que, de modo sub-reptício, implica em abalar a própria ideia de afrodescendência (Duarte, 2009, p. 7).

A partir dessas duas reflexões, tanto a de Evaristo quanto a de Duarte, trago algumas questões: neste conto, há mais uma vida impedida, uma maternidade negra interrompida? De que forma isso rasura o que já está cristalizado no cânone nacional? Somente quando recorri mais de uma vez à Gizêlda Nascimento é que pude encontrar pistas para as respostas, porque a palavra de Miriam Alves abre a possibilidade para a criação da maternidade, sim, e sua forma de reproduzir essa imagem é que significa a particularidade da matriz, da mãe, da origem, do umbigo: a matrifocalidade e a imagem da Grande Mãe (Nascimento, 2008), com base na ideia de maternidade por extensão. Quando essas imagens começam a surgir no conto, é que a neurose/psicose de Tatiana encontra possibilidades de cura. Portanto, é interessante notar o papel de mãe no conto: são mulheres solidárias que podem assumir essa condição por meio da matrifocalidade. Para Nascimento,

A matrifocalidade, nesse sentido, não vem representada por uma só pessoa, mas conclui um papel que pode ser assumido por quem estiver pronta a desempenhá-lo em determinada situação, por quem tiver braços frondosos a ofertar. A imagem que nos chega é a de vários feixes convergidos para um foco: mulheres-faróis (Nascimento, 2008, p. 57).

Em O retorno de Tatiana, a figura materna aparece na irmã caçula de Tatiana, Laura: “[...] era o xodó de Tati, sem maiores explicações. Talvez com a diferença de quatorze anos, Tati tratava Lau como filha” (Alves, 2011, p. 49). Eis a matrifocalidade: Lau, mais jovem, é quem ampara a irmã mais velha:

Tati desfazia-se do seu apartamento. Não queria voltar para a casa dos pais. Não sabia para onde ir. Lau ajudava-a. Os olhos de Tati estavam tristes e vazios. [...] Lau tinha paciência com Tati. [...] Achava bonitas as coisas que Tati falava e escrevia. Via beleza e leveza. Sentimentos que transcendiam a dor. Lau queria construir uma ponte até o interior de Tati. Estava ficando preocupada. [...] Lau fechou a matrícula na escola, levou Tati para a praia, casinha pequena afastada comprada com economias. Nos feriados e fim de semana, servia como descanso (Alves, 2011, pp. 50-51).

A matrifocalidade, como descrita por Nascimento (2008), não é atribuída a uma única figura, mas a um papel que pode ser assumido por diversas mulheres conforme suas capacidades e necessidades do momento. A ideia é complementada por Vasconcelos (2014), que escreveu a tese intitulada No colo das iabás: maternidade, raça e gênero em escritoras afro-brasileiras contemporâneas, ao destacar como a maternidade nas narrativas afrodescendentes desafia a lógica patriarcal, rejeitando estereótipos e oferecendo novas representações a partir das experiências femininas, reivindicando a autonomia sobre as próprias narrativas dessas mulheres:

O tema (maternidade) está presente na ficção e na poesia das autoras afrodescendentes, negando a lógica patriarcal de dominação que buscou construir uma imagem dessas mulheres sempre distante da figura materna, como produtos úteis à fantasia sexual masculina. As novas representações, trazidas mais e mais pelas escritoras, vão construindo outros sentidos, distantes dos antigos estereótipos, a partir de perspectivas que partem da experiência de mulheres que têm buscado desde as primeiras ações feministas, apropriarem-se daquilo que se diz sobre elas mesmas (Vasconcelos, 2014, p. 182).

Dois excertos, um do conto de Alves e outro da reflexão de Vasconcelos, denotam que a obra de Alves cria uma nova perspectiva da maternidade para além daquela tradicional baseada no patriarcado, e aqui, chego ao entendimento a respeito de Grande Mãe, sobre o qual discorre Gizêlda Nascimento, e da ideia da maternidade, que se dá por extensão:

A imagem abarcadora, íntima e acolhedora de um círculo, o qual, numa leitura simbólica, vem associado ao ventre materno. A imagem que depreenderíamos daí seria a de várias mulheres em torno de uma só figura - a materna - formando um grande círculo a abraçar e proteger seus inúmeros filhos: a imagem de uma Grande mãe (Nascimento, 2008, p. 60).

Certo dia, Lau leva Tatiana para descansar em uma casa de praia. Após a primeira noite no local, Lau acorda e sua irmã não está na casa, então ela segue o som de atabaques que ouve ao longe, até entrar em uma casa, na qual é recebida por uma moça e por uma velha, ambas as mulheres de turbante; no local, também havia dois homens que batiam os tambores. Sem nomear religiões, há no conto uma imagem sugestiva de uma casa de religião de matriz africana, especialmente quando há a imagem do alguidar e da velha senhora a quem Lau faz uma respeitosa reverência, razão esta que induz ao pensamento de que se trata de um terreiro de Candomblé, pois tendo como líder uma mulher mais antiga, remete a uma liturgia de iyalorixá, segundo a qual as mulheres mais velhas

[...] são grandes depositárias e transmissoras dos conhecimentos do culto, de seus mistérios e segredos, de sua magia. Elas conhecem as forças da natureza e sabem manipulá-las para a solução de problemas da existência concreta e espiritual dos indivíduos que estão sob sua guarda (Carneiro, 2008, p. 124).

A reverência feita por Lau, associada ao alguidar, reforça a ideia de respeito à hierarquia espiritual, comuns em terreiros. Dessa maneira, conforme pontua Carneiro (2008), essas mulheres são líderes e guardiãs dos segredos e mistérios dos cultos, conectando a comunidade às forças da natureza e oferecendo suporte espiritual e material aos que estão sob seus cuidados. O modo como Tatiana é cuidada por sua irmã e pelas mulheres do terreiro, de uma gravidez interrompida até o acolhimento por sua irmã e pela mãe de santo, até alcançar a perspectiva de tornar-se fértil novamente, representam uma grande importância para a literatura brasileira escrita por mulheres negras, levando ao entendimento de que este conto de Miriam Alves se constitui em um assentamento de resistência, conforme a tese de Cristian Souza Sales:

O assentamento, portanto, relaciona-se intimamente com a ancestralidade negro-africana e os saberes ancestrais femininos. Na liturgia do terreiro, os assentamentos são canais diretos com os orixás e os ancestrais. Em outra leitura, transformam-se em energia que circula através da palavra-ritual na poesia negra brasileira e na escrita feminina negra para reverenciar Osun. É a força ancestral que se manifesta nas formas de sentir, viver e escrever (Sales, 2020, p. 4).

A tese de Sales assinala a literatura como uma maneira de marcar a origem africana no mundo, portanto, a matriz - inscrita nos corpos de pessoas afrodescendentes, e que, destarte, também é parte da história nacional. Esta se tornou a minha opção de leitura da obra: o assentamento de resistência exultado nas palavras-delírios de Tatiana evocando Nanã, e, assim, sua ancestralidade por meio da qual encontrará a sua cura pelas mãos de mulheres e seus saberes, que vieram antes dela, mas que se presentificam por meio da cosmovisão africana:

[...] retornar à terra mãe... retornar... à terra mãe... retornar... Na tempestade da noite, o vento havia trazido sons de atabaques. Atabaques e cantoria de terreiro: Nanã, Nanã Naburoke, Nanã ê. Nanã Naburoke, Nanã ê! Lau prestou atenção à cantiga, por um instante Tati dormia sorrindo, semblante tranquilo (Alves, 2011, p. 53; grifos da autora).

Observe que a literatura se apresenta como instrumento para dar visibilidade a outras experiências e conhecimentos, religiosidades e vidas singulares, como exemplo, quando Tatiana reverencia os orixás:

Vou num tropeço. Vou num tropeço e novamente vou. Falta-me o ar, porém encho-me de valentia e vou. Sou um ser. Sou de todos os orixás. Senti no vento Shangô, que chamou Iansã e se foram... eu sou de todos os orixás. Oxum em graça, beleza, diplomacia e artimanhas, toda coberta com búzios e ouro, chamou Ogum lá nas batalhas. Com alegria, fizeram na constelação estrelar mais um ser para trilhar o caminho do mundo. Sou um ser. Senti o vento. Senti as estrelas. Yemanjá levantou as ondas do mar tão alto que pude ver as espumas sorrir, para alegrarem-me (Alves, 2011, p. 54; grifos da autora).

À medida que Tatiana se aproxima de sua ancestralidade de matriz africana, expressa por meio dos rituais e por evocar Nanã, é que ela se fortifica, se engrandece e começa a ser tranquilizada e curada. Assim, este conto escrito por Miriam Alves a torna uma guardiã da matriz africana e seus saberes contados por meio da literatura, conforme afirma Cristian Sales:

Mulheres negras que ecoam o falar de sua comunidade, de seu povo com as suas demandas específicas. A esse respeito, colaboram para o “fortalecimento da nossa existência, que permite a resistência, a reexistência” e ainda assentam outras epistemologias. Sendo espaço de expressão do sagrado ancestral, [...] são saberes tecidos e assentados, fundamentalmente, “por mulheres negras que bordam suas experiências coletivas, irmanadas, ancestrais e encantadas” (Sales, 2020, p. 7).

Tatiana, em seus escritos-devaneios, evoca orixás: Ossain, Ossalá, Yemanjá, e, por entender que cada orixá representa força ou elemento da natureza e que são associados a atributos emocionais, a temperamentos, a vicissitudes, às questões do âmbito sexual, às questões morais, e que também questões relacionadas à maternidade são representadas por esses, a maternidade aqui é conjurada quando se tocam os atabaques evocando Nanã, Nanã Nabaruke, Nanã ê Nanã, Nanã Naburuke, Nanã ê (Alves, 2011, p. 54), a qual, de acordo com Sueli Carneiro (2019, p. 71), é a “[...] lagoa onde está todo o profundo mistério do mundo, Nanã é o orixá feminino mais antigo e a divindade mais antiga das águas. Nanã é o mistério da vida e da morte, por isso protege os órgãos reprodutores da mulher”. Nanã é o orixá que guarda o útero, o reprodutor da vida. Sendo assim, quando a mãe de santo afirma para Lau que “Tati voltaria”, pois estaria curada, também pode ser feita a leitura de que seu ventre voltará a gerar vida.

Contar a história de uma mulher por meio da reprodução das imagens de orixás, portanto, trazendo a matriz africana para literatura, é uma maneira de resistência e de encantamento, de enriquecimento da literatura brasileira, que precisa celebrar a estética contida nos cantos e contos, nas batidas do tambor do candomblé e nos segredos guardados nos terreiros, que são mantidos por

Mães reais e/ou simbólicas, como as das Casas de Axé, foram e são elas, muitas vezes sozinhas, as grandes responsáveis não só pela subsistência do grupo, assim como pela manutenção da memória cultural no interior do mesmo (Evaristo, 2005, p. 3).

Dialogando com a análise de Evaristo, há um texto de Alice Walker, no livro Em busca dos jardins de nossas mães - prosa mulherista, em que ela diz:

Como você ensina a mulheres de meia-idade e mais velhas, dedicadas, mas com uma educação incompleta, a importância de seu passado? Como você as faz entender a dor e a beleza de uma herança que elas foram ensinadas a enxergar com vergonha? Como você as faz apreciar a própria resistência, a criatividade, a incrível amabilidade do espírito? [...] Tente dizer a uma mulher de sessenta anos nascida no delta do Mississipi que os homens negros inventaram qualquer coisa, que mulheres negras escrevem sonetos, que há muito tempo as pessoas negras já eram os mesmos seres humanos de hoje em dia. Tente lhe dizer que seu cabelo crespo é lindo. É provável que ela comece a recitar a Bíblia, e que você descubra, com tristeza, que ela ainda acredita na maldição de Cam (Walker, 2021, p. 32).

A celebração da escrita deste conto, da possibilidade de cura, de salvação dentro da negritude, é a expressão da vida, de um mundo que está sendo reivindicado, e, em assunção, sendo celebrado:

Nesse sentido, o título do conto, O retorno de Tatiana, é emblemático por sugerir algumas possibilidades, dentre elas, o retorno à ancestralidade negra, a partir da religião de matriz africana, por retomar a razão, conforme mencionado anteriormente; ou até mesmo o retorno à sua condição de gênero, uma vez que é possível inferir que Tatiana, após passar por esse processo de (re)equilíbrio entre si e a natureza, voltará a ser fértil (Santos, 2018, p. 66).

A literatura, que pode expressar experiências reais, faz movimentos subjetivos, abrindo-se para a criação de outros tipos de maternidade, de criação, dando a possibilidade de outras formas simbólicas para além de imposições do cânone europeu. É preciso que façamos um exercício de imaginação que vá além do imaginário limitado por força do racismo. A situação vivida por Tatiana, o aborto, denota cena de uma vida negra e remete à realidade, porque sua história é colocada diante de cenas corriqueiras do cotidiano: o papel imperativo da mãe, ao qual as mulheres são impelidas; a fragilidade diante do aborto e o trauma pelo processo vivido após a interrupção da gravidez. Contudo, para não mencionar que a dor é o único elo entre mulheres negras, talvez a grande beleza do livro seja o modo como a ancestralidade e a ligação entre as mulheres negras são arrebatadoras.

Miriam Alves tem uma escrita que se reforça, renova e que, vigorosa, prolífica e contemporânea, traz temas atuais, utilizando elementos ancestrais, atravessando de um século para o outro, e, por isso, uma vez mais, há que se celebrar um momento maravilhoso para sermos mulheres, como defende Walker:

É um ótimo momento para ser mulher. Um momento maravilhoso para ser mulher negra; o mundo, eu descobri, não é rico apenas porque dia a dia nossas vidas são tocadas por novas possibilidades, mas porque o passado está cheio de irmãs que, em suas épocas, brilharam como ouro. Elas não dão esperança, elas demonstraram o esplendor de nosso passado, o que deveria nos libertar para reivindicar a plenitude de nosso futuro (Walker, 2021, p. 40).

Há décadas, Miriam Alves vem sendo uma vigorosa intérprete de histórias cujas memória afrodescendente, oralidade e ancestralidade são componentes de sua criação estética, tornando-a uma intérprete do Brasil. Para Alice Walker (2021), este também é o trabalho do artista negro: criar, preservar e zelar pela sabedoria e pelas histórias de nossos mais velhos, “amar a humanidade de suas palavras” (Walker, 2021, p. 197).

Escritoras como Miriam Alves, Conceição Evaristo, Cristiane Sobral, Eliane Alves Cruz nos devolvem o olhar sobre nossa herança ancestral, que repousa em sua guarda com cuidado e beleza, contando que podemos apreciar a cada dia e deixar, desde o passado para o futuro, o direito à afirmação e à existência de mulheres negras que brilham como ouro a partir da celebração de suas matrizes africanas, dando lume a um horizonte para outras mulheres negras e para a literatura brasileira.

A escrita de Miriam Alves tem sido antirracista, ao que aprecia a estética oriunda de África, diáspora, das adaptações e traduções de histórias carregadas de ancestralidade. A autora é influente em discussões sobre a literatura afro-brasileira de autoria feminina, bem como toda a sua obra contempla a perspectiva negro-feminina, que anseia por exaltar as histórias de pessoas negras a partir de nosso próprio acúmulo ancestral e de nossa negritude. Seu encantamento literário, ancestrais trazidos em sua obra, como em O retorno de Tatiana, marcam sua voz de maneira singular na cena literária brasileira, ao explorar raízes, as matrizes, das quais suas obras são nutridas e por meio das quais nos faz sentir orgulho de onde viemos - há muitas rastros e veredas para o futuro.

Declaração de disponibilidade de conteúdo

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  • Pareceres
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REFERÊNCIAS

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  • COLLINS, Patricia Hill. Pensamento feminista negro. Tradução de Jamille Pinheiro Dias. 1. ed. São Paulo: Boitempo, 2019.
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  • Editores responsáveis
    Beth Brait
    Elizabeth Cardoso
    Maria Helena Cruz Pistori
    Paulo Rogério Stella
    Regina Godinho de Alcântara

Parecer I

Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS

Parecer I

O texto em questão traz como proposta a representação da maternidade negra no conto “O retorno de Tatiana”, da escritora Miriam Alves. O texto está bem escrito e oferece uma discussão pertinente para a crítica. Embora o texto esteja bem escrito, ele precisa de revisão gramatical, principalmente em relação à adequação às normas da ABNT; alguns trechos estão confusos, necessitando de reescrita. Peço atenção nos lugares em que marquei de amarelo. APROVADO COM RESTRIÇÕES [Revisado]

  • recomendação: aceitar

Histórico

  • Parecer recebido em
    10 Jun 2024

Parecer II

Sobre o autor do parecerSCIMAGO INSTITUTIONS RANKINGS

Parecer II

Como uma das primeiras e notáveis virtudes do artigo ora submetido, cumpre ressaltar sua fortuna crítica constituída por referências amefricanas contemporâneas, em um desenho de investigadoras(es) contemporâneas(os) a pensar, no Brasil, temas afins à proposta submetida. A análise empreendida aos textos literários, ela em si, se mostra relevante em seu diálogo com um problema, hoje, considerado modelar na comunidade científica dos Estudos Literários, particularmente da comunidade científica amefricana dedicada a literaturas amefricanas: o problema modelar da "matrifocalidade e da maternidade". Tal abordagem de um problema modelar relevante, à luz de investigações amefricanas contemporâneas (na forma de artigos, teses e dissertações recentes) constituem o mérito do texto ora submetido. Como dado auxiliar, suplementando as notas anteriores, a centralidade da noção de assentamento de resistência (Sales, 2020) confere tônus às análises literárias empreendidas, além de apontar a produção científica significativa, circulante em nossa comunidade científica. APROVADO

  • recomendação: aceitar

Histórico

  • Parecer recebido em
    18 Set 2024

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    01 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    07 Maio 2024
  • Aceito
    01 Jul 2025
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