Open-access PERCEPÇÃO DA COMUNIDADE UNIVERSITÁRIA SOBRE O INGRESSO NO ENSINO SUPERIOR POR MEIO DE MEDALHAS EM OLIMPÍADAS CIENTÍFICAS

Resumo

O objeto deste estudo é o programa Vagas Olímpicas da Universidade Estadual de Campinas, Brasil, que consiste no acesso ao ensino superior por premiações em competições de conhecimento. Este artigo explora as percepções dos ingressantes, professores e coordenadores sobre esse programa. Para tanto, foi delineada uma pesquisa qualitativa exploratória com entrevistas semiestruturadas, as quais foram analisadas pelo Discurso do Sujeito Coletivo. Os resultados apontam para uma avaliação favorável às Vagas Olímpicas e a seus ingressantes, o que perspectivas promissoras nessa direção. A originalidade deste estudo está na atualidade dos fatos investigados, o que torna os resultados relevantes para o planejamento de ações institucionais.

Palavras-chave:
ação afirmativa; diversidade; superdotação.

Abstract

This study focuses on the Scientific Olympiad admission program at the University of Campinas (Unicamp), Brazil, which offers access to higher education through awards obtained in academic competitions. The article explores the perceptions of incoming students, professors, and program coordinators regarding this admission pathway. To this end, an exploratory qualitative study was conducted using semi-structured interviews, analyzed through the Collective Subject Discourse (CSD) method. The findings indicate a favorable evaluation of both the program and its participants, suggesting promising prospects in this direction. The originality of this study lies in the contemporaneity of the investigated facts, which is what makes the results relevant for planning institutional actions.

Keywords:
affirmative action; diversity; giftedness.

Resumen

El objeto de este estudio es el programa Vacantes Olímpicas de la Universidad Estadual de Campinas (Unicamp), Brasil, que facilita el acceso a la educación superior mediante premios en concursos de conocimientos. Este artículo explora las percepciones de participantes, profesores y coordinadores sobre el programa. Para ello, se llevó a cabo un estudio cualitativo exploratorio con entrevistas semiestructuradas, analizadas por el Discurso del Sujeto Colectivo. Los principales resultados fueron unánimemente favorables a las Vacantes Olímpicas y a sus entrantes, lo que implica perspectivas prometedoras en esa dirección. La originalidad de este estudio está en la actualidad de los hechos investigados, lo que hace relevantes los resultados para la planificación de acciones institucionales.

Palabras-clave:
acción afirmativa; diversidad; superdotación.

1 INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo é explorar as percepções de ingressantes, professores e coordenadores sobre o programa Vagas Olímpicas da Unicamp, o qual constitui uma forma de ingresso no ensino superior público por meio da pontuação obtida em Olimpíadas Científicas.

As Olimpíadas Científicas são competições de conhecimentos constituídas de provas teóricas e práticas, destinadas a estudantes da educação básica e superior. Trata-se de eventos de abrangência mundial, que podem ser realizados em âmbito regional, estadual, nacional e internacional. Seus principais objetivos são promover a competição ética e saudável, revelar talentos e incentivar seu ingresso em carreiras científicas e tecnológicas, além de fomentar a inclusão social por meio do acesso ao conhecimento. No Brasil, as Olimpíadas Científicas ganharam destaque a partir da década de 1990, com o intuito de prover contributos ao processo educativo brasileiro (Silva, 2016; Coelho, 2017).

Além de estimularem habilidades científicas e intelectuais, essas disputas mobilizam diferentes competências, desenvolvem persistência, motivação e curiosidade, fatores importantes para a formação dos estudantes (Marega Junior, 2016). Aranha (2019) e Marques (2013) descrevem comportamentos observados nos medalhistas, que são desejáveis pela academia e por empresas: gostam de ciência e de desafios; são autodidatas e possuem múltiplos interesses; organizam e mantêm rotina árdua de estudos; colaboram na preparação de outros participantes; auxiliam na elaboração de provas e na organização das competições; e demonstram satisfação com o sucesso dos outros.

As premiações em olimpíadas científicas têm se mostrado facilitadoras do acesso a grandes universidades do mundo, levando estudantes a planejarem seu futuro fora do Brasil, não somente pelos desafios acadêmicos, mas também pelos incentivos financeiros, como bolsas de estudos em moedas fortes (Costa, 2012; Marques, 2013). A falta de estímulos e de desafios acadêmicos para estudantes de alto rendimento passou a atrair a atenção das Instituições de Ensino Superior (IES) brasileiras, e uma proposta de ingresso diferenciado para medalhistas foi lançada para ajudar a mitigar esse problema (Marques, 2013).

Como ação afirmativa, a fim de reduzir a imigração dos medalhistas e de atrair mais estudantes de alto rendimento, as universidades públicas do estado de São Paulo - Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade de São Paulo (USP) e Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp) - criaram uma modalidade de acesso à graduação baseada na pontuação obtida pelos estudantes em olimpíadas científicas como critério de classificação (Alves Fior, 2021, 2022; Marques; Queiroz, 2018), e oferecem, desde 2018, editais com vagas específicas para premiados em competições de conhecimentos (Ribeiro, 2019).

Segundo a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), essa iniciativa é inédita no país e representa um incentivo a esse perfil de estudante (Aranha, 2019; Marques; Queiroz, 2018). Essa forma de ingresso pode atrair candidatos que, mesmo obtendo excelentes resultados em olimpíadas de conhecimento, não apresentam bom desempenho em provas tradicionais. Conhecidos como underachievers (Ourofino; Fleith, 2011; Tentes; Fleith, 2014), esses estudantes talentosos, podem não ter bom desempenho no sistema escolar convencional, nem em provas e concursos dele derivadas, mas podem surpreender com seus resultados acima da média quando algo realmente os motiva, como as atividades preparatórias para as olimpíadas e as competições em si.

As outras modalidades de ingresso nos cursos de graduação na Unicamp são: provas vestibulares, edital do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), Provão Paulista e Vestibular Indígena (Comvest, 2025). Candidatos medalhistas podem postular por mais de uma modalidade, desde que não haja conflitos entre as regras dos programas.

Uma forma de ingresso exclusiva para medalhistas pode sugerir que a Unicamp esteja destinando uma cota de vagas aos estudantes mais talentosos. A Unicamp iniciou a implantação de sua política de cotas em 2017, com a aprovação das cotas para pessoas negras. Desde então, a diversidade passou a ocupar posição central em suas políticas de permanência estudantil, dando lugar aos conhecimentos de povos negros, indígenas, quilombolas, pessoas trans e pessoas com deficiência como temas de interesse da universidade (Ribeiro; Mesquita; Lima, 2022). E, no mesmo ano, a Unicamp foi pioneira, ao deliberar sobre o aprimoramento da política de ingresso por medalhas, a ser implementada a partir de 2019 (Unicamp, 2017).

As IES brasileiras têm autonomia, assegurada pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), para elaborar e reformar seus estatutos e regimentos, e criar processos seletivos (Brasil, 1996). Amparados pela LDB e fundamentados nos artigos da deliberação da Unicamp (2017), anualmente, a instituição publica o “Edital Olimpíadas de Conhecimento e Competições Científicas e outros, para ingresso nos cursos de graduação”, com suas especificidades (Unicamp, 2018, 2019, 2020, 2021, 2022).

Dos 66 cursos de graduação da Unicamp em 2022, 19 (28,79%) ofertaram vagas pelo programa Vagas Olímpicas, número que pode variar anualmente. O número máximo de vagas autorizadas por essa modalidade corresponde a 10% do total de vagas de cada curso (Comvest, 2022). O processo seletivo é conduzido integralmente on-line, o que amplia a participação de candidatos de diferentes regiões.

O número de candidatos inscritos no programa Vagas Olímpicas tem crescido ano a ano (Quadro 1) e, embora o número de vagas venha sendo ampliada, a relação candidato/vaga continua subindo (Comvest, 2022).

Quadro 1
Crescimento do programa Vagas Olímpicas

Após a atração e o ingresso dos medalhistas, não foram encontrados registros de ações específicas para evitar sua evasão (Della Corte et al., 2022; Mianehsaz et al., 2022; Pacheco; Tete; Monsueto, 2024). Todavia, em 2022 formaram-se os primeiros estudantes admitidos por essa modalidade, e a pergunta que motivou esta pesquisa foi: “O que se sabe sobre o programa Vagas Olímpicas da Unicamp"?

Os dados produzidos podem ser interessantes para os estudantes do ensino médio conhecerem essa forma de acesso ao ensino superior; para universidades que almejam criar programas análogos; e à própria Unicamp. Embora a amostra ter sido local, tendo como campo apenas uma universidade, os resultados demonstram potencial de generalização e, portanto, relevância científica.

Este estudo derivou da dissertação de mestrado da primeira autora, intitulada “Superdotados ou esforçados? Caracterização de estudantes que ingressam na universidade por medalhas em olimpíadas científicas”, autorizada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) sob parecer consubstanciado nº 5.101.899, e depositada no Repositório Institucional da UNESP. Os dados poderão ser disponibilizados sob demanda à primeira autora, em observância ao Termo de Sigilo, Confidencialidade e Não-Divulgação da Unicamp.

O estudo alinha-se aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), indiretamente, aos ODS 3 “Saúde e bem-estar” e o 10 “Redução das desigualdades”, e diretamente ao ODS 4 “Educação de qualidade”, detalhado pela Declaração de Incheon (Unesco, 2015), que estabelece marcos de ação para sua implementação até 2030, a fim de assegurar a educação inclusiva, equitativa de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todos.

A seguir, são apresentadas a metodologia, a análise e discussão dos dados e, as considerações finais.

2 METODOLOGIA

A fim de atender ao objetivo de explorar as percepções dos ingressantes, professores e coordenadores sobre o programa Vagas Olímpicas da Unicamp, foi delineada uma pesquisa de campo, qualitativa, exploratória e descritiva, com abordagem de estudo de casos múltiplos e utilização de entrevistas semiestruturadas para coleta de dados.

Participaram do estudo vinte pessoas: sete discentes, seis professores e sete coordenadores de cursos. A cada um dos sete discentes que aceitaram conceder entrevista, foi solicitado que indicasse um professor e, em seguida, os coordenadores de seus respectivos cursos, foram convidados a participar. Um dos professores desistiu durante o processo, e seus dados foram removidos. O delineamento original da pesquisa previa a participação do Serviço de Apoio ao Estudante (SAE), mas nenhum de seus servidores aceitou conceder entrevista.

O número de estudantes matriculados que ingressaram pelas Vagas Olímpicas entre 2019 e 2022 foi de 205, dos quais 45 tiveram a matrícula cancelada por decisão da instituição ou por iniciativa própria, até 24 de outubro de 2022 (Quadro 2), restando 160. Os sete entrevistados representam 4,37% desse total.

Quadro 2
Distribuição dos ingressantes das vagas olímpicas por sexo e por permanência, Unicamp, 24 out. 2022

Quanto ao corpo docente, em 2022 a Unicamp contava com 1.728 professores distribuídos em 66 cursos. Nos 19 cursos que aderiram ao programa Vagas Olímpicas, havia 834 professores. Os seis professores entrevistados representam 0,35% do total de professores da universidade e 0,72% do total dos professores das unidades que aderiram ao programa. Os sete coordenadores entrevistados representam 36,84% dos cursos com Vagas Olímpicas e 10,61% dos cursos da Unicamp.

Todas as entrevistas foram realizadas on-line, devido às restrições sanitárias durante a pandemia de Covid-19 (Mendez; Mahler; Taquette, 2021). Após a transcrição das entrevistas, foi realizada a análise do conteúdo baseada no Discurso do Sujeito Coletivo (DSC), método composto por procedimentos que organizam os dados dos discursos, em busca de evidenciar o que há de comum entre os depoimentos (Lefèvre, F.; Lefèvre, A., 2014; Zermiani et al., 2021). O texto final é redigido na primeira pessoa do singular e expressa uma opinião socialmente compartilhada, na voz de um participante único fictício, de modo que esse discurso-síntese possa ser atribuído a qualquer um dos participantes (De Moraes; Lefèvre; Gallo, 2020; Lefèvre, F.; Lefèvre, A., 2014).

3 ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS DADOS

As percepções de ingressantes, professores e coordenadores sobre o programa Vagas Olímpicas foram investigadas por meio de três perguntas nas entrevistas, cujas respostas estão organizadas nos Quadros 3, 4 e 5. As respostas geraram dados sobre o contexto geral em que os estudantes estão inseridos e indicaram que as percepções de docentes e discentes estão alinhadas, exceto por necessidades não atendidas dos discentes, como o acompanhamento pós-ingresso e desafios cognitivos (Quadro 5).

Quadro 3
Pergunta 1: Como você ficou sabendo que existia a forma de ingresso na Unicamp por medalhas em Olimpíadas Científicas, chamado Vagas Olímpicas? Unicamp, 2022
Quadro 4
Pergunta 2: O que você sabe sobre o programa Vagas Olímpicas? Unicamp, 2022
Quadro 5
Pergunta 3: Qual é a sua opinião sobre o programa Vagas Olímpicas? Unicamp, 2022

A expectativa era de que os coordenadores tivessem mais conhecimento sobre o programa e que os professores mais informações sobre os estudantes, o que não se confirmou. As percepções de coordenadores e professores foram semelhantes, resultado observado no estudo de Al-Naim, Abunaser e Al-Naim (2023), e a conclusão dos referidos autores foi que as percepções semelhantes ocorrem devido às semelhanças nas atividades exercidas por professores e coordenadores.

Os ingressantes foram informados sobre o programa Vagas Olímpicas em suas escolas do ensino médio e no meio olímpico, porém, nada se pode afirmar se essa divulgação alcançou os demais estudantes.

Os docentes foram informados sobre o programa Vagas Olímpicas quando: exerceram a função de coordenadores da graduação; participaram de reuniões de sua unidade; representaram a unidade junto à Comvest; foram membros da congregação; e trabalharam em olimpíadas. Aqueles que não participaram dessas atividades tomaram ciência ao conversar com alunos que revelaram ter ingressado pelo programa e, em último caso, ao serem convidados a participar desta pesquisa. Não obstante, não se sabe se os demais docentes tiveram acesso a informações sobre o programa em tela. Pode-se inferir, portanto, que, até a data das entrevistas, não houve uma comunicação institucional sobre o programa que envolvesse toda a comunidade universitária. Isso pode sinalizar barreiras à fluidez da comunicação interna ou, em nível mais profundo, a necessidade de um projeto eficaz de divulgação intramuros sobre o programa que envolva todos os atores.

No Quadro 4, as respostas dos professores geraram DSC duplo, porque emergiram dois sujeitos coletivos: um que conhecia pouco sobre o programa e outro que o conhecia muito bem.

No Quadro 4, o DSC dos discentes aponta que o programa, além de atrair talentos para a Unicamp, incentiva a participação dos estudantes em olimpíadas. O DSC dos professores relata que o conhecimento sobre o programa ocorreu de forma indireta, por informações que captaram “no ar”, mas que as informações estão nos canais oficiais. Já o DSC dos coordenadores indica que o programa é pouco divulgado, mas defende a seleção por resultados em olimpíadas em vez de provas vestibulares, e deseja maior participação de medalhistas, dado que nem todas as vagas são preenchidas.

As entrevistas permitiram captar como o programa Vagas Olímpicas tem sido avaliado pelos docentes, e o otimismo presente nos relatos conferiu um tom positivo aos discursos unanimemente favoráveis a essa forma de ingresso. Mesmo assim, o DSC dos coordenadores, apresentado no Quadro 5, revela a preocupação de que estudantes oriundos das Olimpíadas possam não ter uma formação ampla e variada quanto os ingressantes pelo vestibular. O DSC dos professores trouxe a queixa de que as Vagas Olímpicas podem ser interpretadas como um privilégio ou como um sistema de cotas para medalhistas.

Se as cotas visam à reparação social e à promoção da equidade, ao oferecer oportunidades de ingresso no ensino superior público àqueles que não as teriam de outra forma (Ribeiro; Mesquita; Lima, 2022), as Vagas Olímpicas podem ser consideradas como uma oportunidade para estudantes que, mesmo que apresentem desempenho superior ao de seus pares em uma ou mais áreas do conhecimento, podem não conseguir ser aprovados no ENEM ou em vestibulares convencionais, como é o caso dos underachievers.

No Quadro 5, o DSC dos professores observa que o interesse dos medalhistas pelas olimpíadas pode ter garantido sua vaga na Unicamp, mas não necessariamente garante seu sucesso futuro. Esse ponto é abordado no DSC dos coordenadores, o qual relata que os medalhistas ingressantes se destacam no primeiro ano, mas, ao final do curso, todos tendem a se igualar. Tal fenômeno requer investigação para compreender se, ao longo do curso, os medalhistas teriam seus resultados rebaixados ou os resultados dos demais seriam incrementados? E por quê?

Caso existam medalhistas underachievers, o ensino universitário, tal como o conhecemos, pode não ofertar os elementos de motivação que levaram esses campeões olímpicos a se destacarem. Reconhecer a natureza multifacetada do insucesso escolar de alunos superdotados é, portanto, essencial para delinear políticas educacionais que desenvolvam intervenções e sistemas de apoio mais eficazes (Raoof et al., 2024).

Quanto à gestão da escola onde estudaram, o DSC dos discentes estima que 80% dos medalhistas ingressantes sejam advindos de escolas particulares, o que tornaria o programa elitizado. Essa percepção é sustentada por Menezes, Pereira e Theodoro (2021), que conduziram um estudo com 48 medalhistas da Olimpíada Brasileira de Informática (OBI), e verificaram que 83,30% eram da rede de ensino particular, mesmo que no Brasil, 80,90% dos estudantes estivessem em escolas públicas. Esse DSC observa que algumas escolas públicas começam a priorizar a participação em olimpíadas, assim, em vez de estudarem para vestibulares, os alunos podem estudar para as olimpíadas de seu interesse.

Diante do fato de que as olimpíadas científicas são abertas a toda a população, mas, até o momento, concentram maior número de medalhistas advindos de escolas particulares, uma das maneiras de se buscar à equidade, em sua causa raiz, seria ampliar a participação de estudantes das escolas públicas, pois se trata de um fenômeno que apresenta múltiplos fatores e pode requerer diversas intervenções. Ao mesmo tempo, a própria existência do programa Vagas Olímpicas pode ser um fator de perturbação no cenário atual e mobilizar estudantes de escolas púbicas.

Espontaneamente, o DSC dos discentes (Quadro 5) trouxe pontos de melhoria do programa, propondo: expansão do número de universidades que o oferecem; aumento da quantidade de vagas; e ampliação dos tipos de medalhas aceitas. Também solicita acompanhamento pós-ingresso e expõe que muitos ingressantes já dominam o conteúdo de disciplinas iniciais. E, alerta para o fato de que muitos medalhistas aprovados almejam universidades no exterior, uma vez que, segundo Aranha (2019) e Marques (2013), evitar a evasão dos medalhistas foi um dos motivadores para as IES pensarem em um programa como o Vagas Olímpicas.

Segundo o estudo de Pacheco, Tete e Monsueto (2024), a necessidade de manter os estudantes motivados e satisfeitos é comum a todas as IES. Nas brasileiras investigadas, foram identificadas 43 ações diferentes, porém nenhuma específica para estudantes com altas habilidades ou superdotação. Ao considerar que as necessidades de apoio são individuais e podem mudar ao longo do tempo, programas de mentoria, em que cada medalhista tem um mentor, podem revelar resultados surpreendentes, como relatam Della Corte et al. (2022) e Mianehsaz et al. (2022).

Na análise das respostas sobre o programa, apresentadas nos Quadros 4 e 5, os três grupos de participantes descreveram características dos ingressantes compatíveis com o modelo de altas habilidades ou superdotação (AH/SD) de Renzulli (2004) - habilidade acima da média, comprometimento com a tarefa e criatividade. Tais características sugerem identificação de AH/SD por provisão (Alves Fior, 2021, 2022; Renzulli; Reis, 2022; Vieira, 2014), uma vez que tanto a preparação para as provas olímpicas quanto as competições requerem esses comportamentos.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo foi mobilizado pela necessidade de reunir dados qualitativos sobre o programa Vagas Olímpicas da Unicamp, e teve como objetivo explorar as percepções de ingressantes, professores e coordenadores sobre o programa.

Os resultados sugerem que a iniciativa tem alcançado êxito e despertado o interesse de novos candidatos. Os estudantes demonstram entusiasmo pela conquista da vaga na Unicamp e sentem-se reconhecidos pelo empenho dedicado ao aprendizado e à participação em olimpíadas. Os docentes demonstram estar empolgados com o rendimento superior dos ingressantes e manifestam expectativas positivas em relação ao futuro do programa.

No entanto, embora o cenário se configure como favorável à atração da população dos medalhistas à educação superior, ainda não são conhecidas políticas institucionais e estratégias voltadas à inclusão acadêmica e à permanência desses estudantes até a conclusão do curso. Faltam, por exemplo, programas específicos de mentoria ou tutoria, que possibilitem monitorar, de forma sistemática esses estudantes e alimentar uma base de conhecimento sobre seus percursos acadêmicos.

As percepções unanimemente favoráveis ao programa Vagas Olímpicas podem resultar em viés pelo entusiasmo, e este, pode fazer cortina de fumaça sobre pontos importantes relacionadas ao atendimento das necessidades educacionais dos medalhistas no ensino superior. Portanto, é preciso ir além das primeiras impressões.

Medalhistas sempre ingressaram na Unicamp pelos processos seletivos convencionais, mas, quando identificados como pessoas com AH/SD, podem acessar serviços de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva. Se as medalhas forem consideradas indicadores de AH/SD, o atendimento imediato desses estudantes se torna viável, mas isso não garante contemplar todos os estudantes com AH/SD. Dessa forma, continua a desigualdade, pois há estudantes com AH/SD que podem permanecer invisibilizados durante todo o curso, caso não exista uma política ampla de identificação da população com AH/SD.

Como limitações deste estudo, o período em Ensino Remoto Emergencial (ERE) durante a pandemia de Covid-19 impactou as relações humanas e, por conseguinte, as percepções dos entrevistados sobre as pessoas. Foi observada limitação metodológica no DSC, do qual especificidades individuais podem ter sido desprezadas em prol do discurso coletivo. Ainda, o SAE foi escolhido como representante dos funcionários, mas nenhum de seus servidores aceitou participar. Apesar de ter sido considerada uma limitação, essa recusa é uma resposta válida.

Diante da constatação de que a maior parte dos medalhistas são proveniente de escolas particulares, faz-se necessária investigação para compreender esse fenômeno e propor ações para aumentar a adesão das escolas públicas. Estudos longitudinais podem prover dados valiosos sobre tendências, associações e relações entre variáveis. São sugeridas pesquisas que identifiquem por quais motivos os medalhistas do programa Vagas Olímpicas se destacam no início do curso e, com o passar do tempo, são percebidos com rendimento igual ao dos demais; e também sobre outros indicadores de AH/SD dessa população.

  • Revisado por: Lesy Editorial lesyeditorial@gmail.com
  • Editora de seção: Milena Pavan Serafim | Editora de layout: Silmara Pereira da Silva Martins

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    07 Out 2023
  • Aceito
    24 Jun 2025
  • Revisado
    15 Jul 2025
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