Open-access Projeção de resíduos de aerogeradores no Brasil até 2050 e desafios para a economia circular

Resumo

O Brasil destaca-se por sua matriz energética predominantemente renovável, na qual a energia eólica emerge como uma fonte essencial, representando a segunda maior contribuição na matriz nacional. Este estudo avaliou a sustentabilidade e os desafios da economia circular no setor eólico brasileiro, projetando os resíduos de aerogeradores até 2050. Utilizando uma abordagem estatística, analisou-se as capacidades instaladas, a distribuição geográfica dos parques eólicos e o potencial de geração de resíduos. Os resultados indicam o crescimento na capacidade de geração de energia eólica, com previsão de 6,25 milhões de toneladas (Mt) de resíduos até 2050, principalmente concentrados no Nordeste. Embora a economia circular seja reconhecida como estratégia para mitigar esses impactos, custos elevados, barreiras tecnológicas, falta de infraestrutura dos canais reversos, ausência de legislação e regulamentações específicas são obstáculos para a plena circularidade. O estudo ressalta a necessidade urgente de planejamento eficaz para a gestão sustentável de resíduos no setor eólico.

Palavras-chave:
Turbinas; usinas eólicas; sustentabilidade; energia renovável; gestão ambiental

Abstract

Brazil stands out for its predominantly renewable energy matrix, in which wind power emerges as an essential source, representing the second-largest contribution to the national energy mix. This study evaluated the sustainability and challenges of the circular economy in the Brazilian wind sector by projecting wind turbine waste through 2050. Using a statistical approach, the study analyzed installed capacities, the geographical distribution of wind farms, and the potential for waste generation. The results indicate growth in wind energy generation capacity, with an estimated 6.25 million tons (Mt) of waste by 2050, mainly concentrated in the Northeast region. Although the circular economy is recognized as a strategy to mitigate these impacts, high costs, technological barriers, lack of infrastructure for reverse logistics, and the absence of specific legislation and regulations are obstacles to full circularity. The study highlights the urgent need for effective planning to ensure sustainable waste management in the wind energy sector.

Keywords:
Turbines; wind farms; sustainability; renewable energy; environmental management

Resumen

Brasil se destaca por su matriz energética predominantemente renovable, en la cual la energía eólica surge como una fuente esencial, representando la segunda mayor contribución en la matriz nacional. Este estudio evaluó la sostenibilidad y los desafíos de la economía circular en el sector eólico brasileño, proyectando los residuos de aerogeneradores hasta 2050. Utilizando un enfoque estadístico, se analizaron las capacidades instaladas, la distribución geográfica de los parques eólicos y el potencial de generación de residuos. Los resultados indican un crecimiento en la capacidad de generación de energía eólica, con una previsión de 6,25 millones de toneladas (Mt) de residuos hasta 2050, concentrados principalmente en la región Noreste. Aunque la economía circular es reconocida como una estrategia para mitigar estos impactos, los altos costos, las barreras tecnológicas, la falta de infraestructura para los canales reversos y la ausencia de legislación y regulaciones específicas representan obstáculos para una circularidad plena. El estudio destaca la necesidad urgente de una planificación eficaz para la gestión sostenible de residuos en el sector eólico.

Palabras-clave:
Turbinas; plantas eólicas; sostenibilidad; energía renovable; gestión ambiental

Introdução

Na 21ª Conferência das Partes, realizada em Paris, estabeleceu-se o compromisso global para enfrentar a mudança climática (Depledge et al., 2021). O acordo de Paris visa limitar o aumento da temperatura média global a 2 °C acima dos níveis pré-industriais, com esforços para não ultrapassar 1,5 °C (ONU, 2015). Com base na redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE), destaca-se a descarbonização do setor energético, dada sua contribuição para as emissões (Sadai et al., 2022). A otimização da matriz energética é uma prioridade global, viável mediante investimentos em fontes renováveis, como em energia eólica (Kastanaki; Giannis, 2022).

A América Latina promove grandes projetos solares e eólicos com previsão de aumento em 460% na capacidade de produção de energias renováveis até 2030. Neste cenário, o Brasil assume a liderança como um dos principais produtores de energia solar e eólica (Bauer et al., 2023). Em consonância a isto, Kati et al. (2021) afirmam que a energia eólica emerge como líder, com projeções indicando que suprirá entre um quarto e um terço da demanda global de eletricidade até 2050.

Contudo, no setor eólico, a inovação tecnológica inclui externalidades, como novos e intensificados impactos ambientais. Os efeitos de recuperação climática projetados e associados ao campo energético podem resultar em reduções líquidas de emissões previstas, ou mesmo em aumentos de emissões de GEE devido a gestão ineficaz dos resíduos. A dependência excessiva de conhecimentos e fornecedores estrangeiros representa um desafio a mais (IPCC, 2023).

Adicionalmente, a transição energética impulsiona a demanda por materiais, incluindo cobre, lítio, cobalto, níquel, elementos de terras raras e do grupo da platina (Viana, 2025). O sucesso na implementação de tecnologias renováveis depende do suprimento confiável desses materiais (Calderon et al., 2020).

Diante disto, a aplicação da economia circular (EC) é um instrumento essencial na descarbonização energética. Integrar os princípios da EC na concepção industrial e nos processos pode reduzir significativamente os custos de produção, a demanda por materiais virgens, emissões de GEE, volume final de resíduos e outros poluentes. Em contrapartida, amplia a disponibilidade de matérias-primas, o aprimoramento da competitividade do setor, propicia novas oportunidades de mercado, rendimentos e empregos (IPCC, 2023; IRENA, 2023).

A estruturação da cadeia de suprimentos reversa (CSR) para resíduos de equipamentos de energia renovável, também é fundamental para assegurar a distribuição da responsabilidade pela reciclagem. Com o adiamento do debate sobre o tema, os stakeholders podem enfrentar desafios dispendiosos da organização tardia dos fluxos reversos. Como exemplo, prevê-se que 720.000 toneladas de pás de turbinas eólicas sejam direcionadas a aterros nos EUA nos próximos 20 anos (Atasu et al., 2021).

Embora a EC apresente potencial para atender as demandas de matérias-primas, ainda permanece inexplorada. Obstáculos como custos elevados, barreiras tecnológicas, falta de capacidade para implementar soluções e, principalmente, limitado acesso à informação sobre a EC na indústria de energias renováveis são os principais desafios para a transformação energética (IRENA, 2023).

Este estudo se justifica pela falta de dados e avaliações específicas para o cenário brasileiro, principalmente sobre a quantificação de resíduos de aerogeradores e em analisar os desafios para a implementação de princípios de EC (Turkmen; Babuna, 2024). A previsão do volume futuro de resíduos de aerogeradores ao fim da vida útil (EOL) e do potencial de reciclagem é complexa e envolve incertezas significativas (Rathore; Panwar, 2022). Variáveis como a definição do EOL, a estimativa precisa das quantidades de resíduos, a localização geográfica da desativação e o conhecimento sobre o número real de aerogeradores desativados precisam ser melhor compreendidas e projetadas para um planejamento eficaz (Karavida; Nõmmik, 2015, Delaney et al., 2023; Majewski et al., 2022).

Nesse sentido, esta pesquisa busca avaliar a sustentabilidade da expansão da energia eólica no Brasil, por meio da projeção da geração de resíduos de aerogeradores até 2050 e da análise dos desafios para a implementação de princípios de economia circular no setor. Para tanto, a questão central que norteia este trabalho é como a projeção da geração de resíduos de aerogeradores onshore, ou terrestres, no Brasil até 2050 se relaciona com a sustentabilidade do setor eólico brasileiro e quais os principais obstáculos para a implementação da EC nesse contexto.

Material e Métodos

Área de Estudo

Divergindo do cenário mundial, na qual a matriz energética da maioria dos países ainda é predominantemente fundamentada em fontes fósseis, o Brasil apresenta sua matriz energética estruturada em fontes renováveis (Freire; Fontgalland, 2022; Krell; Sousa, 2020). Conforme dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) para o ano de 2024, 84,47% da energia nacional gerada provém de matriz renovável, composta por fonte hídrica (54,40%), eólica (15,05%), biomassa (8,34%) e solar (6,68%), enquanto 15,53% da matriz energética advém de fontes não renováveis, tais como gás natural (8,87%), petróleo (3,96%), carvão mineral (1,71%) e nuclear (0,99%) (ANEEL, 2024).

Diante desse contexto, Werner e Lazaro (2023) ressaltam que a acentuada inserção das energias renováveis na configuração da matriz energética brasileira se deve à evolução energética do país ao longo do processo de industrialização, em paralelo a crise de abastecimento energético de 2001 e dada a emergência de questões ambientais relacionadas à variabilidade climática e à escassez de água. Concomitantemente, inúmeros mecanismos no país foram instaurados como estímulo para a transição em direção a uma economia de baixa emissão de carbono (Lazaro; Soares, 2024).

Coleta de Dados

A pesquisa realizou uma investigação minuciosa em plataformas da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), Operador Nacional do Sistema Elétrico (NOS) e International Renewable Energy Agency (IRENA). Em busca de dados robustos, confiáveis e atualizados, tais fontes foram escolhidas por sua relevância e credibilidade nacional e internacional na coleta de dados e na produção de documentos sobre o setor eólico brasileiro.

As informações mais pertinentes ao tema incluíram dados sobre a capacidade de operação do setor, o número de usinas comerciais licenciadas ou em operação, e a localização dessas usinas no Brasil, disponíveis na plataforma SIGA da ANEEL. A quantidade de aerogeradores foi obtida por meio de relatórios da ABEEólica, enquanto o ONS e a IRENA forneceram informações complementares sobre o contexto da energia eólica no país.

A ABEEólica, fundada em 2002, é uma entidade sem fins lucrativos que representa a indústria eólica brasileira e desempenha um papel relevante na divulgação de informações globais sobre energia eólica no Brasil por meio do Global Wind Energy Council (GWEC) (ABEEólica, 2024). Enquanto a IRENA, é uma agência intergovernamental que atua como a principal plataforma para a cooperação internacional, além de fornecer dados e análises atuais do campo das energias renováveis (IRENA, 2024).

Somada às fontes de dados selecionadas nesta pesquisa, a ANEEL é uma entidade reguladora brasileira, cuja função é de regular e fiscalizar a geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia elétrica no país. Sua plataforma online possibilita a consulta de dados estatísticos relevantes sobre geração, transmissão e consumo de energia elétrica no Brasil.

Ao passo que o ONS é a entidade responsável pela coordenação e operação do Sistema Interligado Nacional (SIN) de energia no país. Atua em tempo real na estabilidade e segurança do sistema, otimização do uso dos recursos energéticos, minimização dos riscos de interrupções no fornecimento e promoção da eficiência operacional. No portal eletrônico da entidade podem ser encontradas informações sobre a operação do SIN, bem como publicações técnicas, estudos de planejamento energético e relatórios de desempenho operacional.

Ambas as entidades são vinculadas ao Ministério de Minas e Energia, que desempenha o papel de supervisão e coordenação, delineando diretrizes e políticas para o setor elétrico brasileiro. Em suma, a ANEEL e o ONS trabalham em sinergia para assegurar o fornecimento eficiente de energia elétrica no Brasil.

Também, para a produção dos resultados deste trabalho, fez-se imperativo a definição de dados específicos acerca dos aerogeradores para a estruturação dos cálculos. De acordo com Paulsen e Enevoldsen (2021), os aerogeradores de usinas comerciais têm em média uma vida útil de 20 a 25 anos. Contudo, considerou-se para esta pesquisa o tempo de vida útil de 20 anos para os aerogeradores, conforme estabelece a norma IEC 61400-1 que recomenda o tempo mínimo para projetos de aerogeradores (ABNT, 2023). Ressalta-se que este prazo é considerado nos cálculos, modelagens, testes em laboratório com protótipos e ensaios de resistência mecânica no campo (Beauson et al., 2022).

A projeção da geração de resíduos de aerogeradores requer a definição de um modelo base representativo, cujas características técnicas, como potência e peso, permitam estimar a quantidade de resíduos ao final de sua vida útil. Conforme observado no início da expansão do setor eólico no Brasil, os aerogeradores de usinas comerciais possuíam, em 2012, potências predominantemente entre 1,6 MW e 3 MW e alturas em torno de 100 metros (ABREEólica, 2012; CEPEL, 2017).

Tendo em vista que a SIEMENS-GAMESA figura dentre as principais fabricantes de aerogeradores de grande porte no Brasil (ABEEólica, 2021), foi considerado como referência para o cálculo as características do aerogerador de modelo SWT-2.3-93 da fabricante como peso médio de 386 toneladas e altura de 100 metros. A escolha se justifica pela sua representatividade no período de consolidação inicial e desenvolvimento do setor eólico brasileiro, sendo um modelo de potência e altura alinhado com as características gerais das turbinas comerciais instaladas.

Análise de Dados

Os dados utilizados na pesquisa foram organizados em planilhas eletrônicas no software Microsoft Excel, estruturando cronologicamente o número de aerogeradores instalados no Brasil. Para a projeção, considerou-se que o peso integral da estrutura dos aerogeradores se torne resíduo. Ainda, adotou-se o peso médio de 386 toneladas por aerogerador e o peso acumulado dos aerogeradores desde o início da operação dos parques eólicos, em 2005, até o ano de 2030, que passado o tempo de vida útil de 20 anos, tais aerogeradores já terão se tornados resíduos no ano de 2050.

Foram aplicadas técnicas de estatística descritiva para ordenar os dados, calcular os totais acumulados e analisar a tendência de crescimento do peso de resíduos ao longo do tempo (Fisher; Marshall, 2009). Para projetar a geração de resíduos de aerogeradores até 2050, foi utilizada uma regressão linear, com base na forte associação observada entre as variáveis “ano” (variável independente x) e “peso acumulado de resíduos” (variável dependente y). A equação obtida foi:

y = 0,3047 x 612,29

Onde:

  • y representa a massa acumulada de resíduos em toneladas;

  • x é o ano considerado na projeção;

  • 0,3047 é o coeficiente angular da reta, representando o aumento médio anual de resíduos;

  • - 612,29 é o coeficiente linear necessário para ajustar a linha de tendência aos dados históricos.

A escolha do modelo linear justifica-se pelos elevados valores do coeficiente de correlação de Pearson (𝑟) e do coeficiente de determinação (R²), demonstrando uma associação linear muito forte entre as variáveis analisadas. O coeficiente 𝑟 varia entre -1 e 1 e indica a força e a direção da relação linear entre duas variáveis, sendo que quanto mais próximo de 1 ou -1, maior é essa associação (Grácio; Oliveira, 2015; Trindade et al., 2001).

Um valor de 𝑟 = 1 representa correlação positiva perfeita, enquanto 𝑟 = −1 indica correlação negativa perfeita, já 𝑟 = 0 sugere ausência de relação linear (Cargnelutti Filho et al., 2012; Ribeiro et al., 2005). Em geral, valores absolutos de 𝑟 acima de 0,9 são considerados como indicativos de forte correlação, o que reforça a validade do uso da regressão linear para análises e projeções (Martins, 2014; Chein, 2019).

Adicionalmente, o padrão visual dos dados em gráfico revelou uma tendência linear clara, com baixo erro residual, o que reforça a adequação da abordagem adotada. Embora modelos estatísticos alternativos, como exponencial ou polinomial, tenham sido considerados, estes apresentaram menor ajustamento aos dados históricos.

Por fim, é importante destacar que a projeção se refere exclusivamente aos resíduos estimados para o fim da vida útil dos aerogeradores, não sendo considerados resíduos oriundos de perdas no transporte, instalação, manutenção ou substituição de componentes, devido à ausência de dados consolidados sobre tais processos no setor eólico brasileiro.

Resultados e Discussão

Análise da evolução na capacidade de geração de energia eólica no Brasil

Desde o início da exploração dos recursos eólicos onshore no Brasil até os dias atuais, a capacidade de operação de energia eólica tem continuado a crescer. A efetivação do Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (PROINFA) em 2002, juntamente com a realização de leilões para impulsionar a construção de usinas eólicas no país, marcou o início dessa exploração em 2005, com uma capacidade de operação de 22 MW. Os anos seguintes avançaram com um crescimento modesto da capacidade de operação. No entanto, a partir de 2010, quando a capacidade de operação atingiu 928 MW, o crescimento se tornou mais acentuado, como evidenciado na Figura 1.

Figura 1
Gráfico da capacidade de operação (MW) de energia eólica no Brasil.

Desde Assim, ao longo do tempo, o Brasil tem testemunhado um crescimento constante e progressivo na capacidade de geração de energia eólica onshore. Em 2015, registrou-se uma potência instalada de 8.723 MW, que dobrou até atingir 17.747 MW em 2020. Em 2024, o país alcançou um novo recorde, com uma capacidade de geração de energia eólica onshore de 30.956,55 MW. Considerando que a capacidade de operação continue apresentando um crescimento quadrático, a projeção indica que até 2029 a capacidade de operação nacional poderá chegar a 55.455,72 MW, levando em conta as usinas eólicas em processo de licenciamento ou construção.

Contudo, destaca-se que o Brasil está imerso em um intenso processo de transição energética, onde a energia eólica desponta como a segunda maior fonte renovável na matriz energética nacional (ANEEL, 2024). Espera-se ainda mais crescimento na exploração eólica onshore, bem como um avanço significativo no setor de exploração eólica marítima, também denominada offshore. Estima-se que a capacidade de geração eólica marítima atinja 234.235 MW, representando um importante marco na diversificação e expansão da matriz energética brasileira. Jansen et al. (2022) preveem que 97% de toda a capacidade eólica offshore global seja leiloada até 2030.

Distribuição de usinas comerciais de energia eólica em território nacional

Os resultados apontam que a região Nordeste do Brasil se destaca com uma expressiva concentração de usinas eólicas em operação no país. Atualmente, com base na investigação realizada na plataforma da ANEEL (2024), existem 1054 parques eólicos em funcionamento, dos quais 90,23% estão localizados na região Nordeste, 9,49% estão situados na região Sul e apenas 0,28% operam na região Sudeste. Os estados que mais se destacaram na exploração dos recursos eólicos para a geração de energia foram a Bahia (331), Rio Grande do Norte (302), Piauí (118) e Ceará (100), ambos da região Nordeste do Brasil. Conforme pode ser verificado na Figura 2.

Figura 2
Indicativo atual e projeção da quantidade de usinas eólicas onshore nos estados do Brasil.

Devido à expressiva concentração de usinas eólicas na região Nordeste do Brasil, como afirmam Lima et al. (2024), essa região apresenta as mais altas velocidades de vento em escala nacional, além de apresentar o maior potencial eólico do país (Traldi, 2021). Os dados do ONS (2024) corroboram a eficiência energética das usinas eólicas instaladas nessa área, destacando um fator de capacidade (FC) de 39,92% para o ano de 2023, superior à média nacional de 39,5%. Em comparação com os líderes mundiais em energia eólica, o FC do Brasil (39,5%) supera o dos EUA (35%), Alemanha (25%), China (24%) e Índia (19%) (De Araújo; Willcox, 2018). É importante ressaltar que a avaliação do FC considera a disponibilidade do recurso eólico em relação à geração energética obtida pela usina durante um determinado período (Brasil, 2020).

Em 2023, o Brasil teve um ano recorde, no qual foi listado dentre os cinco principais mercados mundiais para novas instalações de usinas comerciais de geração de energia eólica, sendo o grupo formado pela China, EUA, Brasil, Alemanha e Índia (GWEC, 2024). Com a projeção de novos parques eólicos para 2029, nota-se um acentuado aumento de usinas eólicas na região Nordeste, consolidando-a como um importante centro produtor de energia eólica onshore no Brasil.

Todavia, embora não tenha destaque nos resultados apresentados, a região Sul também possui um importante potencial de geração de energia eólica onshore, com altas velocidades de vento principalmente entre maio e setembro (Dos Santos et al., 2024). Com a futura operação de parques offshore no país, a região Sul ganhará visibilidade devido à significativa exploração dos recursos eólicos marítimos, sobretudo no estado do Rio Grande do Sul, que atualmente possui 26 processos de licenciamento de usinas eólicas comerciais offshore em tramitação (IBAMA, 2024).

Quantitativo de aerogeradores em operação no Brasil

Com o levantamento na plataforma da ABEEólica, identificou-se a crescente instalação de aerogeradores nas usinas eólicas onshore no Brasil. Em 2018, já havia 7.000 aerogeradores em funcionamento no país. Com a expansão dos parques, percebeu-se uma tendência linear de crescimento no número de aerogeradores, conforme mostrado na Figura 3. Em 2021, o total de aerogeradores atingiu 8.820 unidades e, em março de 2024, chegou a 11.183 aerogeradores em operação. Isto representa um crescimento significativo de 59,76% de aerogeradores no intervalo de 2018 a 2024.

Figura 3
Crescimento unitário da quantidade de aerogeradores no Brasil.

Em consonância com a predominância de usinas eólicas no Nordeste do Brasil, a maior quantidade de aerogeradores também está localizada nessa região. O estado do Rio Grande do Norte, apesar de ser o segundo em quantidade de parques eólicos, logo atrás da Bahia, se destaca com a maior quantidade de aerogeradores em operação, com o total de 3.413 unidades. Consequentemente, é o estado líder em produção de energia eólica, com uma capacidade operacional de 9.963,9 MW. Destaca-se ainda que dos 11.183 aerogeradores em funcionamento no país, 10.133 estão localizados na região Nordeste, representando cerca de 90,61% do total nacional (ABEEólica, 2024), como ilustrado na Figura 4.

Figura 4
Mapa de distribuição quantitativo de aerogeradores no Brasil.

Projeção da geração de resíduos de aerogeradores no Brasil até 2050

Dado o tratamento e organização dos dados, o gráfico gerado apontou que o crescimento do peso dos aerogeradores ao longo dos anos se consolidou em uma tendência linear. Dessa forma, a função que descreve o comportamento dos dados indica que cerca de 6,25 milhões de toneladas de resíduos de aerogeradores onshore serão gerados no Brasil até o ano de 2050, conforme apresentado na Figura 5.

Figura 5
Peso dos Aerogeradores.

Com o resultado apontado da projeção de resíduos de aerogeradores no Brasil, ao ser comparado com estimativas de publicações encontradas revela diferenças significativas em termos de volume, temporalidade, contexto geográfico e componentes. A previsão de 6,25 milhões de toneladas de resíduos de aerogeradores onshore no Brasil até 2050, é uma das mais altas entre os países avaliados nas pesquisas. Este valor reflete a expansão do setor de energia eólica no Brasil, que tem se consolidado como um dos principais produtores de energia renovável (Da Silva et al., 2013).

De acordo com Chen et al. (2021), espera-se que a província Guangdong, na China, produza cerca de 16 Mt de resíduos de até 2025, abrangendo aerogeradores onshore e offshore. Enquanto Volk et al. (2021), apresenta projeções mais modestas para a Alemanha de resíduos provenientes da exploração onshore, variando entre 325.726 t e 429.525 t de resíduos de plásticos reforçados com fibra de vidro até 2040. Em relação ao Reino Unido, os autores Tota-Maharaj e Mcmahon (2021) destacam uma projeção de 6,16 Mt de resíduos de aerogeradores que serão geradores entre os anos de 2035 e 2039, indicando uma fase de descomissionamento massiva de aerogeradores em um curto período ao considerar a exploração onshore e offshore.

Diante da investigação realizada por Tazi et al. (2019), na região de Champagne-Ardenne, na França, previu-se 1,61 milhões de toneladas (Mt) de pás onshore descomissionadas entre 2002 e 2016. A abordagem utilizada pelos autores Andersen et al. (2016) apontam que a geração de energia eólica onshore na Suécia resultará em 270 mil toneladas de resíduos de aerogeradores até 2034. Para o cenário mundial, os autores Papadakis et al. (2010) também avaliaram resíduos de pás em operações onshore e offshore, estimando 300 mil toneladas descomissionadas até 2028.

Já as atividades de geração de energia eólica em parques onshore e offshore, na Dinamarca, foram estudadas por Abrahamsen et al. (2023), que estimaram a geração anual de resíduos de pás entre 2.000 t em 2028 e um valor máximo de 5.000 t em 2045. Para o Canadá, os autores Heng et al. (2021) investigaram estritamente a exploração onshore, sucedendo em projeções de 275 mil toneladas de pás descomissionadas até 2050. No conjunto de publicações encontradas, por fim, a pesquisa de Alavi et al. (2024) previu a geração de cerca de 14,3 Mt de resíduos de aerogeradores onshore, na Austrália, até o ano de 2060.

Portanto, a projeção de 6,25 Mt de resíduos de aerogeradores no Brasil até o ano de 2050 levanta questões sobre as práticas de sustentabilidade na indústria de energias renováveis. Dentre os resíduos gerados, apenas os componentes que constituem as pás dos aerogeradores representam um obstáculo significativo para a revalorização, já que a indústria ainda não apresenta tecnologia viável frente à reciclagem desafiadora da estrutura (Tyurkay et al., 2024).

Os outros componentes que constituem cerca de 81% a 85% do peso total dos resíduos de aerogeradores, como torre, caixa de engrenagens, eixo principal, gerador, peças fundidas, rolamentos, peças da nacele e do hub, podem ser reciclados utilizando processos industriais bem estabelecidos (Xu et al., 2024; Garrett; Ronde, 2012; Gonzalez et al., 2018).

Com base nos resultados das projeções de resíduos realizadas neste estudo, aproximadamente 5,31 Mt de resíduos provenientes dos aerogeradores apresentarão potencial de reciclabilidade no Brasil até 2050. No entanto, conforme afirmam Gast et al. (2024), os fluxos de resíduos dos aerogeradores atualmente estão longe de ser circulares e ressaltam a escassez de dados disponíveis para essas atividades, que raramente são acessíveis. Ainda assim, há possibilidade para desviar os materiais dos aterros em direção à revalorização, seja por meio da reciclagem ou da reutilização.

Os autores Kramer et al. (2024) acrescentam que um planejamento realista dos fluxos de componentes e materiais é fundamental para a estruturação das cadeias de suprimentos reversa. Além disso, devem ser estabelecidos mecanismos de coordenação internacional para padrões técnicos e industriais para minimizar o desperdício de resíduos de aerogeradores e facilitar o intercâmbio de tecnologia (Martinez-Marquez et al., 2022). Enquanto Vetters et al. (2024) sublinham a importância de um quadro legislativo claro, sem ambiguidade na atribuição de responsabilidades, que contemple uma gestão adequada destes resíduos (Lazaro; Thomaz, 2021). Associado a isto, o autor Parker (2018) ressalta que o aspecto político é fator preponderante no desenvolvimento sustentável do setor de energias renováveis.

Nesse mesmo sentido, Tyurkay et al. (2024) ainda apontam como principais obstáculos que prejudicam a circularidade e a sustentabilidade da gestão dos resíduos de aerogeradores a falta de dados sobre a composição dos materiais, a incerteza nos números futuros de descomissionamento e volume de resíduos. Também, destacam a incerteza na capacidade das tecnologias atuais para tratar os resíduos das pás dos aerogeradores, os complexos desafios de descomissionamento, a reatividade dos stakeholders em assumir responsabilidades e, principalmente, a falta de clareza nas atribuições de responsabilidades.

Diante da projeção de geração de 6,25 Mt de resíduos de aerogeradores até 2050, dos quais 90,61% serão gerados na região Nordeste do Brasil, emerge uma relevante questão no setor das energias eólicas. Ao considerar o grande potencial para a geração de energia eólica onshore, aliado à futura exploração eólica offshore na costa brasileira, o país deve se preparar para uma contínua e progressiva geração de resíduos do setor. Portanto, é imprescindível que os stakeholders, somados ao governo, assumam responsabilidades no planejamento e operação dos fluxos reversos, a fim de promover a economia circular e garantir a eficiência na gestão dos resíduos de aerogeradores.

Conclusões

Considerando a descarbonização do setor energético como uma prioridade global, o Brasil apresenta uma matriz energética fortemente baseada em fontes renováveis, das quais atualmente 84,47% da energia nacional gerada provém de fontes renováveis, com a energia eólica sendo a segunda maior fonte de energia na matriz nacional. Assim, a aplicação da EC torna-se um instrumento essencial no setor eólico, pois integrar seus princípios na concepção industrial e nos processos pode reduzir significativamente os custos de produção, a demanda por materiais virgens, as emissões de GEE, o volume final de resíduos e outros poluentes.

Com base numa análise estatística descritiva dos dados investigados, prevê-se a geração de cerca de 6,25 Mt de resíduos de aerogeradores onshore no Brasil até 2050, dos quais 90,61% serão gerados na região Nordeste. Aproximadamente 5,31 Mt desses resíduos apresentarão potencial de reciclabilidade. No entanto, existem obstáculos que prejudicam a circularidade e a sustentabilidade na gestão dos resíduos de aerogeradores, impedindo que os fluxos de resíduos sejam completamente circulares.

Assim, destaca-se a inadequação da atual infraestrutura dos canais reversos de resíduos de aerogeradores no Brasil, especialmente devido à ausência de legislação e regulamentações específicas para o gerenciamento desses resíduos. Observa-se também que o estímulo à expansão das energias renováveis no Brasil, diante da necessidade de organização e planejamento de sistemas capazes de promover a circularidade de resíduos no setor, se mostra omisso.

Com a estruturação da CSR no setor, os resultados não só contribuirão para a minimização dos danos ambientais, mas também favorecerão a criação de postos de trabalho. Além disso, a energia eólica já se consolida como um setor de fundamental importância na geração de energia, com tendência de aumento contínuo da geração de resíduos, cenário previsto não apenas no Brasil, mas em todo o mundo. Portanto, torna-se imperativo que os stakeholders se comprometam com a estruturação da logística reversa desses resíduos para evitar o acúmulo futuro de prejuízos socioambientais e econômicos.

Os resultados desta pesquisa contribuem para a literatura ao fornecer projeções sobre a quantidade de resíduos de aerogeradores no Brasil e ao destacar a importância do planejamento de fluxos reversos no setor de energia eólica. Como limitações deste estudo, a utilização de um único modelo de aerogerador, como referência para todos os aerogeradores implantados no país, pode não refletir a real diversidade tecnológica, de materiais e de vida útil dos diferentes modelos existentes no Brasil, o que pode impactar a precisão das estimativas de resíduos.

Adicionalmente, a análise feita com aerogeradores onshore não abrange a geração de resíduos proveniente de futuros parques eólicos offshore, que apresentam desafios distintos. A compreensão dos obstáculos à EC foi delineada com base em informações existentes, no entanto a profundidade da análise limita-se pela disponibilidade de dados específicos sobre a infraestrutura de LR e tecnologias de reciclagem para materiais complexos no Brasil, a exemplo das pás eólicas, bem como pela ausência de cenários detalhados de políticas públicas e incentivos econômicos.

Pesquisas futuras poderiam explorar outros métodos de projeção de resíduos de aerogeradores, avaliar os componentes recicláveis e analisar o impacto econômico da reciclagem desses equipamentos no Brasil. Assim, este estudo destaca a urgente necessidade de um planejamento estratégico no gerenciamento de resíduos do setor eólico para garantir a sustentabilidade a longo prazo.

Agradecimentos

O presente trabalho foi realizado com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Brasil.

Referências bibliográficas

Editado por

  • Editor Responsável
    Pedro Roberto Jacobi
  • Editor Associado
    Ricardo César Guabiroba

Disponibilidade de dados

Os autores afirmam que todos os dados utilizados na pesquisa foram disponibilizados publicamente, e podem ser acessados por meio das plataformas:

Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica)

https://abeeolica.org.br/energia-eolica/dados-abeeolica/

Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL)

https://app.powerbi.com/view?r=eyJrIjoiNGE3NjVmYjAtNDFkZC00MDY4LTliNTItMTVkZTU4NWYzYzFmIiwidCI6IjQwZDZmOWI4LWVjYTctNDZhMi05MmQ0LWVhNGU5YzAxNzBlMSIsImMiOjR9]

International Renewable Energy Agency (IRENA)

https://www.irena.org/Publications

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    09 Jan 2025
  • Aceito
    01 Out 2025
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