Open-access O futuro para além das sextas-feiras: a virada discursiva do movimento Fridays for Future-Brasil

Resumo

O Fridays for Future, fundado pela jovem sueca Greta Thunberg, logo se transformou em um movimento transnacional a partir do intenso uso das mídias digitais. O objetivo deste artigo é entender a constituição do coletivo no Brasil frente a condições de produção do discurso muito distintas do Norte Global. No Estudo 1, através da análise de conteúdo, demarcamos a recorrência das greves climáticas estudantis, demonstrando que esta ação contenciosa, diferente da Europa, não encontrou ressonância no país. No Estudo 2, apoiados na análise de discurso francesa e na teoria do processo político, definimos as estruturas de oportunidades discursivas: Identitárias, Governamentais, Ecológicas, Político-Científicas e da Iniciativa Privada. Concluímos que os recursos do Instagram facilitaram a implementação de um “discurso enraizado”. Estratégia que ajudou a destacar diferentes implicações do aumento da temperatura do planeta no território nacional, evitando as generalizações do “discurso globalizado”.

Palavras-chave:
Mudanças climáticas; movimentos sociais; mídias sociais; Fridays for Future; estruturas de oportunidades discursivas

Abstract

Fridays for Future, founded by young Swedish activist Greta Thunberg, quickly became a transnational movement through its intense use of digital media. This article aims to understand the collective’s formation in Brazil, given the very different discourse production conditions vis-à-vis the Global North. In Study 1, employing content analysis, we identify the quantitative trends in the networked mediation of student climate strikes, demonstrating that this contentious action, unlike in the Europe, did not resonate much in the Brazilian public sphere. In Study 2, supported by French discourse analysis and political process theory, we define the discursive opportunity structures: Identity, Governmental, Ecological, Political-Scientific and Private Initiative. We conclude that Instagram’s affordances enabled the collective in the implementation of a “rooted discourse.” This strategy helped highlight the different consequences and implications of rising global temperatures within the country, avoiding the generalization of a “globalized discourse.”

Keywords:
Climate change; social movements; social media; Fridays for Future; discursive opportunity structures

Resumen

Fridays for Future, fundado por la joven activista sueca Greta Thunberg, se convirtió rápidamente en un movimiento transnacional gracias a su intenso uso de los medios digitales. Este artículo busca comprender la formación del colectivo en Brasil, dadas las diferentes condiciones de producción discursiva del Norte Global. En el Estudio 1, mediante análisis de contenido, identificamos la recurrencia de las huelgas estudiantiles por el clima, demostrando que esta acción polémica, a diferencia de la Europe, no tuvo eco en Brasil. En el Estudio 2, con el apoyo del análisis del discurso francés y la teoría de procesos políticos, definimos las estructuras de oportunidad discursiva: Identidad, Gobierno, Ecología, Ciencia Política e Iniciativa Privada. Concluimos que los recursos de Instagram facilitaron la implementación de un “discurso arraigado”. Esta estrategia ayudó a visibilizar las diferentes implicaciones del aumento de la temperatura global en el país, evitando las generalizaciones del “discurso globalizado”.

Palabras-clave:
Cambio climático; movimientos sociales; redes sociales; Fridays for Future ; estructuras de oportunidad discursivas

INTRODUÇÃO

As mobilizações em prol da mitigação dos efeitos do aumento da temperatura do planeta têm envolvido vários atores sociais. Recentemente, um grupo de cidadãos vem se destacando nesta luta: jovens estudantes. Milhares deles integram um movimento muito relevante na contemporaneidade: o Fridays for Future (FFF). Tudo começou em agosto de 2018, quando a sueca Greta Thunberg, de apenas 15 anos, resolveu lutar por justiça climática. A ativista iniciou uma greve estudantil solitária, na frente do parlamento do seu país, a fim de chamar atenção para o descumprimento do Acordo de Paris. Posteriormente, com o uso das redes online, o FFF começou a atuar na mobilização de outros jovens. Na primeira convocação global, em março de 2019, mais de um milhão de pessoas foram às ruas. Hoje, o movimento tem coletivos em, aproximadamente, 7.500 cidades, distribuídas nos cinco continentes (Fridays for Future, 2024).

Este artigo investiga a atuação do FFF-Brasil para entendermos se e como os jovens seguem, negociam ou transformam o discurso e as práticas do FFF do Norte Global. A relevância do trabalho se justifica pelo protagonismo que o país ocupa no debate internacional da pauta climática, devido, principalmente, à importância da Amazônia na regulação da temperatura da biosfera terrestre. Além disso, o enorme contingente de jovens, mais de 47 milhões de indivíduos entre 15 e 29 anos (Atlas das Juventudes, 2025), torna pertinente e necessária a compreensão das suas demandas e o engajamento com a causa.

Iniciamos o estudo introduzindo a revisão da literatura sobre o movimento, apontando que a maioria das pesquisas acerca do FFF estão concentradas na Europa. O que ocasionou uma lacuna substancial sobre a atuação dos jovens nos outros quatro continentes. Em seguida, abordaremos o conceito de estruturas de oportunidades discursivas (McCammon, 2013; Cammaerts, 2012), uma derivação do conceito de estruturas de oportunidades políticas, advindo da teoria do processo político (Tilly, 1978, 1995, 2004; Tarrow, 1996), a fim de mostrar o importante papel da comunicação e das mídias digitais para os movimentos sociais. Na sequência, destacamos a expressividade do contexto brasileiro dentro da emergência climática global, a configuração inicial do FFF-Brasil e a adoção da plataforma digital Instagram, com seus inúmeros recursos, fundamentais para a automediação do discurso climático destes jovens.

No Estudo 1, usando a análise de conteúdo (Bryman, 2012), definimos a recorrência das greves durante os quatro primeiros anos do FFF-Brasil no Instagram. Em seguida, no Estudo 2, delimitamos os temas presentes nas postagens que não se referiam às greves. Com o apoio da análise de discurso francesa (Orlandi, 2007; Freire, 2021), análise temática construcionista (Braun & Clarke, 2006) e o suporte da teoria do processo político (Tilly, 1978, 1995, 2004; Tarrow, 1996), identificamos cinco conjuntos temáticos dentro das estruturas de oportunidades discursivas do FFF-Brasil. Os achados de ambos os estudos serão analisados de forma pormenorizada nas seções dedicadas a cada um dos resultados.

Na discussão, vamos refletir acerca das principais diferenças encontradas nas práticas do movimento internacional em comparação com o coletivo local e, fundamentalmente, sobre o que nomeamos “discurso globalizado” e “discurso enraizado”. Iremos examinar as implicações destas duas tipologias na formação e organização do FFF-Brasil. O objetivo é contribuir para a compreensão e validação de outras perspectivas a respeito das alterações climáticas, que vão muito além daquelas do Norte Global.

O “FFF” NAS REDES E NAS RUAS DA EUROPA

Com o propósito de entender o ativismo do FFF no cenário da crise climática, inúmeras pesquisas vêm sendo realizadas a partir de diferentes abordagens (Soβdorf & Burgi, 2022; Boulianne et al., 2020; Marquardt, 2020; Ivanovic et al. 2022; Haßler et al, 2023). No entanto, este caráter heterogêneo não diz respeito à transnacionalidade do movimento e de como o coletivo se comporta em outras configurações geopolíticas, que não a dos países que compõem a Europa. Há um conjunto de importantes trabalhos científicos sobre o FFF, contudo, realizados, majoritariamente, naquele continente.

Sainz e Hanna (2023), por exemplo, focaram nas postagens do X a fim de analisar a transição das ações das ruas para as redes durante a COVID-19 na Finlândia. O objetivo era observar se a interação dentro da plataforma poderia ajudar os jovens daquele país a aprenderem sobre direitos humanos e cidadania e se tornarem agentes de mudanças.

Sorce e Dumitrica (2023) coletaram dados dos 27 coletivos da Europa para investigar quais estratégias discursivas eram utilizadas pelo FFF no Facebook com o objetivo de manter o engajamento dos ativistas, diante da impossibilidade de realizar as greves nas ruas durante a COVID-19. Foi constatado que o discurso do FFF introduziu a crise sanitária dentro do discurso da emergência climática com o propósito de evitar a desmobilização do movimento, já que as manifestações outdoor eram um fator aglutinador para a luta dos jovens da Europa.

Na Alemanha, Sorce (2022) entrevistou jovens ativistas para observar a percepção, identificação e interação online com a figura de Thunberg. A conclusão é de que Greta seria relevante para o engajamento, pois todos os participantes a seguem nas mídias sociais. No entanto, muitos minimizam a importância da sueca como líder do movimento e destacam a necessidade de interação nas ruas para a manutenção de uma identidade coletiva. Em outra pesquisa, também na Alemanha, Soβdorf e Burgi (2022) mostram de que forma o conhecimento científico era usado por ativistas do FFF em prol do engajamento. Os autores apontam que este recurso buscava imprimir legitimidade ao discurso dos jovens.

Soler-I-Martí et al. (2022) analisaram tweets no X e postagens no Instagram a fim de entender como os jovens do FFF-Barcelona estavam criando um discurso sobre futuro e mudanças climáticas através da ideia de emergência. Concluíram que o cenário distópico era usado especialmente com o objetivo de mobilizar o público para ações de protesto.

Por último, Herrmann et al. (2023) apresentam uma abordagem mais abrangente, não localizada apenas na Europa, nem tão pouco centrada no tema das greves. Os autores pesquisaram o uso e conexão de hashtags no Instagram do FFF Internacional para compreender como é construída a identidade do movimento a partir daquele recurso digital.

Destacamos, porém, que, existe, comparativamente, um número ínfimo de pesquisas com resultados sobre a atuação do FFF no Brasil. Muito embora o movimento no país tenha quase 30 mil seguidores no Instagram, com publicações frequentes e atualizadas, abrangendo uma quantidade de pessoas superior a algumas contas de coletivos na Europa. Salientamos que a nossa busca nas bases de dados foi restrita a artigos científicos e estes resultados não incluem dissertações, teses, nem capítulos de livros. Dentro deste escopo, encontramos a pesquisa de Laux (2021) detectando mecanismos que levam jovens a integrarem as greves climáticas em 17 países, entre eles o Brasil. Isto inclui disponibilidade de recursos, informação e tecnologia, além de aderência ao enquadramento da causa. Já Barbosa et al. (2021) avaliaram se as atitudes ambientais e o conhecimento dos estudantes no Brasil e na Alemanha diferem e interferem na frequência de participação nas greves pelo clima. Revelaram a importância dos dois fatores, concluindo que brasileiros poderiam se beneficiar ao aprenderem mais sobre sustentabilidade. Enquanto Torres et al. (2020) investigaram de que forma a agenda das mudanças climáticas e suas relações com os movimentos sociais foram objeto da sociologia em periódicos nacionais entre 2013-2016. Adicionalmente, analisaram a adesão dos jovens na semana da greve global em 2019, mostrando que tanto a baixa produção acadêmica, quanto a exígua participação dos jovens nos protestos do FFF-Brasil indicam o diminuto envolvimento destas esferas com a pauta socioambiental.

CIDADANIA, INTERNET E OPORTUNIDADES DISCURSIVAS

O surgimento das mobilizações coletivas, conforme a teoria do processo político, é explicado pela relação de forças entre autoridades governamentais e os desafiantes que estão do lado de fora. Neste embate, existem três categorias: (i) Estruturas de Oportunidades Políticas, que são janelas para a ação política, ou seja, a capacidade ou perda dela por parte do Estado e a disponibilidade, para o oponente, de aliados potenciais entre dissidentes da elite no poder; (ii) Estruturas de Mobilização, que são redes de relacionamentos que dão as bases organizacionais para a movimentação e, por último (iii) o Repertório de Ações (Alonso, 2012). Tilly (1995) afirma que o repertório de ações é um conjunto limitado de rotinas apreendidas, compartilhadas e executadas mediante um processo relativamente deliberado de escolha e é influenciado não apenas pela natureza dos problemas, ou pelos recursos disponíveis, mas também por experiências passadas e pelo contexto cultural em que a luta se insere.

Por outro lado, o papel da comunicação na formação dos movimentos sociais é fundamental. Porque as pessoas só podem desafiar a dominação se exprimirem suas indignações e resolverem construir projetos alternativos para elas e para a sociedade (Castells, 2013). Segundo o autor, nos últimos anos, a comunicação em escala global tem sofrido profunda transformação tecnológica e organizacional, baseada em redes horizontais de comunicação multidirecional, interativa, na internet. Neste contexto, as práticas comunicativas não só ajudam a criar as condições para o envolvimento político, mas também constituem os modos como ele ocorre (Carvalho et al., 2021). Sorce e Dumitrica (2022) postulam que as mídias digitais têm sido integradas às ações dos movimentos sociais, dando mais controle para suas mensagens, oportunidade para ampliar audiência e diversidade na participação.

Frente a estas considerações, é relevante destacar que as Estruturas de Oportunidades Políticas, de Mobilização e o Repertório de Ações não podem prescindir daquilo que Cammaerts (2012) nomeia de Estruturas de Oportunidades de Mediação, composta por três eixos: (i) Estruturas de Oportunidade de Mídia, a extensão pela qual os movimentos são capazes de criar performances e transmitir suas mensagens através da grande mídia; (ii) Estruturas de Oportunidades Discursivas, que são as estratégias de automediação voltadas à produção de contra narrativas e a disseminação delas independente da grande mídia e (iii) Estruturas de Oportunidades em Rede, que são as práticas de resistência mediada através da tecnologia. Neste estudo, vamos nos deter nas estratégias de auto mediação dos ativistas do FFF-Brasil. Iremos mostrar como o coletivo utiliza as Estruturas de Oportunidades Discursivas (EOD) dentro do Instagram a fim de construir os sentidos das alterações climáticas e reivindicar soluções para uma das mais graves problemáticas desta era.

O INSTAGRAM E A CONSTITUIÇÃO DO FFF-BRASIL

O Brasil tende a ocupar um lugar de protagonismo nos debates sobre as alterações climáticas. Primeiro, pela sua alargada extensão geográfica, com seis importantes biomas, entre eles a Amazônia, a maior floresta tropical do planeta, fundamental para a regulação do aquecimento da Terra (Greenpeace Brasil, 2024). Segundo, pela enorme população, com mais de 213 milhões de habitantes, dos quais 47 milhões são jovens entre 15 e 29 anos (Atlas das Juventudes, 2025). Esta é a geração que vai precisar lidar com um futuro incerto. Já que os efeitos do aumento da temperatura são um prenúncio de tempos difíceis, capazes de atingir negativamente a vida de incontáveis seres.

Diante disso, a luta pela mitigação das consequências do aquecimento global ganhou reforço no país em março de 2019, quando um grupo de jovens, de várias partes do território nacional, resolveu aderir à causa do FFF. Reunidos através de um grupo de WhatsApp, eles começam a tomar decisões sobre o planejamento e divulgação da primeira grande greve climática estudantil, convocada pelo movimento internacional (Ribeiro, 2023). As ações iniciais incluíram a criação de contas no Facebook, X (antigo Twitter) e Instagram, sendo esta última a que detém, atualmente, o maior número de postagens e seguidores.

De acordo com o Opinion Box (2025), o Instagram é a mídia social mais popular no Brasil, com cerca de 134 milhões de usuários, atrás apenas do WhatsApp. A plataforma oferece uma série de recursos que podem ser utilizados, gratuitamente, de forma simples e intuitiva. Entre as muitas ferramentas disponibilizadas por esta mídia, no painel principal da conta, o feed, é possível publicar de 01 a 10 cards numa única postagem (a partir de 2024 este número subiu para 20) incluindo fotos, ilustrações e vídeos com até 60 minutos (CanalTech, 2024). As publicações permanecem visíveis indefinidamente ou até que o usuário as exclua. Além disso, no texto-legenda, são permitidos 2.200 caracteres, números muito superiores aos de outras plataformas (SproutSocial, 2025). Recursos, estes, que foram plenamente utilizados pelos administradores da conta do Instagram do FFF-Brasil. O que ajudou a divulgar as diretrizes do movimento no país, a construir novos sentidos para as alterações climáticas e a formatar a identidade do coletivo.

ESTUDO 1 - AS GREVES CLIMÁTICAS ESTUDANTIS

METODOLOGIA

O corpus deste Estudo 1 tem como base as postagens no feed do Instagram do FFF-Brasil. O período analisado vai de 10 de março de 2019 a 22 de março de 2023, isto corresponde aos quatro anos iniciais do movimento no Brasil, o que contempla n=691 postagens.

Os dados foram recolhidos pelo “Crowdtangle”, ferramenta que coleta informações públicas das mídias digitais da marca Meta. Todo o material extraído foi exportado para o MAXQDA 2024 (VERBI Software, 2024), utilizado para análise dos dados.

Aplicamos o protocolo da análise de conteúdo, uma abordagem para investigar documentos e textos à procura de determinar conteúdo em termos de categorias previamente definidas de uma maneira sistemática e replicável (Bryman, 2012). Durante a leitura de cada post foi verificado: (i) se a palavra “greve” estava presente nos textos dos cards ou nos áudios e/ou legendas dos vídeos.; (ii) se havia expressões como: “venham para as ruas”; “levem seus cartazes”, ou “postem uma foto com seus cartazes e marquem a gente”, esta última, nos casos das greves digitais; (iii) se havia menção à data, hora e local da manifestação e, em caso de dúvida, era observado se a postagem havia sido publicada em uma sexta-feira (dia em que há a ocorrência das greves dentro do calendário do FFF) ou em data, imediatamente, anterior ou posterior a este dia da semana; e (iv) se havia imagens (fotos ou vídeos) com jovens nas ruas com cartazes de protestos. A combinação de dois ou mais destes itens identificava um post na categoria “greve”. Nos casos em que estas premissas não eram associadas, o post seguia para a categoria não-greve, ou seja, “temático”. Desta forma, foi possível apreender o comportamento do movimento no cenário brasileiro entre março de 2019 a março de 2023.

RESULTADOS - Estudo 1

O coletivo inicia suas atividades no país com a adesão à primeira grande greve global, agendada para 15 de março de 2019. Entre as n=43 postagens deste mês (greves e temáticos), n=36 foram sobre as greves, sendo n=32 publicadas entre os dias 10 e 15. Os dados revelam um esforço de comunicação intenso do coletivo no país para introduzir as práticas e o discurso do movimento internacional. Estas primeiras trinta e duas postagens tinham o objetivo de incentivar a participação dos jovens na manifestação; orientar a organização das mobilizações nas cidades; notificar sobre os locais e horários das greves, além de trazerem informações sobre o FFF e Greta Thunberg.

Após esta preparação, um número muito reduzido de jovens foram às ruas, como é possível notar nas fotos do Instagram do dia 17 de março. Em abril, as greves se restringem a protestos cujas iniciativas partem de ativistas locais, com n=16 postagens.

Na segunda greve global, em maio de 2019, acontece o maior pico de postagens dentro dos quatro anos analisados neste estudo. Foram n=59 publicações, no entanto, este número integra uma combinação de postagens acerca da cobertura das greves locais e a convocação para a manifestação global. Deste total, n=37 estão relacionadas ao evento global marcado para 24 de maio. Este número está bem próximo ao que aconteceu na primeira convocação global (n=36), enquanto as outras n=22 postagens fazem referência às greves locais. Todavia, aproximadamente 100 pessoas em todo o país foram às ruas, segundo publicações realizadas no Instagram do FFF-Brasil.

Os meses de junho (n=15), julho (n=9) e agosto (n=10) mostram números de postagens de greves mais baixos do que os anteriores, concentradas nas manifestações convocadas por membros dos coletivos locais. Finalmente, em setembro, há a terceira greve global. Neste momento, o esforço de comunicação diminui, provavelmente, devido à baixa adesão nas outras duas grandes greves. Foram somente n=12 postagens de convocação (entre os dias 16 e 20) e mais n=7 postagens (nos dias 20 e 21) com os resultados das ruas, demonstrando a indiferença dos jovens aos apelos do FFF-Brasil.

Diante de três esforços de mobilização sem muito êxito, a partir de outubro de 2019 o movimento no país entra em um período de apatia com pouca movimentação também nas redes (Gráfico 1). Neste espaço temporal não havia novas greves globais agendadas; o que só costuma acontecer, com maior frequência, nos meses de março e setembro. Por outro lado, em dezembro e janeiro há férias escolares, temporada de verão em várias cidades e festas de pré-Carnaval, quando muitos jovens estão mais propensos ao lazer, o que talvez justifique a baixa dedicação do FFF-Brasil ao ativismo nestes meses.

Gráfico 1:
Picos de Greves - FFF Brasil

Este período que vai de março de 2019 a março de 2020 é o que denominamos Fase 1, caracterizado por conteúdos ainda bastante dependentes das ações e dos discursos do Norte Global. As postagens são muito concentradas nas convocações para as greves e na apresentação das diretrizes do FFF e da sua fundadora Greta Thunberg.

No início de março de 2020, acontece um evento inesperado, que vai modificar não só as dinâmicas do FFF, mas de todo o mundo contemporâneo: a COVID-19. O aparecimento do vírus, que apresentava altas taxas de contaminação e letalidade, foi impositivo para implantação de medidas de prevenção. A fim de conter o avanço da pandemia, as autoridades sanitárias de inúmeros países, incluindo o Brasil, decretaram o lockdown. O que significou a proibição de atividades sociais, não essenciais, e que exigiam contato físico. A partir de então, provavelmente: (i) impulsionados pela fraca adesão dos esforços empreendidos durante as três primeiras greves globais; (ii) frente às restrições impostas pelo lockdown; e (iii) diante do acúmulo de problemas socioambientais no país, devido ao início, no ano anterior, da gestão do presidente Bolsonaro, abertamente contrário às ações de combate aos efeitos das alterações climáticas; os ativistas do FFF-Brasil começam a atribuir mais esforços de comunicação às postagens temáticas. Isto indica o final da Fase 1 e o início da Fase 2, que é o objeto de investigação do Estudo 2.

ESTUDO 2 - O INSTAGRAM E AS OPORTUNIDADES DISCURSIVAS

METODOLOGIA

Visando compreender a construção de sentidos do discurso climático do FFF-Brasil dentro do Instagram, no período em que as postagens de greves decrescem, iniciamos o Estudo 2. A partir da análise de conteúdo realizada no Estudo 1, através do princípio da exclusão, identificamos as postagens nomeadas como “não-greves” ou temáticas. O recorte epistemológico estabelecido para este Estudo 2 foram os picos de publicações muito superiores aos que faziam menção aos protestos nas ruas. Neste caso, o primeiro ponto de virada acontece em junho de 2020, onde as postagens temáticas totalizam n=12, enquanto as de greves se resumem a n=1. Assim, definimos que o parâmetro para incluir os picos de postagens temáticas seriam aqueles com n≥ 12. Este recorte corresponde a 12 meses entre junho de 2020 e abril de 2022, somando n=177 postagens (Gráfico 2).

O dispositivo teórico-metodológico utilizado nesta segunda fase é composto pela análise de discurso francesa - ADF (Orlandi, 2007a; Orlandi 2007b; Freire 2021) associada à análise temática construcionista - ATC (Braun & Clarke, 2006), já que o objetivo é entender a construção de sentido da crise climática tendo em consideração as condições de produção do discurso, o lugar de enunciação do sujeito que fala e o contexto sócio-histórico do dizer. A ATC, assim como a ADF, também trabalha com o sentido para além da literalidade semântica e tem um protocolo muito bem definido para a categorização dos temas, mais centrado na superfície linguística, primeira etapa da ADF e, portanto, foi utilizada nesta fase

Nos estágios subsequentes à análise da superfície linguística, seguimos com a análise do objeto discursivo, fazendo uso de paráfrases, substituições semânticas textuais para entender o mecanismo de construção de sentidos. E também a análise do processo discursivo, trazendo o dispositivo teórico da pesquisa para definir os efeitos de sentidos que o objeto discursivo intencionou produzir, frente ao contexto sócio histórico da enunciação. (Orlandi, 2007a; Orlandi, 2007b; Freire, 2021).

Conforme a ATC, os temas devem capturar algo importante em relação à questão de pesquisa e o método indutivo foi adotado (Fereday & Muir-Cochrane, 2006). Christou (2023) afirma que isto requer uma busca por significados e padrões e, após a familiarização, é importante a criação de códigos a fim de aglutinar temas semelhantes. Para isso, seguimos as orientações propostas por Braun e Clarke (2006): 1. Leitura dos Dados; 2. Geração dos Códigos Iniciais; 3. Busca por Temas; 4. Revisão dos Temas; 5. Definição dos Temas; 6. Composição do Relatório.

Gráfico 2:
Picos Temáticos - FFF Brasil

Os temas dominantes foram discutidos entre os autore após a leitura multimodal das postagens. A definição levou em consideração a argumentação em torno da questão principal, ou seja, do fenômeno que era alvo da denúncia ou defesa do enunciador, o FFF-Brasil. As fotos, ilustrações e/ou as imagens em movimento eram descritas e incluídas na análise como se texto fossem. Observamos também, em alguns casos, o conteúdo de outras postagens, que se referiam à mesma questão e davam origem a uma campanha. Por outro lado, salientamos que há um pluralismo de temas que se entrecruzam no discurso climático, pois esta é uma questão transversal a várias áreas. Todavia, na nossa codificação exclusiva, não foram incluídos temas secundários, que apareciam de forma menos enfática nos argumentos, tanto em relação ao uso de recursos linguísticos como imagéticos.

RESULTADOS - Estudo 2

Os 12 picos temáticos analisados neste Estudo 2, que totalizam n=177 postagens, revelaram a prevalência de cinco conjuntos temáticos, dentro daquilo que Cammaerts (2012) nomeia Estruturas de Oportunidades Discursivas (EOD): Identitárias, Governamentais, Ecológicas, Político-Científicas e da Iniciativa Privada. Destacamos que, em apenas uma postagem, não foi possível enquadrar a mensagem em nenhuma das EOD por se tratar de um conteúdo muito vago. Cada EOD reúne algumas categorias, como listadas no Quadro 1.

Na EOD “Identitárias”, a categoria “Indígenas” é a que tem o maior número de publicações. Do total de n=28 postagens, dez delas foram sobre a campanha SOS Amazônia, que solicitava doações para apoiar os povos da floresta devido à COVID-19. Há quatro postagens sobre as invasões de terras indígenas por grileiros e/ou garimpeiros, inclusive, com o uso de violência armada. Ameaças diretas a lideranças indígenas também foram alvo de uma denúncia, sobre intimidações que a ativista Sônia Guajajara vinha sofrendo de órgãos do governo federal. Outras mulheres indígenas também foram tema de um post, em agosto de 2021, em apoio à Marcha das Mulheres Indígenas. Há também duas postagens em datas emblemáticas, uma no dia da Independência do Brasil e outra no dia Internacional dos Povos Indígenas, reforçando a importância que o FFF-Brasil atribui a esta população para manutenção da biodiversidade no país.

Quadro 1:
Tipos de EOD e Categorias nos Picos Temáticos

Ainda sobre os indígenas, as manobras para a adoção generalista da tese do Marco Temporal1 e o avanço do PL 490/07, que também trata da demarcação de terras indígenas, foram temas de várias postagens. Estes retrocessos jurídicos geraram uma série de protestos, através do ATL - Acampamento Terra Livre, liderados pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasi (APIB, 2025). Foram sete diferentes publicações, distribuídas em datas distintas, o que demonstra o empenho do FFF-Brasil em apoiar a causa. Um indício também de que, para o coletivo, os povos da floresta são agentes fundamentais na preservação da natureza e, consequentemente, no controle do aumento da temperatura do planeta.

Figura 1:
Exemplo de Postagens Temáticas de Diferentes EOD - Fase 2

Na Figura 1, na EOD Identitárias - Indígenas, há uma destas postagens sobre o ATL feita em 10 de abril de 2022. O álbum é composto por sete fotos, quantidade bastante expressiva de conteúdo imagético, o que ratifica a importância do tema para o FFF-Brasil e a intenção de apresentar o máximo de detalhes acerca da manifestação.

Na capa da postagem, há um indígena no alto de um mastro, onde se encontra hasteada a bandeira brasileira. Em segundo plano, vemos duas torres, sede do Congresso Nacional. A união da bandeira com a imagem do indígena e os prédios do parlamento ajudam a estabelecer uma relação entre pátria, território, povos originários e legislação. Uma provável associação com os direitos destes povos, prescritos na Constituição Federal de 1988, e que não estavam sendo garantidos pelo Congresso Nacional. O texto ainda menciona: “com a força do maracá2, do jenipapo e do urucum os povos originários do Brasil declaram o fim do governo genocida de Bolsonaro”. O argumento exalta o poder das lideranças indígenas, particularmente dos pajés, em contraposição ao poder estatal do homem branco, representado por Jair Bolsonaro e sua gestão abertamente contrária à pauta climática. Novamente uma reafirmação da importância da cultura ancestral dos indígenas para a manutenção da qualidade de vida no planeta. Vale salientar que esta interpretação tem em conta o lugar de enunciação do FFF-Brasil: jovens, estudantes, ativistas, moradores de um país do Sul Global. Sujeitos, estes, que são, ao mesmo tempo, testemunhas e atores nas lutas pela mitigação dos efeitos do aumento da temperatura do planeta no território nacional e que reconhecem a relevância dos povos da floresta para a conservação da biodiversidade. Como afirma Orlandi (2007a), os sentidos não estão só nas palavras, nos textos, nas imagens, mas na relação com a exterioridade, nas condições em que eles são produzidos, no modo como os sujeitos são afetados pelos acontecimentos e por uma memória discursiva atravessada pela história. Ao falar, estes sujeitos significam o mundo e a si próprios. Dito isto, intencionamos mostrar a relevância de se abordar os diferentes sentidos da crise climática, a partir da perspectiva de sujeitos outros, que não os do Norte Global. Desta forma, é possível perceber as multifacetadas condições para interpretação e, consequentemente, o gerenciamento do aumento da temperatura do planeta em contextos singulares.

Na EOD “Governamentais”, a categoria “Bolsonarismo” é dominante, sobretudo devido aos conflitos com as questões indígenas, entre outros fatores. De um total de n=46 postagens, n=19 abordam denúncias nominais contra o presidente e agentes públicos ligados ao governo. Uma prova de que os ativistas do FFF-Brasil associam o agravamento das alterações climáticas à desastrosa gestão de Bolsonaro. Há postagens com manifestações em Brasília, sede do governo federal, mas também em outras cidades do país. Alguns destes protestos eram transmitidos ao vivo, por lives, e depois incluídos como vídeos no feed. Um recurso para que, provavelmente, seguidores de várias partes do país e do mundo pudessem acompanhar os atos. A ineficiente administração de Bolsonaro foi uma questão fulcral não apenas para o FFF-Brasil, mas para ativistas de muitos outros pontos do planeta. Há, nesta EOD, uma série de vídeos publicados com áudio em inglês e legendas em português, provavelmente, produzidos por organizações internacionais, com acusações graves contra o presidente e postados no Instagram do FFF-Brasil. Um recurso que ajuda a ratificar a voz dos jovens, demonstrando a importância do contexto nacional no cenário da crise climática global.

A EOD “Ecológicas”, com um total de n=40 postagens, é a terceira mais representativa nesta construção do discurso climático do FFF-Brasil. A categoria “Desmatamentos” é a que se destaca, com n=22 postagens sobre a importância dos biomas brasileiros, não apenas a Amazônia, mas também a Caatinga, o Cerrado, os Pampas, a Mata Atlântica e o Pantanal. Grande parte destas postagens abordam ações de reflorestamento nestas áreas, além de reinvindicações para criação de unidades de conservação, a fim de salvaguardar o território nacional da devastação.

A EOD “Político-Científicas” apresenta um acentuado decréscimo no número de postagens, com um total de n=21. Neste conjunto, a categoria “COP-26” (Conferência das Partes) é prevalente. Há onze publicações sobre a participação de ativistas no evento. Duas delas mostram a entrega de cartas a políticos brasileiros sobre educação climática e preservação ambiental no país. Ambas utilizam o recurso de vídeo, destacando a interação dos jovens com as autoridades políticas e aproveitando para documentar uma abordagem amistosa entre governantes e ativistas. O que pode demonstrar um contraponto à tática contenciosa das greves climáticas, que tinham um tom mais agressivo, pouco aberto à negociação. Há ainda postagens sobre participação em mesas redondas para discutir problemas relacionadas ao cenário nacional e três outras com pedidos de doação a fim de custear despesas para que ativistas do FFF-Brasil pudessem representar a juventude do país na COP-26.

Por último, na EOD “Iniciativa Privada” existem apenas n=6 publicações, sendo três delas referentes ao rompimento da barragem de uma empresa de exploração de minério, que provocou sérios danos socioambientais na região. Os ativistas apontam a tragédia, provocada pela canadense Equinox, e solicitam doações a fim de ajudar a população atingida. As outras três postagens tratam da indústria da moda, do agronegócio e do uso de embalagens plásticas por empresas de delivery. A pouca incidência desta EOD demonstra que o FFF-Brasil não tem feito uma associação direta entre alterações climáticas e atividade econômica. O coletivo tende a culpabilizar as autoridades políticas. A responsabilidade da iniciativa privada e do sistema capitalista é pouco explorada. Inclusive os apelos de “No Fossil Fuel”, muito presentes nos protestos do Norte Global, e diretamente relacionados aos processos de industrialização, são quase inexistentes nas postagens do FFF-Brasil.

Na Fase 2, mais especificamente dentro dos meses analisados, é possível notar uma virada discursiva com relação à Fase 1, quando as postagens sobre greves eram maioria. Naquele período há uma prevalência da monotemática, que trata, quase que exclusivamente, dos protestos nas ruas. O FFF-Brasil segue, portanto, um padrão discursivo importado do Norte Global. Os layouts e textos apresentam pouca variação, em geral, com jovens segurando cartazes e algumas frases de efeito, por vezes, escritas em inglês (Figura 2). Isto corresponde ao que nomeamos “discurso globalizado”.

Já na Fase 2, dentro dos picos temáticos, há uma explícita heterogeneidade visual, bem como textual. O FFF-Brasil faz uso intenso e deliberado de diferentes símbolos nacionais, como: a bandeira brasileira; prédios do governo federal; povos indígenas; fauna local, a exemplo do lobo-guará e da onça-pintada (Figura 1), entre outros. Além disso, em alguns momentos, eles também recorrem ao recurso dos vídeos, que capturam incêndios em aldeias indígenas e na região do Pantanal, importante bioma brasileiro. Nestes casos, o audiovisual é muito útil para apresentar flagrantes dos efeitos já evidentes do aumento da temperatura no país ou de ações criminosas para a devastação destas áreas e posterior exploração do solo, como, por exemplo, pelo agronegócio.

Figura 2:
Exemplo de Postagens de Convocação e Resultados de Greves - Fase 1

Vale salientar que o Instagram é uma mídia de caráter eminentemente visual e este é um mecanismo bem aproveitado pelos ativistas nesta Fase 2. Além disso, o FFF-Brasil também faz uso de extensos textos-legendas, numa tentativa de oferecer o maior número de informações possíveis sobre as diferentes causas e consequências da crise climática no Brasil. Há ainda os encontros ao vivo - lives, utilizados para promover longas conversas participativas. Nestes momentos, ativistas brasileiros discutem temas que interessam, particularmente, a jovens de um país do Sul Global, como justiça climática e racismo ambiental.

Na Fase 2, com base nas postagens analisadas, vemos surgir e se estabelecer um “discurso enraizado” sustentado pela apropriação de temas nacionais, com argumentos que se aprofundam sobre os efeitos das alterações climáticas no Brasil e no cotidiano de uma população de um país do Sul Global. Todavia, vale salientar, que após abril de 2022 - na sequência do último pico temático, o FFF-Brasil diminuiu sua presença também dentro da rede. Apesar das postagens que não tratam das greves se manterem superiores às que dizem respeito às convocações para os protestos nas ruas; aquelas também ficam cada vez mais escassas. Isto demonstra um novo período de apatia do coletivo, semelhante ao que ocorreu após os picos de postagens de greves da Fase 1, entre outubro de 2019 e fevereiro de 2020, mas, provavelmente, por motivos distintos e que não foi objeto deste Estudo 2.

DISCUSSÃO

A fim de avaliar a construção de sentido das alterações climáticas por ativistas jovens do FFF-Brasil, investigamos os padrões de comunicação do movimento no país dentro do Instagram, entre março de 2019 e março de 2023. A análise de conteúdo do Estudo 1 revelou que as greves climáticas estudantis não foram bem-sucedidas no país, mesmo antes da COVID-19, quando os coletivos da Europa reuniam milhares de estudantes nas ruas (Fridays for Future, 2024). Durante o primeiro ano, que corresponde àquilo que nomeamos de Fase 1, os ativistas investiram no “discurso globalizado”, ainda muito dependente do contexto do movimento no Norte Global; pautado, especialmente, na convocação para as greves. Salientamos que, na teoria do processo político, a ação contenciosa é um conceito fundamental, pois assinala as formas específicas de agir coletivamente contra os oponentes. Isto envolve escolhas e criatividade, no entanto, encontra limites na cultura local e nos constrangimentos das estruturas de oportunidades políticas (Alonso, 2012). Restrições que também são mencionadas por Cavaco (2025) ratificando o que Della Porta e Kriesi (1999) destacam. Estes autores afirmam que as estratégias internacionais encontram barreiras quando empregadas em diferentes conjunturas, devido a configurações ímpares, especialmente em países do Sul Global. Por outro lado, eles estão de acordo que um movimento internacional pode oferecer vantagens aos ativistas para compartilharem experiências, receberem treinamentos sobre estratégias e alcançarem maior visibilidade.

No Brasil, a trajetória do FFF foi, aos poucos, sendo adaptada ao cenário nacional. Diante da inexpressiva presença de jovens nas ruas após as três primeiras greves e, consequentemente, da falta de cobertura da mídia de massa, notamos uma mudança de posicionamento. Em março de 2020, um ano após o início do FFF-Brasil, o lockdown da COVID-19 forçou a completa digitalização de quase todos os coletivos ao redor do mundo (Sorce & Dumitrica, 2022). A própria Thunberg postou um apelo nas suas redes sociais solicitando que os ativistas evitassem aglomerações e respeitassem as recomendações dos especialistas. Porém, essa talvez tenha sido também uma grande oportunidade para os coletivos testarem outras estratégias, particularmente no Brasil, diante da ineficiência das greves nas ruas.

A partir do segundo ano, durante a Fase 2, as postagens temáticas crescem enquanto as de greves permanecem em níveis muito baixos. Daquele momento em diante, como apontam os resultados do Estudo 2, quando observamos n=177 postagens temáticas, o FFF- Brasil começa a investir no “discurso enraizado”. A baixa presença dos jovens nas greves climáticas durante a Fase 1, foi, provavelmente, percebida como um indício de que antes de convocarem o público para a ação coletiva era preciso criar a conscientização e a identidade necessárias para o engajamento. Como afirma Santos et al. (2025), o ativismo jovem necessita de uma maior difusão do conhecimento sobre as questões que envolvem as alterações climáticas

Diante do exposto, defendemos que, para um movimento transnacional como o FFF, um discurso genérico, consensual e “globalizado” é necessário para coordenar ações amplas em configurações diversas, oferecendo maior notoriedade à causa. Todavia, para os coletivos locais, um discurso alinhado à agenda nacional é crucial a fim de estabelecer legitimidade e criar posições viáveis para a ação.

Ao saírem das ruas para as redes, os ativistas aproveitaram algumas Estruturas de Oportunidades Discursivas do cenário nacional, utilizando os recursos do Instagram como janela para ação política. Durante a Fase 2, os jovens começam a construir um discurso mais elaborado. Nos picos temáticos, apresentam argumentos que não se restringem às frases curtas de protestos, utilizadas nos cartazes durante as greves e atreladas ao posicionamento do Norte Global. Por meio de uma combinação de fotos, vídeos, conversas ao vivo e longos textos-legendas, o FFF-Brasil mostra que as alterações climáticas são um fenômeno que se manifesta de múltiplas formas, dependente não apenas das características de um dado território, mas também do lugar de enunciação dos sujeitos que abordam o problema. Há, portanto, singularidades no país e no discurso destes jovens que devem ser consideradas e amplamente discutidas.

A transformação do “discurso globalizado” em “discurso enraizado” parte da premissa de que para significar e agir em prol das alterações climáticas é preciso considerar o contexto em que os fenômenos e os enunciados emergem e operam. Termo este que não diz respeito apenas a limites geográficos, mas inclui a cultura, o modo de estar no mundo, ou seja, considera as raízes fincadas numa terra que deu origem a outros jovens, que não aqueles da Europa. Os recursos do Instagram foram fundamentais para a construção do “discurso enraizado”, proporcionando aos ativistas apresentarem distintas evidências das alterações climáticas no país e reivindicarem soluções mais adequadas à realidade nacional.

Por outro lado, é importante notar que o excesso de textos e imagens utilizados na elaboração do “discurso enraizado” poderá ocasionar uma sobrecarga de informações para decodificação do interlocutor. Vale lembrar que os jovens seguidores da conta do FFF-Brasil é uma geração acostumada a mensagens cada vez mais curtas e instantâneas. Por isto mesmo, pesquisas futuras serão úteis para avaliar o impacto das publicações no público-alvo, com a observação de curtidas, visualizações e comentários nas postagens. Outras pesquisas também poderão oferecer contribuições relevantes ao relacionarem os dados deste artigo com entrevistas junto aos ativistas do FFF-Brasil. Assim, será possível entender, por exemplo, que critérios foram utilizados na definição dos temas e organização do calendário de postagens no Instagram para muito além das sextas-feiras - dia reservado às manifestações nas ruas e que deixaram de ser prioridade na pauta do coletivo no país. Investigações sobre o repertório de ações do FFF-Brasil também são pertinentes, justamente porque o movimento não vem utilizando as greves como tática principal. Recomendamos ainda estudos que observem o movimento sob a gestão do presidente Lula da Silva, de posicionamento mais moderado do que seu antecessor, Jair Bolsonaro. Este outro contexto político é fundamental para entendermos se o FFF-Brasil continuou estagnado após abril de 2022, com baixo número de postagens, tanto temáticas, quanto de greves. Ou se retomou as atividades, a fim de aproveitar as novas Estruturas de Oportunidades Discursivas e Políticas, reivindicando soluções para a crise climática que, segundo dados do IPCC (2023), não parece estar próxima do fim.

Por último, como afirma (Fischer et al., 2023), à medida que o cenário se agrava, é provável que o ativismo cresça, mas há também uma tendência à repressão por parte dos governos. Sendo assim, novas pesquisas são necessárias para entendermos como é possível melhorar a interlocução entre sociedade civil e autoridades públicas, considerando as diferentes vozes que precisam estar envolvidas neste debate.

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  • 1
    - Tese jurídica de 2009 segundo a qual, no caso Raposa Serra do Sol, os povos indígenas só teriam direito à demarcação daquelas terras se estivessem na posse delas a partir de 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal do Brasil (APIB, 2025).
  • 2
    - Para algumas etnias, o maracá possui grande poder espiritual. Considerado um objeto nobre, é também utilizado pelos pajés em solenidades e rituais religiosos (FUNAI, 2025).
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Editado por

  • Editor Responsável
    Pedro Roberto Jacobi
  • Editor Associado
    Rylanneive Teixeira

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    13 Jun 2024
  • Aceito
    26 Out 2025
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