Open-access Anotações sobre o ensaio

Notes on the Essay

Notas sobre el ensayo

Os artistas por vezes escrevem sobre aquilo que projetam ou que já fizeram em suas oficinas, sobre seus devaneios e deleites, mas também sobre suas aflições e ambições. Muitas vezes o fazem sem as amarras dos enquadramentos teóricos, dos escopos metrificados de antemão. A linguagem aí pode ser construída por fragmentos, filtrada pelas redes empíricas, mais ou menos metódicas, ou proposta por gramaticalidades administradas por vórtices irresistíveis e cheios de temporalidade. Não há limites? Bem, essa seria uma longa, talvez interminável conversa (onde o particular é muitas coisas) a ser melhor discutida pelos próprios ensaios.

Sem juízos prévios, nem além nem aquém da teoria, há muito que ensaios produzidos nos perímetros desses territórios, onde inquietude e placidez podem ter o mesmo valor, tem sido uma prática constante e não só entre artistas. Não seria estranho podermos pensar numa epistemologia do ensaio, por onde navegariam gestos, sons, imagens, palavras, iluminações e sombras, contribuições aparatosas, que vem alimentando muitos estros, fantasias e imaginações, como figuras moleculares das construções no âmbito do fazer e das reflexões sobre ele.

Estamos falando menos de fronteiras entre teoria e prática, prosa e poesia, e mais de olhares oblíquos, tortuosos ou agudos, que se põem em trânsito numa espécie de festa dos sentidos, numa conflagração possuidora de pequenos desregramentos nas aventuras dessas odisseias lagunares.

Às mudanças da forma corresponderiam metamorfoses da prosa, em suas vivências de casulo, em seus voos mantidos pelas brevidades e exuberâncias na vida das muitas e diversas oficinas. Nesse sentido, os ensaios testemunham, nas mudanças constantes de rota, sua propriedade mais emblemática, já que os artistas sempre podem ser melhor lidos através das coisas que produzem, “presentes na sua ausência...aparecendo na qualidade de desaparecidas” (Blanchot, 2011).

A criação, as construções e as categorias estéticas mantêm uma forte imantação entre suas autonomias ontológicas e suas heteronomias processuais e é desse pulso que podem brotar os ensaios de toda ordem, muito além das censuras cartesianas, abrindo jogos especulares entre razões teóricas e razões práticas, onde ambas podem partilhar os nascimentos experimentais e as visões à contraluz. Quando nos deparamos com a enorme variedade de formatos que podem ser abordados por esses textos, em diferentes autores, tempos e lugares, notamos sua estrutura constelar, evocando diálogos diacrônicos e sincrônicos.

É também de maneira experimental que pretendemos abrir um caderno, nos próximos números da Ars, para ensaios relativos às artes plásticas, que poderá ser ocupado por convite ou por submissão à equipe editorial da revista. Importante ressaltar que nossa revista já vem, desde seu primeiro número, acolhendo textos ensaísticos, mas o que propomos agora é que tenhamos uma extensão mais sistemática de publicações dessa natureza.

REFERÊNCIAS

  • BLANCHOT, Maurice. O espaço literário. Rio de Janeiro, Rocco, 2011.

Declaração de disponibilidade de dados:

Não se aplica

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    30 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    14 Jan 2026
  • Aceito
    10 Fev 2026
location_on
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo Depto. De Artes Plásticas / ARS, Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443, 05508-900 - São Paulo - SP, Tel. (11) 3091-4430 / Fax. (11) 3091-4323 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: ars@usp.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro