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Open-access Adendo: Imigrantes e dissidentes: Estoicismo e ação política radical em Roma

Addendum: Immigrants and Dissidents: Stoicism and Radical Political Action In Rome

No artigo DINUCCI, A. et al. (2024). Imigrantes e Dissidentes: Estoicismo e ação política radical em Roma. Archai 34, e03430.https://doi.org/10.14195/1984-249X_34_30, foi necessária a adição da informação para fortalecer a comunicação científica entre a academia e a sociedade, e deve-se considerar a inclusão da seguinte informação:

Entrevista com Aldo Dinucci

A entrevista está disponível no link: https://youtu.be/dk8mdBg-14s?si=L3DSMiyYyKKRxE-x

Fonte: Revista Archai

Transcrição

Flavia Amaral

Olá, meu nome é Flávia Amaral e hoje eu converso com o professor Aldo Dinucci. Aldo, qual é o título do seu artigo e qual é a pergunta de pesquisa que ele responde?

Aldo Dinucci

Olá, Flavia. O nome do artigo é "Imigrantes e dissidentes: estoicismo e ação política radical em Roma". E o artigo visa responder duas perguntas sobre a origem do estoicismo em relação a questões que estão muito arraigadas entre os comentadores. A primeira delas é: qual é a origem do estoicismo propriamente dito? Podemos considerar o estoicismo um fenômeno intercultural, quer dizer, um resultado do encontro entre diferentes culturas? Porque um fato frequentemente ignorado é que o estoicismo foi fundado por um fenício, que é o Zenão de Cítio. E os fenícios tinham uma cultura muito importante naquela época, inclusive Diógenes Laércio cita filósofos fenícios como antecedendo a filosofia grega. E os demais seguidores de Zenão, naquele primeiro momento, os chamados zenonianos, eram todos, embora de origem grega, da Ásia Menor, eram todos orientais. Então, houve ali um encontro entre o Ocidente e o Oriente. E esse encontro nunca é devidamente investigado pelos comentadores, que supõem simplesmente que o estoicismo é uma filosofia ocidental, o que não é o caso, o que é falso. Então, a primeira pergunta é sobre isso: podemos considerar o estoicismo como uma filosofia, como um fenômeno intercultural, uma filosofia que surge a partir do encontro entre o Ocidente e o Oriente? E o segundo ponto, a segunda questão que a gente quer responder também é sobre o caráter político do estoicismo, que, via de regra, os comentadores ou ignoram essa questão ou supõem, erroneamente, que os estoicos eles se afastavam dos temas políticos e que o estoicismo é meramente uma filosofia de vida, um modo de viver, que dava as costas para a política. Mas, quando a gente começa a investigar os filósofos, sobretudo no período imperial, a gente vê que a realidade é muito diferente, porque havia filósofos que lutavam e tinham uma atuação constante contra a tirania, lutavam contra imperadores que eles consideravam tirânicos como Vespasiano, Nero, Domiciano, e lutavam também pela liberdade de fala quanto a assuntos relacionados à política. E muitos deles ou foram exilados ou foram condenados à morte por isso. Então, o artigo procura responder essas duas perguntas fundamentais. Podemos considerar o estoicismo um fenômeno intercultural? Podemos perceber uma faceta política no estoicismo? Então, essas são as duas questões principais, que são questões ignoradas pela academia, via de regra.

Flavia Amaral

Então, na verdade, você já responde ali o que eu ia te perguntar, que seria o que ele traz de novo. Então, de fato, o que ele traz de novo é olhar para essas questões que têm sido ignoradas pelos outros comentadores, correto?

Aldo Dinucci

Exatamente, exatamente.

Flavia Amaral

Muito bom. E como que então você chega a tratar esse tema?

Aldo Dinucci

A gente investiga as fontes históricas, as fontes primárias, que é algo que... há uma divisão muito forte entre os historiadores e os filósofos, e os comentadores de filosofia, e muitas vezes os comentadores de filosofia não estudam devidamente as referências primárias históricas. E é justamente estudando as referências primárias históricas que a gente percebe tanto essa origem não grega, não ocidental do estoicismo, quanto a atividade política deles.

Flavia Amaral

A gente sabe que você é um grande estudioso do estoicismo, mas a gente quer saber o que levou você a se interessar especificamente por esses dois temas de pesquisa: essa origem não grega e essa questão política por trás do estoicismo.

Aldo Dinucci

Justamente através do estudo dessas fontes primárias. Eu fui percebendo uma série de coisas que os comentadores ignoravam, como, por exemplo, a atividade política de vários senadores romanos ligados ao estoicismo que os levaram ou ao exílio ou à pena de morte. Atividade política que levou o professor de Epíteto, Musônio Rufo, três vezes ao exílio, atividade política que levou o próprio Epiteto ao exílio, atividade política que envolveu, inclusive, mulheres, que é coisa muito pouco comentada, como Claudia Fânia, como Gratila, como a própria filha de Catão, o Jovem, a Porcia Catonis, que levou muitas delas também ao exílio. Então, eu pensei: "Poxa, está tudo aqui nas referências históricas, por que ninguém fala sobre isso?". Porque as pessoas ignoram, porque os comentadores ignoram isso. Acho que ignoram justamente porque não estudam isso.

Flavia Amaral

E Aldo, você mencionou essa questão política, essa questão da própria história da filosofia, de entender a filosofia, de entender as origens não ocidentais dessa corrente filosófica. Mas a gente queria saber quais são as outras áreas que poderiam dialogar com esse tema do seu trabalho e que áreas ou que tipo de pesquisadores também se beneficiariam da leitura do seu artigo.

Aldo Dinucci

Duas áreas principais. Primeiro, estudos clássicos e segundo, a própria história. Então, é legal que nosso trabalho tem despertado interesse nessas duas áreas, de outros pesquisadores dessas duas áreas. Inclusive, estou indo na próxima semana para São Paulo e para o Rio, convidado para eventos de estudos clássicos. Então, nosso trabalho de filosofia dialoga com esses campos, o que é muito importante. E a coisa que insisto, não é muito feita. As pessoas, na filosofia, costumam só, naquela mentalidade analítica, se concentrar só em argumentos e perdem tudo... o talvez principal: o contexto no qual esses argumentos foram pronunciados, foram discutidos. E eu considero fundamental isso, que você estude, é importantíssimo, obviamente, os argumentos, mas é igualmente importante estudar o contexto em que esses argumentos foram discutidos, foram colocados.

Flavia Amaral

Sem sombra de dúvidas. E como que está a sua pesquisa hoje? Quais são os próximos passos da sua pesquisa?

Aldo Dinucci

Bom, a partir desse artigo, que inclusive foi feito junto com a Kelly Rudolf, com o Marcos Balieiro, com o Caio Whiting, da Inglaterra, a Kelly Rudolf que é professora norte-americana, também radicada na Inglaterra, eu pretendo posteriormente trabalhar em biografias detalhadas de cada um desses homens e mulheres associados ao estoicismo na era imperial. Isso nunca foi feito. Tudo isso é feito de uma forma muito apressada, sem o devido cuidado. Eu quero me dedicar a fazer biografias detalhadas sobre eles a partir das fontes históricas. E nesse momento eu estou começando a fazer, eu já estou empenhado, já estou fazendo a biografia de Musônio Rufo, que vai fazer parte do prefácio da nossa edição do Musônio Rufo pela primeira vez na língua portuguesa, que inclusive acabamos de traduzir essa semana, eu e Cristóvão Santos, que é doutor em Filosofia e Linguística, e Filosofia e Linguística, doutor em duas coisas diferentes, um duplo doutor, podemos chamar assim, doutor sob minha supervisão em Sergipe. Então, a tese dele foi justamente essa: traduzir uma parte das diatribes de Musônio e eu outra. E eu agora estou confeccionando a biografia do Musônio para a introdução. E enfatizando esse caráter político dele, em que circunstâncias ele foi três vezes exilado, todas essas coisas.

Flavia Amaral

Excelente! Para a gente encerrar, você poderia recomendar alguma leitura seminal sobre esse tema tão rico que você tratou no seu artigo?

Aldo Dinucci

Pois é, então, eu recomendo, inclusive para os alunos, que se voltem para as fontes primárias antigas, os historiadores antigos, como Dião Cássio, Suetônio, e também o livro primeiro das diatribes de Epiteto, no qual a gente lê diversos comentários contra a tirania, diversos comentários sobre os estoicos e estoicas da época que lutaram contra a tirania. Então, eu recomendo que se voltem para essas fontes primárias que são frequentemente ignoradas no nosso meio. As pessoas lêem de segunda mão muitas vezes e ler de segunda mão nunca é uma boa ideia, para que possam compreender o contexto no qual essas filosofias foram desenvolvidas, o que com certeza amplia a nossa capacidade de compreender o que aconteceu, como tudo se deu na antiguidade.

Flavia Amaral

Excelente, Aldo. Muito obrigada e deixo aqui o convite para o pessoal, para que vocês leiam o artigo do professor Aldo e aprendam muito mais sobre esse fascinante tema da filosofia antiga. Muito obrigada, Aldo.

Aldo Dinucci

Obrigado, Flavia.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    24 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026
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