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Open-access Adendo: O Mito das Danaides em suas fontes: Tradução e notas

Addendum: The Myth of the Danaids in its sources: Translation and notes

Na tradução MOTA, M. (2024). O Mito das Danaides em suas fontes: Tradução e notas. Archai 34, e03422.https://doi.org/10.14195/1984-249X_34_22, foi necessária a adição da informação para fortalecer a comunicação científica entre a academia e a sociedade, e deve-se considerar a inclusão da seguinte informação:

Entrevista com Marcos Motta

A entreista está disponível no link: https://youtu.be/8TMwYUu0aO0?si=59rryGNgNIoGusmQ

Fonte: Revista Archai

Transcrição

Marcos Motta

Meu nome é Marcos Motta. Eu escrevi o texto "Mito das Danaides e suas Fontes: Tradução e Notas" para a Revista Archai. Eu sou professor titular do Instituto de Artes da Universidade de Brasília. Eu venho ministrando alguns seminários que trabalham com pesquisa universitária e pesquisa artística, e a cada semestre a gente apresenta um tipo de texto. A gente, por exemplo, já trabalhamos com Homero, já trabalhamos com as fontes pitagóricas. E no semestre, alguns anos atrás, a gente trabalhou com o mito das Danaides. Então, para esse seminário, eu traduzi as principais fontes para que todos tivessem acesso a essas fontes em sala de aula. Porque no lugar de pegar o mito resumido em algum livro, era bom pegar as várias fontes para você ter os vários aspectos desse mito. E daí, depois de um tempo, ano passado recebi um fundo da universidade e daí eu pude melhorar essas traduções, rever essas traduções, daí eu publiquei pela revista.

Juan Felipe Rivera

E gostaríamos de saber o que traz de novo esse artigo, qual é a nova aproximação que ele brinda.

Marcos Motta

Eu acho que é mais uma questão metodológica, porque quando a gente trabalha com mito, na maioria das vezes, a gente pensa no aspecto narrativo, em nossa tradição ocidental, com a ideia de encontrar a história. Só que quando você trabalha com a antiguidade, não existe a história. Existe uma pulverização, uma fragmentação, uma sobreposição de vários aspectos dessa história, não de um núcleo narrativo, entendeu? Então na antiguidade você tinha que isso que a gente chama de mito era recontado, retrabalhado e a melhor maneira de trabalhar com ele é justamente na pluralidade, na sua pluralidade. Então por isso que eu, ao traduzir e a disponibilizar para os estudantes e pesquisadores essas fontes, foi interessante porque ao invés de ver uma redução narrativa, eles puderam ver aspectos que muitas vezes não eram trabalhados. Por exemplo, quando a gente foi ler "As Suplicantes" de Ésquilo. Então o ponto de partida era "As Suplicantes" de Ésquilo. Aí depois, quando a gente mostrou as várias fontes do mito, eles começaram a ver que alguns desses aspectos foram trabalhados por Ésquilo e outros não. Ou seja, um dramaturgo, quando ele vai trabalhar com o mito, ele vai escolher alguns aspectos que ele vai trabalhar. Então, por exemplo, você tendo as diversas versões desse mito, você sai dessa ideia de canonizar uma versão só, como se fosse a narrativa, a história. Então, eu acho que foi importante do ponto de vista metodológico expor estudantes e pesquisadores para essa diversidade que existe nas fontes.

Juan Felipe Rivera

Agora surgiu a dúvida: em quais outras fontes você encontrou o mito?

Marcos Motta

As referências a mitos ou aspectos do mito das Danaides, é uma história que não é muito contada. Você tem o mito de Prometeu e vários outros mitos, são os chamados mitos mais consagrados. Então, se você, nessa arqueologia que foi realizada aí, a gente vai desde Homero, passando pela lírica, pela tragédia e vai até a sua recepção latina. Então, são mais de 40 fontes que foram traduzidas e disponibilizadas gerando vários aspectos. Então não dá para resumir. O que é que a gente pode ver é que esse mito foi retrabalhado num arco temporal que foi o foco nosso aqui em mais de 1.300 anos.

O objetivo de disponibilizar isso, é claro, não é ser exaustivo, mas apresentar, porque às vezes é uma linha, às vezes são três linhas, às vezes é uma narrativa maior. E tem vários aspectos, por exemplo, as Danaides ora elas são trabalhadas, mostradas como mulheres frágeis, ora elas são mostradas comicamente, até como Amazonas, como o oposto. Então é interessante observar a plasticidade do mito. Ou seja, esse mito, essa narrativa vai sendo contada, reperformada, adaptada, transformada. E a gente pode até fazer uma comparação, por exemplo, muitas vezes que a gente tem. Na antiguidade não teve o Livro dos Mitos, por exemplo, como a Bíblia na cultura ocidental, onde você tem lá mesmo, por exemplo, a história de Jesus Cristo, você tem quatro versões, você tem os quatro evangelistas. Então, na antiguidade não existiu a Bíblia do mito, ou seja, um texto que codificou a narrativa. Você não teve um controle disso. E com isso criou-se essa profusão de versões.

Juan Felipe Rivera

Você já comentou um pouco da sua experiência de docência, mas gostaria de saber o que levou você a interessar-se por esse tema.

Marcos Motta

Inicialmente, meu doutorado, há muito tempo atrás, foi sobre Ésquilo. Então, em Ésquilo eu me deparei com essas narrativas. E um aspecto que naquela época me chamou a atenção foi que Ésquilo colocou um coro de mulheres como protagonista da tragédia. E é algo extremamente ousado e experimental, porque você coloca um sujeito que não é um personagem, mas um coro, é um coletivo cênico, um coletivo dramático musical e mulheres que estão fugindo dos seus homens. Foi em 1999 que eu trabalhei com isso. Hoje as novas bibliografias e a mudança no mundo, você começa a ver que infelizmente isso se torna atual, porque você tem um drama de imigração: elas estão indo para outro país buscar asilo político, e você tem a questão das mulheres, a questão do feminino, ou seja, diversos temas que são hoje relevantes, caros para o mundo. Esse movimento de pessoas que são expulsas de seus lugares, você tem isso numa peça escrita 2.500 anos atrás e isso vai se renovando, mostrando que nós temos uma remitologização de algo que foi uma remitologização. Ésquilo remitologizou o mito em função de questões do seu século e nós hoje temos diante de nós esse movimento de pessoas e as questões sobre o feminino, questões de gênero.

Juan Felipe Rivera

É verdade, e você já também comentou um pouco com essa resposta, mas que outras áreas você acha que se beneficiariam da leitura desse artigo e dessas traduções?

Marcos Motta

A área ou inter-área que eu trabalho há muito tempo, são questões de interpretação, de hermenêutica, que serve para diversos campos do conhecimento. Mas nós temos aqui questões de sociologia, questões de história, questões na área das letras, da tradução. Os estudos clássicos são multidisciplinares, então a gente trabalha com esses textos e podemos redefinir eles e utilizar em diversos contextos. Só para se ter ideia, esse texto foi apresentado num seminário que trabalhava com erudição e criação. Então, os primeiros 45 dias desse seminário era para a gente se aprofundar na leitura, nos vários aspectos, nas versões do mito. Depois, cada estudante tinha que propor a sua versão desse mito. Escolher algum texto desse e produzir. Nós tivemos filme, nós tivemos dança, nós tivemos música, nós tivemos teatro tradicional. Um dos que foi bem interessante nessa época foi um texto que foi uma peça que foi um fragmento apresentado e depois recebeu recursos de leis culturais tanto do Distrito Federal como nacionais e se tornou um espetáculo chamado "As Danaides", que mostrava o confronto entre homens e mulheres. Muito interessante. Então você vê que essa recreação ela consegue hoje em dia ter apelos, tanto a questões de diversos campos do saber e ao mesmo tempo ser interartístico. Você tinha música, dança, artes visuais.

Eu acho que é bem interessante que o impulso criativo do mito não se esgota e ele ainda se materializa tanto em diversos campos do conhecimento como em diversas tradições artísticas.

Juan Felipe Rivera

Muito interessante essa pluralidade. Agora, gostaríamos de saber quais são os próximos passos da sua pesquisa, o que vem agora.

Marcos Motta

Essa pesquisa, ela foi importante porque eu pude voltar às traduções de Ésquilo, principalmente as traduções de "As Suplicantes". Ou seja, eu convivo com Ésquilo há muito tempo. Então, quando eu traduzi Ésquilo daquela maneira pro meu doutorado. Aí depois, quando eu dei esse seminário em 2011, nós estamos em 2025, então pude rever, a partir do que as pessoas apresentaram sobre o mito, o que eu pensava sobre o mito, como eu me aproximava. Porque o interessante dos seminários é que o seminário não é simplesmente eu dando aula para alguém. Ou seja, quando você joga esse material para os outros e os outros apresentam as suas perspectivas, forma essa interação. Então eu pude revitalizar meu contato com Ésquilo por meio desse seminário. E ano passado, por meio de um edital de financiamento da universidade para terminar e rever essas traduções, eu pude voltar para as traduções que eu tinha feito em 2000, 2001. E pude agora revitalizar essas traduções a partir desses fragmentos.

Ou seja, o grande desafio para o tradutor é ter em mente que, o que ele for colocar no papel e aquilo vai ser publicado, aquilo é fruto de uma escolha, ele vai ter que tomar alguma decisão. O que importa é que ele tenha o esclarecimento, consciência que essa decisão também é baseada num pressuposto. Se o seu pressuposto é plural, então você vai insuflar seu texto dessa pluralidade e não fechar esse texto a partir de algum código moral, algum código interpretativo que tente reduzir. Isso foi muito importante para mim quando eu fui retraduzir a tradução que eu havia feito, eu já estava insuflado desse olhar de que aquela versão que eu tinha ali, que Ésquilo tinha feito, ela tinha um debate interno com várias versões desse mito. É isso que eu acho fundamental a gente começar a pensar, porque muitas vezes a gente como tradutor, e na verdade um tradutor é aquele que estuda atentamente um texto, a gente tem muitas vezes um conceito de texto que não se vincula ao tipo de obra que você está traduzindo. Ou seja, Ésquilo e a dramaturgia e a grande parte dessas obras da antiguidade sabiam que elas estavam negociando com diversas versões e justapondo essas versões, mesmo que houvesse escolha. Agora, como trazer essa dimensão pulsante, essa abertura plural para dentro do seu texto? Porque muitas vezes na nossa formação, que é baseada no correto, no verdadeiro, a gente tenta encontrar a versão final desse texto, ou a versão idealmente mais próxima do original ou de uma tese que você está defendendo: “as Danaides são isso” “as Danaides são aquilo”, ou seja, muitas vezes a gente tem uma tendência a reduzir a diversidade do texto em função do nosso pressuposto tradutório. E isso para mim foi bem interessante que quando eu fui retraduzir, algumas decisões que eu tinha feito, eu falei “eu estou reduzindo esse aspecto plural que está presente no texto”. Então isso foi uma contribuição que eu consegui com essa pesquisa.

Juan Felipe Rivera

Obrigado. Já para terminar, gostaríamos que você nos recomendasse alguns textos, algumas leituras seminais sobre o tema, sobre as Danaides e sobre essas traduções.

Marcos Motta

Tem um livro que foi, que é um comentário relacionado a "As Suplicantes" que é do Bakewell que fala da tragédia da imigração, "As Suplicantes: As Mulheres Suplicantes de Ésquilo como uma Tragédia da Imigração" (Aeschylus’ Suppliant Women: The Tragedy of Immigration), é do Bakewell de 2013 e da University of Wisconsin Press. Eu acho que esse livro me abriu muita coisa.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    15 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026
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