Open-access Resenha de Aldo Dinucci. Manual de estoicismo: A visão estóica do mundo. Campinas: Auster, 2023, 144pp., ISBN 978-6587408656

Dinucci, Aldo. Manual de estoicismo: A visão estóica do mundo. Campinas: Auster, 2023. 144. 978-6587408656

O livro Manual de estoicismo: a visão estóica do mundo, lançado em 2023 pela editora Auster, consiste na publicação literária mais recente de autoria do Prof. Dr. Aldo Dinucci, professor titular da Universidade Federal do Espírito Santo e um dos principais tradutores e divulgadores do estoicismo no Brasil, responsável pela tradução de obras seminais como O manual de Epicteto, As Diatribes de Epicteto (livro I) e Sobre a brevidade da vida, assim como pela revisão técnica de obras contemporâneas destinadas ao grande público, como Um café com Sêneca (de David Fideler, publicado pela editora Sextante em 2022) e Lições de estoicismo (de John Sellars, publicado pela editora Sextante em 2023). A obra consiste em uma apresentação da filosofia estoica que inclui seu desenvolvimento histórico, seus elementos estruturantes e suas influências filosóficas, além de apropriações contemporâneas e exercícios de transformação pessoal. Suas 144 páginas dividem-se em seis partes: uma introdução (“Estoicismo e estoicismos”), quatro capítulos expositivos (“Breve biografia dos principais estóicos da Antigüidade”, “História da filosofia estóica”, “A prática do estoicismo” e “Como escrever seu próprio manual de estoicismo”), além de um apêndice com três conteúdos adicionais: um glossário, uma coletânea de célebres ditos estoicos e uma bibliografia recomendada em língua portuguesa.

A introdução, intitulada “Estoicismo e estoicismos”, divide-se em quatro subseções. Na primeira (“A retomada atual”), o autor apresenta o cenário contemporâneo de renovado interesse pela filosofia estoica, exemplificado em iniciativas como a terapia psicológica desenvolvida por Albert Ellis (Rational Emotive Behavior Therapy), a célebre trajetória do prisioneiro de guerra norte-americano James Stockdale, e as três principais correntes estoicas contemporâneas: a ambientalista de Kai Whiting, Leonidas Konstantakos e Will Johncock; a tradicional, que busca seguir o estoicismo antigo e conta com nomes como David Fideler, Chris Fisher e o próprio Dinucci; e a moderna, exemplificada por Massimo Pigliucci, que almeja adaptar o estoicismo à psicologia e à física modernas. A segunda subseção (“A concepção popular do que é ser um estóico”) apresenta as duas definições populares para tal adjetivação (impassibilidade ou resignação diante da adversidade, e austeridade ou rigidez em termos de valores e princípios), contrastando-as com a designação descritiva de “estudioso da filosofia estóica”, cujo esquecimento leva à errônea percepção contemporânea de que tal escola consistiria em uma mera e antifilosófica observância de preceitos. Na terceira subseção (“Estoicismo como filosofia de vida, ontem e hoje”), o autor opõe a tal percepção a asserção de que o estoicismo é, antes de mais nada, uma filosofia, e que tal filosofia (1) enxerga uma ordem cósmica essencialmente harmônica, à maneira heraclitiana, (2) almeja alcançar a eudaimonia por meio do autoexame socrático, e (3) possui um caráter fundamentalmente prático, a partir da influência dos cínicos. Contra a crença de que seria impossível praticar a filosofia estoica atualmente, devido a uma suposta insuperável alteridade sociocultural, o autor contrapõe três argumentos: (1) o estudo do estoicismo seguiu vivo na tradição bizantina; (2) o divórcio artificial entre teoria e prática é fruto de uma perspectiva medieval ultrapassada; e (3) diversas outras tradições de origem tão ou mais antiga quanto o estoicismo seguem vivas e pujantes nos dias atuais. A quarta subseção (“A razão de ser deste livro”) apresenta a proposta filosófica do autor de seguir o estoicismo tradicional sem abdicar daquela que seria sua parte mais importante: “a cosmovisão pela qual o humano se religa ao divino” (Dinucci, 2023, p. 17), ou seja, compreendendo-a como uma forma de espiritualidade baseada na percepção da harmonia cósmica e divina do mundo.

O primeiro capítulo, intitulado “Uma breve biografia dos principais estóicos da Antiguidade”, possui três subseções. A primeira (“A filosofia na Antiguidade”), apresenta as escolas filosóficas antigas como comunidades literárias abertas e interativas, cujo desenvolvimento se dava por meio de debates dentro de cada escola e entre as escolas. Na segunda (“O fundador do estoicismo e seus primeiros escolarcas”), o autor introduz a gênese filosófica do naufrágio do mercador fenício Zenão de Cítio (334-262 AEC) e seu posterior aprendizado sob o filósofo cínico Crates, culminando em reuniões públicas organizadas sob a Stoa Poikile (o Pórtico Pintado de Atenas), do qual derivou-se a denominação de sua própria escola. Em seguida, enumera as principais lideranças estoicas do período antigo, com menção significativa ao quarto escolarca estoico Diógenes da Babilônia, cuja passagem por Roma, no ano de 155 AEC, foi responsável pela bem-sucedida divulgação inicial da filosofia estoica entre os romanos, assim como à revolucionária proposta de justiça reformadora de Possidônio de Rodes e à atuação política do estoico e senador romano Catão de Útica contra o despotismo de Júlio César. A terceira subseção (“Estóicos posteriores”), apresenta os conhecidos nomes estoicos do senador e dramaturgo Lúcio Aneu Sêneca, do filósofo etrusco Musônio Rufo (e a Oposição Estoica, notável movimento político de oposição à tirania imperial romana), do liberto Epicteto e do imperador romano Marco Aurélio, antes de concluir com uma reflexão acerca da perenidade da proposta estoica de fraternidade humana universal.

O segundo capítulo (“História da filosofia estóica”) inclui três subseções. A primeira, intitulada “Quem eram os estóicos na Antiguidade”, retoma a narrativa fundacional de Zenão de Cítio, apresentando o antecedente histórico da natureza tripartite da filosofia (em cosmogonia, cosmologia/física e ética) e o cenário ateniense da revolução socrática do autoexame moral como ferramenta central filosófica, antes de mencionar diversos exemplos de estoicos dedicados ao conhecimento científico. Na segunda subseção (“As três partes da filosofia estóica”), o autor introduz a clássica divisão trinitária da filosofia estoica e suas respectivas metáforas: física (as árvores do pomar e a carne do animal), lógica (a cerca do pomar e os ossos/tendões do animal) e ética (os frutos do pomar e a alma do animal). A terceira subseção (“Breve explicação sobre a filosofia estóica e suas partes”) apresenta os princípios de cada uma de tais partes. A física estoica, derivada de Heráclito, baseia-se em uma inteligência universal providencial (Logos) que inicia sua atuação por meio do fogo primordial, em um processo cíclico que origina o princípio de extensão (água e terra) e a substância pneumática (fogo e ar), subdividida em quatro graus de tonicidade crescente e densidade decrescente: a estrutura física dos seres inanimados (hexis), a natureza dos vegetais (physis), a alma dos animais (psyche) e a alma humana racional (hegemonikon). A lógica estoica, por sua vez, inclui não apenas a lógica formal, mas também a teoria do conhecimento, a teoria da linguagem, a lógica proposicional, o estudo dos sofismas e a retórica, com o intuito central de discernir corretamente, entre as muitas representações (phantasia) originadas dos dados sensoriais, sua interpretação correta. A ética estoica, por fim, fundamenta-se na ideia de que a ação correta origina-se de um conhecimento adequado da realidade oriundo da interpretação correta dos dados sensoriais, ou seja, na concepção de que o único verdadeiro bem é a sabedoria que se origina do conhecimento e que nos permite fazer um bom uso das coisas externas, em si mesmas indiferentes.

O terceiro capítulo, intitulado “A prática do estoicismo”, abrange três subseções, estruturadas a partir da tripartição epictetiana da filosofia estóica. A primeira (“Tópico do juízo ou do desejo”) almeja corrigir nossos equívocos, em relação ao valor das coisas, a partir do célebre Teorema Ontológico de Epicteto, segundo o qual as únicas coisas sob nosso controle são o juízo, o impulso o desejo e a repulsa, enquanto as demais não são, em si mesmas, boas ou ruins. Para tal fim, caber-nos-ia exercitar nossa capacidade de escolha por meio do constante exame de nossas opiniões e da prática da gratidão à providência divina, cuja ação universal é necessariamente boa. Na segunda (“Tópico da ação”), o autor apresenta a perspectiva dos seres humanos como partícipes da inteligência divina, cujas consequências são o pertencimento à comunidade cósmica, a aceitação da causalidade inevitável e o desempenho adequado dos deveres inerentes aos diversos papéis sociais. Em seguida, introduz o conceito de círculos concêntricos de afetividade, originado pelo filósofo estoico Hiérocles: nós mesmos, nosso núcleo familiar, nossa família estendida, nossos parentes em geral, nossos concidadãos, nossos compatriotas e, por fim, todos os seres humanos - cuja consequência é uma postura cosmopolita e fraterna. A terceira subseção (“Tópico da persuasão”) apresenta a necessidade de distinguir entre a percepção sensorial e a interpretação decorrente, a partir de um teste de representações que se desenrola em quatro estágios: aguardar a redução da intensidade inicial, diferenciar o dado sensorial e sua interpretação, selecionar a virtude mais adequada como antídoto, e cultivar tal processo como um hábito.

O quarto capítulo (“Como escrever seu próprio manual de estoicismo”) apresenta treze subseções dedicadas a práticas específicas, cujos títulos autoexplicativos merecem ser enumerados em sua totalidade, por serem exemplares do vasto arcabouço instrumental estoico: “O exame de consciência”, “Ter as máximas à mão”, “Não se exibir nem se considerar sábio jamais”, “A comunhão consigo mesmo e o perdão a si mesmo”, “O exercício da gratidão”, “A visão da totalidade (experienciando a Divindade)”, “As virtudes, os vícios e as paixões no estoicismo”, “As boas paixões”, “A ira”, “Os papéis que nos cabem”, “É preciso fazer bom uso do tempo que nos foi dado”, “Todas as coisas ao nosso redor são efêmeras: é preciso celebrá-las” e “As amizades”. Delas, a subseção “As virtudes, os vícios e as paixões no estoicismo” merece especial atenção pelo detalhamento do que se poderia denominar de uma psicologia estoica. De natureza epistêmica, tal visão afirma que o estado natural psíquico humano seria a ausência de agitação (ataraxia) e que as emoções se originariam do assentimento a proposições sobre a realidade. As emoções negativas (sofrimento, medo, apetite e prazer) derivariam do assentimento a proposições equivocadas acerca da situação, enquanto as emoções positivas (desejo racional, cuidado e contentamento) seriam consequência do assentimento a proposições corretas. Desse modo, as emoções negativas resultariam da ignorância, que por sua vez daria origem aos quatro vícios: imprudência, intemperança, injustiça e covardia - e cuja contrapartida seria a sabedoria em sua quádrupla manifestação como prudência, temperança, justiça e coragem.

O apêndice inicia-se com um glossário de termos em grego e as traduções adotadas, sendo de particular relevância pela notória atuação do autor no campo tradutório especializado. Em seguida, a subseção “Ditos célebres para reflexão e memorização” apresenta quatro seções nominais, com frases de Musônio Rufo, Epicteto de Hierápolis, Lúcio Aneu Sêneca e Marco Aurélio, culminando em uma coletânea temática intitulada “Sobre religiosidade e orações”. Por fim, a bibliografia em língua portuguesa apresentada abrange referências primárias, referências secundárias e conteúdos virtuais.

Em suma, o livro do Prof. Dr. Aldo Dinucci consiste em um trabalho de grande envergadura na divulgação do estoicismo no Brasil, alcançando o feito nada desprezível de conciliar uma linguagem grandemente acessível ao público não especializado e uma enorme densidade de conteúdo minuciosamente estruturado, culminando em uma introdução imensamente contemporânea e instigante ao estoicismo original em toda a sua amplitude e alteridade transformadoras. Por seu conteúdo, a obra deve interessar não apenas ao grande público, como um contato robusto e abrangente com a cosmovisão estoica, mas também ao público acadêmico, como fonte valiosa de informações e conceitos meticulosamente apresentados e explicados.

Bibliografia

  • Aldo Dinucci. Manual de estoicismo: A visão estóica do mundo Campinas: Auster, 2023, 144pp., ISBN 978-6587408656
  • FALCÃO, G. M. 2023. Resenha de Aldo Dinucci. Manual de estoicismo: A visão estóica do mundo. Archai 34, e03420

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    07 Out 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    12 Jun 2024
  • Aceito
    11 Jul 2024
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