Open-access Construção e validação de cenário simulado para entrevista motivacional na enfermagem

Elaboración y validación de un escenario simulado para entrevistas motivacionales en enfermería

Resumo

Objetivos  Construir e validar um cenário de simulação clínica de alta fidelidade sobre entrevista motivacional em curso de graduação em enfermagem.

Métodos  Estudo metodológico, conduzido em três fases: 1) construção do cenário e conteúdo da simulação, desenvolvida por três docentes na área da saúde mental e psiquiátrica com experiência em simulação clínica; 2) validação de conteúdo do cenário de simulação, realizada por dez juízes; 3) teste do cenário, feito por 32 alunos do sexto ano do curso de graduação em enfermagem de uma universidade pública. Para a construção dos objetivos educacionais do cenário, utilizaram-se os domínios cognitivo, afetivo e psicomotor, embasados no referencial teórico sobre terapia centrada no cliente, seguindo as unidades de significância que nortearam e direcionaram toda a narrativa. Para análise dos dados da validação de conteúdo, foi utilizado o Índice de Validade de Conteúdo, que avalia, por meio da escala Likert, a porcentagem em concordância de acordo com cada critério estabelecido no instrumento de avaliação, sendo possível determinar a pertinência e/ou aceitação do item avaliado. A fim de testar o cenário com a população-alvo, a Escala de Satisfação e Autoconfiança no Aprendizado foi utilizada como instrumento de avaliação após o debriefing da simulação.

Resultados  A validação do cenário de simulação foi realizada por dez juízes, sendo oito do gênero feminino e dois do gênero masculino. O Índice de Validade de Conteúdo do cenário foi de 100% no quesito estrutura e apresentação, e relevância. Para o teste de cenário com o público-alvo, 32 discentes participaram dessa fase e, para a maioria, os recursos utilizados pelo professor durante a simulação foram úteis; entretanto, ainda não sentem domínio total sobre o tema.

Conclusão  O cenário construído obteve alta fidelidade pela avaliação dos juízes e estudantes. Portanto, pode se tornar um instrumento facilitador para educadores na capacitação de estudantes da graduação de enfermagem por meio da utilização da ferramenta “entrevista motivacional”.

Descritores:
Saúde mental; Entrevista motivacional; Educação em enfermagem; Exercício de simulação

Abstract

Objective  To build and validate a high-fidelity clinical simulation scenario on motivational interviewing in an undergraduate nursing course.

Methods  This methodological study was conducted in three phases: 1) scenario and simulation content development, developed by three mental health and psychiatric faculty with experience in clinical simulation; 2) simulation scenario content validity, performed by ten judges; 3) scenario testing, performed by 32 sixth-year nursing students at a public university. The scenario’s educational objectives were developed using the cognitive, affective, and psychomotor domains, based on Client-Centered Therapy’s theoretical framework, following the units of significance that guided and directed the entire narrative. The Content Validity Index was used to analyze the content validity data. Using a Likert scale, it assesses the percentage of agreement with each criterion established in the assessment instrument, allowing to determine the relevance and/or acceptance of an assessed item. In order to test the scenario with the target population, the Learning Satisfaction and Self-Confidence Scale was used as an assessment instrument after simulation debriefing.

Results  The simulation scenario was validated by ten judges, eight female and two male. The scenario’s Content Validity Index was 100% for structure, presentation, and relevance. Thirty-two students participated in the scenario testing with the target audience, and most found the resources used by the professor during the simulation useful; however, they still do not feel fully mastered.

Conclusion  The constructed scenario achieved high fidelity according to judges’ and students’ assessments. Therefore, it can become a facilitating tool for educators in training undergraduate nursing students through the use of the “motivational interview” tool.

Keywords:
Mental health; Motivational interviewing; Education, nursing; Simulation exercise

Resumen

Objetivos  Elaborar y validar un escenario de simulación clínica de alta fidelidad sobre entrevistas motivacionales en una carrera de grado en enfermería.

Métodos  Estudio metodológico, realizado en tres fases: 1) elaboración del escenario y contenido de la simulación, desarrollada por tres profesores del área de salud mental y psiquiatría con experiencia en simulación clínica; 2) validación del contenido del escenario de simulación, realizada por diez jueces; 3) prueba del escenario, realizada por 32 estudiantes de sexto año de la carrera en enfermería de una universidad pública. Para la elaboración de los objetivos educativos del escenario, se utilizaron los dominios cognitivo, afectivo y psicomotor, basados en el marco teórico sobre la terapia centrada en el cliente, siguiendo las unidades de significado que guiaron y orientaron toda la narrativa. Para el análisis de los datos de la validación de contenido, se utilizó el Índice de Validez de Contenido, que evalúa, mediante la escala Likert, el porcentaje de concordancia según cada criterio establecido en el instrumento de evaluación, lo que permite determinar la pertinencia o aceptación del ítem evaluado. Con el fin de probar el escenario con el público destinatario, se utilizó la Escala de Satisfacción y Autoconfianza en el Aprendizaje como instrumento de evaluación tras el debriefing de la simulación.

Resultados  La validación del escenario de simulación fue realizada por diez jueces, ocho de ellos mujeres y dos hombres. El Índice de Validez de Contenido del escenario fue del 100 % respecto a la estructura y presentación, y relevancia. Para la prueba del escenario con el público destinatario, 32 estudiantes participaron en esta fase y, para la mayoría, los recursos utilizados por el profesor durante la simulación fueron útiles; sin embargo, aún no sienten un dominio total sobre el tema.

Conclusión  El escenario construido obtuvo una alta fidelidad según la evaluación de los jueces y los estudiantes. Por lo tanto, puede convertirse en un instrumento facilitador para los educadores en la formación de los estudiantes de la carrera de enfermería mediante el uso de la herramienta “entrevista motivacional”.

Descriptores:
Salud mental; Entrevista motivacional; Educación em enfermería; Ejercicio de simulación

Introdução

A formação em enfermagem passa por mudanças constantes, destacando-se uma importante ferramenta de ensino e metodologia utilizada, a técnica de simulação clínica, que auxilia no desenvolvimento de competências essenciais no cotidiano de profissionais de saúde, tais como tomada de decisão, liderança, comunicação, julgamento crítico-reflexivo e resolução de problemas. Contribui, assim, para o desenvolvimento de um aluno mais capacitado para inserção no mercado de trabalho, além de formar um ambiente seguro, sem a exposição de um paciente real, para que o aluno se sinta confortável em aprender com seus erros, sem temê-los, garantindo maior autoconfiança e estabelecendo uma relação consolidada prática-teórica no curso.(1)

Nesse contexto, os cenários utilizados para realizar as simulações são baseados em casos clínicos já vivenciados pelo instrutor/docente, para que seja possível colocar em prática habilidades técnicas e não técnicas adquiridas ao longo do curso. Assim, forma-se um ambiente de reflexão o mais fielmente possível à realidade clínica, experienciada por diversos profissionais de saúde em sua jornada de trabalho diária.(2)

O ensino relacionado ao cuidado de usuários com uso problemático de substâncias psicoativas (SPAs) durante a graduação na área da saúde tem se mostrado relevante, diante da expressiva taxa epidemiológica de uma parcela da população que é acometida pelas consequências do uso problemático dessas substâncias. Diante dessa situação, a probabilidade de um profissional de saúde se deparar em um contexto de cuidado com esses usuários é considerável. Estudos afirmam que os profissionais de enfermagem representam mais da metade dos profissionais de saúde no mundo, o que torna os enfermeiros uma população-alvo de ensino de técnicas de cuidado para a identificação, prevenção e atendimento adequado das pessoas que fazem uso problemático de SPAs.(3)

Entre os modelos utilizados na assistência de enfermagem para o cuidado de usuários em uso problemático de SPAs, destaca-se a entrevista motivacional (EM). Um modelo de EM sugere que o sujeito pode estar localizado em um contínuo de diferentes estágios de motivação para mudança de comportamento, e, para cada um desses estágios, o indivíduo precisa de diferentes tipos de abordagens que sejam adequadas para aquele momento.(4)A técnica de EM cria uma conexão entre profissional de saúde e paciente, formando um ambiente mais propício para que o paciente consiga enxergar e trazer à tona a motivação pessoal com o compromisso e comportamento alvo. Assim, o profissional, por meio de empatia e aceitação, explora as individualidades e impulsões, com o objetivo de criar vínculo maior, um ambiente seguro e aptidão do paciente para realizar certo autocuidado.(4)

Estudos têm apontado para os benefícios do uso da EM na melhora do autocuidado e na prestação de serviços, principalmente no que se refere à comunicação com o paciente, influenciando uma mudança de hábitos que estimula um comportamento mais saudável, reduzindo possíveis riscos.(5,6) Além disso, demonstra-se extensa relevância da técnica que possui grande aplicabilidade em diversos cenários, sendo de baixo custo, fácil de ser implementada e com resultados promissores, melhorando tanto a prática dos profissionais de saúde quanto o processo de aprendizagem dos estudantes da mesma área.(7) É de extrema importância para os futuros profissionais de saúde e cuidadores o treinamento adequado relacionado ao uso de EM desde o ensino superior, para que o aluno consiga realizar abordagem com o futuro paciente de forma eficaz e aumentar o aconselhamento comportamental.(8)

Devido ao potencial da estratégia de ensino de simulação realística no conteúdo motivacional para estudantes de enfermagem, são necessárias a caracterização detalhada desse processo e a validação de um cenário de simulação sobre EM na graduação de enfermagem. Neste contexto, o presente estudo teve como objetivo construir e validar um cenário de simulação clínica de alta fidelidade sobre entrevista motivacional em curso de graduação em enfermagem.

Métodos

Trata-se de pesquisa metodológica norteadora da construção e validação de conteúdo de um cenário de simulação clínica de alta fidelidade realizada para ensino com base na EM. O estudo descreveu as seguintes fases: 1) construção do cenário de simulação; 2) validação de conteúdo por juízes; 3) teste do cenário por alunos do sexto período de graduação em enfermagem de uma universidade pública.

Este tipo de estudo é uma estratégia que, por meio do uso sistemático de conhecimentos existentes, busca desenvolver, aperfeiçoar, validar e avaliar instrumentos, dispositivos e métodos de mediação. Essa abordagem deve contribuir para a construção do conhecimento em uma área específica, ao propor formas de medir fenômenos. Para isso, utiliza ferramentas como questionários, escalas, além de tradução e adaptação de materiais.(9,10)

Para a construção do conteúdo do cenário de simulação, foi utilizado o referencial teórico sobre a terapia centrada no cliente, abordagem de EM e comunicação terapêutica.(11) Docentes com experiência sobre o tema e docente especialista em simulação clínica participaram nessa fase de elaboração. Os objetivos educacionais do cenário foram pensados com base na Taxonomia de Bloom, que aborda três domínios: domínio cognitivo, que está relacionado ao aprendizado e aos novos conhecimentos adquiridos; domínio afetivo, que engloba os sentimentos e posturas; e domínio psicomotor, que envolve as habilidades físicas.(12)

Adicionalmente, para nortear a construção do cenário de simulação clínica proposto para este estudo e direcionar toda a sua narrativa, seguiram-se as sete unidades de significância previamente definidas em pesquisa(13,14) publicada recentemente, sendo elas: 1) conhecimento prévio do aluno; 2) objetivo da aprendizagem; 3) fundamentação teórica da atividade; 4) preparo do cenário; 5) desenvolvimento do cenário; 6) debriefing; e 7) avaliação.

Para participar como juiz (a) especialista, o critério de inclusão foi atingir a pontuação mínima de cinco pontos, em um total de 14 pontos, de acordo com a Classificação de Especialistas do Modelo de Validação Fehring no quadro 1, sendo excluídos aqueles que não contemplassem a pontuação mínima exigida.(15-18)

Quadro 1
Classificação dos juízes

Quanto ao número ideal de juízes, foram seguidas as recomendações da Associação Brasileira de Normas Técnicas com base, em conjunto, na International Organization for Standardization (ISO) e na International Electrotechnical Commission (IEC) que, por sua vez, oferecem a norma ISO/IEC 25062:2011, que orienta uma amostragem mínima de oito participantes.(17)

A coleta de dados ocorreu em duas etapas. Primeiro, foi feita avaliação junto aos especialistas para validação do cenário por meio de convite via e-mail. Foram encaminhados convites para 11 especialistas, dos quais dez retornaram no prazo definido de dez dias, e para aquele que não retornou, foi enviado um novo convite com prazo de dez dias, sem obtenção de resposta.

Essa validação do cenário foi baseada no julgamento de juízes enfermeiros especialistas que analisaram a representatividade do conteúdo, além de realizar adequação, podendo sugerir a retirada, acréscimo ou alteração de algum item. A validação permite avaliar a qualidade dos dados contidos antes de serem implementados e colocados em prática por meio de testes.

Nas fases 2 e 3, foi apresentado também, tanto aos juízes quanto aos discentes, o Instrumento de Avaliação (via Google Forms®), elaborado pelas autoras e baseado em estudo publicado,(19) sendo composto por quatro categorias de análise de conteúdo: objetivo; estrutura; apresentação; e relevância. As afirmações referentes a cada critério foram analisadas a partir de uma escala do tipo Likert de cinco pontos (concordo totalmente (5); concordo parcialmente (4); nem concordo nem discordo (3); discordo parcialmente (2); discordo totalmente (1)), totalizando uma pontuação entre 5 e 20 pontos.(19)

Já a Escala de Satisfação e Autoconfiança no Aprendizado (ESAA) foi utilizada como instrumento de avaliação após o debriefing da simulação. Trata-se de uma escala traduzida e validada para o cenário brasileiro com bons índices de confiabilidade geral (α=0,84) para cada um dos construtos: satisfação (α=0,84) e autoconfiança com a aprendizagem (α =0,84). É um instrumento do tipo Likert de cinco pontos (discordo fortemente (1); discordo (2); nem concordo nem discordo (3); concordo (4); e concordo fortemente (5)), constituída por 13 itens, sendo cinco para avaliar a satisfação quanto à atividade de simulação e oito para avaliar a autoconfiança com a aprendizagem.(18)O escore pode ser calculado considerando cada subescala da seguinte maneira: subescala de satisfação de 5 a 25 pontos e subescala de autoconfiança de 8 a 40 pontos, sendo possível o cálculo da escala total de 13 a 65 pontos. A interpretação do escore é proporcional, ou seja, quanto maior, pode-se afirmar que os níveis de satisfação e autoconfiança são elevados.

O cenário de simulação foi testado pelos 34 alunos do sexto período de curso de graduação em enfermagem de uma universidade pública, os quais foram convidados a participar do estudo, tendo-se como critério de inclusão o estudante ter cursado a parte teórica da disciplina de enfermagem em saúde mental e psiquiátrica, visto a necessidade do conhecimento prévio para atingir o objetivo do cenário.

Os estudantes realizaram avaliação para teste do cenário, por meio de apresentação presencial do objetivo da pesquisa antes da atividade de simulação no laboratório de uma universidade pública. Logo após o debriefing, os participantes preencheram o instrumento de avaliação disponibilizado, ao término do cenário de simulação.

A amostra por conveniência totalizou 32 discentes, pois houve duas desistências ao longo do processo.

Na fase 2 para a validação do conteúdo, seguiu-se o Índice de Validade de Conteúdo (IVC), que avalia a porcentagem em concordância de acordo com cada critério estabelecido no instrumento de avaliação, sendo possível determinar a pertinência e/ou aceitação do item avaliado, somando-se as respostas com Likert 4 e 5, dividindo pelo número total de respostas possíveis, tornando-se aceitável o valor resultante mínimo de 0,80 ou 80%.(15)

A população envolvida no estudo (juízes e estudantes de graduação de enfermagem) foi orientada a assinar o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido no formato eletrônico.

Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Escola de Enfermagem da Universidade de São Paulo, sob Parecer no 5.000.933, seguindo as Resoluções no 466/2012 e no 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde (Certificado de Apresentação para Apreciação Ética 50941421.8.0000.5392).

Resultados

Fase 1 - Construção do cenário de simulação

Conforme demonstrado no Quadro 2, a construção do cenário se deu a partir da Taxonomia de Bloom, utilizando os domínios cognitivo, afetivo e psicomotor propostos.(12) O roteiro teórico-prático da atividade simulada foi elaborado com base em sete unidades de significância: 1. Conhecimento prévio do aluno - pré-requisito para os alunos participantes; 2. Objetivos da aprendizagem - resultados pretendidos para o aprendizado do aluno; 3. Fundamentação teórica - embasamento teórico pautado em evidências científicas; 4. Preparo do cenário - elaboração da situação clínica, recursos materiais e documentação de auxílio; 5. Desenvolvimento do cenário - descrição do roteiro para os atores e ações esperadas dos alunos; 6. Debriefing - desenvolvimento do raciocínio e as habilidades de julgamento por meio do processo de aprendizagem reflexiva; e 7. Avaliação - identificação do nível de competência dos alunos envolvidos na simulação.(13)

Quadro 2
Descrição do cenário

Fase 2 - Validação de conteúdo

A validação do cenário de simulação foi realizada por dez juízes, sendo oito do gênero feminino e dois do gênero masculino. O tempo médio de formação referido foi de 21,8 anos (mínimo de 11 e máximo de 41 anos, com moda e mediana de 20 anos), e de atuação profissional, de 21 anos (mínimo de 8 e máximo de 41 anos, com moda e mediana de 20 anos). Em relação à atuação profissional dos juízes, oito são docentes de graduação e pós-graduação, e dois, somente de graduação. Entre as áreas de atuação, foram citadas: simulação clínica (2); educação profissional técnica em enfermagem (2); saúde mental na atenção básica e epidemiologia (1); saúde mental e gestão em saúde (2); saúde do adulto, clínica médico-cirúrgica (1); docência (1); promoção da saúde e saúde coletiva (1); enfermagem (1). Quanto à titulação acadêmica, nenhum dos juízes possuía especialização, e todos possuíam títulos de doutor e mestre. A cada item avaliado pelos juízes, foi atribuída uma pontuação de valor +1 para as opções “concordo” e “concordo parcialmente”, sendo zero para a opção “indiferente” e -1 para “discordo” e “discordo totalmente”.(1,4,20) O IVC do processo de validação do cenário entre os juízes está apresentado na tabela 1, no qual nota-se que o índice mínimo dos itens avaliados foi de 90%. Portanto, todos os juízes aprovaram os itens apresentados (Figura 1). A avaliação individual dos juízes está demonstrada na tabela 2.

Tabela 1
Índice de Validade de Conteúdo do processo de validação dos cenários entre os juízes

Figura 1
Desenvolvimento do cenário com o esperado do participante voluntário e as ações do usuário padronizado

Tabela 2
Avaliação individual dos juízes em relação aos tópicos dos itens analisados do cenário de simulação

Fase 3 - Teste do cenário

Na avaliação do cenário com o público-alvo, participaram 32 discentes, sendo que havia no total 34 alunos na turma. Dois alunos solicitaram para se retirar durante a atividade por motivos extracurriculares. Todos os participantes da simulação estavam cursando o sexto período da graduação em enfermagem e, portanto, cumpriam com o pré-requisito para a pesquisa. Os dados obtidos por meio da ESAA preenchida pelos estudantes ao término do debriefing estão descritos na tabela 3. Nota-se que, para a maioria dos estudantes, os recursos utilizados pelo professor durante a simulação foram úteis, entretanto ainda não sentem domínio total do tema.

Tabela 3
Satisfação dos estudantes e autoconfiança na aprendizagem após o debriefing

Discussão

A construção de um cenário de simulação clínica voltada para os estudantes de graduação possui um papel pedagógico importante, ao integrar o aspecto teórico e prático de certa temática em um ambiente seguro, com o objetivo de gerar estímulo à participação ativa dos estudantes, construção de novas habilidades, além de incentivar pensamento crítico que será usado posteriormente em situações clínicas. Neste sentido, a integração de conteúdos como a EM atende esses preceitos, contribuindo na melhora do desenvolvimento do aluno durante sua formação, pois, conforme a evidência aponta, a EM é fundamental para promover uma assistência em saúde holística e integral que garanta os direitos e a autonomia da população.(4)

O cenário do estudo foi planejado com objetivos de aprendizagem bem trabalhados e uma determinação clara e concisa das ações esperadas pelos estudantes participantes, a fim de direcioná-los para realização de ações adequadas à simulação, conforme é apresentado na evidência disponível.(14) A simulação apresentou objetivos gerais e específicos, sendo os gerais os mais amplos, com aspectos essenciais e objetivos específicos, que incluíam habilidades psicomotoras, afetivas e cognitivas, conforme apresentado em outro estudo de simulação de média fidelidade, além de validação por especialistas.(19)

Para maior veracidade, foi oferecido ao docente que interpreta o papel de usuário um roteiro em forma de script contendo informações sobre a história de vida do paciente e respostas possíveis para certas situações que podem ocorrer durante a simulação, de acordo com perguntas e respostas do aluno voluntário, considerando os recursos disponíveis e o nível de conhecimento prévio dos estudantes, com o intuito de produzir um cenário fidedigno à realidade e com complexidade adequada ao público-alvo.(19)

Com o objetivo de atingir resultados mais satisfatórios no processo de aprendizagem dos estudantes, foram utilizados o briefing e o debriefing. Durante o briefing, antecedente ao cenário de fato, o facilitador deve repassar ao estudante voluntário o contexto do cenário, com informações que serão necessárias para realizar a atividade. Ele possui o papel de ser um guia para a melhor execução do projeto, garantindo um maior entendimento e desempenho dos alunos.(14)

Já para o debriefing, etapa final da simulação, o facilitador deve guiar uma discussão sobre as interações entre paciente simulado e aluno voluntário, para associar experiências prévias dos alunos com as novas habilidades obtidas e como poderão ser utilizadas no contexto prático. É importante apontar fatores que não foram abordados no cenário e aqueles que foram necessários para uma boa interação e condução da EM. Considerada a etapa fundamental para reflexão e síntese de aprendizado, deve tomar a maior parte do tempo do desenvolvimento do cenário.(14)

Com relação à validação efetivada pelos juízes, os resultados deste trabalho apresentam que os itens “estrutura e apresentação” e “relevância” apresentaram um IVC médio de 100%, demonstrando êxito em relação ao planejamento do cenário e organização das etapas que constituem a simulação. Já o tópico “As informações apresentadas no cenário (quantidade e nível de profundidade) conseguem abranger bem o conteúdo sobre entrevista motivacional” gerou um IVC de 90%, sendo o único item validado pelos juízes que não atingiu sua totalidade. É importante ressaltar que, apesar de uma categoria ser avaliada como indiferente para um dos juízes, no geral, pode-se dizer que a simulação foi aprovada através do IVC gerado pelas pontuações.

Segundo estudo que identificou e comparou a satisfação e autoconfiança na aprendizagem de estudantes de enfermagem a partir do uso da simulação, no contexto da Atenção Primária à Saúde, os estudantes ficam mais satisfeitos após a vivência em simulação, sentindo-se mais confiantes ao se deparar com as mesmas situações na realidade assistencial. Ele afirma que o estudante satisfeito se torna mais motivado a aprender, sentindo-se mais proativo, e sua experiência durante a participação no cenário ganha significado. Seus resultados também demonstram o aumento da satisfação com a aprendizagem proporcionalmente à introdução do método de simulação clínica nos anos de graduação de enfermagem.(20)

Dessa forma, esta pesquisa se assemelha aos resultados do presente estudo, no qual a satisfação dos alunos demonstra a importância de continuidade da aplicação deste método de ensino na grade curricular do curso de enfermagem, a fim de intensificar a satisfação e autoconfiança dos estudantes. É válido salientar que essa satisfação também sofre influência do método de ensino utilizado e da maneira como o docente conduz a simulação. Assim, o docente sempre precisa utilizar formas diferentes de ensino e aprendizado, adequando-se ao perfil dos estudantes, apoiando-os e estimulando-os a ir além.(20)

Quanto ao aprendizado de técnicas em saúde mental, estudo aponta que os alunos do curso de enfermagem se sentem confiantes em utilizar a EM na prática clínica, porém não consideram importante a aplicabilidade da EM. A confiança observada pode estar relacionada a um domínio maior do curso de enfermagem ao uso de perguntas abertas. Já o sentimento de não considerar importante a EM pode se dever à não integração padronizada do seu uso no cotidiano dos enfermeiros. Portanto, a realização de simulações no âmbito acadêmico servirá de estímulo para a compreensão da eficácia desta técnica com os pacientes e da necessidade da sua aplicação no trabalho da enfermagem.(21)

Diferentemente dos resultados indicados pelo estudo citado anteriormente, os quais afirmam que os alunos do curso de enfermagem não consideram importante a aplicabilidade da EM, a presente pesquisa apresentou médias favoráveis dos participantes em relação à confiabilidade de utilidade da temática, sendo que, dos 32 alunos, três se sentiram indiferentes a este tópico, e três, pouco satisfeitos, demonstrando que a maioria dos estudantes participantes da simulação acredita que a aplicabilidade da EM no contexto clínico é importante para a assistência ao paciente.

O ensino da EM para estudantes de enfermagem está presente de maneira ampla nos cursos de graduação, e os treinamentos realizados por meio da simulação da prática ganham destaque nas grades curriculares, apresentando resultados promissores. A utilização de técnicas de ensino da EM que incorporam a simulação tem se demonstrado tão eficaz quanto os encontros presenciais com os pacientes.(21)

Identificam-se como limitações deste estudo o número de estudantes participantes da testagem do cenário e a realização da validação do público-alvo em apenas uma universidade. Dessa forma, os resultados do estudo não podem ser generalizados. Apesar disso, o presente estudo contribui para o conhecimento dos estudantes de enfermagem em relação à relevância da utilização da EM no cotidiano clínico e da importância na inclusão da temática em mais momentos da graduação.

Conclusão

Este estudo construiu um cenário de simulação clínica sobre EM e o validou de forma eficaz, obtendo-se alta fidelidade através da avaliação dos juízes e estudantes. Os resultados mostram a necessidade de continuidade de aplicação e aprimoramento desse cenário de simulação pelos docentes, a fim de aperfeiçoar este método de ensino, contribuindo para o processo de ensino-aprendizagem do aluno e futuro profissional. Espera-se que este estudo possa contribuir para a produção de mais pesquisas acerca da importância de implementar cenários de simulação durante a graduação, visto que será dada a oportunidade ao estudante em participar de uma situação mais próxima possível da realidade clínica para melhora de seu desempenho, pois ele conseguirá perceber seus erros e terá a oportunidade de corrigi-los, encarando e lidando com os desafios antes de atuar em um cenário real.

Agrdadecimentos

Este estudo foi financiado parcialmente pela Coordenação para o Aperfeiçoamento do Pessoal do Ensino Superior - Brasil (CAPES) - Bolsa n.º 001.

Referências

  • 1 Carvalho LR, Zem-Mascarenhas SH. Construction and validation of a sepsis simulation scenario: a methodological study. Rev Esc Enferm USP. 2020;54:e03638.
  • 2 Fonseca AS, Reis F, Melaragno AL. Habilidades para as melhores práticas clínicas. In: Melaragno AL, Fonseca AS, Assoni MA, Mandelbaum MH, organizadores. Educação Permanente em Saúde. Brasília (DF): Aben; 2023. p.31-6.
  • 3 Ribeiro D. Intervenção Breve e Entrevista Motivacional no Uso de Substâncias Psicoativas. Medicina (Ribeirão Preto). 2024 ;57(1):e-221927.
  • 4 Silva AS, Germano Ferreira N, da Silva Jardilino D, Alves do Nascimento L, Minervina Moraes de Sabino L. Aplicação de entrevista motivacional no âmbito da saúde: revisão integrativa. Rev Enferm Atual In Derme. 2022;96(40) https://doi.org/10.31011/reaid-2022-v.96-n.40-art.1452
    » https://doi.org/10.31011/reaid-2022-v.96-n.40-art.1452
  • 5 Lima FS, Costa N, Soares PR, Ribeiro SG, Lima FE, Almeida CB, et al. Educational strategies for preventing female infections in prison: a scoping review. Acta Paul Enferm. 2024;37:eAPE003246.
  • 6 Nascimento TM, Heisler M, Nery M. Avaliação do aprendizado e realização de um método de entrevista motivacional pelos agentes comunitários de saúde para melhora do autocuidado em diabetes dos pacientes da estratégia de saúde da família. Arch Med Familiar. 2021;23(3):173-9.
  • 7 Silva AS, Ferreira NG, Jardilino DS, do Nascimento LA. Aplicação de entrevista motivacional no âmbito da saúde: revisão integrativa. Revista Enfermagem Atual in Derme. 2022;96(40):e-021317.
  • 8 De Souza FP, Heinen M, Oliveira MD. Reflexões sobre um treinamento em entrevista motivacional em estudantes da área da saúde. PsicolArgum. 2020;38(99):88-107.
  • 9 Salbego C, Nietsche EA, Cogo SB, Girardon-Perlini NM, Ramos TK, Greco PB, et al. Validação de modelo metodológico de pesquisa para o desenvolvimento de tecnologias em enfermagem. Texto Contexto Enferm. 2024;33:e20230370.
  • 10 Galvão PC C. de Vasconcelos CB, de Amorim CRF, Lima RO da C, Fiorentino G. Caracterização dos estudos metodológicos em enfermagem: revisão Integrativa. Int J Dev Res. 2022;12(03):54315-7.
  • 11 Branco PC. As pesquisas clínicas coordenadas por Carl Rogers: apontamentos metodológicos e repercussões. Psicol Pesqui. 2022;9(2):75-86.
  • 12 Santos LC, Lima MW, Schäfer AG, Nascimento JL, Carvalho FL, Carvalho DK. Bloom's taxonomy and its applicability to collaborative learning in distance learning. Seven Editora. 2024. Cap.16. https://doi.org/10.56238/sevened2023.008-016
    » https://doi.org/10.56238/sevened2023.008-016
  • 13 Lima LG, Draganov PB, Sampietri IC, Saito KA, Balsanelli AP. Construction and validation of a clinical simulation scenario for teaching conflict management. Cogitare Enferm. 2023; 28. https://dx.doi.org/https://doi.org/10.1590/ce.v28i0.93134
    » https://dx.doi.org/https://doi.org/10.1590/ce.v28i0.93134
  • 14 Costa RR, Romão LG, Araújo Júnior JS, Araújo AS, Carreiro BO. Construção e validação de cenário de simulação médica no ensino de imunização. Medicina (Ribeirão Preto). 2022;55(3):e-192299.
  • 15 Vilaça LV, Bernardinelli FC, Correa AR, Ohl RI, Barichello E, Chavaglia SR. Transcultural adaptation and validation of the Hamilton Early Warning Score for Brazil. Rev Gaúcha Enferm. 2022 ;43(esp):e20210329.
  • 16 Alves GC, Amador FL, Santos VR, Moreira RS. Development and validation of a mobile application prototype for postoperative cardiac surgery. Rev Bras Enferm. 2024;77(5):e20230491.
  • 17 Colodetti R, Prado TM, Bringuente ME, Bicudo SD. Mobile application for the management of diabetic foot ulcers. Acta Paul Enferm. 2021;34:eAPE00702.
  • 18 Almeida RG, Mazzo A, Martins JC, Baptista RC, Girão FB, Mendes IA. Validation to Portuguese of the Scale of Student Satisfaction and Self-Confidence in Learning. Rev Lat Am Enferm. 2015;23(6):1007-13.
  • 19 Santos ME, Santos LN, Andrade JS, Silva JR. Validation of a realistic simulation scenario for teaching diagnostic reasoning in nursing consultation to patients with pulmonary tuberculosis. Res Soc Develop. 2021;10(13):e413101321351.
  • 20 Costa RR, Medeiros SM, Coutinho VR, Mazzo A, Araújo MS. Satisfaction and self-confidence in the learning of nursing students: randomized clinical trial. Esc Anna Nery. 2020;24(1):e20190094.
  • 21 De Souza FP, Heinen M, Oliveira MD. Reflexões sobre um treinamento em Entrevista Motivacional em estudantes da área da saúde. Psicol Argum. 2020;38(99):88-107.
  • Disponibilidade dos dados:
    Os autores não disponibilizaram os dados do presente artigo, em repositórios, antes da submissão.

Editado por

Disponibilidade de dados

Os autores não disponibilizaram os dados do presente artigo, em repositórios, antes da submissão.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    31 Jan 2025
  • Aceito
    8 Out 2025
location_on
Escola Paulista de Enfermagem, Universidade Federal de São Paulo R. Napoleão de Barros, 754, 04024-002 São Paulo - SP/Brasil, Tel./Fax: (55 11) 5576 4430 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: actapaulista@unifesp.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro