Open-access Uso da realidade virtual no ensino de enfermagem: revisão de escopo

Uso de la realidad virtual en la enseñanza de enfermería: revisión de alcance

Resumo

Objetivo  Mapear na literatura a aplicação da realidade virtual (RV) no ensino de estudantes de graduação em enfermagem.

Métodos  Trata-se de revisão de escopo elaborada de acordo com o referencial do JBI, guiada por meio do checklist PRISMA-ScR. A seleção dos artigos foi realizada em janeiro de 2024 em 12 fontes de dados. Os resultados foram analisados de forma descritiva e sintetizados em quadros.

Resultados  Foram selecionados 23 artigos para a síntese da pesquisa. As pesquisas incluídas foram conduzidas no período de 2020 a 2024, sendo notável a concentração de publicações em 2023. No que tange à origem geográfica, a maioria dos estudos se originou no continente asiático. Ademais, notou-se que 69,6% dos trabalhos adotaram os óculos de RV com os grupos de intervenção. Notou-se que a maioria dos alunos que participaram das intervenções experimentou, em geral, um sentimento positivo em relação à RV.

Conclusão  Foi possível mapear o uso da RV no contexto do processo de ensino-aprendizagem nos cursos de graduação em enfermagem. A tecnologia demonstrou ser uma ferramenta inovadora e complementar às metodologias tradicionais no ensino de enfermagem, promovendo maior interatividade. Seu impacto positivo reflete-se no aprimoramento de habilidades, embora desafios como custo e adaptação tecnológica ainda precisem ser superados. Assim, a integração planejada da RV pode contribuir para uma formação mais dinâmica e eficaz.

Descritores:
Realidade virtual; Educação em enfermagem; Ensino

Abstract

Objective  To map in literature the application of virtual reality (VR) in teaching undergraduate nursing students.

Methods  This is a scoping review prepared according to the JBI framework, guided by the PRISMA-ScR checklist. The articles were selected in January 2024 from 12 data sources. The results were analyzed descriptively and summarized in charts.

Results  Twenty-three articles were selected for the research synthesis. The included research was conducted between 2020 and 2024, with a notable concentration of publications in 2023. Concerning the geographical origin, most of the studies originated in Asia. Furthermore, it was noted that 69.6% of studies adopted VR glasses with the intervention groups. It was noted that most of students who participated in the interventions generally experienced a positive feeling towards VR.

Conclusion  It was possible to map the use of VR in the context of the teaching-learning process in undergraduate nursing courses. The technology has proven to be an innovative tool that complements traditional methodologies in nursing education, promoting greater interactivity. Its positive impact is reflected in the improvement of skills, although challenges such as cost and technological adaptation still need to be overcome. Thus, the planned integration of VR can contribute to more dynamic and effective training.

Keywords:
Virtual reality; Nursing education; Teaching

Resumen

Objetivo  Mapear en la literatura la aplicación de la realidad virtual (RV) en la enseñanza de estudiantes de la carrera de enfermería.

Métodos  Se trata de una revisión de alcance elaborada de acuerdo con el marco referencial del JBI, guiada mediante el checklist PRISMA-ScR. La selección de los artículos se realizó en enero de 2024 en 12 fuentes de datos. Los resultados fueron analizados de forma descriptiva y sintetizados en cuadros.

Resultados  Se seleccionaron 23 artículos para la síntesis del estudio. Los trabajos incluidos fueron realizados entre 2020 y 2024, donde se observó la concentración de publicaciones en el año 2023. En lo que atañe al origen geográfico, la mayoría de los estudios se originó en el continente asiático. Además, se observó que en el 69,6 % de los trabajos se utilizaron los anteojos de RV con los grupos de intervención. También se percibió que la mayoría de los alumnos que participó en las intervenciones experimentó un sentimiento positivo en general con relación a la RV.

Conclusión  Fue posible mapear el uso de la RV en el contexto del proceso de enseñanza-aprendizaje en las carreras de grado de enfermería. La tecnología demostró ser una herramienta innovadora y complementaria de los métodos tradicionales en la enseñanza de enfermería, lo que promueve una mayor interactividad. Su impacto positivo se refleja en la mejora de las habilidades, aunque aún existen desafíos, como el costo y la adaptación tecnológica, que deben ser enfrentados. De esta forma, la integración planificada de la RV puede contribuir a una formación más dinámica y eficaz.

Descriptores:
Realidad virtual; Educación en enfermería; Enseñanza

Introdução

A realidade virtual (RV) tem revolucionado a forma como interagimos com o conhecimento e experienciamos a aprendizagem. Essa tecnologia emergente permite a criação de ambientes tridimensionais altamente imersivos, nos quais os usuários não apenas observam, mas podem interagir ativamente e ampliar significativamente as possibilidades de ensino e treinamento.( 1 ) Ao integrar sistemas computacionais avançados com dispositivos sensoriais, a RV proporciona um nível elevado de imersão e presença, simulando cenários realísticos que favorecem o desenvolvimento de habilidades técnicas e cognitivas.( 1 )

Na área da saúde, por exemplo, o uso da RV tem demonstrado grande potencial ao permitir que estudantes e profissionais treinem procedimentos em um ambiente controlado, reduzindo riscos e aprimorando a tomada de decisão clínica.( 2 ) Dessa forma, observa-se que a RV vem se consolidando como uma ferramenta inovadora para a educação e capacitação profissional, e acredita-se no seu potencial para transformar paradigmas tradicionais e abrir novas perspectivas para o ensino baseado em experiências interativas.

Esse avanço se deve, em grande parte, à sua capacidade de oferecer diferentes níveis de imersão, adaptando-se às necessidades específicas do contexto educacional. Assim, tecnologias como óculos de RV de alta imersão, por exemplo, permitem uma interação mais realista, pois integram rastreamento de movimento e mapeamento espacial, proporcionando, dessa forma, aos estudantes ou profissionais/usuários uma sensação ampliada de presença no ambiente virtual.( 2 ) Em contrapartida, simulações acessadas por meio de telas de computadores ou dispositivos móveis, embora ainda eficazes e muito utilizadas em salas de aula, apresentam um grau menor de imersão. Essas variações tecnológicas influenciam diretamente a experiência do estudante ou do profissional/usuário, tornando essencial a escolha do recurso mais adequado para cada aplicação no ensino e/ou na prática clínica.( 2 )

A adoção da RV foi significativamente impulsionada com o advento da Quarta Revolução Industrial, um marco de transformações caracterizado pela convergência de tecnologias nos âmbitos físico, digital e biológico.( 3 ) Esta nova era tem como característica principal a interconexão de sistemas e a integração de tecnologias inovadoras, transformando diversos setores da sociedade e impulsionando avanços no campo da experiência virtual. A Indústria 4.0 impulsionou várias mudanças na esfera da educação, e uma das transformações observadas é a integração da RV como parte do processo de ensino-aprendizagem em diversas instituições, incluindo universidades.( 4 )

No cenário dos cursos de graduação em enfermagem, é evidente a importância de modalidades de ensino que incorporam novas tecnologias, como a RV, para trabalhar com os estudantes as situações reais do cotidiano da profissão. O uso da RV no ensino se apresenta como uma estratégia que pode proporcionar uma aprendizagem prática e imersiva alinhada aos princípios da andragogia, uma vez que favorece uma aprendizagem ativa e significativa e permite que os estudantes participem ativamente da construção do conhecimento.( 3 ) Nessa perspectiva, contribui para o aprimoramento de habilidades técnicas, promovendo o desenvolvimento de competências comportamentais e atitudinais fundamentais para a prática profissional.( 3 )

Nessa seara, considera-se que a integração da RV no ensino de enfermagem prepara os alunos de maneira abrangente para os desafios do ambiente assistencial, possibilita a simulação de cenários complexos e a tomada de decisão em um contexto seguro e controlado, assim como conduz os estudantes ao desenvolvimento do raciocínio clínico, de atitudes e competências essenciais ao exercício profissional, preparando-os para os desafios do ambiente clínico. Nesse sentido, além de aprimorar as habilidades técnicas e cognitivas, a RV também atende à crescente demanda por estratégias de ensino mais dinâmicas e interativas, alinhando-se às expectativas dos estudantes em relação à aprendizagem.

A fim de ilustrar melhor essa necessidade apontada pelos estudantes, o estudo de Chan, Chang e Huang( 1 ) destaca a implementação da RV no ensino de administração de quimioterápicos, no qual os estudantes buscam uma diversidade de abordagens para suprir as lacunas da metodologia tradicional de ensino-aprendizagem. Como resultado, a recomendação da adoção de uma combinação de diferentes métodos de ensino é amplamente recomendada como estratégia eficaz para alcançar resultados mais significativos e abrangentes no processo educacional.( 1 )

Diante do exposto, a análise sobre RV como uma ferramenta educacional assume papel crucial na busca por abordagens andragógicas eficientes e adaptadas às exigências contemporâneas da prática da enfermagem.( 3 ) Neste contexto, a pesquisa se justifica pela crescente demanda por inovação nas metodologias de ensino-aprendizagem, permitindo explorar a RV como um recurso tecnológico que visa melhorar a qualidade da formação em enfermagem. Portanto, objetiva-se mapear na literatura a aplicação da RV no ensino de estudantes de graduação em enfermagem.

Métodos

Revisão de escopo elaborada de acordo com o referencial do JBI e guiada por meio do Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR) checklist. ( 5 )

Para evitar a condução de revisões com duplicidade, foram realizados o rastreamento de protocolos e revisões de escopo com o mesmo objetivo desta pesquisa, em maio de 2023, e uma busca nas plataformas de registro Open Science Framework , International Prospective Register of Systematic Reviews , The Cochrane Library e Database of Abstracts of Reviews of Effects . Posteriormente, este estudo foi inserido na plataforma para registros de trabalhos científicos Open Science Framework , sob registro osf.io/yz7tj.

A fim de formular a pergunta que orienta a revisão de escopo, foi empregada a estratégia mnemônica PCC (População, Conceito e Contexto), sendo os estudantes de graduação em enfermagem indicados como População, RV, como Conceito, e ensino, como Contexto.( 6 )Diante disso, definiu-se a seguinte questão de pesquisa: como está sendo aplicada a RV no ensino de estudantes de graduação em enfermagem? Para responder a este questionamento, foram elaboradas três questões específicas: (1) Quais estratégias têm sido utilizadas para integrar a RV ao ensino de enfermagem?; (2) De que forma a adoção da RV impacta a experiência e o desempenho acadêmico dos estudantes de enfermagem?; e (3) Quais temáticas estão sendo abordadas com a RV no ensino em enfermagem?

Inicialmente, foram definidos os seguintes descritores de acordo com os Descritores em Ciência da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH): Universidades/ Universities ; Realidade Virtual/ Virtual Reality ; Educação em Enfermagem/ Education, Nursing ; Enfermagem/ Nursing . Após essa definição, foram utilizados os operadores booleanos AND e OR para o cruzamento dos descritores e a elaboração da sintaxe de busca nas fontes de informação.

A busca e a identificação dos artigos para o escopo da pesquisa foram realizadas em janeiro de 2024. As bases de dados e portais pesquisados foram Cochrane Library , Scientific Electronic Library Online (SciELO), Web of Science, Scopus, Science Direct , Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e PubMed Central. A busca na literatura cinzenta incluiu o Catálogo de Teses e Dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal (RCAAP), Europe E-Theses Portal (DART) e Theses Canada .

As estratégias de busca foram ajustadas conforme particularidades de cada base de dados e portal pesquisado, conforme o quadro 1 . Apesar disso, as combinações entre os descritores foram preservadas. Para maior abrangência na busca, não foram utilizados filtros de restrição de tempo e idioma.

Quadro 1
Sintaxe de busca de acordo com a fonte de informação

Foram incluídos estudos completos disponíveis por meio eletrônico que versassem sobre a utilização da RV no ensino superior de enfermagem. Foram excluídos artigos que não respondessem à questão de pesquisa ou fugissem do objetivo do estudo, além de resumos, revisões, cartas ao editor e protocolos de pesquisa. Os estudos duplicados foram considerados apenas uma vez. A avaliação e a seleção preliminar dos estudos foram conduzidas de maneira sistemática por dois colaboradores independentes, simultaneamente durante o período de coleta de dados. Esta etapa envolveu a triagem dos estudos com base em critérios específicos, incluindo a análise do título e resumo. Em situações de discordância entre os avaliadores, um terceiro revisor foi consultado para resolver eventuais divergências. Somente após essa fase inicial de análise preliminar, os estudos foram submetidos a uma leitura completa para a seleção final. Foram identificados 3.320 estudos nas buscas em fontes de dados, entretanto, após aplicar o filtro de acesso aberto, restaram 1.263. Os artigos coletados foram importados para o software de gerenciamento de referências EndNote Web. Os programas identificaram trabalhos duplicados, dos quais a duplicata foi excluída da análise, resultando em 1.112 estudos para o processo de seleção, sendo eles da BVS, Cochrane Library , PubMed, SciELO, Science Direct , Scopus, Web of Science e Theses Canada . As demais fontes não apresentaram resultados. Após a verificação dos títulos e resumos, um total de 62 trabalhos foram selecionados para uma análise mais aprofundada por meio da leitura completa de seus textos. Subsequentemente, uma seleção detalhada resultou na escolha de 23 artigos para conduzir o escopo desta pesquisa. A figura 1 apresenta um fluxograma que ilustra o processo de elegibilidade dos trabalhos, em conformidade com as diretrizes do PRISMA-ScR.

Figura 1
Fluxograma da busca na literatura e inclusão de artigos de acordo com o Preferred Reporting Items for Systematic reviews and Meta-Analyses extension for Scoping Reviews

Destaca-se que não foi necessário submeter este estudo ao Comitê de Ética em Pesquisa, pois os dados incluídos nele são secundários e de acesso público.

Resultados

Este estudo incluiu 23 pesquisas publicadas no período de 2020 a 2024, com destaque para uma concentração de publicações em 2023 que representou 39,1% da amostra selecionada. Em relação à origem geográfica, a maioria dos estudos teve origem no continente asiático, abrangendo cerca de 69,6% dos achados. Essa distribuição geográfica incluiu países como China (n=1), Hong Kong (n=1), Singapura (n=1), Taiwan (n=2) e Coreia do Sul (n=11), refletindo uma diversidade de contextos e abordagens na aplicação da RV no ensino de enfermagem. O tipo de delineamento de estudo mais predominante na amostra foi o experimental, correspondendo a 91,3% dos artigos selecionados. A preferência por esse tipo de delineamento pode ser atribuída à sua capacidade de fornecer evidências robustas sobre a eficácia e os efeitos das intervenções relacionadas à RV no contexto educacional em enfermagem. No quadro 2 , é fornecida uma descrição dos autores, ano, país e tipo de estudo, além de oferecer um mapeamento dos diversos assuntos abordados com o uso da RV, juntamente com os principais resultados derivados dos estudos selecionados para esta revisão.

Quadro 2
Caracterização e mapeamento dos estudos selecionados

Com base nas informações apresentadas no Quadro 2 , é possível destacar a variedade de tópicos abordados nas intervenções, como anatomia e fisiologia, doenças respiratórias, avaliação do paciente crítico, avaliação neurológica, saúde mental, sonda nasogástrica, realização de curativos, reanimação neonatal, aspiração endotraqueal e ventilação mecânica, inserção de cateter totalmente implantado e punção intravenosa, transfusão sanguínea, oxigenação por membrana extracorpórea, comunicação efetiva, e assistência de enfermagem à população LGBTQIA+. Além disso, notam-se estudos nos quais a RV foi aplicada através do uso de óculos de RV de alta imersão. Esses dados revelam que 69,6% deles optaram por utilizar o recurso de alta imersão nos grupos de intervenção. Essa escolha indica preferência significativa por tecnologias que proporcionam uma experiência mais envolvente e imersiva aos participantes do estudo.

Discussão

Os 23 estudos selecionados consideraram que a utilização de RV nos ambientes de ensino pode ser vantajosa como um complemento às abordagens pedagógicas convencionais já adotadas nos cursos de graduação em enfermagem. Esse achado também é sustentado por uma revisão sistemática que investigou a eficácia da prática em RV como meio de aprimorar o conhecimento dos estudantes de graduação em enfermagem. Os resultados desta análise indicaram que a prática combinada com o uso dessa tecnologia foi significativamente mais bem-sucedida em comparação com os métodos tradicionais de simulação. Esta ideia ressalta o potencial da RV como ferramenta valiosa para enriquecer a formação acadêmica dos estudantes de enfermagem.( 30 )

Diante dos resultados apresentados, constata-se a predominância de trabalhos provenientes do continente asiático, especialmente da Coreia do Sul. Essa descoberta pode ser explicada, em parte, pelo significativo investimento em educação, ciência e tecnologia observado em diversos países asiáticos nas últimas décadas.( 31 )Por essa razão, diversos países podem implementar políticas e programas variados para apoiar o progresso da inovação em múltiplos setores da sociedade, com enfoque particular na esfera educacional.

Entre os estudos avaliados, foram identificadas duas maneiras de aplicação da RV: (A) utilizando óculos de RV de alta imersão; e (B) utilizando somente telas de computador ou celular. A RV é dividida em categorias imersivas e não imersivas.( 2 )Alguns estudos basearam sua intervenção com a aplicação não imersiva, utilizando computador ou celular.( 12 , 17 , 19 , 21 , 23 , 24 , 27 ) Os demais artigos (n=16) fizeram uso de óculos de RV e apresentaram como resultado maior imersão em seu uso e uma participação mais ativa do aluno.

As temáticas abordadas nas intervenções dos estudos variaram bastante, desde a revisão de conhecimentos teóricos e desenvolvimento de habilidades práticas até a avaliação da comunicação interdisciplinar efetiva. Diversos assuntos foram abrangidos nas pesquisas, e esse fato demonstra as numerosas possibilidades de implementação da RV no âmbito do ensino em enfermagem.

Considerando os aspectos negativos da RV imersiva, em alguns estudos, o público-alvo relatou a ocorrência de desconforto com os óculos de RV e a sensação de tontura e enjoo durante a experiência de imersão.( 7 , 11 , 17 )Esses resultados podem ser atribuídos à exigência de dispositivos adicionais na abordagem imersiva, como os próprios óculos de RV e outros dispositivos sensoriais, que promovem uma interação física mais intensa. Algumas pessoas sensíveis podem sentir enjoo e/ou tontura ao usar dispositivos imersivos devido à discrepância entre os sinais corporais e os estímulos visuais. O corpo em repouso contrasta com o movimento virtual; o equilíbrio informado pelo sistema vestibular não coincide com a RV; e a convergência ocular entra em conflito com o visor imersivo, desencadeando desconforto ou mal-estar como reflexo natural.( 32 )

No que concerne às limitações identificadas pelos alunos em relação à utilização da RV, destaca-se a questão da falta de familiaridade com a nova tecnologia e sua interface.( 9 , 10 , 19 )Este aspecto gerou uma dificuldade de adaptação à RV, uma vez que os estudantes enfrentaram desafios ao lidar com um ambiente virtual desconhecido e uma interface de usuário pouco intuitiva. Outras pesquisas também destacam falhas técnicas devido à dependência de equipamentos e à possibilidade de dificuldades de uso devido ao desconhecimento dos meios utilizados.( 33 )Portanto, isso pode impactar negativamente o interesse e a continuidade dos treinamentos.

Ademais, a falta de sensação tátil e o limitado realismo nos cenários de simulação também são aspectos a serem considerados.( 11 , 15 , 17 , 26 , 33 )Esses estudos apontaram que os simuladores de RV não são vantajosos no desenvolvimento de manobras e sensações táteis, visto que os equipamentos só forneciam interação por meio de cliques de mouse ou outros controles, constatando que esses simuladores seriam mais úteis para o aprendizado cognitivo ou processual no ensino clínico do que no desenvolvimento de habilidades práticas manuais.

Diante dos problemas referidos anteriormente, também é possível destacar obstáculos financeiros para a implementação da estratégia da RV no contexto da educação, visto que a RV pode ter custos iniciais mais elevados para adquirir os equipamentos e desenvolver softwares de ensino, particularmente para a área da saúde.( 34 )Para uma análise minuciosa sobre os custos dessa estratégia, são necessários mais estudos que avaliem a relação custo-benefício da implementação da RV.

Apesar de alguns pontos negativos mencionados, é consenso que a RV contribui no processo de ensino-aprendizagem, proporcionando altos níveis de atenção, interesse e motivação dos alunos, como foi destacado na maioria dos estudos. Alguns autores salientaram a oportunidade de compreender ideias que são conceitualmente complexas por meio da visualização em RV.( 7 , 22 , 28 )Outrossim, enfatizaram o livre acesso à simulação, independentemente de hora e lugar, desde que o equipamento esteja disponível.( 8 , 16 , 27 )Nesta seara, alguns estudos apontaram a possibilidade de experienciar casos e situações clínicas raras e de alto risco sem que haja, de fato, um risco iminente real.( 9 , 29 )

A implementação da RV incentiva a motivação e o desempenho acadêmico, encorajando os alunos a tomarem decisões ativas na aprendizagem e a explorarem autonomamente o ambiente virtual, o que potencializa o desenvolvimento de competências. A interação em tempo real e a imersão reduzem distrações, colocando os alunos como protagonistas do processo educativo.( 35 ) Contudo, a efetividade dessa abordagem pode depender de fatores como a acessibilidade à tecnologia e a adaptação de cada estudante, limitando sua aplicação universal.

No contexto dos cuidados em saúde, a RV também apresenta melhorias notáveis nas habilidades técnicas e na consolidação do conhecimento teórico.( 35 ) Dessa forma, os estudantes ganham maior confiança para realizar procedimentos técnicos em contextos clínicos reais. Apesar disso, é essencial equilibrar o uso dessa tecnologia com métodos tradicionais e experiências práticas no ambiente real, garantindo uma formação que prepare os estudantes para a complexidade e a imprevisibilidade do atendimento clínico.

Durante a realização do estudo, foram apontadas algumas limitações: (A) o viés de publicação, visto que a inclusão apenas de estudos publicados pode levar a uma tendência, com estudos positivos sendo mais propensos a serem publicados do que estudos com resultados negativos; e (B) a diversidade de intervenções e resultados nos estudos incluídos tornaram difícil a síntese dos resultados e a identificação de padrões ou tendências claras.

Conclusão

A pesquisa proporcionou uma análise sobre a utilização da RV no contexto do processo de ensino-aprendizagem nos cursos de graduação em enfermagem. Os resultados sugerem que a RV pode constituir um recurso inovador e complementar às metodologias tradicionais, ampliando as possibilidades pedagógicas no ensino de enfermagem. Essa abordagem pode potencializar o desenvolvimento de habilidades essenciais para a atuação profissional, promovendo uma aprendizagem mais interativa e contextualizada. A partir dos resultados apresentados, destacaram-se duas principais estratégias de integração da tecnologia: o uso de sistemas imersivos, com óculos de RV, e de plataformas não imersivas, acessadas via computadores ou dispositivos móveis. Enquanto as ferramentas imersivas oferecem maior engajamento e realismo na simulação, as não imersivas apresentam vantagens em termos de acessibilidade e custo reduzido. A adoção da RV demonstrou impacto positivo na experiência e no desempenho acadêmico dos estudantes de enfermagem. A tecnologia promove maior motivação e engajamento, permitindo que os alunos explorem ambientes clínicos simulados sem os riscos inerentes à prática real. Entretanto, desafios como a falta de familiaridade com a tecnologia, custos elevados de implementação e possíveis efeitos colaterais, como tontura e desconforto, ainda representam limitações a serem consideradas. As temáticas abordadas nas intervenções com RV ofereceram uma ampla gama de oportunidades de aprendizado, abrangendo o treinamento de habilidades técnicas específicas, como administração de medicamentos e procedimentos invasivos, e o desenvolvimento de competências interpessoais, como comunicação interdisciplinar. Além disso, a tecnologia foi utilizada para a simulação de cenários clínicos complexos, permitindo aos estudantes experiências seguras em casos de alto risco. No entanto, não foi possível identificar um padrão nos resultados apresentados. Ao reconhecer o papel da RV como um recurso complementar, esta pesquisa reforça a importância de uma abordagem integral no aprimoramento do ensino em saúde. Contudo, para sua implementação, é essencial um planejamento estruturado que considere os benefícios e as limitações da tecnologia, garantindo um equilíbrio entre métodos digitais e experiências práticas presenciais. Dessa forma, é essencial continuar explorando a temática da RV no contexto da educação em enfermagem, visando aprimorar seu potencial na formação profissional.

Disponibilidade dos dados

: Os autores não disponibilizaram os dados do presente artigo, em repositórios, antes da submissão.

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Editado por

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    09 Jan 2026
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    13 Jun 2024
  • Aceito
    5 Maio 2025
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