Open-access Simulação sobre síndrome de abstinência alcoólica como método de ensino em enfermagem

Simulación sobre el síndrome de abstinencia alcohólica como método de enseñanza en enfermería

Resumo

Objetivo  Construir e validar um cenário de simulação clínica sobre a assistência de enfermagem à pessoa em síndrome de abstinência alcoólica (SAA).

Métodos  Estudo metodológico de construção e validação de roteiro que teve por base as recomendações científicas sobre SAA e ensino baseado em simulação. O cenário foi submetido à validação realizada por especialistas mediante autoaplicação de instrumentos. Na análise de dados, foram empregados o Índice de Validade de Conteúdo (IVC) e o coeficiente de concordância de Gwet: First-order Agreement Coefficient. Foi adotada para a concordância mínima de 0,80.

Resultados  O cenário proposto de simulação em SAA foi elaborado para validação do roteiro de simulação clínica e do guia Exame Clínico Objetivo Estruturado (ECOE), sob avaliação de sete especialistas das áreas da dependência química, simulação clínica, e urgência e emergência. O roteiro de cenário e o Guia ECOE apresentaram valores altos de IVC na maioria dos itens, provando-se adequados em propiciar as condições necessárias para cumprimento dos objetivos de aprendizagem, obtendo valor geral de IVC=0,98. Além disso, apresentou alto coeficiente de concordância entre os especialistas (0,95).

Conclusão  O presente estudo disponibiliza um roteiro validado e gratuito para ensino de habilidades, atitudes e competências na assistência de enfermagem à pessoas em SAA que pode ser utilizado como estratégia pedagógica no ensino da graduação, pós-graduação e educação permanente.

Descritores:
Abstinência de álcool; Assistência à saúde mental; Treinamento por simulação; Tecnologia educacional; Educação em enfermagem

Abstract

Objective  To construct and validate a clinical simulation scenario on nursing care for individuals experiencing alcohol withdrawal syndrome (AWS).

Methods  This was a methodological study on the construction and validity of a script based on scientific recommendations regarding advanced life support and simulation-based teaching. The scenario was submitted to validity by specialists through self-administered instruments. In data analysis, the Content Validity Index (CVI) and Gwet’s first-order agreement coefficient were used. A minimum agreement of 0.80 was adopted.

Results  The proposed simulation scenario in AWS was developed to validate the clinical simulation script and the Objective Structured Clinical Examination (OSCE) guide, under assessment by seven specialists in chemical dependency, clinical simulation, and emergency medicine. The scenario script and the OSCE showed high CVI values in most items, proving to be adequate in providing the necessary conditions for fulfilling the learning objectives, obtaining an overall CVI value of 0.98. Furthermore, it showed a high coefficient of agreement among specialists (0.95).

Conclusion  This study provides a validated and free guide for teaching skills, attitudes, and competencies in nursing care for people with AWS, which can be used as a pedagogical strategy in undergraduate, graduate, and continuing education.

Keywords:
Alcohol abstinence; Mental health assistance; Simulation training; Educational technology; Nursing education

Resumen

Objetivo  Elaborar y validar un escenario de simulación clínica sobre la asistencia de profesionales de enfermería a personas con síndrome de abstinencia alcohólica (SAA).

Métodos  Estudio metodológico de elaboración y validación de un guion basado en las recomendaciones científicas sobre el SAA y la enseñanza basada en la simulación. El escenario fue sometido a una validación realizada por especialistas mediante la autoaplicación de instrumentos. En el análisis de datos se utilizó el Índice de Validez de Contenido (IVC) y el coeficiente de concordancia de Gwet: First-order Agreement Coefficient. Se adoptó una concordancia mínima de 0,80.

Resultados  El escenario de simulación propuesto para el SAA se elaboró para validar el guion de simulación clínica y la guía de examen clínico objetivo estructurado (ECOE), bajo la evaluación de siete especialistas de las áreas de dependencia química, simulación clínica y urgencias y emergencias. El guion del escenario y la guía ECOE presentaron valores altos de IVC en la mayoría de los ítems, lo que demuestra que son adecuados para proporcionar las condiciones necesarias para el cumplimiento de los objetivos de aprendizaje, con un valor general de IVC = 0,98. Además, se obtuvo un alto coeficiente de concordancia entre los especialistas (0,95).

Conclusión  El presente estudio ofrece un guion validado y gratuito para la enseñanza de habilidades, actitudes y competencias en la asistencia de profesionales de enfermería a personas en SAA que puede utilizarse como estrategia pedagógica en la enseñanza de grado, posgrado y educación permanente.

Descriptores:
Abstinencia de alcohol; Atención a la salud mental; Entrenamiento simulado; Tecnología educacional; Educación en enfermería

Introdução

O uso de álcool é considerado há décadas um problema de saúde pública, apresentando diversos desafios, desde a sua detecção até o tratamento especializado, com aumento significativo em tempos de pandemia. Os problemas sociais e de saúde são diversos, com índices elevados de morbidade e mortalidade, somados ao atual aumento do consumo de substâncias psicoativas na população e o agravamento das condições psicossociais geradas pela pandemia.(1-3)

Em diferentes níveis de atenção à saúde, especialmente em urgências e emergências, os profissionais de enfermagem podem receber indivíduos em síndrome de abstinência alcoólica (SAA) decorrente da interrupção ou diminuição do uso de álcool. Essa síndrome pode ter gravidade variável e requer cuidados específicos.(4,5)

Contudo, estudo sobre atitudes e conhecimentos de estudantes em ambiente de simulação clínica relacionado à assistência de enfermagem ao usuário de álcool evidenciou o medo da violência por parte do paciente alcoolista, revelando dificuldades e despreparo para assistência a esses usuários. Assim, é necessário investir esforços no ensino sobre assistência aos usuários de álcool, a fim de preparar os enfermeiros para atuação nos mais diversos níveis de atenção à saúde.(6)

A literatura mostra diversos benefícios, além da importância de um ensino de enfermagem qualificado e condizente com as demandas contemporâneas, sendo crescente a utilização da estratégia de simulação clínica no ensino da enfermagem em saúde mental. São consagradas a aquisição de habilidades em saúde mental por meio dessa estratégia, que é associada à ampliação do conhecimento, confiança e segurança dos estudantes no cuidado em saúde mental, bem como a satisfação e a autoeficácia com o aprendizado, e a implementação da assistência.(7)

Diante das recomendações nacionais e internacionais,(8,9) a literatura sobre simulação clínica para o ensino de competências de saúde mental na graduação de enfermagem é incipiente, apesar de evidenciar a pertinência dessa estratégia como prática pedagógica.(7-10)

Contudo, a literatura aponta a necessidade de incrementar o desenvolvimento de pesquisas que avaliem a simulação clínica enquanto ferramenta de ensino na saúde mental, com metodologias replicáveis e validadas.(11)

Assim, o presente estudo se justifica pela necessidade de ampliação dessa estratégia para o ensino em saúde mental, sendo seu objetivo construir e validar um cenário de simulação clínica sobre assistência de enfermagem a pessoas em SAA.

Métodos

Trata-se de estudo metodológico que descreve a construção e validação de um cenário para simulação clínica sobre assistência de enfermagem à pessoa em SAA.

O cenário de simulação foi elaborado em uma Instituição de Ensino Superior da cidade de Ribeirão Preto, estado de São Paulo, a partir de dois roteiros: (a) Roteiro de simulação clínica “Assistência à pessoa em síndrome de abstinência alcoólica”; (b) Guia Exame Clínico Objetivo Estruturado (ECOE). Ambos foram construídos seguindo as recomendações nacionais e internacionais.(8,9) Participaram da construção do cenário duas docentes de enfermagem, especialistas nas áreas da simulação clínica, saúde mental e dependência química, e uma aluna de graduação.

O processo de validação com especialistas aconteceu entre os meses de julho e setembro de 2023, por meio de uma plataforma digital (RedCap).

Para seleção dos especialistas, foram considerados os critérios estabelecidos por Jasper(12) e adaptados para o presente estudo: a) ter experiência docente na área/tema; b) participar em orientação de trabalhos acadêmicos sobre o tema; c) ter titulação de mestre ou doutor com trabalho sobre o tema; d) ter autoria de artigos científicos sobre a temática, publicados em periódicos classificados pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior; e) ser palestrante convidado em evento científico nacional ou internacional sobre a área/temática. Na busca dos currículos dos especialistas, por meio da Plataforma Lattes (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), foi observado ao menos um dos critérios de elegibilidade supracitados.

Na seleção dos especialistas, foram elegíveis pessoas com expertise nas áreas da urgência e emergência, dependência química, e educação em saúde focada em simulação clínica, podendo ser enfermeiros e/ou docentes. Os especialistas foram convidados por e-mail. Após aceite, receberam, também por e-mail, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e os materiais para avaliação, sendo estes: i) Roteiro de simulação clínica “Assistência à pessoa em síndrome de abstinência alcoólica”; ii) Guia ECOE; iii) Link de acesso à plataforma REDcap para preenchimento do instrumento de avaliação.

O prazo definido para o recebimento da resposta da participação e envio do TCLE assinado foi de 30 dias, sendo enviados três e-mails de lembrete a cada semana após o primeiro contato. Casos em que o participante/especialista não responderam ao contato no prazo determinado foram considerados como recusa. Cada participante/especialista teve o prazo máximo de 20 dias para o retorno da avaliação do material, com o envio de um lembrete sobre a importância da resposta após 15 dias de envio do link.

Um total de 39 candidatos que atendiam aos critérios de inclusão estabelecidos para o estudo foram convidados por e-mail. Desses, 13 demonstraram interesse em participar, contudo apenas nove responderam integralmente ao instrumento de coleta de dados, compondo a amostra final do estudo.

O instrumento de coleta de dados inserido na plataforma RedCap foi composto por: (a) Formulário de informações sociodemográficas; (b) Roteiro de avaliação do cenário de simulação clínica “Assistência à pessoa em síndrome de abstinência alcoólica”, contendo 14 itens a serem avaliados por meio de escala Likert com pontuação de um a quatro (1 - Adequado, 2 - Regular, 3 - Pouco inadequado, 4 - Muito inadequado), descrição do que deve ser avaliado e espaço para sugestões de adequações para cada item. (3) Roteiro de avaliação do guia ECOE: contendo 15 itens a serem avaliados por meio de escala Likert com pontuação de um a quatro (1 - Adequado, 2 - Regular, 3 - Pouco inadequado, 4 - Muito inadequado), e espaço para sugestões de adequações para cada item.

Os dados obtidos por meio do formulário online foram transferidos ao programa Microsoft Excel 10. Posteriormente, os dados foram processados, codificados e analisados pelo software estatístico Statistical Package for the Social Sciences (SPSS), versão 20.0, e submetidos à análise descritiva.

Para validação de conteúdo, foram utilizados o Índice de Validade de Conteúdo (IVC) e o teste de Gwet: First-order Agreement Coefficient. Foi adotada para este estudo a concordância mínima de 0,80.(13)

Foram seguidos os pressupostos éticos da Resolução nº 466/2012(14) e as orientações para procedimentos em pesquisas com qualquer etapa em ambiente virtual(15) no desenvolvimento do presente estudo, o qual foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da EERP-USP, sob Certificado de Apresentação para Apreciação Ética no 68889123.5.0000.5393 e Parecer no 6.136.666.

Resultados

Caracterização dos especialistas

O cenário sobre assistência de enfermagem ao usuário de álcool foi validado por sete especialistas, todas do sexo feminino, com a maioria com cor de pele branca, adulta, com média de idade de 45 anos (DP±5,3), sem companheiro(a) e proveniente do estado de São Paulo. Quanto à formação, todos eram enfermeiros, sendo um com mestrado (14,3%), cinco com doutorado (71,4%) e um com pós-doutorado (14,3%). Em relação à atividade profissional, todos atuavam na docência no ensino superior. Possuíam expertise nas áreas de dependência química (28,6%), urgência e emergência (28,6%), e simulação clínica (42,9%). Possuíam, em média, 13 anos de atuação na área (DP±6,9), variando de cinco a 25 anos.

Validação do roteiro do cenário intitulado “Assistência de enfermagem à pessoa em síndrome de abstinência alcoólica” e do guia ECOE

A versão final validada do roteiro do cenário “Assistência ao paciente em síndrome de abstinência alcoólica” e o Guia do ECOE se encontram como anexo 1 deste manuscrito. Considerando o processo de validação pelos especialistas, em relação à aceitação e concordância (IVC), obteve-se IVC geral = 0,98, e todos os itens do cenário obtiveram valores iguais ou superiores a 0,80, superando o critério mínimo de aprovação (Tabela 1). Para ambas as análises, foram utilizadas a opção de sim (adequado e regular) e não (pouco inadequado e muito inadequado).

Tabela 1
Avaliação dos especialistas sobre adequação dos itens do roteiro do cenário (R) e do guia ECOE

Em relação à confiabilidade entre os especialistas, o cenário de simulação sobre assistência do usuário com sintomas de SAA apresentou resultados considerados satisfatórios, com valores obtidos na análise geral referente aos dois instrumentos muito próximos a um e erro padrão próximo a zero (AC1:0,95; EP: 0,024; IC:0,90-1) (Tabela 2).

Tabela 2
Coeficiente AC1 de Gwet AC1* de validação do cenário de simulação sobre assistência do usuário em síndrome de abstinência alcoólica com especialistas

Sugestões dos especialistas e alterações no cenário

As principais modificações no roteiro de simulação clínica incluíram: adequação do objetivo geral e de aprendizagem propostos; inclusão de sugestões de conteúdos e referências de livre acesso para suporte e preparação teórica dos estudantes; inclusão de verbalizações, de dados para melhorar os acordos com os estudantes; caracterização mais detalhada do caso simulado; questões para abordar estigmas e desconforto no cuidado a essa clientela; e problematização do atendimento prestado ao encenador. As principais modificações realizadas no guia ECOE incluíram: adequação de termos utilizados; incorporação de diagnósticos e intervenções de enfermagem; detalhamento de aspectos relacionados à comunicação verbal e não verbal; sintomas avaliados no exame físico, bem como materiais a serem utilizados nesse momento; informações coletadas no mapeamento de necessidades dos usuários em SAA; explicação dos objetivos do atendimento.

Discussão

Ao considerar a simulação clínica como estratégia de ensino, é elementar que a atividade seja cuidadosamente planejada e estruturada, definindo-se os objetivos de aprendizagem e os elementos que irão oportunizar a tomada de decisão e resolução de problemas pelos estudantes, priorizando experiências positivas e participação ativa.(16)

Todos os itens do cenário foram avaliados como adequados por mais de 80% dos especialistas, o que indica que a primeira versão dos roteiros foi aprovada de acordo com os critérios metodológicos previstos. Ainda assim, no processo de validação, as sugestões dos especialistas permitiram revisar e aprimorar elementos importantes da construção do roteiro do cenário e do guia ECOE.

O item R2, referente ao objetivo geral da simulação previsto no roteiro, foi o item com pontuação menor (IVC=0,86), mesmo que tenha obtido o valor mínimo adotado neste estudo. Realizou-se a revisão e adequação deste item considerando sua importância para a condução da atividade simulada.

Para o aprimoramento do objetivo geral do cenário de simulação, foi considerada a diferença entre pré-simulação e prebriefing, que possuem definições distintas.(17) A pré-simulação é caracterizada pela disponibilização de materiais para estudo prévio do estudante e pelo treinamento de habilidades necessárias para sua execução. Já o prebriefing é a interação entre o facilitador e os estudantes, apresentando objetivos geral e de aprendizagem previamente à simulação.(17,18)

Na construção inicial do roteiro, o objetivo geral da simulação não citava a SAA, e um dos objetivos de aprendizagem era a identificação dessa síndrome. Entretanto, as sugestões dos especialistas indicaram a necessidade de articulação entre o título ao objetivo de aprendizagem, considerando a contextualização do cenário simulado.

Em relação à preparação teórica dos estudantes, Leigh e Steuben(18) descrevem que a simulação não pode acontecer isoladamente, necessitando de um conhecimento ou preparo prévio. Para que os objetivos de uma simulação aconteçam, é necessário que ocorra a integração entre teoria e prática. A prática emerge demonstrando o conteúdo aprendido em sala de aula, por meio da integração dos conhecimentos na atuação profissional. Dessa forma, na pré-simulação, foi prevista a disponibilização de materiais atualizados e de evidência científica sobre a temática, assim como o treinamento de habilidades necessárias para o melhor desempenho.

Nesse contexto, algumas sugestões dos especialistas indicaram a necessidade de maior clareza sobre o momento da preparação teórica. Assim, foram incluídas no “momento 2” do roteiro do cenário algumas recomendações sobre conteúdos, assim como referências de livre acesso, respeitando a autonomia e liberdade do docente na escolha de materiais para embasar o planejamento da aula.

O desempenho do paciente simulado reflete o grau de realismo do cenário. Portanto, o encenador precisa estar adequadamente preparado para protagonizar o caso clínico.(19) Considerando tal fato, no “momento 1” do roteiro do cenário, constam informações a serem utilizadas no estudo prévio dos encenadores sobre SAA e informações do caso para contextualização e orientação sobre seu papel e possíveis verbalizações.

Nesse contexto, houve sugestões em relação às instruções ao encenador, no sentido de oferecer pistas aos estudantes, auxiliando no alcance dos objetivos. Também foi sinalizada a necessidade de detalhamento da participação do médico no cenário, sendo incluídas a contextualização e verbalizações.

Para realizar de forma eficaz a fase de prebriefing, as boas práticas em simulação envolvem: estabelecer contratos colaborativos, respeitando a segurança psicológica e confidencialidade; orientar sobre o ambiente de aprendizagem, manequins e equipamentos/materiais; apresentar os objetivos de aprendizagem, cenário e debriefing.(17) Essas informações foram incluídas no roteiro para colaborar com o facilitador na orientação dos estudantes.

Como uma forma de reduzir os níveis de estresse e ansiedade do estudante durante a simulação, oportunizando seu melhor desempenho, faz-se necessário que os objetivos de aprendizagem estejam adequadamente definidos.(20) Neste estudo, os objetivos de aprendizagem receberam avaliação satisfatória dos especialistas, demonstrando que o cenário alcança os seus cumprimentos. Porém, foi sugerida aplicação de escalas de mensuração dos sintomas de SAA, sendo selecionada a escala Clinical Institute Withdrawal Assessment for Alcohol, Revised, validada e comumente utilizada na prática clínica.(21) Para não mecanizar o atendimento e prejudicar a simulação, foi inserida como sugestão de conteúdo.

Em relação aos Recursos Humanos, é necessário definir o público-alvo, os docentes, instrutores, o uso de atores e possíveis colaboradores.(19,20) No item R4- Recursos Humanos, que também obteve um valor de IVC alto, houve sugestão de inclusão de um ator na cena representando o técnico de enfermagem. Em reunião de consenso, foi estabelecido que a inclusão de outro profissional implicaria alteração considerável na dinâmica do cenário, que poderia comprometer os objetivos de aprendizagem propostos. Por este motivo, essa sugestão não foi acatada.

Outra sugestão não acatada foi em relação ao item R5 - Recursos físicos e materiais, sendo indicada a inclusão de uma prescrição médica fictícia. Considerando que o foco do cenário em questão prioriza o desenvolvimento de habilidades de comunicação, avaliação das funções mentais e manejo não medicamentoso de usuário com transtornos mentais relacionados à dependência alcoólica, enquanto assistência de enfermagem, essa alteração seria dispensável.

Em relação ao tempo de duração das etapas envolvidas na simulação, não há um consenso na literatura para o debriefing,(8,19,22) sendo estipulados 20 minutos no roteiro inicial. Neste item, foi sugerido o aumento do tempo estipulado. Considerando a expertise dos especialistas, foi acatada a recomendação, aumentando o tempo para 30 minutos.

O debriefing, quando apropriadamente estruturado, promove o desenvolvimento do raciocínio e habilidades de julgamento, por meio do processo de aprendizagem reflexiva, favorecendo a identificação de potencialidades e necessidades de aprimoramento de forma construtiva e saudável, diante de variadas abordagens de um mesmo contexto clínico.(8,22) Para que a discussão não seja focada somente nas habilidades técnicas, o debriefing do presente cenário foi estruturado para auxiliar na reflexão sobre a simulação realizada por meio de um roteiro com perguntas e frases de transição de acordo com método “debriefing diamond”.(22,23) As avaliações dos especialistas indicaram alta adequação do conteúdo construído para a condução dessa fase. Em relação às sugestões, foi incluída uma questão para abordar aspectos atitudinais dos estudantes com relação a esse usuário.

A literatura enfatiza que a abordagem adotada pelos profissionais de saúde pode exercer influência significativa na busca pelo tratamento ou em sua adesão.(24) Nesse sentido, a postura do enfermeiro diante do usuário pode impactar diretamente a adesão ao tratamento, gerando efeitos positivos ou negativos.(24,25)

Em relação à adequação dos itens do guia ECOE, os itens ECOE9 e ECOE10 foram os que receberam os menores valores de IVC na avaliação dos especialistas. Em relação a esses itens, com intuito de avaliar as habilidades de comunicação dos estudantes, foi utilizado o termo “psicoeducação” na construção inicial. Para Oliveira e Dias,(26) a psicoeducação não envolve somente instruir o usuário e seus familiares sobre a doença e o tratamento, mas também torná-los colaboradores ativos na sua recuperação, sendo mais complexo do que uma simples transmissão de informações. Nesse contexto, como o cenário é uma situação com tempo limitado de atuação e que envolve emergência psiquiátrica com alterações cognitivas, foi revisto o uso desse termo.

Portanto, como demonstrado, mesmo para aqueles itens que obtiveram altos índices de IVC na etapa de validação, o processo de feedback proporcionado pelas sugestões dos especialistas contribuiu profundamente para o aperfeiçoamento do cenário validado, atribuindo mais veracidade à experiência vivenciada e possibilitando sua replicação.

As principais limitações do presente estudo estiveram relacionadas à adesão dos especialistas para avaliação do cenário (o que pode estar relacionado à baixa quantidade de especialistas em simulação clínica específica em saúde mental) e à concentração das especialistas em uma região do país (dificultando a avaliação da adequação do cenário em outras regiões do país). Vale dizer que as verbalizações e ambientes podem ser adaptados, desde que os objetivos principais sejam mantidos, considerando o nível de SAA apresentado pelo paciente simulado. Estudos futuros são necessários para avaliar a implementação prática do cenário em diferentes instituições.

Assim, acredita-se que os resultados da presente investigação contribuíram para o aprimoramento de novas estratégias de ensino tanto para a graduação quanto para a pós-graduação e educação permanente, oportunizando o incremento científico para a elaboração de novas práticas de ensino de habilidades de saúde mental, fortalecendo a simulação clínica como ferramenta de apoio ao ensino nessa temática.

Conclusão

Este estudo apresenta as etapas de construção e validação de um cenário para ensino de habilidades, competências e atitudes envolvidas na assistência a pessoas em SAA, disponibilizando o cenário validado na íntegra. Os roteiros do cenário e do instrumento de avaliação dos estudantes (Guia do ECOE) obtiveram a confiabilidade esperada, podendo auxiliar na construção de um repertório de estratégias de ensino em saúde mental, ampliando e incentivando sua utilização. Essa estratégia de ensino buscou incorporar elementos promissores para favorecer reflexões sobre atitudes discriminatórias, falhas na assistência e no acolhimento desses usuários, oriundos de estigmas, colaborando para minimização das barreiras que afastam essa população dos serviços de saúde. Espera-se que o cenário validado proporcione para a formação dos estudantes a integração entre teoria e prática, visando uma aprendizagem significativa em ambiente seguro, contribuindo para a maior confiança na tomada de decisão. Almeja-se, ainda, que a simulação em questão favoreça o aprimoramento das habilidades atitudinais, tais como postura ética, empática e livre de estigmas e desenvolvimento da consolidação da aprendizagem por meio da reflexão guiada durante o debriefing, estimulando o aprendizado em grupo por meio da identificação das potencialidades e necessidades de ampliação do repertório sobre a temática.

Agradecimentos

Financiamento para Pesquisa e Inovação da Universidade de São Paulo, Programa de Apoio aos Novos Docentes - 2023. Processo USP n° 22.1.09345.01.2.

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  • Disponibilidade dos dados:
    Os autores não disponibilizaram os dados do presente artigo, em repositórios, antes da submissão.
Anexo 1
Roteiro validado do cenário de simulação clínica “Assistência ao paciente em síndrome de abstinência alcoólica” e guia Exame Clínico Objetivo Estruturado, 2024

Editado por

Disponibilidade de dados

Os autores não disponibilizaram os dados do presente artigo, em repositórios, antes da submissão.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    12 Fev 2025
  • Aceito
    8 Out 2025
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