Open-access Le nuove vedute della capitale: dois arquitetos italianos na cidade da Paraíba no começo do século XX

Resumo

RESUMO: O artigo discute a contribuição dos arquitetos italianos Paschoal Fiorillo (1884-1954) e Hermenegildo Di Lascio (1884-1957) para a transformação da arquitetura e da paisagem urbana da cidade da Paraíba (atual João Pessoa-PB) nas primeiras décadas do século XX, em meio às políticas de modernização, saneamento e aformoseamento da capital paraibana durante a Primeira República, especialmente no governo Camilo de Hollanda (1916-1920). Compreendidas no horizonte da pre-sença italiana na cidade, expressiva em seus aspectos sociais, culturais e econômicos, embora reduzida quantitativamente, as trajetórias de Fiorillo e Di Lascio são vistas como arquetípicas de um conjunto mais amplo e ainda pouco explorado de ações conduzidas por profissionais italianos na construção da cidade no começo do século passado. Considerando o entrelaçamento entre percursos pessoais e profissionais, o artigo ilumina arranjos sociais e as distintas modalidades de trabalho exploradas por Fiorillo e Di Lascio, para dar conta das demandas de um mercado de obras públicas e privadas a um só tempo limitado e instável, em práticas nas quais o manuseio de um variado leque formal de matriz eclética constituía, sem dúvida, um trunfo. Em vista da persistência de cicatrizes do passado colonial na paisagem e na arquitetura da capital paraibana no fin de siècle, e do desconforto que esse atraso estético provocava no contexto da nova ordem de valores instaurada com a República, as mudanças introduzidas por esses profissionais dariam o tom da fugaz e tardia belle époque local, conferindo uma face pública à modernidade almejada nos limites possíveis.

PALAVRAS-CHAVE:
Imigração italiana; Arquitetura; Modernização urbana; João Pessoa.


Abstract

ABSTRACT: This paper presents the contribution of Italian architects Paschoal Fiorillo (1884-1954) and Hermenegildo Di Lascio (1884-1957) to the transformation of the architecture and urban landscape in the city of Paraíba (now João Pessoa, Paraíba) in the early decades of the 20th century, amid modernization, sanitation, and beautification policies implemented during the First Brazilian Republic, especially under the Camilo de Hollanda government (1916-1920). Understood within the context of the Italian presence in the city, which was expressive in its social, cultural, and economic aspects, albeit quantitatively limited, the trajectories of Fiorillo and Di Lascio are seen as archetypal of a broader and still understudied set of actions performed by Italian professionals in shaping the city at the turn of the century. Considering the entwinement between personal and professional paths, this paper elucidates social arrangements and distinct work procedures explored by Fiorillo and Di Lascio to meet the demands of a public and private construction market that was at once limited and unstable, in practices in which mastery of a broad architectural lexicon grounded in eclecticism was invaluable. Considering the enduring colonial marks etched into the capital’s landscape and architecture around the fin de siècle, and how uneasy this aesthetic stagnation felt within the emergence of new republican values, the changes inlaid by these professionals defined the tone of a fleeting and belated local belle époque, presenting a tangible expression of the desired modernity amidst limitations then imposed.

KEYWORDS:
Italian immigration; Architecture; Urban modernization; João Pessoa.


INTRODUÇÃO

Marginal às rotas que desde meados do século XIX trouxeram milhares de italianos para terras brasileiras, a Paraíba constituía parte do que o cônsul italiano Bruno Zucolin chamou de “Brasil desconhecido”1, em artigo publicado no jornal A União, em 1925. Produto de pequenas levas em fluxos irregulares de imigração, organizados em grupos que mal chegavam a configurar colônias, a presença italiana na Paraíba, de forma semelhante a outros estados do Nordeste do país, decorreu antes de iniciativas dispersas dos migrantes do que da vigência de políticas de atração de mão-de-obra para atender às demandas produtivas locais.2 Bem diferente do que sucedeu no centro-sul do país, para onde seguiu o maior contingente de italianos, de imediato incorporado às frentes de trabalho criadas pela dinâmica capitalista da grande cafeicultura para exportação e pela incipiente industrialização,3 o Nordeste:

[…] não exerceu uma grande atração sobre os colonos que vinham ocupar essas áreas predeterminadas, a não ser como exceção. Em regra geral, eles vinham solteiros ou em grupos familiares para tentar a vida nas cidades em atividades específicas, como o comércio, a prestação de serviços e a pequena produção […]4

Fincando raízes e preparando as condições de recepção e sobrevivência para novas levas animadas pela possibilidade de uma vida melhor na América, a presença italiana no Nordeste e na Paraíba, em particular, dispersiva e inconstante em seu decurso, delineia um percurso excêntrico à trajetória daquele imigrante-tipo presente no imaginário brasileiro.5

Mesmo não constituindo uma corrente imigratória de fato, com números bem aquém se comparados aos que aportaram noutros estados, a “colônia italiana” na Paraíba da década de 1920 contava com cerca de duzentas pessoas. Um contingente bem abaixo, na verdade, do estipulado por historiadores da presença italiana no Brasil.

Pequena, a presença italiana no estado se concentrou particularmente na capital e, em que pese sua escala, teve impactos sociais e culturais expressivos em âmbito local. Associados a atividades comerciais, artesanais e ofícios variados, como “sapateiros, alfaiates, mecânicos, carpinteiros, fabricantes de objetos diversos”6, com algum grau de qualificação, os italianos impactariam a dinâmica econômica, social e cultural da capital paraibana, com pouco mais de cinquenta mil habitantes na década de 1920.

Capital de um dos menores e menos conhecidos estados brasileiros, conforme ressaltava Zucolin, a feição arquitetônica e urbanística da cidade da Paraíba7 seria também transformada pela ação de arquitetos, construtores, ferreiros, carpinteiros e artífices italianos diversos em meio às iniciativas de modernização e embelezamento urbano conduzidas nas primeiras décadas do século passado. A participação dos italianos assumia distintas figurações, abarcando desde os serviços de projeto e construção aos trabalhos complementares de decoração e acabamento. Envolvendo mestres, artesãos, serralheiros, marceneiros etc., as construções realizadas adquiriam um claro sentido de obra coletiva.

Contraponto à regularidade e à certa monotonia que caracterizava o conjunto edificado com que a cidade adentra o século XX, de marcante unidade tipológica e formal, a ação desses personagens comparece, na visão do historiador Celso Mariz, no final dos anos 1930, como uma espécie de antídoto ao “achatamento, a vulgaridade, o corredor sem fim e o quarto escuro de outrora”8. Enfim, a todo o legado urbanístico e arquitetônico da colônia e Império.

Entre a memorialística, a história social e a história da arquitetura e da cidade, a presença dos arquitetos, engenheiros, construtores ou outros artífices italianos associados à construção civil na Paraíba é, ao mesmo tempo, reconhecida e pouco compreendida em profundidade. A arquitetura, quando discutida, é feita sob anonimato. Nomes como Paschoal Fiorillo, Hermenegildo Di Lascio e Giovanni Gioia,9 mais conhecidos, integram apenas parcialmente o imaginário arquitetônico local. Destes, apenas Di Lascio angariou, até o momento, uma pesquisa mais sistemática sobre sua vida e obra na cidade.10 Outros personagens, como Rafael Abenante,11 Francisco, Carmello, Henrique e Humberto Ruffo,12 João Baptista Toni,13 Salvador e Rafael Dierna,14 Giácomo Palumbo,15 Eugenio Gabba,16 Santo Cozzi,17 Vicente Ielpo,18 José Calzavara,19 Nicola Sarubbi,20 Humberto Cozzo21 e outros cujos rastros se perderam, são amiúdes referidos de forma difusa. Uns arquitetos, engenheiros e construtores; outros empreiteiros, mestres de obra e pedreiros, uns tantos marceneiros, estucadores, ornamentistas. Foram muitos os italianos arrolados na construção da cidade da Paraíba, mas poucos são os que se conhecem para além dos nomes e ofícios.

Sobre muitos desses e outros mais, em que pese a presença inconteste de suas ações em escolas, sedes administrativas e institucionais, residências, praças, pavilhões e belvederes, nos trabalhos com ferro, madeira, pedra e gesso, na ornamentação pública e privada, transformando sobremaneira a paisagem urbana e arquitetônica com que a cidade iniciara o século XX, ainda há muito a se investigar em meio a registros documentais fragmentários e rarefeitos. Para isso, muito contribui a situação dos arquivos e acervos públicos de projetos de arquitetura, afetados não só por problemas de armazenamento adequado como pela prática nefasta de descarte periódico de material de importância histórica e patrimonial sem qualquer critério. A situação do acervo de projeto da capital paraibana não destoa desse padrão. Do período ao qual se detém este estudo, poucos são os projetos que restaram, ainda assim em fragmentos.22

A consequência desse estado de coisas para quem se envereda pelo estudo da arquitetura e da cidade é aceitar a escassez documental como condição de partida, isto é, lidar com as dificuldades de acesso à informação, a inconsistência dos acervos e a fragilidade das fontes disponíveis. No entanto, é também compreender que “mesmo uma documentação dispersa e renitente, pode […] ser aproveitada”23 na realização de pesquisas historiográficas, conforme sugere um famoso historiador italiano. Apenas compensando tais empecilhos, a iconografia local, com registros fotográficos que remetem ao final do século XIX, e a imprensa escrita, na forma de jornais, folhetins e revistas periódicas, em expansão no começo do século passado, além dos relatórios de presidentes de província, constituem, em seu conjunto, um valioso aporte documental do qual não pode se prescindir.

Sem a pretensão de abarcar a totalidade desses profissionais às voltas com a transformação da cidade da Paraíba, e seguindo uma orientação em muito ditada pela rarefação documental com a qual lida, este artigo privilegia a análise de duas trajetórias consideradas arquetípicas, representadas pelos percursos pessoais e profissionais dos arquitetos e construtores Paschoal Fiorillo (1884-1954) e Hermenegildo Di Lascio (1884-1957), em suas empreitadas por “fazer a Paraíba” nessa improvável América no Nordeste brasileiro.

O caráter arquetípico das trajetórias de Fiorillo e Di Lascio decorre não só do fato de constituírem figuras pioneiras nesse processo, mas também por serem, entre os italianos, os profissionais mais requisitados na execução de obras, públicas e privadas, de arquitetura e urbanização, nas primeiras décadas do século XX na capital paraibana, ao mesmo tempo que guardam similaridades de origem, percurso e atuação.

UMA OUTRA (E DESCONHECIDA) AMÉRICA

Em artigo publicado em La vie d’Italia e dell’America Latina, de Milão, alusivo à sua viagem ao Brasil, o cônsul Bruno Zucolin exortava seus compatriotas para o potencial de “regiões de grandes riquezas pouco conhecidas”24, como a Paraíba. Longe da realidade urbana e social de outros centros em franco processo de modernização econômica e produtiva, a Paraíba visitada pelo cônsul extraía do algodão o grosso de sua renda, de todo modo insuficiente para livrá-la de obstáculos históricos a seu desenvolvimento, como a precariedade da infraestrutura de transporte e a condição periclitante dos portos.

Talvez por isso a Paraíba constituísse um campo de possibilidades, um “território pouco explorado” à espera de “italianos enérgicos com fortes capitais” dispostos a fazer “em pouco tempo algumas daquelas fortunas da América que a opinião pública da Europa continua a pensar que se fazem com pouco ou nenhum esforço”25.

Em relação à capital, sem ignorar a situação da iluminação pública, insuficiente e intermitente, e o limitado serviço de bonde, que tornava desconfortável a comunicação entre os dois estratos em que se organizava a peculiar geografia da cidade, Zucolin traça um quadro vívido da cidade, com sua vegetação luxuriante despontando por todos os lados, com diversos melhoramentos urbanos recentes.

Além da cidade da Paraíba, o interior do estado capturaria a imaginação do cônsul na busca por paragens mais favoráveis à fixação de seus conterrâneos, de lugares “onde um dia hão de se formar os novos milionários da América”26. Embora sem especificar a que interior se referia, é provável que o cônsul tivesse em mente a microrregião do brejo paraibano, de clima mais ameno, comum às cidades de Areia, Alagoa Nova, Alagoa Grande e Bananeiras. Afinal, a questão de um clima propício ao estabelecimento de imigrantes italianos não era um dado de menor importância, pelo contrário.

A preocupação com o tema comparece em publicações como o álbum Il Brasile e Gli Italiani, de 1906. Ao tratar da Paraíba, essa publicação do jornal Fanfulla destaca justamente a cidade de Areia. “Graças à sua altura no nível do mar, [e por] goza[r] de um clima delicioso, como toda a área ao seu redor”, Areia, centro de um conjunto de cidades com considerável importância no contexto econômico e político paraibano até a Primeira República, era descrita como “a cidade mais adequada para tornar-se o centro de uma possibilidade colonização europeia”27.

A despeito dos empecilhos interpostos pelo clima local, registros da presença italiana na Paraíba remontam ao século XVIII, com chegadas pontuais mais regulares no final do século XIX. Desse último momento a historiografia situou alguns nomes entre os pioneiros, como Domenico Grisi e Vicenzo Ferraro, ourives e mestre de obras, respectivamente, que chegaram à Paraíba fugindo da Itália por conta de suas convicções anarquistas após breves passagens por Portugal e Recife.28 A historiografia, no entanto, ignora por completo a existência de Antonio Polari, a quem Antônio Coelho de Sá e Albuquerque, presidente da província da Paraíba, se referia como “mestre pedreiro bem conhecido nesta província”, em mensagem de 1853.29 Junto a seu compatriota e fiador, Carlos Agostinho Golzio, Polari prestou serviço em diversas obras públicas na capital, com seu nome associado à construção parcial do teatro, da cadeia pública e do hospital regimental, entre outras encomendas oficiais.

Se acerca de Polari nada se sabe além dos serviços realizados na capital, a partir de Grisi e Ferraro, reconstituíram-se certas linhas de procedência no assistemático deslocamento de italianos para a Paraíba. A partir da análise de vínculos pessoais e familiares, e recorrendo à memória de imigrantes mais antigos, Ponzi mapeou aspectos comuns entre os membros da pequena comunidade italiana na capital, entre os quais, o fato de a maior parte ser, assim como Grisi e Ferraro, do Mezzogiorno italiano, sobretudo de Potenza, na região da Basilicata.30

Investigando a presença italiana no “pequeno mundo urbano desta América ‘menor’, periférica, mas nunca imóvel”31 das pequenas e médias cidades da América espanhola e do Brasil, Vittorio Cappelli circunscreve justamente as províncias de Cosenza, Potenza e Salerno, entre as regiões da Calábria, Basilicata e Campânia, no Mezzogiorno, como o ponto de partida de correntes migratórias espontâneas para o Novo Mundo desde meados do século XIX.32

É dessa região da Itália que partiram seguidas frentes de migração para o Brasil e América do Sul, como os italianos radicados na Paraíba, similares a outros grupos advindos do Mezzogiorno quanto às ocupações e aos tipos de cidades escolhidas para se fixarem. De não pouca importância, o conhecimento dessa origem comum auxilia na compreensão do que foi a experiência dos italianos na Paraíba, possibilitando análises comparativas entre a trajetória dos imigrantes da capital paraibana e a de grupos estabelecidos em outras cidades brasileiras e latino-americanas, em sua ativa experiência de mobilidade “relacionada a hábitos dos vendedores ambulantes e, sobretudo, ao articulado mundo dos artesãos”.33

Pequenos comerciantes, artesãos, cinzeladores, ourives, tintureiros, alfaiates, sapateiros, os imigrantes vindos do merídio italiano amiúde excluíam o trabalho agrícola e o isolamento do campo de suas expectativas, assim como os grandes centros urbanos, optando por fincar raízes em pequenas e médias cidades latino-americanas. Muito comumente cidades portuárias em transformação na sua estrutura social, econômica e urbana na virada para o século XX, com um horizonte de possibilidades menos estreito e ainda aberto, mesmo para os mais retardatários. Com perfil semelhante, eram muitos os italianos fixados em cidades como a equatoriana Guayaquil ou Barranquilla, na Colômbia, Porto Alegre, Recife, Salvador, Aracaju e Paraíba, no Brasil.34

Em Salvador, Aracaju ou Recife, capitais que também acolheram pequenas colônias de italianos oriundos daquele perímetro delimitado por Cappelli, percebe-se certa recorrência quanto aos modos de inserção nas economias, priorizando as atividades de comércio, artesanato e pequena indústria; espaços de sociabilidade e instituições de apoio mútuo, circuitos culturais e artísticos, laços comunitários e de vizinhança; e estratégias de integração social necessárias ante à limitada dimensão das comunidades de imigrantes em relação à população das cidades.

Em capitais do porte do Recife, onde se deu “a mais consistente [presença italiana] de todo o Nordeste”35, o peso relativo desse grupo se reduz sensivelmente, quando comparado ao impacto e alcance social que sua presença adquire em capitais menores. Não em termos quantitativos, essa presença em cidades de menor porte como Aracaju e Paraíba, semelhantes também quanto à presença do trabalho de arquitetos e construtores italianos, ressalta pelo seu aspecto qualitativo, dado seu efeito em relação ao contingente de imigrantes.36

Nas primeiras décadas do século XX, os italianos dominavam a região do Varadouro, área da capital paraibana historicamente ligada às atividades portuárias e ao comércio, com lojas e moradias distribuindo-se pelas ruas Maciel Pinheiro, Beaurepaire Rohan, General Osório e da República. Os mais afortunados, no entanto, não tardariam a se deslocar para alguns dos palacetes ecléticos e art nouveau nos novos arrabaldes de Trincheiras e Tambiá, distinguindo claramente os espaços de moradia e sociabilidade daquelas áreas associadas ao trabalho, próprias da cultura burguesa de morar centrada na privacidade.

Nos anos 1920, os italianos detinham já considerável hegemonia em certos setores da economia local. Nos ramos de confecção, estiva e produtos para o lar, estabeleceram enorme dominância, com as alfaiatarias Zaccara e A Attractiva, de Giovanni Ponzi, a Casa Petrucci, a Casa Vesúvio, de Vicente Rattacaso, a Casa Popular, de L. Donizetti, o Grande Armazém de Estiva F. H. Vergara e Cia, entre outros (Figura 1). Operando individualmente em ofícios manuais ou à frente de iniciativas industriais e manufatureiras, assim como no mercado de construção civil de obras públicas e particulares, tal envergadura de atuação permitiu, em pouco tempo, que muitos membros da colônia angariassem um considerável capital simbólico e financeiro, traduzido em uma forte visibilidade nos circuitos de sociabilidade da capital paraibana, em expansão nessa década.

Figura 1
Anúncios de estabelecimentos comerciais conduzidos por italianos na cidade da Paraíba.

Bastante significativa dessa importância é a iniciativa oficial de publicação da plaquete Paraíba nel 1924: leggiera notizia dello Stato con vedduta della capitale ed altre illustrazione, aos cuidados do engenheiro e jornalista Mateus Augusto de Oliveira.37 Concebida em homenagem à Crociera Italiana 1924, a viagem do cruzeiro-mercante Nave Italia por vários países da América do Sul, voltada a divulgar a produção artesanal e industrial italiana e instigar negócios entre os governos locais e Mussolini, a plaquete foi presenteada ao cônsul Bruno Zucolin em sua visita à cidade. A publicação reunia um conjunto de notas históricas e geográficas, dados físicos, econômicos e populacionais sobre o estado e sua capital, além de várias ilustrações retratando obras construídas por artífices italianos, com a capa estampada por uma fotografia do coreto da praça Venâncio Neiva, obra de Paschoal Fiorillo (Figura 2).

Figura 2
Capa e contracapa da plaquete Paraíba nel 1924, por Mateus de Oliveira, com destaque para fotografia do coreto da praça Venâncio Neiva.

ARTÍFICES DE UMA “PARAHYBA NOVA”

Semelhante a outras capitais e cidades brasileiras, a Paraíba também foi objeto de profundas transformações em seu espaço e paisagem com vistas à instauração de um novo sentido de urbanidade nas primeiras décadas do século passado.38 Seguindo os termos e representações trabalhados no interior de um discurso técnico-higienista de cunho civilizatório, esse objetivo tinha na ruptura com a dimensão histórica consubstanciada na cidade colonial sua premissa fundamental. O que se mirava era a superação da imagem da capital como a “cidade das sete necessidades”39, exposta em toda sua precariedade nos estertores do Império, para em seu lugar edificar uma outra, uma “Parahyba Nova”.

Deve-se ao engenheiro João Claudino de Oliveira Cruz, na série de artigos Melhoramentos da capital da Parahyba, publicada na Gazeta da Parahyba no começo de 1889, a elaboração de uma lista dos sete melhoramentos, as sete necessidades, a serem implementados a fim de remediar a situação lamentável em que se encontrava a cidade da Paraíba pouco antes do advento da República. Já reputado por seus trabalhos para o governo provincial, a crítica de Oliveria Cruz à cidade não deixa também de ter um componente político, de crítica à monarquia e seus descaminhos, como que plasmados no estado de decadência urbana.

Prova de até onde podia “chegar o atraso de uma terra” presa à “antiga rotina daqueles que não compreendem o progresso das nações cultas”, preocupado com o estado de penúria da capital, onde “até mesmo os principais elementos da vida, isto é, o ar, a água e a luz apresentam-se deficientes às necessidades do povo”40, a solução proposta por Oliveira Cruz para remediar essa situação encadeava a realização de um conjunto de serviços organizados “segundo a ordem em que eles devem ser adotados”. Alertava, no entanto, para o fato de que “se bem que qualquer deles considerado isoladamente seja um gigantesco passo dado no caminho dos cometimentos sociais, todavia alguns tendem diretamente com as mais urgentes e palpitantes necessidades da vida”, como o abastecimento d’água e a canalização dos esgotos das “matérias fecais e águas servidas”. Além dessas obras mais prementes, recomendava a instalação de um serviço de limpeza pública, a “adoção de um sistema aperfeiçoado de iluminação” e de carris de ferro, a construção de um teatro e a implantação de um jardim público.41

Ao contemplar aspectos estruturais à constituição de um quadro de salubridade urbana e elementos pertinentes à atualização da imagem da cidade em consonância com as ideias de progresso e modernidade, o rol dos melhoramentos apresentados por Oliveira Cruz associava as duas frentes principais em que se desenvolveria a modernização da capital nas primeiras décadas do século XX, combinando políticas higienistas e de saneamento com ações voltadas ao embelezamento urbano.42

Longe de embasarem uma transformação imediata da cidade, a importância dos artigos de Oliveira Cruz reside principalmente no desvelamento de uma realidade urbana precária, mantida praticamente inalterada no começo do novo regime, conforme relato de um presidente do estado em 1892:

[…] destituída dos mais importantes e necessários a nossa vida econômica”, sem “água encanada, esgotos, iluminação suficiente, meios de condução, casa de mercado etc. etc., acrescendo-se a isto o estado pouco satisfatório de certos edifícios públicos, exigindo alguns reparos indispensáveis e outros terminação; haja vista o nosso elegante Teatro, tão prejudicado pela ação do tempo em suas dependências não concluídas.43

De forma intermitente, no curso das primeiras décadas do século XX, diferentes governantes se empenhariam na realização de uma agenda modernizadora para a capital alinhada às demandas apontadas por Oliveira Cruz. Ao mesmo tempo, e como parte indissociável do processo, envidariam esforços no apagamento de rastros da cidade colonial, sua estrutura e configuração, em um conjunto de ações que caracterizaria o primeiro ciclo de reforma e modernização da capital.44

Ainda que a implantação parcial de um sistema de abastecimento d’água e a abertura da avenida João Machado, no começo da década de 1910, estejam bem situados na historiografia como marcos iniciais desse ciclo, é apenas durante a gestão do presidente Francisco Camilo de Holanda (1916-1920) que de fato a construção da “Parahyba Nova” se empreende com vigor.

Tão logo assumiu a presidência e assim que as finanças permitiram, Camilo de Holanda, “chocado pelos aspectos ainda coloniais da Paraíba”, e com o olhar e o gosto adoçados pelas imagens “das mais cultas cidades do Brasil e da Europa”45, dedicou-se com afinco e quase “exclusivamente [à] remodelação da cidade […]46”. Camilo de Holanda foi favorecido pela virada na situação econômica do estado, na sequência da crise instaurada nas finanças públicas pela intensa estiagem da primeira metade da década de 1910, que atingiu a cultura algodoeira, esteio principal da receita estadual.47

Os ganhos advindos da exportação do algodão, com a valorização do produto no mercado internacional devido à Primeira Guerra Mundial, seriam o motor da “pequena revolução urbanística” com que Camilo de Holanda pretendia transformar a acanhada imagem da capital. A crise financeira que se abate sobre a economia estadual no final de seu governo acabaria, no entanto, arrefecendo o ímpeto dessa empreitada, tão célere no começo da administração, inviabilizando ou atrasando a continuidade da “série de serviços materiais que caracterizaram os primeiros dois anos do atual período administrativo”48.

Mesmo provocando a paralisação de vários serviços, essa situação não obstou a realização de obras de embelezamento e alguns melhoramentos que se desenrolaram ao longo de quase todo o governo de Camilo de Holanda, com reformas em edificações antigas ou a construção de novas, e intervenções de caráter urbanístico, modernizando espaços existentes ou transformando antigos largos e terrenos baldios em praças, passeios e parques. De forma pontual ou em empreitadas de maior envergadura, essas ações determinaram alterações acentuadas na aparência da cidade, apagando ou transformando o passado presente em edifícios e no espaço público, impingindo um grau de destruição inaudito à capital, alvo de operações de desapropriação de edifícios, becos e travessas para abertura, alargamento e extensão de ruas e avenidas.

Ao final desse processo, e a despeito dos percalços financeiros, a construção de escolas e melhorias na biblioteca pública e em outros edifícios institucionais, a reforma de praças, parques e largos, serviços de calçamento, nivelamento, regularização e abertura de novas ruas e avenidas, como a avenida Epitácio, em linha reta em direção à praia de Tambaú, entre outros tantos melhoramentos, dariam a tônica da “Parahyba Nova”, saudada pela imprensa local e dos estados vizinhos como uma realização primorosa da administração Camilo de Holanda:

A Parahyba, há um biênio e pico sob a laboriosa e honesta gestão do sr. dr. Camillo de Hollanda tem progredido assombrosamente, comprovando quanto pode uma vontade enérgica, servida pelos melhores anseios de fazer o maior bem possível. Toda a ‘urbe’, para quem a conhece de tempos transatos, apresenta numerosos e irrecusáveis atestados da benemerência da atual administração do estado. As praças, os edifícios públicos, as avenidas, as desapropriações por utilidade, ao lado de outros serviços de reforma, valem como a melhor afirmação da conduta no governo, do sr. dr. Camillo de Hollanda. Graças exclusivamente, à ação de s. exc., a referida capital nortista, não há muito desprovida de certos melhoramentos dignos de registro, mostra-se hoje garrida e cheia de encantos, podendo, com justiça enfileirar-se ao lado das mais adiantadas do país.49

Ao mesmo tempo que reformava a paisagem da capital, Holanda ignorava demandas críticas em seu programa de obras. A ampliação do abastecimento d’água e a construção de uma rede de esgotos, esse “inadiável melhoramento”, vital à salubridade urbana, tinha sua execução postergada, justificada pelas “condições instáveis do comércio do mundo”, em plena Primeira Guerra, que impediam “a aquisição dos materiais específicos de que temos mister para efetuação de tais obras”50.

A pressa de seus conterrâneos em se desvencilhar da “estrutura urbana herdada da época colonial na qual predominava os sobrados, as vielas e os becos”51, típica dos governos Camilo de Holanda e de seu sucessor, Solon de Lucena (1920-1924), não passou despercebida para Adhemar Vidal, advogado de formação, estudioso da cultura popular e articulista ligado ao circuito intelectual constituído em torno da revista Era Nova.

Em sua coluna “A chronica”, no jornal A União, Vidal ironizava o anseio social generalizado de diferenciação, que parecia de uma hora para outra ter tomado de assalto a cidade e o quanto de artificioso e desprovido de esteio tudo isso lhe parecia, pura exibição despropositada de arrivismo.

Para não ficar atrasada no arranco ascendente das outras capitais, tomadas quase todas pela embriaguez horrível dos homens de mau-gosto que ficaram ricos do dia para a noite, esta heroica cidade de Nossa Senhora das Neves também quis dar um ar de sua graça civilizadora. Daí vermos pelo seu pulso apressado andar em alta febre de tifo, tamanha a obsessão de construir e parecer diferente do que dantes era. Inegavelmente seria até motivo para aplausos essa preocupação ora reinante, se ela fosse consequência de rumos predeterminados, conscientes e lúcidos. Mas não é. Ela surge como que num desejo efêmero de mulher caprichosa e dominada pela fascinação de ostentar por fora roupagens vistosa.52

Até antes desse momento, se a população queria uma casa, continua o cronista, mesmo quando buscando dotá-la de “certo conforto compatível com o grau de cultura do momento”, o fazia nos “limites da sobriedade e da parcimônia, tão recomendada pelo bom senso”. Constituindo um traço próprio da “cor local”, homogênea, esse modo de construir infundia à capital uma “cara ingênua”, com suas “alvas e francas linhas de suas construções amplas”, despertando ao mesmo tempo respeito e encanto.

Vidal, simpático à defesa de uma ideia de cidade que via com reserva a modernização urbana e seus efeitos destrutivos, capitaneada desde Recife por Gilberto Freyre e com grande repercussão entre a intelectualidade local, não poupa de crítica a forma como se proliferavam as novas construções realizadas por arquitetos brasileiros e estrangeiros em áreas como Trincheiras e Tambiá. Em construções que “em vez de dar o maior conforto possível […] corre exatamente com destino contrário”, além da orientação estética que tomavam, era a implantação do edifício no lote urbano e sua relação com a cidade que despertava o incômodo do cronista.

Arriscando-se a resvalar em “um pouco de malcriação” diante de “bolos de noiva em forma proporcionalmente gigantesca de concreto armado”, esse “estilo catitinha” tinha como traço característico, mesmo em lotes espaçosos, típicos da clientela abastada que se instalava nesses bairros, edificações implantadas na linha da rua. Inviabilizando com essa solução a criação de jardins fronteiriços à rua, que pela manhã e à noite rescenderiam a “leve perfume de jasmim e madressilva”, Vidal percebeu nesse aspecto uma espécie de exibicionismo tacanho e gratuito, de quem quer aparecer a todo custo, ou melhor, ao custo de um jardim, com o qual a cidade e a vida urbana ganhariam mais. De modo que as casas:

[…] ficam com um curioso de que querem a viva força ver o bonde passar com o reboque; ver os automóveis nos domingos, dias santos e feriados, cheios e abertos pela tarde adentro; ver o carro da assistência buzinando monotonamente; ver a ‘viúva alegre’ da polícia; ver gente passar como bom passatempo que é na realidade […]53

Sem hesitação, Vidal reconhecia na chegada do arquiteto italiano Paschoal Fiorillo à cidade da Paraíba o marco de aparecimento da “febre”, essa “febre que hoje em dia tem sintomas de não parar mais”: “Foi um italiano de nome Fiorillo quem iniciou as construções modernas, como são chamadas por toda gente; e depois dele foi chegando para ser aproveitada a inteligência de outros arquitetos brasileiros e estrangeiros”54.

Em um contexto financeiro favorável, ainda que instável, a implantação do projeto de uma “Parahyba Nova” estava por trás da vinda de Fiorillo e de “diversos engenheiros arquitetos para a Paraíba”, transformados em artífices dos “grandes surtos de progresso evidenciados nesta capital desde o começo da administração vigente, ensancha[ndo] a vinda de diversos engenheiros arquitetos”55. Celso Mariz lista Fiorillo, “o primeiro que chegou”, entre os “arquitetos modernos” estabelecidos no quatriênio de 1916 a 1920, acompanhado pelo gaúcho Octávio Freire,56 pelo capixaba Clodoaldo Gouveia,57 além de Fiorillo e Di Lascio, assinalando uma renovação do quadro profissional em curso nesse momento de virada da história urbana da capital paraibana.58

Não é casual, portanto, que o maior volume de obras realizado por Fiorillo e outros profissionais italianos e brasileiros se encerre no arco temporal da década entre meados dos anos 1910 e meados dos anos 1920, correspondente ao período de bonança dos cofres paraibanos e de massivos investimentos em obras de melhoramento e aformoseamento urbano e das edificações.59

Lidando com um mercado de encomendas públicas e privadas flutuante e de pouca monta, sujeito à riqueza inconstante da produção algodoeira, alguns dos italianos envolvidos nas obras de embelezamento e em obras particulares acabariam por permanecer breves temporadas na Paraíba, para logo continuar a busca por novas clientelas, como é o caso de Fiorillo.

PASCHOAL FIORILLO, ARQUITETO ANDANTE

Disparador da febre que acometeu muitos dos conterrâneos de Vidal, impulsionando desejos que revolveriam o gosto da clientela local, Paschoal (Pasquale) Fiorillo condensa em sua trajetória diversos sentidos associados a outros profissionais italianos do ramo da arquitetura e da construção civil, não só daqueles instalados na capital paraibana.

Informações dão conta de que Paschoal Fiorillo nasceu em 18 de março de 1884, em Maratea, região da Basilicata, no Mezzogiorno, filho de Francesco Fiorillo e Isabella Lacitignola.60 Já em 1916 na Paraíba, consta seu casamento com Maria Ciraulo,61 cujos pais, também imigrantes italianos, eram proprietários da loja Primavera, na rua Maciel Pinheiro. A despeito da carência de registros esclarecedores quanto a sua formação profissional, diferentes autores apontam que esta pode ter acontecido ainda na Itália62 mas, de certo modo, a própria trajetória de Fiorillo reforça essa hipótese, dada sua versatilidade, capacidade de adaptação e desenvoltura no manuseio de questões estéticas e técnicas procedentes do ecletismo historicista da arquitetura europeia do século XIX.

Sobre o percurso que traz Fiorillo da Itália à Paraíba, notícias fragmentadas abrem margem para especulações. Sabe-se que a chegada à cidade da Paraíba se deu após um périplo por outras cidades brasileiras, como Fortaleza e Recife, acabando por fixar-se posteriormente no Rio de Janeiro. Uma breve nota no Correio Paulistano de 1912 situa Fiorillo em Fortaleza, contratado como engenheiro arquiteto para realizar serviços para a intendência municipal.63 É provável que esses serviços se refiram à reforma do prédio da Santa Casa de Misericórdia da capital cearense, junto ao Passeio Público, aos quais José Liberal de Castro associa o nome de Fiorillo, situando-os, no entanto, em 1914, mas aparentemente realizados entre 1920 e 1922. Como “projetista e construtor italiano, com rápida passagem pela cidade”64, Fiorillo, em sua intervenção, além de acrescentar um pavimento à edificação térrea, alterou profundamente a feição original de um neoclássico singelo e de acentuada horizontalidade, para convertê-lo em um volume imponente e de profusa ornamentação.

Notas dispersas colhidas de jornais pernambucanos assinalam sua presença em Recife já em 1913, para onde pode ter sido atraído, movido pelo propósito de se incorporar ao mais articulado e dinâmico mercado construtivo da opulenta capital pernambucana. Fiorillo constava entre os passageiros do vapor inglês Danube com destino à Europa, noticiado pelo Jornal do Recife, em edição de 27 de maio de 1913.65 No ano seguinte, apresentado como “Paschoale Fiorillo, arquiteto italiano”, envolveu-se em um incidente com um condutor da empresa Ferro-Carril, de Recife.66 Em 1914, surgiu como sócio proprietário, junto a Ferruci Brasini e Eisenmann, da “A Mútua Predial do Recife”, responsável por “trabalhos completos de construções, [e com] o que há de mais moderno em arquitetura, aplicações em concreto e cimento armado”. A empresa se incumbia da confecção de plantas e orçamentos, executados com “a maior perfeição e gosto artístico”, bem como dos serviços complementares de estuque, esculturas, ornatos e trabalhos em metal e serralharia.67 No ano seguinte, Fiorillo aparece à frente de uma oficina de esculturas de mármore, com o serviço de construção de “túmulos artísticos, lousas e capelas mortuárias”68.

Percebe-se nessas múltiplas frentes de trabalho de Fiorillo um traço distintivo da atuação de profissionais do ramo da construção civil nesse momento. Ora apresentado como construtor, ora arquiteto ou engenheiro, o fato é que esse deslizamento de enquadramento profissional diz muito acerca das condições de trabalho vigentes no campo difuso da prática profissional em um contexto de ausência de regulação do exercício, apenas estabelecida no Brasil na década de 1930.

Com o projeto como produto específico do trabalho do arquiteto ainda não autonomizado em relação às tarefas propriamente construtivas, a amplitude dos serviços e a desenvoltura no desencargo das mais diferentes demandas postas à concretização das obras constituía não só evidência de maestria e capacidade de realização profissional, como representava um traço essencial para se estabelecer no disputado mercado das encomendas públicas e privadas.

Menor e carente de profissionais e mão de obra qualificada, a Paraíba surgia como um lugar sem tantas dificuldades de inserção e conquista de campo, próprias às realidades urbanas mais complexas dos grandes centros, como Recife, com seus territórios, nichos e clientelas distribuídos e dominados. É possível que em algum momento de 1915 Fiorillo tenha tomado conhecimento da demanda por profissionais do ramo da construção civil na capital paraibana por meio de jornais ou conterrâneos, e percebido aí um horizonte praticamente intocado de possibilidades mais fértil a explorar. Pode ser que o casamento tenha sido a razão que o levou a se estabelecer na cidade, com a ocasião mostrando-se oportuna ao coincidir com a virada na economia local e o desejo de reformar a antiga capital, animado por Camilo de Holanda.

Subjacente à construção e reforma de obras públicas estava o intento em dotar o aparato administrativo do Estado de uma nova visibilidade urbana, de uma representatividade simbólica e republicana com pretensões de modernidade, ora alterando a aparência de antigas edificações, ora edificando novos espaços destinados a fins específicos, dispensando o recurso de arranjos adaptados de imóveis alugados a terceiros.

É nesse contexto que em outubro de 1915 Fiorillo assume os melhoramentos no Palácio do Governo, sede da presidência, contratado para arrematar os serviços de modernização e reforma de fachadas.69 Contrastando com a sobriedade e contenção formal da arquitetura corrente na cidade e em contraponto à impressão de aparente homogeneidade formal emanada do casario urbano, as intervenções de Fiorillo nessas obras manifestam uma ênfase estilística em favor de dispositivos de composição e ornamentação clássica reinterpretados segundo procedimentos de natureza eclética, em operações corriqueiras na rotina arquitetônica brasileira no princípio dos novecentos.

Pelo menos desde o final do século XIX denunciado por sua precariedade e indigência - “um grande pardieiro”, com “falta absoluta de asseio, ausência de qualquer elemento de estética”70, nas palavras de um presidente da província - o Palácio de Governo, a primeira obra assumida por Fiorillo na capital, em nada parecia corresponder aos requisitos inerentes a uma edificação destinada à sede de governo, ainda mais sob a tônica da “Parahyba Nova”.

Objeto de intervenções em 1913, conduzidas pelo engenheiro Miguel Raposo, voltadas a dotar o edifício de condições higiênicas mínimas condizentes com a condição de sede de governo, o trabalho de Fiorillo na reforma do palácio tratou de redefinir a projeção do edifício e seu significado em termos políticos e urbanos, com melhorias pontuais internas e mudanças mais profundas em sua feição externa e pública.

Assim como outras edificações antigas, reformadas ou reconstruídas quase completamente em outros momentos, a exemplo do Teatro Santa Rosa, da Assembleia Legislativa, do edifício do Tesouro e do Liceu Paraibano, o palácio também havia passado por reformas na segunda metade do século XIX. Essas reformas imprimiram uma aparência neoclássica sobre uma estrutura colonial anterior, com a supressão de aspectos que denunciavam a persistente e desataviada arquitetura do passado jesuítico da edificação.71 Como era comum, essas ações implicavam, amiúde, em operações de apagamento de rastros, visíveis na retirada de beirais e bicas, recuados para trás das platibandas, bem como na aposição de um frontão simplificado indicando o eixo principal de acesso, arrematada com o redesenho de aberturas e inclusão de bandeiras circulares para marcar a distinção do pavimento superior em relação ao térreo.

A abordagem de Fiorillo na reforma do Palácio do Governo segue os passos que havia tomado na obra da Santa Casa, de Fortaleza. Tanto nesse caso como naquele tratou de modificar radicalmente a condição encontrada, produto de reforma anterior que a imbuiu de uma feição neoclássica para dissimular a versão colonial original. A prática de “ecletização de fachada”72, realizada por Fiorillo, constituiu um recurso frequentemente explorado em processos de modernização urbana e arquitetônica no Brasil no curso dos séculos XIX e XX. No afã por atualizar, ainda que superficialmente, realidades urbanas e sociais muitas vezes carentes de signos de modernidade, estado e clientela privada promoveram estratégias de apagamento de rastros do passado entranhados em edificações e espaços públicos, dotando suas expressões com o que em cada momento ressoasse como novidade e sintonia com o tempo presente. Configurando uma espécie de voragem da modernidade em termos arquitetônicos e urbanísticos, esse processo, contudo, não se restringiria ao ecletismo. De fato, como evidenciam diversos exemplos na própria capital paraibana e em outras cidades brasileiras, nas primeiras décadas do século XX a busca por sintonizar-se com o tempo presente levaria edificações ecléticas a serem transformadas em neocoloniais ou modernas, ao sabor das circunstâncias culturais em contínua transformação (Figura 3).

Figura 3
Fotografias comparativas da fachada frontal do Palácio do Governo antes e depois da reforma encarregada em 1916.

Esta ecletização de fachada, termo usado por Derenji (2008), assemelha-se àquela no Palácio de Landi, em Belém (PA), residência setecentista dos Governadores do Estado na qual foi realizada uma intervenção a par das "variantes tipológicas e ornamentais do Ecletismo, implantando materiais, técnicas construtivas e mão-de-obra importadas" (Trindade; Nunes, 2020, p. 284).

É sobre essa base, de um neoclassicismo simplificado, que trabalha Fiorillo. Como diretriz geral, a intervenção contrapôs à horizontalidade predominante do edifício existente uma ênfase vertical, com pequenos adornos e outros elementos proeminentes acentuando essa dimensão, de modo que o conjunto inteiro adquirisse maior imponência e pompa. Os dois pavimentos originais receberam tratamentos específicos, explicitando desde a fachada a distinção valorativa entre eles, recurso presente na cultura arquitetônica ocidental desde o renascimento italiano.

A parte inferior das fachadas foi resolvida na alternância de trechos rusticados, ressaltando a presença das portas e janelas desse nível, e planos lisos sobre os quais se aplicam molduras e guirlandas. Por sua vez, o pavimento superior, de tratamento mais refinado, concentra o grosso da carga ornamental, com óculos, guirlandas, faixas horizontais de frisos combinados e planos emoldurados acompanhando a arquitrave pronunciada que percorre o perímetro do palácio, sobre a qual se desenvolve a platibanda, com uma balaustrada intercalada por planos fechados de alvenaria, pequenos medalhões e um portentoso frontão. Cortando os dois pavimentos e imprimindo um acento vertical, uma sucessão de pilastras com frisos e capitel jônico define o ritmo em que os demais elementos se dispõem. Das antigas aberturas do primeiro pavimento foram mantidas a quantidade e a disposição, com aquelas da fachada voltada para o Jardim Público, convertidas em sacadas, com uma mais pronunciada demarcando o acesso principal e funcionando à maneira de um parlatório.

A essa primeira obra se seguiriam outras, de variado porte, de reformas em edificações, como a que realiza no Teatro Santa Rosa, a intervenções urbanas. Quase simultaneamente, desenvolveu encomendas privadas, como a reforma da sede da loja maçônica “Regeneração do Norte”, em 1916.73 Outra encomenda pública que contribuiu para ampliar o prestígio de Fiorillo foi a reforma de um prédio adquirido pelo estado ainda em construção para a instalação do grupo escolar Thomaz Mindello (Figura 4). O edifício ocupava um lote triangular de esquina, com certa autonomia relação ao tecido construído, nas imediações de um dos circuitos simbólicos da capital paraibana na Primeira República, próximo às praças Aristides Lobo e Pedro Américo.

Sobre um terreno em declive para os lados da praça Aristides Lobo e da ladeira do Rosário, para qual se orientava o frontispício, Fiorillo trabalhou o edifício desde a perspectiva da arquitetura como instância de composição urbana, de conformação da cidade e de seu traçado. Nivelada a partir do ponto mais alto, a edificação evoluiu pela fachada principal, bifurcando-se em duas alas que avançam divergentes para conformar um pequeno pátio triangular.

Figura 4
Fotografia do grupo escolar Thomaz Mindello, vendo-se a partir da afluência entre a Rua Guedes Pereira e a Avenida General Osório.

Posto sobre um porão alto, o edifício busca se acomodar ao passeio público por meio de uma escadaria curva que conduz da rua a seu interior, em um artifício sugestivo da dimensão social do programa que abrigaria. Sem maiores atrativos, as fachadas laterais sobressaem pelo comedimento decorativo, com ornamentação de frisos horizontais à meia-altura, platibanda e partes inferiores das aberturas adornadas com desenho floreal e cercaduras demarcadas pouco salientes. Exerceu-se o mesmo comedimento na fachada principal, embora aqui o investimento simbólico solicite um tratamento mais detido, sem rebuscamentos, porém sem negar o protagonismo que lhe compete. A parte central da fachada avança, erguendo-se sobre colunas jônicas, para receber a escadaria e criar um pequeno abrigo, com o frontão de corte Art nouveau geometrizado sobressaindo em altura e carga ornamental.

É também “delineada pelo talento artístico do arquiteto Paschoal Fiorillo”74 a transformação do largo ermo sem função definida numa área adjacente ao Palácio do Governo e próxima ao Jardim Público, em uma das novas praças criadas pelo governo Camilo de Holanda. A praça Venâncio Neiva, de 1917, compreende-se em meio às operações de embelezamento urbano sobre espaços antes ocupados por largos e pátios remanescentes do tecido colonial.

Conhecida como o “mais belo jardim do Norte”75, para um observador da época, a praça foi instalada sobre uma plataforma criada para superar o declive acentuado do terreno, com seu arranjo geral resolvido através do traçado de dois longos passeios em diagonal articulados no centro, no qual seria implantado uma fonte a ser importada da Europa. Na extremidade da parte mais elevada de um dos eixos, em que convergiam duas linhas de balaustradas, Fiorillo projetou um coreto circular e, sob ele, uma escada de acesso vinculando a rua adjacente no ponto mais alto do aterro à praça, de certo modo ritualizando a passagem entre a rua e o novo logradouro (Figura 5). Esse “pavilhão dórico moderno”, adornado por uma sucessão de colunas duplas que recebe a arquitrave e a platibanda profusamente decorada, constituía o “fecho suntuoso de tão sorridente praça […] o mais pomposo marco da Parahyba nova”76.

Figura 5
Fotografia do coreto da Praça Venâncio Neiva.

Na historiografia da cidade da Paraíba, o nome de Fiorillo é por vezes associado a outro empreendimento urbano, a balaustrada das Trincheiras, criada a partir da instalação de uma muralha de contenção em um trecho da rua que ligava o centro da capital à nova área de expansão das Trincheiras. Em processo de ocupação no começo do século XX, a construção da balaustrada permitiu a transformação dessa área em um passeio público linear, sendo pontuada por resguardos semicirculares transformados em mirantes para o vislumbre da paisagem descortinada abaixo.

Embora afirmado pelo historiador José Octávio de Arruda Mello que a “balaustrada das Trincheiras tornar-se-ia outra importante realização do engenheiro Fiorillo […]”77, não se encontrou nenhuma evidência documental sobre a relação de Fiorillo com a obra. Na verdade, as poucas referências encontradas quanto a essa autoria convergem para o arquiteto Octávio Freire - que se apresentava em propagandas de jornais locais como “especialista em construções para clima tropical”78 - também responsável pela construção do edifício da Escola Normal, ao lado do Palácio do Governo. Em matéria de 1 de janeiro de 1919, atribuem-se a Freire, além da escola, o edifício da Imprensa Oficial e do jornal A União e a balaustrada das Trincheiras, “aqueles dois em véspera de término e o último regularmente adiantado”79.

Fiorillo, no entanto, não deixa de ter seu nome associado aos arrabaldes das Trincheiras, não como arquiteto ou construtor, mas negociando a venda de terrenos para quem desejasse “construir barato” numa área cobiçada da cidade. Destinado a quem desejasse “empregar bem o vosso capital e garantir o futuro”, Fiorillo anunciava a venda de um “belo sítio [no ponto] mais alto da cidade, de onde se descortina um pitoresco panorama”, dotado de água e situado à margem da linha do bonde.80

Operando em distintas frentes simultaneamente, Fiorillo transpôs para a capital paraibana a mesma amplitude de atuação no mercado da construção civil que havia estabelecido em Recife, organizadas então na firma Paschoal Fiorillo & Cia.81 Além do projeto, da construção e da venda de terrenos, a firma respondia também por trabalhos em mármore e pela produção de materiais de construção, com os mosaicos “Mercês”82.

Com diversas obras realizadas, nem um ano após sua chegada, Fiorillo angariava prestígio junto às autoridades públicas e à elite local. Saudado em elogios na imprensa como um “técnico experimentado e consciencioso”, e dito, não sem evidente exagero, autor de “numerosas obras de arquitetura predial e paisagística […] esparsas nas principais cidades do Brasil”83.

Apesar das diversas frentes de trabalho vinculadas a Fiorillo na capital paraibana, a entrada no Almanak Laemmert, de 1917, o vincula exclusivamente ao trabalho de marmorista, atividade que desempenhara anteriormente em Recife, com escritório na rua Maciel Pinheiro, núcleo do comércio da capital paraibana durante boa parte do século XX.84 O mesmo enquadramento como marmorista compareceria nas sucessivas entradas das edições dessa publicação até 1927.85

Em algum momento entre 1918 e 1919, o nome de Fiorillo associado a projetos ou construções se tornou rarefeito, indicando tanto a concentração em uma única atividade, a de marmorista, quanto uma atuação que se expandia para outras cidades. Um indício que sugere a saída de Fiorillo da Paraíba ainda em 1918 se encontra em um anúncio publicado em seguidas edições de jornais da capital. Nele, recomendava-se às pessoas que haviam adquirido terrenos à venda nos bairros das Trincheiras e Cruz das Armas que procurassem a firma Ciraulo & Cia, procuradores do arquiteto, para efetuarem os pagamentos pendentes.86

Nesse período, as referências locais a seu respeito escassearam, minguando ao longo da década de 1920 e sumindo na década seguinte. Sem que sejam claras as razões para isso, é provável que talvez o que se apresentava, em um primeiro momento, como um atraente mercado de encomendas, tenha se tornado um terreno disputado, de concorrência acirrada, com a chegada de outros profissionais, ainda mais em um cenário de redução da capacidade de realização de obras públicas em face da crise nas finanças estaduais ao final da década de 1910. Afinal, o poder público era o que mais demandava trabalhos a esses profissionais, com uma clientela privada bastante minguada em proporção e recursos, limitada ao pequeno mundo da elite local.

Ao final dos anos 1920, Fiorillo não aparece associado a qualquer atividade entre engenheiros, arquitetos e comércios de materiais de construção listados na seção referente à Paraíba do Almanak, de 1929, com as edições seguintes relacionando-o já entre os profissionais atuantes no Rio de Janeiro, primeiro em um escritório na rua do Senado e, depois, em 1936, na rua República do Peru, em Copacabana.

A inserção de Fiorillo no pujante mercado de arquitetura e construção civil do Rio de Janeiro da década de 1930 repercutiu em mudanças de escala, tipologia e clientela, com a troca do estado pelo capital privado como principal destinatário de seus trabalhos. Embora mantivesse uma prática de arquitetura residencial voltada a atender uma variada paleta de gostos, com projetos de casas e chalés normandos, neocoloniais, mission style e composições ecléticas afins, sobressai dessa produção alguns empreendimentos de maior porte, acompanhando a verticalização residencial de bairros como Leme e Copacabana.

Em estratégias de conciliação entre variações tipológicas tradicionais, como o palacete, e arranjos verticais próprios da arquitetura de arranha-céu, em larga expansão na cidade nos anos 1920 e 1930, percebe-se o empenho de Fiorillo em atualizar-se com as tendências contemporâneas associadas à modernidade sem dispensar a carga simbólica de arquiteturas consagradas pelo tempo. Essa orientação se constata tanto no palacete vertical projetado para ser construído próximo ao Lido, em Copacabana, quanto no projeto do edifício Guarany, de dez pavimentos, ambos com Fiorillo desempenhando os papeis de arquiteto e construtor, como consta em sua divulgação na A Casa, a “revista das construções modernas” (Figura 6).

A preocupação no trato e negociação de referências históricas e contemporâneas na prática projetual permeia o breve texto que Fiorillo publica também em A Casa, junto à proposta de uma casa de apartamentos. Centrado na precedência da planta, em sintonia com a ênfase funcionalista moderna, mas igualmente ancorada na autoridade conferida pela arquitetura antiga, é nesse elemento, afirma Fiorillo, que se registra “a mentalidade do povo cujos costumes reflete”. “Em qualquer estilo, quer se trate de linhas modernas, quer de clássicas”, o cunho original do trabalho do arquiteto se apresenta “nos meios de dispor seus elementos de modo a obter uma forma de conjunto”87. Como exemplo de “construção moderna, baseada nos tipos de habitação moderna da Alemanha”, tem-se o projeto da casa de apartamentos, com sua contenção em recursos decorativos, quase inexistentes, a racionalidade formal e o jogo volumétrico explorado com as sacadas, os quais deixam entrever certo conhecimento das tendências mais atuais da produção arquitetônica de vanguarda europeia, a qual, de todo modo, Fiorillo não adere, mas absorve no que é conveniente à proposta. Assim, a “simplificação de fachada e interiores” se desdobra numa redução do mobiliário e na facilidade do trato e da limpeza do espaço, “sem detrimento da beleza e do conforto”88.

Figura 6
Panorama de projetos de Paschoal Fiorillo na revista A Casa, incluindo palacete vertical próximo ao Lido, em Copacabana, Edifício Guarany, residência térrea e edifício de apartamentos.

Figura 7
Mapea-mento dos principais projetos de Paschoal Fiorillo na cidade da Paraíba.

A itinerância de Fiorillo de Fortaleza para Recife, daí para a Paraíba e depois Rio de Janeiro, não configura uma exceção em meio às trajetórias de arquitetos, engenheiros e construtores estrangeiros e nacionais em circulação pelo país no começo do século XX (Figura 8). “Arquitetos peregrinos, nômades e migrantes”, para usar a expressão cunhada por Segawa89 para descrever a grande movimentação de profissionais na segunda metade do século XX, não foram poucos os técnicos em deslocamento pelo país, em trânsito entre capitais e com entradas ocasionais ao interior dos estados em busca de oportunidades de trabalho.

Os profissionais estrangeiros, muitos de origem ou ascendência italiana, legaram obras de arquitetura e urbanização em cidades de Norte a Sul do país. Diferenciavam-se dos nacionais por importarem um savoir-faire europeizado propício à materialização dos anseios das clientelas públicas e privadas,90 ávidas por dissociar suas casas, instituições e paisagem urbana dos trejeitos coloniais ainda persistentes na arquitetura brasileira do começo do século XX. É o caso de nomes como o greco-italiano Giácomo Palumbo, formado na École Spéciale d’Architecture, em Paris, França;91 o italiano Filinto Santoro, na Reale Scuola di Applicazionen, em Nápoles, Itália;92 ou ainda os afamados italianos Domiziano Rossi e Luiz Olivieri, em instituições em Gênova e em Florença, respectivamente, na Itália.93 Estabelecendo-se por longas ou breves temporadas de trabalho em algumas cidades, dando conta de comissões que surgiam, alguns poucos fincariam raízes e construiriam trajetórias profissionais sólidas em determinadas cidades, como é o caso do amigo, conterrâneo e contemporâneo de Fiorillo, o arquiteto, engenheiro e construtor Hermenegildo Di Lascio.

Figura 8
Cartografia dos percursos de Paschoal Fiorillo e Hermenegildo Di Lascio entre Itália e Brasil.

HERMENEGILDO DI LASCIO, ARQUITETO ADAGIO

Poucos imigrantes italianos na Paraíba personificam tão bem a representação do “italiano enérgico”, evocada pelo cônsul Bruno Zucolin, quanto o arquiteto Hermenegildo Di Lascio. Quando da passagem de Zucolin pela capital e menos de uma década após sua chegada, Di Lascio amealhava tanto prestígio profissional quanto uma vasta rede de sociabilidade, dentro e fora da comunidade italiana. Responsável até esse momento por “uma centena de edifícios modernos, entre os quais alguns importantes e verdadeiros ornamentos da cidade [além da] “sistematização de várias ruas”94, e agente consular da Itália no estado desde 1918, a trajetória de rápida ascensão de Di Lascio ao mesmo tempo o aproxima e o diferencia daquela trilhada por Paschoal Fiorillo.

É por intermédio do próprio Fiorillo que Di Lascio se dá conta das promessas de trabalho na Paraíba, levando-o a deixar a capital argentina, para onde a família se mudara em 1888, e se estabelecer na cidade, onde aporta em meados de 1916.95 Natural da comuna de Lauría, da província de Potenza, na Basilicata, Di Lascio nasceu em 28 de novembro de 1884, quatro anos antes da mudança para a Argentina, filho do construtor Francisco Di Lascio e de Catarina Di Lascio. A familiaridade com o campo da construção civil por meio do ofício paterno explica o interesse de Di Lascio pela arquitetura, formalizada no decurso de cinco anos (1903-1908) na Escuela de Architectura, em Buenos Aires, que tinha entre seus professores o arquiteto Alejandro Christophersen.96 Iniciando o exercício profissional antes da conclusão do curso, entre sua formação e a vinda para a Paraíba, Di Lascio atuou tanto junto ao pai, através da firma construtora Fava & Di Lascio, quanto junto a arquitetos e escritórios de construção locais, tendo colaborado por quatro anos com Jesús Maria Garcia, professor da Universidad de La Plata, com serviços de natureza pública e uma breve investida individual (Figura 9).97

Figura 9
Retrato de Hermenegildo Di Lascio à década de 1950 acompanhado do seu Certificado de Construtor, emitido em janeiro de 1911 pelo Departamento de Obras Públicas de Buenos Aires.

Sua formação profissional se dá em um contexto de transição institucional, quando a Escuela de Arquitectura busca se distinguir do ensino de engenharia por meio da adoção do modelo pedagógico das Écoles des Beaux-Arts europeias.98 O currículo acadêmico vigente, implantado em 1903, promove uma formação artística e historicista, centrada no estudo analítico de edifícios clássicos e no domínio da composição formal, ao mesmo tempo em que mantém vestígios do racionalismo técnico herdado da engenharia. Disciplinas como desenho ornamental, escultura e história da arquitetura eram ministradas por artistas e arquitetos com formação acadêmica europeia, a exemplo de Pablo Hary e Alejandro Christophersen, cujas lições favoreceram uma educação do “bom gosto” e um repertório eclético.99 Nesse ambiente cosmopolita, marcado pela coexistência de estilemas clássicos, sensibilidade projetual voltada à recombinação formal e à ornamentação erudita, moldando o arquétipo do arquiteto-artista que orienta sua atuação futura.100

Sintomático da carência de profissionais habilitados na cidade, bem como da urgência posta na condução de seu programa de obras públicas, tão logo instalado na capital paraibana, Di Lascio firma contrato com o governo Camilo de Holanda para a realização de melhoramentos na praça Pedro Américo, “em vias de ultimação”101 em setembro de 1917. Ao mesmo tempo que conduziu a reforma desse espaço público, caro ao circuito social e de poder local, Di Lascio elaborou os primeiros projetos privados para residências e uma agência bancária, em uma inserção em tudo semelhante ao de seu compatriota Fiorillo.

Possivelmente, o fator fundamental para a fixação definitiva de Di Lascio na Paraíba, desestimulando intenções de seguir os passos do andante Fiorillo, foi a firmação de sociedade com o “abastado capitalista” Avelino Cunha de Azevedo (1879-1952), com menos de um ano após sua chegada, estabelecendo em março de 1917 a “grande empresa” de construções Cunha & Di Lascio, Arquitetos Construtores. Avelino Cunha era proprietário da loja Rainha da Moda (Figura 10) - cuja reforma, conduzida por Di Lascio, os aproximou - e da firma importadora Avelino Cunha & Cia, afamada por trazer “diretamente dos mais importantes centros de produção da Europa e dos Estados Unidos”, tecidos de seda, algodão e lã, itens como perfumes e meias, casimiras de lã, alpaca, flanelas e brins de linho trazidas de casas do ramo da Inglaterra e França.102

Figura 10
Fotografia da Rua Maciel Pinheiro na década de 1920, vendo-se ao lado esquerdo o edifício da Rainha da Moda.

Com a origem de seu patrimônio financeiro na agricultura e na pecuária,103 a crescente ampliação do escopo dos negócios de Cunha, da importação ao comércio varejista e daí para o campo da construção civil, é bem representativa do direcionamento do fluxo de riqueza excedente advinda do campo e seu investimento em atividades urbanas no Brasil do começo do século XX.

Encarregada de “edificações públicas e privadas de qualquer valor”104, conforme anúncio veiculado na imprensa, a estrutura criada com a sociedade permitiu a Di Lascio estender “com largueza, os seus negócios”105, em condições de trabalho e de alcance profissional singulares entre seus pares. Esse arranjo possibilitaria ainda a Di Lascio escapar ou atenuar a instabilidade inerente ao mercado de obras local, razão talvez principal da saída de Fiorillo, dada a incerteza de ganhos e a dificuldade em manter o fluxo de recursos financeiros disponíveis que o setor da construção civil demanda durante a realização dos serviços. Por certo, o aquecimento da economia paraibana e a entrada em cena das aspirações modernizantes de Camilo de Holanda avalizavam iniciativas desse porte, afinal, “não há muito a Paraíba […] não daria margem a que uma empresa construtora se mantivesse e prosperasse, compensando os esforços e capitais dos incorporadores”106.

Viabilizando uma inserção privilegiada no mercado de obras públicas e privadas, a aliança com Avelino Cunha se fez acompanhar por uma rápida ampliação da inserção de Di Lascio nos circuitos sociais e institucionais da capital para além dos limites da comunidade italiana, levando-o, em pouco tempo, a assumir cargos na Sociedade Italiana de Beneficência XX de Setembro, na Loja Maçônica Branca Dias e na Associação Comercial. Além de presidir essas instituições em mais de uma ocasião, também foi responsável pelo projeto das sedes dessas duas instituições.

Desde a perspectiva de conquista da hegemonia no campo da arquitetura e construção civil, essa sociedade não poderia ser mais estratégica. Graças a ela, a firma Cunha & Di Lascio controlava todo o processo de realização de obras, da concepção do projeto à execução, com fornecimento dos materiais obtidos diretamente dos mercados produtores e com oficina própria para trabalhos em cimento armado e depósito instalado em terreno junto às ruas Barão de Triunfo e Gama e Mello. Chegando a contar com dezenas de funcionários ao final da década de 1910, a firma abarcava o arco completo de ofícios e habilidades técnicas para a produção de obras, arrolando arquitetos, artesãos, mestres e ornamentistas em um contingente de operários entre brasileiros e italianos.

Evidência da larga capacidade de trabalho da firma e seu sucesso comercial, a firma Cunha & Di Lascio constava como o único representante paraibano do ramo da construção civil incluído na publicação Estados Unidos do Brasil: sua história, seu povo, comércio, indústria e recursos (1919), organizada por João Luso, com a pujança da empresa, em tão curto período de existência, traduzindo-se na quantidade de obras, diversidade tipológica e de escala exibidas.107 Além do edifício da loja Rainha da Moda, em cujo primeiro pavimento funcionava também a Cunha & Di Lascio, a produção da firma já contava, nesse momento, com palacetes em Trincheiras e Tambiá, residências nas ruas João Machado, para Alceu Balthar, e Monsenhor Walfredo Leal, para o próprio Avelino Cunha, prédios comerciais na rua Maciel Pinheiro, com outras tantas em andamento, como o prédio para a Associação Comercial, melhorias na Câmara Municipal, ampliação da Escola de Aprendizes Artífices e grandes armazéns junto ao porto de Cabedelo para a Texas Company.

Encarregado inicialmente da urbanização e aformoseamento da praça Pedro Américo e entorno, Di Lascio passou a realizar encargos semelhantes para as praças Aristides Lobo e Conselheiro Henriques, ainda ao governo Camilo de Holanda. Na praça Aristides Lobo, em particular, separada da Pedro Américo apenas pelo edifício em que se instalara, em momentos distintos, o Tesouro estadual e a Assembleia legislativa, além dos serviços de ajardinamento, Di Lascio criou uma solução engenhosa para a ligação entre a rua da Areia, um dos primeiros eixos estendidos entre os estratos alto e baixo da capital, e o trecho em declive que a conectava àquelas praças.

A solução proposta por Di Lascio combinou sensibilidade às peculiaridades do sítio e uma exploração ampliada da potencialidade do local como dispositivo para captura visual da cidade, com a criação de um recinto circular na cota mais elevada, resguardado em relação ao percurso da rua, definido à maneira de um mirante para apreciação da paisagem urbana, a partir do qual se desdobrava uma escadaria em direção à praça, com todo o conjunto delimitado por uma balaustrada neoclássica. Um problema de simples passagem entre níveis convertido por Di Lascio em uma ocasião para uma intervenção arquitetônica que monumentalizava a dimensão do espaço público e ritualizava o cotidiano urbano mais corriqueiro.

Outro projeto de praça realizado no âmbito dos preparativos para os festejos do centenário da Independência foi encarregado a Di Lascio pelo governo Solon de Lucena na região do Tambiá, que se configurava nesse momento como um dos espaços cobiçados para moradia pela elite local. Além do traçado paisagístico da nova praça da Independência, Di Lascio projetou um obelisco a ser implantado no cruzamento dos dois eixos que a atravessam diagonalmente, e propôs a construção de um coreto - uma edificação bastante contida em sua expressão formal, exceto pela carga ornamental concentrada em seu frontão. Erguido no limite entre a praça e a avenida Monsenhor Walfredo Leal, e levemente elevado em relação ao solo, o edifício funcionaria como um pavilhão para autoridades em datas festivas e cívicas até pelo menos o final dos anos 1930, quando muitos desses eventos são deslocados para a nova avenida Getúlio Vargas, aberta nessa década, junto ao Instituto de Educação da Paraíba.

A habilidade de Di Lascio em explorar as aspirações subjacentes a certos programas e encomendas, dotando-as de uma identidade particular consoantes a de suas demandas programáticas e simbólicas, é um dos fatores que explicam sua escolha para o concurso fechado para a sede da Associação Comercial (Figura 11), lançado em junho de 1917, no qual concorreu com Octávio Freire e Mateus de Oliveira, que acabou por não apresentar sua proposta. Ao ser erguido em uma das extremidades da rua Maciel Pinheiro, em terreno resultante do alargamento da via, o edifício abrigaria também o Museu Comercial, a Junta Comercial e a Sociedade de Agricultura da Paraíba e contaria com dois pavimentos, sinalizando de antemão o caráter excepcional a imbuir o projeto.108

Sobre a base de uma planta concebida pelo arquiteto espanhol José Orozco,109 a proposta apresentada por Cunha & Di Lascio aderiu a um classicismo monumental inequívoco, como que num esforço por transferir para o projeto a imponência e o prestígio que a instituição buscava como motor da dinamização econômica da Paraíba desde sua fundação, em 1874. Com três corpos principais que avançavam sobre a rua, com os dois laterais mais proeminentes em altura e ênfase decorativa, o custo elevado, decorrente sobretudo do conjunto escultórico que arrematava a edificação, além das dificuldades de sua realização, tornava a proposta de Di Lascio menos coerente com as condições orçamentárias de partida, ainda mais quando comparada com a apresentada por Octávio Freire. Descrita como “uma perfeita obra d’arte”110, mais condizente com o clima local e fiel aos limites orçamentários, a proposta de Freire custava perto de um terço da de Di Lascio.111 Que esta tenha sido selecionada, a despeito de ser muito mais onerosa, é algo para ser entendido no interior da dinâmica de prestígio e poder profissional e pessoal dos envolvidos, já que a falta de registros sobre a proposta de Freire inviabiliza qualquer esforço comparativo no plano da arquitetura.

A vitória no concurso para a Associação Comercial repercutiu no incremento de encomendas privadas e novas demandas por parte do Estado. Entre as obras públicas de relevância nesse período, estão os projetos para novas escolas realizadas no âmbito do programa oficial implantado por Camilo de Holanda para dotar a educação pública de uma rede própria de instalações. Em dois projetos encomendados à Cunha & Di Lascio, sendo eles os grupos escolares Antônio Pessoa (1919) e Isabel Maria das Neves (1921), evidencia-se a desenvoltura com que o arquiteto manejava estilemas Art nouveau, inscrevendo-os nos limites de um arranjo formal de matriz clássica, com eixos de simetria estruturantes bem definidos que traíam a liberdade expressiva característica do impulso renovador da arquitetura fin de siècle.

Embora compondo parte de um mesmo programa governamental e funcional, as duas escolas evitam qualquer inclinação para a padronização, impondo-se como objetos singulares e de caráteres específicos. O Antônio Pessoa, mais horizontal e classicizante, é arrematado por um frontão de escassa ornamentação, assim como toda a edificação. Resolvida em dois corpos laterais maciços e o centro organizado à maneira de uma varanda de recepção, com um par de colunas dóricas assinalando a entrada, destacam-se nesses volumes laterais as duas grandes janelas em arco abatido tripartido, reinterpretações Art nouveau do clássico motivo palladiano, presente em outras obras de Di Lascio do período.

Figura 11
Projeto oficial da Associação Comercial ac om panhad o de fotografia da fachada frontal.

Por sua vez, o grupo escolar Izabel Maria das Neves (Figura 12)112, de maior imponência, tem sua verticalidade acentuada pela segmentação da edificação em três volumes, com o corpo central sobressaindo em altura em relação aos demais. Sem vestígios aparentes de classicismo, a opção feita por Di Lascio confere ao edifício traços que o aproximam de um chalé urbano dotado de certo caráter pitoresco, impressão acentuada pelo arremate de cada um dos volumes com telhados extrapolando os limites do corpo edificado. Com ornamentação restrita, limitada basicamente a uma faixa de frisos horizontais que contorna o perímetro junto ao telhado, Di Lascio explora recursos simples, como marcação de cercaduras, altos e baixos relevos, para conferir profundidade às fachadas, sobretudo na fachada principal, onde uma variação de janela tripartida encima e demarca a entrada da escola.

Figura 12
Fotografia da fachada frontal do grupo escolar Izabel Maria das Neves.

Ressaltando as qualidades da edificação e a idoneidade profissional do trabalho da Cunha & Di Lascio, a obra final não deixaria de sofrer reparos por um contemporâneo, incomodado com a “falta de linha e harmonia que há entre o corpo do prédio e o portão de entrada”, tendo em vista o fim a que destinava e seu papel formador: “Não é compreensível que uma casa que se vai prestar a um estabelecimento de ensino […] possua um portão tão estreito e acanhado”113.

Numa escala maior e em volumes de marcada horizontalidade, certos aspectos explorados no Izabel Maria das Neves, como o tratamento das fachadas e a relação entre volumes edificados e telhados, reapareceriam em obras posteriores, tanto na intervenção de Di Lascio para a modenatura das fachadas do Orfanato Dom Ulrico (1919) como no edifício da Escola de Aprendizes Artífices do final da década de 1920 e, posteriormente, no projeto para o Instituto de Menores Abandonados, de 1937 (Figura 13).

Figura 13
Fachada frontal do Instituto de Menores Abandonados.

A mesma familiaridade de Di Lascio em negociar e acomodar elementos de distintas procedências estilísticas segundo um arcabouço clássico pode ser constatada no edifício da Academia de Comércio Epitácio Pessoa (1921-1922) (Figura 14). Originalmente destinado a abrigar o Parahyba Club, o edifício teve seu projeto inicial conduzido pelo arquiteto Octavio Freire, sendo posteriormente assumido por Di Lascio. Sem o recurso de outros registros que não as imagens da obra concluída, é difícil delimitar até onde foi a contribuição de cada um dos arquitetos envolvidos no projeto. No entanto, considerando outras obras atribuídas a Freire, como o majestoso ecletismo clássico da Escola Normal, talvez seja no uso comedido de dispositivos Art nouveau, sem os arroubos floreais típicos de algumas de suas variantes, que se possa reconhecer com mais clareza a presença de Di Lascio.

Figura 14
Fotografia da Academia de Comércio Epitácio Pessoa, vendo-se a partir da Praça Venâncio Neiva.

Por certo a habilidade no manejo de um léxico formal abrangente, atualizando-se ou pretendendo se manter sempre em sintonia com os desdobramentos da cultura arquitetônica, constitui um dos trunfos de Di Lascio. Sem afirmar qualquer predileção a priori, ou alinhar-se incondicionalmente a qualquer vertente estética, lidando ora com tendências historicistas, amalgamando-as em distintos níveis com soluções classicistas e ecléticas, ora impregnando-se de impulsos de renovação, ora desenvolvendo projetos ancorados em uma racionalidade formal de matriz moderna filtrada pelo academicismo, como o faria em obras posteriores, ao longo de sua carreira, Di Lascio realizou passagens de um código estilístico a outro sempre que encomendas reclamavam a coerência interna entre programa e tipologia, como constatam as dezenas de projetos realizados entre os anos 1920 e 1950. Dos exercícios ecléticos classicistas presentes em residências, instituições e prédios públicos para o neoegípcio impregnado de simbologia esotérica da Loja Maçônica Branca Dias (1925-1927) (Figura 15)114, não há rupturas, exceto nas aparências, mas acomodações dentro de um leque já estabelecido em que o rigor da planta preside o arranjo funcional sem interferir na expressão formal pretendida em cada caso.

Sem que se perceba qualquer desenvolvimento linear irredutível, ao longo de sua carreira Di Lascio alternaria sem constrangimentos opções estéticas ao sabor das circunstâncias que cada situação específica propiciava, desbancando juízos que considerassem a ideia de uma evolução lógica da arte e da arquitetura, do passado para o presente, como norte analítico. De fato, a despeito das diferenças superficiais, subjaz uma coerência interna ao processo, sustentada pela disciplina compositiva de natureza acadêmica, informando e formando as obras por meio de um trato rigoroso dos elementos, submetidos a leis gerais que persistem na sucessão das variações de moda e contingências de estilo e época, das quais não escaparia nem mesmo a arquitetura moderna, ensaiada em obras como a Capitania dos Portos (1938-1939) (Figura 16) e o Cine-Teatro Plaza (1937), contemporâneos ao projeto pitoresco do Instituto de Menores Abandonados (1937) que, por sua vez, guarda mais similaridades com o grupo escolar Izabel Maria das Neves (1919) do que com aqueles.

Figura 15
Fotografia da fachada frontal da Loja Maçônica Branca Dias.

Figura 16
Projeto oficial da Capitania dos Portos da Paraíba acompanhado de fotografia da fachada frontal.

Como responsável por uma prática que se estenderia até a década de 1950, talvez esteja nessa flexibilidade disponível às demandas específicas a razão da longevidade e sucesso profissional que Di Lascio alcançou num mercado tão suscetível a oscilações de gosto e tendências como o da arquitetura brasileira na primeira metade do século XX, um campo aberto de disputas entre proposições historicistas, nacionalistas e internacionalistas, que só pareceria adquirir estabilidade justo no momento em que ele cessa sua produção. Vista nas circunstâncias da prática arquitetônica no Brasil da primeira metade do século XX, longe de ser uma inconsistência a ser denunciada como fachadismo e formalismo frívolo, a liberdade na busca por soluções plástico-formais convenientes às distintas solicitações, comum entre arquitetos de formação acadêmica, sinalizavam o grau de domínio exercido no ofício da arquitetura, digno de nota e alvo de interesse do mercado da construção (Figura 17).

Figura 17
Mapeamento dos principais projetos de Hermenegildo Di Lascio na cidade da Paraíba.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Quase nove décadas depois de reconhecida por Celso Mariz, ainda há muito a se investigar para aquilatar o verdadeiro alcance da “influência enorme [dos profissionais italianos] na edificação dos últimos tempos” na capital paraibana,115 por ele afirmada. Responsáveis pela construção de “casas alegres, [por] arejarem, fazerem os primeiros bangalôs, movimentarem os tetos”116, esses profissionais ajudaram a corroer, de fora para dentro, a feição colonial com que a cidade avançara no século XX, conferindo-lhe um ar de pretensa modernidade ao gosto da belle époque paraibana.

Difusamente reconhecida, sendo eventual objetos de citações avulsas baseadas em informações muitas vezes equivocadas e desprovidas de comprovação documental, motivo de certo orgulho local em matérias da imprensa e postagens em redes sociais, a contribuição desses personagens e de outros profissionais italianos foi indispensável ao projeto das elites locais de dotar a acanhada capital de signos culturais evocativos da ideia, um tanto vaga, de modernidade, mesmo que através de artifícios superficiais.117 Importância, contudo, que não encontra ainda correspondência no volume e qualidade dos estudos a respeito. É sintomático, nesse sentido, que uma obra como Roteiro sentimental de uma cidade, de Walfredo Rodriguez, de 1962, que repassa a história da cidade e da sociedade ao longo de séculos, ignore a presença de arquitetos, engenheiros, construtores e outros profissionais italianos como agentes de transformação da cidade. A própria presença italiana é minguada na obra, reduzida a tão somente três entradas pontuais no texto.

A adoção de Paschoal Fiorillo e Hermenegildo Di Lascio como ponto de partida decorre dessa deficiência memorialística e documental e da lógica pragmática de um trabalho inaugural. A presença de Fiorillo e Di Lascio materializa-se mormente no acervo edilício remanescente. Um passeio pelas ruas da capital traz à tona muitas das marcas das suas atuações, assim como de outros tantos dos seus contemporâneos e compatriotas que atuaram na epopeia de uma modernidade periférica. Marcas em contínuo desaparecimento, é preciso destacar, em razão das demolições e descaracterizações que suas obras têm sofrido nas últimas décadas, com frequência sob os mesmos argumentos a favor do progresso e da modernidade que embasaram suas próprias realizações. Tal situação acentua quão urgentes são as ações voltadas à preservação material e documental, como os esforços de tombamento desde a década de 1980 e a crescente leva de estudos sobre a arquitetura da época - que, normalmente, ainda atentam, sobretudo, para os palacetes da elite ou as sedes institucionais de vulto

Mesmo que a intelectualização europeizada em parte justifique o sucesso profissional, juntamente à própria origem estrangeira, que também garantiu destaque aos dois arquitetos, não se pode resumir a tais fatores duas trajetórias tão significativas. Mais do que às credenciais culturais, presume-se que o êxito desses personagens muito se deveu ao contexto de oportunidade em um setor construtivo na cidade da Paraíba, à época tão esvaziado. Diante da escassez de mão de obra qualificada nesse período - indispensável para materializar os anseios modernizantes dos agentes públicos e da nascente burguesia -, os arquitetos se posicionaram no lugar certo, no momento certo. Destacaram-se por atender com eficácia às demandas do ofício, eram versáteis, hábeis e respondiam com precisão às expectativas da clientela. Essa sintonia entre contexto, competência e oportunismo os consolidou como referências, permitindo que sua prática incidisse, decerto silenciosamente, na reconfiguração dos modos locais de produzir arquitetura.

Talvez o esquecimento de Fiorillo e Di Lascio na historiografia não se deva apenas ao vínculo com o ecletismo - o que, por si só, já se mostrou motivo suficiente para desqualificar essa produção. Suas obras escapam desse reducionismo. Ao transitarem por diferentes repertórios, do Art déco ao neocolonial, demonstraram capacidade de assimilar os novos discursos construtivos e estéticos, com manejo técnico para além da fachada. Quiçá estivessem menos interessados em legitimar uma linguagem específica do que em responder, de forma prática, às exigências do ofício, focando em produzir arquitetura em larga escala. Como a maior rentabilidade no setor estava na construção e nos materiais - e não no projeto -, sua atuação extrapolava o desenho, alcançando o fazer construtivo em sua totalidade. É justamente essa presença mais discreta, voltada à prática e não ao discurso, que os inseriu nos bastidores das narrativas historiográficas. Não por falta de relevância, mas porque seus legados não se encaixaram com facilidade nos filtros consagrados pela literatura, muito guiada por categorias estilísticas.

Quando comparadas, as trajetórias divergem em produtividade. Enquanto Di Lascio permaneceu em João Pessoa por mais tempo - até sua morte, na década de 1950 -, Fiorillo se retirou antes, presumivelmente devido à saturação do mercado. O êxito de Di Lascio muito se deveu à sua associação na firma Cunha & Di Lascio com Avelino Cunha, membro da aristocracia rural e figura influente na capital, visto que empreender na construção civil exigia capital considerável, alianças estratégicas como essa foram determinantes. Supõe-se que a parceria garantiu ao italiano acesso privilegiado a comissões públicas e a uma clientela fiel, permitindo à firma reunir capital cultural, social e financeiro, evidenciando, assim, a rede de relações de poder que rege as dinâmicas sociais no campo da construção civil.

Estudar as trajetórias de Paschoal Fiorillo e Hermenegildo Di Lascio exige o movimento de voltar-se à cidade e ao acervo remanescente, e não aos discursos escassos e imprecisos que pretenderam registrá-los. Distantes da condição de coadjuvantes, os dois arquitetos participaram ativamente da conformação da paisagem urbana da cidade, deixando marcas concretas que direcionaram os caminhos da produção arquitetônica. Ainda que a escassez documental e o viés seletivo da historiografia tenham transportado seus nomes para segundo plano, são suas obras, sobreviventes do tempo, que sustentam tais legados.

REFERÊNCIAS

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    • Editores responsáveis:
      Maria Aparecida de Menezes Borrego e David Ribeiro.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      06 Jul 2026
    • Data do Fascículo
      2026

    Histórico

    • Recebido
      21 Jul 2025
    • Aceito
      06 Nov 2025
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