RESUMO:
Insistindo na importância da reflexão sobre o ato de projetar em preexistências de reconhecido valor patrimonial, propomos aqui um mergulho na contribuição de Cesare Brandi, para além de sua Teoria del Restauro (1963), e mais especificamente na sua relação com a arquitetura. Mergulho este que pode ser identificado como um movimento inicial, diante da vasta produção deste autor e sobre este autor. O artigo visa uma primeira aproximação com dois livros praticamente desconhecidos no ambiente brasileiro: Eliante o della Architectura (1957), publicado pelo autor antes de sua teoria e voltado ao campo da arquitetura, e Il Patrimonio insidiato: scritti sulla tutela del paesaggio e dell’arte (2001), que compila uma série de curtos textos publicados em jornais de grande circulação na Itália, em especial no tradicional jornal milanês Corriere della Sera. Partimos do pressuposto de que os princípios teórico-metodológicos do campo disciplinar do restauro são um ferramental essencial para o enfrentamento dos desafios preservacionistas contemporâneos, desde que compreendidos a partir das especificidades de cada sítio, da atribuição de valor pela diversidade de sujeitos que se relacionam com o sítio, o contexto cultural no qual se insere e, não menos importante, a partir do entendimento da(s) teoria(s) em seu potencial de operacionalização projetual onde a subjetividade é inerente à ação preservacionista. Em vez de assumir a inaplicabilidade dos princípios brandianos à arquitetura - uma crítica recorrente no campo -, este artigo defende um renovado engajamento crítico. O discurso atual muitas vezes parece sofrer de uma espécie de paralisia amedrontada em examinar a restauração como prática de projeto que, em vez de promover diálogos e escrutínios críticos, nega por princípio, sem aprofundamento. Tal percepção nos lançou na proposta de revisitar o pensamento de Cesare Brandi dentro de um enquadramento rigoroso e contextualizado.
PALAVRAS-CHAVE:
Restauro; Cesare Brandi; Patrimônio Construído; Método projetual
ABSTRACT:
Insisting on the importance of reflecting on the act of designing interventions in pre-existing structures of recognized heritage value, this article proposes an initial investigation into Cesare Brandi’s contributions beyond his well-known Teoria del Restauro (1963), focusing particularly on his relationship with architecture. This engagement can be understood as an initial step, given the vast body of work by and about this author. The article seeks a first approach to two books that are largely unknown in the Brazilian academic context: Eliante o della Architectura (1957), a publication preceding Brandi’s theory and oriented toward architectural discourse, and Il Patrimonio insidiato: scritti sulla tutela del paesaggio e dell’arte (2001), which compiles a series of short articles originally published in widely circulated Italian newspapers, especially the traditional Milanese newspaper Corriere della Sera. The study operates under the assumption that the theoretical and methodological principles of the disciplinary field of restoration constitute an essential toolkit for addressing contemporary preservation challenges, provided they are understood in light of the specificities of each site, the diverse values attributed by different stakeholders, the cultural context in which it is embedded, and -no less importantly-the understanding of theory (or theories) in their potential for project-based operationalization, in which subjectivity is inherent to preservation practice. Rather than assuming the inapplicability of Brandi’s principles to architecture -a recurring critique in the field- this article argues for renewed critical engagement. Current discourse often seems to suffer from a kind of fearful paralysis to examine restoration as a design practice, one that, instead of fostering dialogue and critical scrutiny, rejects it on principle and without deeper investigation. This perception led us to propose a reexamination of Cesare Brandi’s thought within a rigorous and contextually grounded framework.
KEYWORDS:
Restoration; Cesare Brandi; Built Heritage; Design Method
O LUGAR DO PROJETO DE INTERVENÇÃO SOBRE PREEXISTÊNCIA DE RECONHECIDO VALOR PATRIMONIAL E A FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM ARQUITETURA E URBANISMO1
A preservação do patrimônio cultural e, neste âmbito, do patrimônio construído, que é o foco deste artigo, sabemos, constitui-se em um campo de disputas de narrativas que direcionam quais valores atribuídos iluminarão a definição do objeto de preservação institucionalizada pelos órgãos de preservação em seus vários níveis (municipal, estadual e nacional, para nos atermos ao recorte do Brasil). Afinal, quais preexistências tem seu valor patrimonial reconhecido?
Felizmente, vivemos um progressivo alargamento da compreensão sobre o campo preservacionista em que, como ressalta Castriota,2 durante muito tempo se deu excessiva atenção ao como preservar?, destacando-se a dimensão material. Esta atenção foi sendo progressivamente redirecionada para a definição de o que? e por que preservar?3. Assim, tem-se buscado a centralidade dos sujeitos no processo de definição dos bens selecionados enquanto objetos de preservação, problematizando a questão sobre quem atribui valor a esses bens.4 Conforme reflexões que vimos acumulando ao longo dos últimos anos, o debate recente no campo aponta para a centralidade de temas como a “significância cultural” e o papel dos sujeitos para a atribuição de valores. Assim, embutida em todas as demais questões colocadas, acrescentamos a busca por uma atuação que coloque a centralidade no para quem?5
Essa mudança de ordem de prioridades se faz extremamente necessária e segue impondo grandes desafios à operacionalização de ações que partam da centralidade dos sujeitos. Sabemos o quanto ainda estamos longe do alcance de ações que reflitam de forma consistente esta desejada centralidade. A tese recentemente desenvolvida por Julia da Rocha Pereira,6 intitulada Sacerdotes e profetas do patrimônio urbano no Brasil: consensos e dissonâncias no Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Iphan (1990-2010), acompanha, a partir de pareceres e debates no âmbito de definição do que é reconhecido como patrimônio nacional, como os discursos vão oscilando entre posições que apontam, de um lado, para visões mais abrangentes e centradas na pluralidade de sujeitos envolvidos (os “profetas”) e, de outro, para aquelas consolidadas ao longo de décadas de proeminência de uma determinada visão sobre a “pedra e cal” que segue reverberando em tempos recentes (os “sacerdotes”). Paulo César Marins7 também apresenta um panorama inquietante ao analisar os tombamentos e registros realizados pelo órgão federal entre os anos 1990 e a primeira década do século XXI. Ao procurar avaliar “efeitos práticos de novos marcos legais e de ação política” e “em que medida tais resultados efetivamente alteraram a ideia de Brasil semeada pelos modernistas e pela chamada ‘fase heroica’ após a redemocratização”, o autor8 observa que
O peso da tradição, e sobretudo de uma herança conceitual simultaneamente agregadora e segregadora, sintética e hierarquizadora, é parte constitutiva dessa mesma trajetória de patrimonialização, o que certamente não pode ser olvidado para um devir que seja pautado pelo equilíbrio dos agentes que compõe o país.9
Tais enfrentamentos não deveriam apagar a discussão sobre o como?10, ou seja, sobre o fazer projetual específico do campo preservacionista. Isso porque, depois de “resolver” o que, para que e para quem, a questão do como sempre estará presente e não deve ser subestimada, especialmente pelos profissionais da arquitetura e urbanismo. Nunca é demais lembrar como a forma de enfrentamento das decisões projetuais de intervenção sobre o construído pode ter consequências graves sobre as demais questões hoje consideradas, ao menos ao nível do discurso, como prioritárias.
É importante salientar que as reflexões aqui desenvolvidas partem do pressuposto de que a apropriação do arcabouço teórico do campo da preservação associada à prática projetual são um caminho a ser perseguido na formação profissional de arquitetos e urbanistas.11 Na atuação como professora de diversos cursos de graduação em Arquitetura e Urbanismo espalhados pelo nordeste brasileiro, desde 2001, tanto na área de projeto quanto da teoria e história,12 esta autora vem consolidando suas pesquisas que levam à compreensão de que o estudo sobre as teorias do restauro desenvolvidas ao longo dos séculos não são, e nem devem ser, assunto para “teórico e/ou historiador” da arquitetura, como muitas vezes se observa, mas, sim, objeto de aprofundamento de arquitetos que trabalham com projetos de intervenção de cunho conservativo.13
Esse aprofundamento faz sentido quando se compreende a(s) teoria(s) em seu potencial de operacionalização projetual. Beatriz Mugayar Kühl alerta para os riscos de se associar teoria a uma espécie de “receita” ou “dogma”, afastando-se de seu entendimento enquanto princípios operativos e ao fato que sempre observamos a convivência de múltiplas visões sobre o “como” intervir.14 O importante consenso construído no campo preservacionista que diz respeito à especificidade de cada ação preservacionista, onde cada caso é um caso a ser analisado a partir de seu contexto único e em suas múltiplas dimensões (materiais e imateriais), costuma ser desqualificado por uma interpretação rasa e epidérmica de que tal consenso deixa abertura para uma atuação de maneira aleatória, como se estivéssemos em um campo de reflexão carente de princípios consolidados, que não é o caso.
Considerando que o “construir no construído” se constitui no Brasil urbano de 2025 como quase que a totalidade do campo de atuação de arquitetos e urbanistas, torna-se ainda mais preponderante a necessidade de reflexão sobre essa preexistência, identificando suas especificidades e interpretando quando há a necessidade de pautar as decisões projetuais por princípios conservativos.15
Claudio Varagnoli16 já vem alertando, desde o início do século XXI, para a improdutividade e consequências negativas de uma cisão que se construiu, ao longo da primeira metade do século XX, entre o que o autor chama de “cultura do projeto” e a “cultura do restauro”. A consequência dessa cisão é a ideia de estarmos tratando de questões apartadas por profissionais voltados ao projeto contemporâneo e, de outro lado, por profissionais voltados ao estudo da história da arquitetura e do projeto de intervenção preservacionista. Este apartamento leva a uma compreensão equivocada de que a ação preservacionista não se trata de uma ação do presente, ancorada nas demandas contemporâneas e na atribuição atual de valor sobre o bem objeto de intervenção. Superar tal cisão se coloca, ainda hoje, como um desafio a ser perseguido.17
Para seguirmos no enfrentamento de tal desafio, ressaltamos a importância de investimento no entendimento acurado das contribuições da teoria do restauro desenvolvidas ao longo do tempo, com destaque às contribuições pós segunda guerra mundial, quando podemos perceber, claramente, uma virada de chave de uma visão cientificista do restauro para uma visão ancorada na subjetividade.18 Entendemos que esta mudança de chave pode ser identificada como a constituição de uma concepção moderna do restauro, para a qual as contribuições de Cesare Brandi, Renato Bonelli e Roberto Pane, entre outros italianos, tiveram um papel de destaque.
Diante desta percepção, nos propomos a concentrar o desenvolvimento de uma pesquisa específica sobre a contribuição de Cesare Brandi por entender que algumas de suas proposições teórico-metodológicas são bastante representativas desta visão moderna da concepção de restauro. Estamos falando de conceitos como o de “Unidade Potencial”, os de “Instância Estética e Histórica”, as questões desenvolvidas sobre o uso condicionado aos valores identificados, e na mudança de uma postura baseada em uma suposta objetividade científica para a subjetividade inerente, ancorada no “momento de reconhecimento da obra de arte”. Como tais reflexões interferem no enfrentamento da questão do como intervir sobre a preexistência de reconhecido valor patrimonial? Ou seja, em uma das práticas específicas do campo da arquitetura e urbanismo.
Além disso, princípios como retrabalhabilidade (uma vez que a reversibilidade se provou como um mito), mínima intervenção, compatibilidade de materiais e distinguibilidade, ou seja, princípios teórico-metodológicos do campo disciplinar do restauro que foram consolidados e iluminados pela discussão pós-Segunda Guerra Mundial, são de grande valia para o amadurecimento de soluções de projeto sobre pré-existências nos quais o objetivo conservativo é central. Nunca é demais lembrar que estes são princípios que se interrelacionam, a partir da demanda específica de cada intervenção, e o atendimento destes enquanto checklist não é o objetivo da preservação e não garante qualidade projetual.
Apesar de muito já se ter falado sobre Cesare Brandi e a arquitetura, inclusive reiteradas vezes argumentando-se sobre a distância entre a reflexão teórica brandiana e as especificidades do campo da arquitetura em decorrência de o autor não ser arquiteto de formação, insistimos que ainda há muito a ser estudado. Em especial porque, na grande maioria dos casos, tais críticas resultam de uma leitura concentrada no livro mais traduzido deste autor (Teoria da restauração) e ignoram a complexidade e amplitude de sua produção bibliográfica, grande parte dela acessível apenas em sua língua original, o italiano. Apesar disso, como lembra Kühl,19 já são muitos os escritos disponíveis e acessíveis via internet, muitos deles em português, que permitem uma aproximação bem mais consistente das reflexões desse autor, para além do livro Teoria da Restauração.20 Mesmo que a leitura não seja exatamente sobre os escritos do próprio Brandi, são vários os pesquisadores, na Itália e fora dela, que se debruçam sobre o tema. O artigo desenvolvido por Kühl,21 por ocasião do aniversário de sessenta anos da primeira publicação da Teoria da restauração em italiano (1963), é, por exemplo, uma belíssima oportunidade para uma reflexão contextualizada da teoria brandiana, sem falar das ricas indicações bibliográficas para além do próprio texto da autora.
O intuito da pesquisa não é dar exclusividade ou autoridade superior a este autor específico, mas estimular uma reflexão mais detida em sua contribuição para o campo da arquitetura e do urbanismo. O que nos move é a busca de um caminho no qual a ampliação do debate preservacionista não deixe de dialogar com questões teóricas importantes para o apoio à ação projetual que já foram desenvolvidas com um aprofundamento teórico-metodológico que merece atenção.
A TEORIA BRANDIANA E A REFLEXÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA VOLTADA AO PATRIMÔNIO CONSTRUÍDO HOJE: UMA POSSIBILIDADE OU UMA FALÁCIA?
Apesar de se falar muito sobre uma certa preponderância dos estudos sobre a contribuição brandiana no campo da preservação patrimonial em detrimento de outras abordagens, observamos um crescente processo de desqualificação que, em alguns casos, demonstram, na verdade, um conhecimento superficial da contribuição deste autor.
Seria a teoria da restauração de Cesare Brandi antiquada e factível apenas para o ambiente europeu? Artigos recentes defendem, inclusive, a ideia de que esta teoria beira a impossibilidade de compreensão. Um clássico deste tipo de abordagem, e que alcançou grande repercussão no ambiente brasileiro, é o artigo publicado pelo espanhol Salvador Muñoz Viñas na revista científica CeROArt,22 em 2015, intitulado “Quem tem medo de Cesare Brandi: reflexões pessoais acerca da teoria do restauro”23. O título do artigo o autor toma emprestado, como o próprio explica, de outro artigo escrito em 2007 por Helen Hughes.24 Entre outros aspectos, Muñoz Viñas conclui que a construção teórica do autor é completamente incompreensível e, por vezes, contraditória.25 Segundo o autor, a primeira leitura que ele realizou da teoria de Brandi, ainda como jovem estudante, resultou na sua sensação de fracasso e incompetência ao não compreendê-lo, mas, mesmo após se constituir como pesquisador experiente do campo, ao retornar ao texto da Teoria da Restauração, o autor conclui que:
Foi apenas realizando uma série de piruetas intelectuais implausíveis que consegui aspirar a compreender essa teoria. No final, tive que admitir que a verdadeira Teoria (as verdadeiras palavras de Brandi, e não minhas interpretações improvisadas) simplesmente não fazia sentido para mim. Eventualmente, parei de tentar.26
O autor apresenta suas reflexões pessoais após retornar ao texto e não economiza críticas e adjetivos para a teoria brandiana: “obscura” e “incompreensível” em alguns trechos que o autor interpreta como contraditórios entre si. Muñoz Viñas denuncia ainda o que ele chama de “desprezo intelectual” por quem não consegue acompanhar as contribuições brandianas.27
Apesar do título deste artigo de Muñoz Viñas vir emprestado de artigo anterior de Helen Hughes,28 seus conteúdos são muito diversos em vários aspectos. Assim, faz-se importante um olhar atento aos argumentos desta autora que levaram à definição do título de seu artigo. Hughes, profissional atuante entre os conservadores britânicos, escreve esse texto específico após realizar um curso de um mês em Roma, no International Centre for the Study of the Preservation and Restoration of Cultural Property (ICCROM), entre outubro e novembro de 2006. A autora se propõe, neste artigo, a apresentar algumas diferenças entre o contexto italiano (podemos dizer latino?) e o contexto inglês de preservação, a exemplo da aversão inglesa ao termo “restauração”29 e da resistência britânica a discussões teóricas. De forma bastante interessante, e podemos dizer até divertida, a autora destaca seu espanto quando percebe que, enquanto em inglês “‘teoria’ significa ‘algo filosófico e muito assustador’, em outras línguas simplesmente significa ‘metodologia’30. Seu objetivo é provocar a reflexão sobre qual o espaço para discussões metodológicas em um Reino Unido que parece estar mais preocupado com a execução das ações.31 A autora provoca ainda sobre o medo inglês do termo “restauração”, fazendo um trocadilho com o título do artigo:32 “Talvez eu deva me perguntar: estou com medo de Ruskin? - estou mentindo ao não declarar abertamente que realizo restauração?” Mas, a autora conclui que, talvez, a questão semântica deva-nos preocupar menos.33
Sobre esta questão semântica, acrescentamos que estas diferenças na abordagem dos termos restauração/preservação/conservação em contextos culturais e linguísticos diversos, ao invés de paralisar as trocas entre autores de nações diferentes, devem encorajar o entendimento destes dentro seu contexto cultural de produção, algo que pode pavimentar o caminho para um diálogo frutífero para todos os envolvidos.34 Em nossa pesquisa, a atenção tem se voltado para a ação projetual sobre a materialidade do patrimônio construído, com vistas à transmissão de valores, reconhecidos hoje para as próximas gerações. Observamos que autores oriundos de contextos culturais diversos chamarão este tipo de ação projetual ora de restauração, ora de conservação, ora de preservação. Assim, precisamos estar atentos ao contexto cultural de cada autor consultado, pois estes vão eleger os termos mais recorrentes nos referenciais bibliográficos por eles mobilizados. O que precisa estar claro, em nossa perspectiva, seja qual for o termo utilizado, é se os princípios teórico-metodológicos do campo disciplinar do restauro são norteadores das reflexões.
Parece-nos que mais importante que a utilização de um ou outro termo é a clareza acerca dos princípios construídos por esse campo disciplinar ao longo dos anos. Especialmente no que concerne à reflexão que se desenvolve da segunda metade do século XX até os dias de hoje, quando identificamos a moderna concepção de preservação/ restauro/conservação. Tal concepção conta com uma clara mudança de chave de uma abordagem metodológica baseada na objetividade científica para uma que parte necessariamente do reconhecimento da subjetividade intrínseca às ações preservacionistas, cujo ponto de partida é o reconhecimento de valores por parte dos sujeitos.35
Voltando ao artigo de Hughes,36 observamos como a autora destaca a importância fundante das reflexões brandianas do ponto de vista metodológico e, obviamente, a necessidade de reavaliação em contextos contemporâneos:
Mas essa foi a primeira tentativa de definir uma metodologia para a conservação e, embora suas ideias estejam sendo reavaliadas, elas forneceram a base para a Carta de Veneza de 1964 e tiveram um impacto significativo na conservação do século XX. Tentar evitar Brandi, especialmente ao participar de um curso de um mês na Itália, intitulado “Compartilhando Decisões sobre Conservação”, seria tão impensável quanto discutir a história da conservação no Reino Unido e omitir Ruskin. Participar deste curso do ICCROM no outono passado me proporcionou a oportunidade de enfrentar meus medos e abraçar uma visão global da teoria moderna da conservação.
[…] Senti-me como um jovem e incompreendido bruxo chegando para seu primeiro semestre em Hogwarts - eu havia encontrado meu lar profissional. 37
Após a exposição sobre os temas principais tratados durante o curso, as visitas a casos concretos em andamento na Itália, e interlocução com os profissionais diversos com os quais se deparou ao longo desse processo, Hughes conclui que o objetivo do curso do ICCROM não era oferecer um manual de como agir em cada realidade específica, “mas, sim, fornecer um conjunto de ferramentas úteis - ideias, exemplos e sistemas - que pudéssemos usar e adaptar às nossas próprias necessidades e situações, com o objetivo de transformar em realidade o ideal ao qual havíamos sido expostos”38. Ou seja, uma preocupação eminentemente teórico-metodológica que é uma base de formação de grande valia no enfrentamento dos desafios contemporâneos da preservação.
O curso me fez perceber que, a menos que a teoria moderna da conservação seja compreendida e implementada por todos os conservadores, a disciplina não poderá se desenvolver. Precisamos aceitar a subjetividade de todas as decisões de conservação.39
Apesar de o desenvolvimento do artigo de Hughes40 estar todo ancorado na importância das reflexões metodológicas e na subjetividade inerente à ação preservacionista, ao concluir o artigo ela retorna ao título sugerido. Em nossa compreensão, ao fazê-lo ela acaba por estimular desdobramentos que levam a uma recusa a estudar a teoria moderna do restauro, mesmo que a própria autora tenha destacado a importância de aprofundar a compreensão da citada teoria. Talvez seja aqui que a autora estimule o desenvolvimento de textos posteriores, como o de Muñoz Viñas em 2015. Hughes conclui da seguinte forma:
Então, o que estou realmente perguntando na minha questão inicial - Quem tem medo de Cesare Brandi? - é: por que os conservadores têm tanto receio de discutir por que e para quem estamos conservando o patrimônio cultural? A menos que abandonemos princípios ultrapassados e enfrentemos a questão dos valores relativos - e passemos a questionar as hierarquias existentes -, a conservação não evoluirá como uma disciplina profissional e, mais importante ainda, não teremos um papel significativo na proteção do nosso patrimônio cultural. Afinal, somos os profissionais mais bem preparados para saber que, uma vez perdido, está perdido para sempre.41
Assim como Helen Hughes se perguntou sobre se estava com medo de Brandi (ou mesmo com medo de Ruskin em passagem anterior) e como a autora identificou a importância das reflexões teórico-metodológicas para enfrentarmos os desafios contemporâneos da preservação, nos perguntamos se essas colocações em forma de medo não têm paralisado a possibilidade de aprender e discutir a partir de princípios teóricos metodológicos já colocados por autores que nos precederam, como é o caso de Cesare Brandi. Será que este proclamado medo não tem paralisado a oportunidade de aprofundamento de algumas questões brandianas que podem nos auxiliar no enfrentamento de tais questões ao nível da ação projetual?
Foram tais questões que nos impulsionaram à publicação do artigo, desenvolvido em parceria com Flaviana Lira para a revista Paranoá, intitulado “Há algo a temer na “Teoria da Restauração” de Brandi? O mito paralisante do medo”42. As perguntas colocadas ao final do artigo de Hughes não são, em nossa leitura, absolutamente incompatíveis com a reflexão teórico-metodológica proposta por Brandi. A questão central da atribuição de valores, a influência das concepções de Riegl e a subjetividade inerente ao projeto de restauro perpassam as reflexões brandianas.43 Nesse artigo, desenvolvemos uma análise crítica da leitura realizada por Muñoz Viñas,44 em sua “Teoría contemporánea de la restauración”, e sobre as proposições teóricas de Cesare Brandi, trazendo alguns contrapontos e buscando superar uma polarização que vem se consolidando na discussão sobre a preservação.
Se valorizarmos a contribuição de Muñoz Viñas,45 especialmente acerca da importância da intersubjetividade, um ideal tão caro às reflexões contemporâneas da preservação, devemos ignorar ou condenar ao ostracismo a Teoria da Restauração de Cesare Brandi e toda a sua discussão teórico-metodológica? Acreditamos firmemente que não. Entretanto a associação entre o conteúdo do livro Teoría contemporánea de la restauración, cujo título já merece problematização, e o artigo posterior do mesmo autor “Who is Afraid of Cesare Brandi? Personal reflections on the Teoria del restauro”, parece ter sido a combinação perfeita para que tenha se desenvolvido um clima de polarização nada saudável ao ambiente de reflexão sobre a preservação e, em nossa compreensão, em especial no que diz respeito a ação projetual sobre o patrimônio construído.
É por isso que insistimos em retomar o tema e buscamos aprofundar o conhecimento sobre os escritos da própria inspiradora do artigo de Muñoz Viñas.46 É a mesma Hughes, em palestra posterior ao artigo publicado em 2007, sobre o contexto profissional da conservação no Reino Unido, que afirma:47
Cheguei à conclusão de que a falta de conhecimento da profissão sobre a teoria de Brandi - e, de fato, sobre todo o conceito de teoria - não apenas está prejudicando seriamente o desenvolvimento da conservação, como também está colocando em risco a gestão eficaz do nosso patrimônio cultural.48
A autora chega a sugerir que caso a teoria brandiana tivesse sido traduzida para o inglês como “Metodologia da conservação” talvez tivesse alcançado uma maior penetração no contexto anglo-saxão.48
Aqui convém lembrar que o livro de Muñoz Viñas49 publicado em espanhol com o título Teoría contemporánea de la restauración foi traduzido para o inglês e publicado nesta língua com o título Contemporary theory of conservation,50 com grande recepção neste ambiente anglo-saxão. Mesmo ambiente, onde também segundo Hughes,51 como já vimos, o aprofundamento sobre Brandi é quase nulo. Frank Matero52 também faz um comentário semelhante sobre o ambiente norte americano:
No campo do discurso sobre conservação nos Estados Unidos - e provavelmente em grande parte do mundo de língua inglesa - os escritos e conceitos de Brandi têm estado quase que completamente ausentes e, quando são conhecidos, muitas vezes, se perdem na tradução.53
É esta mesma linha de raciocínio que nos impulsiona a seguir ampliando a reflexão iniciada em 2020 no artigo citado anteriormente, e buscando progressivamente focar na contribuição de Cesare Brandi para o campo específico da arquitetura. Muito tem se falado sobre uma suposta incompatibilidade entre a reflexão teórica brandiana e a especificidade da arquitetura. Para tanto, vários argumentos têm sido levantados, sendo um deles o fato de que a teoria brandiana se volta ao “monumento” e que a arquitetura envolve uma variada gama de bens construídos. Esse tipo de crítica, por exemplo, ignora a própria concepção alargada de monumento adotada pelo autor:
Nesse ponto se deve especificar que por monumento entendemos qualquer expressão figurativa, seja arquitetônica, pictórica, escultórica e também qualquer complexo ambiental que seja particularmente caracterizado por monumentos singulares ou simplesmente pela qualidade do tecido edilício de que é formado, mesmo se não relacionado a uma só época.54
Sobre esta relação entre a contribuição brandiana e a arquitetura, por ocasião do centenário do nascimento de Brandi, em 2006, foi realizado um evento em Siracusa só sobre este tema, que resultou em uma publicação que reúne vários artigos então apresentados (Figura 1). São 375 páginas escritas por 25 pesquisadores, que destrincham a relação entre as reflexões teóricas brandianas e a arquitetura. Entretanto, também aqui estamos falando de um debate entre pesquisadores italianos e com resultado publicado apenas na língua italiana.
Capa da publicação resultante do seminário organizado pela Universidade da Catania com o tema Cesare Brandi e a Arquitetura: Cangelosi e Vitale (2006).
Conforme já comentado anteriormente, a bibliografia produzida por Cesare Brandi, e mais ainda sobre Cesare Brandi, é extremamente extensa e vai muito além da sua conhecida teoria da restauração (Figura 2). Kühl ressalta sua abrangente produção e o grau de qualidade dos escritos nos mais diversos gêneros:
Ele enfrentou as questões de preservação de maneira ampla e que de modo algum se limita às obras de arte em senso estrito ou aos especialistas em restauração. Ademais, a variedade de sua produção é permeada por uma aguda qualidade da escrita, que se revela de diferentes modos dependendo do gênero.55
Entre os escritos de Brandi, chamam atenção seus inúmeros relatos de viagens, especialmente pelo território italiano, onde o autor vai se deparando com situações concretas vivenciadas em monumentos e cidades nas mais diversas escalas e segue promovendo um diálogo entre tais situações concretas e suas proposições teóricas.
A partir da identificação da lacuna de pesquisas sobre outros textos brandianos para além da teoria da restauração, no território brasileiro, associada à identificação de um progressivo desinteresse por reflexões teórico-metodológicas mais apuradas no campo da ação projetual sobre preexistências de reconhecido valor patrimonial, a pesquisa desenvolvida pela presente autora56 busca contribuir para este aprofundamento a partir do mergulho em dois livros específicos (um publicado por Brandi e outro organizado por Massimiliano Capati com textos escritos por Cesare Brandi e dispersos em veículos de grande circulação), ambos pouco conhecidos no Brasil.
O primeiro livro selecionado, Il patrimonio insidiato: scritti sulla tutela del paesaggio e dell’arte (“Patrimônio ameaçado: escritos sobre a proteção da paisagem e da arte”, tradução nossa), é uma publicação de 2001,57 na qual Massimiano Capati organizou e reuniu 116 escritos curtos de Brandi, originalmente publicados em veículos de grande circulação (com destaque para o jornal Corriere della Sera), voltados a um público amplo e não apenas aos especialistas do campo (Figura 4). Ao longo de 460 páginas, Capati organizou esses textos em cinco partes temáticas que dão uma boa dimensão da abrangência dos temas abordados por Brandi.58 Entre essas partes, uma delas, intitulada “Em viagem”, reúne quase que pequenos diários de viagens ou visitas em campo do autor, onde ele relata suas preocupações para com o patrimônio das cidades italianas, sempre atento às especificidades locais de cada situação sobre a qual reflete. É de se destacar, ainda, a abrangência temática e a sensibilidade do autor para questões associadas ao urbanismo e à arquitetura.
O outro livro escolhido é um dos livros escritos por Cesare Brandi antes da publicação da sua famosa teoria da restauração. Eliante o dell’Architettura (1956) (Figura 3)59 compõe um conjunto de publicações realizadas em forma de diálogo em que o teórico apresenta as “linhas fundamentais de sua original teoria da arte” e reflete sobre suas proposições teóricas (filosóficas e estéticas)60. Os chamados “Diálogos de Elicona” (Dialoghi d’Elicona) foram publicados entre o final anos 1940 e os anos 1950 em torno de diferentes formas de expressão da arte. São eles: “Carmine o dela pittura” (1945), “Celso o della Poesia” (1957), “Arcadio o della Scultura” e “Eliante o dell’Architettura” (esses dois últimos publicados juntos em 1956).
Livros selecionados pela pesquisa atual para um aprofundamento nas contribuições de Cesare Brandi.
Os motivos para esta seleção inicial se deveram, especialmente, a dois fatos: a possibilidade de se debruçar sobre um livro que possui uma de suas partes constituída por pequenos relatos de viagem que tanto comparecem na bibliografia do autor; e o interesse em aprofundar o conhecimento sobre as contribuições teóricas desse autor, especificamente para o campo da arquitetura e urbanismo. Assim, enquanto o Il patrimônio insidiato nos permite um olhar abrangente sobre o autor, demonstrando sua visão em relação a diversos ambientes urbanos através de textos curtos e destinados ao grande público, o Eliante é um diálogo escrito com a intenção de discutir a arquitetura, a partir da teoria estética, com especialistas do campo da teoria preservacionista e da arquitetura, sendo assim, incontornável para as questões que movem a presente pesquisa. Passemos então a uma maior aproximação destas publicações.
ELIANTE O DELL’ARCHITETTURA
Os chamados “Diálogos de Elicona” (Dialoghi d’Elicona), como vimos, publicados entre o final dos anos 40 e nos anos 50, são constituídos de quatro textos escritos em forma dialógica. Neles são expostos conceitos centrais da teoria estética de Cesare Brandi, voltando-se para questões específicas das diferentes formas de arte: pintura, em “Carmine o della pittura” (1945); poesia, em Celso o della Poesia (1957); escultura, Arcadio o della Scultura e, finalmente, a arquitetura, em Eliante o dell’Architettura61 (esses dois últimos publicados juntos em 1956).
Esta forma de escrita dialógica é utilizada pelo autor como um instrumento “para registrar o embate de posições teóricas diversas”62, mas, segundo Brandi, com uma tentativa de fazer seus diálogos independentes de uma determinada situação histórica e tratá-los como um problema abstrato.
Paolo D’Angelo,63 profundo conhecedor e estudioso da crítica da arte e filosofia de Brandi,64 ao analisar os “Diálogos de Elicona”, observa que esse distanciamento histórico foi, em grande medida, alcançado por Brandi nos diálogos sobre a pintura, poesia e escultura, mas não no diálogo sobre a arquitetura. Em Eliante, desde o início, se estabelece uma forte conexão com o momento histórico que se vivenciava no campo da arquitetura na década de 1950 na Europa pós-Segunda Guerra Mundial. Logo no primeiro ato, Brandi trata da discussão “sobre o valor, ou melhor dizendo, sobre a validade do reconhecimento da arquitetura dita racional ou funcional”65. Posteriormente, dá continuidade ao debate concentrando-se em uma questão ainda mais circunstanciada: o funcionalismo e organicismo discutidos no contexto de reconstrução pós-bélica das cidades. Esse era o momento que se vivenciava no ambiente europeu do pós-segunda guerra mundial, com o consequente enfrentamento das grandes devastações desta decorrentes.
Na apresentação da segunda edição do livro, Brandi tenta dizer que a guerra de que se fala no diálogo não pode ser relacionada diretamente com o momento histórico vivido do segundo pós-guerra, mas esse comentário está longe de ser convincente. Como atesta D’Angelo, está “na ordem do dia do debate arquitetônico”66 e, como diz o próprio Brandi, no calor do momento (“scottante attualità”). Em Eliante, não é difícil fazer uma relação entre seus personagens e protagonistas do debate arquitetônico daquele momento, vários autores67 fazem essa constatação observando que esses “seguramente, tem uma identidade muito mais definida”68 que os personagens dos demais diálogos escritos por Brandi. Assim, observa-se que Eftimio, protagonista central do diálogo e porta voz de Brandi, não é um racionalista e nem um organicista, sendo aquele que busca um caminho para “construir uma teoria da arquitetura a partir dos pressupostos da estética”69. Já Cortese é o personagem que se caracteriza como um defensor do racionalismo, que alguns autores relacionam diretamente à figura de Giulio Carlo Argan. Gravagnuolo atesta que “se trata de Giulio Carlo Argan” […] “mais teórico que arquiteto”70. Delano será aquele que assume a posição de partidário do organicismo, identificado por Gravagnuolo71 como o Bruno Zevi do diálogo, o “promotor da poética orgânica”. Finalmente, Diodato representa um arquiteto “comprometido com a falsa monumentalidade do Fascismo, que procura agora reciclar-se como racionalista in pectore”72.
Se, por um lado, tratar de um tema em pleno momento histórico de sua discussão fez com que apenas um aspecto de sua reflexão sobre a arquitetura em Eliante viesse à tona, por outro, a polêmica levantada por Brandi sobre este tema fará com que, entre os quatro diálogos sobre arte escritos pelo autor nessa fase, este seja o que obteve maior e mais rápida repercussão. Isso se deu, em grande medida, também pela variedade e importância de seus interlocutores, incluindo figuras como Giulio Carlo Argan, Bruno Zevi, Gillo Dorfles, Giò Ponti e Roberto Pane.
Vários autores se debruçaram sobre este debate na Itália dos anos 1950 e se manifestaram publicamente sobre as reflexões desenvolvidas neste livro, sobretudo e quase que exclusivamente sobre a conclusão brandiana de que era impossível a inserção da arquitetura moderna nos centros antigos sem que isso significasse a descaracterização destes. Entre estes, está o artigo de Roberto Pane, publicado pela primeira vez nas Atas do VI Congresso Nazionale di Urbanistica (Turim, outubro de 1956), chamado “Città antiche, edilizia nuova”73,74.
A pesquisa que nos propomos a desenvolver nasceu da decisão de aceitar o convite do filósofo italiano Paolo D’Angelo registrado no prefácio por ele escrito para a nova edição de Arcadio o della Scultura e Eliante o dell’Architettura, publicada em 1992 e utilizada como base referencial para nossa reflexão. D’Angelo propõe que, depois de passadas quase quatro décadas de sua primeira publicação, busquemos um olhar renovado para a publicação através da qual, com o distanciamento histórico dos embates teóricos daquele momento, possamos nos concentrar sobre o cerne central: afinal, qual a abordagem teórica proposta para a arquitetura nesta publicação?75 Para além do debate, que obteve repercussão imediata após a publicação, ou seja, a ideia de que a arquitetura moderna, pela sua espacialidade própria, era incapaz de harmonizar-se com os centros antigos, afinal, sobre o que mais Brandi nos fala em o Eliante dell’architettura? O livro se resume a esta condenação da arquitetura moderna às novas áreas da cidade?76
D´Angelo77 reconhece que antes desse livro, Brandi não havia escrito praticamente nada sobre o tema da arquitetura, “E, no entanto, mostra-se subitamente capaz não apenas de emitir julgamentos de grandíssima autoridade, mas também de repensar, sobre novas bases, toda a história da arte arquitetônica”78.
Alguns aspectos se destacam nessa abordagem sobre a arquitetura, a exemplo da compreensão do autor sobre materialidade promovida pela tectônica através da utilização das técnicas e materiais disponíveis, saberes locais, clima e condição social. Gravagnuolo79 relaciona esta abordagem brandiana com concepções teóricas de Gottfried Semper. O texto ressalta, assim, a forte relação que se estabelece entre arquitetura e o lugar em que esta se materializa.
Uma outra questão que merece atenção na publicação é centralidade da reflexão sobre espacialidade da arquitetura e o desenvolvimento de uma teoria estética que dê conta de tal centralidade. A estrutura teórica da estética brandiana permite ao autor desenvolver, a partir da ideia da “irredutibilidade do espaço da obra de arte ao espaço existencial”, e da consciência que a obra cria seu próprio espaço,80 no qual a espacialidade interna e externa são entendidas como componentes básicos e indissociáveis entre si da “estrutura da imagem arquitetônica”. Nas palavras de Eftimio em Eliante: “A arquitetura nunca poderá ser apenas um interior ou um exterior, mas o exterior deverá possuir uma espacialidade que o torne interior a si mesmo, e o interior, reciprocamente, exterior”81. Então, a teoria estética voltada à arquitetura proposta pelo autor transcende uma oposição entre espacialidade interna e espacialidade externa.
Luiza Abreu,82 que, em sua tese de doutorado, procura debater o tema da paisagem dentro do campo da preservação em diálogo com as reflexões de Cesare Brandi e Paolo D’Angelo, também ressalta alguns desses pontos da abordagem teórica brandiana sobre a arquitetura:
A arquitetura, para Brandi, passa por um processo de projetação que vai intermediar a escolha dos materiais e, neste mesmo processo, introduziu o ornato e o estilo como parte intrínseca da criação arquitetônica e da organização da estrutura em relação ao espaço já organizado. Aqui, colocou o esquema como uma forma de conhecimento e, ao mesmo tempo, como responsável pelo próprio espaço interno e externo a si mesmo e, por sua vez, o espaço que o circunda. Esta relação com o espaço é, para Brandi, o princípio básico pelo qual passa a obra de arquitetura, é o que define a artisticidade da arquitetura e é a condição fundamental para que a arquitetura seja obra de arte.83
Abreu84 levanta, a partir de textos escritos por D’Angelo e referenciados pela autora, outro ponto muito importante presente na reflexão do autor sobre estética e paisagem. Este ponto diz respeito ao que ele denomina como um “desvio do olhar sobre a paisagem”, para ele equivocado, que a retirou do campo da estética. Entendemos que, talvez, tal desvio tenha favorecido a fragilidade ou mesmo os vazios de aprofundamentos teórico-metodológicos em reflexões projetuais contemporâneas do restauro arquitetônico e sobre o tratamento da paisagem.
Por fim, mesmo que retomemos o tema da incompatibilidade da arquitetura moderna com a preservação dos centros históricos, entendemos ser necessário olhar para esta discussão no contexto em que foi posta, evitando, assim, o risco de realizar uma crítica anacrônica. Essa dúvida que povoa a cabeça de Brandi, em meados dos anos 1950, não tinha a sua razão de ser naquele momento na Itália? As primeiras páginas do artigo em que Roberto Pane irá rebater a posição de Brandi, sobre a impossibilidade da inserção da arquitetura moderna nos centros antigos, demonstram exatamente a preocupação que ambos possuíam naquele momento sobre uma “caótica expansão”. Pane identifica naquele momento “um imediato e cego interesse privado, e quase nunca encontra acolhimento o apelo por uma predisposição urbanística ordenada, que faça jus aos interesses da comunidade”85. Ou seja, os exemplos negativos de intervenções que se podiam observar naqueles tempos eram numerosos.
No prefácio escrito para o livro Il patrimonia Insidiato (2001), Massimiliano Capati também demonstra compreender o temor de Brandi, apesar de não concordar com ele. Depois de citar alguns exemplos de boa convivência entre centros antigos e exemplares da arquitetura moderna, citando arquitetos como Carlo Scarpa, Frank Lloyd Wright, Louis Kahn, Capati pondera: “Mas quantos outros exemplos? Também aqui prevaleceu em Brandi o medo de inevitáveis deturpações, e preferiu fechar a porta a todos, melhor que deixar entrar, junto com uns poucos cavalheiros, um pelotão de confusos”86.
Para além dos interlocutores da própria década de 1950, vários são os estudos recentes que rebatem o argumento brandiano sobre uma suposta incompatibilidade entre a produção modernista e a preservação da leitura estratificada, porém coesa, de um conjunto antigo.
No entanto, o mais interessante é observar como o próprio arcabouço teórico desenvolvido por Brandi pode contribuir para a atualização do debate, inclusive, sobre a própria inserção da arquitetura moderna em centros antigos. Ou seja, utilizando a estrutura teórica desenvolvida pelo próprio Brandi, podemos rebater sua convicção, nascente do contexto dos anos 1950 na Itália, sobre a impossibilidade de convivência entre a arquitetura moderna e os centros antigos.
Como rebatimento na prática, as análises desenvolvidas por Nery e Baeta87 sobre o Grande Hotel de Ouro Preto, projetado por Oscar Niemeyer na década de 1930, e sobre outras três obras, do mesmo arquiteto, dessa vez situadas em Diamantina, merecem destaque. Tais artigos são exemplos de uma leitura estética destas obras, inseridas nas especificidades de seu contexto urbano próprio, com conclusões diversas daquelas de Brandi no debate italiano dos anos 1950. Em Diamantina, os autores analisam os projetos do Hotel Tijuco (1951), a Escola Julia Kubitschek (1951) e a Sede Social do Diamantina Tênis Clube (1950), construindo um juízo crítico sobre como os projetos estão inseridos no seio deste “importante núcleo urbano remanescente do período colonial.” Em relação a Escola e ao Hotel de Diamantina, os autores reforçam que:
Também é importante notar a busca pela sutil continuidade em relação à linguagem compositiva das construções ordinárias coloniais de Diamantina, baseada em uma leitura similar ao conjunto longilíneo ritmado dos logradouros da cidade, composta pela sequência gregária de casas e sobrados.88
Mas isso não quer dizer que os autores entendam que estas obras serão simbioticamente inseridas na paisagem urbana da cidade. Pelo contrário, concluem que:
Finalmente, a condição conquistada de distantes panos de fundo dispostos horizontalmente nas encostas e (no caso do Hotel e da Escola) cadenciados pela marcação rítmica das estruturas de sustentação, permite uma interconexão profundamente qualificadora com a massa urbana - marcada, exatamente, pela presença silenciosa e cautelosa dos três monumentos na cidade. A relação que guardam com o núcleo antigo não é de simbiose, nem de confronto, mas de distanciamento respeitoso; de autonomia sincera - ou, talvez, de justaposição harmônica. Ou seja, mesmo ao não proporem uma relação de subserviência ao tecido urbano ancestral, contribuem firmemente para a exaltação das qualidades arquitetônicas e paisagísticas da cidade colonial.89
A análise dos autores está baseada na leitura do contexto urbano a partir de sua experimentação estética, como propõe Brandi. Baeta e Nery circunscrevem as conclusões brandianas sobre a relação entre a arquitetura moderna e os centros históricos com o contexto urbano por ele analisado naquele momento.
Quando Brandi fala da incompatibilidade fatal de um objeto arquitetônico moderno com as preexistências antigas, ele se refere a edifícios excepcionais e singulares (obras de arte) de uma vertente do Movimento Moderno que se desenvolveu na Europa e especificamente na Itália, implantadas em sítios densamente construídos, com características bastante específicas - hipótese que em algumas circunstâncias, ou até mesmo em muitas, poderia ser aplicável à realidade brasileira.90
Assim, realizando a leitura do conjunto urbano a partir de sua experimentação estética e das especificidades próprias da espacialidade arquitetônica das cidades de Ouro Preto e Diamantina, Nery e Baeta chegam, a partir de um ponto de partida brandiano de construção de juízo crítico, a um resultado diverso da conclusão de Brandi para cidades italianas. Não seria essa a maior prova de validade de uma estrutura teórica de reflexão sobre o projeto de arquitetura? A utilização desta estrutura para chegar a conclusões diversas para contextos urbanos diversos, afinal não estamos falando de dogmas e sim de princípios operativos.
IL PATRIMONIA INSIDIATO: SCRITTI SULLA TUTELA DEL PAESAGGIO E DELL’ARTE (2001)91
Nesta pesquisa, o livro Il patrimonio insidiato se colocou como uma oportunidade de estímulo ao debate com estudantes de graduação em arquitetura e urbanismo, sobre a amplitude das reflexões brandianas acerca da arquitetura e dos conjuntos urbanos. Os textos curtos e destinados a um público mais amplo que o dos especialistas da preservação, favorecem este trabalho junto aos alunos da graduação.
Assim, propusemos um plano de trabalho para a realização de um estudo de iniciação científica, levado a cabo pela então graduanda Letícia Batista da Conceição,92 no qual realizamos uma seleção de casos, entre os discutidos na publicação, que refletissem um claro objetivo: destacar projetos que se concentram especificamente na intervenção ou na restauração do patrimônio construído.
De maneira geral, como vimos, este livro aborda uma ampla gama de temas, desde a exploração dos planos urbanos de cidades italianas como Roma e Bolonha, até a crítica a intervenções no patrimônio edificado, presente em outros capítulos. Os capítulos selecionados para análise estão inseridos na parte do livro denominada “Em viagem”, também por este ser um tipo de escrito muito caro ao autor: os diários de viagem e de visitas em campo.
Assim como para a leitura de Eliante, o prefácio escrito por Paolo D’Angelo teve uma grande importância, aqui, o prefácio escrito pelo organizador do livro Il patrimonio insidiato, Massimiliano Capati foi de grande valia para a compreensão de sua construção. O organizador também apresenta, ao final da publicação, algumas notas explicativas de como se deu a forma de organização dos textos e onde e quando cada um dos textos havia sido publicado originalmente.
Capati93 destaca ainda que Brandi se coloca de forma premonitória contra o planejamento rodoviário que favorecia vias largas nas entradas dos centros históricos. Sua insistência na preservação não se limitava aos grandes monumentos, mas se estendia ao tecido conectivo das cidades antigas, ou seja, à conectividade que dá coesão e sentido a esses espaços urbanos. Brandi via a preservação da matéria das cidades históricas como fundamental para sua sobrevivência e reconhecia que as cidades, assim como os seres humanos, poderiam “morrer” sem a presença viva dos habitantes, abordando temas como o do turismo como uma forma de manter essa vitalidade, desde que fosse gerido com respeito aos valores identificados em cada local. Além disso, a valorização dos bens culturais, para Brandi, transcende questões políticas e se coloca como um problema de civilização. Ele questionava o sentido de uma modernidade tecnológica que não impede a poluição dos rios, céus e mares, mas que permite a demolição de preciosos monumentos. Para Brandi, a paisagem natural e artística deveria ser vista como parte de um todo indissolúvel, e seus bens preciosos não deveriam ser utilizados como meras moedas de troca em negociações políticas ou econômicas. Entretanto, vale ressaltar que Brandi não se opunha ao desenvolvimento industrial em si, mas criticava a desorganização que via na Itália da época, onde muitos edifícios industriais foram construídos dentro dos limites das cidades, comprometendo sua beleza e caráter histórico. Ele questionava se esse projeto de destruição da beleza urbana era justificado ou se era apenas fruto de pura ignorância. A conservação, em sua visão, não era um obstáculo ao progresso, mas uma forma de garantir que o progresso não viesse à custa da identidade cultural e da memória coletiva.94
Após a seleção dos capítulos a serem analisados mais atentamente, a coleta de dados envolveu a busca por uma variedade de fontes, incluindo fotografias das obras na época em que Brandi as mencionava, bem como imagens contemporâneas que nos permitissem compreender as mudanças ao longo do tempo. Além disso, procuramos documentos históricos relevantes, informações sobre projetos de restauro ou modificações realizadas nas estruturas ao longo dos anos. Foram considerados cerca de nove estudos de caso (conforme Quadro 1), todos com relevância significativa para as discussões acerca da intervenção em edificações históricas e conjuntos urbanos, buscando compreender o contexto na qual as obras edificadas estavam inseridas.95 A proposta deste artigo não é apresentar em detalhes o resultado da análise de cada caso, mas demonstrar a possibilidade de diálogo, através destes pequenos textos, com a reflexão teórica brandiana voltada à arquitetura e ao ambiente urbano, observando a amplitude de questões levantadas pelo autor em cada um dos artigos trabalhados.
De maneira geral, Cesare Brandi manifesta preocupações sobre a negligência das autoridades na preservação do patrimônio histórico, criticando a deterioração de monumentos e o abandono cultural causado pela falta de investimentos. Também é recorrente a oposição do autor ao desenvolvimento urbano desordenado, que compromete a identidade das cidades e a harmonia entre o novo e o antigo. A título de exemplificação, os três casos destacados no Quadro 1 dão a dimensão de uma preocupação que vai da preservação de monumentos específicos (Castelo de Rivoli, arredores de Turim), passando pela estrutura urbana e sua relação com o tecido da cidade (Ponte Vespucci, Florença) e chegando até à preocupação sobre a integração entre elementos de composição artística e sua relação com o local para o qual foram projetados (mosaicos da Piazza Armerina, Enna, Sicília).
O Castelo de Rivoli, localizado na cidade de Rivoli, próxima a Turim, foi originalmente construído no século IX como uma fortaleza medieval para proteger a região e as rotas comerciais que cruzavam o Piemonte. Ao longo dos séculos, passou por diversas intervenções arquitetônicas. No século XV, foi reconstruído em estilo renascentista, com a introdução de novos elementos decorativos e defensivos. No século XVII, sob o domínio da Casa de Saboia, o castelo foi transformado em residência real, recebendo ampliações significativas em estilo barroco. Após a Segunda Guerra Mundial, que levou à destruição de parte de suas estruturas, foram realizadas intervenções paliativas apenas evitando o desmoronamento definitivo da estrutura.96
No ano de 1964, Brandi denuncia a grave situação de abandono do Castelo de Rivoli, que se encontrava em avançado estado de deterioração. Apesar de sua proximidade a Turim, uma das principais cidades italianas, segundo ele, o castelo foi entregue ao descaso pelas autoridades, que negligenciaram sua preservação. A infiltração de água e a falta de manutenção levaram à destruição de partes estruturais e artísticas do edifício, como as portas pintadas, os estuques e os afrescos de Galeotti, sendo muitos desses elementos valiosos pilhados ou danificados. O autor lamenta a decisão de transferir a administração do castelo do poder militar para as autoridades civis, que falharam em zelar pelo patrimônio. Ele ainda expressa indignação com a disparidade entre os exorbitantes gastos públicos em projetos de menor relevância, enquanto o Castelo de Rivoli, que deveria ser tratado como um símbolo do patrimônio arquitetônico e cultural da Itália, seguir em ruínas.97
E não é o suficiente, porque, neste país do milagre, isso acontece justamente em uma das duas capitais do milagre, nos arredores de Turim, que gastou bilhões para o centenário da Unificação, erguendo edifícios tão caros quanto inúteis que ainda precisam encontrar um destino, ou, se o encontraram, custando a reformulação completa de sua modernidade hiperbólica e bastante retórica.[…] Enquanto isso, os telhados do Castelo de Rivoli desabavam, e milhões e milhões eram gastos para renovar as cortinas de damasco do Palácio Real, que, ou deveriam ser deixadas como estavam, ou não renovadas de forma alguma, já que os monumentos não devem ser tratados como grandes hotéis, que, por necessidade de turismo, precisam reformar poltronas e trocar cortinas.98
A Ponte Amerigo Vespucci, localizada em Florença sobre o rio Arno, foi inaugurada em 1957 como parte da reconstrução da cidade após a segunda guerra mundial. Nomeada em homenagem ao navegador italiano Américo Vespúcio (em italiano: Amerigo Vespucci), a ponte apresenta um design moderno em concreto armado, porém, não ofusca as estruturas históricas da cidade, como a ponte Vecchio.99
É curioso aqui que Cesare Brandi, em sua análise da Ponte Vespucci, escrita no mesmo ano de sua reconstrução, apresenta reflexões sobre a inserção da arquitetura moderna em um contexto histórico diferente daquela certeza de incompatibilidade que vimos presente no Eliante, publicado um ano antes desse artigo sobre a ponte. Para ele, a Ponte Vespucci, diferencia-se de outras reconstruções, que, ao tentar recriar formas nostálgicas, acabaram por mimetizar, de forma empobrecida, as antigas pontes medievais.
Brandi identifica na Vespucci um caráter peculiar: não se trata de uma estrutura que impõe sua presença sobre o espaço, mas de uma passagem que se integra sutilmente à cidade, respeitando a espacialidade e o ritmo visual do entorno. Em vez de adotar uma forma arqueada convencional, a Ponte Vespucci aproxima-se mais de uma “rua estendida sobre o rio Arno”, mantendo-se em nível quase idêntico ao das vias adjacentes. Isso resulta em uma solução que, nas palavras de Brandi, permite à ponte “conversar” com o espaço ao seu redor sem que haja uma imposição abrupta. A escolha por uma elevação e curvatura mínima evita que a ponte se destaque de maneira invasiva, o que, segundo Brandi, é fundamental para que a estrutura se mantenha em harmonia com o centro histórico de Florença.100
Brandi (2001) sublinha ainda que a principal prerrogativa da Ponte Vespucci é sua capacidade de se configurar mais como uma continuidade do tecido urbano do que como um elemento autônomo. Ao contrário de outras pontes modernas, cuja monumentalidade muitas vezes transforma o espaço ao seu redor em uma mera paisagem de apoio, ela mantém a integridade da espacialidade histórica. A “inteligência” do projeto reside, segundo Brandi, na sua simplicidade: ao optar por uma solução arquitetônica que privilegia a funcionalidade e a discrição, a ponte se insere de maneira natural no tecido urbano, facilitando a convivência entre o antigo e o novo:101
Mas onde a Ponte Vespucci se destaca das outras, é pelo fato de ter sido construída como uma estrutura integralmente moderna em comparação com as formas nostálgicas que as outras assumiram, nostálgicas porque se destinavam a representar vagamente a aparência das antigas pontes medievais destruídas. […] a única ponte, entre aquelas presentes no Arno, excluindo a única sobrevivente, ou seja, a Ponte Vecchio, que se apresenta seriamente à consideração da crítica de arte. Sua principal prerrogativa é se assemelhar o menos possível a uma ponte e o mais possível a uma passarela, ou seja, à própria rua: repousa, é verdade, sobre dois grandes pilares, mas tem uma altura, por assim dizer, uma curvatura, de apenas um metro e quarenta.102
É interessante observar como essa análise sobre a estrutura moderna da ponte, em continuidade com a leitura do tecido histórico, dialoga com o debate que vimos no item anterior sobre a inserção da arquitetura moderna em centros históricos. Aqui percebe-se uma relativização da convicção anteriormente colocada por Cesare Brandi sobre este tema, ao menos no que se refere à estrutura urbana.
A Villa del Casale, localizada em Piazza Armerina, na Sicília, é uma edificação tardo-romana, datada provavelmente do século IV d.C. O local abriga a mais extensa e completa coleção de mosaicos romanos já encontrados em uma única construção. Esses mosaicos, preservados em excelente estado de conservação, oferecem uma impressionante representação da riqueza econômica e cultural daquele período. A qualidade e a relevância histórica dessas obras deixaram clara, já na década de 1950, a importância de sua preservação e exposição ao público, consolidando o sítio como um marco inestimável do patrimônio romano.103
Cesare Brandi inicia sua análise sobre os mosaicos de Piazza Armerina destacando o impacto global de sua descoberta, especialmente o famoso mosaico das mulheres em “dikizi”, cuja ressonância cultural foi imediata. Ao fazer a comparação com os mosaicos de Antioquia, deslocados de seu contexto original, Brandi sublinha um ponto central de sua teoria: a importância de manter a obra de arte em seu local de criação. Essa defesa da preservação in situ reflete o princípio fundamental de Brandi sobre a indissociabilidade entre a obra e seu ambiente histórico, conforme ele delineia em sua teoria do restauro. Além disso, Brandi estende sua discussão para o contexto ambiental da Villa del Casale, abordando a importância de preservar o cenário natural que circunda os mosaicos. Ele argumenta que o vale rural onde a vila está inserida deve ser preservado não por razões sentimentais, mas por respeito à integridade do conjunto. Para Brandi, o ambiente é uma parte inseparável da obra de arte, e sua preservação é também um ato restaurativo.104
A breve apresentação desses três casos - o Castelo de Rivoli, a Ponte Vespucci e os mosaicos da Piazza Armerina - ilustram o quanto os ensaios reunidos em Il Patrimonio Insidiato são ricos, diversos em conteúdos e demonstram a amplitude e sensibilidade brandiana no que diz respeito à arquitetura e ao urbanismo.
As reflexões de Brandi sobre os projetos de intervenção (ou a ausência destes) vão além da materialidade dos monumentos, reconhecendo que os bens culturais carregam significados profundamente enraizados no contexto histórico, social e cultural de cada caso. Sobre a Piazza Armerina, por exemplo, a crítica brandiana não se limitou unicamente à preservação dos mosaicos em si, como discutido anteriormente, mas também abordou a “atmosfera” que circunda o local, argumentando que o seu valor patrimonial reside também na relação entre o sítio arqueológico e o seu ambiente natural.
A pesquisa iniciada reafirma a relevância dos escritos de Brandi para a reflexão sobre a preservação do patrimônio construído. A abordagem do autor sobre as intervenções analisadas serve como um lembrete de que, para além da teoria, a prática restaurativa deve ser guiada por um profundo entendimento e respeito pela complexidade de valores atribuídos e pela história dos edifícios e sítios que visamos preservar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A reflexão aqui desenvolvida reforça a centralidade de conhecimento do bem cultural a ser preservado, em profundidade, através da necessária identificação dos valores a preservar. Como tais valores se traduzem no construído? Apenas respondendo a essa pergunta poderemos nortear as soluções projetuais a serem adotadas que devem ser guiadas, tanto pelos valores identificados, quanto pelos princípios do campo preservacionista. Assim, como vimos, não se trata de deixar de discutir projeto, mas de um olhar renovado para a atividade projetual, iluminado pelas questões contemporâneas.
Dentro da diversidade de posturas projetuais que se colocam na contemporaneidade para o enfrentamento da relação antigo e novo, consideramos importante relembrar o alerta de Carbonara: “Não existe uma opção linguística pré-estabelecida e, por si só, preferível; a questão é de método e de sensibilidade. O caminho justo deve ser pesquisado, em cada situação, com esforço e determinação”105.
Insistimos, assim, na necessidade contínua de investimento na formação de arquitetos e urbanistas sobre as especificidades do projetar em um ambiente de reconhecido valor patrimonial. Vitale106 ressalta como “se impõe com urgência o problema da qualidade da intervenção, inseparável das questões de formação dos operadores de tais intervenções”. A discussão aqui proposta se concentra, sobretudo, no papel do arquiteto e urbanista e desse campo disciplinar para o desenvolvimento de projetos de intervenção em áreas de reconhecido valor patrimonial. Entendemos que estamos vivendo um momento em que essa discussão sobre o projeto de intervenção e o projeto de restauro se reveste de uma nova complexidade que necessita ser enfrentada a partir de um olhar atento às dimensões intangíveis do chamado patrimônio material. Entretanto, essa conclusão não significa que devamos desqualificar a reflexão sobre as práticas projetuais, mas sim de recolocá-la na perspectiva simultânea das especificidades profissionais de cada campo e da necessária interdisciplinaridade.
Outra questão que sempre se coloca é a relação entre os conceitos restauração/preservação/conservação. E a pergunta sempre se repete: estamos falando de restauro? Devolvo com outra pergunta: será que essa é a questão mais importante? Ou será que, independentemente do termo utilizado para nomear a intervenção, o que importa é o quanto os princípios teórico-metodológicos do campo disciplinar do restauro são importantes para a questão projetual preservacionista.
Este artigo se propôs a um mergulho inicial na contribuição de Cesare Brandi, para além de sua Teoria del Restauro (1963), e mais especificamente na sua relação com a arquitetura propriamente dita, através de uma primeira aproximação com dois livros praticamente desconhecidos no ambiente brasileiro: Eliante o della Architectura (1957), publicado pelo autor antes de sua teoria e voltado à arquitetura e Il Patrimonio insidiato: scritti sulla tutela del paesaggio e dell’arte (2001). Vale frisar que se trata de uma primeira aproximação ao tema, sem intenção de esgotá-lo e, sim, de estimular sua continuidade. Ambos os livros ainda têm muitos aspectos a serem explorados e seguem sendo objeto de nossas pesquisas, desafiando o contexto de uma certa superficialidade, mesmo nas discussões acadêmicas, como alerta Kühl:
Num mundo em que até mesmo parte da produção científica se caracteriza por um produtivismo raso e por uma polarização ignorante, ter tempo de ler e refletir, estudar, deixar as ideias e o conhecimento decantarem, tem se provado um desafio enorme. Além do mais, a visão redutora faz com que muitos se comportem diante de proposições teóricas como se fossem mutuamente excludentes: ou a pessoa deve ser seguidora de Brandi, ou de Muñoz Viñas, por exemplo.107
Seguimos buscando fugir de tal “deformação atroz do papel da teoria, cujo intuito não é gerar seitas fundamentalistas, mas oferecer instrumentos consistentes de aproximação crítica aos problemas”108.
Em conclusão, a pesquisa em curso confirma que os escritos e as reflexões teóricas de Cesare Brandi continuam a oferecer uma base teórica importante para a crítica e a prática da conservação arquitetônica. Suas ideias seguem nos ajudando a entender como o patrimônio construído pode ser respeitado e preservado na contemporaneidade, em especial, contribuindo para o enfrentamento teórico-metodológico do tema do projetar sobre preexistências de reconhecido valor patrimonial.
AGRADECIMENTOS
Agradeço aos colegas e interlocutores de pesquisa que participaram do Seminário “Restauro, presente e futuro: reflexões a partir da teoria brandiana”, realizado em São Paulo em novembro de 2024, em especial aos coordenadores gerais do evento, professores Beatriz Kühl e Pedro Vieira, cujas discussões alimentaram a finalização deste artigo. Um agradecimento especial a professora Betânia Brendle, com vasta pesquisa sobre a contribuição de Cesare Brandi e que, após sua aposentadoria, doou a minha pessoa um rico acervo bibliográfico produzido sobre e pelo autor, recolhido durante suas pesquisas, aos quais anteriormente eu só havia tido acesso nas bibliotecas italianas. Agradeço também aos colegas do grupo de pesquisa Patrimônio cultural: teoria, projeto e ensino e do Laboratório de Urbanismo e Patrimônio Cultural da UFPE, pelo diálogo cotidiano sobre os temas aqui tratados. Agradeço ainda a Letícia Batista da Conceição que, enquanto a aluna de graduação, demonstrou grande comprometimento com pesquisa de iniciação científica que se debruçou sobre o livro Il Patrimonio insidiato: scritti sulla tutela del paesaggio e dell’arte (2001), aqui referenciada. Por fim, agradeço ao CNPq pelo apoio através das Bolsas de Produtividade que seguem possibilitando o desenvolvimento desta pesquisa (Processo: 314175/2020-2 e Processo: 312239/2023-8).
REFERÊNCIAS
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- ARAÚJO, Laryssa. Dos significados do cotidiano vivenciado à gestão da conservação: uma imersão para Santo Antônio, Recife-PE. 2024. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Urbano) - Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2024.
-
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1
Esse tema é sistematicamente trabalhado por um grupo de pesquisadores brasileiros que mantém um espaço recorrente de trocas, especialmente nos Encontros Nacionais da ANPARQ e nos Seminários ARQUIMEMÓRIA. Essa recorrência pode ser identificada desde o II ENANPARQ, 2012, no qual a presente autora coordenou o simpósio temático intitulado “Projeto Arquitetônico em Edifícios e Áreas de Valor patrimonial: reflexões teórico-práticas”, em que participaram, além da coordenadora, os professores Beatriz Mugayar Kühl (USP); Betânia Brendle (UFS); Jose Clewton do Nascimento e Maisa Veloso (UFRN) e Juliana Nery e Rodrigo Baeta (UFBA). No III ENANPARQ, em 2014, Rodrigo Baeta (UFBA) coordenou o simpósio temático “Projeto e Memória”, do qual participaram, além do coordenador e da presente autora, Ana Carolina Pellegrini (UFRGS), Flávio Carsalade (UFMG), Juliana Nery (UFBA) e Nivaldo Andrade Jr. (UFBA). Em 2018, no V ENANPARQ, esta autora coordenou o simpósio temático “A teoria da restauração e os desafios contemporâneos do campo preservacionista: sobre valores, significância, materialidade e a imaterialidade”, em que participaram também Claudia dos Reis e Cunha (UFU), Flaviana Barreto Lira (UnB), Juliana Nery (UFBA), Juliano Loureiro de Carvalho (Arquiteto do Senado Federal) e Rodrigo Baeta (UFBA). Em 2020, no VI ENANPARQ, Flaviana Barreto Lira (UnB) coordenou o simpósio temático “Relação teoria x prática projetual no ensino da conservação do patrimônio cultural”, do qual, além da presente autora, também participaram Ana Elisabete Medeiros (UnB), Ana Paula Farah (PUC-Campinas), Eunádia Cavalcante (UFRN), José Clewton Nascimento (UFRN) e Oscar Ferreira (UnB). Seguindo nesse debate no VII e VIII ENANPARQ, em 2022 e 2024, respectivamente, e nos Seminários ARQUIMEMÓRIA de 2008, 2013, 2017 e 2024. Nestes, além da recorrência de pesquisadores já mencionados, tivemos a participação de Claudio Varagnoli (Sapienza), Cristiane Gonçalves (Mackenzie-SP), Eneida de Almeida (USJT), Fernando Atique (Unifesp), Manoela Ruffinonni (Unifesp), Patrícia Nahas e Tatiana Carvalho Costa.
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3
Ibid.
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4
Cf. Meneses (2012).
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5
Sobre o tema, ver Vieira-de-Araújo (2020, 2022). Helen Hughes (2007b, p. 43), em artigo que comentaremos em detalhe mais à frente, ao discorrer sobre as diversas visitas de campo realizadas a obras de restauração na Itália durante o curso realizado no ICCROM em 2006, coloca que: “Nossa preocupação central durante as visitas era porque? e para quem? esses objetos e lugares estavam sendo conservados, mais do que como?”. No original: “Our main question during all our visits was why? and for whom? were these objects and places being conserved rather than how?”.
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6
Pereira, 2021. Tese de doutorado defendida no âmbito do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco, sob a orientação de Renata Campello Cabral.
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8
Ibid., p. 26.
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9
Apesar disso, temos também um avanço em termos quantitativos e qualitativos em trabalhos de grande fôlego que se debruçam sobre a questão da operacionalização de práticas preservacionistas que alcancem a multiplicidade de sujeitos envolvidos. No âmbito do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Urbano da UFPE, há um acúmulo de trabalhos que exploram o desenvolvimento de abordagens metodológicas voltadas para a relação entre o arcabouço teórico metodológico do campo preservacionista e sua aproximação de ações participativas e mais inclusivas. Aqui destacam-se trabalhos precursores, como a tese desenvolvida por Flaviana Barreto Lira (2009), que segue frutificando no acumulado de pesquisas dessa autora; e trabalhos recentes, como as dissertações desenvolvidas por Laryssa Araújo (2024), e Julyana Alecrim (2023), ambas sob a orientação da presente autora.
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10
No Brasil, podemos citar alguns colegas com os quais estabelecemos grande interlocução, como Nery e Baeta (2015); Brendle (2017); Kühl (2008), entre outros, que discutem sistematicamente questões projetuais de intervenção sobre preexistências de valor patrimonial.
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Sobre a importância da contribuição brandiana para o campo da arquitetura, sugerimos fortemente a consulta a Fidel Meraz (2019).
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12
Depois de quase dez anos ensinando em instituições privadas (primeiro em Aracaju e depois em Recife), em 2009, a presente autora, ingressou como docente efetiva da UFRN, em Natal, na área de Projeto de Arquitetura, onde permaneceu por sete anos, e, em 2016, passou a ser docente da UFPE, em Recife, na área de Teoria e História, onde permanece até a presente data. Essa trajetória é importante para destacar a partir de onde se fala.
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13
Nesse percurso de pesquisa, consolidamos o Grupo de Pesquisa - CNPq - Patrimônio Cultural: Teoria, Projeto e Ensino (liderança partilhada entre a autora e a profa. Flaviana Lira - UnB), que integra o Laboratório de Urbanismo e Patrimônio Cultural da UFPE (LUP-UFPE).
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14
Kühl (2006b), Kühl (2008); entre outros.
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16
Varagnoli (2002). E, junto a ele, vários outros colegas italianos se destacam nesse debate, entre os quais destacamos a grande importância da contribuição de Giovanni Carbonara (1997, 2011, 2017, 2023) e, também, de autores como Andrea Pane, Ricardo Dalla Negra e Maria Rosário Vitale, para citar apenas alguns.
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19
Kühl (2023, p. 4).
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22
O portal da revista a identifica como um “peer-reviewed scientific journal dedicated to contemporary issues in cultural heritage conservation-restoration”. Disponível em https://journals.openedition.org/ceroart/5218. Acesso em: 22 jun. 2025.
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23
No original: “Who is Afraid of Cesare Brandi?” Personal reflections on the Teoria del restauro” (Muñoz Viñas, 2015).
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24
Hughes é conservadora atuante no English Heritage, entidade responsável pela preservação na Inglaterra, e o artigo a que nos referimos é o “Who is Afraid of Cesare Brandi?” (Hughes, 2007b).
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25
Muñoz Viñas, op. cit., tradução nossa. No original: “it was only by performing a number of implausible intellectual pirouettes that I could aspire to grasp that theory. In the end I had to admit that the actual Teoria (Brandi’s true words, and not my makeshift interpretations) simply did not make sense to me. Eventually, I stopped trying”.
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26
Ibid., grifo nosso.
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27
Ibid.
- 28
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29
Ibid., p. 42, tradução nossa. No original: “[…] we British conservators are rather contemptuous of the term ‘restoration’”. Diante dessa observação sobre o contexto do ambiente inglês sobre o termo “restauração”, é importante destacar a Nota de Tradução sobre o título em inglês do artigo ora apresentado: For english speakers it is important to remark that restoration is here used as the sense of the term in Italy, perhaps more closely of what in England is usually called conservation”.
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30
Ibid., p. 42, tradução nossa. No original: “‘theory’ means ‘something philosophical and very scary’, in other languages it simply means ‘methodology’”.
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31
Ibid., p. 41, tradução nossa. No original: “How many training courses in the UK do not teach methodology because they are too busy getting on with doing conservation?”.
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32
Ibid., p. 41, tradução nossa. No original: “Perhaps I have to ask myself am I scared of Ruskin? - am I lying in not openly proclaiming that I carry out restoration?”.
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33
Ibid., p. 41, tradução nossa. No original: “However as ‘conservation’ may now be understood as having a much broader meaning as ‘another way of understanding cultural heritage’ perhaps we should not get too concerned with semantics”.
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35
Vieira-de-Araújo e Lira (2025, p. 12).
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36
Hughes, op. cit.
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37
Ibid., p. 40, tradução nossa, grifo nosso. No original: “But this was the first attempt to define a methodology for conservation and although his ideas are being re-evaluated they provided the basis of the 1964 Charter of Venice and had a dramatic effect on twentieth century conservation. To attempt to side-step Brandi, especially when attending a month long course, in Italy, entitled Sharing Conservation Decisions, would be as unthinkable as discussing the history of conservation in the UK and omitting Ruskin. Attending this ICCROM course last autumn provided me with an opportunity to face my fears and embrace a world view of modern conservation theory. […] I felt as a young misunderstood wizard must feel turning up for his first term at Hogwarts - I had found my professional home”.
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38
Ibid., p. 42, tradução nossa. No original: “ICCROM did not intend to supply an instruction manual but rather to provide us with a useable tool-kit of ideas, examples and systems we could use and adapt to suit our own needs and situations, with the aim of making the ideal to which we had been exposed into a reality”.
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39
Ibid., p. 42, tradução nossa. No original: “The course made me aware that unless the modern conservation theory is understood and implemented by all conservators the discipline cannot develop. We must embrace the subjectivity of all conservation decisions”.
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40
Ibid.
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41
Ibid., p. 42, tradução nossa, grifo da autora. No original: “So what I am really asking in my opening question - Who’s afraid of Cesare Brandi? - is why are conservators so afraid of talking about why and for whom we are conserving cultural heritage? Unless we abandon outmoded tenets and engage with the issue of relative values - and question existing hierarchies, conservation will not develop as a professional discipline and, more importantly, we will not have a significant position in safeguarding our cultural heritage. After all we are the professionals best placed to know ‘that once it’s gone it’s gone”.
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42
Vieira-de-Araújo e Lira (2020). Esse artigo foi primeiro apresentado no México com o título “Is there anything to be afraid of in Brandi’s “Teoria del restauro”? The paralyzing myth of fear” (Vieira-de-Araújo; Lira, 2018).
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43
A própria autora chama atenção para o seu pouco conhecimento sobre as contribuições brandianas. Ao ser convidada a dar uma palestra sobre a influência de Brandi no Reino Unido após seu curto texto publicado em 2007, cujo próprio título, segundo a autora, “revela claramente a extensão da sua própria ignorância sobre o trabalho de Brandi”, ela entende que este convite fala muito sobre o completo desconhecimento desta teoria no ambiente inglês (Hughes, 2007a, tradução nossa). No original: “I was invited to comment on Cesare Brandi’s influence on Conservation in the United Kingdom because I had recently written an article entitled Who’s afraid of Cesare Brandi? (with apologies to Edward Albee), which quite clearly revealed the extent of my own ignorance of Brandi’s work. But the very fact that I had heard of him, which was more than can be said for the majority of British conservators, marked me out as a relative expert on the subject. This state of affairs provides an immediate insight into the aspects of conservation in the United Kingdom”.
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45
Ibid.
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47
Hughes (2007a, tradução nossa). No original: “I have come to the conclusion that the professions lack of awareness of Brandi’s theory and indeed the whole concept of theory is not only seriously hampering its development but also endangering the effective management of our cultural heritage”. Recomendamos a leitura completa desse texto que, inclusive, exemplifica em um caso concreto de restauração na Inglaterra como a reflexão teórica brandiana tem influenciado atualmente o trabalho desta autora.
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48
Ibid. No original: “Had the title of the Brandi’s book been translated as the Methodology of Conservation, British market sales figures would have improved dramatically”.
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52
Diretor do Programa de Graduação em Preservação Histórica e diretor do Laboratório de Conservação da Arquitetura da Universidade da Pensilvânia, EUA.
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53
Matero (2007, p. 45, tradução nossa). No original: “In the realm of conservation discourse in America and probably for much of the English-speaking world, Brandi’s words and concepts have been largely absent and, if acknowledged at all, often lost to translation”.
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55
Kühl (2023, p. 5).
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56
Entre março de 2021 e fevereiro de 2024, desenvolvemos a pesquisa intitulada “Teoria e Projeto de Intervenção: Materialidade e a imaterialidade na preservação do patrimônio edificado na contemporaneidade”, com o apoio do CNPq através da concessão de bolsa de produtividade. Nessa pesquisa, avançamos bastante no aprofundamento das correntes italianas contemporâneas, visto o papel de destaque do debate italiano para o campo da preservação, e no contraponto da contribuição italiana com outras contribuições, a exemplo da Teoria Contemporânea da Restauração do espanhol Salvador Muñoz-Vinas. A partir desse levantamento teórico, ainda percebemos a necessidade de seguir avançando no descortinamento de textos de autores fundantes para o moderno conceito de restauro, como Cesare Brandi, com muito pouco de sua extensa produção acessível em português. Assim, em 2023, tivemos um novo projeto de pesquisa contemplado com a bolsa de produtividade do CNPq, dessa vez com o título “Materialidade e a imaterialidade na preservação do patrimônio construído: o sítio histórico de Olinda e suas normativas de preservação”. Entre os objetivos específicos desta pesquisa, em continuidade com a anterior, está: ampliar a reflexão teórica sobre a contribuição brandiana para o campo da preservação do patrimônio construído a partir do olhar sobre textos pouco conhecidos no Brasil. É nesse contexto que estamos estudando esses dois livros aqui destacados.
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58
As cinco partes do livro são: “A cidade e a paisagem”, “Os planos reguladores”, “Em viagem”, “Bens móveis” e “As leis da política” (no original: “La città e il paesaggio”, “I piani regolatori”, “In viaggio”, “Opere mobili” e “Le legge della politica”).
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60
Basile (2006, p. 50).
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61
Daqui em diante, nos referimos a esta publicação apenas como Eliante.
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62
D’Angelo apud Brandi (1992, p. XIII).
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64
Agradeço a Beatriz Mugayar Kühl a indicação da leitura deste livro, escrito pelo professor de estética da Università Roma Tree, que qualificou profundamente a leitura e a pesquisa sobre a estrutura teórica proposta por Cesare Brandi.
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66
D’Angelo apud Brandi (1992, p. XIII).
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68
D’Angelo, op. cit.
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69
Ibid., p. 84.
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70
Gravagnuolo (2006, p. 93).
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71
Ibid., p. 93.
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72
D’Angelo (2008, p. 76).
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73
Sobre este debate, Andrea Pane, pesquisador do campo e neto de Roberto Pane, desenvolveu o artigo “L’inserzione del nuovo nel vecchio. Brandi e il dibattito sull’architettura moderna nei centri storici (1956-64)” (Pane, 2006). Também Juliana Nery e Rodrigo Baeta (2021) apresentam alguns aspectos particulares do debate que se desenvolve especialmente entre Brandi e Roberto Pane, nesse momento. Sugerimos a consulta a estes artigos para melhor compreensão do debate que se estabelece.
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74
Este artigo foi recém traduzido para o português, pelo professor Nivaldo Andrade (UFBA), para o número 4 da revista Thesis (Pane, 2017).
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75
D’Angelo apud Brandi (1992, p. XIII).
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76
Uma primeira apresentação sobre essa pesquisa foi realizada no Simpósio Temático coordenado pelo professor Rodrigo Baeta no VII ENANPARQ, em 2022, com o título “Eliante o dell’Architettura: as reflexões de Cesare Brandi sobre a arquitetura para além do debate italiano dos anos 50 sobre a inserção da arquitetura do movimento moderno em centros antigos” (ENANPARQ 2022).
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77
D’Angelo (2008, p. 94).
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78
Ibid., p. 94.
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79
Gravagnuolo, op. cit., p. 96.
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80
Aspectos que, como coloca D’Angelo (2006, p. 94), estão no cerne filosófico da estética de Cesare Brandi.
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81
Brandi (1992, p. 263, tradução nossa). No original: “[…] l’architettura non potrà mai essere soltanto un interno o un esterno, ma l’esterno dovrà godere de una spazialità che lo renda interno a se stesso, e l’interno reciprocamente esterno”.
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83
Ibid., p. 163. Vale observar no texto original do Eliante, o desenvolvimento que o autor realiza sobre os termos “ornato” e “estilo”.
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84
Ibid., p. 70.
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85
Pane (2017, p. 281).
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86
Capati apud Brandi (2001, p. 12).
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89
Ibid., grifo nosso.
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90
Ibid., grifo nosso.
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A partir daqui nos referiremos a esta publicação apenas pelo seu título principal: Il patrimonio insidiato, que corresponde ao título dado por Brandi a um dos artigos que está inserido nessa publicação e que Massimiliano Capati toma emprestado para nomear a reunião de artigos por ele organizada.
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92
O plano de trabalho foi intitulado “A Contribuição de Cesare Brandi às reflexões de projeto no patrimônio edificado na contemporaneidade: para além de sua teoria do restauro” e desenvolvido durante o ano de 2024, concentrando-se em um recorte do livro Il patrimonio insidiato (Conceição; Vieira-de-Araújo, 2024).
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93
Capati apud Brandi (2001).
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95
Ibid.
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96
Ibid.
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97
Apenas entre os anos 1979 e 1987 o Castelo de Rivoli foi alvo de um projeto de intervenção de recuperação e transformação em espaço museográfico. Projeto que se destaca pela qualidade da intervenção (La Regina, 2019), levado a cabo pelo arquiteto Andrea Bruno (1931-2025) e inaugurado como Museu de Arte Contemporânea em 18 dezembro de 1984 (Recupere del Castello…, 2025).
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98
Brandi (2001, p. 141).
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100
Ibid.
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101
Ibid.
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102
Brandi (2001, p. 196).
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103
Conceição e Vieira-de-Araújo, op. cit.
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104
Ibid.
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105
Carbonara (2011), grifo nosso.
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107
Kühl (2023, p. 4).
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108
Ibid., p. 4.
DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
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Editores responsáveis:
Maria Aparecida de Menezes Borrego e David Ribeiro.




Fonte: Acervo da autora.
Fonte: Acervo da autora.
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