Open-access A paisagem em processo: da cidade ao bairro com a aplicação de SIG histórico e cruzamento de fontes de pesquisa na cidade de Ribeirão Preto

The landscape in process: from the city to the neighborhood through the application of historical GIS and the cross-referencing of research sources in the city of Ribeirão Preto

RESUMO

Por meio do georreferenciamento, levantamento, sistematização e análise dos processos de aprovação do acervo de Obras Particulares do Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto (APHRP), este artigo investiga a formação da paisagem urbana ribeirão-pretana entre 1910 e 1955, com ênfase no recorte entre 1920 e 1930. Além disso, articula a espacialização de processos em base QGIS, o redesenho e a sobreposição de cartografias históricas para a produção de manchas cronológicas, cartografia seriada temática e um levantamento lote a lote na Vila Tibério, apoiado em documentação primária e em levantamento físico do bairro. Os resultados evidenciam vetores de expansão e processos de adensamento na cidade, a concentração de produção em determinados agentes projetistas e a identificação de um conjunto significativo de remanescentes históricos no tecido urbano atual. O artigo contribui para a historiografia da arquitetura e da urbanização ao propor um protocolo metodológico replicável, que combina humanidades digitais e pesquisa documental, e discute sua aplicabilidade para políticas de salvaguarda do patrimônio cultural.

PALAVRAS-CHAVE:
SIG histórico; Arqueologia da paisagem; Georreferenciamento; Cartografia histórica; Remanescentes históricos

ABSTRACT

Through the georeferencing, survey, systematization and analysis of building-permit processes from the Private Works collection of the Public and Historical Archive of Ribeirão Preto (APHRP), this article investigates the formation of Ribeirão Preto’s urban landscape between 1910 and 1955, with emphasis on the 1920-1930 interval. The study combines the spatialization of processes in a QGIS database, the redrawing and overlay of historical cartographies to produce chronological urban patches, the generation of serial thematic cartography, and a lot-by-lot survey in Vila Tibério supported by primary documentation and fieldwork. Results highlight vectors of urban expansion and processes of densification, the concentration of production in specific design agents, and the identification of a substantial set of historic remnants in the contemporary urban fabric. The article contributes to the historiography of architecture and urbanization by proposing a replicable methodological protocol that integrates digital humanities and documentary research and discusses its applicability to cultural-heritage safeguarding policies.

KEYWORDS:
Historical GIS; Archaeology of the landscape; Georeferencing; Historical cartography; Historic remnants

INTRODUÇÃO

A pesquisa histórica sobre o processo de formação das cidades exige métodos que integram fontes documentais, cartografia e análise espacial para reconstruir trajetórias urbanas e os modos de produção do tecido construído. Assim, este artigo apresenta os resultados de projeto de pós-doutorado,1 que teve como objetivo articular humanidades digitais2 e história urbana para identificar, mapear e avaliar remanescentes do patrimônio construído na cidade de Ribeirão Preto nas primeiras décadas do século XX.3

A metodologia de pesquisa baseada na espacialização dos processos construtivos, no redesenho da cartografia e na produção de mapas temáticos, por meio dos Sistemas de Informações Geográficas (SIGs), com o uso do software QGIS, ancorou-se em pesquisas acadêmicas realizadas pelo Grupo Arqueologia da Paisagem da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP), registrado no Diretório do CNPq, coordenado pela Prof. Dra. Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno. Sendo assim, teve como principal referencial teórico a livre docência intitulada “A cidade como negócio: mercado imobiliário rentista, projetos e processo de produção do Centro Velho de São Paulo do século XIX à Lei do Inquilinato (1809-1942)”4, onde Bueno (2018) aponta a importância dos trabalhos da equipe do Centre de Recherche en Géographie et Aménagement (CRGA) da Université Jean Moulin Lyon III5 para a constituição dessa metodologia e de importantes pesquisas nacionais, como aquelas desenvolvidas no Museu Paulista da Universidade de São Paulo, sob a liderança do Prof. Dr. Ulpiano Bezerra de Meneses. Bueno6 afirma ainda que “somos profundamente devedores da metodologia de “reconstituição de artérias” desenvolvida por Paulo Cesar Garcez Marins (1999), José Eduardo de Assis Lefèvre (1999/2006) e Heloísa Barbuy (2001/2006)”.

Para a construção desta metodologia de pesquisa, destacamos ainda os recentes trabalhos em parceria entre a Prof. Dra. Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno e a Prof. Dra. Heliana Angotti-Salgueiro, em especial aqueles que desaguaram na exposição “São Paulo e Buenos Aires Intermídias: a história em imagens”. Essas iniciativas reforçam o caráter das pesquisas em cultura visual urbana, que se dedicam a compreender as múltiplas representações e leituras da cidade, revelando-a como espaço de memória e de produção de sentidos coletivos. Ademais, partem do princípio de que arquivos e coleções podem ser entendidos como mídias, capazes de comunicar narrativas históricas e de alcançar a educação cívica, aproximando a sociedade de seu patrimônio cultural. Nesse sentido, a cultura visual urbana torna-se instrumento de reflexão crítica sobre os modos de habitar, construir e preservar, promovendo uma leitura comparativa e transnacional das paisagens e fortalecendo o papel da pesquisa acadêmica como mediadora entre universidade e sociedade.7

A partir da construção dessa metodologia de pesquisa, o ponto de partida para esta investigação foram os processos de Obras Particulares do Arquivo Público e Histórico de Ribeirão Preto (APHRP), um acervo que documenta projetos, responsáveis técnicos e proprietários. A pesquisa organizou-se em três fases complementares: (1) georreferenciamento e espacialização de processos do recorte 1920-1933;8 (2) digitalização e sobreposição de cartografias históricas para a produção de manchas cronológicas de urbanização entre 1910 e 1955;9 e (3) levantamento físico e documental lote a lote em um recorte piloto na Vila Tibério, com aplicação de critérios de autenticidade e integridade inspirados em orientações internacionais e em tipologias morfológicas locais. Essa combinação metodológica visa tanto avançar na produção de conhecimento historiográfico sobre a urbanização de Ribeirão Preto quanto oferecer insumos operacionais para práticas de salvaguarda e planejamento urbano.

Os resultados preliminares confirmam o constatado em tese anterior:10 a década de 1920 concentrou intensa atividade construtiva em Ribeirão Preto - e em outras cidades do estado como na capital paulistana,11 com picos em 1927-1928, e que essa produção seguiu vetores definidos por eixos viários e por proximidade a equipamentos públicos e ferroviários. A cartografia seriada12 evidenciou não apenas a expansão de novas quadras, como também um processo dominante de adensamento nas áreas já consolidadas - Centro, Vila Tibério e Campos Elíseos - e a atuação destacada de determinados projetistas e construtores cuja produção se distribui espacialmente de maneira identificável. No recorte lote a lote, a aplicação coordenada de fontes (processos, livros de lançamento, folhas de emplacamento) e o levantamento in loco permitiu mapear e analisar 1.161 lotes. Entre estes, 413 apresentam remanescentes reconhecíveis, preservando suas fachadas conforme o período original de construção, identificados por meio de análise tipológica. Além disso, 121 lotes puderam ser diretamente vinculados a processos georreferenciados com remanescente físico, uma vez que seus registros foram localizados no acervo de obras particulares do APHRP e, igualmente, mantêm as fachadas tal qual concebidas na época da edificação.

Além da contribuição empírica, o estudo problematiza questões normativas e de política urbana, uma vez que a análise confronta a distribuição dos remanescentes e a densificação prevista na legislação urbanística vigente (Lei Complementar nº 3175/2023), apontando riscos de descaracterização paisagística por práticas de verticalização e por aquisições de lotes sem políticas de salvaguarda integradas. Propõe-se, assim, que instrumentos de gestão territorial (Zonas de Proteção ao Patrimônio Cultural, Planos de Ação Regional, incentivos fiscais condicionados à manutenção de características históricas) se apoiem em bases cartográficas e documentais robustas como a aqui produzida, e que a metodologia apresentada possa ser replicada para outras localidades da cidade, de maneira a extroverter dados de pesquisa na produção de políticas públicas que zelem pelo patrimônio arquitetônico e pela manutenção das paisagens urbanas.13

GEORREFERENCIAMENTO E ESPACIALIZAÇÃO NA CIDADE

O objetivo inicial desta etapa investigativa consistiu em espacializar os projetos do acervo de Obras Particulares do APHRP, previamente digitalizados e sistematizados.14 Para tanto, delineou-se uma metodologia integrada, que articula georreferenciamento dos processos construtivos, redesenho cartográfico15 e produção de mapas temáticos seriados por meio de Sistemas de Informação Geográfica (SIG), com utilização do QGIS, e que se ancora em referências teóricas e experiências de pesquisa sobre Arqueologia da Paisagem16 e SIG histórico. As fontes mobilizadas incluem os 4.565 processos do acervo de Obras Particulares, a planta cadastral de 1918 (Escritório da Empresa Força e Luz, escala 1:2.000), a base SIRGAS 2000,17 o Livro de Lançamento (Imposto) Predial de 193318 (Figura 1) e folhas avulsas do Serviço de Emplacamento pelo Sistema Métrico (Figura 2), bem como um documento manuscrito intitulado “Livro Imposto de Reemplacamento da Câmara Municipal”, todos digitalizados por esta pesquisa e transcritos para constituição da base de dados.

Figura 1
Trecho do Livro de Lançamento (Imposto) Predial da Prefeitura de Ribeirão Preto, ano 1933, página 215, rua Gonçalves Dias.

Figura 2
Trecho de documento do Serviço de Emplacamento pelo Sistema Métrico da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto, sem data, rua Gonçalves Dias.

Após a sistematização - que excluiu pedidos de reconstrução, reformas de fachada, abrigos/barracões, acréscimos e processos sem indicação completa de logradouro - selecionou-se o recorte entre 1920 e 1933, composto por 2.037 processos elegíveis para georreferenciamento, complementando-se a tabela do QGIS com campos relativos a nome do proprietário, ano de aprovação, assinatura do projetista, programa de uso e observações tipológicas.19 O georreferenciamento foi operacionalizado mediante categorização da precisão espacial em três níveis: pontos localizados com base em documentação primária que permitem identificar o lote exato; pontos confirmados por remanescentes observáveis em imagens de rua ou em levantamento de campo; e pontos georreferenciados apenas por rua, quando apenas o nome do logradouro estava disponível, marcados no eixo da via.

Para a compatibilização cartográfica, redesenhou-se o Mapa Geral da Diretoria de Obras (1949, escala 1:10.000) em AutoCAD, exportando-o para o QGIS e complementando com informações de pontos de localidades que incluem fábricas, estação da Cia. Mogiana, cemitério, praças, equipamentos públicos e eixos viários principais, a partir de listas e índices do acervo. Essas camadas permitiram contextualizar espacialmente a cartografia seriada temática produzida. Foram testadas estratégias auxiliares de localização, como a identificação de remanescentes via imagens do Google Street View, e de levantamento in loco, método que se mostrou inviável diante do volume documental (mais de 2.000 processos do acervo de Obras Particulares do APHRP) e da alta taxa de demolição ou descaracterização de obras do recorte temporal - que impossibilitaria a identificação dos imóveis pela fachada; verificou-se também que a mudança de numeração de logradouros ocorrida em 194820 impõe restrições à correspondência direta entre numerações históricas e atuais, exigindo a articulação de múltiplas fontes primárias. Ao término da etapa de trabalho documental e espacialização, foi produzida uma base QGIS integrada e uma série de mapas temáticos que tornam visíveis as camadas cronológicas e espaciais da urbanização de Ribeirão Preto entre 1910 e 1933, constituindo o insumo empírico para as análises.

A partir dessa metodologia, foram georreferenciados 1.918 processos no recorte temporal entre 1920 e 1933, sendo 233 no lote, e os demais no eixo da rua, o que resultou na produção de mais de vinte cartografias temáticas da cidade no período, entre as quais destaca-se uma cronologia ano a ano dos processos aprovados para construção, mapas que identificam os principais agentes construtores e sua concentração espacial, a espacialização das tipologias programáticas e dos usos das edificações.21 Esses mapas foram elaborados em séries temporais compatíveis com a base QGIS, permitindo análises comparativas entre períodos, a sobreposição com fontes cartográficas históricas e atuais, bem como a extração de indicadores quantitativos e espaciais destinados a subsidiar interpretações sobre dinâmicas de produção do tecido urbano.

No mapa com processos do acervo de Obras Particulares do APHRP, georrefenciados ano a ano, entre 1920 e 1933 (Figura 3), observamos com precisão a cronologia e a espacialidade da produção edificada em Ribeirão Preto, confirmando22 a excepcional concentração de processos aprovados nos anos de 1927 e 1928, o que possibilitou leituras multifacetadas sobre dinâmicas urbanas. A ordenação anual dos processos selecionados evidencia oscilações temporais que se correlacionam com ciclos de investimento imobiliário e com eventos econômicos e institucionais locais e nacionais, ao mesmo tempo que a sobreposição cartográfica torna visível frentes de expansão e núcleos de adensamento. Em termos espaciais, a emergência de novos logradouros - entre eles as ruas João Penteado, Eliseu Guilherme e Altino Arantes a partir de 1926 - sinaliza a penetração da malha urbana para a zona sul, antecedendo a consolidação de bairros como Vila Independência, Jardim Sumaré e Alto da Boa Vista. Por outro lado, a concentração de aprovações no Centro, na Vila Tibério e nos Campos Elíseos evidencia um movimento simultâneo de consolidação e intensificação do tecido já urbanizado, por representarem a maior parte das construções da cidade naquele período.

Figura 3
Mapa com processos georrefenciados do acervo de Obras Particulares do APHRP entre 1920 e 1933 - ano a ano.

A partir das possibilidades de desenho de cartografias temáticas no mapa, com a classificação do uso do solo destes processos georreferenciados (Figura 4), a leitura permite discriminar tipos de uso e a relação com a espacialidade, apontando configuração mista na Vila Tibério, com forte presença de comércio e serviços fora do quadrilátero central, e identifica ruas com forte vocação comercial (em especial nas ruas José Bonifácio, Saldanha Marinho, e Avenida da Saudade). Por outro lado, a expansão da cidade para a zona sul - para além da Avenida Nove de Julho, comentada anteriormente, se caracteriza pela construção de edificações estritamente de uso residencial.

Figura 4
Mapa com processos georrefenciados do acervo de Obras Particulares do APHRP entre 1920 e 1933 e o uso do solo.

Os mapas também permitem constatar a articulação entre cronologias da aprovação de loteamentos e a localização de polos industriais. Em recente dissertação de mestrado, Ribeiro23 aborda a formação do bairro Vila Tibério, mostrando não haver relação entre a abertura do bairro com a inauguração das indústrias Cervejaria Antártica Paulista24 e Companhia Cervejaria Paulista,25 respectivamente em 1911 e 1913, sendo que a chegada das indústrias teria apenas impulsionado o crescimento do bairro já loteado. Da mesma forma, analisando os mapas gerados, podemos aventar a possibilidade de estudo relacionado com a Companhia Eletro-Metalúrgica Brasileira Sociedade Anônima,26 fundada em 1922, que poderia ter sido propulsora de novos loteamentos na zona norte da cidade, como a Vila Elisa, aprovada em 1923 nos arredores da indústria, mas que não teve aprovação de projetos para construção no período.

A análise dos agentes construtivos, viabilizada pelo georreferenciamento dos nomes dos projetistas e proprietários, como podemos observar no mapa de atuação de alguns agentes de destaque na cidade pela sua expressiva produção no período27 (Figura 5), evidencia polos de produção concentrada, destacando a participação marcante de agentes imigrantes, em especial italianos (com destaque para atuação dos profissionais: Paschoal di Vincenzo e Raphael Schettini28 - que podemos constatar no mapa estavam atuando por toda a cidade -, e outros profissionais de grande produção como Baudílio Domingues e Cícero Martins Brandão.

Figura 5
Mapa com processos georrefenciados do acervo de Obras Particulares do APHRP entre 1920 e 1933 e a atuação de alguns agentes de destaque.

Metodologicamente, a construção de séries cartográficas ano a ano, combinada às camadas temáticas, possibilitou a extração de indicadores quantitativos, como a densidade de aprovações por quarteirão, as taxas de remanescentes por setor e a distribuição de usos, bem como possibilitou a correlação desses dados com fontes documentais, incluindo atas da Câmara Municipal e listas de equipamentos públicos. Esse procedimento ampliou significativamente a capacidade interpretativa sobre os processos de urbanização, ao integrar evidências espaciais e registros históricos.

Os resultados dessa etapa não se limitam à análise técnica, mas abrem múltiplas possibilidades de desdobramentos. Entre elas, destacam-se o aprofundamento das relações entre indústria e loteamento, o estudo das redes de projetistas e dos fluxos de transferência de repertório arquitetônico e as análises tipológicas detalhadas das morfologias residenciais e de sua evolução. Além disso, os mapas produzidos constituem subsídio técnico relevante para políticas de salvaguarda e planejamento urbano, permitindo identificar áreas prioritárias para inventário, proteção e intervenção voltada à preservação.

PRODUÇÃO DE MANCHAS CRONOLÓGICAS DE URBANIZAÇÃO

A partir da consideração do potencial dos mapas temáticos para a compreensão da expansão da malha urbana de Ribeirão Preto, iniciou-se a segunda etapa dedicada ao redesenho das manchas urbanizadas fundamentada na cartografia histórica,29 processo que se apoiou na digitalização de parte do acervo da mapoteca do APHRP e de outras instituições de guarda documental.30 Foram selecionadas e trabalhadas pranchas datadas entre 1910 e 195531 - entre as quais se destacam as plantas cadastrais de 1910 e 1918, mapas de 1925, 1933, 1944, 1949 e 1955, além de uma prancha sem data presumivelmente da década de 1930 - cujo escopo incluiu limpeza digital, correções e preparação para georreferenciamento. Em paralelo, o levantamento documental foi complementado por consultas a arquivos e mapotecas regionais e nacionais, garantindo um corpus diversificado, que possibilitou confrontar escalas, intenções cartográficas e procedimentos institucionais presentes nas pranchas históricas.

A metodologia adotada articulou a digitalização espacializada ao georreferenciamento em QGIS sobre a base contemporânea do Open Street Map, seguida do redesenho manual32 e da vetorização das quadras em camadas decenais, como podemos ver na Figura 6. Reconhecendo que mapas antigos representam tanto a realidade construída quanto projetos e intencionalidades, evidenciadas por traçados pontilhados e quadras não executadas, adotou-se uma postura crítica que distingue proposições cartográficas de elementos efetivamente implementados, permitindo tratar divergências como fontes heurísticas sobre os projetos urbanos e as expectativas institucionais da época.

Figura 6
Planta da Cidade de Ribeirão Preto, 1925; e abaixo o redesenho das quadras em software QGIS.

A produção de mapas temáticos seriados resultou na espacialização clara dos vetores de expansão e das transformações da malha viária, oferecendo uma representação legível e cientificamente fundamentada do crescimento físico da cidade na primeira metade do século XX e abrindo caminho para integrações posteriores com análises documentais e estatísticas, como podemos ver na Figura 7. Essa abordagem cartográfica, ao articular temporalidade e espacialidade, revelou não apenas os padrões de crescimento urbano, mas também as dinâmicas de planejamento e ocupação que orientaram a formação da paisagem construída. A análise comparativa entre os mapas históricos e as camadas redesenhadas permitiu identificar áreas de expansão planejada que não se concretizaram, bem como regiões cuja ocupação superou as previsões originais, evidenciando tensões entre projeto e realidade urbana.

Figura 7
Mancha urbana a partir do Mapa Geral de Ribeirão Preto, 1955.

Na década de 1920, observa-se o prolongamento dos bairros centrais - notadamente Vila Tibério e Campos Elíseos - e a consolidação de núcleos então suburbanos, como República e Barracão, posteriormente denominados Vila Virgínia e Ipiranga. Esse processo evidencia tanto a difusão da malha viária a partir do núcleo histórico quanto a incorporação de áreas projetadas para loteamento. A década de 1930 apresenta menor dinâmica de ocupação efetiva, resultado compatível com descontinuidades econômicas e institucionais,34 enquanto a retomada do crescimento na década de 1940 concentra-se especialmente em direção à zona Norte, cuja ocupação foi incentivada desde as décadas anteriores pela implantação de infraestruturas industriais e de serviços, como a Companhia Eletro-Metalúrgica na localidade então prevista para a Vila Elisa.35 Na década de 1950, constata-se um salto na expansão urbana, com a área ocupada praticamente dobrando em relação ao início do recorte temporal, sinalizando uma acelerada difusão residencial e infraestrutural que reconfigurou a malha urbana municipal.36

O LOTE A LOTE NA ESCALA DO BAIRRO

A partir da consolidação da base de dados georreferenciada e da planilha analítica dos dados processados, foi possível iniciar a etapa de cruzamento entre os registros documentais e os atributos físicos das edificações,37 permitindo a construção de mapas temáticos que articulam espacialmente os critérios de autenticidade, integridade e intenção plástica na escala do bairro. A introdução do levantamento lote a lote corresponde a uma etapa metodológica necessária para deslocar o foco da escala macro da cidade para a escala micro do lote, possibilitando captar as camadas históricas inscritas na malha edificada que não são plenamente visíveis em cartografias com a escala da cidade. A escolha do recorte espacial, Vila Tibério,38 foi deliberada por sua densidade de documentação primária, sobretudo os registros relacionados à mudança de numeração de logradouros, o que garantiu um referencial estável para localizar processos do acervo de Obras Particulares do APHRP e estabelecer correspondências inequívocas entre plantas históricas, processos administrativos e a configuração atual dos lotes - ou seja, a maior parte dos processos georreferenciados no lote estavam nesta localidade da cidade. Desta maneira, essa opção metodológica visou maximizar a validade interna do estudo ao reduzir incertezas de localização e facilitar o cruzamento entre fontes documentais e evidências de campo.

A operacionalização do método articulou três procedimentos complementares: levantamento fotográfico sistemático, desenho georreferenciado lote a lote em QGIS e preenchimento simultâneo de uma planilha analítica no Excel contendo atributos básicos e critérios qualitativos. A sequência adotada - mapeamento topológico consistente, numeração neutra dos lotes e vinculação direta entre mapa e planilha - assegurou rastreabilidade entre o elemento documental e sua manifestação física, permitindo inferir cronologias construtivas nos casos de ausência de processos e avaliar o estado de conservação com critérios replicáveis. Ao adotar parâmetros de autenticidade e integridade inspirados nas diretrizes da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco)39 e adaptar categorias tipológicas arquitetônicas de pesquisa anterior,40 o levantamento lote a lote41 estabelece uma linha de raciocínio que conecta evidência documental, leitura morfológica e avaliação patrimonial, produzindo uma base robusta para mapas temáticos, intervenções de preservação e investigações subsequentes sobre a produção do espaço urbano.

Figura 8
Desenho do lote a lote e numeração neutra no software Q-GIS.

A categorização tipológica desempenhou papel complementar e instrumental na atribuição de cronologias construtivas às edificações sem processos formalizados no acervo de Obras Particulares - ou posterior ao ano de 1933, recorte que marca a documentação sistematizada e utilizada como base de dados -, tendo sido definida a partir da observação de elementos compositivos da fachada, como ornamentos, platibandas, molduras, tratamentos de esquadrias e soluções volumétricas, e correlacionada com séries tipológicas já consolidadas para o período estudado. O Quadro 1 sintetiza essas tipologias e os intervalos cronológicos atribuídos a cada grupo, os quais foram aplicados com parcimônia e sempre assinalados nos produtos cartográficos quando não havia sustentação documental direta. Reforça-se que a priorização recaiu sobre a cronologia documental, e a tipologia foi empregada apenas para suprir lacunas e ampliar o diagnóstico local, consciente dos riscos inerentes à atribuição tipológica e das possíveis sobreposições estilísticas e reformas posteriores.

Quadro 1
Definição de tipologias para o estabelecimento de cronologia construtiva das edificações em que não constam registro documental no acervo pesquisado

O procedimento de vinculação entre mapa e documentação ocorreu mediante um protocolo sequencial e replicável: primeiro, redesenho lote a lote no QGIS com numeração neutra; segundo, seleção e organização dos processos digitalizados previamente sistematizados em pesquisa anterior; e terceiro, confrontação desses processos com os registros fiscais do “Livro de Lançamento de Impostos Prediais” e com as folhas avulsas do Serviço de Emplacamento pelo sistema métrico, de modo a transpor a numeração antiga para a atual; e quarto, a validação in loco por meio do relatório fotográfico42 e do recurso complementar de visualização (Google Street View). Esse encadeamento metodológico permitiu localizar, quando possível, o processo correspondente à cada parcela e, assim, atribuir datas precisas de construção ou reformas, registrando explicitamente nos bancos de dados os níveis de confiança de cada determinação (Figura 9).

Figura 9
Exemplo da metodologia de levantamento físico, levantamento documental e cruzamento de dados, resultando na cronologia construtiva da edificação.

Ademais, diante de lacunas documentais ou discrepâncias nas informações de proprietário e numeração, adotaram-se estratégias alternativas de identificação, como o reconhecimento de fachadas e platibandas, a confirmação de posições angulares em esquinas e a comparação tipológica com exemplares documentados. Tais procedimentos, embora auxiliares, foram sistematizados e documentados para assegurar rastreabilidade e transparência metodológica. O resultado desse conjunto de operações foi a construção de uma base georreferenciada robusta, articulando evidência documental, leitura morfológica e observação de campo, que serviu de suporte para a elaboração dos mapas temáticos e para a síntese cronológica e elaboração de documento técnico entre aos gestores públicos municipais com levantamento das edificações de interesse histórico (Figura 10).

Figura 10
Amostragem dos 121 exemplares das edificações construídas entre 1910 e 1933, identificadas por meio do acervo de Obras Particulares do APHRP e que ainda apresentam remanescência observável na paisagem atual.

Os resultados quantitativos e espaciais obtidos nesta fase confirmam a robustez da metodologia aplicada: do total de 1.161 lotes levantados no quadrilátero selecionado da Vila Tibério, 413 (35%) foram identificados como edificações históricas remanescentes (Figura 11), distribuídas de forma difusa por toda a área e não concentradas em eixos específicos, o que indica uma possível difusão homogênea de valores patrimoniais ao longo do tecido urbano do bairro. A correspondência entre documentação arquivística e evidência de campo permitiu georreferenciar 270 processos do acervo de Obras Particulares referentes ao período 1910-1933, dos quais 121 (44%) apresentam remanescência observável na paisagem atual. Os demais processos mostram-se associados a lotes onde a edificação foi demolida, radicalmente alterada ou sequer foi executada, ressaltando a necessidade de diferenciar inscrição documental e existência de permanência física. A elaboração dos mapas temáticos, abrangendo gabarito, uso e ocupação do solo, datação cronológica por fonte documental e por tipologia, identificação de remanescentes históricos, integridade e referência documental dos lotes, possibilitou visualizar padrões de conservação, rupturas e continuidade tipológica (que não emergiriam apenas pela leitura documental), bem como a datação cronológica desta paisagem, como podemos ver na Figura 12.

Figura 11
Mapa de edificações consideradas remanescentes históricas.

Figura 12
Mapa com plano de datação cronológica, fontes documentais e tipologia.

SÍNTESE DOS RESULTADOS E ALCANCE DA SOCIEDADE CIVIL

A continuidade da pesquisa, materializada na base cartográfica e nos mapas temáticos gerados, extrapolou o âmbito estritamente acadêmico ao ser contemplada, juntamente com parte da equipe integrante do grupo de pesquisa Arqueologia da Paisagem, pelo Termo de Fomento n.º 019/2024-CAU/SP,43 com o projeto “Arqueologia da Paisagem Urbana: inventário e mapeamento para políticas públicas em São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto”44, o que permitiu a extroversão dos resultados em formato de exposição itinerante e em folders de divulgação acessíveis à população com os mapas produzidos (Figura 13). Essa conversão dos produtos científicos em materiais de fruição pública fortalece o alcance social do projeto, ao promover a sensibilização cidadã sobre o valor das paisagens urbanas e ao disponibilizar um instrumental técnico-científico replicável para avaliações patrimoniais e formulação de políticas públicas.45 Assim, ao articular a produção cartográfica rigorosa, capaz de informar decisões de preservação e planejamento urbano, com ações de difusão e educação patrimonial (exposição, ciclo de palestras e material de circulação pública), o projeto consolidou um fluxo de ida e volta entre universidade, poder público e sociedade civil, ampliando a possibilidade de implementação de diretrizes de proteção e de intervenções territoriais baseadas em evidências e, simultaneamente, democratizando o acesso ao conhecimento produzido sobre o patrimônio urbano.

Figura 13
Layout do folder de Ribeirão Preto.

Por fim, a investigação confirma a relevância da pesquisa histórica e documental, articulada às ferramentas das humanidades digitais, para o conhecimento e reconhecimento das paisagens urbanas e para a fundamentação técnica de políticas públicas. A integração entre cartografia histórica georreferenciada, levantamento lote a lote, documentação arquivística e análise tipológica permitiu não apenas reconstruir cronologias construtivas e mapear remanescentes históricos, mas também gerar uma base de dados e um conjunto de mapas temáticos replicáveis que oferecem subsídios robustos para avaliações patrimoniais, diagnósticos de integridade e priorização de intervenções. Ao demonstrar que valores patrimoniais estão difusamente distribuídos na Vila Tibério e que processos de descaracterização podem ocorrer por parâmetros de uso e ocupação permissivos, o estudo reforça a necessidade de políticas urbanas informadas por evidência histórica e cartográfica para garantir a preservação da ambiência urbana e a continuidade das comunidades locais.

Como desdobramento prático, propõe-se a incorporação dos resultados no processo de elaboração de diretrizes para as Unidades de Ocupação Planejada (UOPs) - em particular UOP01-CE - e a consideração da delimitação de novas manchas de Zonas de Proteção ao Patrimônio Cultural (ZPC) na cidade de Ribeirão Preto, que permitam instrumentos normativos e incentivos financeiros voltados à manutenção do patrimônio edificado e à permanência das populações locais. Recomenda-se ainda a adoção da metodologia aqui apresentada como procedimento técnico pela municipalidade e por parcerias institucionais, a elaboração de materiais de orientação para proprietários e inquilinos, e a implementação de ações de educação patrimonial e sensibilização pública. Essas medidas conciliam preservação e desenvolvimento, viabilizando intervenções urbanísticas que preservem a identidade e a ambiência histórica, ao mesmo tempo que provêm critérios concretos para o planejamento futuro da cidade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados aqui apresentados reafirmam a centralidade da pesquisa histórica e documental, articulada a métodos de geoprocessamento e humanidades digitais, para a compreensão das dinâmicas de formação das paisagens urbanas. Ao integrar georreferenciamento de processos, sobreposição de cartografias históricas e levantamento lote a lote, a investigação ofereceu uma representação coerente e verificável da evolução da malha urbana de Ribeirão Preto, entre os anos de 1910 e 1955, tornando visíveis vetores de expansão, padrões de adensamento e distribuição espacial atual de remanescentes históricos. Metodologicamente, a combinação entre bases cartográficas seriadas, identificação tipológica e cruzamento sistemático com documentação primária se mostrou eficaz para reduzir incertezas de localização, atribuir cronologias construtivas com níveis de confiança explícitos e construir uma base de dados georreferenciada replicável para outras escalas e contextos urbanos.46

Do ponto de vista interpretativo e aplicacional, o estudo evidenciou riscos potenciais associados a parâmetros de uso e ocupação permissivos que permitem processos acelerados de verticalização e demolição em áreas de alto valor patrimonial, indicando a necessidade de instrumentos normativos que considerem não apenas imóveis tombados isoladamente, mas conjuntos urbanos e ambiências históricas. A proposta de delimitação de novas manchas de Zonas de Proteção ao Patrimônio Cultural (ZPC) e a incorporação dos mapas temáticos e da base documental como subsídios técnicos no desenho das Unidades de Ocupação Planejada (UOPs) para a cidade de Ribeirão Preto constituem recomendações concretas para orientar políticas públicas de preservação, incentivo fiscal e planejamento participativo. Adicionalmente, a extroversão dos produtos de pesquisa em exposição pública e materiais de divulgação reforça o papel social da produção acadêmica, ao fomentar a sensibilização cidadã e fortalecer redes locais de defesa do patrimônio.

Sendo assim, a investigação aponta caminhos para aprofundamentos futuros, são eles: estudos comparativos entre localidades do centro expandido de Ribeirão Preto, visando à identificação de perímetros urbanos passíveis de proteção coletiva; análises das redes de projetistas e fluxos de repertório arquitetônico; e a aplicação da metodologia em outras cidades do interior paulista para avaliar sua robustez e adaptabilidade. Recomenda-se também a institucionalização do protocolo metodológico junto à administração municipal e a promoção de programas de capacitação técnica e educação patrimonial que apoiem a manutenção das edificações históricas e a permanência das comunidades locais, assegurando que a produção de conhecimento histórico-cartográfico traduza-se em ações concretas de conservação e planejamento urbano sustentável.

DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.

REFERÊNCIAS

    Fontes impressas

    • RIBEIRÃO PRETO (SP). Lei Complementar nº 3.175, de 20 de dezembro de 2023. Dispõe sobre a reorganização administrativa da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto e dá outras providências. Diário Oficial do Município de Ribeirão Preto, Ribeirão Preto, SP, 21 dez. 2023.

    Livros, artigos e teses

    • AMOROSO, Maria Rita; BUENO, Beatriz Piccolotto Siqueira. Campinas - Arqueologia de uma paisagem: Avenida Campos Sales e Igreja do Rosário em seus tempos. Campinas: Editora das Autoras, 2024.
    • BUENO, Beatriz Piccolotto Siqueira. Tecido urbano e mercado imobiliário em São Paulo: metodologia de estudo com base na Décima Urbana de 1809. Anais do Museu Paulista, São Paulo, v. 13, n. 1, p. 59-97, 2005.
    • BUENO, Beatriz Piccolotto Siqueira. A cidade como negócio: mercado imobiliário rentista, projetos e processo de produção do Centro Velho de São Paulo do século XIX à Lei do Inquilinato (1809-1942). 2018. Tese (Livre Docência em Arquitetura e Urbanismo) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2018.
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    • GAUTHIEZ, Bernard. Lyon, das Fontes Escritas ao SIG histórico - Método e Exemplos de Aplicação. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 64, p. 21-50, 2016.
    • GUERREIRO, Dália; BORBINHA, José Luís. Humanidades digitais: novos desafios e oportunidades. Revista Internacional del Libro, Digitalización y Bibliotecas, v. 2, n. 2, 2014.
    • GUIÃO, João Rodrigues. O Município e a Cidade de Ribeirão Preto na Comemoração do 1º Centenário da Independência Nacional. Almanaque, Ribeirão Preto, 1923.
    • KURGAN, Laura; BRAWLEY, Dare (orgs.). Ways of Knowing Cities. New York: Columbia Books on Architecture and the City, 2019.
    • LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Alvenaria burguesa: breve história da arquitetura residencial de tijolos em São Paulo a partir do ciclo econômico liderado pelo café. São Paulo: Nobel, 1989.
    • LIMA, Ana Carolina Gleria. Casa e documentação: a história contada através de um acervo de projetos. 2020. Tese (Doutorado em Teoria e História da Arquitetura e do Urbanismo) - Universidade de São Paulo, São Carlos, 2020.
    • LIMA, Ana Carolina Gleria. Ribeirão Preto e a arquitetura italiana: as trocas culturais que construíram uma cidade em transformação. In: INSTITUTO CASA DA MEMÓRIA ITALIANA (org.). Memórias de uma casa: 100 anos de histórias. Ribeirão Preto: Instituto Paulista de Cidades e Identidades Culturais, 2025. p. 98-118.
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    • LOPES, Talita Ignacio Cuevas. História da urbanização a partir de geotecnologias: espacializando e modelando bases cartográficas históricas. 2024. Iniciação Científica (Arquitetura e Urbanismo) - Universidade de São Paulo, São Paulo, 2024.
    • MANOVICH, Lev. The Language of New Media. Cambridge: MIT Press , 2001.
    • MARQUES, Fabrício. A realidade que emerge da avalanche de dados. Revista Pesquisa Fapesp, v. 255, p. 19-25, 2017.
    • MONTEIRO, Regina et al. Manual Centro Histórico: manutenção, conservação, reforma e restauro. São Paulo: SP Urbanismo, 2021.
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    • ROZESTRATEN, Artur. Formações dos imaginários urbanos de São Paulo. São Paulo: Annablume , 2025.
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    • SPERLING, David. Cartografias críticas: ensaios tecnopolíticos e geopoéticos. Rio de Janeiro: Rio Books , 2025.
    • UNESCO. Orientações Técnicas para Aplicação da Convenção do Patrimônio Mundial. Lisboa: Unesco, 2022. Disponível em: https://whc.unesco.org/archive/opguide11-pt.pdf
      » https://whc.unesco.org/archive/opguide11-pt.pdf
    • 1
      Este artigo origina-se da pesquisa de pós-doutorado SIG Histórico Ribeirão Preto: Arqueologia da Paisagem por meio do acervo de Obras Particulares do Arquivo Público e Histórico Municipal, desenvolvida por Ana Carolina Gleria na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP), sob supervisão da Profa. Dra. Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno. A pesquisa tem conclusão prevista para setembro de 2026.
    • 2
      Humanidades Digitais pode ser definido como a articulação do conhecimento e dos métodos utilizados nas ciências humanas com o mundo digital (Guerreiro; Borbinha, 2014). Trata-se de um campo amplo e interdisciplinar, com pesquisas em diversas partes do mundo, e iniciativas como o Escritório de Humanidades Digitais da National Endowment for the Humanities (NEH), nos Estados Unidos (Marques, 2017). No Brasil, grupos de pesquisa vêm trabalhando nesta frente, consolidando redes e projetos que ampliam a produção e a circulação de conhecimento digital, como por exemplo o projeto ARQUIGRAFIA - responsável pelo desenvolvimento de uma plataforma digital colaborativa dedicada à preservação e difusão da memória arquitetônica e urbana, reunindo imagens e registros de espaços construídos - coordenado pelo Prof. Dr. Artur Rozestraten. Cf. Rozestraten (2019, 2025).
    • 3
      Esta pesquisa de pós-doutorado surgiu como um desdobramento de doutoramento, que realizou a digitalização, catalogação e sistematização de acervos do referido arquivo, e que teve como objetivo o estudo da história da arquitetura e suas características formais e compositivas. Sendo assim, esta nova etapa de pesquisa possibilitou a ampliação do olhar para a história da urbanização, e o entendimento da cidade como processo. Cf. Lima (2020)
    • 4
      Enfatizamos que a tese de livre docência da Prof. Dra. Beatriz Bueno, foi a principal referência metodológica para a execução desta investigação, apontando que outros pesquisadores do grupo, sob sua orientação, também se utilizam da investigação cartográfica como ferramenta para construção de narrativas historiográficas. Para além dos trabalhos citados em sua tese de livre docência, outras pesquisas recentemente finalizadas trabalharam com essa metodologia como Wilmar Moura de Souza Junior (2025), Allan Pedro dos Santos Silva (2025) e Ingrid Araújo Gomes (2025); e as pesquisas em andamento de pós-doutorado de Maria Rita Amoroso (previsão de conclusão em 2026) e de doutorado de Letícia Falasqui Rocha (previsão de conclusão 2028). Cf. Amoroso e Bueno (2024).
    • 5
      Para mais informações sobre a metodologia de pesquisa do grupo, ver: Gauthiez (2016).
    • 6
      Bueno (2018, p. 9).
    • 7
      Entre as referências bibliográficas que nortearam a montagem da exposição, podemos citar: Cuff et al. (2020), Kurgan e Brawley (2019) e Manovich (2001).
    • 8
      Destacamos que durante a pesquisa de doutoramento foram digitalizados 4.565 processos do acervo de Obras Particulares do APHRP, respeitando o recorte da pesquisa estabelecido entre 1910 e 1933. Toda a base de dados da pesquisa foi doada para instituição e se encontra disponível para consulta pública.
    • 9
      A pesquisa de cartografia histórica constatou uma menor quantidade de mapas disponíveis em relação aos processos do acervo de Obras Particulares do APHRP. Essa diferença quantitativa, longe de ser uma limitação, possibilitou avançar décadas na investigação, já que os processos revelaram dinâmicas e transformações mais amplas do que a simples representação cartográfica, permitindo avançar cronologicamente, incluindo a década de 1940 e 1950.
    • 10
    • 11
      Cf. Lemos (1989, p.184).
    • 12
      Entendemos cartografia seriada como a sequência de representações que revelam processos, transformações e dinâmicas espaciais ao longo do tempo. Para Sperling (2025, p.60), a cartografia crítica pode partir de dois paradigmas conceituais: o “mapeamento cognitivo” e a “cartografia de processo”, sendo o objetivo da segunda acompanhar processos, em vez de representar objetos. Segundo o autor (Ibid., p.60), “a cartografia não isola os objetos do mundo e da história, antes busca mapear a rede de forças em que o objeto ou fenômeno está conectado”, sendo “sua ação de produção de dados e não a sua coleta”.
    • 13
      Apontamos que os relatórios produzidos por esta pesquisa foram entregues para a Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Urbano de Ribeirão Preto, Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Ribeirão Preto e para o Conselho de Preservação do Patrimônio Artístico e Cultural do município de Ribeirão Preto com o objetivo de auxiliar a produção de políticas públicas.
    • 14
    • 15
      O redesenho cartográfico fundamentado no georreferenciamento e na utilização de mapas históricos constitui uma estratégia metodológica capaz de ampliar a compreensão dos processos urbanos e territoriais. Ao articular documentos do passado com técnicas contemporâneas de posicionamento, torna-se possível não apenas recuperar a memória espacial, mas também revelar dinâmicas de transformação que permanecem invisíveis em representações isoladas. Nesse sentido, a precisão cartográfica não deve ser entendida como mera exatidão técnica, mas como um exercício de implicação do pesquisador na realidade estudada. Como afirma Sperling (op. cit., p. 60), “a precisão cartográfica não diz respeito à exatidão, mas à implicação do cartógrafo em uma dada realidade, abrindo-se ao encontro, modificando e sendo modificado pelos agenciamentos com os participantes”. Assim, o redesenho cartográfico, ao integrar georreferenciamento e mapas históricos, assume caráter crítico e processual, permitindo que a cartografia se torne não apenas instrumento de registro, mas também de diálogo e transformação.
    • 16
      Bueno (2018, p. 9) define Arqueologia da Paisagem como “estudos de minuciosa reconstituição hipotética de um processo a partir de seus fragmentos, entendendo a paisagem urbana como uma sucessão de camadas desiguais de tempos consideradas como inércia ativa, segundo Milton Santos (1978/1994)”.
    • 17
      Escolher a base SIRGAS 2000 foi fundamental, uma vez que é o sistema geodésico oficial do Brasil, garantindo maior precisão no georreferenciamento e assegurando compatibilidade com padrões internacionais de posicionamento.
    • 18
      Sobre a metodologia do uso de documentação de Imposto Predial Urbano em pesquisas históricas ver: Bueno (2005).
    • 19
      Averiguamos que da massa documental levantada, os projetos aprovados entre 1910-1919 eram os mais deficitários em informação - como vimos na tese, em cerca de 70% dos desenhos deste recorte temporal não constam as informações completas, suprimindo, por exemplo dados como: responsabilidade técnica, nome do proprietário e informações de logradouro.
    • 20
      A mudança de numeração dos logradouros da cidade de Ribeirão Preto aconteceu pela Lei n.29 de 25 de maio de 1948, que passou a adotar o sistema métrico.
    • 21
      Esta etapa da pesquisa contou com a colaboração do aluno de iniciação científica Nicolas Rodrigues Sarracino. Cf. Sarracino (2022).
    • 22
    • 23
    • 24
      No dia 15 de agosto de 1911, o jornal O Estado de S. Paulo noticia a inauguração da Companhia Antártica Paulista em Ribeirão Preto com a chamada “O progresso do interior”.
    • 25
      Segundo a historiadora Tânia Registro, “a primeira fábrica foi instalada à rua Visconde do Rio Branco (esquina com rua Barão do Amazonas) e, em 18 de abril de 1914, foi inaugurada a nova fábrica, construída na avenida Jerônimo Gonçalves”. Disponível em: https://bit.ly/4gBBwLp.
    • 26
      João Rodrigues Guião, que era o prefeito municipal na época, evidencia a importância desse fato ao afirmar que a solenidade de inauguração da Companhia Eletro-Metalúrgica, ocorrida em 27 de agosto de 1922, contou com a presença do próprio presidente da República Epitácio Pessoa, do ministro da Indústria e Comércio José Pires do Rio, do presidente do estado de São Paulo Washington Luiz, do ministro da Marinha e ex-prefeito de Ribeirão Preto, Veiga Miranda. Guião acrescenta ainda que a Cia. Electro Metalúrgica Brasileira S.A. tinha por finalidade a exploração da indústria de ferro em todas as suas modalidades e entre os noventa acionistas estavam nomes da cafeicultura, como Flávio de Mendonça Uchoa, Osório da Cunha Junqueira, Sylvio Álvares Penteado, Caio da Silva Prado, Martinho da Silva Prado, Manuel Maximiano Junqueira, Joaquim da Cunha Diniz Junqueira, Theodomiro de Mendonça Uchoa, Francisca Silveira do Val, entre outros (Guião, 1923).
    • 27
      Durante a referida tese mencionada, que originou pesquisa de pós-doutorado, compôs parte dos objetivos específicos a identificação dos profissionais responsáveis pela produção edificada. Do total de 3.275 processos relativos a usos residenciais e mistos (aprovados para construção, reforma ou ampliação), foi possível identificar assinatura de autoria de projeto ou responsabilidade técnica em 2.076 casos, correspondendo a 143 nomes entre engenheiros, arquitetos, construtores e desenhistas. Enquanto uma parcela desses profissionais assina apenas alguns projetos, um grupo reduzido de 15 assinantes concentra aproximadamente 60% dos processos localizados, e por isso, foi considerado aqui, de expressiva produção no período.
    • 28
      Sobre arquitetura italiana em Ribeirão Preto, ver: Lima (2025).
    • 29
      Este processo metodológico encontra respaldo em iniciativas acadêmicas que têm explorado metodologias críticas de representação espacial. Para além do já citado Grupo de Pesquisa Arqueologia da Paisagem, coordenado pela Prof. Dra. Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno referenciamos o projeto colaborativo Atlas do Chão, coordenado por Ana Luiza Nobre e David Sperling, que propõe cartografias ampliadas e críticas como instrumentos de memória, descolonização e análise dos territórios. Para mais informações ver: Nobre e Sperling (2024).
    • 30
      A pesquisa extrapolou o acervo municipal, ampliando o levantamento documental a diversas instituições regionais e nacionais para assegurar maior robustez e comparabilidade das fontes, incluindo o Arquivo Público da Câmara Municipal de Ribeirão Preto (APCMRP), o Arquivo Público do Estado de São Paulo (Apesp), o Instituto Geográfico e Cartográfico de São Paulo (IGC/USP), o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Arquivo Histórico do Exército (DECEX/DPHCEX), a Mapoteca da Biblioteca Florestan Fernandes (FFLCH/USP) e a Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Urbano da Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto (SPDU/PMRP).
    • 31
      A digitalização de pranchas de grande formato teve suporte técnico da Ophicina Polygraphica, sob a responsabilidade de Gerson Tung.
    • 32
      Esta etapa da pesquisa contou com a colaboração da aluna de iniciação científica Talita Ignacio Cuevas Lopes.
    • 33
      Mapa 1910: Planta cadastral da cidade de Ribeirão Preto organizada pelo Escriptório da Empreza Força e Luz, Escala 1:2000; Mapa 1918: Planta cadastral da cidade de Ribeirão Preto da Empresa de Águas e Esgotos, Rede de Águas, Escala 1:2000; Mapa 1925: Planta da Cidade de Ribeirão Preto, Sem Escala; Mapa 1933: Empreza de Águas e Esgotos / Escala 1:5000; Mapa 1944: Instituto de Resseguros do Brasil / Escala 1:20000; Mapa 1949: Mapa Geral Prefeitura Municipal de Ribeirão Preto / Diretoria de Obras / Escala: 1:10000; Mapa 1955: Mapa Geral Prefeitura Municipal de RP / Departamento de Engenharia / Secção de Cadastro e Patrimônio / Escala 1:10000; Mapa s/d: (provavelmente década de 1930) Planta da Cidade de Ribeirão Preto / Escala: 1:20000.
    • 34
      Na tese de doutorado de Lima (2020), foi demonstrado por meio dos Relatórios anuais emitidos pela Prefeitura de Ribeirão Preto para a Câmara Municipal que a cidade foi marcada pela crise gerada pelo desinteresse e pela baixa exportação do café nacional. Uma crise que gerou seus desdobramentos em consequência de outros conflitos nacionais, como a Revolução de 1930 e a Revolução Constitucionalista de 1932, assinalando um período de queda constante na aprovação de projetos.
    • 35
      Ver: Lima (2020), onde consta a listagem e compilação de dados dos requerimentos de aprovação de planta para a abertura de ruas, arruamentos e divisão em lotes, na CMRP entre 1922-1931 com dados do Inventário Geral, APHRP. Nº Registro 721, Caixa 33. Fundo Pedro Miranda.
    • 36
      Para tornar mais evidente essa cronologia construtiva e as relações espaciais entre projeção cartográfica e implementação real, a cartografia seriada foi transformada em animação; o vídeo produzido pela aluna Talita Ignacio Cuevas Lopes foi apresentado no 32º Simpósio Internacional de Iniciação Científica e Tecnológica da USP (SIICUSP) e encontra-se acessível por meio do QR-Code, constituindo instrumento visual complementar para a análise dos vetores de expansão e das materialidades urbanas reconstruídas.
    • 37
      Assinalamos que a construção da base de dados, bem como a análise das edificações existentes foram realizadas pela referida pesquisa de pós-doutorado, em vistas in loco, na produção de relatório fotográfico e em alguns casos com o apoio do Google Street View, onde foram analisados o lote a lote, ou seja, um trabalho de levantamento na escala do bairro onde se avaliou cada um dos 1.161 lotes individualmente.
    • 38
      O recorte espacial elencou o quadrilátero entre 16 ruas, sendo elas: Augusto Severo, Padre Feijó, Castro Alves, Gonçalves Dias, Rodrigues Alves, Conselheiro Dantes, Conselheiro Saraiva, Cel. Luiz da Cunha, Martinico Prado, Santos Dumont, Dr. Loiola, Bartolomeu de Gusmão, Alvares de Azevedo, Aurora, Barão de Cotegipe e Epitácio Pessoa.
    • 39
    • 40
    • 41
      Apontamos, mais uma vez, que o levantamento lote a lote, foi realizado com base em pesquisa in loco, produção de relatório fotográfico e ainda em alguns casos, apoio do Google Street View.
    • 42
      Apontamos que o relatório fotográfico foi realizado pela autora durante pesquisa de pós-doutorado no período entre junho de 2024 e fevereiro de 2025.
    • 43
      O fomento CAU-PAT é um edital público do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo destinado a financiar projetos culturais, técnicos ou de interesse público relacionados à arquitetura, urbanismo e patrimônio.
    • 44
      A elaboração dos mapas contou com a participação da Profa. Dra. Beatriz Piccolotto Siqueira Bueno (FAUUSP), responsável pela coordenação geral, das pós-doutorandas Arq. Urb. Maria Rita Amoroso (Pós-doc FAUUSP) e Arq. Urb. Ana Carolina Gleria (Pós-doc FAUUSP), além da equipe de pesquisadores formada por Leticia Falasqui Tachinardi Rocha (Doutoranda FAUUSP), Ana Luisa Natrielli (Graduanda FAUUSP), João Lucas d’Ornellas (Graduando FAUUSP), Leticia Falasqui (Doutoranda FAUUSP), Nicolas Sarracino (Graduando FAUUSP) e Talita Lopes (Graduanda FAUUSP).
    • 45
      Na cidade de São Paulo, destacamos como referência a elaboração do manual de conservação para proprietários, em pareceria com a Sp Urbanismo. Cf. Monteiro et al. (2021).
    • 46
      Para que a metodologia do lote a lote seja contemplada em uma escala da cidade, propõe-se o envolvimento para além dos órgãos municipais, por exemplo por meio de alunos de graduação do curso de arquitetura e urbanismo das universidades da cidade de Ribeirão Preto, em projetos extensionistas.
    • Editores responsáveis:
      Maria Aparecida de Menezes Borrego e David Ribeiro.

    Datas de Publicação

    • Publicação nesta coleção
      03 Ago 2026
    • Data do Fascículo
      2026

    Histórico

    • Recebido
      26 Set 2025
    • Aceito
      07 Jan 2026
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    Museu Paulista, Universidade de São Paulo Rua Brigadeiro Jordão, 149 - Ipiranga, CEP 04210-000, São Paulo - SP/Brasil, Tel.: (55 11) 2065-6641 - São Paulo - SP - Brazil
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