Open-access Poesia e suas aberturas: entrevista com o poeta Marcelo Ariel

Poetry and its Openings: Interview with the Poet Marcelo Ariel

Marcelo Ariel (São Paulo, 1968), pseudônimo de Marcelo Rodrigues dos Santos, é poeta negro, ensaísta, músico, dramaturgo, ator, roteirista e performer. Estreou na literatura com Me enterrem com a minha AR 15 (2007). Desde então, publicou: Tratado dos anjos afogados e O céu no fundo do mar (em 2008); Conversas com Emily Dickinson (2010); Samba Coltrane (2011); A morte de Herberto Helder e A segunda morte de Herberto Helder, ambos em (2012); Teatrofantasma ou o Doutor imponderável contra o onirismo groove (2013); Retornaremos das cinzas para sonhar com o silêncio, Diário ontológico I, Diário ontológico II e O rei das vozes enterradas, todos em 2014; Gilberto Mendes - encontros (2015); Com o daimon a contrafluxo (2016); La tendresse é uma ilusão ou Bela Tarr caminha (2017), em parceria com Fabrício Lopes; Jaha Ñade Ñañobovya (2018); Ou o silêncio contínuo - Poesia reunida, 2007-2019 (2019); Nascer é um incêndio ao contrário (2020); Subir pelo inferno, descer pelo céu (2021); As Três Marias no Túmulo de Jan van Eyck (2022); 22 Clareiras e 1 abismo - poema-ensaio (2022) e, no mesmo ano, Arcano 13 (2022), com Guilherme Gontijo Flores; Á água veio do Sol, disse o Breu (2024) e Afastar-se para perto (2024).

Ariel integrou também diversas antologias de poesia, tais como: Mehr alls bucher (Berlim, 2010), Poesia para el fim del mundo (México, 2013) e Poètes du Brésil aujourd’hui, préparé par Ines Oseki-Dépré (Paris, 2011). Em outros gêneros, Marcelo Ariel publicou Para sempre (2014); A névoa dentro da nuvem - Prosa Reunida - 2012-2016; A criação do mundo segundo o esquecimento (2015); A rainha do fogo invisível (2017); Cinema: pássaro transparente; Discografia: spoken word - Scherzo rajada o nazismo psíquico (2012); Escudos - Cinco raps e um samba escritos com Cruz e Sousa seguido de A vida de Clarice Lispector (2023).

Não obstante a crítica acadêmica mostrar-se cada vez mais atenta à obra constelar de Marcelo Ariel, a entrevista literária recobre-se de pertinência paratextual, endereçada a fornecer subsídios de pesquisa, uma vez que procura convergir aspectos poéticos, textuais e biográficos (Rueda-Acedo, s. d.) a uma abordagem ancorada na necessária relação entre literatura e sociedade (Candido, 2011), dado que “o meio social extra-artístico, ao influenciá-la [a poesia], encontra nela uma imediata resposta interior” (Volochinov, 2019, p. 113). Nesse sentido, registrar a voz do poeta coaduna-se com seu intento de flagrar a naturalização que o apagamento da literatura negro-brasileira sofreu ao longo do tempo. Ariel apresenta uma galeria de eus líricos, entre outsiders, marginais e excluídos, entre outras maiorias minorizadas, em que “as dimensões de afrobrasilidade e o enlace com a poesia de combate revelam [...] a ignição transformadora” (Vasconcelos, 2016, p. 146).

Para interpretar os modos de representação dessa violência “encarnada na linguagem e suas formas”, como aponta Žižek (2014, p. 10), e seu revide em forma de contestação e resistência, parece rentável conhecer algumas concepções gerais de poesia encampadas por Ariel, que, em entrevista, revela:

[...] escrever um livro de poemas para mim é o equivalente de acordar e levantar, são todos atos de insurreição, um negro existir no Brasil como um pensador e um poeta é um ato de insurreição, sou movido por pulsões insurrecionais que me levam a habitar poeticamente uma espécie de senzala metafísica, [...] imagino que algo semelhante deve ter ocorrido com Cruz e Souza, com Itamar Assumpção, com William Blake, com Emily Dickinson que considero meus Daimons. [...] Para mim esta busca por este ABERTO dentro da linguagem é um processo mais próximo do caminho do místico do que da vida de um intelectual que escreve livros (Ariel, 2018 ).

Em Ariel, a concepção de poesia deixa entrever um élan entre a subjetividade lírica, metaforizada na imagem do daimon - título, aliás, de um de seus livros - e o diálogo com o legado da poesia moderna, evidenciado, entre outros aspectos, por recursos como intertextualidade, citação, “gênio não original” (Perloff, 2013), que agenciam uma abertura para a dimensão histórica e pessoal do poeta, sua consciência poética e sua postura de resistência, como se vê no excerto do longo poema “Como ser um negro”:

Começamos no presente atemporal eu, o negro e o mundo
que é uma mentira porque a própria eternidade finge
morrer em nós

como é que algo pode realmente existir se a eternidade não
teve começo nem fim aviso aos navegantes não irei
usar aqui nenhum acento, a ortografia é o poder dominante,
irei usar apenas virgulas e traços aleatórios como o dia
e a noite, como estes sonhos, os verdadeiros dias e noites
são como sonhos, sem fronteiras e fora do tempo,
nunca aconteceram
[...] (Ariel, 2016, p. 41).

Poeta na plenitude de seu estilo, Ariel nos apresenta uma subjetividade lírica capaz de desvelar o quanto de absurdo há na existência dita real, e de quanto necessita o sujeito para sair dela para a dimensão da poesia, tomada como um “veio discursivo impulsionado pelo sentido de montagem e biorraconto de alta voltagem especulativa da linguagem [...]” (Vasconcelos, 2016, p. 150). Tomada em seu conjunto, sua obra indicia um jogo de forças duplas que buscam uma projeção emancipatória do sujeito, ao mesmo tempo que reverberam um desejo de sublimação da matéria da experiência, concomitantemente individual e coletiva:

A matéria poética de Ariel é composta por vários temas, mas há um destaque para a abordagem de acontecimentos e situações que são facilmente classificáveis como exemplos de barbárie, e não apenas no contexto brasileiro, mas em outros cenários históricos e culturais. É interessante olhar mais de perto para as maneiras através das quais Ariel ressignifica essa barbárie no tempo presente e apresenta junto a isso uma reflexão quanto a esse objeto em suas diferentes - ou semelhantes - modulações [...] (Medeiros, 2019, p. 13).

Nessa perspectiva, são flagrantes algumas linhas de força perseguidas por Ariel: a violência urbana, o racismo estrutural, a exclusão social, a função ética da poesia, a manipulação da linguagem, a autorreflexividade explicitada em algumas estratégias de metalinguagem e materializada em diferentes operações, o caleidoscópio dialógico que estabelece com a tradição poética ocidental, a índole filosófica e algumas marcas culturais da ancestralidade negra, entre outras. Esse conjunto apresenta-se como premissas de uma poesia insurgentemente reflexiva, vazada em grande variedade formal, a partir das quais problematiza o gesto literário encenado por uma maioria minorizada que precisa negociar o estreito espaço de circulação entre grupos dominantes, num cenário histórico de silenciamento da diferença e da alteridade. Dessa forma, a lírica de Ariel se insurge como signo de resistência que, a exemplo de outros escritores e escritoras negros , “se organiza de forma política, como um meio de afirmação de uma identidade étnica e de combate ao racismo” (Schwantes, 2011, p. 169). Uma poesia a contrapelo, ao buscar seus próprios recursos formais e reclamar a necessidade de esgarçamento de paradigmas estético-ideológicos.

A lírica arieliana resiste como forma de intervenção efetiva na cultura e suas linhagens pré-estabelecidas pelo cânone literário e especialmente o poético. Tais liames da lírica de Ariel se coadunam à ideia de mescla entre resistência, poesia e historicidade acionada pela memória - distante ou próxima (Pedrosa, 2000, p. 18) -, expressa como tema e processo inerente à escrita (Bosi, 1996, p. 13). Poesia de

[...] enfrentamento diante da barbárie, do vazio, da morte, ao mesmo tempo que se estabelece como espaço no qual o poeta pode comentar, livremente, as fontes que compuseram e compõem continuamente seu percurso como leitor (Medeiros, 2019, p. 5).

Nesta entrevista, o poeta aborda questões fundamentais relacionadas ao gesto poético, refletindo sobre a função do poeta na sociedade contemporânea e a natureza da linguagem poética. Suas considerações exploram as conexões intrincadas entre criação literária e identidade, negritude e dinâmicas do campo literário, incluindo o estatuto da poesia e o mercado editorial, além das possíveis interseções entre o gênero poético e ensino.

***

Sandro Adriano da Silva (SAS) e Sandra Stroparo (SS): Que matiz de sua poesia você considera que ainda não foi interrogada?

Marcelo Ariel: Não sei se compreendi bem a pergunta - você se refere a matiz no sentido de “nuance”, que nos dicionários aparece como “diferença sutil entre coisas, mais ou menos similares, postas em contraste; matiz, sutileza”. A pergunta pode ser compreendida como “que diferença sutil ainda não foi ressaltada nos raros e parcos estudos sobre sua poética?’. Poderíamos identificar esse termo como parte de uma invisibilidade recorrente dentro dos sistemas de opaciamento da cultura brasileira em seus traços hegemônicos que ressaltam prioritariamente uma classe e uma cor de pele? Sim e não. Creio que há uma exagerada ênfase em recortes sociológicos, e isso impede a visão em profundidade do pensamento do poema, que é não apenas uma máquina de ser, mas também uma máquina de pensar. No poema, sem nenhum tipo de mistificação, se manifesta a inteligência natural em oposição aos diversos sensos comuns, desde que o poeta seja capaz de transcender os recortes tanto biográficos quanto sociológicos e pensar em consonância com estados de expansão similares à linguagem, pensar a partir dos “curtos-circuitos da linguagem”.

SAS/SS: Sua poesia é amalgamada de uma constelação polifônica, que advém de diferentes buscas dialógicas, mormente de um sopro filosófico - em alguns momentos você designa isso de “abertura”. Poderia comentar?

Marcelo Ariel: Rilke chamava de “o aberto” todos os campos do pensamento sensível. É nesse sentido que uso o mesmo conceito. Não apenas todos os movimentos do corpo são “celestes” como são essencialmente dialógicos, ou seja, “coreográficos”. O animal esboçado pela consciência corporal fala uma língua que necessita ser traduzida de modo internamente dialógico como reflexo de tudo o que é externamente dialógico, estes reflexos dentro do uso poético da língua é que chamo de “abertura”, e está em consonância com o que diz Rilke quando se refere ao “aberto”.

SAS/ SS: Em alguns momentos, você prefere não rotular a sua poesia de poesia negra, conquanto ela esteja além de uma etiqueta poético-discursiva. Com efeito, tomada em seu conjunto, especialmente em obras como Com o daimon no contrafluxo, emerge de sua poesia toda uma afrobrasilidade. Como você baliza esses limites, se os há? Como é ser o negro ou a matéria escura (para lembrar o título de um de seus poemas)?

Marcelo Ariel: O poeta pode se referir a si mesmo dentro de um recorte sociológico, biográfico - e isso será sempre um ponto de partida e não de chegada, a identidade é um vírus nocivo se elevada à categoria de “ponto fixo do ser”. No poema referido tensiono visando uma expansão, não apenas um, mas diversos aspectos do que é comumente chamado de “afrobrasilidade”, sabemos, e isso é mais do que óbvio que é apenas a partir desse conceito que irá se instaurar coletivamente essa expansão outra, nunca vista da dignidade do viver no sentido coletivo e comunitário que podemos chamar de “A HIPERINCLUSÃO”. Sobre isso, há anos escrevo um ensaio de fôlego que um dia virá a público. Quando no poema uso o termo “matéria escura”, me refiro não apenas a uma metaforização, mas a um novo conceito que vê a condição como “cosmogônica” dentro de uma cosmicidade dos seres que partem da identidade negra para a expansão até o ser atemporal do mundo, mediados pelo conceito de seu, e não apenas pela partícula biográfica ou sociológica. Estude-se o conceito de ESU dentro da ontologia não radical, e será mais fácil compreender o que pensa este poema chamado COMO SER O NEGRO OU A MATÉRIA ESCURA. O “OU” ali é usado dentro de um conceito kiergegaardiano onde o EU é substituído por OU. Respondendo sua pergunta, levando-se em conta a superfície dela: Não evoco o si mesmo a partir de uma categoria, seja ela qual for. Recortes são feitos em compilações, antologias, projetos socio políticos e estudos que levam em conta as limitações ontolinguísticas de uma época e demais burocracias de toda ordem, são necessários dentro desse contexto apenas. Os termos coloniais derivam, como todos sabem, de recortes categóricos hierárquicos que tornam a subalternidade central dentro da noção de sociedade e a insurreição reivindicada fortemente em meu trabalho exige a desconstrução e até a destruição desse conceito sistêmico.

SAS/SS: Sua poesia é um daqueles casos - talvez raros no cenário atual da poesia brasileira - de poesia que não faz concessões em relação à linguagem. A poesia ainda reivindica uma linguagem inventiva, no sentido de Ezra Pound ou Eliot?

Marcelo Ariel: A invenção a partir de improvisações, experimentações diversas e intuições nítidas de outros modos de viver a vida é urgente. A poesia, quando às vezes se harmoniza com esta necessidade- li em algum lugar, não me lembro onde - nos torna “dinossauros na contramão” .

SAS/SS: A figuração dos anjos é uma constante em sua obra. A poesia é uma forma de “anjo da história”?

Marcelo Ariel: De modo algum, não sei o que é a poesia, sei apenas como ela se manifesta, na maioria das vezes como um “curto-circuito” na língua e na linguagem. Há muita mistificação, e é preciso combater as mistificações, mais da metade da linguagem humana é mistificação ou a criação de um absurdo campo de projeções que sufoca a apreensão do mundo humano e não humano, e aqui não os destaco como separados, apesar desse “e” que pode ser visto como a famosa ponte nietzschiana, em todas as formas existe o mundo para além das projeções.

SAS/SS: Seu último livro, 22 clareiras e 1 abismo, trata da metáfora do pensamento selvagem e a proposta de uma escrita selvagem, na busca de uma “visão cosmopolítica”, como você afirma. Comente um pouco esse princípio arquetípico que subjaz ao poema-ensaio.

Marcelo Ariel: Essa é uma tarefa para as pessoas que são pesquisadores da linguagem, poetas da filosofia possuem a mesma função das esfinges mitológicas. Mais uma vez trata-se de um tensionamento e não de uma fusão. Estabelece-se uma espécie de trincheira dialógica (Farei uma pausa para beber água e caminhar um pouco e já volto). O pensamento selvagem é um conceito, e não um deslocamento, e uma escrita selvagem seria, antes de tudo, insurrecional em relação não ao acadêmico, que em suas origens gregas é também selvagem, e isso foi sendo corrompido, deslocado, mas precisamos mais da academia dos que de certas instituições político-econômicas que a desvirtuam de suas fontes, digamos, mais orais. O 22 clareiras e 1 abismo é fruto de notas para um curso interdisciplinar e livre realizado em um projeto de universidade pública no Teatro Oficina em São Paulo que infelizmente não vingou, mas está de pé como mais um devir revolucionário daquele espaço e de todos os espaços públicos e semipúblicos. Gosto muito do termo usado por você na questão: “arquetípico”, é possível que o pensamento selvagem seja arquetípico.

SAS/SS: Sua poesia ecoa uma conversa infinita, no sentido deBlanchot (2011), com outros poetas. E você mesmo reconhece, em algumas entrevistas e/ou em postagens nas mídias sociais, uma certa relação de tributo. Poderia comentar?

Marcelo Ariel: De tributo não, de continuidade.

SAS/SS: Em sua poesia, é explícito um trabalho com a linguagem, que se revela pela variedade poético-formal. Ao mesmo tempo, ela é convulsiva, lembra um pouco Artaud. Como é o seu processo de criação?

Marcelo Ariel: Qualquer resposta seria pretensiosa e reducionista, como falar sobre um sonho que tivemos na infância que respira em algum lugar entre a memória dissolvida e o ultracorpo. Contudo escrevi um ensaio sobre poética que está no prelo pela Editora Reformatório em um livro inclassificável chamado AFASTAR-SE PARA PERTO. Ficção-vida que deve sair até final deste ano, que aborda com mais nitidez todos os aspectos do que apelidamos de “minha poética”.

SAS/SS: Como você avalia o circuito do mercado editorial brasileiro para o gênero poesia e a crítica acadêmica?

Marcelo Ariel: Uma autocrítica é imensamente mais importante... Tanto o mercado editorial quanto a crítica acadêmica, que é onde a crítica sobrevive nos dias de hoje, necessitam de uma grande autocrítica. Como atuo em uma faixa denominada marginal, no sentido de “ às margens” ou de “fora dos centros”, a minha própria existência e livros são parte de uma crítica profunda aos sistemas de seleção e promoção dos saberes, vistos cada vez mais como parte do setor de festas e serviços, e digo isso sem nenhum ressentimento, porque acho bom esse deslocamento... O campo psicanalítico é mais interessante do que o campo espetacular. Caso um livro meu fosse deslocado por fatores que desconheço à condição de “best- seller”, me perguntaria o que fiz de errado... Em todo caso, uma sociedade que é contra o social não poderá de modo algum ser a favor dos poetas da diferença não radical.

SAS/SS: Além de outros livros escritos a quatro mãos, você publicou o Arcano 13, em parceria com Guilherme Gontijo Flores. Foi intencional a supressão da autoria nos poemas, ainda que não seja impossível reconhecer e distinguir a assinatura poética de vocês dois...?

Marcelo Ariel: Escrevi alguns poemas em parceria... O Ou A renga é uma forma poética que permite o uso dialógico do verso. Quem é o autor de um diálogo? Nos de Platão, somos apresentados a Sócrates, talvez uma forma necessária de poesia seja a poesia dialógica, onde a alteridade se apresenta como aquilo que é: um aspecto convergente do ser.

SAS/SS: Como você analisa o papel/lugar (não lugar) da poesia na educação/ensino de literatura? “Ensina-se” poesia?

Marcelo Ariel: Sim, no sentido da transmissão de experiências relacionadas aos processos de construção de um poema e também no sentido de “dar a conhecer” o poema e modos diversos de leitura do poema, ironicamente foi Heidegger quem chamou atenção para os aspectos violentos do termo educação, que em suas raízes etimológicas significa “arrancar de dentro”; se pensarmos na poética, esse “arrancar de dentro” ganha aspectos significativamente positivos para o chamado ensino da poética. Existem esforços de vários poetas para estabelecer uma certa pedagogia do poema, de Thomas Elliot até Ezra Pound, a meu ver as escolas de ensino médio e fundamental deveriam incluir a poética dentro do ensino da ética (risos). Tenho realizado desde 2013 experiências bem-sucedidas de ensino de poéticas comparadas, digamos assim, através de várias oficinas presenciais e não presenciais. Quais são as limitações cultivadas no sistema educacional cultural que engendram esse não lugar mencionado por você? Se observarmos que as religiões profundamente inseridas dentro do imaginário estrutural de praticamente todas as sociedades se baseiam em poemas, o EVANGELHOS, OS SALMOS, O MAHABHARATTA, O ALCORÃO e outros livros que são essencialmente escritos em formas poéticas, apenas esse simples fato serviria para refutar o não lugar criado para a poesia na sociedade de consumo, e é notório que vivemos em um regime totalitário do consumo chamado neoliberalismo, que jamais irá aceitar o pensamento elaborado em poemas como O SERMÃO DA MONTANHA ou nas obras de RIMBAUD, BRETON, ARTAUD, KOPENAWA ou WALT WHITMAN. O ensino de poesia é possível como parte do ensino da ética, até chegarmos a uma espécie de síntese entre a ética política e a ética poética.

Referências

  • ARIEL, Marcelo. 22 clareiras e 1 abismo Taubaté, SP: Letra Selvagem, 2022.
  • ARIEL, Marcelo. Ou o silêncio contínuo Curitiba: Kotter Editorial, 2019.
  • ARIEL, Marcelo. Como ser um negro. In: ARIEL, Marcelo. Com o daimon no contrafluxo São Paulo: Patuá, 2016.
  • BLANCHOT, Maurice. A conversa infinita Trad. Aurélio Guerra Neto. São Paulo: Escuta, 2011.
  • BOSI, Alfredo. Narrativa e resistência. Itinerários, Araraquara, n. 10, p. 11-27, 1996.
  • CANDIDO, Antônio. O direito à literatura. In: CANDIDO, Antônio. Vários escritos Rio de Janeiro: Ouro Sobre Azul, 2011, p. 171-194.
  • MEDEIROS, Diamila. Prefácio. In: ARIEL, Marcelo. Ou o silêncio contínuo Curitiba: Kotter Editorial , 2019.
  • PEDROSA, Celia. Considerações anacrônicas: lirismo, subjetividade, resistência . In: CAMARGO, Maria Lúcia de Barros; PEDROSA, Celia. (orgs.). Poesia e contemporaneidade: leituras do presente. Chapecó: Argos, 2001. p. 7-23.
  • PERLOFF, Majorie. Gênio não original: poesia por outros meios no novo século. Trad. Adriano Scandolara. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2013.
  • RUEDA-ACEDO, Alicia. De la mirada al texto: la entrevista literária de Elena Poniatowska. Rua: Repositorio Institucional de la Universidad de Alicante Disponível in: https://rua.ua.es/dspace/handle/10045/10588 Acesso em: 3 mai. 2025.
    » https://rua.ua.es/dspace/handle/10045/10588
  • SCHWANTES, Cíntia. A literatura negra no Brasil. In: DALCATAGNÈ, Regina; THOMAZ, Paulo. (orgs.). Pelas margens: representação na narrativa brasileira. Vinhedo: Editora Horizonte, 2011, p. 168-177.
  • VASCONCELOS, Maurício Salles. Ariel/vida toda poesia. In: ARIEL, Marcelo. Com o daimon no contrafluxo São Paulo: Patuá, 2016. p. 144-150.
  • VOLOCHINOV, Valentin. A palavra na vida e a palavra na poesia: ensaios, artigos, resenhas e poemas. Trad. Sheila Grillo; Ekaterina Vólkova Américo. 1. ed. São Paulo: Editor 34, 2019.
  • ŽIŽEK, Slavoj. Violência: seis reflexões laterais. Trad. Miguel Serras Pereira.1. ed. São Paulo: editora, 2014.
  • Declaração de Disponibilidade de Dados:
    Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Editado por

  • Declaração dos Editores:
    Ana Maria Lisboa de Mello, Elena Cristina Palmero González, Rafael Gutiérrez Giraldo e Rodrigo Labriola, aprovamos a versão final deste texto para sua publicação.

Disponibilidade de dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo foi publicado no próprio artigo.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Jul 2025
  • Data do Fascículo
    May-Aug 2025

Histórico

  • Recebido
    12 Jun 2024
  • Aceito
    30 Mar 2025
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