RESUMO
O objetivo deste trabalho foi identificar as espécies de carrapatos coletadas de animais silvestres na região de Foz do Iguaçu no Brasil e Argentina. Relata-se a presença de Amblyomma ovale em Panthera onca, Felis parda/is e Galictis cuja no Brasil; A ovale em Felis parda/is na Argentina; A. tigrinum e Boophilus microplus em Blastocerus dichotomus. Estes dados caracterizam a primeira citação de A ovale em Felis parda/is, de A. ovale em Galictis cuja em cativeiro; da associação de A. cooperi, A. triste e A. cajennense em Hydrochoerus hydrochaeris, bem como a primeira notificação da ocorrência de A. triste no Estado do Paraná.
PALAVRAS-CHAVE:
Ixodidae; Amblyomma spp; Felidae; Mustelidae; Cervidae; Hydrochoeridae.
ABSTRACT
The aim ofthis work was to identify the ixodid ticks occuring in wild animals in the region of Foz do Iguaçu, in Brazil and Argentina. The presence of Amblyomma ovale was confirmed in Panthera onca, Felis parda/is and Galictis cuja in Brazil; A. ovale in F. parda/is from Argentina; A. cooperi, A. triste and A. cajennense in Hydrochoerus hydrochaeris; A. tigrinum and Boophilus microplus in Blastocerus dichotomus. These data are the first report of A. ovale in F. parda/is; of A. ovale in captive G. cuja; of the association of A. cooperi, A. triste and A. cajennense in H. hydrochaeris and the first record of A. triste in Paraná state, Brazil.
KEY WORDS:
Ixodidae; Amblyomma spp; Felidae; Mustelidae; Cervidae; Hydrochoeridae,
INTRODUÇÃO
Os carrapatos do gênero Amblyomma são cosmopolitas, tendo sido descritas cerca de cem espécies parasitando mamíferos, aves, répteis e anfíbios, tanto domésticos quanto silvestres. No Brasil ocorrem cerca de 33 espécies e na Argentina 21, dentre estas, muitas são comuns aos dois países sendo, por vezes, encontradas nos mesmos hospedeiros.
ARAGÃO (1936) informou que o A. ovale (=A. fossum) é um carrapato comum de animais silvestres e que, com o tempo, adaptou-se ao cão, tendo sido encontrado em onça (Panthera onca), gato do mato (Felis spp), lobo (Chrysocyon brachyurus), tamanduá bandeira (Myrmecophaga tridactyla), tamanduá mirim (Tamandua tetradactyla), irara (Eira barbara), e veado (Mazama spp). O autor referiu ainda para o Brasil, A. cajennense e Boophilus microplus em onça pintada; Ixodes fuscipes em jaguatirica (Felis sp.), bem como A auriculare em furão (Galictis sp.) na Argentina.
KOHLS (1956) citou A. tigrinum sobre Pseudolapex sp. (cachorro do mato), cachorro doméstico e Chrysocyon sp. (lobo guará). O autor citou ainda A triste sobre vegetação no noroeste do Mato Grosso, sobre Tapirus sp. (anta) em localidade desconhecida e, no Estado do Pará sobre hospedeiro não identificado, afirmando serem estes os únicos registros, até então conhecidos para esta espécie.
ARAGÃO & FONSECA (1961) citaram a presença de A ovale em anta (Tapirus terrestris), porco-do-mato, (Tayassu sp.), puma (Felis concolor) onça pintada e cão, assim como A. cajennense sobre anta, cavalo e homem; os autores afirmaram ainda que a área de distribuição do A. triste era o noroeste do Mato Grosso e a bacia do Rio Curuimá no Estado do Pará.
MACHADO et al. (1985) realizando estudos com carrapatos dos bovinos (B. microplus) encontraram em capivara (Hydrochoerus hydrochaeris) no município de Aquidauana, no Estado do Mato Grosso do Sul o parasitismo simultâneo pelos carrapatos A parvum e B. microplus, tendo sido este último coletado também em veados campeiros (Ozotocerus bezoarticus) provenientes de Orlandia, São Paulo e de Aquidauana, Mato Grosso do Sul.
BARROS & BAGGIO (1992) relataram, no Paraná, a ocorrência de A ovale e A aureolatum em furão (Galictis cuja), A. ovale em coati (Nasua nasua), em lontra (Lutra longicaudis), em gato mourisco (Felis yagouoaroundi) e em macaco prego (Cebus apella) e de A tigrinum em cachorrodo-mato (Dusycion gyimnocercus).
A coleta· de Haemaphysalis kohlsi em Mazama gouazoubira em Piedade, Estado de São Paulo (SERRA FREIRE & TEIXIERA, 1995). bem como a associação de A. mantiquirense e B. microplus em veado campeiro (Ozotocerus bezoarticus) no Mato Grosso do Sul foi informada por SERRA FREIRE et al. (1995a), Na região do pantanal matogrossense foi citada a ocorrência de A. tigrinum associado ao B. microplus em cervos do pantanal (H[ásiõcerus dichotomus) por SERRA FREIRE et al. (1995b); os autores informaram ser esta a primeira coleta de A tigrinum sobre este hospedeiro.
LEMOS et al. (1996) em um estudo epidemiológico sobre a febre maculosa em animais silvestres no Município de Pedreira, Estado de São Paulo, informam a coleta de A. cooperi e A. cajennense sobre capivaras, A. cajennense e A. triste sobre gambá (Didelphis marsupialis) e A. cajennense sobre ratão do banhado (Myocastor coypus).
SINKOCet al. (1997), coletando Ixodidae em capivaras atropeladas na Estação Ecológica do Taim, Municipio de Rio Grande, RS, encontraram as espécies A cooperi, A. triste, A. tigrinum e ninfas de Amblyomma. Em virtude da frequência parasitária e de coleta de cada uma das espécies, consideraram o parasitismo de A. tigrinum como acidental na capivara, assim com.o uma possível adaptação do A triste a este roedor como hospedeiro.
Este trabalho teve por objetivo identificar os ixodídeos parasitas de animais silvestres na região de Foz do Iguaçu, no Brasil e Argentina.
MATERIAL E MÉTODOS
Durante o segundo semestre de 1993 e em período anterior foram coletados Ixodideos em animais silvestres ria região de Foz do Iguaçu, no Estado do Paraná e Argentina, nos Parques Nacionais do Iguaçu brasileiro (PNI-Br) e argentino (PNI-Arg), e no Criadouro de Animais Silvestres da ltaipu Binacional (CASIB). Os carrapatos foram retirados dos hospedeiros por torção em seu eixo longitudinal, fixados e conservados em álcool ou formol. No Departamento de Microbiologia e Parasitologia do Instituto de Biologia da Universidade Federal de Pelotas, os carrapatos foram examinados em lupa estereoscópica de mesa, e identificados de acordo com a chaves propostas por ARAGÃO & FONSECA (1961), JONES et al. (1972) e GUGLIELMONE & VINABAL (1994).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram examinados 120 espécimes de carrapatos, sendo 50 machos, 59 fêmeas e 11 ninfas pertencentes a cinco espécies, a saber: Amblyomma ovale KOCH, 1844 em Panthera onca Felis pardalis (Carnivora: Felidae) e Galictis cuja (Carnívora: Mustelidae), Amblyomma cooperi NUTALL & WARBURTON, 1908, Amblyomma triste KOCH, 1844 e Amblyomma cajennense (FABRICIUS, 1787) em Hydrochoerus hydrochaeris (Rodentia: Hydrochoeridae); Amblyomma tigrinum KOCH, 1844 e Boophilus microplus (CANESTRINI, 1887) em Blastocerus dichotomus (Artiodactyla: Cervidae), bem como ninfas de Amblyomma em P anca e H. hydrochaeris (Tabela 1).
Em carnívoros, foram identificados um total de 41 carrapatos, sendo 19 machos e 14 fêmeas de Amblyomma ovale e, 8 ninfas de Amblyomma, os quais foram coletados sobre onça pintada no Parque Nacional do Iguaçu Brasileiro; em jaguatirica nos Parques Nacionais do Iguaçu Brasileiro e Argentino e, em furão no Criadouro de Animais Silvestres da Itaipu Binacional.
A ocorrência de A. ovale tem sido descrita anteriormente em carnívoros no Brasil (ARAGÃO, 1936; ARAGÃO & FONSECA, 1961); esta espécie foi descrita no litoral do Paraná parasitando furão, lontra, e gato mourisco e, em macaco prego e coati em liberdade no Refúgio Bela Vista, em Foz do Iguaçu. A ocorrência desta espécie em jaguatirica caracteriza este carnívoro como um novo hospedeiro, uma vez que este felídeo tem sido encontrado parasitado por Ixodes fuscipes (ARAGÃO, 1936) no Brasil e por Amblyomma sp. e Ixodes lasallei na Venezuela (JONES et al., 1972). Em furão, o A. ovale foi relatado anteriormente (BARROS & BAGGIO, 1992), porém este parece ser o primeiro relato do parasitismo em animais mantidos em cativeiro.
Em capivaras provenientes do CASIB, foram identificados 71 espécimes de carrapatos, sendo quatro ninfas de Amblyomma, 43 espécimes de A. cooperi, 21 espécimes de A. cajennense e 3 espécimes de A. triste; em um lote proveniente do Criadouro foi encontrado um parasitismo monoespecífico por A. cooperi; um lote proveniente de um animal encontrado morto às margens do lago de ltaipu, no Refúgio Bela Vista, apresentou parasitismo associado de ninfas de Amblyomma e A. cooperi e outro lote proveniente do Criadouro apresentou uma associação das espécies A. cooperi, A. cajennense e A. triste.
No Brasil o parasitismo de capivaras por A. cooperi já foi relatado anteriormente (ARAGÃO, 1936, SCHULZE, 1941, CORRÊA, 1954; FREIRE, 1972; GONZALES & OLIVEIRA, 1994; SINKOC et al., 1997). O A. triste, relatado anteriormente parasitando anta (KOHLS, 1956), cachorro doméstico (CORRÊA, 1954; FREIRE, 1967/68) e gambá (LEMOS et al. 1996) já foi relatado parasitando a capivara no Rio Grande do Sul (SINKOC et al., 1997).
Em cervo do pantanal, foi examinado um lote de carrapatos que apresentava uma associação entre Boophilus microplus e Amblyomma tigrinum; destas espécies foram encontradas uma teleógina de B. microplus e duas de A. tigrinum totalmente ingurgitadas. Embora o parasitismo de cervídeos por espécies do gênero Amblyomma seja comum, a associação deste gênero ao carrapato dos bovinos tem sido pouco citada (MACHADO et al., 1985; SERRA-FREIRE et al., 1995a, 1995b). Em Blastocerus dichotomus a associação entre A. tigrinum e B. microplus foi relatada recentemente (SERRAFREIRE et al.,1995b); o fato de terem sido encontradas teleóginas de A tigrinum ingurgitadas neste cervídeo, traz a possibilidade da adaptação desta espécie de Amblyomma, típica de carnívoros, ao cervo do pantanal, uma vez que esta não é a primeira citação deste parasitismo.
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