Open-access PRIMEIRO REGISTRO E DESCRIÇÃO MORFOLÓGICA DE STEPHANITIS PYRIOIDES (SCOTT, 1874) (HETEROPTERA: TINGIDAE) EM AZALEA, NO BRASIL

FIRST REPORT AND MORPHOLOGICAL DESCRIPTION OFSTEPHANITIS PYRIOIDES (SCOTT, 1874) (HETEROPTERA: TINGIDAE) IN RHODODENDRON SPP. IN BRAZIL

RESUMO

O trabalho relata o primeiro registro de Stephanitis pyrioides (Scott,1874) (Heteroptera:Tingidae) no Brasil. A praga foi observada danificando plantas de azalea em parques e jardins da cidade de São Paulo. São apresentados dados comportamentais, descrição dosdanos ocasionados e caracterizaçãomorfológica de adultos e ninfas com ilustrações da genitália de macho e fêmea.

PALAVRAS-CHAVE:
Primeiro registro; Stephanitis pyrioides ; azalea

ABSTRACT

This work reports for the first time, Stephânitis pyrioides (Scott,1874) (Heteroptera:Tingidae) in Brazil. The pest was observed causing damage inRhododendron spp in parks and house yards in the city of São Paulo. Behaviour data, description of damages and morphological treats of adult and nymphs with ilustrations of male and female genitalia are presented.

KEY WORDS:
First report; Stephanitis pyrioides ; Rododendron spp

A azalea (Rhododendron indicum L.) (Ericaceae) é uma planta ornamental originária da China, muito utilizada em parques e jardins na maioria dos estados brasileiros. Trata-se de uma planta rústica, que apresenta um grande número de variedades, de folhas descíduas ou semi descíduas, com flores simples ou dobradas, de coloração variando entre o branco e as diversas tonalidades do rosa e sulferino. O florescimento ocorre desde o início do outono até o início da primavera.

Em março de 1996, no parque Ibirapuera, município de São Paulo, SP, observou-se a presença de alta população deStephanitis pyrioides( Scott,1874) (Heteroptera:Tingidae), em maciços de azalea de porte alto e floração sulferina, tratando-se do primeiro registro da ocorrência desta espécie no Brasil. Segundo BRAMAN et al.(1992) esta espécie é originária da Ásia e atualmente é considerada uma das principais pragas nos cultivos de azalea. Conforme os catálogos de DRAKE & RUHOFF (1965) e HERRY & FROESCHNER (1988) sua presençajáfoi constatadanos seguintes países: Japão, China, Coréia, Taiwan, Alemanha, Holanda, Inglaterra, Marrocos, Estados Unidos, Austrália e Argentina. No Brasil já foram observadas as seguintes espécies deStephanitis: S. farameae em São Paulo, S. mitrata no Rio de Janeiro e São Paulo, S. olyrae em Minas Gerais e São Paulo,S. aucta na Chapada eS. parana no Pará, as quais se encontram acondicionadas na Coleção Entomológica do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Por meio de observações laboratoriais do material vegetal infestado, observou-se que a postura é isolada e endofítica e os adultos e ninfas do tingídeo sugam a seiva vegetal na página inferior das folhas, onde eliminam grande quantidade de excreções aquosas escuras, manchando-as (Fig.1). A sucção contínua de seiva ocasiona uma despigmentaçãointensa na página superior das folhas, dando-lhes um aspecto clorótico característico, que se inicia de forma puntual no ápice das mesmas e vai coalescendo em direção à base (Fig. 2). Quando o ataque é severo, as folhas tendem a escurecer, secar e cair prematuramente. Em função da intensidade da infestação verifica-se .a redução da vitalidade da planta, pela diminuição da atividade fotossintética resultante da remoção da clorofila, com consequente queda de seu valor comercial.

A espécie adulta é caracterizada por sua transparência hialinae por apresentar uma faixa marrom transversa na parte anterior e uma na posterior dohemiélitro, interligadas por estreita faixa vertical, da mesma cor, que acompanhaasuamargemlatero-intema. As antenas sãolongas, de coloração amarelo-claras e revestidas de pêlos subiguais à largura de seus segmentos. O segmento I é duas vezes e meia mais longo que o II, eo III duas vezes mais longo queo IV. Cabeça negra brilhante, com ausência de espinhos cefálicos. O rostro extende-se ao metastemo, em sulco rostral aiargado e fechado no ápice. Pronoto Gastanho, tricarenado e finamente pontuado, com calos escuros. Vesícula anterior dopronoto hialina, fortemente elevada, larga, globosa anteriormente e estreitada pàra o ápice, encobrindo toda a extensão da cabeça. Olhos salientes, visíveisdorsalmente. Carena mediana elevada, hialinae foliácea, commanchaescuraemalgumascélulas desua porção apical. Carena lateral poucodesenvolvida, hialina e curta, limitando-se da parte posterior dos calos até a base triangular do pronoto. Paranota larga, hialina, formada por três fileiras de células e por diminutos espinhos em sua margem, com aparte posterior dobrada e voltada para dentro.

Abdômen glabro, com coloração variando docastanho escuro ao negro.

Pernas castanho amareladas, revestidas depêlos curtos; tarsos escuros, com o II segmento alargado para o ápice.

Hemiélitros alargados e arredondados na extremidade; área discoidal curta, ligeiramente elevada; área subcostal sinuosa, estreitando-se para o ápice; área costal extensa, com três fileiras de células desenvolvidas, hialinas e bem marcadas, próximas ao centro e à margem interna do élitro.

Oadultomachoefêmeaatinge3,9mmdecomprimento e 2mm de largura (Figs. 3,4,5,6).

Genitália do macho: Pênis do tipo genérico, com extensa porção membranosa e reduzido campo de espinhos na região próxima à abertura do gonóporo secundário, que apresenta, internamente, formação esclerosada característica (Figs. 8, 9).

Pigóforo com parâmeros simétricos, revestidos de cerdas finas, alargados em sua porção mediana e afilados para o ápice (Fig. 7).

Genitália da fêmea: gonapófise anterior ligada ao laterotergito donono segmento abdominal (Figs. 10,11).

Ninfa (1 estágio) (Fig. 13) - Coloração castanho escura; comprimento 0,9mm e largura 0,3mm; cabeça: comprimento 0,2mm e largura O,1mm; cinco espinhos cefálicos, dois frontais, um mediano, dois occipitais.

Olhos: com cinco omatídeos de forte pigmentação vermelha.

Antenas: claras, com pêlos curtos, esparsos e cerdas um pouco mais compridas no IV segmento. OI segmento é duas vezes mais comprido que o II e o III três vezes o comprimento do IV.

Tórax: Pronoto, mesonotoemetanotosub-iguais. Pronoto e mesonoto apresentam expansões espinhosas laterais.

Abdômen: Segmentos I, IV, VI e IX apresentam proeminente espinho dorsal; segmentos V ao X com presença de expansões espinhosas laterais.

Pernas: brancas, com pêlos esparsos e finos; tarsos bissegmentados, I segmento mais curto que o II, e este alargado para o ápice.

Ninfa (II estágio) (Fig. 14) - coloração geral negra, com áreas castanho claras; comprimento 1,3 mm e largura 0,5mm; cabeça: castanho clara; comprimento 0,3 mm e largura 0,2 mm; apresenta espinhos cefálicos: dois frontais, um mediano, dois occipitais pretos e com bases salientes.

Olhos: com cinco omatídeos de forte pigmentação vermelha.

Antenas: pálido amareladas com manchas negras no ápice do III e IV segmentos, pêlos esparsos; o I segmento uma vez e meia o comprimento do II, o III duas vezes o comprimento do IV.

Tórax: pronoto e mesonoto pálido amarelados, subiguais com expansões espinhosas laterais, mesonoto com dois espinhos proeminentes, metanoto negro subigual, mais estreito.

Abdômen: negro, segmentos visíveis dorsalmente, expansões espinhosas laterais revestidas de pêlos esparsos do IV ao último segmento abdominal; I, V, VII e IX urotergitos apresentam medianamente espinhos proeminentes.

Pernas: brancas, com pêlos esparsos, tarsos bissegmentados, II segmento engrossado para o ápice.

Ninfa (ill estágio) (Fig. 15)- coloração geral negra a castanho escura, com áreas brancas ou pálido-amareladas; comprimento 2,3 mm e largura 1 mm; cabeça: coloração pálido-amarelada; comprimento 0,3 mm e largura 1 mm; cinco espinhos cefálicos: doisfrontais, um mediano, dois occipitais, todos negros proeminentes e revestidos de pelos esparsos.

Olhos: coloração vermelha, com mais de cinco omatídeos.

Antenas: pálido amareladas com manchas negras no ápice do III e IV segmentos, todos revestidos de pêlos esparsos.

Tórax: pronoto expandido anteriormente, com espinhos laterais proeminentes, revestidos decerdas esparsas apresentandonabaseprocessoespinhoso bífido; mesonoto com tecas alares desenvolvidas alcançando a base do II urotergito, ambas com espinhos laterais proeminentes, revestidos de cerdas esparsas, apresenta processo espinhoso bífido proeminente revestido de pêlos esparsos na região mediana dabase; metanoto visível apenasnaregião mediana entre as duas tecas alares, apresenta espinho proeminente revestido de cerdas esparsas.

Abdômen: coloração negra; extremidades laterais e o último segmento abdominal pálido-amarelados;espinhos laterais revestidos de cerdas esparsas presentes do IV ao último segmento abdominal; espinho revestido de cerdas esparsas, na região mediana dorsal do II, V, VII e VIII segmentos; no último segmento o espinho é mais desenvolvido que os demais.

Pernas: coloração pálido amarelada, revestidas por pêlos esparsos; tarsos com pêlos curtos, II segmento alargado e escurecido para o ápice.

Ninfa (IV estágio) (Fig. 16) - coloração pálido amarelada, com áreas castanho claras a negras; comprimento 2,8 mm e largura 1,5 mm; cabeça: comprimento0,4mmelargura0,5mm;cincoespinhoscefálicos: dois frontais, um mediano e dois occipitais com manchas negras na base; todos negros e revestidos de cerdas esparsas.

Olhos: salientes e avermelhados, omatídeos bem marcados.

Antenas:, pálü:lo amareladas compêlos esparsos, manch,m grnnp ápice do IV segmentoque apresenta cerdas com àpt;ól(imadamenteduas vezesa sua largura. O I segmento uma vez e meia o comprimento do II, o III uma vez e meia o IV segmento.

Tórax: pronoto pálido amarelado, com faixa negra transversal em sua base; calos amarelo acastanhados; porção mediana com formação espinhosa bífida ligada à uma protuberância clara que se uneà basedo pronoto; apresenta espinhos laterais proeminentes revestidos de cerdas; mesonoto com tecas alares desenvolvidas, alcançando a porção posterior do V urotergito, ambas com espinhos laterais proeminentes revestidos de cerdas esparsas; coloração pálido amarelada com área negra na base e no ápice; metanoto totalmente visível entre as duas tecas alares, pálido amarelado, com dois espinhos negros proeminentes revestidos de cerdas esparsas; apresenta na base uma reintrância com pequeno tubérculo.

Abdômen: coloração negra a castanho escura, com as extremidades laterais pálido amareladas; espinhos negros proeminentes revestidos de cerdas esparsas do IV ao IX segmento e, na região mediana dos II, V, VI e VIII segmentos.

Pernas: pálido amareladas, revestidas de pêlos esparsos, tarsos claros revestidos de pelos, II segmento alargado para o ápice.

Ninfa (V estágio) (Fig. 17) - coloração pálido amarelada com áreas castanho-claras anegras; comprimento 3 mm e largura 1,6 mm; cabeça: comprimento 0,3 mm e largura 0,5 mm; apresenta cinco espinhos cefálicos negros, revestidos de cerdas esparsas: dois frontais, um mediano, dois occipitais mais desenvolvidos e com mancha negra nas bases.

Olhos: avermelhados e salientes, omatídeos bem marcados.

Antenas: pálido amareladas corh pelos esparsos e mancha negra no ápice do III segmento; o I segmento uma vez e meia o comprimento do II; o III uma vez e meia o IV segmento.

Tórax: pálido amarelado com faixa negra transversal da base até a região mediana; espinhos laterais proeminentes; apresenta formação espinhosa bífida ligada àuma protuberância pálido amarelada que se une à base do pronoto; mesonoto com tecas alares desenvolvidas alcançando a porção mediana do V urotergito, ambas com espinhos laterais proeminentes revestidos de cerdas esparsas; apresenta coloração pálido-amarelada com mancha negra na base; metanoto pálido amarelado a castanho, parcialmente visível entre as duas tecas alares, apresenta dois espinhos muito proeminentes revestidos de cerdas esparsas; na base, uma reintrância com pequeno tubérculo.

Abdômen: pálido amarelado com áreas negras do ápice até a porção central do VII segmento; as extremidades laterais claras apresentam espinhos negros proeminentes revestidos de cerdas esparsas do IV ao IX segmentos e na região mediana dos II, V, VII e VIII segmentos.

Pernas: pálido amareladas, revestidas de pêlos esparsos. Tarsos claros revestidos de pêlos curtos, II segmento alargado para o ápice.

Ovo: claro, translúcido, hialino, apresentando o corte de eclosão na parte anterior da margem direita. Comprimento0,8mmelargura0,5mm(Figs.12, 18).

A bibliografia internacional reflete a importância da praga através de trabalhos de filogenia, biologia e inimigos naturais.

TSUKADA (1994) fez estudos filogenéticos comparativos entre espécies deStephanitis.

NEAL Jr., & DOUGLASS (1988) desenvolveram pesquisa de biologia comparada deS. pyrioides criados em plantas de azaleas, em três temperaturas diferentes e durante seus estudos observaram a ocorrência do mirídeo predadorStethoconusjaponicusSchumacker, deorigem asiática. MASONet al. (1991) estudaram as secreções emitidas pelas ninfas deS. pyrioides, mostrando que possuem uma ação de defesa, pois são recusadas pelos pássaros. BRAMAN et al. (1992) estudaram as exigências térmicas para o desenvolvimento deS. pyrioides, com oobjetivo de criar modelos para previsão deocorrência dos estágios infestantes da praga eobservaram a presença do parasitóide deovos Anagrussp. (Hymenoptera: Mimaridae). NALEPA & BAKER (1994) observaram que além dos ovos, também os adultos de S. pyrioides podem sobreviver no inverno da Carolina do Norte. NAKASUGA (1994) estudou a taxa de emergência de ninfas deS. pyrioides a partir de ovos que sobreviveram ao inverno, em Nagasaki, visando estabelecer métodos de previsão de ocorrência da população da praga.

Fig. 1
Página inferior da folha de azalea com excreções aquosas de Stephanitis pyrioides.

Fig. 2
Página _superior da folha de azalea com pontuações cloróticas ocasionadas pela sucção de seiva por Stephanitis pyrioides.

HENRYet al. (1986) relataram a primeira ocorrência do predador de S. pyrioides, S. japonicus, em Maryland (EUA), descreveram seus hábitos predadores e redescreveram o adulto com ilustrações da genitália do macho. NEAL Jr.et al. (1991) estudaram a biologia de S. japonicus, predador de S. pyrioides, para dimensionar o potencial depredação. NEAL Jr. & HALDEMANN (1992) estudaram os fatores que regulam a sincronia entre a população da praga S. pyrioides e do predador S. japonicus.

Fig. 3
Vista lateral de macho de S. pyrioides.

Fig. 4
Vista dorsal de macho de S. pyrioides.

Fig. 5
Vista ventral de macho de S. pyrioides.

Fig. 6
Vista ventral de fêmea de S. pyrioides.

Fig. 7
Pigóforo com parâmeros simétricos em macho de S. pyrioides.

Fig. 8
Pênis de S. pyrioides.

Fig. 9
Detalhe da abertura do gonóporo secundário com formação esclerosada interna em pênis de S., pyrioides.

Fig. 10
Vista dorsal das gonapófises posteriores da fêmea de S. pyrioides.

Fig. 11
Vista dorsal da gonapófise anterior da fêmea de S. pyrioides.

Fig. 12
Ovo de S. pyrioides.

Fig. 13
Ninfa de 1º estágio de S. pyrioides

Fig. 14
Ninfa de 2º estágio de S. pyrioides.

Fig. 15
Ninfa de 3º estágio de S. pyrioides.

Fig. 16
Ninfa de 4º estágio de S. pyrioides.

Fig. 17
Ninfa de 5º estágio de S. pyrioides.

Fig. 18
Postura deS. pyrioides em folha de azalea.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Jun 1997

Histórico

  • Recebido
    20 Jan 1997
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