RESUMO
Apresenta-se nova ocorrência de ruiva suína em uma criação no Estado de São Paulo. Os animais envolvidos exibiram um quadro sintomatológicocaracterístico da doença e dos materiais coletados bem como das fezes isolou-se oErysipelothrix rhusiopathiae. Medidas gerais de higiene e profilaxia, incluindo a adoção de um esquema de vacinação lograram controlar a doença.
PALAVRAS CHAVE:
Ruiva; suínos; erisipela suína; Erysipelothrix rhusiopathiae.
ABSTRACT
A new occurrence of swine erysipelas (Diamond skin disease) in a rearing near São Paulo city is presented. The animals showed disease characteristic symptomatology. Samples collected from sick animals (organs anf feces) permitted the isolation of Erysipelothrix rhusiopathiae. Sanitary measures, including vaccination and antibiotic therapy permited to detain the disease and to its prevent dissimination.
KEY WORDS:
Swines erysipelas; Erysipelothrix rhusiopathiae, Diamond skin disease.
A erisipela suína ou ruiva dos porcos é uma doença infectocontagiosa, de característica insidiosa e que costuma manifestar-se em surtos esporádicos. No Brasil ela tem se apresentado com distribuição irregular, muitas vezes com características regionais e em diferentes graus de patogenicidade.
Entretanto, de um modo geral, clinicamente pode ocorrer hipertermia, anorexia, dificuldades na locomoção, em virtude de lesões articulares dolorosas e o surgimento de áreas salientes na pele ou de placas urticariformesde cor vermelho escuro e geralmente de formato losangular ou rômbico. Após 4 a 7 dias as lesões cutâneas poderão diminuir ou mesmo desaparecer mas freqüentemente ocorre necrose lo- . cal ou erosão da pele.
As lesões cutâneas são decorrentes de fenômenos locais hemorrágicos e trombóticos devidos à formação de êmbolos de bactérias e leucócitos que determinam o surgimento dos fenômenos levando à degeneração dos capilares e formação de enfartes cutâneos.
Nos órgãos internos, pode-se observar edema e congestão pulmonar, petéquias ou sufusões hemorrágicas no coração, enterite catarral ou catarrohemorrágica, congestão hepática e esplênica, hiperplasia dos linfonodos, glomérulo-nefrites, por vezes, com presença de petéquias e artrites com coleção de líquido seroso ou sem-hemorrágico intra articular.
A doença pode assumir uma forma subaguda ou crônica, onde são bastante evidentes os comprometimentos das articulações e que levam ao desenvolvimento de tecido de granulação no espaço sinovial com conseqüente fibrose peri-articular. As cartilagens poderão sofrer erosão além do surgimento de periostites e anquilose.
No coração, nos comprometimentos mais sérios, é comum o desenvolvimento de endocardite verrucosa.
Na literatura nacional referente a esta doença MELO & SOUZA em 1931 (12) estabeleceram a primeira constatação no Brasil, em suíno recém importado. CROCCO, em 1956/7 (10), descreveu no Rio Grande do Sul os primeiros casos de erisipela suína em animais autóctones e ALBUQUERQUE, 1956/7(1), assinalou o isolamento do agente bacteriano responsável pela doença.
GISSONI em 1960 "apud" (CASTRO, et al. 1963) examinando carcaças suínas em matadouro suspeitou da presença de animais portadores dadoença embora eles fossem aparentemente sadios.
CASTROet al., 1963(5), estudando tonsilas coletadas de suínos de aparência normal e abatidos em matadouro isolaram o Erysipelothrix rhusiopathiae. No mesmo ano, TROISE et al., 1963(15) publicaram um trabalho no qual abordaram a importância da doença até então muito pouco estudada em nosso meio destacando a necessidade de estudos mais detalhados para o estabelecimento do diagnóstico preciso e alertando que, embora clinicamente a doença ainda não tivesse sido assinalada, o encontro de portadores inaparentes em animais de matadouro era fato relevante a se considerar.
Ainda CASTRO et al., 1967(6) e CASTRO, 1969 (7), comprovaram que os peixes também desempenham papel de reservatório natural e, nesse contexto, rações preparadas com farinhas de pescado podem constituir-se em importante fonte deinfecção para os animais (CASTRO et al., 1967). Em 1970 / 72. CASTRO et al., (8,9), isolaram e tipificaram 102 amostras de peixes sem sintomas clínicos.
CARVALHO, em 1976 (4), realizou estudos sobre a ruiva dos porcos no Estado de Minas Gerais abordando aspectos anatomo-patológicos e bacteriológicos da doença. No mesmo ano, FREITAS fez observações sobre a doença no Rio de Janeiro realizando estudos de anatomopatologia das lesões.
PORTUGAL & SANDOV AL 1976 (13) apresentaram os resultados preliminares da pesquisa da presença do E. rhusiopathiae em fezes de suínos normais (14). Já em 1977, REIS num trabalho sobre as doenças de suínos observadas em Minas Gerais, abordou a ocorrência da erisipela suína naquele Estado e as medidas a serem adotadas para o controle da doença.
BARCELOS (1979) (2) publicou um estudo da erisipela suína no Rio Grande do Sul pesquisando animais com quadro clínico da doença, sua anatomopatologia e bacteriologia, incluindo a tentativa do isolamento do agente pela coprocultura, a partir de animais aparentemente sadios.
BERSANO et al., 1982 (3) acusam a ocorrência de erisipela suína no Estado de São Paulo com identificação do agente.
Neste trabalho, descreve-se um novo surto de erisipela suína ocorrido no Estado de São Paulo, no município de Campo Limpo, em uma criação de suínos das raças Landrace e Large White e produtos dos cruzamentos entre as mesmas, com um plantel de reprodutores de 200 fêmeas e 7 machos.
Inicialmente, um animal, fêmea da raça Large White em fase final de gestação, apresentou-se prostrado. Ao exame constatou-se um quadro febril e taquicardia. A medicação instituída visando a redução da temperatura não surtiu o resultado desejado. No dia seguinte surgiram as primeiras manchas de cor vermelha disseminadas na pele, de tamanhos variados e bordos irregulares (Fig.1). As manchas acentuaram-se e distribuiram-se pela superfície corporal do animal, que veio a morrer no quarto dia após o surgimento dos sintomas e às vésperas do parto.
Em seqüência, novos animais revelaram alterações mostrando um quadro semelhante ao anteriormente descrito.O total de animais que adoeceu foi de 15, com 2 óbitos registrados. Nestes, a evolução do quadro da doença possibilitou observar o surgimento de manchas com o formato losangular classicamente descrito nos casos de erisipela suína (Figs.2 e 3), enquanto que nos outros a medicação institutida logrou deter o curso da doença possibilitando a recuperação dos animais.
À necrópsia, foram coletados fragmentos das regiões lesadas da pele bem como do baço e coração para exame bacteriológico. Coletouse ainda, amostras de fezes dos animais doentes, que foram conservadas em caldo fenicado a 0,25% observando-se a proporção de 1 grama de fezes para cada 5mL do caldo.
Após incubação a 37ºC por 48 horas, colônias foram resuspensas em solução fisiológica e inoculadas intraperitonelmente (IP) e por escarificação na pele da parede abdominal de camundongos albinos adultos que passaram a ser observados por um período de até 5 dias.
Os animais que morreram nesse período, foram necropsiados e o sangue intra-cardíaco coletado assepticamente, foi semeado em ágar sangue e incubado nas mesmas condições.
Os mesmos materiais foram também conservados em formol neutro a 20%, e submetidos a cortes com 5 micrômetros de espessura corados pelo método de hematoxilina-eosina (H.E.).
Histopatologicamente, as alterações observadas foram as seguintes: a pele mostrava um epitélio pavimentoso com camada queratinizada íntegra. No derma notava-se acentuada hiperplasia, congestão das arteríolas e dos capilares sendo que, por vezes, foi possível observar lesões da íntima que ocasionavam hemorragias de intensidades variáveis. Visualizava-se ainda trombose fibrinóide e presença de leucócitos formando focos de infiltração predominantemente nas áreas perivasculares. As fibras musculares do tecido subcutâneo, apresentavam-se tumefeitas e hialinizadas (Figs.4 e 5). As fibras do miocárdio mostravam-se igualmente tumefeitas e hialinizadas, o que ocasionava o desaparecimento, quase que por completo das estriações transversais e algumas mostravam-se fragmentadas. Observava-se ainda infiltração intersticial leucocitária com predominância de linfócitos. Alguns vasos mostravamse congestos com áreas de edema (Fig.6). No baço notava-se acentuada hipoplasia dos folículos linfóides e nítida rarefação celular nos centros germinativos (Fig.7).
Bacteriologicamente, após 48 horas de incubação observou-se, nos cultivos em ágar sangue, a presença de colônias pequenas, incolores e transparentes, circundadas por discreto halo de hemólise do tipo alfa.
Pela coloração de Gram evidenciou-se bacilos pequenos, delicados, corados positivamente, dispostos preferencialmente em paliça da, com tendência à formação de curtas cadeias.
A série bioquímica ofereceu os seguintes resultados: houve fermentação da arabinose, lactose, galactose, rafinose, trealose e glicose porém sem produção de gás. A maltose, manita, salicina e a sorbita não foram fermentadas. Não ocorreu a redução do nitrato a nitrito, mas a arginina foi fermentada, não ocorrendo o mesmo com a esculina. Houve produção de H2 S no tríplice açúcar com ferro. Não houve utilização do citrato de Simmons e nem a redução da uréia o agente mostrou-se ainda imóvel e catalase negativo.
Os camundongos inoculados intraperitonealmente .morreram em 48 horas e os que sofreram escarificaçãomorreram ao redor do 4º dia. De am os os grupos foi possível reisolar o agente.
Os resultados computados possibilitaram classificar a bactéria em estudo como sendo o Erysipelothrix rhusiopathiae.
O presente relato, tem por objetivo alertar para a possibilidade do surgimento de eventuais focos isolados da doença, o que enfatiza a necessidade da adoção de um esquema periódico de vacinação como medida profilática.
A intensa comercialização de carne suína e as variações regionais de seu valor no mercado interno, condicionam um constante deslocamento de grandes contingentes de animais em trânsito interestadual, fato que se constitui em fator agravante da possível disseminação da doença a partir de um foco esporádico, causado principalmente pela introdução de animais portadores em regiões livres da doença.
Para o controle do foco ora citado, adotou-se um elenco de medidas que constaram basicamente de rigoroso isolamento dos doentes e um esquema de tratamento baseado na utilização de antitérmicos associados à antibioticoterapia, optando-se, pelo uso de terramicina injetável.
Normas gerais de higiene e desinfecção, bem como a interdição da propriedade foram medidas paralelamente adotadas visando a correta profilaxia da doença.
Para os animais que não manifestaram qualquer sinal de alteração, adotou-se a vacinação e o esquema vacinal foi aquele preconizado pelo fabricante Laboratório Solvey. As medidas introduzidas possibilitaram pleno controle do surto em questão.
Lesões cutâneas originam as manchas vermelho escuras que por vezes assumem o formato losangular classicamente observado.
Corte de pele mostrando congestão dos capilares, trombose e áreas de infiltração intersticial leucocitária. Aumento: 250 x.
Corte de miocárdio exibindo congestão, edema, infiltração leucocitária, tumefação e hialinização das fibras cardíacas. Aumento: 250 x.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- 1 ALBUQUERQUE, J. S. Isolamento e identificação de Erysipelothrix rhusiopathiae em casos de erisipela suína no Rio Grande ào Sul. Arq. Inst. Pesq. Vet. Desidério Finamore, 2, p.57-9, 1956/7.
- 2 BARCELOS, D. E. S. N. Infecção de suínos por Erysipelothrix rhusiopathiae no Rio Grande do Sul. Bol. Inst.Pesq. Vet. Desidério Finamore, 6, p.19-27, 1979.
- 3 BERSANO, J. G.; GENOVEZ,M.E.; QUAGLIOULO, R.G. Ocorrência de erisipela suína no Estado de s:o Paulo com isolamento do Erysipelothrix rhusiopathiae. O Biológico, São Paulo, 48, n.6, p.141-6, 1982.
- 4 CARVALHO,E.C.Q. Ruiva dos porcos nonorte de Minas I - Observações anatomo-patológicas III solamento do E. insidiosa . ln: CONGRESSO BRASILEIRO DE MEDICINA VETERINÁRIA, 15., Rio de Janeiro, 1976. Anais
- 5 CASTRO, A.F.P.; SANTA ROSA,C.A.; TROISE, C. & GISSONI, R.H. Isolamento de Erysipelothrix rhusiopasthiae de suínos aparentemente normais abatidos em matadouro. Arq. Inst. Biol. São Paulo, 3, p.115-7, 1963.
- 6 CASTRO, A.F.P.; CAMPEDELLI FILHO, O. & TROISE, C. Isolamento de Erysipelothrix rhusiopathiae de peixes marítimos. Rev. Inst. Med. Tropical, São Paulo, 9, p.169-71, 1967.
- 7 CASTRO, A.F.P. Contribuição para o estudo do Erysipelothrix rhusiopathiae, 1969, [Tese - Fac. Med. Univ. São Paulo.]
- 8 CASTRO, A.F.P.; TRABULSI, L.R.; CAMPEDELLI FILHO, O. & TROISE, C. Isolation of three new serotypes of Erisipelothrix rhusiopathiae. Rev. Microbial. 1, n.2, p.95-6, 1970.
- 9 CASTRO, A.F.P.; TRABULSI, L.R.; CAMPEDELLI FILHO, O. & TROISE, C. Characteristics of strain of E. rhusiopathiae isolated in Brazil. Rev. Microbial. 3, n.1, p.11-23, 1972.
- 10 CROCCO, A. Primeiros casos de "erisipela" em suínos autóctones no Brasil. Arq. Inst. Pesq. Vet. Desidério Finamore, 2, p.70-76, 1956/7.
- 11 FREITAS, M.A.Q.; TORTELLY, R.; CARVALHO,E.C.; CRUZ,J.B. & MENEZES, M.B. Ruiva dos porcos no Estado do Rio de Janeiro I Observações anátomo-patológicas III solamento deErysipelothrix insidiosa ln: CONGRESSO BRASILEIRO DE MEDICINA VETERINÁRIA, 15., Rio de Janeiro, 1976. Anais, p.90-1.
- 12 MELO, T. & SOUZA, M.A. O bacilo da ruiva dos porcos: sua constatação no Brasil. Rev. Zoot. Vet. Rio de Janeiro, 17, n.1, p.41-7, 1931.
- 13 PORTUGAL, M.A.S.C. & SANDOVAL ,E. Pesquisa de Erysipelothrix rhusiopathiae em fezes de suínos normais, ln: CONGRESSO BRASILEIRO DE MICROBIOLOGIA, 7., Porto Alegre, 1976. Anais. p. TL 04.
- 14 REIS, R. Doenças de suínos no Estadode Minas Gerais. III Ocorrência de erisipela. Arq. Esc. Vet. U.F.M.G., Belo Horizonte, 26, n.2, p.203-10, 1977.
- 15 TROISE, C.; GISSONI,R.H.; SANTA ROSA, C.A. & CASTRO, A.F.P. Observações sobre a ruiva dos porcos. O Biológico, São Paulo, 29, n.9, p.79-83,1963.










