Open-access EFEITO DE ACARICIDAS SOBRE O ÁCARO-DA-LEPROSE BREVIPALPUS PHOENICIS (GEUSKES, 1939) (ACARI: TENUIPALPIDAE) E SOBRE A FAUNA DE ARTRÓPODOS EM CITROS

EFFECTS OF ACARICIDES ON BREVIPALPUS PHOENICIS (GEIJSKES, 1939) (ACARI: TENUIPALPIDAE) AND ON ARTHROPOD FAUNA IN CITRUS

RESUMO

O experimento foi conduzido na Estação Experimental do Instituto Biológico de Presidente Prudente, SP, com o objetivo de avaliar os efeitos de alguns acaricidas sobre o ácaro-da-leprose Brevipalpus phoenicis (Geijskes, 1939) e sobre outros artrópodos presentes em pomar de citros. Os tratamentos e as dosagens em g i .a./ 100 litros de água foram: fenpropatrin (15), bromopropilato(32,5), propargito (72), fenbutatin óxido (40) e testemunha. Todos os acaricidas apresentaram controle satisfatório de B. phoenicis até 90 dias após a aplicação. No início houve redução significativa na população de ácaros pred dores (Phytoseiidae), em todos os tratamentos com acaricidas, ocorrendo recuperação gradativa, nos meses seguintes. A população de fitoseídeos tornou-se semelhante à da testemunha aos 120 dias após a pulverização, para os tratamentos com fenbutatin óxido e propargito; e aos 147 dias para os tratamentos com bromopropilato e fenpropatrin. Os quatro acaricidas afetaram sensivelmente a população de artrópodos do pomar cítrico nos primeiros meses, particularmente o fenpropatrin, que se mostrou mais prejudicial aos artrópodos na avaliação realizada aos 28 dias após a pulverização.

PALAVRAS-CHAVE:
Acaricidas; Brevipalpus phoenicis ; Phytoseiidae; citros

ABSTRACT

The experiment was carried out at Experiment Station of Instituto Biológico in Presidente Prudente, São Paulo State, Brazil, in order to study the effects of some miticides on B. phoenicis and on other arthropods of citrus orchard. The acaricides tested and dosages (g a.i./100 litros of water) were: fenpropathrin (15), bromopropylate (32.5), propargite (72) and fenbutatin oxide (40). All miticides were efficient againstB. phoenicis up to 90 days after application. At the beginning all acaricide treatment caused significant reductions in the predaceous mite population (Phytoseiidae), with gradual population increase in the following months. _In the case of fenbutatin oxide and propargite, the population was similar to the control after 120 days, and for bromopropylate and fenpropathrin, after 147 days. The four acaricides tested affected the arthropod population of citrus orchard during the first months, particularly fenpropathrin which showed to be more harmful to the arthropods, at 28 days after spraying.

KEY WORDS:
Acaricides; Brevipalpus phoenicis ; Phytoseiidae; citrus

INTRODUÇÃO

O ácaro-da-leprose, Brevipalpus phoenicis (Geijskes,1939) (Acari: Tenuipalpidae), é considerado o transmissor· da leprose-dos-citros, uma das doenças de maior importância na citricultura paulista. Entre os prejuízos causados estão a formação de frutos com menor peso e queda prematura dos mesmos. Danos mais severos ocorrem nos ramos, que chegam a secar devido à redução no fluxo de seiva, afetando severamente a produtividade das plantas (10).

Embora ocorra em ramos, frutos e folhas, o ácaro-da-leprose apresenta maiores infestações em frutos, nos locais com sintomas de verrugose (6). NAKANO et al. (9) conseguiram reduções no dano do ácaro, através de aplicações de fungicida cúprico, para o controle da verrugose. O fungicida foi aplicado jun ente com o acaricida bromopropilato.

OLIVEIRA et al. (11) em experimentos realizados em Jaboticabal, SP e Guatapará, SP, concluíram que os produtos dicofol, dicofol + tetradifon, bromopropilato, quinometionato e flubenzimine foram eficientes no controle do ácaro-daleprose.

Segundo OLIVEIRA et al. (12), o produto fenpropatrin a partir de 7,5g i.a./100 litros de água, apresentou ótima eficiência na região de Bebedouro, SP, mantendo a população do ácaro em níveis baixos, até 95 dias após a aplicação.

SCARPELLINI et al. (17), num ensaio de controle químico conduzido em Bebedouro, SP, observaram que os acaricidas hexythiazox, fenbuta0 tin· óxido, propargito e bifentrin foram altamente eficientes na redução populacional de B. phoenicis, com destaque para o hexythiazox que apresentou 100% de eficiência aos 98 dias após a aplicação. Dicofol e abamectin foram semelhantes à testemunha após 56 dias da aplicação.

GRAVENA & LARA (3) citam a importância do uso de produtos seletivos a fim de evitar o desequilíbrio biológico na cultura de citros, onde a elevada população de inimigos naturais pode ser dizimadacom o uso dedefensivos agrícolas de amplo espectro de ação.

Diversos trabalhos têm citado os ácaros da família Phytoseiidae como importantes predadores de ácaros fitófagos em diferentes culturas (2,13,15). Segundo MARQUES & MORAES (5), os ácaros desta família mostram-se altamente· eficientes no controle do ácaro-da-leprose e do ácaro purpúreo, Panonychus citri (McGregor, 1916) (Acari: Tetranychidae) em citros.

CALAFIORI et al. (1) concluíram que fenbutatin óxido (20 a 60g i.a./100 litros de água) e bromopropilato (50g i.a./100 litros de água) não foram seletivos para fitoseídeos, em citros.

YAMADA et al. (18), trabalhando com o hexythiazox, observaram que o produto não apresentava nenhum efeito letal sobre o fitoseídeo Phytoseiulus persimilis Athias-Henriot, 1957, quando utilizado em doses baixas (2,5 a 5,0g i.a./100 litros de água) para o controle de P. citri.

MORSE et al. (7) estudando o impacto de acaricidas sobre os artrópodos benéficos de pomares cítricos da Califórnia, verificaram que os resíduos de fenbutatin óxido e de abamectin + óleo, eram praticamente inócuos para adultos de Euseius stipulatus (Athias-Henriot, 1960) (Acari: Phytoseiidae), causando no máximo, 10% de mortalidade. Outros produtos causaram significativa mortalidade deste fitoseídeo, apresentando a seguinte ordem decrescente de toxidade residual: dicofol, amitraz, quinometionato, cihexatin, clorobenzilato + óleo e propargito.

SCARPELLINI & NAKANO (16) analisaram o efeito residual de acaricidas sobre o ácaro predador Euseius spp., em citros, por meio de infestações artificiais em folhas tratadas no campo. Os autores concluíram que o fenpropatrin (6,0 e 12,0g i.a./100 litros de agua) e dicofol (37,0g i.a./100 litros de água) causaram a supressão total do ácaro predador até 5 dias da aplicação, e que 15 dias após a mesma, houve cerca de 60% de sobrevivência do fitoseídeo.

KOMATSU (4), em condições de laboratório, verificou que os produtos abamectin, hexythiazox, clofentezina, tetradifon, maneb, mancozeb e enxofre eram praticamente inócuos ao fitoseídeo Euseius concordis (Chant, 1959). YAMAMOTO et al. (19) estudaram a seletividade de diversos pesticidas aos inimigos naturais de pragas dos citros, na região de Jaboticabal, SP. Os inimigos naturais estudados foram: as joaninhas Pentilia egena Mulsant, 1850 e Coccidophilus citrícola Brethes, 1905, crisopídeos, e os fitoseídeos Euseius citrifolius (Denmark & Muma, 1970) e lphiseiodes zuluagai Denmark & Muma, 1972. Bifentrin, fenpropatrin, carbosulfan, dimetoato e propargite (144g i.a./100 1) mostraram-se altamente tóxicos aos coccinelídeos. O/. zuluagai apresentou-se muito sensível a bifentrin, carbosulfan e cihexatin.

São poucos os trabalhos nacionais, a nível de campo, que apresentam resultados da ação de acaricidas sobre a fauna citrícola, além do período de maior eficiência do produto. Por isso, foi realizado este trabalho, com o objetivo de avaliar os efeitos de alguns acaricidas sobre o ácaro B. phoenicis e sobre a fauna de artrópodos em pomar cítrico de Presidente Prudente, SP.

MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado na Estação Experimental do Instituto Biológico, em Presidente Prudente SP, em pomar de laranja, variedade Pera Rio, com 7 anos de idade, medianamente enfolhado, plantado no espaçamento de 7m entre ruas e 5m entre plantas.

Na área experimental, por pelo menos 12 meses antes da instalação do ensaio, não houve pulverização de pesticidas.

O delineamento estatístico adotado foi inteiramente casualizado com 5 tratamentos e 4 repetições. Os tratamentos e as dosagens em 9 i.a./100 litros de água foram: fenpropatrin (Danimen 100 FW) a 15: bromopropilato (Neoron 500 CE) a 32,5; propargito (Omite 300 PM) a 72; fenbutatin óxido (Torque 500 SC) a 40; e testemunha.

Cada parcela foi constituída de 12 plantas (três ruas de quatro plantas cada uma), sendo avaliadas apenas as duas plantas internas da rua central. Em cada planta, foram amostrados ao acaso dez frutos e dez folhas.

O critério utilizado na avaliação do ácaro-daleprose nos frutos, baseado na metodologia usada por RAGA et al. (14), consistiu na contagem do número de ácaros presentes na área correspondente ao deslocamento da lupa (aumento de 10 vezes e com campo visual de 1cm2 ) desdeo pendúculo até o extremo oposto do fruto. Nas folhas, a observação foi feita ao longo da nervura principal, nas faces dorsal e ventral.

Quanto aos fitoseídeos, a avaliação era realizada em toda a superfície das folhas e frutos coletados, área em que também eram contados os demais artrópodos. Em cada avaliação foram retiradas amostras de ácaros fitoseídeos, paraposterior identificação em laboratório, através da montagem de lâminas.

Juntamente com a avaliação de B. phoenicis e ácaros predadores, era realizada uma observação visual de toda a planta, procurando-se registrar outros artrópodos.

A pulverização foi realizada no dia 25/07/90 com emprego de pistola, gastando-se em média 1O litros de calda por planta.Uma avaliação prévia foi realizada em 28/06/90 e as demais avaliações foram conduzidas aos 28, 61, 90, 120, 147, 216, 237 e 356 dias após a aplicação.

O número médio de ácaros-da-leprose e de fitoseídeos foi transformado em x+0,5 e analisado através dos testes F e Tukey a 5% de probabilidade. Os resultados dos demais artrópodos foram compilados.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O ácaro-da-leprose, observado em folhas e frutos, apresentou população muito maior em frutos, sendo encontrados 44 ácaros em folhas e 2.565 ácaros em frutos, nas nove avaliações, em todos os tratamentos. Isto, nas condições em que foi realizado o experimento, resultou em uma população 58 vezes maior em fruto.

Pela Tabela 1 observa-se que houve uma acentuada redução populacional deB. phoenicis, 28 dias após a aplicação, onde todos os produtos apresentaram con trole superior a 98%.

Todos os acaricidas mostraram-se significativamente superiores à testemunha, até os 90 dias da aplicação, ainda com controle acima de 84%. Aos 120 dias, não se observou mais diferença estatística na população de ácaros-da-leprose das parcelas de fenpropatrin e propargito, em relação à testemunha. Aos 147 dias após a aplicação, somente o fenbutatin óxido ainda mostrou-se significativamente superior à testemunha, apresentando eficiência de 83%.

Estes resultados concordam com OLIVEIRA et al. (11) que obtiveram bom controle do ácaroda-leprose com o piretróide fenpropatrin até 95 dias após a aplicação. Também concordam com os dados de SCARPELLINI et al. (17), que observaram boa eficiência dos acaricidas fenbutatin óxido e propargito até 98 dias após a aplicação, e com os de CALAFIORI (1) que, testando fenbutatin óxido e bromopropilato, registraram controle acima de 92%, aos 71 dias após a aplicação.

Quanto aos ácaros predadores (Phytoseiidae), estes foram encontrados em populações muito superiores em folhas, em relação aos frutos, sendo que o número de ácaros encontrados em frutos foi de 457 e de 3.805 nas folhas (8 vezes maior), nas avaliações realizadas (total). As espécies observadas foram /. zuluagai, E. concordis, E. citrifolius e Amblyseius sp., com predominância das duas primeiras espécies.

Pela Tabela 2, observa-se que os produtos também afetaram drasticamente a população de fitoseídeos, nos primeiros três meses após a aplicação. Aos 28 dias da pulverização, todos os produtos apresentavam reduções acima de 95% na população dos ácaros predadores. Somente aos 61 dias após, iniciou-se uma recuperação gradativa da população destes ácaros, sendo que, nos tratamentos com fenbutatin óxido e propargito, isto ocorreu em menor intervalo de tempo. Para este dois acaricidas, a população de fitoseídeos tomou-se semelhante à testemunha aos 120 dias após a aplicação, e para os demais produtos isto só veio a acontecer na avaliação feita 147 dias após a aplicação.

Estes resultados corroboram com YAMAMOTO et al. (19), que observaram em citros, uma alta toxicidade do fenbutatin óxido ao E. citrifolius, com reduções de até 100% , nos primeiros 32 dias após a pulverização. Também, CALAFIORI et al. (1) obtiveram elevada redução populacional de fitoseídeos aos 71 dias após a aplicação de fenbutatin óxido.

Nas três últimas avaliações (216,273 e 356 dias após a aplicação), as populações de fitoseídeos mostraram-se semelhantes em todos os tratamentos, indicando que houve um restabelecimento populacional destes ácaros no campo.

Com relação aos outros artrópodos existentes no pomar cítrico, houve uma sensível redução na população, nas primeiras avaliações, para todos os produtos, em relação à testemunha. Esta redução mostrou-se mais acentuada para o acaricida piretróide fenpropatrin, na avaliação de 28 dias após a aplicação (Tabela 3). Esta elevada toxicidade inicial induzida pelo fenpropatrin, também foi observada por YAMAMOTO et al. (19), que obtiveram alta mortalidade de adultos de P. egena e larvas de crisopídeos, em citros.

CONCLUSÕES

Com base nos resultados obtidos, nas condições do presente trabalho, pode-se concluir que: os produtos fenpropatrin, bromopropilato, propargito e fenbutatin óxido, nas dosagens testadas, apresentaram controle satisfatório do B. phoenicis, até 90 dias após a aplicação; todos os acaricidas estudados causaram reduções significativas napopulação deácaros predadores (Phytoseiidae), havendo recuperação desta população, nos meses seguintes. Este tempo derecuperação foi decerca de 120 dias para fenbutatin óxido e propargito, e de 147 dias para bromopropilato e fenpropatrin; os quatro acaricidas testados afetam sensivelmente a população de artrópodos presentes em pomar cítrico, particularmente o fenpropatrin, que se mostrou mais prejudicial aos artrópodos nos primeiros 28 dias.

TABELA 1
Efeito de acaricidas sobre o ácaro-da-leprose, Brevipalpus phoenicis em citros; número médio de ácaros por parcela (20 frutos) (Nº); porcentagem de redução populacional(% Red) nas diversas avaliações. Presidente Prudente, SP, junho de 1990 a julho de 1991.
TABELA 2
Efeito de acaricidas sobre os ácaros predadores (Família Phytoseiidae) em citros; número médio de ácaros por parcela (20 folhas) (Nº); porcentagem de redução populacional (% Red) nas diversas avaliações. Presidente Prudente, SP, junho de 1990 a julho de 1991.
TABELA 3
Efeito de acaricidas sobre a população de artrópodos em citros; número médio de artrópodos por parcela, nas diversas avaliações. Presidente Prudente, SP, junho de 1990 a julho de 1991.

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem ao Dr. Gilberto J. de Moraes, do CNPDA/EMBRAP A, Jaguariúna, SP, pelo auxílio na identificação dos ácaros predadores, bem como aos Srs. João Luiz Simioni, técnico agropecuário da Seção de Pragas das Plantas Frutíferas e Alberto Shigueru Yokoyama, técnico agropecuário da Estação Experimental de Presidente Prudente, pelo auxílio nas avaliações de campo e pulverização do experimento.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    17 Fev 2025
  • Data do Fascículo
    Jan-Dec 1994

Histórico

  • Recebido
    11 Abr 1992
  • Revisado
    Mar 1995
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