RESUMO
Relata-se a ocorrência de queratoconjuntivite infecciosa em búfalos, no Estado de São Paulo, Brasil. Três animais apresentaram opacidade da córnea, descarga ocular serosa e fotofobia. Exames laboratoriais possibilitaram identificar o agente causal, como sendo a Moraxella urethralis
PALAVRAS-CHAVE:
Queratoconjuntivite; búfalos; Moraxella urethralis.
ABSTRACT
A case of infectious keratoconjunctivitis on buffaloes in São Paulo State, Brazil is presented. Three animals showed corneal opacity, eye discharge and photophobia. Laboratory findings permitted identify the bacterial agent as Moraxella urethralis.
KEY WORDS:
Keratoconjunctivitis; buffaloes; Moraxella urethralis.
INTRODUÇÃO
Dentro do gênero Moraxella, a espécie bovis é a maior responsável pelas ocorrências de querato conjuntivites infecciosas que acometem, com maior freqüência, animais das espécies bovina e ovina, determinando quadros clínicos que variam desde a simples opacidade da córnea a processos mais complicados e graves com a formação dequeratocôneos, conjuntivites, panoftalmias, úlceras da córnea e não raramente, determinando a extrusão do cristalino levando o animal à cegueira irreversível.
Com menor freqüência, outras espécies de Moraxella têm sido consideradas agentes causais de afecções oculares em espécies de animais domésticos e também no homem. Em 1970, BIJSTERVELD, descreveu uma nova espécie isolada de casos de infecções oculares em humanos. SUTTON et al.(1972) (16) também descreveram uma espécie de Moraxella isolada em abcessos de córnea em humanos.
Inicialmente foi descrita a Moraxella lacunata como causa de conjuntivites agudas, subagudas e crônicas, por MORAX em 1896 (11) e por AXENFELD em 1897 (1), isolada a partir decasos humanos. A Moraxella liquefaciens foi descrita a seguir por PETIT (15) em 1899 como agente causal de uma queratite serpiginosa em humanos. A partir de então inúmeras têm sido asassinalações de afecções oculares atribuídas a agentes bacterianos desse gênero.
No que se refere à Moraxella bovis, que se constitui na mais significativa espécie do gênero nos temas de patologia veterinária, tem sido ela descrita com grande freqüência em comprometimentos oculares de bovinos, ovinos e, mais raramente, em outras espécies. PANCHBHAI et al. (1983) (13) assinalaram uma queratite infecciosa na Índia e o agente causal foi caracterizado como sendo a Moraxella bovis.
HUGHES & PUGH (1970) (10) assinalaram o isolamento de Moraxella em eqüinos portadores de conjuntivite e PANDE & SEKARIAH (1960) (14), descrevendo quadro de conjuntivite em caprinos, sugeriram a criação deuma nova espécie:Moraxella caprae.
TABATABAYI (1980) (17), assinalou a presença de Moraxella urethralis em ovelhas, alertando para o provável envolvimento de outras espécies animais e considerando que, face a uma possível quebra de resistência, esse agente bacteriano poderá agir como um oportunista assumindo características de patogenicidade.,
MATERIAL E MÉTODOS
Em uma criação de bubalinos, localizada no município de Regsitro, São Paulo, três animais adultos apresentaram fotofo ia e intenso lacrimejamenta acompanhado de bléfaro - espasmos. Ao exame clínico os olhos desses animais exibiam um quadro de conjuntivite com opacidade da córnea que se apresentava de tonalidade brancoazulada(Figuras 1 e 2), além de corrimento ocular de aspecto seroso.
Coletou-se amostras de materiais para exames bacteriológicos que constaram do próprio corrimento ocular que foram colocadas em tubos de ensaio esterilizados e submetidas a refrigeração em caixas isotérmicas. Essas amostras foram enviadas ao laboratório sob a suspeita clínica de querato conjuntivite infecciosa clássica, pelo que, foi adotada rotina bacteriológicano sentido de caracterização da presença de Moraxella bovis.
Inicialmente efetuou-se semeadura em caldo simples adicionado de 3% de hemosoro bovino, seguindo-se a incubação em estufa bacteriológica a 37ºC em condições aeróbicas. Após 24 horas do crescimento, foram realizadas semeaduras em ágar sangue de carneiro para isolamento do agente.
O crescimento obtido foi ressemeado em tubos contendo caldo soro e submetido às seguintes provas: utilização dos carboidratos e alcoois polihídricos; redução do nitrato; desaminação da fenilalanina e do triptofano; utilização da uréia e citrato; liquefação da gelatina; pesquisa da catalase e da oxidase; produção de gás sulfídrico; produção do indol e bacterioscopia para verificação de possível mobilidade em gota pendente, além de observação das características tintoriais frente à coloração de Gram. Em etapa posterior testou-se a capacidade da bactéria em estudo ser dotada da propriedade de acumular o poli-beta-hidroxibutirato, o que foi feito submetendo-se o agente à coloração específica pelo sudan negro e posterior contraste pela safranina para visualização de inclusões típicas dessa, substância no corpo bacilar; outrossim pesquisou-se a possibilidade de seu crescimento a 42ºC.
RESULTADOS
A seqüência de exames ofereceu os seguintes resultados: a bacterioscopia permitiu evidenciar bacilos curtos, delicados, Gram-negativos, desprovidos de cápsula, dispostos em pequenos aglomerados e por vezes, exibindo uma disposição aos pares, opostos por suas extremidades (Figura 3). A observação em gota pendente não revelou mobilidade. Nao ocorreu acidificação nem produção de gás a partir dos carboidratos e alcoois polihídricos. As provas de. catalase, assim como a de oxidase foram positivas, acitrato foi utilizado como fonte de carbono, e não ocorreu hemólise no cultivo em ágar sangue. As provas de urease e fenilalanina mostraram-se negativas. Não houve redução do nitrato nem a liquefação da gelatina e tão pouco a produção do indol e de gás súlfídrico. A prova de acúmulo do poli-beta-hidroxibutirato mostrou-se positiva pela evidenciação de pequenas inclusões coradas em negro dispersas no corpo bacilar. Outro aspecto observado foi apeculiaridade de crescer bem a 42ºC.
DISCUSSÃO E CONCLUSÕES
O presente relato clínico revestiu-se de dois aspectos peculiares: o primeiro com relação à espécie animal comprometida e o segundo quanto ao agente causal envolvido. Visto que os resultados das provas efetuadas divergiam parcialmente daqueles classicamente descritos para Moraxella bovis, os autores optaram pela pesquisa objetivando verificar a possibilidade de se tratar de outra espécie do gênero Moraxella.
Manuais para caracterização bacteriana (COWAN & STEEL, 1977 (7); BERGEY'S 1984) (3) trazem a Moraxella urethralis como um agente em situação deinsertae sedis o que não permite, segundo alguns, considerá-la definitivamente como um componente do gênero Moraxella, uma vez que alguns autores consideram esta bactéria como indistingüível de culturas lábeis de Mima polimoifa. Nesse aspecto, HENRIKSEN (1973) (9) concluiu que os nomes atribuídos a este gênero e suas espécies deveriam ser rejeitados, considerando-os como sinônimos das espéciesAcinetobacter e Moraxella. Outros, entretanto, discutem a validade dessa semelhança, o que condiciona uma situação dúbia, não permitindo assim definir de forma indiscutível a posição taxonômica desse agente bacteriano. HENRIKSEN(1973) (9) em detalhado trabalho estuda os gêneros Mora.xella, Acinetobacter e Mimeae e também enfoca esse aspecto taxonômico discutível.
Estudos sobre o "habitat" daMoraxella urethralis mostram que ela tem sido isolada de amostras de urina coletadas dos tratos urogenitais de fêmeas e tem sido considerada como um agente de baixa patogenicidade (HENRIKSEN, 1973 (9) e BERGEY'S, 1984)(3).
A ocorrência do ácido poli-beta-hidroxibutírico em outras bactérias gram-negativas, já tem sido demonstrada. FORSIT et ai. em 1958 publicaram o trabalho noqual estabeleceram porcentuais que varia de 6.5 a 57 do peso seco de cultivas em diferentes espécies bacterianas. A presença deste composto em Moraxella urethralis é um recurso na diferenciação das demais espécies desse mesmo gênero.
Outras espécies de Mora.xella têm sido objeto de estudos revelando igualmente baixo poder de patogenicidade como por ex_emplo a Mora.xella osloensis (BVRE & HENRIKSEN, 1967)(6); M. phenylpyruvica (BVRE & HENRIKSEN, 1967)(5) e M. kingii (HENRIKSEN & BVRE, 1968)(8). Estas bactérias parecem agir como verdadeiros agentes · oportunistas necessitando de uma prévia quebra de resistência para desempenhar seu papel patogênico. Nesse contexto, os mecanismos de agressão ao aparelho ocular como: poeira, traumas, substâncias irritantes, ação de insetos, exposição prolongada à radiação ultra violeta, notadamente da chamada onda média que se situa dentro dos Jimites aproximados de 270 a 320 nànômetros (OMS,1984), podem favorecer a ação da bactéria no estabelecimento da queratite infecciosa.
A presente citação constitui-se na primeira assinalação da querato conjuntivite infecciosa em búfalos, sendo igualmente o primeiro relato de Mora.xella urethralis como responsável por uma afecção ocular em nosso meio.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- 1 AXENFELD,T. Uber die chronische Diplobacillenconjunctivitis. Zentralblatt fuer Bakteriologie Parasitenkunde Infektionskrankheiten und Hygiene Erste Abteilung.,.21:(1-9), 1897.
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- 4 BIJSTERVELD, O.P.van, New Moraxella strains isolated from angular conjunctivitis. Appli. Microbial., 20: 405-8, 1970.
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