Open-access Avaliação Ecocardiográfica Tridimensional do Ventrículo Direito: Porque Devemos Utilizá-la

Resumo

A análise do Ventrículo Direito (VD) pela ecocardiografia bidimensional (2D) tem historicamente enfrentado desafios devido a complexa e peculiar geometria e orientação torácica desta câmara cardíaca. Neste cenário, a ecocardiografia tridimensional (3D) emergiu como uma ferramenta promissora para superar e descortinar tais limitações, permitindo uma quantificação acurada dos volumes e fração de ejeção, sem depender de suposições geométricas. Logo, a incorporação rotineira da ecocardiografia 3D no estudo do VD poderá redefinir paradigmas diagnósticos e prognósticos, promovendo uma abordagem mais precisa e personalizada na cardiologia moderna. E para sedimentar e destacar esta ferramenta, este artigo de revisão, que aborda os fundamentos técnicos da ecocardiografia 3D no estudo do VD, discute as vantagens sobre a ecocardiografia bidimensional convencional, sua validação frente a ressonância magnética cardíaca (RMC) e revisa aplicações clínicas relevantes, incluindo hipertensão pulmonar, insuficiência tricúspide funcional, cardiopatias congênitas e insuficiência cardíaca direita. Além disso, são apresentadas as limitações atuais da técnica, perspectivas futuras e recomendações práticas baseadas na literatura atual.

Palavras-chave
Ecocardiografia Tridimensional; Ventrículo Direito; Função Ventricular Direita; Ressonância Magnética Cardíaca

Abstract

Right ventricular (RV) assessment using two-dimensional (2D) echocardiography has historically faced significant challenges due to the chamber's complex and unique geometry and its thoracic orientation. In this context, three-dimensional (3D) echocardiography has emerged as a promising tool to overcome and illuminate these limitations, enabling accurate quantification of volumes and ejection fraction without relying on geometric assumptions. As a result, the routine incorporation of 3D echocardiography into RV evaluation may redefine diagnostic and prognostic paradigms, fostering a more precise and personalized approach in modern cardiology. To consolidate and highlight this technique, this review article explores the technical principles of 3D echocardiography for RV assessment, discusses its advantages over conventional 2D imaging, examines its validation against cardiac magnetic resonance (CMR), and reviews key clinical applications, including pulmonary hypertension, functional tricuspid regurgitation, congenital heart disease, and right-sided heart failure. Additionally, the article outlines current limitations of the technique, future perspectives, and practical recommendations based on contemporary literature.

Keywords
Three-dimensional Echocardiography; Right Ventricle; Ejection Fraction; Cardiac Magnetic Resonance Imaging


Vantagens e implicações clínicas da ecocardiografia tridimensional na avaliação do ventrículo direito. FEVD: fração de ejeção do ventrículo direito.

Introdução

O formato do Ventrículo Direito (VD) é complexo e, portanto, qualquer imagem que se obtenha pelo método bidimensional (2D) não consegue representá-lo de forma fidedigna. Na vista ecocardiográfica 2D apical, o VD parece triangular, enquanto na vista transversal e em condições normais, apresenta-se com formato em crescente. Sua arquitetura é composta por três componentes principais: via de entrada, que consiste na valva tricúspide (VT), cordas tendíneas e músculo papilar; miocárdio apical trabecular e infundíbulo ou cone, que se refere à região lisa da via de saída do miocárdio ventricular. Este último representando 25% a 30% de seu volume.1,2

As três partes do VD não estão no mesmo plano, como visto em um ecocardiograma 3D de um indivíduo normal (Figura 1). O trato de entrada se contrai mais cedo do que o infundíbulo, e a resposta desses três segmentos a medicamentos, estimulação simpática, sobrecarga de volume e pressão pode ser diferente. Por exemplo, estudos em animais e humanos sugeriram que a resposta inotrópica do infundíbulo pode ser maior do que a do trato de entrada.3

Figura 1
Imagem 3D exibindo partes do ventrículo direito em planos diferentes. A imagem evidencia a via de entrada, porção trabecular e infundíbulo em corte tridimensional, destacando as estruturas anatômicas. VT: valva tricúspide; VP: valva pulmonar; VD: ventrículo direito; AO: aorta; TP: tronco pulmonar; AD: átrio direito.

Além disso, as miofibrilas apresentam organização circunferencial no tecido subepicárdico e longitudinal no subendocárdico, sendo que a contração ocorre principalmente em sentido longitudinal. Isso explica em parte o porquê a análise da deformação longitudinal tem mostrado maior valor prognóstico e porque muitos estudos sobre a deformação e a taxa de deformação do VD se concentrarem nas deformações longitudinais, e não nas radiais ou circunferenciais. Além disso, a deformação longitudinal da parede livre do VD apresentou correlação mais forte com a fração de ejeção do ventrículo direito (FEVD), determinada por ressonância magnética (RM), do que com a alteração da área fracionada do VD (FAC) e a onda S’ do anel tricúspide lateral, em um grupo heterogêneo de pacientes.4

No cenário clínico, a avaliação acurada do ventrículo direito (VD), quando disponível, é essencial em diversas condições cardiovasculares, incluindo doenças pulmonares, cardiopatias congênitas, insuficiência cardíaca direita e após intervenções valvares. E como descrito anteriormente, devido à anatomia assimétrica, forma piramidal e um padrão de contração longitudinal peristáltico, sua análise torna-se dificultada por métodos ecocardiográficos convencionais bidimensionais (2D).5,6 Além disso, a variabilidade interobservador e a dependência de planos ortogonais limitam a reprodutibilidade e acurácia da ecocardiografia 2D na quantificação da função do VD.7

Logo, a ecocardiografia tridimensional (3D) emerge como ferramenta fundamental no entendimento desta complexa câmara cardíaca, representando um avanço significativo nesse contexto, oferecendo medidas volumétricas diretas e uma melhor caracterização de sua mecânica contrátil. E com o desenvolvimento de softwares dedicados e transdutores com maior resolução temporal e espacial, tornou-se possível integrar a avaliação do VD de forma mais robusta e confiável na prática clínica (Figura central).1,8

A seguir apresentamos os princípios técnicos da ecocardiografia 3D na análise do VD, revisamos suas aplicações clínicas mais relevantes e discutimos suas limitações, conforme as recomendações da literatura atual.9,10

Fundamentos Técnicos da Ecocardiografia 3D do Ventrículo Direito

A obtenção adequada da imagem tridimensional do VD requer atenção especial a aspectos técnicos específicos:

  • Aquisição de volume total (full-volume): idealmente com apneia, em quatro ou seis ciclos cardíacos para maior resolução temporal, usando transdutores matrix-array, na janela apical focada do VD ou na janela paraesternal de via de entrada.

  • Taxa de frames (volume rate): deve-se buscar um equilíbrio entre alta resolução temporal (>20 volumes/s) e cobertura anatômica completa.

  • Visualização otimizada da valva tricúspide: é crucial alinhar os planos para incluir anel tricúspide, ápice do VD e toda a cavidade.

Para a visualização tridimensional da valva tricúspide por via transesofágica, deve-se procurar obter imagens com zoom tridimensional no esôfago distal, de forma a deixar a valva com uma orientação mais perpendicular à fonte emissora, otimizando-se a resolução espacial.

Softwares modernos utilizam algoritmos de rastreamento automático (auto-contouring) baseados em aprendizado de máquina para quantificação do volume diastólico final (VDF), volume sistólico final (VSF) e FEVD visto na Figura 2.3,11,12

Figura 2
Aquisição e reconstrução tridimensional do ventrículo direito em tempo real. O painel superior mostra o volume total obtido a partir da janela apical. O painel inferior apresenta a reconstrução multiplanar ortogonal, com delimitação automática da borda endocárdica para cálculo de volume e fração de ejeção.

Avaliação dos Volumes e Fração de Ejeção do Ventrículo Direito

A validação clínica da determinação de volumes ventriculares e FEVD por ressonância magnética está bem estabelecida.13 Na ecocardiografia tridimensional, os dados experimentais in vitro e em estudos clínicos iniciais confirmam boa precisão na quantificação de volume e FEVD.1 Contudo, os volumes do VD derivados da ecocardiografia 3D apresentaram subestimação consistente em relação à RMC, incluindo uma diferença média de FEVD que pode chegar a −0,9%.13 Por isso, alguns autores recomendam o ponto de corte de normalidade para disfunção sistólica do VD quando FEVD 3D for inferior a 45%.14,15

Ao calcular volumes e FEVE pela ecocardiografia 3D, estudos demonstraram diferenças significativas em relação ao gênero: o volume diastólico final absoluto foi maior em homens (129 ± 25 mL vs. 102 ± 33 mL em mulheres; P < 0,01). No entanto, ao indexar por massa corporal magra (mas não por área de superfície corporal ou altura), essa diferença desapareceu (2,1 ± 0,5 vs. 2,2 ± 0,4 mL/kg; p = NS)(8). A faixa de valores normais para homens é de 87 mL/m2 para o VDF; 44 mL/m2 para o VSF e para mulheres 74 mL/m2 para o VDF; 36 mL/m2 para o VSF.15

Vantagens da Ecocardiografia 3D em relação a 2D na Avaliação do Ventrículo Direito

Devido a geometria complexa do VD, a acurácia da ecocardiografia 2D é limitada para medidas de volumes, levando a subestimação dos volumes e dependência significativa da orientação dos planos de corte.5 Por outro lado, a ecocardiografia 3D permite aquisição volumétrica completa do VD, reconstrução anatômica real e quantificação sem pressupostos geométricos, com excelente correlação com RMC (r ≈ 0,80–0,92) e menor viés sistemático em comparação à 2D.16

Do ponto de vista clínico, a superioridade da ecocardiografia 3D em relação à ecocardiografia 2D é mais evidente em situações de remodelamento acentuado do VD (por exemplo: hipertensão pulmonar, insuficiência tricúspide funcional grave e cardiopatias congênitas), nas quais a distorção anatômica torna o modelo geométrico da ecocardiografia 2D ainda menos representativo (Tabela 1).17,18 No entanto, a ecocardiografia 3D ainda exige maior qualidade de janela acústica e pode ser limitada por arritmias e baixa taxa de frames, especialmente em pacientes instáveis.14

Tabela 1
Comparação entre Ecocardiografia 2D e 3D na Avaliação do Ventrículo Direito

Ecocardiografia 3D vs. RMC do VD: acurácia, aplicabilidade clínica e papel da IA

Como já citado, a ressonância magnética cardíaca (RMC) é amplamente reconhecida como referência na quantificação dos volumes e da FEVD devido à sua alta reprodutibilidade e independência da janela acústica.13 No entanto, a ecocardiografia 3D emergiu como uma alternativa promissora, especialmente em contextos em que a RMC não está disponível, é contraindicada ou inviável.

Apesar da superioridade da RMC em termos de acurácia absoluta, a ecocardiografia 3D oferece vantagens práticas que a tornam ideal para uso à beira-leito, em pacientes críticos e em avaliações seriadas. Em condições como insuficiência cardíaca direita, hipertensão pulmonar ou durante o seguimento de terapias valvares, a ecocardiografia 3D permite rápida obtenção de parâmetros prognósticos, como volumes e FEVD, e área do anel tricúspide em tempo real.19,20

Além disso, softwares com inteligência artificial vêm aprimorando a acurácia da ecocardiografia 3D ao reduzir a variabilidade interobservador, encurtar o tempo de pós-processamento e melhorar a consistência das medidas, aproximando seus resultados ainda mais dos da RMC19 (Tabela 2).

Tabela 2
Comparação entre ecocardiografia 3D e RMC na avaliação do ventrículo direito

Comparação prognóstica da função sistólica do VD: análise da FEVD pela ecocardiografia 3D, strain longitudinal da parede livre do VD pela ecocardiografia 2D e RMC

A determinação de prognóstico a partir da avaliação da função sistólica do VD tradicionalmente utilizava parâmetros convencionais, derivados da ecocardiografia 2D, como excursão do anel tricúspide (TAPSE) e variação da área (FAC). No entanto, técnicas modernas como ecocardiografia 3D, strain longitudinal da parede livre pela técnica de speckle tracking bidimensional (2D VDSLPL) e ressonância magnética cardíaca (RMC) demonstram maior precisão e poder prognóstico.

A. Validação e prognóstico: FE 3D vs. 2D STLPL VD vs. RMC
  • Em pacientes com cardiomiopatia dilatada, a FE 3D mostrou forte associação com eventos adversos cardíacos, superando a relevância prognóstica do 2D VDSLPL em análise multivariada; a FE 3D permaneceu o único preditor independente após ajuste por variáveis clínicas e ecocardiográficas (cut-off 43,4 %, AUC = 0,76).21,22

  • Outras evidências apontam que o FE 3D pode oferecer valor prognóstico adicional e incremental sobre o strain 2D e outros parâmetros convencionais, incluindo em populações como pacientes com COVID-19 grave.21

  • Em Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção preservada (ICFEp), o strain longitudinal da parede livre do VD, pela técnica de speckle tracking 3D, mostrou valor prognóstico equivalente a fração de ejeção pelo 3D e superior ao 2D STLPL VD (HR 5,73 vs. 3,17 e 3,47).21

B. RMC e correlação prognóstica

Embora a RMC permaneça o padrão de referência para quantificação volumétrica do VD, estudos comparativos mostram que a FE 3D se correlaciona bem com a fração de ejeção medida pela RMC, com excelente reprodutibilidade, podendo ser utilizada como alternativa para determinação prognóstica em muitos contextos clínicos23,24 (Tabela 3).

Tabela 3
Quadro comparativo resumido

Aplicações Clínicas Relevantes da Ecocardiografia 3D do Ventrículo Direito

A seguir, descrevem-se as principais aplicações clínicas da ecocardiografia 3D do VD (Tabelas 4 e 5).

Tabela 4
Principais aplicações clínicas da ecocardiografia 3D do ventrículo direito
Tabela 5
Parâmetros 3D do ventrículo direito e sua interpretação
A. Hipertensão Pulmonar

Na Hipertensão Pulmonar (HP), a função do VD é o principal determinante prognóstico. A ecocardiografia 3D permite quantificar com maior precisão a fração de ejeção do Ventrículo Direito (FEVD). Uma FEVD < 45% por 3D se associa a maior risco de descompensação e mortalidade.17,25,19

B. Insuficiência Tricúspide Funcional

A ecocardiografia 3D permite avaliar o mecanismo exato da Insuficiência Tricúspide (IT), incluindo dilatação e geometria do anel tricúspide e músculos papilares (Figura 3 e 4). A reconstrução 3D possibilita mensurar a área do orifício regurgitante efetivo (EROA) com mais acurácia do que o método PISA 2D. Dados importantes para o planejamento de intervenções percutâneas, tais como a separação entre as cúspides, a altura do tenting valvar e a interferência de eletrodos na função valvar também podem ser determinados de forma mais acurada por meio das reconstruções tridimensionais.19

Figura 3
Imagem evidenciando dilatação anteroposterior do anel tricúspide vista à ecocardiografia bidimensional e tridimensional (setas amarelas). Acima ilustração mostrando disposição anatômica do anel.
Figura 4
Reconstrução multiplanar tridimensional da valva tricúspide por ecocardiografia 3D, evidenciando o modelo espacial do anel com pontos anatômicos de referência (ápice, septo, parede livre e comissuras). Os cortes ortogonais (LAX 4 câmaras, LAX 2 câmaras e SAX transverso) permitem o ajuste preciso do contorno e a análise detalhada da geometria valvar.
C. Cardiopatias Congênitas

Em cardiopatias congênitas como tetralogia de Fallot, comunicação interventricular ou anomalia de Ebstein, a ecocardiografia 3D fornece avaliação volumétrica precisa em geometrias atípicas, onde a ecocardiografia 2D falha. Isso é fundamental no planejamento cirúrgico e no seguimento longitudinal.26,27

D. Insuficiência Cardíaca com Disfunção de VD

A disfunção do VD na Insuficiência Cardíaca com Fração de Ejeção preservada (ICFEp) ou reduzida (ICFEr) está associada a pior prognóstico. A ecocardiografia 3D permite detectar precocemente redução da FEVD, mesmo antes de alterações significativas no TAPSE ou na velocidade da onda S’ do anel tricúspide.28

E. Intervenções Estruturais e Monitoramento Pós-Procedimento

Procedimentos como implante percutâneo de válvula pulmonar, clipagem tricúspide e implante percutâneo de válvula tricúspide, e oclusão de defeitos do septo interatrial requerem avaliação pré e pós-procedimento do VD, da valva tricúspide e dos diâmetros dos defeitos septais o que é realizado com maior acurácia pela ecocardiografia 3D em tempo real.29

Além disso, durante os procedimentos para tratamento da insuficiência tricúspide, é essencial uma adequada demonstração anatômica da valva, bem como da interação entre as próteses e o tecido valvar, tornando-se essencial a utilização da ecocardiografia tridimensional transesofágica.

Limitações Técnicas e Perspectivas Futuras

Apesar dos avanços significativos, a ecocardiografia 3D ainda enfrenta desafios técnicos que limitam sua aplicação rotineira em todos os cenários clínicos. No entanto, o desenvolvimento de novas tecnologias e algoritmos de inteligência artificial tem impulsionado sua evolução contínua.

A. Resolução Temporal e Espacial

Uma das limitações mais reconhecidas da ecocardiografia 3D em relação à 2D é a menor resolução temporal. A aquisição com múltiplos batimentos é necessária para melhorar a resolução temporal, especialmente quando a aquisição envolve volumes amplos. Entretanto, esse tipo de aquisição pode introduzir artefatos em pacientes não cooperativos, com instabilidade hemodinâmica, taquiarritmias ou padrão respiratório irregular.14 Além disso, a resolução espacial ainda é inferior à da ressonância magnética, podendo dificultar a delimitação endocárdica em VD com trabeculações intensas ou anatomia distorcida.30,31

B. Dependência da Janela Acústica

A ecocardiografia 3D continua limitada pela qualidade da janela acústica. Em pacientes com DPOC, obesidade ou em ventilação mecânica, a imagem obtida pode ser inadequada para reconstrução precisa dos volumes do VD. Nesses casos, mesmo com softwares avançados, a análise pode ser inviável ou imprecisa.7,32

C. Variabilidade e Curva de Aprendizado

Embora a acurácia da ecocardiografia 3D tenha sido demonstrada em estudos multicêntricos, ainda existe variabilidade interobservador significativa em centros com menor experiência. A curva de aprendizado para aquisição, reconstrução e interpretação é mais longa que a da ecocardiografia 2D, exigindo treinamento específico.33

D. Tempo de Processamento e Workflow

O tempo de pós-processamento, apesar de reduzido com os softwares modernos, ainda representa uma barreira prática. Em ambientes de alta rotatividade como UTIs ou ambulatórios, o uso rotineiro pode ser dificultado pela necessidade de estações de trabalho com softwares específicos e operadores treinados.16

E. Perspectivas Futuras

As inovações mais promissoras no campo incluem:

  • Integração com inteligência artificial (IA): A integração da IA na ecocardiografia tem acelerado a quantificação 3D do ventrículo direito: Genovese et al. demonstraram que softwares baseados em machine learning automatizam o contorno do VD, reduzindo a variabilidade interobservador e acelerando o tempo de análise até 15 segundos, sem edição manual, em cerca de 32 % dos casos, com excelente reprodutibilidade.11 Uma revisão recente mostrou que a IA impacta todas as etapas do fluxo de trabalho — desde a aquisição automática de cortes padronizados até a interpretação funcional automatizada, promovendo maior eficiência clínica.34

  • Ecocardiografia portátil com 3D (handheld ultrasound devices-HUDs): Embora a maioria dos estudos com dispositivos portáteis foque no ventrículo esquerdo, os resultados suportam a viabilidade da quantificação volumétrica automatizada do ventrículo direito, utilizando inteligência artificial ou algoritmos integrados em dispositivos portáteis. Isso reforça a discussão sobre o uso da ecocardiografia 3D no contexto clínico de emergência a beira-leito e em UTI.35

  • Fusão multimodal com RM e TC: A ecocardiografia 3D tem avançado além da quantificação isolada do VD, atuando como plataforma de integração multimodal com RMC e TC, especialmente em cenários complexos de cardiopatias congênitas e intervenções percutâneas. Uma revisão recente destaca essa utilidade clínica emergente, enfatizando a combinação de dados anatômicos e funcionais de múltiplas modalidades para planejamento e seguimento.36

  • Avaliação de deformação tridimensional (strain 3D): O speckle tracking tridimensional, uma tecnologia relativamente recente na ecocardiografia 3D, foi desenvolvido para permitir a análise simultânea da deformação miocárdica e a quantificação de volumes e fração de ejeção do Ventrículo Direito (VD) em um único conjunto de dados volumétricos.30 Além da quantificação global, o strain 3D possibilita a avaliação do movimento regional da parede do VD, revelando padrões de deformação segmentar heterogêneos — achados que podem ter relevância prognóstica e auxiliar na compreensão da mecânica ventricular em diferentes contextos clínicos. Essa abordagem, portanto, representa um avanço potencialmente útil para complementar a análise funcional do VD, especialmente em doenças que cursam com remodelamento complexo.30

  • Modelagem Tridimensional do VD: Integração Técnica e Aplicação Clínica Avançada: modelagem tridimensional do VD, com base na ecocardiografia 3D, representa um salto tecnológico na avaliação morfofuncional cardíaca. Com algoritmos de segmentação e reconstrução volumétrica, é possível construir modelos anatômicos precisos do VD — incluindo suas regiões de entrada, corpo e via de saída — sem depender de suposições geométricas bidimensionais. Essas reconstruções têm alta fidelidade, com excelente acurácia para volumes e FEVD.37,16 Além de reproduzir a anatomia com alta precisão, esses modelos permitem gerar mapas segmentares de strain, possibilitando a análise do comportamento regional do miocárdio e identificação de discinesias ou áreas com alteração contrátil típica de cardiopatias congênitas ou disfunções valvares.38 O uso destes métodos em pacientes com sobrecarga de volume ou pressão — por exemplo, em hipertensão pulmonar ou regurgitação valvar — já demonstrou utilidade na caracterização geométrica e funcional, com impacto direto na estratificação de risco e planejamento terapêutico.39 No campo da educação médica e planejamento cirúrgico, modelos 3D têm sido integrados em ferramentas de realidade aumentada e sistemas de impressão 3D, possibilitando simulação anatômica personalizada para treinamento e para suporte à decisão interprofissional em casos complexos.40

  • Auxílio no implante de dispositivos de assistência ventricular: Em uma publicação recente, a avaliação ecocardiográfica tridimensional dos volumes e formato do VE e do VD é relatada como útil para descrever o impacto do dispositivo de assistência ventricular esquerda (DAVE) no coração.25 A FEVD e a deformação da parede livre do VD derivadas da ecocardiografia tridimensional foram associadas à insuficiência do VD e ao desfecho a longo prazo em pacientes submetidos a implante de DAVE. Esses parâmetros têm o potencial de serem preditores de insuficiência cardíaca direita na cirurgia de DAVE.41

Conclusões

A ecocardiografia tridimensional representa uma das inovações mais relevantes na avaliação funcional e anatômica do VD na prática clínica moderna. Ao superar limitações inerentes à ecocardiografia bidimensional, especialmente relacionadas à complexidade geométrica do VD, o método oferece quantificação volumétrica direta, reprodutível e com excelente correlação com a ressonância magnética cardíaca — padrão de referência para avaliação da função e volume ventricular.

Sua aplicação clínica abrange desde o diagnóstico precoce da disfunção ventricular direita até o seguimento de terapias estruturais e a estratificação de risco em diversas cardiopatias, com parâmetros como fração de ejeção, volume sistólico final e área do anel tricúspide demonstrando valor prognóstico consistente.

Apesar de limitações técnicas ainda existentes, como menor resolução temporal, dependência de janela acústica e necessidade de curva de aprendizado, os avanços em inteligência artificial, automação da análise e miniaturização dos transdutores abrem perspectivas promissoras para expansão de seu uso em larga escala.

Diante disso, recomenda-se fortemente a incorporação progressiva da ecocardiografia 3D na rotina de laboratórios de imagem cardiovascular, especialmente na avaliação do VD, como ferramenta diagnóstica e prognóstica de primeira linha. O domínio técnico e interpretativo desse método será, nos próximos anos, um diferencial importante na prática do ecocardiografista moderno.

  • Fontes de Financiamento
    O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.
  • Vinculação Acadêmica
    Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.
  • Aprovação Ética e Consentimento Informado
    Este artigo não contém estudos com humanos ou animais realizados por nenhum dos autores.
  • Uso de Inteligência Artificial
    Os autores não utilizaram ferramentas de inteligência artificial no desenvolvimento deste trabalho.

Agradecimentos

Os autores agradecem às equipes do laboratório de ecocardiografia do INCOR e do grupo Fleury pelo suporte técnico. Agradecem também aos colegas que contribuíram com sugestões e revisões críticas que aprimoraram a qualidade do manuscrito.

Este estudo não recebeu apoio financeiro direto de agências de fomento públicas ou privadas.

Disponibilidade de Dados

Conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.

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Editado por

  • Editor responsável pela revisão:
    Marcelo Tavares

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    10 Abr 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    20 Nov 2025
  • Revisado
    27 Nov 2025
  • Aceito
    28 Nov 2025
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