Open-access Estimativa da Geometria da Bifurcação do Tronco da Coronária Esquerda: Os Modelos Geométricos são Confiáveis em Artérias Doentes?

Resumo

Fundamento:  A caracterização precisa da geometria das bifurcações coronárias é essencial para o planejamento e a otimização das intervenções coronárias percutâneas. Embora vários modelos geométricos tenham sido propostos para prever as dimensões das bifurcações coronárias, seu desempenho em vasos doentes permanece insuficientemente explorado.

Objetivos:  Avaliar a acurácia e a precisão de três modelos geométricos de predição (Murray, Finet e Huo–Kassab) na estimativa dos diâmetros da bifurcação do tronco da coronária esquerda (TCE), utilizando a angiografia coronária quantitativa (QCA) e o ultrassom intracoronário (USIC) como padrões de referência.

Métodos:  Este estudo retrospectivo, unicêntrico, incluiu 13 pacientes submetidos à avaliação por USIC do TCE, da artéria descendente anterior e da artéria circunflexa esquerda. Os diâmetros da bifurcação previstos por cada modelo geométrico foram comparados com as medidas obtidas por QCA e USIC. Acurácia, precisão e razões dos modelos foram calculadas para cada comparação. A concordância entre os valores previstos e os medidos foi adicionalmente avaliada por meio da análise de Bland–Altman.

Resultados:  Quando comparados com a QCA, os modelos de Murray e Huo–Kassab demonstraram maior acurácia (0,06 mm e −0,03 mm, respectivamente) e precisão semelhante (0,95 mm para ambos) em relação ao modelo de Finet (acurácia −0,35 mm, precisão 0,96 mm). Nas comparações com o USIC, o modelo de Murray apresentou o melhor desempenho, com acurácia de −0,49 mm e precisão de 0,84 mm. A análise de Bland–Altman indicou melhor concordância para o modelo de Murray, particularmente quando o USIC foi utilizado como padrão de referência.

Conclusões:  Nesta população de pacientes com bifurcações do TCE moderadamente doentes, os modelos de Murray e Huo–Kassab forneceram previsões geométricas mais acuradas do que o modelo de Finet. De modo geral, o modelo de Murray demonstrou o melhor desempenho, especialmente nas avaliações baseadas em USIC.

Palavras-chave:
Vasos Coronários; Doença da Artéria Coronariana; Angiografia Coronária

Abstract

Background:  Accurate characterization of coronary bifurcation geometry is essential for planning and optimizing percutaneous coronary interventions. Although several geometric models have been proposed to predict coronary bifurcation dimensions, their performance in diseased vessels remains insufficiently explored.

Objective:  To assess the accuracy and precision of three geometric prediction models (Murray, Finet, and Huo–Kassab) in estimating left main coronary artery (LMCA) bifurcation diameters, using quantitative coronary angiography (QCA) and intravascular ultrasound (IVUS) as reference standards.

Methods:  This retrospective, single-center study included 13 patients undergoing IVUS evaluation of the LMCA, left anterior descending artery, and left circumflex artery. Bifurcation diameters predicted by each geometric model were compared with measurements obtained by QCA and IVUS. Accuracy, precision, and model ratios were calculated for each comparison. Agreement between predicted and measured values was further assessed using Bland–Altman analysis.

Results:  When compared with QCA, the Murray and Huo–Kassab models demonstrated higher accuracy (0.06 mm and −0.03 mm, respectively) and similar precision (0.95 mm for both) than the Finet model (accuracy −0.35 mm, precision 0.96 mm). In comparisons with IVUS, the Murray model showed the best performance, with an accuracy of −0.49 mm and a precision of 0.84 mm. Bland–Altman analysis indicated superior agreement for the Murray model, particularly when IVUS was used as the reference standard.

Conclusions:  In this population of patients with moderately diseased LMCA bifurcations, the Murray and Huo–Kassab models provided more accurate geometric predictions than the Finet model. Overall, the Murray model demonstrated the best performance, especially in IVUS-based assessments.

Keywords:
Coronary Vessels; Coronary Artery Disease; Coronary Angiography


ADAE: artéria descendente anterior esquerda; CxE: artéria circunflexa esquerda; QCA: angiografia coronária quantitativa; TCE: tronco da coronária esquerda; USIC: ultrassom intracoronário.

Introdução

A configuração geométrica das bifurcações das artérias coronárias desempenha um papel central na fisiologia coronária e na progressão da doença aterosclerótica. A bifurcação do tronco da coronária esquerda (TCE) é particularmente relevante, não apenas por sua contribuição crítica para a perfusão miocárdica do ventrículo esquerdo, mas também por sua suscetibilidade ao acúmulo de placa e a distúrbios relacionados ao fluxo.1

Diversos modelos geométricos foram propostos para descrever a relação entre os diâmetros dos vasos nas bifurcações coronárias, incluindo aqueles desenvolvidos por Murray, Finet e Huo–Kassab.24 Esses modelos diferem em seus fundamentos teóricos. Os modelos de Murray e Huo–Kassab baseiam-se em princípios da dinâmica dos fluidos e da otimização energética, enquanto o modelo de Finet se apoia em uma relação linear derivada da geometria fractal das artérias coronárias epicárdicas.

A caracterização precisa da geometria das bifurcações é essencial tanto para a avaliação diagnóstica quanto para o planejamento de procedimentos, especialmente nas intervenções coronárias percutâneas envolvendo o TCE. Nesse contexto, o ultrassom intracoronário (USIC) fornece uma quantificação mais precisa das dimensões do lúmen e do vaso em comparação com técnicas angiográficas convencionais, como a angiografia coronária quantitativa (do inglês QCA).58

Apesar das vantagens do imageamento por USIC, sua disponibilidade não é universal. Como resultado, os modelos geométricos baseados em angiografia frequentemente representam a única ferramenta prática disponível para os cardiologistas intervencionistas estimarem as dimensões dos vasos. Embora esses modelos tenham sido amplamente estudados, inclusive com comparações entre eles, sua acurácia em vasos doentes, que impacta diretamente sua aplicabilidade na prática clínica real, permanece incompletamente definida.911

Este estudo teve como objetivo avaliar a acurácia e a precisão dos modelos de Murray, Finet e Huo–Kassab na estimativa da geometria da bifurcação do TCE, utilizando tanto a angiografia quanto o USIC em bifurcações ateroscleróticas do TCE.

Métodos

Desenho do estudo

Este estudo retrospectivo, unicêntrico, foi delineado para comparar três modelos geométricos de predição de bifurcações coronárias com medidas obtidas por QCA e USIC da bifurcação do TCE. O protocolo do estudo foi aprovado pelo comitê de ética local, e o consentimento informado por escrito foi obtido de todos os participantes.

Seleção de pacientes

O banco de dados institucional foi analisado para identificar pacientes submetidos à avaliação por USIC da artéria coronária esquerda. Os pacientes foram incluídos de acordo com critérios angiográficos e de USIC previamente definidos.

Os critérios de inclusão por QCA foram: i) o TCE e os segmentos proximais da artéria descendente anterior esquerda (ADAE) e da artéria circunflexa esquerda (CxE), incluindo a bifurcação distal, deveriam estar claramente visíveis em pelo menos uma projeção adequada para análise por QCA; ii) deveria estar disponível, para análise, um segmento proximal com comprimento mínimo de 5 mm, definido como o segmento proximal à emergência de quaisquer ramos laterais e sem estenose significativa (< 50% pela avaliação visual), em todos os três vasos; e iii) os segmentos selecionados não poderiam ter sido submetidos a qualquer manipulação prévia, incluindo dilatação com balão ou implante de stent.

Os critérios de inclusão por USIC foram: i) avaliação por USIC do TCE, ADAE e CxE realizada durante o mesmo procedimento; ii) uso de pullback automatizado em todos os vasos; iii) qualidade de imagem adequada para análise; e iv) disponibilidade de um segmento proximal, antes da emergência de ramos laterais, que não tivesse sido submetido a qualquer manipulação prévia, incluindo dilatação com balão ou implante de stent.

Angiografia coronária quantitativa e ultrassom intracoronário

A QCA e o USIC foram realizados de acordo com a prática clínica padrão. As imagens por QCA foram adquiridas em múltiplas projeções após a administração intracoronária de nitratos. O imageamento por USIC foi realizado utilizando-se o cateter OptiCross 40 MHz (Boston Scientific, EUA) ou o cateter Eagle Eye 20 MHz (Philips Volcano, EUA), com pullback automatizado após heparinização completa e administração intracoronária de nitratos.

Análises de imagem

As análises por QCA foram realizadas utilizando o software QAngio XA versão 7.3 (Medis Medical Imaging System BV, Países Baixos). As medidas foram obtidas com o módulo dedicado para bifurcações, de acordo com as recomendações do documento de consenso do European Bifurcation Club.12 O modelo em T, que é a opção padrão e recomendada para a maioria das bifurcações coronárias, foi utilizado na maioria dos casos, enquanto o modelo em Y foi aplicado apenas quando ambos os ramos distais apresentavam diâmetros semelhantes. Após o traçado dos contornos da bifurcação, os diâmetros de referência foram obtidos para cada vaso. Para o TCE, os diâmetros de referência não foram medidos dentro da bifurcação distal. Para a ADAE e a CxE, os diâmetros de referência foram restritos aos segmentos proximais, antes da emergência de ramos laterais, conforme definido pelos critérios de inclusão.

As análises por USIC foram realizadas utilizando o software QIvus Research Edition versão 3.1 (Medis Medical Imaging System BV, Países Baixos). As medidas foram conduzidas de acordo com documentos de consenso previamente publicados sobre USIC.13,14 A região de interesse (do inglês ROI) de cada vaso foi definida com base nos critérios de inclusão e correspondeu ao mesmo segmento utilizado para as medidas dos diâmetros de referência por QCA (Figura 1). A detecção semiautomatizada dos contornos foi utilizada para delinear os limites do vaso e do lúmen, com ajustes manuais quando necessário. O software gerou automaticamente os seguintes parâmetros para cada ROI selecionada: i) áreas mínima, máxima e média do lúmen e do vaso; ii) carga de placa mínima, máxima e média; iii) diâmetros mínimos, máximos e médios derivados das áreas do lúmen e do vaso; e iv) estenose mínima, máxima e média de área e de diâmetro.

Figura 1
Medidas por QCA e USIC realizadas na mesma região de interesse. A) Análise por QCA da bifurcação do tronco da coronária esquerda, com a ROI do diâmetro de referência destacada em amarelo; B) Vista longitudinal por USIC mostrando a mesma ROI da análise por QCA, com os contornos do lúmen delineados em vermelho; marcadores azuis delimitam o segmento que contém a maior área luminal, destacada em amarelo; C) Vista transversal por USIC no local da maior área luminal, com os contornos do lúmen delineados em vermelho. QCA: angiografia coronária quantitativa; ROI: região de interesse; USIC: ultrassom intracoronário.

As análises por QCA e USIC foram realizadas por dois operadores experientes, cegados entre si quanto aos resultados e a todos os dados clínicos. Análises repetidas foram realizadas por um dos operadores 30 dias após as medições iniciais.

Modelos geométricos de predição

Os modelos de Murray, Finet e Huo–Kassab foram utilizados para estimar a geometria das bifurcações coronárias. O diâmetro do vaso principal (D0) foi calculado a partir dos diâmetros dos ramos filhos (D1 and D2) utilizando as seguintes equações:

Murray:

D 0 3 = ( D 1 3 + D 2 3 )

Finet:

D 0 = 0 . 6 7 8 × D 1 + D 2

Huo–Kassab:

D 0 7 / 3 - D 0 7 / 3 + D 2 7 / 3

No presente estudo, D0, D1 e D2 corresponderam, respectivamente, aos diâmetros do TCE, da ADAE e da CxE. Para as comparações com a QCA, foram utilizados os diâmetros de referência. Para as comparações com o USIC, foram utilizados os diâmetros médios do lúmen derivados da área.

Análise estatística

As análises estatísticas foram realizadas utilizando o software R versão 4.5.0 (R Foundation for Statistical Computing, Viena, Áustria). As variáveis categóricas são apresentadas como contagens e porcentagens, e as variáveis contínuas são expressas como média ± desvio padrão. Um valor de p < 0,05 foi considerado estatisticamente significativo.

A acurácia, a precisão e a razão do modelo foram calculadas para cada modelo geométrico. A acurácia foi definida como a diferença média entre os diâmetros observados e previstos do TCE, expressa em milímetros. A precisão foi definida como o desvio padrão dessa diferença. A razão do modelo foi definida como a razão entre os diâmetros observados e previstos do TCE, sendo que valores mais próximos de 1 indicam melhor desempenho do modelo.

A concordância entre as medidas observadas e previstas foi avaliada por meio da análise de Bland–Altman. Para cada comparação, foram calculadas a diferença média e os limites de concordância de 95%.

Resultados

Um total de 81 pacientes submetidos à avaliação por USIC do TCE, da ADAE e da CxE durante o mesmo procedimento, entre setembro de 2017 e janeiro de 2022, foi identificado no banco de dados institucional. Desses, 13 pacientes atenderam a todos os critérios de inclusão. Os principais achados estão resumidos na Figura Central. A maioria dos pacientes foi excluída devido à presença de doença vascular grave sem um segmento proximal analisável ou à existência de stents previamente implantados no segmento de interesse, o que inviabilizou uma análise confiável. As características basais da população do estudo são apresentadas na Tabela 1.

Tabela 1
Características basais dos pacientes incluídos (n = 13)

Reprodutibilidade das medidas intraobservador e interobservador

Para a QCA, a acurácia e a precisão intraobservador foram de −0,01 mm e 0,38 mm, respectivamente (p = 0,92). Para o USIC, a acurácia e a precisão intraobservador foram de −0,02 mm e 0,26 mm, respectivamente (p = 0,79). A acurácia e a precisão interobservador foram de 0,06 mm e 0,67 mm para a QCA (p = 0,75) e de 0,02 mm e 0,45 mm para o USIC (p = 0,87).

Comparação entre angiografia coronária quantitativa e ultrassom intracoronário

Um total de 39 medidas pareadas comparando os diâmetros do TCE, da ADAE e da CxE obtidos por USIC e QCA foi analisado. Quando o USIC foi comparado à QCA, a acurácia e a precisão foram de 0,27 mm e 0,71 mm, respectivamente, com um viés positivo de 11,4% observado para as medidas derivadas do USIC. A análise de Bland–Altman demonstrou um viés positivo consistente das medidas por USIC em relação à QCA (Figura 2).

Figura 2
Gráfico de Bland–Altman comparando medidas de diâmetro por USIC e QCA. Comparação das medidas de diâmetro obtidas por USIC e QCA no tronco da coronária esquerda, na artéria descendente anterior esquerda e na artéria circunflexa esquerda. A linha azul contínua representa a diferença média entre as medidas por USIC e QCA, e as linhas vermelhas tracejadas indicam os limites de concordância de 95%. USIC: ultrassom intracoronário; QCA: angiografia coronária quantitativa.

Modelos geométricos comparados com a angiografia coronária quantitativa

Um total de 13 diâmetros do TCE previstos pelos modelos de Murray, Finet e Huo–Kassab foi comparado com as medidas obtidas por QCA. Os modelos de Murray e Huo–Kassab apresentaram desempenho semelhante, com valores de acurácia e precisão de 0,06 mm e 0,95 mm, e −0,03 mm e 0,95 mm, respectivamente. O modelo de Finet demonstrou o pior desempenho, com acurácia de −0,35 mm e precisão de 0,96 mm. Entre os três modelos, o modelo de Huo–Kassab apresentou a razão do modelo mais próxima de 1 (Tabela 2).

Tabela 2
Comparação entre medidas previstas e observadas por análise coronária quantitativa da bifurcação do tronco da coronária esquerda utilizando diferentes modelos geométricos

Modelos geométricos comparados com o ultrassom intracoronário

Um total de 13 medidas do TCE baseadas em USIC foi analisado. As comparações entre as medidas obtidas por USIC e as predições derivadas dos três modelos geométricos estão resumidas na Tabela 3. O modelo de Murray apresentou a maior acurácia e precisão (−0,49 mm e 0,84 mm, respectivamente). A análise de Bland–Altman confirmou o desempenho superior do modelo de Murray em comparação com os demais modelos, caracterizado por um pequeno viés, uma diferença média próxima de 0 e limites de concordância mais estreitos (Figura 3).

Tabela 3
Comparação entre medidas previstas e observadas por ultrassom intracoronário da bifurcação do tronco da coronária esquerda utilizando diferentes modelos geométricos
Figura 3
Gráficos de Bland–Altman comparando diâmetros medidos e previstos na bifurcação do tronco da coronária esquerda. Análise de Bland–Altman comparando os diâmetros medidos por USIC com os diâmetros previstos pelos três modelos geométricos na bifurcação do TCE. A linha azul contínua representa a diferença média, e as linhas vermelhas tracejadas indicam os limites de concordância de 95%. TCE: tronco da coronária esquerda.

Discussão

Neste estudo, comparamos três modelos geométricos de predição da geometria de bifurcações coronárias com medidas obtidas por QCA e USIC. Embora todos os modelos tenham demonstrado concordância razoável com os diâmetros observados, seu desempenho variou de acordo com a modalidade de imagem utilizada. Quando avaliados em relação tanto à QCA quanto ao USIC, os modelos de Murray e Huo–Kassab apresentaram maior acurácia e precisão do que o modelo de Finet. Notavelmente, o modelo de Murray demonstrou a maior acurácia quando o USIC foi utilizado como padrão de referência, com menor viés negativo e limites de concordância mais estreitos.

O desempenho superior dos modelos de Murray e Huo–Kassab pode ser explicado por seus fundamentos teóricos mais robustos. Ambos os modelos são derivados de princípios da dinâmica dos fluidos, enquanto o modelo de Finet é baseado empiricamente em medidas angiográficas, que podem não refletir com precisão as dimensões reais dos vasos, particularmente na presença de doença aterosclerótica.24 Além disso, o achado de que o USIC forneceu sistematicamente diâmetros vasculares maiores do que a QCA, embora consistente com relatos prévios, reforça a importância da escolha da modalidade de imagem na validação de modelos geométricos preditivos.15,16

Curiosamente, o modelo de Murray demonstrou concordância ligeiramente melhor com as medidas derivadas do USIC do que o modelo de Huo–Kassab em nossa população de estudo. Uma possível explicação é que a simplicidade da relação cúbica proposta por Murray torne o modelo matematicamente mais robusto a pequenas variações nas medidas de entrada. Em contraste, o expoente mais complexo utilizado no modelo de Huo–Kassab pode amplificar discrepâncias menores nas medições dos diâmetros dos ramos. Esse efeito pode ser particularmente relevante em uma população composta por vasos com carga de placa moderada, como foi o caso do presente estudo. Nossos achados são parcialmente consistentes com os relatados por Blanco et al., que observaram que, embora o modelo de Huo–Kassab apresentasse melhor correspondência geométrica em artérias coronárias angiograficamente normais, o modelo de Murray foi estatisticamente mais próximo dos valores observados.17 As simulações desses autores também demonstraram que nenhuma lei de escala universal é capaz de equilibrar plenamente o estresse de cisalhamento da parede na bifurcação, reforçando o conceito de que os modelos geométricos, embora úteis como aproximações, não conseguem capturar completamente a complexa interação entre anatomia e fluxo em pacientes individuais.

Essas considerações enfatizam que os modelos geométricos de predição representam uma tradução imperfeita de princípios teóricos para a prática clínica. Embora possam auxiliar na identificação de segmentos coronários não normais,11 eles não forneceram um substituto confiável para o dimensionamento direto dos vasos em nosso estudo. Na prática clínica, mesmo pequenas discrepâncias na estimativa do diâmetro vascular podem ter consequências significativas, e diferenças da ordem de 1 mm, seja por subestimação ou superestimação do tamanho do vaso, podem levar a desfechos procedimentais adversos. Portanto, apesar de sua robustez matemática, os modelos geométricos de predição devem ser considerados estritamente como ferramentas adjuntas, e não como métodos definitivos de dimensionamento.

Este estudo apresenta várias limitações. Seu desenho retrospectivo e o pequeno tamanho amostral introduzem potencial viés de seleção. Embora as análises tenham sido restritas a segmentos arteriais sem doença grave, esses vasos não estavam livres de aterosclerose. Consequentemente, nossos achados não podem ser extrapolados para artérias coronárias angiograficamente normais nem para aquelas com doença grave. Ainda assim, o estudo apresenta pontos fortes relevantes, incluindo o uso de USIC com pullback automatizado e seleção padronizada dos segmentos, o que aumenta a reprodutibilidade das medidas. Além disso, foram avaliados tanto diâmetros vasculares médios lineares quanto derivados da área, proporcionando uma avaliação representativa da geometria coronária. De forma importante, o estudo reflete a prática clínica do mundo real, na qual a predição acurada dos diâmetros das bifurcações é mais relevante em artérias doentes do que em vasos normais. De modo geral, os resultados devem ser considerados exploratórios e geradores de hipóteses, sendo necessários estudos adicionais com populações maiores para confirmar esses achados e avaliar suas implicações para o dimensionamento de stents e o planejamento de procedimentos.

Conclusão

Neste estudo, os modelos de Murray e Huo–Kassab apresentaram desempenho superior ao modelo de Finet na predição dos diâmetros da bifurcação do TCE, particularmente quando as medidas obtidas por USIC foram utilizadas como padrão de referência. Esses achados sustentam o uso preferencial desses modelos geométricos em aplicações clínicas e computacionais envolvendo bifurcações coronárias. No entanto, os modelos geométricos de predição não substituem o imageamento por USIC para o dimensionamento vascular em intervenções no TCE.

  • Fontes de financiamento
    O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.
  • Vinculação acadêmica
    Não há vinculação deste estudo a programas de pós-graduação.
  • Aprovação ética e consentimento informado
    Este artigo não contém estudos com humanos ou animais realizados por nenhum dos autores.
  • Uso de Inteligência Artificial
    Os autores não utilizaram ferramentas de inteligência artificial no desenvolvimento deste trabalho.

Disponibilidade de Dados

Todo o conjunto de dados que dá suporte aos resultados deste estudo está disponível mediante solicitação ao autor correspondente.

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Editado por

  • Editor responsável pela revisão:
    Henrique Ribeiro

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    02 Mar 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    01 Set 2025
  • Revisado
    15 Out 2025
  • Aceito
    12 Nov 2025
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