Open-access Para Além dos Fatores Biológicos: A Face Social das Doenças Cardiovasculares no Brasil

Palavras-chave
Doenças Cardiovasculares; Determinantes Sociais da Saúde; Desigualdades de Saúde; Vulnerabilidade Social; Mortalidade

Keywords
Cardiovascular Diseases; Social Determinants of Health; Health Inequities; Social Vulnerability; Mortality

Palavras-chave
Doenças Cardiovasculares; Determinantes Sociais da Saúde; Desigualdades de Saúde; Vulnerabilidade Social; Mortalidade

Keywords
Cardiovascular Diseases; Social Determinants of Health; Health Inequities; Social Vulnerability; Mortality

As doenças cardiovasculares (DCV), que incluem as doenças isquêmicas do coração (DIC) e as doenças cerebrovasculares (DCBV), representam a principal causa de morte globalmente e no Brasil.1 Embora avanços significativos tenham sido feitos na prevenção e tratamento, a mortalidade por DCV ainda exibe disparidades marcantes, frequentemente correlacionadas com indicadores socioeconômicos e de vulnerabilidade.2-4

Historicamente, a compreensão dos fatores de risco para DCV se concentrou em aspectos biológicos.5 No entanto, evidências apontam para o papel crucial dos Determinantes Sociais de Saúde (DSS), que englobam as condições sociais, econômicas, culturais, étnicas, educacionais e ambientais, na formulação de estratégias para o cuidado integral à saúde.5-7

O índice de vulnerabilidade social (IVS) foi desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada para quantificar a vulnerabilidade no Brasil. Ele é composto por 16 indicadores distribuídos em três dimensões principais: infraestrutura urbana (IVS-IU), capital humano (IVS-CH), e renda e trabalho (IVS-RT).8 O IVS fornece uma visão abrangente das fragilidades sociais, permitindo a identificação de áreas e populações mais vulneráveis. A compreensão de suas dimensões é fundamental para direcionar políticas públicas que visem à redução das iniquidades em saúde.

O estudo "Índice de Vulnerabilidade Social e Mortalidade por Doenças Isquêmicas do Coração e Doenças Cerebrovasculares no Brasil de 2000 a 2021" pretendeu analisar a evolução do IVS e suas dimensões, associado com as taxas de mortalidade por DIC e DCBV, no Brasil e nas unidades federativas (UF), no período de 2000 a 2021. De delineamento ecológico, utilizou dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade e do Atlas de Vulnerabilidade Social.9

Este estudo mostrou que o IVS total, bem como as dimensões IVS-CH e IVS-RT apresentaram forte correlação com as taxas de mortalidade por DCBV e DIC. Em contraste, a dimensão IVS-IU apresentou uma correlação mais fraca com a mortalidade por DCBV.9 Embora a infraestrutura seja um componente importante da vulnerabilidade social, seu impacto direto sobre esses desfechos parece menos expressivo que o das dimensões capital humano, que incluem educação, saúde, renda e trabalho. Isso pode ser atribuída ao fato de que os principais determinantes das DCBV, como renda, escolaridade, condições laborais, estilo de vida e acesso a serviços de saúde, exercem influência mais direta e imediata sobre os comportamentos de risco, o acesso à saúde e a gestão de condições crônicas. Por outro lado, déficits estruturais como ausência de saneamento básico, água potável, iluminação pública, coleta de lixo e exposição à poluição impactam sobretudo doenças infecciosas, respiratórias, acidentes e violência, que, embora relevantes, não figuram entre os determinantes imediatos da mortalidade por DCBV.10,11 Ademais, avanços na infraestrutura básica em muitas regiões podem ter reduzido sua variabilidade ao longo do tempo.12

Utilizar outros indicadores sociais, como índice de Gini, que mede a desigualdade, ou os parâmetros que compõem as dimensões do IVS pode ajudar a compreender melhor por que capital humano e renda e trabalho se correlacionam mais fortemente com a mortalidade, visto que as três dimensões apresentam associação entre si. Nesse contexto, e diante das expressivas desigualdades regionais e sociais que caracterizam o Brasil, se torna imprescindível o uso estratégico e integrado das ferramentas de monitoramento epidemiológico disponíveis, como os dados do Sistema Único de Saúde (DATASUS), os levantamentos populacionais do IBGE (índice de Gini, censo, intercensos, projeções) e os índices produzidos por organismos como o PNUD (IDH, IDHM), para subsidiar políticas públicas de saúde cardiovascular mais equitativas e baseadas em evidências. Destaca-se também a necessidade de investir na capacitação de profissionais de saúde em ciência de dados e epidemiologia, ampliando sua habilidade de interpretar e aplicar esses indicadores na prática clínica e na gestão.

Os achados do estudo inferem que, apesar da melhora geral nos indicadores de IVS ao longo do período, as regiões Norte e Nordeste do Brasil permaneceram com os maiores níveis de vulnerabilidade em todas as dimensões. Além disso, populações negras e rurais apresentaram maior vulnerabilidade, e a população feminina mostrou maior vulnerabilidade na dimensão IVS-RT.9 À vista disso, embora as políticas públicas de promoção à saúde cardiovascular devam contemplar toda a população, devem incluir estratégias de triagem e cuidado mais sensíveis às desigualdades sociais, com atenção especial a grupos historicamente mais vulneráveis, como populações negras, rurais, das regiões Norte e Nordeste, e mulheres em situação de maior vulnerabilidade socioeconômica, frequentemente agravada por desigualdade de gênero, sobrecarga de cuidados e menor acesso a recursos econômicos e de saúde.13

O artigo reforça que boas condições de vida (socioeconômicas e educacionais) estão intimamente ligadas a melhores desfechos cardiovasculares. Para mitigar o fardo das DCVs no Brasil, é importante que as políticas públicas considerem os DSS. Isso inclui investimentos em educação, geração de emprego e renda, e a garantia de acesso equitativo a serviços de saúde de qualidade. A identificação e o enfrentamento das desigualdades sociais são passos fundamentais para reduzir as disparidades na saúde cardiovascular e promover um bem-estar mais abrangente para toda a população brasileira.

  • Minieditorial referente ao artigo:
    Índice de Vulnerabilidade Social e Mortalidade por Doenças Isquêmicas do Coração e Doenças Cerebrovasculares no Brasil de 2000 a 2021

Referências

  • 1 Bichara JL, Bastos LA, Villela PB, Oliveira GMM. Socioeconomic Indicators and Mortality from Ischemic Heart Disease and Cerebrovascular Disease in Brazil from 2000 to 2019. Arq Bras Cardiol. 2023;120(8):e20220832. doi: 10.36660/abc.20220832.
    » https://doi.org/10.36660/abc.20220832
  • 2 Ishitani LH, Franco Gda C, Perpétuo IH, França E. Socioeconomic Inequalities and Premature Mortality Due to Cardiovascular Diseases in Brazil. Rev Saude Publica. 2006;40(4):684-91. doi: 10.1590/s0034-89102006000500019.
    » https://doi.org/10.1590/s0034-89102006000500019
  • 3 Precoma DB. Education as a Social Determinant Associated with Cardiovascular Risk. Arq Bras Cardiol. 2021;117(1):13-4. doi: 10.36660/abc.20210444.
    » https://doi.org/10.36660/abc.20210444
  • 4 Santos SC, Villela PB, Oliveira GMM. Mortality Due to Heart Failure and Socioeconomic Development in Brazil between 1980 and 2018. Arq Bras Cardiol. 2021;117(5):944-51. doi: 10.36660/abc.20200902.
    » https://doi.org/10.36660/abc.20200902
  • 5 Lange KW. Rudolf Virchow, Poverty and Global Health: From "Politics as Medicine on a Grand Scale" to "Health in All Policies". Glob Health J. 2021;5(3):149-54. doi: 10.1016/j.glohj.2021.07.003.
    » https://doi.org/10.1016/j.glohj.2021.07.003
  • 6 Buss PM, Pellegrini Filho A. Iniquities in Health in Brazil, Our More Serious Illness: Commentaries on the Reference Document and Works of the Commission on Social Determinants of Health. Cad Saude Publica. 2006;22(9):2005-8. doi: 10.1590/s0102-311x2006000900033.
    » https://doi.org/10.1590/s0102-311x2006000900033
  • 7 Buss PM, Pellegrini A Filho. Health and its Social Determinants. Physis. 2007;17(1): 77-93. doi: 10.1590/S0103-73312007000100006.
    » https://doi.org/10.1590/S0103-73312007000100006
  • 8 Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Atlas da Vulnerabilidade Social [Internet]. Brasília: IPEA; 2025 [cited 2025 Aug 18]. Available from: https://ivs.ipea.gov.br
    » https://ivs.ipea.gov.br
  • 9 Bichara JL, Bastos LA, Lino EDSM, Villela PB, Oliveira GMM. Índice de Vulnerabilidade Social e Mortalidade por Doenças Isquêmicas do Coração e Doenças Cerebrovasculares no Brasil de 2000 a 2021. Arq Bras Cardiol. 2025; 122(8):e20240428. doi: https://doi.org/10.36660/abc.20240428
    » https://doi.org/10.36660/abc.20240428
  • 10 Fajersztajn L, Veras M, Saldiva PHN. Como as Cidades Podem Favorecer ou Dificultar a Promoção da Saúde de Seus Moradores? Estud Av. 2016;30(86):7-27. doi: 10.1590/S0103-40142016.00100002.
    » https://doi.org/10.1590/S0103-40142016.00100002
  • 11 Rajagopalan S, Vergara-Martel A, Zhong J, Khraishah H, Kosiborod M, Neeland IJ, et al. The Urban Environment and Cardiometabolic Health. Circulation. 2024;149(16):1298-314. doi: 10.1161/CIRCULATIONAHA.123.067461.
    » https://doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.123.067461
  • 12 Pasternak S, D’Ottaviano C. Squatter Settlements in Brazil and in São Paulo: Improvements in the Analyzes from the 2010 Census Territorial Reading. Cad Metrop. 2016;18(35):75-99. doi: 10.1590/2236-9996.2016-3504.
    » https://doi.org/10.1590/2236-9996.2016-3504
  • 13 Son H, Zhang D, Shen Y, Jaysing A, Zhang J, Chen Z, et al. Social Determinants of Cardiovascular Health: A Longitudinal Analysis of Cardiovascular Disease Mortality in US Counties from 2009 to 2018. J Am Heart Assoc. 2023;12(2):e026940. doi: 10.1161/JAHA.122.026940.
    » https://doi.org/10.1161/JAHA.122.026940

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    03 Out 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Recebido
    30 Jul 2025
  • Revisado
    06 Ago 2025
  • Aceito
    06 Ago 2025
location_on
Sociedade Brasileira de Cardiologia - SBC Avenida Marechal Câmara, 160, sala: 330, Centro, CEP: 20020-907, (21) 3478-2700 - Rio de Janeiro - RJ - Brazil, Fax: +55 21 3478-2770 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: revista@cardiol.br
rss_feed Acompañe los números de esta revista en su lector de RSS
Ir para arriba Notificar error