Resumo
Fundamento A doença renal crônica (DRC) é um fator de risco estabelecido para doença arterial coronariana (DAC), apresentando uma relação linear com a taxa de filtração glomerular (TFG). O papel prognóstico das diferentes fórmulas para estimativa da TFG ainda é debatido.
Objetivo Avaliar o impacto do cálculo da TFG na previsão da DAC avaliada por angiografia.
Métodos Em pacientes consecutivos submetidos a angiografia coronária, a TFG foi avaliada na admissão utilizando as fórmulas de Cockcroft-Gault, CKD-EPI (Colaboração em Epidemiologia da Doença Renal Crônica) (Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration) e MDRD, Estudo de Modificação da Dieta na Doença Renal (Modification of Diet in Renal Disease Study). Um valor de p bicaudal < 0,05 foi considerado estatisticamente significativo.
Resultados Entre 1742 pacientes, 79,8% apresentaram DAC. Não houve diferença nos valores médios da TFG entre pacientes com e sem DAC, utilizando as três fórmulas de TFG diferentes. Observamos uma associação significativa entre DAC grave e TFG, segundo as fórmulas de Cockcroft-Gault (26,6% vs. 35% vs. 36,9%, p<0,001), MDRD (27,1% vs. 36,9% vs. 39%, p<0,001) e CKD-EPI (28,9% vs. 39,2% vs. 22,2%, p=0,03). Na análise multivariada, apenas a fórmula MDRD permaneceu estatisticamente significativa (OR ajustada [IC 95%] = 1,27 [1,01-1,59], p=0,04). Na análise da curva ROC, identificamos o valor de 12,4 ml/min/1,73m2 como o melhor valor preditivo para DAC grave com a fórmula MDRD. Foram observadas taxas mais elevadas de calcificações, reestenose e oclusão crônica com as fórmulas de Cockcroft-Gault e MDRD.
Conclusão O presente estudo demonstrou uma associação significativa entre a extensão da DAC definida angiograficamente e a TFG, estimada pela fórmula MDRD, mas não pelas fórmulas de Cockcroft-Gault e CKD-EPI. Valores de MDRD abaixo de 12,4 ml/min/1,73m2 foram os que melhor predisseram DAC mais grave.
Palavras-chave:
Doença Renal Crônica; Taxa de Filtração Glomerular; Doença Arterial Coronariana
Abstract
Background Chronic kidney disease (CKD) is an established risk factor for coronary artery disease (CAD), displaying a linear relationship with glomerular filtration rate (GFR). The prognostic role of the different formulas for the estimation of GFR is still debated.
Objective To evaluate the impact of GFR calculation in the prediction of angiographically assessed CAD.
Methods In consecutive patients undergoing coronary angiography, GFR was assessed at admission with the formulas Cockroft-Gault, Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration (CKD-EPI), and Modification of Diet in Renal Disease Study (MDRD). A 2-sided p-value < 0.05 was considered statistically significant.
Results Among 1742 patients, 79.8% displayed CAD. No difference in the mean values of GFR was observed in patients with and without CAD with the three different GFR formulas. We observed a significant association between severe CAD and GFR, by Cockcroft Gault (26.6% vs 35% vs 36.9%, p<0.001), MDRD (27.1% vs 36.9% vs 39%, p<0.001), and CKD-EPI (28.9% vs 39.2% vs 22.2%, p=0.03). In multivariate analysis, only MDRD remained statistically significant (adjusted OR[95%CI]= 1.27[1.01-1.59], p=0.04). In ROC curve analysis, we identified the value of 12.4 ml/min/1.73m^2 as the best predicting value for severe CAD with the MDRD formula. Higher rates of calcifications, restenosis, and chronic occlusion were observed for the Cockroft-Gault and MDRD formulas.
Conclusion The present study showed a significant association between the extent of angiographically-defined CAD and GFR, estimated by the MDRD, but not for the Cockroft-Gault and CKD-EPI formulas. MDRD values below 12.4 ml/min/1.73m^2 best predicted more severe CAD.
Keywords:
Chronic Kidney Disease; Glomerular Filtration Rate; Coronary Artery Disease
Introdução
A doença renal crônica (DRC) representa um problema de saúde crescente, afetando cerca de 10-15% da população mundial, embora sua prevalência seja amplamente subestimada, não sendo diagnosticada corretamente em até dois em cada três pacientes.1,2 No entanto, o papel prognóstico negativo da DRC, mesmo em estágios iniciais, está bem estabelecido, demonstrando um aumento incremental no risco de mortalidade e doença cardiovascular (DCV) em associação com o grau de albuminúria e a diminuição da taxa de filtração glomerular (TFG).3-5
Porém, ainda existem diversas controvérsias sobre o método mais preciso para a avaliação da TFG, visto que as medições diretas são dispendiosas e tecnicamente complexas, e as diferentes fórmulas para suas estimativas indiretas, baseadas na creatinina sérica ou na cistatina C, apresentam grandes discrepâncias. Atualmente, a equação de creatinina da Colaboração em Epidemiologia da Doença Renal Crônica (CKD-EPI) de 2009 é recomendada nas diretrizes1 para a estimativa da filtração renal, sendo menos enviesada, especialmente para valores de TFG mais elevados e em indivíduos mais jovens, mulheres e de etnia branca,6 além de apresentar maior correlação com o risco a longo prazo de doença renal terminal e mortalidade.7 No entanto, essas fórmulas são menos validadas em certos subgrupos de pacientes com maior risco cardiovascular, como idosos, nos quais a identificação de formas mesmo leves de DRC pode impactar significativamente a estratificação de risco e os desfechos.8 De fato, nesses contextos e em pacientes com DCV estabelecida, a fórmula de Cockcroft-Gault ajustada à área de superfície corporal tem sido sugerida como uma predição mais precisa da mortalidade cardiovascular,9 embora em outros estudos a fórmula do Estudo de Modificação da Dieta na Doença Renal (MDRD) tenha fornecido melhor predição da gravidade da doença arterial coronariana (DAC) e do risco cardiovascular em pacientes com infarto do miocárdio.10 No entanto, a maioria dos dados publicados até agora nesses subconjuntos de pacientes foram derivados de pequenos registros e coortes não randomizadas, onde a definição de DCV era frequentemente autodeclarada, portanto não apoiando as diretrizes da Doença renal: melhorando os resultados globais (KDIGO) (Kidney Disease: Improving Global Outcome) para fornecer indicações conclusivas para a avaliação da TFG em populações de alto risco cardiovascular.11,12
O objetivo do presente estudo foi, portanto, comparar as 3 fórmulas mais comuns para o cálculo da TFG (CG, MDRD, CKD-EPI) na estimativa da DRC e na predição da presença, extensão e gravidade da DAC avaliada por angiografia.
Métodos
Este registro observacional incluiu uma população de pacientes consecutivos submetidos a angiografia coronária em um único centro, de janeiro de 2019 a junho de 2020, por indicação eletiva (angina estável, isquemia silenciosa, arritmias ou doença valvar) ou síndrome coronariana aguda. O estudo foi aprovado pelo nosso Comitê de Ética local. Os principais dados demográficos, clínicos e angiográficos, juntamente com a indicação para a angiografia coronária, foram registrados na admissão e incluídos em um banco de dados específico, protegido por senha. Os principais fatores de risco cardiovascular foram identificados. Hipertensão foi definida como pressão sistólica > 140 mmHg e/ou pressão diastólica > 90 mmHg ou se o indivíduo estivesse em uso de medicamentos anti-hipertensivos. O diagnóstico de diabetes foi baseado em histórico prévio de diabetes tratado com ou sem terapia medicamentosa, glicemia de jejum > 126 g/dL ou HbA1c > 6,5% no momento da admissão. Considerou-se insuficiência renal crônica a presença de histórico de insuficiência renal ou TFG na admissão < 60 mol/min/1,73 m2, determinada por diferentes fórmulas.
Angiografia coronária
A angiografia coronária foi realizada rotineiramente pela técnica de Judkins, com abordagem radial preferencial, utilizando cateteres cardíacos direito e esquerdo de 5 ou 6 French. A angiografia coronária quantitativa foi realizada por cardiologistas intervencionistas experientes, por meio de um sistema automático de detecção de bordas (um software associado ao angiografista).13 Medimos o diâmetro luminal mínimo, o diâmetro de referência, a porcentagem de estenose do diâmetro e o comprimento da lesão. Em pacientes previamente submetidos a revascularização miocárdica, tanto as artérias nativas quanto os enxertos foram considerados na avaliação da extensão da doença arterial coronária (número de vasos doentes). A doença arterial coronária foi definida como pelo menos uma estenose > 50%, enquanto a doença arterial coronária grave foi definida como doença da artéria coronária esquerda principal e/ou doença de três vasos. Uma estenose foi considerada significativa se superior a 70%.
Parâmetros químicos e taxa de filtração glomerular
Uma amostra de sangue em jejum foi coletada na admissão para a determinação do hemograma, níveis de glicose no sangue, creatinina, eletrólitos, ácido úrico, enzimas miocárdicas específicas, perfil lipídico, parâmetros de coagulação e vitamina D.
Em particular, os níveis de creatinina foram determinados pelo teste Creatinina Jaffè Gen.2 (CREJ2, Roche Diagnostic International LFD, Suíça) a partir de amostras armazenadas em tubos contendo heparina como anticoagulante, após centrifugação a 3700 rpm durante 10 minutos.
A TFG foi avaliada com as seguintes fórmulas:
-
Cockcroft-Gault:
-
Colaboração em Epidemiologia da Doença Renal Crônica (CKD-EPI):
-
Estudo de Modificação da Dieta na Doença Renal (MDRD):
Análise estatística
A análise estatística foi realizada utilizando o pacote estatístico SPSS 23.0. Os dados contínuos foram expressos como média ± desvio padrão (DP) e os dados categóricos como porcentagens. O teste qui-quadrado foi utilizado para variáveis categóricas, enquanto o teste-t de Student não pareado e a análise de variância (ANOVA) de uma via foram aplicados para variáveis contínuas, após confirmação da distribuição normal dos dados, para a comparação de 2 ou mais grupos, respectivamente. Os pacientes foram agrupados de acordo com a prevalência e extensão da DAC e de acordo com a TFG, calculada com as 3 fórmulas diferentes (< 30; -≥60).ml/min/1,73m2). Foi realizada uma análise de regressão logística multivariada para avaliar a relação entre a TFG e a doença coronariana, após correção para diferenças basais (todas as variáveis que apresentaram associação significativa na análise univariada, ou seja, qui-quadrado ou ANOVA, respectivamente), que foram inseridas no modelo “em bloco”. A curva ROC (Receiver-operating Curve) foi utilizada para avaliar a relação entre a TFG e a doença coronariana. A análise da curva ROC foi aplicada para identificar o valor da TFG que melhor predizia a DAC grave.
Um valor p bicaudal < 0,05 foi considerado estatisticamente significativo.
Resultados
Nossa população é representada por 1742 pacientes, entre eles n=1391 (79,8%) apresentaram DAC e n=519 (29,8%) DAC grave. A Tabela 1 apresenta os principais parâmetros clínicos e laboratoriais de acordo com a prevalência de DAC definida angiograficamente. Não foi observada diferença nos valores médios da TFG entre pacientes com e sem DAC com as três fórmulas de TFG diferentes (Cockroft-Gault, p=0,87; MDRD, p=0,22; CK-EPI, p=0,71).
Os pacientes foram divididos de acordo com a função renal (DRC grave < 30 ml/min/1,73m2; DRC leve: 30-60 ml/min/1,73m2; função normal ≥60 ml/min/1,73m2) com as três fórmulas diferentes.
Conforme demonstrado na Tabela 2, a maioria dos pacientes apresentou função renal normal com todas as fórmulas; no entanto, os valores de TFG foram menores com a fórmula de Cockcroft-Gault, identificando 6% (n=105) dos pacientes com DRC grave, sendo apenas 0,5% com a fórmula CKD-EPI (n=9).
Conforme demonstrado na Figura 1, a concordância entre as fórmulas na classificação da gravidade da DRC foi baixa em todas as comparações.
– Distribuição dos pacientes de acordo com a função renal estimada com diferentes fórmulas: Cockcroft-Gault vs. MDRD (1A), MDRD vs. CKD-EPI (1B), Cockcroft-Gault vs. CKD-EPI (1C).
As características clínicas da população de acordo com a gravidade da DRC são mostradas nas Tabelas Suplementares 1, 2 e 3 para Cockcroft-Gault, MDRD e CK-EPI, respectivamente.
O projeto completo e os resultados do estudo estão resumidos na Ilustração Central.
A prevalência de DAC não foi associada à função renal, estimada pelas fórmulas de Cockcroft-Gault, MDRD e CKD-EPI, conforme mostrado na Figura 2.
– Prevalência de doença arterial coronariana de acordo com a função renal estimada com diferentes fórmulas: Cockcroft-Gault, MDRD e CKD-EPI. DAC: doença arterial coronariana; TFG: taxa de filtração glomerular; DRC: doença renal crônica.
Observamos uma associação significativa entre DAC grave e TFG, estimada com as três fórmulas diferentes: Cockcroft-Gault, MDRD e CKD-EPI, conforme ilustrado na Figura 3.
– Prevalência de doença arterial coronariana grave de acordo com a função renal estimada com diferentes fórmulas: Cockcroft-Gault, MDRD e CKD-EPI. DAC: doença arterial coronariana; TFG: taxa de filtração glomerular; DRC: doença renal crônica.
As características angiográficas da população, distribuídas de acordo com a função renal estimada pelas três fórmulas de TFG, são apresentadas nas Tabelas 3, 4 e 5, para Cockcroft-Gault, MDRD e CK-EPI, respectivamente. Observaram-se taxas mais elevadas de calcificações com todas as fórmulas, enquanto a relação com reestenose e oclusão crônica foi significativa apenas para as fórmulas de Cockcroft-Gault e MDRD.
Observou-se uma associação inversa entre a função renal e o trombo intracoronário.
Na análise multivariada, após correção para diferenças basais (idade, sexo, hipercolesterolemia, diabetes, tabagismo ativo, intervenções coronárias prévias, apresentação aguda, uso de estatinas na admissão), confirmamos a ausência de associação entre DAC e função renal com as três fórmulas (Cockcroft-Gault (OR ajustada [IC 95%] = 0,92 [0,69-1,21], p = 0,54), MDRD (OR ajustada [IC 95%] = 0,96 [0,72-1,27], p = 0,75) e CKD-EPI (OR ajustada [IC 95%] = 0,88 [0,54-1,43], p = 0,60).
Pelo contrário, apenas a fórmula MDRD permaneceu significativamente associada à DAC grave (OR ajustada [IC 95%] = 1,27 [1,01-1,59], p = 0,04), enquanto nenhuma associação foi encontrada para Cockcroft-Gault (OR ajustada [IC 95%] = 1,25 [0,99-1,57], p = 0,06) e CDK-EPI (OR ajustada [IC 95%] = 1,21 [0,82-1,8], p = 0,34).
Na análise da curva ROC, identificamos o valor de 12,4 ml/min/1,73m2 como o melhor valor preditivo para DAC grave com a fórmula MDRD (Figura 4).
– A análise da curva ROC demonstra que o valor da taxa de filtração glomerular estima melhor a doença arterial coronariana grave com a fórmula MDRD.
Discussão
O presente estudo representa uma das maiores coortes de pacientes em que comparamos as três fórmulas mais comuns para a estimativa da TFG na previsão da prevalência e extensão da DAC definida angiograficamente.
Observamos que a fórmula MDRD foi a única significativamente associada à DAC mais grave na angiografia, enquanto nenhuma associação foi encontrada para as outras fórmulas.
A DRC representa um fator de risco estabelecido para distúrbios cardiovasculares e, em particular, DAC.14-16 A persistência no campo circulatório de substâncias não excretadas pelos rins tem sido geralmente considerada como gatilho pró-inflamatório e pró-trombótico, além do desequilíbrio no sistema renina-aldosterona e na homeostase do cálcio, levando à disfunção endotelial e à degeneração aterosclerótica da parede arterial.17
Os dados epidemiológicos apontaram para a particular relevância do problema, uma vez que 9,1 a 13,4% da população mundial tem DRC, e a DCV foi identificada em 20-30% deles.2,18,19
Foi demonstrado um aumento linear no risco de desenvolvimento de DAC juntamente com a diminuição da TFG, para valores abaixo de 60 a 75 ml/min/1,73 m2 e em pacientes com DRC grave (TFG entre 15 e 60 ml/min/1,73 m2), onde o risco de mortalidade por DCV é duas a três vezes maior em relação a pacientes sem DRC.20 De fato, em pacientes com doença renal grave ou em diálise, as causas cardiovasculares são responsáveis por 1 em cada 4 óbitos, o que se traduz em cerca de 6% de mortalidade anual.21
Além disso, os fatores de risco cardiovascular tradicionais, como idade avançada, diabetes e hipertensão, também são mais frequentes em pacientes com DRC, exigindo, portanto, uma estratificação e gestão de risco mais atentas.22
No entanto, apesar da associação estabelecida entre DRC e DCV, vários métodos e fórmulas têm sido propostos para a avaliação da função renal, e seu papel na predição de DAC e desfechos ainda é controverso. Atualmente, as diretrizes KDIGO1 afirmam que a equação CKD-EPI é mais precisa do que a equação do estudo MDRD, especialmente em TFG mais elevadas, representando, portanto, a fórmula mais amplamente utilizada em todo o mundo. De fato, valores de TFG mais altos, que reduzem as taxas de DRC, podem aumentar a especificidade dessa fórmula na estimativa de risco.23
Piscitelli et al. documentaram em uma grande coorte de 1017 pacientes submetidos a angiografia coronária que a TFG reduzida, estimada pela fórmula CKD-EPI, amplificou significativamente o risco de mortalidade por todas as causas associado à doença de três vasos.24 Resultados semelhantes foram relatados por Doğaner et al. em uma coorte menor de 356 pacientes, onde as fórmulas Cockcroft-Gault, MDRD e CKD-EPI puderam prever a gravidade da DAC em homens, mas não em mulheres.25
Por outro lado, em um registro prospectivo multicêntrico envolvendo 1699 pacientes consecutivos com síndrome coronariana aguda, Rivera-Caravaca et al.26 observaram que a equação de Cockcroft-Gault apresentou capacidade preditiva superior para eventos cardiovasculares adversos maiores, sangramento maior e mortalidade por todas as causas em comparação com a equação MDRD-4, e capacidade preditiva superior para sangramento maior em comparação com a equação CKD-EPI.
Resultados diferentes foram relatados em um estudo retrospectivo com 3744 pacientes submetidos à cirurgia de revascularização do miocárdio, onde a fórmula de Mayo se mostrou superior às outras fórmulas na previsão de mortalidade.27 A superioridade da fórmula de Mayo também foi demonstrada por Orvin et al. em pacientes com síndrome coronariana aguda.28
Outro estudo dedicado a pacientes com SCA concluiu que o uso de cistatina, em vez de creatinina, poderia fornecer melhores resultados na previsão de mortalidade.29
No entanto, esses últimos resultados foram obtidos em pacientes mais selecionados com DAC estabelecida ou eventos isquêmicos agudos, enquanto que em nosso estudo, incluímos uma das maiores populações irrestritas, incluindo pacientes submetidos a angiografia coronária por indicações não coronárias, como doença valvar, arritmias ou insuficiência cardíaca.
Demonstramos baixa concordância entre as três fórmulas diferentes, Cockcroft-Gault, MDRD e CKD-EPI, na definição da função renal e da DRC, sendo que esta última tende a superestimar a TFG em comparação com as outras fórmulas.
Embora não tenhamos observado diferença nos valores médios da TFG entre pacientes com e sem DAC, a DRC mais grave esteve significativamente relacionada à gravidade da DAC. No entanto, após correção para diferenças basais, essa associação foi confirmada apenas para a fórmula MDRD. Assim, além da nefrologia, as diretrizes KDIGO15 sugerem que a fórmula CK-EPI deve ser preferida para a estimativa da TFG em pacientes com DCV; a fórmula MDRD pode oferecer vantagens adicionais para uma melhor definição de risco.
Nossos resultados estão em consonância com as conclusões de Barra et al.,10 que demonstraram que, em pacientes com infarto agudo do miocárdio, a fórmula MDRD foi significativamente mais precisa na previsão da gravidade da DAC e do risco CV em dois anos.
Da mesma forma, Chen et al.30 confirmaram em mais de 8000 pacientes que uma fórmula MDRD modificada, específica para a população chinesa, surgiu como a mais conveniente para a estratificação prognóstica de pacientes submetidos a intervenção coronária percutânea (ICP).
Na prática, a fórmula MDRD é mais restritiva na estimativa dos valores de TFG, sendo mais precisa em pacientes com função renal comprometida, especialmente para TFG <60 mL/min/1,73 m2, que também são aqueles com maior risco cardiovascular.31 Assim, se pode postular que a associação entre DRC e DAC poderia ter se tornado mais evidente com a fórmula que melhor prediz a doença renal.
Além disso, observamos uma associação significativa entre disfunção renal e calcificações coronárias, representando um marcador precoce de DAC, mas também o reflexo de lesões mais complexas, traduzindo-se em piores resultados quando tratadas com ICP.32 Da mesma forma, Bundy et al. mostraram que, apesar do valor prognóstico das calcificações ser semelhante ao da população em geral, a progressão da calcificação coronariana é mais rápida com o agravamento da DRC.33
De fato, apesar dos mecanismos fisiopatológicos que ligam a disfunção renal ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares estarem bem estabelecidos, como o papel prognóstico negativo da diminuição da TFG, o método mais preciso para a avaliação da doença renal ainda precisa ser definido. Estudos futuros específicos são necessários para melhor definir o poder preditivo diferencial das fórmulas disponíveis para a estimativa da TFG em diferentes subgrupos de pacientes e se uma abordagem personalizada de acordo com o perfil de risco dos pacientes poderia proporcionar uma melhor estratificação do seu risco cardiovascular.
Limitações
Uma primeira limitação pode ser representada pela heterogeneidade das características clínicas e angiográficas da população incluída, embora isso também represente um valor adicional potencial do estudo, refletindo a prática clínica real.
Além disso, não realizamos um acompanhamento sistemático de nossos pacientes; portanto, não pudemos definir o papel das diferentes fórmulas de TFG nos resultados.
Além disso, a definição de DAC e DAC grave se baseou apenas em dados angiográficos, uma vez que a imagem intracoronária ou a avaliação funcional não foram realizadas sistematicamente em todos os pacientes e, portanto, não puderam ser incluídas na presente análise.
Por fim, não medimos outros parâmetros para a estimativa da TFG, como a cistatina C, nem conseguimos repetir a coleta de amostras para análise de creatinina no acompanhamento para avaliar a evolução da função renal.
Conclusão
O presente estudo demonstrou, em uma grande coorte de pacientes submetidos a angiografia coronária, que a prevalência de DAC não difere de acordo com a função renal. Foi encontrada uma associação significativa entre a extensão da DAC definida angiograficamente e a TFG, estimada pela fórmula MDRD, mas não pelas fórmulas de Cockcroft-Gault e CKD-EPI, sendo que valores abaixo de 12,4 ml/min/1,73m2 foram os que melhor predisseram DAC mais grave.
Material suplementar
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Vinculação acadêmica
Este artigo é parte de tese de Alyssa Clemente pela Università del Piemonte Orientale.
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Aprovação ética e consentimento informado
Este estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética Interinstitucional de Novara sob o número de protocolo CE 151/18. Todos os procedimentos envolvidos nesse estudo estão de acordo com a Declaração de Helsinki de 1975, atualizada em 2013. O consentimento informado foi obtido de todos os participantes incluídos no estudo.
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Uso de Inteligência Artificial
Os autores não utilizaram ferramentas de inteligência artificial no desenvolvimento deste trabalho.
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Disponibilidade de Dados
Os conteúdos subjacentes ao texto da pesquisa estão contidos no manuscrito.
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*Material suplementar
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Fontes de financiamento
O presente estudo não teve fontes de financiamento externas.
Editado por
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Editor responsável pela revisão:
Gláucia Maria Moraes de Oliveira
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