Palavras-chave
Arritmias Cardíacas; Fibrilação Atrial; Terapia de Eletroporação Irreversível
Keywords
Cardiac Arrhythmias; Atrial Fibrillation; Irreversible Electroporation Therapy
Palavras-chave
Arritmias Cardíacas; Fibrilação Atrial; Terapia de Eletroporação Irreversível
Keywords
Cardiac Arrhythmias; Atrial Fibrillation; Irreversible Electroporation Therapy
A fibrilação atrial (FA) é a arritmia cardíaca sustentada mais comum na prática clínica e representa um fardo significativo para a saúde pública, pois está associada de forma independente à redução da qualidade de vida, ao aumento do risco de acidente vascular cerebral e à mortalidade por todas as causas.1 A incidência e a prevalência da FA estão aumentando em todo o mundo, impulsionadas principalmente pelo envelhecimento da população e pela crescente prevalência de comorbidades cardiovasculares. Em conjunto, esses achados explicam o impacto econômico da FA e seu papel como um desafio crescente para a saúde pública.
A ablação por cateter é uma estratégia bem estabelecida para o controle do ritmo na FA, tendo o isolamento das veias pulmonares como componente central, desde que os fatores desencadeantes relacionados às veias pulmonares foram identificados.1 Ao longo de mais de duas décadas, os avanços no mapeamento eletroanatômico, na tecnologia de cateteres e na aplicação de energia melhoraram a segurança e os resultados a longo prazo da ablação por radiofrequência e crioablação. Apesar desses avanços, o sucesso em um único procedimento permanece limitado e podem ocorrer complicações relacionadas a lesões térmicas colaterais. A ablação por campo pulsado (PFA) surgiu recentemente como uma nova modalidade de ablação não térmica baseada na eletroporação, induzida por pulsos elétricos rápidos que ablacionam seletivamente o tecido miocárdico, minimizando lesões em estruturas adjacentes, como o esôfago e o nervo frênico. Estudos clínicos iniciais e registros do mundo real demonstraram um perfil de segurança favorável e eficácia comparável à ablação térmica.2-4 No entanto, a otimização de protocolos e a obtenção de dados robustos sobre os resultados a longo prazo continuam sendo necessárias, especialmente em países de baixa e média renda, como o Brasil.
O primeiro sistema PFA foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) apenas em abril de 2024. Portanto, seu uso no Brasil é recente, e a literatura publicada disponível pode diferir dos resultados brasileiros devido a diferenças na infraestrutura de saúde, experiência do operador e demografia da população. Para preencher essa lacuna, Ávila et al.5 realizaram o primeiro registro prospectivo brasileiro de 394 procedimentos PFA consecutivos realizados entre 18 de junho de 2024 e 29 de abril de 2025, em 60 centros participantes.
A população estudada tinha uma idade média de 65 ± 12 anos, sendo 64% do sexo masculino. A FA paroxística foi a principal indicação em 62% dos pacientes, seguida pela FA persistente em 34%. O isolamento exclusivo das veias pulmonares foi o conjunto de lesões predominante (54%), e o isolamento da parede posterior foi realizado em 168 pacientes (43%), seja durante o procedimento inicial ou em uma reintervenção. O número médio de aplicações foi de 51 ± 16, com um tempo médio total de procedimento de 113 ± 67 minutos. A anestesia geral foi realizada em 98% dos casos. A ablação guiada por fluoroscopia foi utilizada na maioria dos procedimentos, sendo que 75% dos procedimentos utilizaram mapeamento eletroanatômico 3D. Os procedimentos sem fluoroscopia (12%) apresentaram um número significativamente maior de aplicações (74±22 vs. 48±12, p<0,001), tempos de ablação e de procedimento total mais longos (53±14 vs. 40±25 minutos, p=0,002 e 145±37 vs. 106±67 minutos, p<0,001, respectivamente) em comparação com os procedimentos que utilizaram fluoroscopia. Nenhuma complicação grave foi relatada nesta série inicial.
O estudo também comparou os três centros com maior volume de procedimentos (Grupo I = 139 pacientes – 35%) com o restante do Grupo II (255 pacientes – 65%). Os centros com alto volume de procedimentos apresentaram tempos de procedimento e ablação significativamente menores (82 ± 27 vs. 131 ± 76 minutos; p < 0,001 e 33 ± 14 vs. 50 ± 33 minutos; p < 0,001, respectivamente), além de menos lesões adicionais após o remapeamento (7% vs. 30%; p < 0,001), sugerindo uma curva de aprendizado rápida.
Esses achados fornecem resultados encorajadores, consistentes com outras pesquisas internacionais,3,6 e oferecem novas perspectivas relevantes sobre o uso atual da ablação por radiofrequência para FA no Brasil. O procedimento demonstra alta segurança aguda e uma curva de aprendizado curta, como evidenciado pela eficiência de operadores com grande volume de procedimentos. Entretanto, esta é uma revisão importante, porém preliminar. Os autores reconhecem que a falta de acompanhamento é uma limitação que deve ser abordada em pesquisas futuras por meio de estudos de desfecho em longo prazo. Além disso, análises de custo-efetividade também são necessárias para avaliar a viabilidade da incorporação dessa tecnologia aos planos de saúde e ao sistema público de saúde brasileiros.
Referências
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1 Cintra FD, Pisani CF, Rezende AGDS, Henz BD, Armaganijan LV, Pimentel M, et al. Brazilian Atrial Fibrillation Guidelines - 2025. Arq Bras Cardiol. 2025;122(9):e20250618. doi: 10.36660/abc.20250618.
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2 Turagam MK, Neuzil P, Schmidt B, Reichlin T, Neven K, Metzner A, et al. Safety and Effectiveness of Pulsed Field Ablation to Treat Atrial Fibrillation: One-Year Outcomes From the MANIFEST-PF Registry. Circulation. 2023;148(1):35-46. doi: 10.1161/CIRCULATIONAHA.123.064959.
» https://doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.123.064959 -
3 Reddy VY, Gerstenfeld EP, Natale A, Whang W, Cuoco FA, Patel C, et al. Pulsed Field or Conventional Thermal Ablation for Paroxysmal Atrial Fibrillation. N Engl J Med. 2023;389(18):1660-71. doi: 10.1056/NEJMoa2307291.
» https://doi.org/10.1056/NEJMoa2307291 -
4 Iqbal A, Amador WFO, Cevallos-Cueva M, Ahmad M, Alarcón JAP, Diniz RV. Pulsed Field Ablation versus Very High-Power Short-Duration Radiofrequency Ablation in Atrial Fibrillation: A Systematic Review and Meta-Analysis. Arq Bras Cardiol. 2025;122(7):e20240845. doi: 10.36660/abc.20240845.
» https://doi.org/10.36660/abc.20240845 -
5 May BM, Araujo Junior N, Boghossian SHC, Atie J, Maciel WA, Hardy CA, et al. Brazilian Registry of Pulsed Field Catheter Ablation for the Treatment of Patients with Atrial Fibrillation. Arq Bras Cardiol. 2026; 123(1):e20250416. doi: https://doi.org/10.36660/abc.20250416
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6 Verma A, Haines DE, Boersma LV, Sood N, Natale A, Marchlinski FE, et al. Pulsed Field Ablation for the Treatment of Atrial Fibrillation: PULSED AF Pivotal Trial. Circulation. 2023;147(19):1422-32. doi: 10.1161/CIRCULATIONAHA.123.063988.
» https://doi.org/10.1161/CIRCULATIONAHA.123.063988
