“Sr. Sangare, estou aqui para ouvi-lo. Qual é a sua história?” - o diálogo entre a oficial de imigração francesa e o solicitante de asilo guineense retrata o mote central da obra cinematográfica A história de Souleymane, de Boris Lojkne, premiada no Festival de Cannes em 2024. Encontro este que representa a noção de fronteira em suas múltiplas dimensões: territorial - enquanto demarcação física que permite (ou rejeita) a admissão de indivíduos mediante a mobilização de dispositivos jurídicos e securitários; política - entre o indivíduo, que figura como o “buscador de asilo”, e o Estado, guiado pelo princípio da soberania incorporado em suas instituições, que decide pela concessão (ou denegação) do asilo; e, sobretudo, simbólica - expressa na alteridade entre o Sul e o Norte Global, entre um homem negro que enfrenta condições precárias e uma mulher branca que usufrui condições dignas de vida, entre países que foram, de um lado, colônia e, de outro, potência imperialista. Portanto, de dois mundos completamente distintos e, por isso, cindidos.
A história de Souleymane - como suscita a questão acima, tornando-se mais compreensível ao final do filme -, na realidade, não importa muito. Apesar de singular, por se referir a uma subjetividade única, ela carrega aspectos comunitários (Eastmond 2007), reproduzindo histórias de incontáveis migrantes que tentam ingressar e se instalar - não raro sem êxito - em diversas localidades do chamado Norte Global. Nomeadas por Martin et al. (2014) de “migrantes de crise”, são pessoas fugindo da fome, da pobreza, da violação de direitos básicos como à vida, à liberdade e à segurança, buscando garantir tão-somente sua própria subsistência frente a situações de graves privações. Tanto que a Guiné-Conacri, ex-colônia francesa e país de origem de Souleymane, está situada na África Ocidental - região marcada pelo aumento de movimentos de refugiados e migrantes rumo à Europa em 2024 (UNHCR 2025).
“Você não sabe o que é cruzar o mar”, afirma Souleymane. Diante do cenário de escassez e instabilidade na origem, muitos se lançam ao mar, colocando seus corpos em risco, na esperança de conquistar uma vida melhor. Alcançar o território europeu constitui missão hercúlea, passando por espaços de trânsito que podem se revelar - quiçá - mais adversos que o natal. Souleymane cruzou o Mali e a Argélia até chegar à Líbia, onde, em suas palavras, foi “tratado como animal”. O desejo de migrar para a França se conecta não só com questões socioeconômicas - como ter trabalho e poder enviar remessas à mãe, que permaneceu na Guiné-Conacri e padece de problemas de saúde mental -, mas também com o futebol - cuja gênese remonta ao continente africano, porém é atribuída, devido ao seu regramento, a outra potência imperialista: a Inglaterra.
“Foi por causa do futebol” - o sonho de Souleymane antes de se dirigir à França, famosa por seus jogadores e campeã mundial nesse esporte, transparece na interação com outros personagens. Entre eles, a relação com Emmanuel, aparentemente de amizade, traz, no entanto, outras revelações. Souleymane, enquanto solicitante de asilo, está impedido de trabalhar na França. Todavia, ele precisa ganhar a vida para se sustentar e ajudar sua mãe. Eis que Emmanuel empresta o uso de seu aplicativo de entrega de comida, por um trato feito com Soleymane de lhe repassar o dinheiro periodicamente. Retrata-se, dessa maneira, a condição de precariado de trabalhadores plataformizados em escala global - caracterizada pela alta exploração do trabalho, combinando jornadas intensivas com baixíssimas remunerações -, agravada ainda mais quando sobreposta à de migrante (Standing 2009). Como bem elucida Sayad (1998), “um trabalhador imigrante é um pleonasmo”, dado que sua presença no país de destino se justifica apenas dessa forma.
Ao acompanharmos os caminhos percorridos pelo protagonista com sua bicicleta nas ruas parisienses, podemos vislumbrar momentos acolhedores de solidariedade - tanto de franceses como de outros imigrantes - e de altos tensionamentos - igualmente com ambas as partes. Deparar-se com a polícia francesa é algo, indubitavelmente, atemorizador para migrantes, como Souleymane, que não possuem os papéis para estar regularizados na França (conhecidos como sans-papiers). Somos surpreendidos, àquela altura da película, com representantes do Estado capazes de decidir - ou melhor, antecipar - o desfecho do protagonista. Ao mesmo tempo, o apoio dado por outro migrante pode não se concretizar - ou se manter - tal como esperado. Nesse sentido, um dos momentos mais inquietantes do enredo é quando Souleymane precisa se confrontar com Emmanuel, devido à necessidade econômica que se lhe impõe brutalmente. A discussão envereda, assim, para as dinâmicas afetivas entre migrantes de nacionalidades distintas - como no caso acima - e entre conterrâneos.
“Você se esqueceu de nós”, disse uma personagem feminina familiar a Souleymane, externando a sensação de ter sido “deixada para trás” e o enfraquecimento do vínculo dele com sua origem. O contato com Kadiatou se torna mais próximo por meio da câmera do celular - o que a tecnologia das comunicações tem propiciado nas últimas décadas, mantendo vivas relações amorosas através das fronteiras e do tempo. Tal qual descrito magistralmente por Sayad (1998), migrantes encarnam um paradoxo fundamental, ao estarem presentes fisicamente, mas ausentes emocionalmente no país de destino; e, em simultâneo, ausentes fisicamente, mas presentes emocionalmente no país de origem.
O diálogo estabelecido entre os personagens desvela um tema subjacente ao filme: o convívio do migrante com a espera (Bendixsen e Eriksen 2018). Kadiatou esperava - no duplo sentido: tanto de ter expectativa quanto de aguardar - Souleymane retornar à terra natal ou poder se juntar a ele cruzando o mar. Já o protagonista precisa gerir sua ansiedade ao longo do tempo enquanto espera por uma cama no abrigo a cada dia, pelo recebimento do dinheiro após o trabalho, pelos documentos necessários e - o auge da trama - pela entrevista de elegibilidade - ou seja, quem será elegível ao asilo na França.
“Sua entrevista é daqui a dois dias, aprenda a sua história”. Como indicado no começo deste texto, se a história do protagonista não tem o relevo que nós, espectadores, poderíamos supor, o que interessa de fato? Seguindo o conhecimento de Barry - que tenta ajudar Souleymane na busca por asilo -, o mais importante é como narrar sua história perante a autoridade migratória. Registre-se que o Estado é simbolizado, no filme, por esta fronteira bem demarcada posta pela oficial; e percebido de forma ameaçadora (“eles sabem tudo”) pela perspectiva do migrante. Será preciso, então, “aprender” uma história específica construída a partir da associação à ideia de perseguição por motivos políticos e a fatos presenciados no país de origem. Ademais, a narrativa deve ser contada de modo a demonstrar credibilidade e coerência interna, sem que o narrador caia em contradições no decorrer de sua fala. Tarefa que se torna ainda mais árdua se a história contada não é efetivamente a vivida pelo personagem.
Souleymane, face à desconfiança explicitada sobre sua narrativa pela representante do Estado - que assume um poder avassalador, capaz de julgar quem terá acesso regularizado àquele território; logo, de ditar o destino do personagem em última instância -, resolve contar a verdade. Mas de que adianta(ria)? Fato é que a oficial de imigração não está ali para oferecer propriamente uma escuta ativa a Souleymane. Há uma hierarquia de poder que os separa inexoravelmente. A atribuição dela é meramente colher elementos para reconstituir a narrativa, buscando “enquadrá-los” no que se espera do que é considerado passível de asilo, segundo a legislação vigente. Haveria, enfim, tal abertura genuinamente de determinados países do Norte - abarcadas suas representações e práticas sociopolíticas, culturais, normativas - em relação aos do Sul? Em particular, da França frente às suas ex-colônias, incluída a Guiné-Conacri? Tanto para a escuta deste outro e, quanto mais, para aceitá-lo - como ele é - internamente?
Sabe-se que esse encontro nem sempre é desejado, partindo da suposição de que esses “outros”, advindos do Sul Global, trariam consigo, inscritas e manifestas em seus corpos, outras cores de pele, línguas e religiões - como a islâmica de Souleymane - conflitantes com os padrões de construção da identidade nacional - no caso, a francesa. Migrantes são tidos, assim, como uma ameaça do ponto de vista estatal; ao mesmo tempo que o Estado o é para os migrantes. Tal fronteira traduz, como já enunciado, um encontro desencontrado ou, mais radicalmente, um verdadeiro desencontro.
Num roteiro envolvente, com atuação marcante do ator principal, A história de Souleymane convida o público a reflexões que correspondem profundamente às experiências migratórias vivenciadas na atualidade. De forma sensível e, ao mesmo tempo, incisiva, a película toca em temas da maior relevância, levando-nos a sentir as dores, angústias e expectativas que movem o protagonista e a “torcer” por ele no jogo do asilo disputado contra o Estado francês. Afinal, todos nós temos uma história - a qual se encontra vinculada inerentemente às trajetórias migrantes, em países de destino como a França. A questão é se ela realmente pode ser ouvida e, acima de tudo, acolhida.
Referências
- Bendixsen, Synnove, e Thomas Hylland Eriksen. 2018. “Time and the other: Waiting and hope among irregular migrants”. In Ethnographies of waiting: Doubt, hope and uncertainty, editado por Manpreet Janeja e Andreas Bandak, 87-112. Londres: Bloomsbury.
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Eastmond, Marita. 2007. “Stories as lived experience: Narratives in forced migration research”. Journal of Refugee Studies, 20: 248-64. https://doi.org/10.1093/jrs/fem007
» https://doi.org/10.1093/jrs/fem007 - Martin, Susan, Sanjula Weerasinghe, e Abbie Taylor, eds. 2014. Humanitarian crises and migration: Causes, consequences and responses New York: Routledge.
- Sayad, Abdelmalek. 1998. A imigração ou os paradoxos da alteridade São Paulo: EDUSP.
- Standing, Guy. 2014. O precariado: A nova classe perigosa Belo Horizonte: Autêntica.
- UNHCR. 2025. Global trends: Forced displacement in 2024 Geneva: UNHCR.
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Declaração de disponibilidade de dados
Todas as informações utilizadas para a estruturação e redação do texto estão disponíveis (as referências são citadas ao final do texto); além do filme “A História de Souleymane”, que está disponível nos sites de streaming (o vídeo do trailer está disponível no Google, de livre acesso). Já consta o DOI de um artigo na lista de referências; os outros são livros; contudo há um relatório referenciado ao final para o qual passo o site de acesso: UNHCR. 2025. Global trends: Forced displacement in 2024. Geneva: UNHCR. https://www.unhcr.org/global-trends-report-2024.
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Editores Associados
Rosana Castro (https://orcid.org/0000-0002-1069-4785). Sara Morais (https://orcid.org/0000-0003-1490-1232). Jose Arenas Gómez (https://orcid.org/0000-0002-2159-0527). Alberto Fidalgo Castro (https://orcid.org/0000-0002-0538-5582). Elisabeth Defreyne (https://orcid.org/0009-0009-2559-0047).
Todas as informações utilizadas para a estruturação e redação do texto estão disponíveis (as referências são citadas ao final do texto); além do filme “A História de Souleymane”, que está disponível nos sites de streaming (o vídeo do trailer está disponível no Google, de livre acesso). Já consta o DOI de um artigo na lista de referências; os outros são livros; contudo há um relatório referenciado ao final para o qual passo o site de acesso: UNHCR. 2025. Global trends: Forced displacement in 2024. Geneva: UNHCR. https://www.unhcr.org/global-trends-report-2024.
