RESUMO
Este artigo examina a relação entre memória e história na educação, com foco no potencial dos depoimentos orais gravados em vídeo como fontes históricas e sua contribuição para o campo da história pública. Ele explora a ênfase contemporânea na memória e sua crescente influência no espaço público, às vezes em detrimento da pesquisa histórica rigorosa. Com base na noção de Halbwachs do passado como uma construção mediada, o artigo defende a integração de experiências vividas e percepções subjetivas na história da educação, argumentando que os depoimentos orais complementam as fontes tradicionais, oferecendo uma compreensão mais sutil e multidimensional. O projeto “Memórias Educacionais em Vídeo” e o banco de dados em www.memoriascolastica.it, concentra-se em experiências educacionais principalmente na Itália, servem como exemplos importantes. O argumento principal enfatiza a importância de revitalizar a história da educação, cultivando a memória por meio da comunicação intergeracional e de fontes históricas acessíveis. A conclusão destaca o papel do portal como um recurso crucial para combater o declínio da memória e promover investigações histórico-educacionais rigorosas.
PALAVRAS-CHAVE
História oral; Memória educacional; história pública
ABSTRACT
This article examines the relationship between memory and history in education, focusing on the potential of video-recorded oral testimonies as historical sources and their contribution to the field of public history. It explores the contemporary emphasis on memory and its growing influence in public discourse, sometimes at the expense of rigorous historical research. Drawing upon Halbwachs’ notion of the past as a mediated construct, the article advocates for the integration of lived experiences and subjective perceptions into educational history, arguing that oral testimonies complement traditional sources, offering a more nuanced and multidimensional understanding. The “Educational Memories on Video” project and the database at www.memoriascolastica.it, concentrating on educational experiences primarily within Italy, serve as key examples. The main argument emphasizes the importance of revitalizing the history of education by cultivating memory through intergenerational communication and accessible historical sources. The conclusion highlights the portal’s role as a crucial resource in countering the decline of memory and promoting rigorous historical-educational investigations.
KEYWORDS
Oral History; Educational Memory; public history
A MEMÓRIA E A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO?
Cultivar a memória se tornou uma necessidade vital para os seres humanos. De fato, a memória é um elemento fundamental na construção das identidades nacionais, religiosas e culturais, assim como no apoio às escolhas políticas, assumindo atualmente um papel central no desenvolvimento e reorganização das sociedades modernas (Clemente, 1999). Não é por acaso que nossa era parece estar “obcecada e atravessada pelo pensamento da memória” (Violi, 2014), a ponto de os fenômenos memoriais terem literalmente explodido: comemorações públicas, locais de memória, museus temáticos e até mesmo uma florescente indústria cultural e comercial que reproduz objetos do passado, apelando para a nostalgia (Violi, 2014; Di Pasquale, 2019; Trentmann, 2017).
O papel da memória no debate público tornou-se tão relevante que compete com a história na tarefa de interpretar o passado. Trata-se de uma competição na qual a memória frequentemente prevalece sobre a pesquisa histórica, às vezes substituindo-a de forma inadequada, e criando, assim, problemas relacionados à simplificação, distorção ou banalização dos eventos históricos, cuja interpretação requer um método historiográfico científico rigoroso (Flores, 2021).
Por outro lado, as reflexões de Halbwachs já haviam deixado claro que o passado não é um repositório imutável que pode ser acessado diretamente, mas é sempre mediado pelo presente. Entretanto, como destaca Jedlowski, “a originalidade de Halbwachs consiste em postular que o passado que se apresenta no ato de lembrar não é um passado que retorna, mas uma reconstrução real do próprio passado, uma reformulação sujeita a reajustes e revisões que resultam de mudanças de pontos de vista no presente”. Segundo essa abordagem, a memória surge como um todo dinâmico, um espaço não apenas de seleções, mas de reinterpretações e reformulações do passado. Sua função consiste, mais do que fornecer imagens fiéis do passado, em preservar elementos que garantem aos indivíduos um senso de continuidade e a afirmação de sua própria identidade (Jedlowski, 2002, p. 47-48).
De forma mais geral, ao longo da última metade do século, os Estudos da Memória cresceram exponencialmente, consolidando sua presença nos campos de pesquisa onde deram os primeiros passos, ou seja, em primeiro lugar, os estudos psicológicos, dos quais partiram basicamente no final do século XIX, seguidos pelos estudos sociais e históricos que cresceram após a Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, expandiram-se para novas áreas científicas e disciplinares. Mais recentemente, esses estudos parecem ultrapassar as fronteiras dos campos disciplinares individuais, compartilhando abordagens, objetos de estudo e aplicações em um processo de lenta hibridização ou, pelo menos, de compartilhamento de perspectivas ao qual, talvez de forma mais ampla e a longo prazo, toda a pesquisa científica está destinada (Di Pasquale, 2019).
Em última análise, os estudos da memória abrangem atualmente múltiplos contextos geográficos e uma variedade de temas desafiadores, distinguindo-se, assim, tanto quantitativa quanto qualitativamente.
O discurso sobre a memória a partir da década de 1990 também foi objeto de análise nos estudos pedagógicos, especialmente aqueles focados na autobiografia e na narração (Demetrio, 2012; Demetrio, 1998) e, posteriormente, após um longo período de hesitação, nos estudos da história da educação. No campo da história da educação, a memória, depois de enfrentar alguns obstáculos para se tornar um tema e um objeto historiográfico, tornou-se de fato um interlocutor indispensável para todos os estudiosos. Isso ocorreu graças à pesquisa pioneira promovida no início do milênio na Espanha e na América Latina, culminando na conferência essencial de Sevilha em 2015 (Yanes-Cabrera, Meda, Viñao, 2017), que também forneceu bases sólidas para a vertente italiana, agora solidamente estabelecida. Essa solidez é amplamente atestada, aliás, pelo trabalho colaborativo que animou o projeto de pesquisa “Memórias escolares entre percepção social e representação coletiva (Itália, 1861-2001)”, coordenado em escala nacional por Roberto Sani (Sani, Meda, 2022), do qual emergiram vários bancos de dados de memória, disponíveis em acesso aberto no site www.memoriascolastica.it, bem como diversas publicações, incluindo a mais recente, The School and Its Many Pasts [A Escola e seus Muitos Passados] uma coleção de quatro volumes, também em acesso aberto, editada por Roberto Sani, Juri Meda e Lucia Paciaroni (2024).
A memória, auxiliada pela mídia convencional e pela indústria cultural, parece, assim, fornecer um ponto de apoio para aquelas interpretações do passado que preferem uma abordagem política, sem usar a comparação com fontes e negligenciando a reconstrução das causas dos vários fenômenos. Esse uso da memória, portanto, beneficia o poder dominante do momento, mas se afasta da busca por uma compreensão mais profunda dos fenômenos e problemas do presente, correndo o risco de esgotar completamente o campo da história. Contudo, essa proeminência da memória oferece a oportunidade de aceitar um desafio e repensar a maneira de fazer história, ou seja, a profissão de historiador. Trata-se de uma história que não renuncia ao rigor metodológico, mas é capaz de enfrentar as mudanças da sociedade. É uma história mais sensível aos aspectos populares, aberta às novas tecnologias e, acima de tudo, atenta aos processos participativos de pesquisa e ao envolvimento do público, a verdadeira força da memória (Bandini, apud Bandini, Oliviero, Brunelli et al., 2022, p. 95-110).
O crescimento da atenção à memória, como mencionado, também significa o aumento dos Estudos da Memória, resultando no surgimento de novas perspectivas historiográficas.
O banco de dados Educational Memories in Video – MEV [Memórias Educacionais em Vídeo] busca responder à necessidade de desenvolver novas abordagens para se fazer história educacional enquanto oferece uma visão dos aspectos da vida escolar cotidiana que são difíceis de capturar com fontes tradicionais.
MEMÓRIAS EDUCACIONAIS EM VÍDEO: UM ESTUDO DE CASO
Nas últimas duas décadas, o cenário italiano observou o surgimento de inúmeros projetos dedicados à história oral, com especial enfoque no setor educacional, mais especificamente nas escolas. Frequentemente, essas iniciativas se configuram como experiências limitadas a contextos locais, carecendo do suporte econômico necessário para sua continuidade e sustentabilidade ao longo do tempo. É significativo, neste contexto, destacar um projeto que surgiu como parte de uma investigação histórica sobre o sistema escolar italiano na segunda metade do século XX, caracterizado pela intersecção de metodologias historiográficas tradicionais e abordagens próprias da história digital. Este projeto surgiu da convicção consolidada, amadurecida através de experiências de pesquisa anteriores, da necessidade de combinar o rigor metodológico e a documentação meticulosa das fontes com sua ampla acessibilidade e usabilidade. De fato, inúmeros estudos de pesquisa permanecem confinados a publicações em papel de alto custo e disponibilidade limitada, especialmente para públicos fora do contexto acadêmico e com menores possibilidades econômicas.
O projeto denominado “Memórias Educacionais em Vídeo”, nessa perspectiva, optou pela publicação tanto das fontes originais em um espaço virtual dedicado (dentro do portal da memória escolar, www.memoriascolastica.it) quanto de dois volumes em formato digital, de acordo com o modo de acesso aberto (Bandini, Oliviero, 2021, 2022). Ambas as decisões se enquadram no quadro conceitual da história pública, adotando suas estratégias de comunicação e metodologias de investigação. Dois documentos, em particular, constituíram o quadro de referência cultural e metodológico para essas escolhas: o “Manifesto da História Pública Italiana” (https://aiph.hypotheses.org/files/2018/09/Manifesto-PH-20240101.pdf) e o “Manifesto da História Pública da Educação”,2 nos quais temas, abordagens metodológicas e objetivos são descritos em detalhes. Ambos os manifestos foram elaborados por processos participativos e estão disponíveis no site da Associação Italiana de História Pública.
Parece apropriado recordar pelo menos dois dos nove pontos programáticos em que se articula o segundo manifesto, aquele especificamente dedicado às questões educativas (Bandini, 2017; 2023).
A tese número oito é formulada da seguinte forma:
A pesquisa e a educação históricas oferecem muitas oportunidades e maneiras de construir atividades de história pública eficazes e envolventes. No entanto, um papel privilegiado, que merece ser particularmente enfatizado, é desempenhado pelas práticas de história oral, histórias de vida e escritos autobiográficos.
Estamos cientes de que o conhecimento histórico, em sua heterogeneidade nacional e internacional, abrange um espectro muito amplo de experiências humanas que se estendem da dimensão individual à coletiva, até a perspectiva da “história global”. Do nosso ponto de vista, colocar a ênfase nos testemunhos pessoais em uma relação dialógica com quadros cognitivos mais amplos permite desenvolver plenamente a dimensão reflexiva, promover o bem-estar individual e comunitário e melhorar a capacidade interpretativa do presente. Em certas circunstâncias, estas operações, que entrelaçam a investigação histórica com as necessidades formativas das comunidades, podem facilitar tanto a mediação de conflitos quanto o surgimento das experiências de grupos marginalizados.
Na tese número seis, também leia-se:
As atividades de História Pública privilegiarão o contato direto e o envolvimento das pessoas interessadas, mas, ao mesmo tempo, desenvolverão tecnologias de comunicação e interação digitais, sob a bandeira da glocalização e do empoderamento social. Do ponto de vista tecnológico, isso significa escolher software de código aberto, políticas de comunicação de acesso aberto e adesão aos princípios da Ciência Aberta.
Embora nem sempre seja óbvio, é importante enfatizar como cada escolha tecnológica incorpora implicitamente opções existenciais, filosofias de vida autênticas. Nos últimos tempos, especialmente com o advento da inteligência artificial, as inovações tecnológicas marcaram a entrada em uma fase histórica profundamente diferente. Optar por modos abertos de comunicação digital significa, portanto, promover espaços de história pública de considerável relevância, a partir da disponibilidade básica de fontes históricas, acessibilidade que facilita o compartilhamento de comentários e debates, tanto no ambiente digital quanto em contextos físicos.
O modo digital de publicação representa uma escolha metodologicamente fundamentada que permite replicar o dom da memória que cada entrevistado oferece ao entrevistador. A doação das próprias memórias configura-se como um ato de generosidade intelectual e humana que a modalidade digital pode amplificar, estendendo o alcance deste dom a comunidades mais amplas de potenciais destinatários. A dimensão relacional inerente à transferência de conhecimento e experiência assume um valor particular no campo da pesquisa histórico-educacional, onde a transmissão intergeracional constitui não apenas um objeto de estudo, mas também um modelo operacional.
O projeto representa a fase conclusiva de várias iniciativas enraizadas em experiências anteriores, buscando constituir fontes historiográficas adequadas para narrar a história da instituição escolar através da voz dos protagonistas, de dentro ou “de baixo”, conforme usado em períodos anteriores, em conformidade com a lição de Gramsci sobre a história dos grupos subalternos. A necessidade de construir narrativas históricas centradas na história oral coloca inevitavelmente em segundo plano os aspectos regulamentares nacionais, a história administrativa da instituição e educacional, os debates políticos e parlamentares, que apenas ressurgem como componentes da memória individual e profissional.
É através do testemunho dos protagonistas do universo escolar — professores, educadores, diretores, inspetores escolares, e pessoas comuns com suas memórias de infância como alunos — que podemos entender as emoções, percepções, decisões, debates, conflitos e iniciativas de origem local e contextualizada, que, por isso, iluminam a cultura escolar concreta à medida que se desenvolveu e foi vivida. As discrepâncias entre esses relatos da história local e a narrativa histórica nacional não são insignificantes; as contribuições originais que essa dimensão local traz para a macro-história do universo escolar são tão amplas e diversas que escapam a qualquer pretensão de fácil generalização e classificação.
Com essa intenção, duas iniciativas paralelas foram lançadas nos últimos anos, constituindo o antecedente e a matriz cultural do projeto em questão: em 2015, foi lançado o site Memorie di scuola, editado por Gianfranco Bandini, destinado a coletar depoimentos de professores do ensino fundamental (Bandini, Mangiatordi, 2020); em 2018, foi inaugurado o site Memorie d’infanzia, editado por Stefano Oliviero, dedicado à coleta de depoimentos de educadores.
Em ambos os contextos, as entrevistas consistem em gravações de vídeo de duração variável, unidas por uma abordagem de escuta das experiências profissionais, com atenção particular aos aspectos emocionais e relacionais. Esta modalidade permite a plena exploração dos gestos e posturas dos entrevistados, inflexões, pausas e outros elementos paralinguísticos. Em suma, a gravação de vídeo viabiliza a aquisição de informações essenciais para a compreensão, não se limitando à comunicação verbal, mas incluindo também a comunicação paraverbal e não verbal.
É importante ressaltar que a decisão de documentar as entrevistas em vídeo é uma opção metodológica precisa, motivada por vários fatores positivos, em primeiro lugar pela percepção visual do contexto e dos comportamentos não verbais que se tornam parte integrante do testemunho. A comunicação não verbal constitui um elemento fundamental na transmissão de significados e na construção de narrativas autobiográficas autênticas. Gestos, expressões faciais, silêncios eloquentes e microexpressões transmitem conteúdos emocionais e cognitivos que enriquecem o valor documental do testemunho, oferecendo ao pesquisador e ao usuário subsequente elementos interpretativos de considerável relevância.
Os recursos digitais publicados resultam dos esforços de múltiplas partes, todas unidas pelo interesse em um conhecimento aprofundado e na divulgação do universo escolar, além dos clichês, em suas inúmeras facetas. A tarefa de coletar e editar as entrevistas em vídeo foi confiada a estudantes que aceitaram com entusiasmo o convite para colaborar na iniciativa. Eles certamente merecem reconhecimento, embora as pessoas a quem devemos agradecer sejam principalmente os professores, educadores e todas as testemunhas. É somente graças à sua disposição em compartilhar suas memórias profissionais que possuímos um corpo amplo e articulado de fontes históricas, um autêntico patrimônio cultural coletivo.
Essas iniciativas não foram casos isolados, embora sejam minoria comparadas à produção historiográfica geral sobre o assunto: considere, em particular, o projeto Memorie Magistrali, promovido desde 2019 por Pamela Giorgi, do Instituto Nacional de Documentação, Inovação e Pesquisa Educacional, as experiências anteriores de Davide Montino (Marenco, Montino, 2008) e Alberto Barausse (Barausse, 2013) e as mais recentes e aprofundadas de Lucia Paciaroni (Paciaroni, 2018).
PRESERVAÇÃO E PROMOÇÃO DA CULTURA ESCOLAR
A centralidade da memória na construção da identidade coletiva e individual é um tema de crescente interesse no debate historiográfico contemporâneo. A memória, entendida não como um mero repositório de informações, mas como um processo ativo de seleção, interpretação e reconstrução do passado, assume um papel crucial na formação das identidades profissionais, particularmente na esfera educacional. Professores e educadores constroem sua identidade profissional não apenas por meio de cursos formais de formação, mas também através da contínua elaboração de experiências vividas, em um processo reflexivo que envolve dimensões cognitivas, emocionais e de valores. A coleta e análise de memórias educacionais oferecem acesso a esse rico patrimônio experiencial, iluminando aspectos do profissionalismo docente que, de outra forma, permaneceriam nas sombras.
Com base em experiências anteriores e nas de colegas nessa área de pesquisa, a atividade de coleta de fontes e também a investigação teórica continuaram, especialmente sobre a dimensão pública da história da educação (Bandini, Oliviero, Giorgi, 2021), a história digital e seus múltiplos campos de aplicação, sobretudo os educacionais (Bandini, 2018).
A participação em um Projeto de Pesquisa de Interesse Nacional possibilitou o desenvolvimento, em colaboração com vários colegas, de um projeto estruturado e financiado intitulado “Memórias Escolares entre Percepção Social e Representação Coletiva] (Itália, 1861-2001)”, coordenado por Roberto Sani, da Universidade de Macerata. O trabalho atravessou toda a fase da pandemia da Covid-19, tornando particularmente complexas algumas etapas de implementação, como é facilmente compreensível. No entanto, o empenho de todos os participantes e o uso sistemático de tecnologias permitiram alcançar os objetivos do projeto, que incluíram, entre outros resultados, a construção de um portal digital (www.memoriascolastica.it) e a criação de várias bases de dados, incluindo a banco de dados MEV, algumas das quais apresentamos aqui.
A pandemia da Covid-19, embora tenha representado um obstáculo significativo à realização das atividades do projeto, paradoxalmente destacou a importância das tecnologias digitais na preservação e transmissão da memória. Em um período caracterizado pelo distanciamento físico e pela interrupção de muitas práticas sociais tradicionais, a dimensão digital ofereceu espaços alternativos para encontros e compartilhamento, demonstrando sua relevância não apenas como ferramenta operacional, mas também como um ambiente cultural com suas próprias especificidades. Essa experiência reforçou ainda mais a convicção da importância de desenvolver abordagens metodológicas adequadas para a coleta, preservação e análise de fontes digitais, com atenção especial às questões de acessibilidade, preservação a longo prazo e interoperabilidade dos dados.
Memorie Educative in Video reúne, em continuidade com experiências anteriores de história oral, uma série consistente de novas entrevistas realizadas por estudantes da Universidade de Florença e, em alguns casos, por pesquisadores voluntários. A distribuição geográfica das testemunhas, por razões logísticas compreensíveis, concentra-se principalmente na Toscana, com algumas exceções em outras áreas da Itália, enquanto predominam os depoimentos relativos ao período entre os anos 1950 e 1980.
Comparado a iniciativas anteriores, o projeto mantém certas escolhas operacionais de natureza tecnológica que revelam uma abordagem conceitual que merece ser explicada. Os vídeos, de fato, não foram arquivados em uma plataforma acadêmica ou depositados em mídia física em um arquivo institucional; em vez disso, foram enviados para o YouTube, o serviço de compartilhamento de conteúdo de vídeo mais conhecido e popular em nível internacional. Essa modalidade permite que o entrevistador mantenha o protagonismo com total disponibilidade da fonte histórica produzida. Essa decisão, inicialmente determinada por recursos financeiros limitados e restrições tecnológicas, gradualmente se revelou um elemento qualificador da iniciativa, cuja relevância foi cada vez mais reconhecida.
Essa metodologia de coleta e preservação de fontes históricas certamente não atende a todos os requisitos do arquivamento profissional e, nesse aspecto, pode ser objeto de críticas legítimas (AISO, 2021). No entanto, ela possui outras vantagens peculiares, sendo a principal o respeito pela lógica fundamental subjacente a todo testemunho, ou seja, a lógica do dom, da troca memorial entre indivíduos. A fonte é constituída exclusivamente por meio de uma relação interpessoal e é acompanhada por uma intenção comunicativa que persiste enquanto o sujeito desejar mantê-la. Essa abordagem implica, como é evidente, o risco potencial de perda de fontes (que, na prática, é extremamente limitado, significativamente menor do que se poderia supor) e, ao mesmo tempo, garante o envolvimento ativo dos principais protagonistas da entrevista.
A questão da preservação digital das fontes orais levanta questões complexas relacionadas não só com aspectos técnicos, mas também com dimensões éticas, jurídicas e culturais. De fato, a rápida evolução tecnológica exige uma reflexão constante sobre as formas mais adequadas de garantir a acessibilidade futura dos materiais, considerando a obsolescência dos formatos e das plataformas. Simultaneamente, surgem questões de propriedade intelectual, proteção da privacidade e consentimento informado dos participantes, aspectos que exigem uma gestão cuidadosa no contexto da divulgação digital. A solução adotada no projeto representa uma tentativa de equilibrar diferentes necessidades, favorecendo a acessibilidade e a dimensão relacional da fonte, em detrimento de critérios de arquivamento mais tradicionais, em consonância com os princípios da história pública.
Esse modo de arquivamento reforça a natureza relacional das fontes orais, que têm origem na troca memorial entre pessoas (Clement, 1999), para serem posteriormente publicadas e comunicadas a outros de acordo com a vontade dos participantes. Se o completo envolvimento do entrevistador no processo de pesquisa implica um potencial risco de perda das fontes, essa eventualidade é, no entanto, amplamente compensada pelo benefício de maior envolvimento dos sujeitos, facilitando o uso dos materiais em atividades educacionais ou de história pública (Bandini, 2017; Bandini, Oliviero, 2019).
A dimensão participativa é um elemento distintivo da abordagem adotada, em sintonia com os princípios fundamentais da história pública, que promovem o envolvimento ativo das comunidades nos processos de construção do conhecimento histórico. Essa orientação metodológica reflete uma concepção democrática da produção cultural, onde o conhecimento histórico não é monopólio dos especialistas, mas resulta do diálogo entre competências diferentes e complementares. Nessa perspectiva, o envolvimento de estudantes universitários na coleta de testemunhos assume um significado que transcende a dimensão meramente operacional, constituindo uma prática de formação autêntica que favorece a aquisição de habilidades metodológicas e, simultaneamente, promove a reflexão crítica sobre a relação entre memória individual e coletiva.
Utilizando o portal “memoriascolastica.it” e um software desenvolvido especificamente para fins históricos, foi possível catalogar os depoimentos, indexá-los, fornecer uma transcrição automática do conteúdo verbal e pesquisar termos falados pelos entrevistados (Mnemosine: Bandini, Oliviero, Alfieri et al., 2021; projetado especificamente e patenteado pelo grupo nacional de pesquisa).
Cada entrevista em vídeo, além de ser acompanhada por um cartão descritivo e pelos metadados que fornecem uma contextualização histórica, pode ser rapidamente cruzada com todo o patrimônio de fontes armazenadas no portal e nas outras bases de dados relacionadas às memórias escolares, mantidas pelas várias unidades de pesquisa locais: Audiovisual (Università Cattolica del Sacro Cuore Milan); Ilustrações (Università degli Studi di Roma Tre); Diários inéditos (Università degli Studi di Roma Tre), Memórias públicas (Università degli Studi di Macerata); Honras (Università degli Studi del Molise); Obras de arte (Università degli Studi di Roma Tre); Obras literárias (Università degli Studi di Roma Tre). Um trabalho colaborativo notável, em que unidades locais das Universidades de Pádua, Turim, Bolonha, Basilicata, Bérgamo, Gênova e Bolzano também participaram ativamente como escritórios afiliados ou pesquisadores individuais.
A integração de diferentes tipos de fontes em uma única plataforma digital constitui um elemento de relevância metodológica notável, permitindo abordagens de pesquisa inovadoras baseadas na interseção de dados heterogêneos. Essa arquitetura de informação facilita o surgimento de conexões sem precedentes entre diferentes dimensões da experiência escolar, tornando possível a reconstrução mais articulada e complexa da teia de práticas educacionais, representações culturais e percepções subjetivas que caracterizaram a história das escolas italianas. A possibilidade de navegar transversalmente entre testemunhos orais, documentos iconográficos, textos literários e outros materiais oferece ao pesquisador ferramentas valiosas para uma compreensão multidimensional do fenômeno educacional, superando limitações das abordagens metodológicas tradicionais.
Os testemunhos individuais estão assim incluídos em uma “coleção” — o banco de dados MEV — que, além de preservar toda a informação relativa ao seu contexto, a conecta em uma densa rede de relações não só com todos os outros testemunhos, mas também com as outras bases de dados do portal. Enquanto parte das entrevistas diz respeito a professores e professoras do ensino fundamental, outra é dedicada às memórias escolares das “crianças de ontem” e às memórias de educadores da primeira infância. O banco de dados MEV, que faz parte integrante do portal memoriascolastica.it, conta atualmente com cerca de 300 entrevistas em vídeo com duração que varia de 30 minutos a mais de duas horas, e uma média de 50–60 minutos.
Os depoimentos em vídeo representam apenas o início de um caminho de elaboração histórica: eles podem, de fato, ser usados como estímulo para promover processos de compartilhamento das memórias de realidades locais específicas e, assim, fomentar a construção da comunidade (Bandini, Oliviero, Brunelli et al., 2022), ou podem facilmente encontrar um espaço nas atividades curriculares das escolas primárias, bem como nas secundárias, tanto para o trabalho com fontes quanto para os conteúdos transmitidos por depoimentos individuais (Meda, 2022).
A HISTÓRIA DIGITAL COMO FERRAMENTA PARA COMBATER O DECLÍNIO DA MEMÓRIA E A BANALIZAÇÃO DO PASSADO
A natureza aberta e interativa do portal incentiva usos diversificados dos recursos em contextos educacionais formais e informais. Os testemunhos coletados podem constituir um valioso material didático para percursos de educação em cidadania, memória histórica e interculturalidade (Oliviero, Martinelli, 2021). Por meio da análise comparativa de experiências educativas de diferentes contextos temporais e geográficos, os alunos têm a oportunidade de desenvolver competências críticas essenciais para a compreensão da complexidade histórica e social. Simultaneamente, o acesso a estas fontes pode estimular processos de reflexão sobre as transformações na profissão docente e nas práticas educativas, oferecendo aos professores estagiários oportunidades significativas de comparação com a experiência de colegas de gerações anteriores.
É interessante destacar o uso frequente de fotografias como ativadores de memórias durante os depoimentos: imagens que simultaneamente oferecem fontes adicionais sobre as quais podemos construir trajetórias de investigação. As representações fotográficas frequentemente não falam por si mesmas, nem são facilmente interpretáveis; através da interseção com a história oral, somos assim capazes de atribuir significados e valor às histórias de vida, aumentar a densidade das memórias e melhorar a contextualização dos eventos. A fotografia, nesse contexto metodológico, assume uma dupla função: por um lado, atua como um dispositivo mnemônico que facilita o surgimento da memória e, por outro, constitui ela própria uma fonte documental que requer interpretação e contextualização. A interação entre o testemunho oral e o documento fotográfico produz, assim, uma sinergia cognitiva particularmente eficaz na reconstrução histórica das experiências educativas.
Entre os temas recorrentes que merecem destaque estão os processos de modernização do país que formam o pano de fundo das memórias escolares e a própria percepção da instituição escolar, bem como o significativo reconhecimento social do papel dos professores, que parece caracterizar as lembranças de inúmeras testemunhas. A escola emerge dos testemunhos não como uma instituição isolada, mas como um microcosmo que reflete e, ao mesmo tempo, participa das transformações sociais, econômicas e culturais do contexto mais amplo. Particularmente significativos, nessa perspectiva, são os testemunhos relativos ao período do milagre econômico italiano, durante o qual a escola representou um veículo fundamental para a mobilidade social e a difusão de novos modelos culturais, contribuindo decisivamente para a modernização do país.
Entre os muitos temas abordados nas memórias, não se pode ignorar as punições, frequentemente lembradas como um elemento natural e integrado do ensino curricular, especialmente no período entre as décadas de 1950 e 1970. A corporalidade das práticas disciplinares, hoje amplamente questionada e substancialmente abandonada nos contextos educacionais formais, constitui um elemento recorrente nas narrativas das testemunhas, revelando concepções de infância e modelos pedagógicos profundamente diferentes dos contemporâneos. A análise dessas práticas oferece pistas preciosas para uma reflexão crítica sobre a mudança das relações educacionais e o reconhecimento progressivo dos direitos das crianças, destacando como transformações culturais relevantes ocorreram em um período relativamente curto.
Entre os aspectos metodológicos a destacar, sobressai a relação entre entrevistador e entrevistado, que, em cada testemunho em vídeo, ativa um processo comunicativo entre diferentes gerações, assumindo, assim, independentemente do conteúdo recolhido, um valor educativo. A dimensão intergeracional da comunicação emerge como um elemento constitutivo da abordagem metodológica adotada, configurando as entrevistas não apenas como ferramentas de recolha de dados, mas como autênticos eventos comunicativos onde ocorre um processo de transmissão cultural bidirecional. Nesta perspectiva, o testemunho oral assume um valor formativo que transcende seu valor documental imediato, contribuindo para a construção de pontes de compreensão mútua entre experiências geracionais distantes.
A publicação dessas fontes e as ferramentas que permitem cruzar seus conteúdos sugerem múltiplos caminhos de pesquisa úteis para complementar a história das escolas, que é frequentemente reconstruída a partir de fontes legislativas, como se observa na historiografia. A abordagem metodológica adotada promove uma visão da história da educação que valoriza as dimensões da experiência vivida e da percepção subjetiva, sem, no entanto, renunciar ao rigor analítico e à contextualização crítica. Desta perspectiva, o testemunho oral não substitui, mas complementa e enriquece as fontes tradicionais, contribuindo para uma reconstrução histórica mais articulada e multidimensional.
Pode-se afirmar que o projeto “Memórias Educacionais em Vídeo”, juntamente com as outras ricas bases de dados do portal www.memoriascolastica.it, contribui, em certo sentido, para nutrir e revitalizar a própria história da pedagogia. “O desaparecimento da memória”, escreveu Duccio Demetrio em um ensaio intitulado “Pedagogia da Memória”, “é o verdadeiro fim de toda a pedagogia”. Em última análise, se é verdade, ainda citando Demetrio, que para não sermos condenados “à aparência e à ficção”, é urgente restaurar “a comunicação entre as gerações, a transmissão de testemunhos, os rituais da lembrança” (Demetrio, 1998, p. 7), então o portal criado com o projeto “Memórias Escolares” representará um recurso valioso para combater o declínio da memória e conter a banalização do passado ou a abordagem ideológica, retórica ou emocional do estudo da história, promovendo, em vez disso, investigações histórico-educacionais rigorosas, graças a uma gama de fontes agora significativamente mais articuladas e acessíveis.
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DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS:
Todos dados que sustentam os resultados deste estudo foram incluídos no artigo.
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Editor responsável:
Ely Bergo de Carvalho
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