Este artigo aborda o “contrato” entre a autobiografia transexual e o diagnóstico médico, buscando compreender como a categoria médica de transexualidade foi incorporada e interpretada no Chile durante o final da década de 1970 e os primeiros anos da ditadura. Esse período foi marcado tanto pela intensificação das políticas repressivas e pelo discurso católico-conservador pró-reprodutivo e familialista, quanto pela progressiva implementação de um modo de governança neoliberal. Recorro às ferramentas analíticas e metodológicas dos estudos trans para analisar como a relação entre o visível, o enunciável e a corporeidade foi organizada em uma série de documentos: escritos médicos publicados pela Sociedade Chilena de Sexologia Antropológica em 1968, o livro Memorias de un cambio de sexo, a primeira autobiografia transexual publicada no Chile, em 1975, e uma série de reportagens da imprensa. Por meio da análise desse corpus, procuro examinar as formas pelas quais algumas subjetividades transexuais conseguiram combinar permeabilidade e penetrabilidade a fim de negociar com o discurso médico e, ao mesmo tempo, abrir um modo de autoenunciação individual e comunitária, em um contexto anterior ao surgimento de grupos trans organizados.
PALAVRAS-CHAVE
Transexualidade medicalizada; autobiografia trans; ditadura chilena
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Fuente: Revista VEA, 1975, p.17 y 18.