Open-access Para além do excepcionalismo: notas sobre “O estranho e o ordinário” de Michel-Rolph Trouillot

Originalmente publicado em 1990, no terceiro número da revista Cimarrón, o artigo de Michel-Rolph Trouillot (1949-2012), O estranho e o ordinário: o Haiti, o Caribe e o mundo, que aqui apresentamos, foi escrito pelo antropólogo haitiano em um momento paradigmático tanto para a história de seu país natal quanto para sua trajetória acadêmica. 1 Assistia-se no Haiti, desde 1986, à emergência de iniciativas democráticas e novos debates políticos no campo progressista após o longo e violento período da ditadura duvalierista. 2 Ao mesmo tempo e ao norte do Atlântico, Trouillot, que saíra do país caribenho em 1968, justamente em função de perseguições políticas, se consolidava como pesquisador e professor universitário. 3 O antropólogo lecionou na Universidade Duke, a partir de 1983, onde durante os próximos cinco anos ajudou a criar o Programa de Estudos Caribenhos (Woodson & Williams, 2013). Pouco depois de terminar seu doutorado no Programa de História e Cultura Atlântica da Universidade Johns Hopkins, em 1985, tornou-se professor na mesma instituição, onde permaneceu até 1998, quando se transferiu para a Universidade de Chicago. Ali ensinaria até o fim de sua vida4.

O estranho e o ordinário é parte, assim, de uma série de novos trabalhos publicados por Trouillot a partir dos anos 1990. É nesse momento em que, não por acaso, o autor se volta à reflexão sobre o Haiti, após pelo menos uma década de estudos dedicada à compreensão da história colonial de São Domingos - com um amplo espectro de trabalhos que vão de artigos publicados em inglês (Trouillot, 1981, 1982) a um livro pioneiro escrito em crioulo haitiano, cujo objetivo político era contar a história da Revolução Haitiana através do prisma do materialismo histórico além de um importante trabalho de campo etnográfico realizado na ilha de Dominica, estudo que deu origem à sua tese de doutorado (Trouillot, 1988). Iniciado pela publicação, ainda na década de 1980, de Les Racines Historiques de l’État Duvaliérien (1986) - trabalho que se tornaria quatro anos depois o clássico State Against Nation: The Origins and Legacy of Duvalierism (1990b) - este movimento incluiu reflexões sistemáticas sobre a história política haitiana, sua relação com a região caribenha e o capitalismo global, e, em última instância, sobre a posição do Haiti no imaginário antropológico ocidental. Sem abandonar o horizonte comparativo, foi a partir de materiais empíricos que Trouillot traçou análises bastante atuais sobre contextos pós-plantation, pensando tanto na autonomia histórica do Estado em contextos pós-coloniais e na formação de retóricas do poder autoritário (Trouillot, 1990b; 1992) quanto em processos crioulização e sociogênese em regiões que compõem a geografia da diáspora africana (Trouillot, 1990a; 2006). Dois outros trabalhos do autor recentemente traduzidos para o português são também exemplos fundamentais da produção da década de 1990: o artigo “A região do Caribe: uma fronteira aberta na teoria antropológica” ([1992] 2018), dedicado a compreender a construção do Caribe como região etnográfica e objeto antropológico, e o livro Silenciando o passado: poder e a produção da história ([1995] 2016), em que o autor discorre sobre formas de produção da história enquanto práticas sociais e narrativas conformadas por relações de poder situadas. 5

Especificamente em O estranho e o ordinário, Trouillot realiza uma reflexão que se aproxima ao movimento feito por Edward Said (1935-2003) anos antes com seu Orientalismo (1990 [1978]), quando aponta para a construção pelo Ocidente de um Oriente às avessas. Espécie de espelho invertido, Said argumenta que esse Oriente diz mais respeito aos pressupostos epistemológicos ocidentais e às suas pretensões imperialistas do que ao próprio mundo oriental, sua diversidade e história. Nessa mesma direção, Trouillot aponta para os perigos de tratar o Haiti como uma exceção histórica e sociocultural, interpretação que teria suas raízes nas análises, especialmente feitas por intelectuais e cronistas estrangeiros, que enfatizam as particularidades da Revolução Haitiana (1791-1804) e da subsequente independência do país (1804). Desde então, chama a atenção Trouillot, o Haiti tem sido visto como local idiossincrático, especialmente por oposição ao Ocidente imperialista, e entendido como “o [seu] mais longo projeto neocolonial” (1990a: 7). De “primeira república negra das Américas” à “nação mais pobre do hemisfério ocidental”, frases frequentemente entoadas pelos livros de história e noticiários ao longo do século XX, o país é marcado por sua estranheza (“the odd”), mas pode e deve também ser apreciado por sua dimensão ordinária (“the ordinary”). Afinal, nos ensina a antropologia que a vida cotidiana e as práticas sociais corriqueiras são tão relevantes como objeto de análise quanto os grandes eventos históricos e as catástrofes. 6

A insistência em ressaltar as supostas particularidades haitianas tem ainda, nos dirá Trouillot, efeitos perversos, que tanto invisibilizam a agência dos haitianos e haitianas ao longo da sua história, quanto minimizam a violenta contribuição oferecida pelos países imperialistas a essa mesma história. Mais do que isso, o autor revela como a ficção do excepcionalismo haitiano, produzida também por literatos nacionalistas, garantiu as pretensões autoritárias de uma elite que entendia que um país excepcional deveria ser também governado de forma excepcional. Assim, a difundida imagem de um Haiti, que de tão único se torna estranho ou incompreensível, opera como um “escudo”, perfeito para isolar o país politicamente, afastando-o da integração a um mundo “dominado pelo Cristianismo, pelo capitalismo e pela branquitude” (1990a: 7). Trouillot mostra, assim como o faz em outros trabalhos, o imbricamento entre as narrativas históricas, a construção de imagens antropológicas e os mecanismos de poder que, em diferentes escalas, produzem as desigualdades e os estigmas. Finalizando o texto com um convite a novas pesquisas, Trouillot antecipa parte das investigações que marcariam os anos 2000 e lança as bases de um projeto de compreensão de processos históricos similares ao caso haitiano que ainda aguarda novas contribuições.

Na esteira deste artigo o antropólogo demonstrou ainda, em seus trabalhos da década seguinte, as ambições de um projeto de crítica à antropologia e sua face colonialista. Demônio que sempre ressurge apesar dos constantes esforços em exorcizá-lo, encontramos na pena de Trouillot uma importante inflexão assentada nas possibilidades de historicizar fenômenos sociais e os próprios conceitos de que historiadores, filósofos e cientistas sociais lançamos mão. Não por acaso, conceitos como cultura, modernidade e globalização, foram chamados provocativamente por ele de “universais norte-atlânticos” (Trouillot, 2003). Por meio de um atento trabalho crítico com os conceitos, ao longo de toda sua trajetória Trouillot demonstrou como a antropologia pode, de fato, contribuir para a renovação de temas, problemáticas e ferramentas.

A circulação do texto aqui apresentado, inicialmente elaborado como uma aula magna e escrito em meio às turbulências que levariam o Haiti à eleição de Jean-Bertrand Aristide (1953-), diz muito de sua potência e de sua capacidade de dialogar com outros universos, para além de seu inegável enraizamento histórico, político e espacial. Sabe-se que, desde a sua publicação, ele era passado de mão em mão, através de fotocópias grifadas, ou ainda escaneado e difundido por algum estudante generoso, cruzando assim hemisférios e mares antes do advento das digitalizações. O artigo seguiu e segue inspirando pesquisadoras e pesquisadores que pensam articulações globais a partir do que Mintz (2012) chamou de temas e variações caribenhos, bem como estudiosos interessados em questionar a clássica oposição antropológica entre particularismo e universalismo, articulada por Trouillot através da noção de excepcionalismo (Bonilla, 2013; Benedicty-Kokken, Byron, Glover & Schuller, 2016). Parte de uma verdadeira obra crítica e engajada, este texto que já nasceu um clássico, encontra agora uma nova publicação, seguida de uma tradução ao português. O intuito é de que ele possa circular de modo mais amplo e que, com a versão em português, se junte aos esforços já realizados para a divulgação do trabalho de Trouillot em territórios lusófonos, ganhando, esperamos, novos leitores e leitoras entusiasmados.

Referências bibliográficas

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    28 Out 2020
  • Data do Fascículo
    2020
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