Este artigo apresenta uma etnografia da produção carnavalesca na Série Ouro do carnaval carioca, tendo como fio condutor a trajetória de André Rodrigues, carnavalesco negro da Acadêmicos do Sossego em 2022. A pesquisa revela como as escolas de samba do grupo de acesso, ocupando posição periférica no sistema hierárquico carnavalesco, desenvolvem estratégias coletivas e redes de solidariedade para viabilizar seus desfiles em condições de extrema precariedade material. Enquanto o Grupo Especial conta com infraestrutura moderna na Cidade do Samba, as agremiações do acesso operam em barracões precários, dependendo de arranjos informais de circulação de materiais e saberes técnicos. Utilizando o conceito de “pessoas como infraestrutura” de Simone, a análise demonstra como os trabalhadores do carnaval mobilizam práticas colaborativas que compensam parcialmente as limitações estruturais, evidenciando tanto a resiliência criativa quanto as profundas desigualdades raciais e econômicas que atravessam esta manifestação cultural. A análise revela como os espaços periféricos, longe de serem receptores passivos das condições impostas, configuram-se como territórios ativos de criação e resistência cultural.
Palavras-chave:
carnaval; etnografia urbana; relações raciais; produção cultural; periferia
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