Violência, terror e resiliência são três temas que têm capturado a atenção de acadêmicos e líderes políticos desde pelo menos os anos 1980. Inspirados pelo estudo do Holocausto, um número considerável de especialistas surgiu com o objetivo de gerenciar intervenções para atender às necessidades das vítimas de regimes totalitários. Enquanto isso, aqueles envolvidos ativamente nos atos de violência que produziram essas vítimas parecem ter sido relegados a um segundo plano. Este artigo examina, portanto, os limites da compreensão etnográfica através de duas categorias cruciais para compreender a violência. Por um lado, as “alteridades reprováveis” englobam indivíduos ou grupos que, apesar de seu envolvimento em atos violentos, ainda podem ser objeto de empatia para o pesquisador. Por outro lado, as “outridades irredentíveis” são aqueles definidos unicamente por meio de uma aparente contaminação moral produzida pelo próprio ato que perpetraram. Desta forma, enquanto no primeiro caso o perpetrador é considerado como uma vítima das circunstâncias, no segundo o ato perpetrado é apresentado como abjeto, o que o exclui da possibilidade de compreensão. Tal dicotomia introduzida por essas duas abordagens a quem cometem atos de violência levanta questões importantes para os etnógrafos, como por exemplo: De que maneira os esquemas morais dos pesquisadores influenciam sua compreensão e descrição de determinados atos de violência? E quais são as implicações políticas e metodológicas para uma etnografia da violência presa entre essas “outridades irredentíveis” e “alteridades reprováveis”?
Palavras-chave:
Violência; Vitimação; Perpetradores; Etnografia; Moralidade