Este artigo analisa as transformações, tensões e paradoxos que marcam a produção cultural das periferias de São Paulo entre 2016 e 2024. A partir de cenas etnográficas e depoimentos de diferentes agentes culturais, examinamos como disputas por visibilidade, conflitos em torno de editais, relações ambíguas com o Estado e a crescente mercantilização da identidade periférica reconfiguram práticas e discursos no interior da chamada “Era da Perifa”. Argumento que o projeto pedagógico, estético e político que caracterizou a Literatura Marginal/Periférica e os coletivos culturais nas décadas anteriores passa, no período recente, por um processo de reordenamento, evidenciado pela incorporação de lógicas empreendedoras, pela dependência de mecanismos de fomento público e privado e pela emergência de hierarquias internas antes invisibilizadas. Dialogando com autores como Hall, Abu-Lughod, Ortner, Giddens, Reyes, Comaroff e Wacquant, sustento que o conceito de cultura, frequentemente mobilizado como valor positivo e incontestável, deve ser problematizado em suas dimensões políticas, econômicas e subjetivas. Aponto que, embora a identidade periférica seja hoje valorizada como marca cultural, permanece profundamente atravessada pela precarização, pelo racismo estrutural e pela luta cotidiana pela sobrevivência. Assim, o artigo busca compreender os limites e possibilidades da agência desses produtores culturais, destacando as tensões entre reconhecimento e captura, resistência e assimilação, comunidade e mercado.
Palavras-chave:
Periferias Urbanas; Produção Cultural; Agência; Identidade; Neoliberalismo