Open-access Sociedade e sofrimento psíquico: O discurso sociológico dominante e a sociologia da saúde mental de Alain Ehrenberg

Resumo

O artigo analisa a relação entre sociedade e sofrimento psíquico no discurso sociológico dominante e a posição de Alain Ehrenberg no debate. Primeiro, mostramos a ascensão social do tema da saúde mental na atualidade e a questão da relação sociedade e sofrimento psíquico desde autores clássicos da sociologia até perspectivas contemporâneas. Depois, examinamos a produção sociológica mais recente de Ehrenberg, a fim de mostrar como o autor procura se dissociar da abordagem dominante e da ideia de que o sofrimento psíquico é causado pela sociedade, ao passo que sua sociologia continua sendo mobilizada para fundamentar tal argumento. Dessa forma, explicitamos a posição do autor no campo específico de estudo e indicamos as implicações teóricas, epistemológicas e políticas do debate para a sociologia.

Palavras-chave
Sociedade; Sofrimento psíquico; Saúde mental; Sociologia; Alain Ehrenberg

Abstract

This article analyses the relationship between society and psychic suffering in the dominant sociological discourse and examines Alain Ehrenberg’s position within this debate. First, I trace the contemporary rise of mental health as a social issue and explore the question of the relationship between society and psychic suffering from the classical authors of sociology to more recent perspectives. I then examine Ehrenberg’s most recent sociological work in order to show how he seeks to dissociate himself from the dominant approach and from the idea that psychic suffering is caused by society, even as his sociology continues to be mobilised to substantiate precisely this argument. In this way, the article clarifies the author’s position within this specific field of study and indicates the theoretical, epistemological and political implications of the debate for sociology.

Society; Psychic suffering; Mental health; Sociology; Alain Ehrenberg

Introdução

O tema da saúde mental tem se consolidado como objeto de crescente relevância nas sociedades contemporâneas. Sua importância se estende a diferentes áreas do conhecimento, desde as ciências naturais e da saúde até as ciências humanas e sociais. No campo da sociologia, a questão da vida psíquica dos indivíduos existe desde a sua origem, como se nota a partir do estudo inaugural de Durkheim sobre o suicídio. O interesse pelo tema nessa área de conhecimento aumentou significativamente durante o século XX e, em especial, neste primeiro quartel do século XXI.

No entanto, uma boa parte da produção sociológica sobre os problemas de saúde mental tende a reduzir a relação entre sociedade e saúde mental à elucidação causal, segundo a qual as formas de sofrimento psíquico se devem à sociedade em que vivemos. Essa ideia também está bastante presente atualmente na mídia e no debate público sobre o tema. Contudo, ainda que hegemônica, a relação causal entre sociedade e sofrimento psíquico não é consensual nos estudos sociológicos sobre a saúde mental. Um caso notável de dissenso é a sociologia da saúde mental de Alain Ehrenberg, cuja obra é uma referência de primeira ordem nessa área específica de conhecimento. Entretanto, ainda que procure se dissociar da abordagem dominante nos estudos sociológicos sobre a saúde mental, o sociólogo francês é frequentemente mobilizado para fundamentar a ideia de que o aumento da incidência de certas formas de sofrimento psíquico na atualidade se deve à sociedade capitalista contemporânea.

Para examinar o problema em questão, procuramos mostrar inicialmente os fatores que contribuíram para a ascensão social do tema da saúde mental na contemporaneidade e o debate sociológico dominante sobre o assunto. Em seguida, pretendemos analisar a produção sociológica mais recente de Ehrenberg, com o intuito de mostrar como o autor procura se dissociar da abordagem normativa no campo da sociologia da saúde mental. Dessa forma, esperamos trazer à tona dissensos pouco estudados no campo específico da sociologia da saúde mental, cujas implicações são também teóricas, epistemológicas e políticas para a sociologia em geral.

Sociedade e sofrimento psíquico: a ascensão social do tema da saúde mental na contemporaneidade e o debate sociológico dominante

O tema da saúde mental adquiriu relevância social significativa nos últimos cinquenta anos. Vejamos alguns fatores que concorrem para o aumento da atenção social ao tema na contemporaneidade.

Desde os anos 1970 e 1980, enuncia-se pública e oficialmente a existência de uma epidemia dos transtornos mentais, o que se intensifica notadamente nos anos 2000 (Angell, 2011; Caponi, 2010; Corbanezi, 2021; Ehrenberg, 1998; Horwitz e Wakefield, 2010; Whitaker, 2017). A transformação paradigmática (Kuhn, 2001) no campo da psiquiatria com a publicação da terceira edição de Diagnostic and statistical manual of mental disorders (DSM-III) em 1980 (APA, 1980) contribuiu para a atenção ao tema e para a elevação de dados epidemiológicos relativos aos transtornos mentais na população em geral. Sob o pretexto de tornar o DSM ateórico em relação à etiologia dos transtornos mentais e de estabelecer, dessa forma, a confiabilidade diagnóstica (ainda que em detrimento da validade diagnóstica) para a comunidade médica e científica, foram estabelecidas uma concepção e uma prática psiquiátrica baseadas na descrição de sintomas e na desconsideração contextual deles, o que implicou um aumento na detecção de transtornos mentais (Horwitz e Wakefield, 2010).

Também entre os anos 1980 e 1990, as transformações globais relacionadas à implementação e ao desenvolvimento dos processos de neoliberalização em países ocidentais implicaram a emergência e a ressignificação das formas de sofrimento psíquico, conferindo lugar às chamadas patologias dos ideais (transtornos depressivos, ansiosos, compulsivos, alimentares). Diferentemente da doença mental moderna, cuja “descoberta” conferiu à psiquiatria o estatuto de medicina científica (Foucault, 2003), as formas atuais de sofrimento seriam, em geral, tentativas frustradas de realizar os valores e os ideais sociais contemporâneos do individualismo, da autonomia, da responsabilidade, da iniciativa, da ação, da performance, da comunicação e da adaptação.

Outro fator relevante para a atual atenção ao tema reside no processo de transformação que ocorreu durante a segunda metade do século XX, em que a psiquiatria e o conceito de doença mental cederam lugar à saúde mental, entendida a um só tempo como campo de atividade multidisciplinar e como conceito. A noção de saúde mental, hoje bastante utilizada em nosso cotidiano, surge como o efeito de uma série de fatores, entre os quais estão a institucionalização dos direitos humanos, a desinstitucionalização da doença mental, a crítica à psiquiatria tradicional e o surgimento e o desenvolvimento da psicofarmacologia (Corbanezi, 2021). Neste processo, a transformação se dá tanto na terminologia quanto na ação: se a psiquiatria se ocupava especificamente da doença mental, o campo e o conceito da saúde mental abrangem tanto a patologia como o bem-estar, em seus diferentes graus. Tal processo de transformação se consolida sobretudo nos anos 2000. A publicação, em 2001, do relatório mundial da saúde da OMS, intitulado Saúde mental: nova concepção, nova esperança, constitui um índice relevante da disseminação global da noção de saúde mental. Em âmbito nacional, sob influência da publicação do relatório da OMS, pode-se mencionar igualmente a aprovação, no mesmo ano, da Lei 10.216, também conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica (Brasil, 2001), a qual promove diretrizes fundamentais da saúde mental, tais como a desinstitucionalização, o atendimento comunitário, o fortalecimento da atenção primária e a redução do estigma aos portadores de transtornos mentais. Se a psiquiatria pode ser entendida como “idioma local”, na medida em que sua especialidade reside no conhecimento sobre a doença, a saúde mental se torna um “idioma global”, que envolve a patologia e o bem-estar e permite estabelecer, ao mesmo tempo, o vínculo entre problema individual e relações sociais (Ehrenberg, 2012, p. 425). Dessa forma, a saúde mental se tornou uma linguagem corrente não apenas no domínio especializado do conhecimento, mas também no debate público e na sociedade em geral.

A pandemia de covid-19, desencadeada em março de 2020, tornou o tema ainda mais socialmente relevante em razão das formas de sofrimento psíquico relacionadas ao isolamento, ao luto, à crise econômica, ao contágio do vírus e às suas consequências biológicas e sociais. Em meio à pandemia, fatos globais e simbólicos, como a recusa da atleta Simone Biles de competir nos jogos olímpicos de Tóquio em 2021 em razão da sua saúde mental, também contribuíram para a evidenciação do tema (Corbanezi, 2023). Em dezembro de 2024, a imprensa nacional divulgou amplamente o resultado de pesquisa segundo a qual o termo “ansiedade” foi eleito a “palavra do ano” no Brasil, refletindo assim o espírito do tempo1. O governo francês, por sua vez, promoveu a “saúde mental” como “Grande causa nacional” para o ano 20252.

A atenção sociológica ao tema não é diferente: ela existe desde a fundação da disciplina e aumentou de modo significativo na atualidade. Primeiro, vejamos de que forma a sociologia se interessa pela condição psicológica dos indivíduos em sociedade desde o seu surgimento como ciência no mundo moderno. Notável a esse respeito é o estudo de Durkheim (2000) sobre o suicídio, publicado em 1897, em que o autor mostra de que maneira o equilíbrio da integração social influencia a qualidade de vida psicológica dos indivíduos3. Embora a linguagem da saúde mental ainda não existisse no contexto da sociologia durkheimiana, pode-se dizer que seu estudo sobre o tema do suicídio revela indiretamente o que caracteriza hoje parte do debate sociológico sobre a saúde mental, segundo o qual os níveis de saúde mental se definem pela qualidade da socialização e dos laços sociais. Tal concepção não é exclusiva do debate sociológico: em virtude da ausência de dados biológicos e laboratoriais definitivos em relação aos transtornos mentais, a definição psiquiátrica e clínica de transtornos mentais reside na capacidade de funcionamento do indivíduo em sociedade e nos prejuízos e sofrimentos associados à condição (APA, 2013). Não é despropositado notar como tal concepção médica pode se aproximar da concepção sociológica funcionalista de Durkheim, segundo a qual cada indivíduo, tal como as instituições, é um funcionário da sociedade (Durkheim, 2000, p. 259; 2010, p. 36). Em gesto fundador da sociologia, ao abordar o suicídio como fato social, Durkheim argumentava que um fenômeno associado à condição subjetiva e psicológica dos indivíduos poderia e deveria ser explicado sociologicamente. A partir da explicação causal do suicídio com base na coesão social, o vanguardismo durkheimiano visava a mostrar a viabilidade e a necessidade da sociologia como ciência.

De diferentes formas, o tema da vida mental aparece em outros autores clássicos da disciplina, como, por exemplo, nas reflexões de Marx (1846) também sobre o suicídio e na análise de Simmel (1903) sobre a vida social na metrópole e sua relação com a vida psicológica individual. Também nestes estudos, o que se nota é a ênfase na determinação social do sofrimento psíquico individual. Na tradução comentada que Marx (2006) realiza do memorial de Jacques Peuchet – um arquivista de polícia da Prefeitura de Paris que relata casos de suicídio sob sua diligência –, o suicídio figura como o desfecho individual trágico de diferentes formas de opressão na sociedade capitalista moderna, entre as quais a de gênero no interior da família burguesa4. Tanto em Durkheim (2000) quanto em Marx (2006), o suicídio constitui um sintoma social, cuja causa é a própria sociedade: em um caso, desequilíbrio da integração social; no outro, diferentes formas de opressão.

Sem renunciar à relação de causalidade social, a célebre conferência de Simmel (2005) a respeito da vida mental nas grandes cidades sustenta que a vida social na metrópole provoca a “intensificação da vida nervosa” (Simmel, 2005, pp. 577-8), uma vez que o excesso de estímulos tende a levar ao esgotamento das energias individuais – eis a razão pela qual a “atitude blasé” emergiria como mecanismo de autodefesa individual. No raciocínio de Simmel, o indivíduo gozaria de uma liberdade nos grandes centros urbanos que não necessariamente se traduziria em bem-estar na vida emocional.

Como se vê, as análises de Durkheim, Marx e Simmel confluem, apesar de suas diferenças irredutíveis, à ideia de que a causa dos problemas psicológicos individuais reside na sociedade. Marcel Mauss ([1921] 1969) também examinou a relação entre sociedade e emoções, o que realizou a partir de povos originários australianos. No entanto, sua análise se diferencia sutilmente da ideia de que a sociedade causa determinada emoção. Para o autor, a expressão dos sentimentos constitui uma linguagem consonante aos valores, às regras e ao contexto sociais; trata-se de uma linguagem ao mesmo tempo obrigatória e voluntária, socialmente esperada e espontânea. Diferentemente da ideia de que a sociedade causa uma determinada emoção, o autor mostra que a sociedade espera e mesmo obriga que se manifeste certa emoção a partir de determinado acontecimento, que, nos casos em análise, são expressões orais e sentimentais do luto em rituais fúnebres. Veremos que tal concepção é fundamental para a sociologia da saúde mental de Alain Ehrenberg.

Mais de meio século depois da fundação institucional da sociologia, o estadunidense Wright Mills (1969) sublinha, no seu também clássico A imaginação sociológica [1959], a ideia sociológica básica de que, quando uma perturbação pessoal acomete parte significativa dos indivíduos de uma determinada sociedade, não se trata de problema individual. Mediante tal premissa, o sociólogo realizava, já nos anos 1950, uma crítica à redução psiquiátrica e psicanalítica das patologias mentais a problema individual, atribuindo à sociologia a necessidade de examiná-las como problema social.

Não é nosso propósito percorrer a totalidade da produção sociológica que se relaciona com o tema. O que queremos ressaltar é que, direta ou indiretamente, a relação entre sociedade e saúde mental sempre esteve presente no debate sociológico, ainda que com terminologias variadas. Mais do que estabelecer uma relação, boa parte da produção do pensamento sociológico acerca do assunto chama a atenção para a correlação causal entre sociedade e sofrimento psíquico5. Tal abordagem está presente no campo dos estudos sociais, clínicos e filosóficos sobre o tema, tendo se consolidado ao longo da segunda metade do século XX, em particular em estudos de conotação crítica. Nos anos 1950 e 1960, Frantz Fanon (2020), por exemplo, mostrou os efeitos do colonialismo sobre o psiquismo. Durante os anos 1960 e 1970, diversas perspectivas antipsiquiátricas e críticas à psiquiatria sustentaram, cada uma à sua maneira, como a patologia mental decorria de processos de alienação social. Entre os autores que, grosso modo, se podem classificar dessa maneira, situam-se Basaglia (1985), Laing (1978), Cooper (1973), Szasz (1979), Foucault (2003), Goffman (2007), Deleuze e Guattari (2010). Mais recentemente, o filósofo sul-coreano B.-C. Han (2017) argumenta que a produção do sofrimento psíquico (depressão, ansiedade, síndrome de burnout) decorre das exigências da sociedade do desempenho (Corbanezi, 2018). Sem desconsiderar as diferenças teóricas, epistemológicas e políticas que estão em jogo nas análises, a ideia de que a patologia mental provém da dimensão social – frequentemente associada à concepção de que a psiquiatria atua como forma de controle social – está mais ou menos presente também em autores contemporâneos como C. Dejours (1998), P. Dardot e C. Laval (2016), A. Honneth (2003), H. Rosa (2010), V. Gaulejac e F. Hanique (2024), N. Rose (2013), P. Conrad (2007). A noção contemporânea de sofrimento social na França (Ehrenberg, 2012; Ota, 2014), segundo a qual o sofrimento psíquico decorre do impacto do capitalismo na vida individual, está igualmente tomada dessa ideia, da qual parte da produção sociológica brasileira sobre o tema parece herdeira direta ou indiretamente. Essa é a tônica, por exemplo, de dois dossiês recentes sobre saúde mental na área das ciências sociais e da sociologia publicados em revistas científicas nacionais de referência; tais dossiês contam com especialistas brasileiros e estrangeiros (Nunes e Almeida, 2020; Corbanezi, Caponi e Mazon, 2024). Vale dizer que a ideia de que a vida em sociedade causa o sofrimento psíquico é a perspectiva que aparece também na mídia com frequência praticamente diária6.

No entanto, ainda que as explicações sociológicas sobre as questões de saúde mental estabeleçam (obviamente, considerando a especialidade da área de conhecimento) relações com a sociedade, elas nem sempre se reduzem a relações de causalidade. A sociologia da saúde mental de Ehrenberg é um caso emblemático cuja divergência parece não ter sido totalmente percebida no campo dos estudos críticos sobre o tema no Brasil. Se inicialmente sua obra podia dar a entender a existência de uma causalidade social para o surgimento da depressão, conforme se depreende de determinada leitura de seu Fatigue d’être soi: dépression et société (1998), sua sociologia da saúde mental mais recente nega veementemente tal relação, recusando tal imputação, inclusive, ao seu estudo sociológico já clássico sobre a depressão. É o que analisamos a seguir, a fim de mostrar de que forma o autor procura se destacar da abordagem sociológica dominante sobre a relação entre sociedade e saúde mental, segundo a qual a sociedade causa as formas de sofrimento psíquico. Dessa maneira, veremos que a mobilização de sua obra para realizar a crítica da sociedade capitalista atual, mais precisamente do neoliberalismo, como se vê também em parte da produção intelectual brasileira sobre o tema, não ocorre sem problemas.

A sociologia da saúde mental de Alain Ehrenberg: contraposição ao discurso dominante

A sociologia da saúde mental de Alain Ehrenberg é uma referência incontornável para os estudos nessa área de conhecimento. Boa parte de suas pesquisas já foi traduzida para diversos idiomas, e seu livro La fatigue d’être soi: dépression et société ([1998] 2000) é considerado um estudo sociológico fundamental sobre a depressão nas sociedades contemporâneas. A obra do autor é frequentemente mobilizada para sustentar que as transformações sociais contemporâneas, aí incluídas as provenientes dos processos de neoliberalização, atuam como causa da alta incidência dos transtornos mentais paradigmáticos de nossa época, tais como depressão, ansiedade, síndrome de burnout, fobia social, compulsão, hiperatividade. É verdade que Ehrenberg argumenta que a transformação do regime de interdição e de obediência da sociedade disciplinar para o regime de iniciativa do próprio indivíduo na sociedade pós-disciplinar é um aspecto central para compreender a depressão; dessa forma, a depressão não seria propriamente tristeza, mas incapacidade de ação em uma nova forma de sociabilidade cujo paradigma normativo é a autonomia. No entanto, Ehrenberg recusa categoricamente a relação de causalidade entre a sociedade capitalista atual e o sofrimento psíquico. O argumento se torna explícito em La société du malaise (2010), em que o autor mobiliza as noções de “representação coletiva” (Durkheim), de “expressão obrigatória dos sentimentos” (Marcel Mauss) e de “jogos de linguagem” (Wittgenstein) para sustentar que o vocabulário contemporâneo da saúde mental é a forma pela qual as sociedades individualistas elaboram e representam para si o bem e o mal, o justo e o injusto, os sucessos e os infortúnios. Em outros termos, enquanto “idioma global”, o vocabulário contemporâneo da saúde mental consistiria em uma linguagem, cujos significados são socialmente partilhados, para expressar aspectos negativos e positivos da relação indivíduo-sociedade de forma inteligível aos membros das sociedades individualistas contemporâneas. Tal vocabulário emocional da saúde mental se constituiu como uma expressão a um só tempo espontânea e obrigatória (Mauss), um jogo de linguagem (Wittgenstein) conforme contexto e regras sociais específicos e cujo sentido existe de acordo com nossas representações sociais coletivas da vida em sociedade (Durkheim).

Dessa forma, La société du malaise aborda a questão sociológica fundamental da relação indivíduo-sociedade; mais do que isso, debate as implicações epistemológicas e políticas dessa relação na atualidade. Em termos concretos, trata-se de analisar comparativamente como as sociedades norte-americana e francesa representam para si a autonomia, que constitui o valor e a norma por excelência das sociedades individualistas contemporâneas. A abordagem se inscreve, assim, no fio condutor da obra de Ehrenberg, a qual está interessada nas transformações do individualismo contemporâneo ao menos desde Le culte de la performance ([1991] 2011)7.

Em síntese, em La société du malaise, o autor sustenta que a autonomia tem significação social diversa nas duas sociedades em análise. Os norte-americanos a concebem a partir da centralidade do self, em que a personalidade funciona como uma instituição, de tal modo que a autonomia lhes significa ao mesmo tempo independência, competição e cooperação. O problema, para o imaginário social norte-americano, não é o excesso de individualismo e seus atributos (oportunidade, iniciativa, responsabilidade, ação), mas sua subtração por meio, por exemplo, do excesso de intromissão estatal na vida dos indivíduos. De forma oposta, segundo o autor, os franceses concebem a autonomia tão somente como independência, uma vez que o espírito institucional francês tende a recusar sua outra face, que implica ação individual, responsabilidade, competição. Para o imaginário social francês, diferentemente do norte-americano, a igualdade não reside nas oportunidades individuais, mas na proteção social mediante a ação estatal. De forma minuciosa e documentada, o autor defende então a tese de que a autonomia é uma norma e condição que, por um lado, une os norte-americanos e, por outro, divide os franceses8. Desse modo, o pêndulo da relação indivíduo-sociedade se volta mais para o lado indivíduo/personalidade na sociedade norte-americana, ao passo que, para a sociedade francesa, ele repousa no polo sociedade/instituição. A implicação política do estudo de Ehrenberg está em como equilibrar tal relação pendular9, que se traduz na dicotomia entre oportunidade individual e proteção social, cujas representações sociais são opostas nas duas sociedades em análise. Para o autor, o equilíbrio de tal relação se torna necessário diante de uma nova configuração social que tem como princípio a autonomia e, assim, o espírito social comum da ação individual.

Procedendo dessa forma, Ehrenberg efetua uma crítica do discurso sociológico crítico, em particular do francês, que mobiliza conceitos como neoliberalismo, precarização, sofrimento social, desinstitucionalização, psicologização e privatização das relações sociais atuais para sustentar que a “verdadeira sociedade”, segundo a formulação crítica do autor (Ehrenberg, 2012 pp. 15, 362, 397, 411), existia antes, no contexto do Estado-providência10. Segundo tais análises, também chamadas pelo autor de “sociologias individualistas”, a suposta dissolução dos laços sociais pelo individualismo contemporâneo exacerbado constituiria o motivo fundamental do sofrimento psíquico dos indivíduos. Contra tal tese da “declinologia” francesa, segundo a qual o aumento do individualismo implica o declínio da sociedade, Ehrenberg argumenta, na esteira de Durkheim, que o indivíduo é, antes de tudo, social. Baseado também em Louis Dumont, o autor sustenta que o fato de se atribuir prioridade ao indivíduo não significa desaparecimento da interdependência e da sociedade. O individualismo crescente é uma característica intrínseca ao processo social moderno, o que não significa que ele não seja motivo de inquietude e de mal-estar, como se observa, vale notar, desde as análises politicamente opostas de Durkheim e de Marx11. No entanto, tomando distância do que chama ainda de “paradigma da aflição” (Ehrenberg, 2012, p. 176) e de “denúncia apaixonada” (Ehrenberg, 2012, pp. 314, 339), segundo os quais a suposta crise do laço social constitui o fim da sociedade e o motivo do mal-estar generalizado, aí incluído, evidentemente, o psíquico, Ehrenberg afirma que a sociedade individualista contemporânea é apenas uma configuração histórica de sociedade, em que há formas específicas de sofrimento psíquico como em qualquer outra sociedade12. Nas sociedades individualistas contemporâneas, não há o fim da sociedade, tampouco da obrigação social, que apenas se transmuta: se antes se impedia a autonomia, hoje se é obrigado a desenvolvê-la; se, nas sociedades disciplinares, a pergunta era “o que posso fazer?”, na sociedade da autonomia – que o autor caracteriza em sua obra mais recente pelo que designa de “individualismo da capacidade” (Ehrenberg, 2021, p. 50) –, a pergunta é “o que sou capaz de fazer?” (Ehrenberg, 2024). Para o autor, portanto, o que se vê é uma reorganização normativa, em que há a subordinação da passividade (disciplina) à atividade (autonomia), não o fim do tecido social13.

Sem aprofundar a análise e a implicação política que está em jogo, o que queremos destacar é que Ehrenberg reivindica que sua obra seja dissociada tanto das abordagens normativas predominantes no campo da análise sociológica da saúde mental quanto da ideia de causalidade do sofrimento psíquico a partir da sociedade capitalista contemporânea. O propósito de La société du malaise consiste, antes de tudo, em dissipar a ideia comum segundo a qual a massa de sofrimento psíquico significaria que nós não vivemos mais em uma “verdadeira sociedade”, bem como em ir além da ideia de que a sociedade causa o sofrimento (Ehrenberg, 2012, p. 17, 411).

Em uma nota de rodapé do livro,Ehrenberg (2012, p. 335) enfatiza a recusa da causalidade social do sofrimento psíquico ao criticar a perspectiva da patologia social de Axel Honneth – o qual, como se sabe, é um dos expoentes atuais da chamada Teoria Crítica da Escola de Frankfurt – e a apropriação (equivocada, aos olhos do autor de La fatigue d’être soi) que este realiza de sua obra. Note-se que a perspectiva da patologia social se inscreve, para Ehrenberg, no discurso sociológico normativo dominante a respeito da relação entre sociedade e saúde mental14. Debatendo criticamente as categorias trabalho, sofrimento social, reconhecimento e precarização, em particular o argumento do “declínio do laço social” como causa do sofrimento psíquico atual, Ehrenberg (2012, pp. 481-2, nota 78) afirma: “Honneth faz muito amavelmente referência aos meus trabalhos e eu lhe devo a tradução em alemão de meu livro sobre a depressão, para a qual ele me honrou com um prefácio”. No entanto, ressalta o autor: “Há um mal-entendido provavelmente devido às formulações precipitadas de minha parte, que é sobre o seguinte ponto: para mim, os sintomas não são causados pela sociedade, enquanto Honneth pensa o inverso”. Ora, trata-se de um mal-entendido que acomete não apenas Honneth. A ideia de que as formas de sofrimento psíquico atuais decorrem de transformações sociais a partir da referência explícita à sociologia da saúde mental de Ehrenberg figura também, direta ou indiretamente, em muitos outros trabalhos de propósitos e alcances variados, entre os quais podemos destacar Bauman (2008, p. 121), Dardot e Laval (2016, p. 366) H. Rosa (2010, pp. 303-5) e, no Brasil, Safatle (2012; 2021, pp. 26-7, nota 14; pp. 43-4), Dunker (2021, p. 79), Kehl (2009, pp. 248, 271), a própria leitura que realizamos do autor em nossa pesquisa de doutorado (Corbanezi, 2021), entre muitos outros pesquisadores da área.

Com efeito, Pierre-Henri Castel afirma que o trabalho de Ehrenberg é tomado pela maldição de uma série de mal-entendidos. Um deles, observa o autor no texto intitulado “Lire Alain Ehrenberg: une tâche impossible?”, seria o de atribuir a Ehrenberg, se não a paternidade, o talento notável para descrever a ideia de que o aumento de depressão nas sociedades contemporâneas seria em razão das grandes modificações sociais em curso desde os anos 1960 (Castel, 2012). O mesmo Castel já havia sublinhado o contrassenso difuso sobre a tese de Ehrenberg em seu livro L’esprit malade: cerveau, folies et individus, publicado em 2009. Também em nota de rodapé, o autor afirma: “Contrariamente a um contrassenso difuso, a tese de Alain Ehrenberg não é que uma nova doença depressiva emergiria realmente nas condições sociais atuais. É que, em torno da depressão, uma representação coletiva original do mal-estar toma forma, e que ela é indissociável das mutações do individualismo contemporâneo” [grifos nossos] (Castel, 2009, p. 137). O argumento é que a depressão se tornou uma linguagem, uma forma de expressão obrigatória do mal-estar, tanto quanto a saúde mental positiva é uma expressão do bem-estar individual na vida social15. O próprio Ehrenberg (2010, s.p.) adverte a respeito do mal-entendido difuso sobre sua obra em resposta à crítica de Robert Castel (2010) quando da publicação de La société de malaise16. Sua hipótese global sobre o sofrimento psíquico, insiste o autor, reside em uma mudança de estatuto social do sofrimento psíquico, e não em uma agravação da condição psicológica das pessoas em razão de uma determinada sociedade. Para o autor, a saúde mental se tornou “a” linguagem contemporânea por meio da qual os indivíduos expressam suas relações sociais e seus graus de autonomia17. Ao encontro da observação de P.-H. Castel, sublinhemos ainda que, em La société du malaise, Ehrenberg (2012) critica com frequência a insistência em atribuir ao neoliberalismo a causa do mal da sociedade contemporânea18.

Por um lado, é verdade que o mal-entendido em torno de sua obra pode decorrer, como o próprio Ehrenberg (2012, p. 482) afirma, de formulações pouco inequívocas de sua parte a respeito do problema da causalidade social das formas contemporâneas de sofrimento psíquico. Esse argumento pode ser plausível para a leitura da trilogia Le culte de la performance ([1991] 2011), L’individu incertain ([1995] 2003) e La fatigue d’être soi ([1998] 2000). Note-se, contudo, que o próprio autor refuta tal argumento de causalidade atribuído ao seu estudo sobre a depressão, como se vê na passagem supracitada em referência à interpretação de Honneth, bem como nas advertências de Pierre-Henri Castel a propósito da interpretação sociológica de Ehrenberg sobre tal patologia.

Por outro lado, queremos enfatizar que tal ideia é patente na produção sociológica mais recente do autor – especialmente em La société du malaise [2010], cuja tese é retomada também em La mécanique des passions: cerveau, comportement, société [2018]19 –, o qual continua, a despeito disso, sendo mobilizado como referência para a crítica da sociedade capitalista em razão dos problemas de saúde mental. Segundo Ehrenberg (2024, p. 4), “[a] ideia de que a sociedade faz sofrer é uma ideia social, ela não é uma ideia sociológica”20.

Como se nota, o debate sobre o tema é atravessado por questões teóricas, epistemológicas e políticas fundamentais para a sociologia. Ao explicitar a oposição entre uma abordagem normativa e uma descritiva, o próprio Ehrenberg (2012, p. 360) adverte como “ponto decisivo” o fato de que a análise política e moral é bastante diferente segundo o tipo de epistemologia que se emprega para analisar a realidade da relação saúde mental e sociedade. Teoricamente, está em jogo a clássica relação indivíduo-sociedade e todas que dela decorrem (subjetivismo-objetivismo, interioridade-exterioridade, ação-estrutura, micro-macro); epistemologicamente, estão em disputa os critérios sociológicos e científicos para descrever, explicar e avaliar a relação entre saúde mental e sociedade na atualidade; politicamente, a partir do tema da saúde mental e da ideia de causalidade, debate-se a boa forma de se viver em sociedade e, dessa maneira, concorrem perspectivas mais ou menos conservadoras e radicais a respeito da transformação social. Dessa forma, debatido sociologicamente, o tema sociedade e saúde mental permite evidenciar a ideia consensual de que o dissenso é endêmico no campo das ciências humanas e sociais, em geral, e no da sociologia, em particular (Alexander, 1987). O mesmo acontece no subcampo da sociologia da saúde mental, ainda que prevaleçam argumentações diversas sobre a causa social do sofrimento psíquico.

Considerações finais

Vimos que a relação entre sociedade e sofrimento psíquico, não obstante as terminologias diversas, está presente no debate sociológico desde a fundação dessa ciência moderna, tendo se intensificado na segunda metade do século XX e neste primeiro quarto do século XXI, em virtude também da ascensão social do tema da saúde mental na atualidade. Procuramos mostrar como tal debate é dominado pela relação de causalidade entre sociedade e sofrimento psíquico, em que a primeira figura como causa do sofrimento individual.

Em que pese a hegemonia no campo da sociologia da saúde mental a respeito da causalidade social do sofrimento psíquico individual, buscamos evidenciar como tal correlação não é absoluta a partir da análise da produção recente da sociologia da saúde mental de Alain Ehrenberg. A discussão pode contribuir para uma explicitação da posição do autor no campo específico de pesquisa, visto que sua obra é frequentemente mobilizada para fundamentar os argumentos da causalidade e da crítica ao neoliberalismo, os quais são refutados pelo autor. O debate ainda importa para a sociologia em razão das questões e dos dissensos teóricos, epistemológicos e políticos que estão em disputa, bem como pelo fato de que tal área do conhecimento é cada vez mais convocada para participar das discussões sobre os problemas de saúde mental na atualidade.

Nesse sentido, considerando a complexidade do fenômeno da saúde mental, a discussão teórica sobre o tema pode indicar também que a explicação exclusivamente causal pode acabar por produzir um reducionismo sociológico metodologicamente semelhante ao reducionismo biológico da psiquiatria criticada pela sociologia. Não obstante a inequívoca inclinação ao social apreendida desde os clássicos da nossa disciplina e a inevitável crítica ao reducionismo biológico operado pela psiquiatria dominante, a polêmica em análise pode não nos fazer esquecer do “homem total” de Marcel Mauss (2003a), segundo o qual somos a um só tempo biológico, psicológico e social21. Eis uma outra maneira de aludir à unidade biopsicossocial, tão em voga no discurso contemporâneo da saúde mental, ainda que menos interdisciplinar na prática.

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  • 1
    . Trata-se de pesquisa realizada pelo Instituto Ideia em parceria com a empresa Cause e o aplicativo PiniOn. “‘Ansiedade’ é eleita a palavra do ano de 2024 no Brasil”. (09/12/2024), Cause, https://www.cause.net.br/palavra-do-ano-2024/, consultado em 28/07/2025. A pesquisa foi publicada por veículos de comunicação de grande alcance, como Folha de S.Paulo, O Globo, CNN, CBN, Exame, Terra, G1, entre outros.
  • 2
    . “La santé mentale, Grande cause nationale en 2025”. (11 octobre 2024), Gouvernement.Fr., https://www.info.gouv.fr/actualite/la-sante-mentale-grande-cause-nationale-en-2025, consultado em 28/07/2025. Considerando esse motivo, a revista Esprit publicou, em dezembro de 2024, o dossiê “Trouble dans la santé mentale”, coordenado por Alain Ehrenberg, Marie Jauffret-Roustide e Aurélie Tinland (2024). Ver: https://esprit.presse.fr/tous-les-numeros/trouble-dans-la-sante-mentale/936, consultado em 28/12/2024.
  • 3
    . Tal aspecto é aludido, por exemplo, por Isabelle Coutant (2021), que analisa a relevância do tema da saúde mental para as ciências sociais no contexto da pandemia de covid-19.
  • 4
    . Marx (2006) seleciona quatro casos do memorial de Peuchet, entre os quais três são de mulheres (duas de família burguesa e uma de origem popular). Desse modo, a peça acaba por evidenciar que o sofrimento na sociedade capitalista não se limita à classe trabalhadora. Como nota Löwy no ensaio introdutório à edição brasileira, o texto é um protesto apaixonado contra a violência opressiva da família burguesa sobre as mulheres, o que o torna uma produção singular na obra de Marx. Todavia, as noções de opressão e de propriedade privada a que a mulher estaria submetida na relação conjugal permitem perceber interesses frequentes de Marx.
  • 5
    . Utilizamos aqui a expressão “pensamento sociológico” para abranger estudos de diferentes áreas do conhecimento que se dedicam às questões de saúde mental em relação com a sociedade.
  • 6
    . Não é o caso de listar aqui matérias jornalísticas com esse teor. A forma como a mídia corporativa repercutiu a eleição do termo “ansiedade” como “palavra do ano”, isto é, como espírito do tempo da sociedade em que vivemos, é um índice relevante a esse respeito (cf. nota 1).
  • 7
    . Em 2023, foi realizado o evento “Les métamorphoses de l’individualisme. Colloque autour des travaux d’Alain Ehrenberg”, na Université Saint-Louis, Bruxelas, Bélgica. Como se nota a partir do título do colóquio, a questão das transformações do individualismo constitui o leitmotiv da obra de Ehrenberg. A programação do evento pode ser conferida em https://coachingrituals-usaintlouis.be/2023/03/13/colloque-les-metamorphoses-de-lindividualisme/, consultado em 04/08/2025.
  • 8
    . Nesse sentido, Ehrenberg (2010) afirma que La société du malaise é um título durkheimiano que busca compreender a forma pela qual cada sociedade representa para si a ideia de autonomia e a relação entre mal-estar individual e social. Também se pode afirmar a partir das considerações do autor que o título alude especialmente à sociedade francesa, dada a alegação de que a referência à noção freudiana de mal-estar na civilização seria recorrente entre psicanalistas franceses, ao passo que os pares norte-americanos a ignoram. Enquanto a sociedade francesa vê crise da instituição, de tal sorte que o apelo à personalidade é entendido como “desinstitucionalização”, “privatização” e “psicologização” das relações sociais, a sociedade norte-americana enxerga crise do self, o qual constitui, inclusive, uma marca das ciências sociais norte-americanas (Ehrenberg, 2010).
  • 9
    . Sobre o movimento pendular na relação indivíduo-sociedade, ver Alexander (1987). O novo movimento teórico defendido por este autor consiste precisamente na síntese da relação, o que ocorreria, no plano teórico-metodológico, desde os anos 1980 na teoria social. Observe-se que Elias (2011) já procurava tal equilíbrio teórico-metodológico desde O processo civilizador (1939), como atesta sua Introdução de 1968 à obra. Influenciado por Elias, Ehrenberg parece atualizar a discussão da relação indivíduo-sociedade em âmbito também político a partir da análise comparativa sobre as representações do mal-estar em sociedades contemporâneas.
  • 10
    . A alusão crítica de que a “verdadeira sociedade” existia antes da nova configuração social baseada na autonomia e na ação individual aparece reiteradas vezes no estudo de Ehrenberg. Eis uma passagem emblemática em que o autor critica o discurso crítico, segundo o qual “[o]s sofrimentos seriam causados por esse desaparecimento da verdadeira sociedade, aquele em que havia verdadeiros empregos, verdadeiras famílias, uma verdadeira escola e uma verdadeira política, aquele em que se era dominado, mas protegido, neurótico, mas estruturado” [grifo do autor] (Ehrenberg, 2012, p. 15). Tal leitura suscitou uma reação crítica vigorosa de Robert Castel (2010) quando da publicação do livro. Em linhas gerais, sem deixar de reconhecer a relevância do estudo de Ehrenberg, Castel rechaça sua suposta intenção de procurar promover uma americanização da sociedade francesa. Recusando tal acusação, Ehrenberg (2010) responde com a assertiva de que não há tal valoração em seu estudo, cujo propósito consiste em descrever comparativamente duas sociedades a fim de evidenciar as significações sociais diversas da autonomia e, dessa forma, suscitar um debate intelectual autêntico para além dos rótulos “esquerda e direita” e “bem e mal” que envolvem as noções de proteção social e iniciativa individual. Com efeito, ao realizar a descrição e a análise comparativa, o autor ressalva, na própria obra, que não se trata de hierarquizar as duas sociedades, as quais não se prestam nem ao elogio, nem à condenação: são coerentes conforme seus contextos nacionais (Ehrenberg, 2012, p. 416). Tal ideia é patente ao longo do estudo. Por outro lado, não é menos verdade que a investigação se propõe a problematizar o desencaixe da sociedade francesa ante o novo espírito social que instituiu a autonomia como condição e norma. Sustentando que cada sociedade credita um valor oposto aos conceitos de oportunidade e de proteção, sem, no entanto, ignorá-los, Ehrenberg (2012, p. 416) afirma: “É provavelmente a questão crucial hoje na França clarear as relações entre igualdade de oportunidade e igualdade de proteção, de tal modo que o valor da primeira cresça”. Dessa forma, o autor acaba por criticar o excesso de proteção social na França que impede uma verdadeira política da autonomia, sem deixar de reconhecer, contudo, a importância da proteção para as populações mais vulneráveis, as quais efetivamente sofrem com o problema das desigualdades sociais e são impedidas de desenvolver capacidades individuais de ação na sociedade da autonomia.
  • 11
    . Posicionando-se no debate sobre a obra de Ehrenberg, Pierre-Henri Castel (2012, p. 134) afirma que o “mal-estar não é contestado por Ehrenberg nem por seus adversários: o que está em disputa é a gramática de sua expressão”. P.-H. Castel reitera que as sociedades individualistas têm um problema grave constantemente lembrado por Ehrenberg: sua forma social é a individualização crescente. Para descrever as novas patologias, não haveria então, continua o mesmo Castel, “nenhuma necessidade de conjectura extraordinária sobre a morte do ‘social’ sob golpes do individualismo contemporâneo. Apenas reconhecer que toda sociedade individualista, desde que existe, se transforma sem jamais alcançar um equilíbrio ideal, o que suscita inevitavelmente inquietações incômodas em seus membros. Em resumo, quase a mesma coisa, menos o apocalipse…”. Tais observações visam a sustentar que, não obstante o reconhecimento do mal-estar, a leitura de Ehrenberg não concebe o individualismo e o neoliberalismo conforme o discurso crítico apocalíptico.
  • 12
    . Dois excertos elucidam a afirmação: “As patologias sociais são sociais na medida em que elas unem o mal individual e o mal comum. Ora, é o que toda sociedade humana faz e, nesse sentido, contrariamente ao que postulam as sociologias individualistas, o individualismo não é, de forma alguma, uma exceção, mas apenas uma forma particular de humanidade” (Ehrenberg, 2012, p. 421). “Os jogos de linguagem americano e francês dão a entender que nossas sociedades são uma exceção, na medida em que produzem sofrimentos psíquicos ligados às desregulações da relação social. Tomados por uma paixão de grandes palavras, eles dão o sentimento de que as sociedades tradicionais seriam paraísos psicológicos” [grifo nosso] (Ehrenberg, 2012, p. 419). Nosso grifo visa ainda a destacar a razão pela qual o autor qualifica a “declinologia” como um discurso “apaixonado”. Reiteradas vezes o autor realiza tal alusão, como na passagem em que afirma que o discurso crítico se expressa “não sem emoção […]” (Ehrenberg, 2012, p. 355). Criticando tais discursos da sociologia da dominação – entre os quais figuram autores como C. Dejours, D. Linhart, V. Gaulejac, E. Renault, L. Boltanski e E. Chiapello –, Ehrenberg (2012, p. 329) afirma que tais trabalhos normalmente apresentam suas conclusões apelando a um “sobressalto político”. Sublinhe-se que, em resposta a R. Castel, Ehrenberg (2010, s.p.) afirma explicitamente que sua análise se apresenta como “uma sociologia alternativa à de P. Bourdieu e R. Castel, livre do pessimismo hipercrítico”.
  • 13
    . Sustentando que não estamos mais nas sociedades disciplinares descritas por Foucault, Ehrenberg (2012, p. 405) afirma que estamos “em um mundo em que se trata de mobilizar e de aumentar os recursos pessoais favorecendo as políticas públicas que permitem aos indivíduos serem os agentes de sua própria mudança”. E, criticando a suposta nostalgia do discurso declinologista, arremata: “Nada nos obriga a restar prisioneiros de nossas grandes lembranças”. Tal inferência alude diretamente à epígrafe do capítulo sobre a precarização da existência. Contra o discurso crítico qualificado como apaixonado e nostálgico, Ehrenberg elege como epígrafe uma passagem da carta de Marx a César de Paepe, em que o expoente maior da teoria crítica afirma: “O drama dos franceses, assim como dos operários, são as grandes lembranças. É necessário que os eventos coloquem fim uma vez por todas a esse culto reacionário do passado” (Marx apudEhrenberg, 2012, p. 361).
  • 14
    . Eis como o autor define o debate em torno da noção de “patologia social”, da qual procura distanciar sua análise: “O debate sociológico, mas também político, é sobre as relações entre a preocupação generalizada com a saúde mental e as transformações das normas sociais, em outros termos, sobre as significações sociais desses sofrimentos, sobre a natureza da sociedade na qual eles se desenvolvem. Pois as questões de saúde mental e de sofrimento psíquico são empregadas, desde os anos 1970, para formular uma crítica da sociedade: fala-se de declínio do laço social, de fragilização dos laços sociais, de crise da solidariedade coletiva, de precarização da existência, de privatização da vida. Esse debate se apresenta sob o rótulo da patologia social”. O argumento dessa abordagem sociológica e filosófica normativa, continua o autor, é que “a sociedade se encontra invadida pelo eu [moi] dos indivíduos e os laços sociais perdem suas forças” (Ehrenberg, 2024, p. 2). Para descrever essa ascensão do moi/self em detrimento da sociedade, Ehrenberg (2012) analisa o deslocamento do conceito de narcisismo da psicanálise para a sociologia com suas particularidades nos Estados Unidos e na França. À abordagem normativa dominante, Ehrenberg opõe sua análise descritiva. Tal terminologia figura em Ehrenberg (2024), texto inédito que o autor nos cedeu durante estágio pós-doutoral também sob sua supervisão. Em La société du malaise, a abordagem normativa figura como “sociologia individualista”, à qual Ehrenberg (2012) opõe sua “sociologia do individualismo”.
  • 15
    . Explicitando como Ehrenberg se distancia da crítica do neoliberalismo entendido como “o Mal” (le Mal), P.-H. Castel (2012, p. 131-2) precisa a abordagem do autor: “A saúde mental é a caixa de ressonância do mal-estar constitutivo do mal-estar individualista, o lugar onde ele agora dá forma aos acidentes que afetam a fábrica dos sentimentos morais. Portanto, não há mais depressões ou traumas do que antigamente. ‘Antigamente – ridiculariza frequentemente Ehrenberg – quando havia uma verdadeira sociedade, um verdadeiro trabalho, uma verdadeira política!’. Em vez disso, a depressão se tornou um ‘idioma de desespero’ imperativo para quem quer interpelar eficazmente o outro e obter a sua ajuda – tal como antes de 1914 se invocava a neurastenia ou a melancolia na Renascença. A caracterização e a história destes idiomas são fundamentais. [...] A depressão, para citar Mauss, é assim um caso de ‘expressão obrigatória das emoções’”.
  • 16
    . Ver notas 11 e 13.
  • 17
    . Eis a hipótese central de La société du malaise: “A hipótese é então que a saúde mental se tornou a linguagem contemporânea, a forma de expressão obrigatória não apenas do mal-estar e do bem-estar, mas também de conflitos, de tensões ou de dilemas de uma vida social organizada em referência à autonomia, que prescreve maneiras de dizer e de fazer aos indivíduos” [grifo do autor] (Ehrenberg, 2012, p. 19).
  • 18
    . Tal crítica perpassa o livro e se encontra especialmente nos dois últimos capítulos, intitulados respectivamente “O trabalho, o sofrimento, o reconhecimento” e “A precarização da existência: nova distribuição da desigualdade entre saúde mental e política”, bem como na conclusão da obra. Ver também, por exemplo, a entrevista concedida a Robert Maggiori em 2021: “Malaises avec Alain Ehrenberg: Qu’est-ce qui nous arrive?”. Philomonaco, https://www.youtube.com/watch?v=cf4Kf32TveQ, consultado em 09/01/2025.
  • 19
    . Enquanto La société du malaise aborda o problema da relação indivíduo-sociedade, La mécanique des passions trata da dicotomia natural-social a partir da análise da relação entre os conceitos científicos das neurociências cognitivas e as representações sociais na sociedade da autonomia, que envolve ação e capacidades individuais. Também nesta obra, Ehrenberg (2021, pp. 14-5) propõe ultrapassar o debate político representado por “correntes críticas das ciências sociais e da filosofia que se inspiram no pensamento de Michel Foucault e Pierre Bourdieu” e concebem as neurociências como instrumentos de controle social e de dominação biopolítica a serviço do neoliberalismo. Seu propósito consiste em descrever a coerência e a conexão entre conceitos científicos e ideias sociais nas sociedades individualistas de massa.
  • 20
    . Essa formulação encontra-se em Ehrenberg (2024). Em La société du malaise, tal formulação tem um matiz diferenciado: “[…] a ideia de que a sociedade faz sofrer é uma ideia social e, por conseguinte, um objeto para a sociologia” (Ehrenberg, 2012, pp. 17-8). É de tal objeto que o autor se ocupa criticamente.
  • 21
    . Em sentido ampliado, o objeto saúde mental pode ser considerado um “fato social total”, na medida em que é, ao mesmo tempo, biológico, psicológico e social (Mauss, 2003b). Vale observar que Mauss (1969, p. 278) conclui seu texto sobre “A expressão obrigatória dos sentimentos” invocando a ideia de que a expressão dos sentimentos constitui um campo de estudos em torno do qual “psicólogos, fisiólogos e sociólogos podem e devem se encontrar”.
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    Os dados da pesquisa estão disponíveis no corpo do documento.
  • Trabalho realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (Capes) – Código de Financiamento 001.
  • Editora:
    Ana Paula Hey

Disponibilidade de dados

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    29 Jun 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    26 Ago 2025
  • Aceito
    11 Fev 2026
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