Resumo
O artigo apresenta uma entrevista com Fiona Macaulay, professora da Universidade de Bradford, cuja trajetória é marcada por pesquisas de campo na América Latina, especialmente no Brasil. A entrevista aborda sua formação acadêmica, sua atuação em instituições como a Anistia Internacional e suas principais agendas de pesquisa, que incluem estudos sobre direitos humanos, prisões, gênero, política brasileira e participação de membros das forças de segurança na política. A entrevista foi realizada em 27 de novembro de 2024, no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), com a participação de pesquisadores do núcleo e da entrevistada por videoconferência.
Palavras-chave
América Latina; Polícia; Prisões; Política
Abstract
The article presents an interview with Fiona Macaulay, professor at the University of Bradford, whose academic trajectory is marked by field research in Latin America, especially in Brazil. The interview addresses her academic background, her work in institutions such as Amnesty International, and her main research agendas, which include studies on human rights, prisons, gender, Brazilian politics, and the participation of members of the security forces in politics. The interview was conducted on November 27, 2024, at the Center for the Study of Violence at the University of São Paulo (NEV-USP), with the participation of researchers from the center, while the interviewee participated remotely.
Keywords
Latin America; Police; Prisons; Politics
Fiona Macaulay é graduada em Letras (francês e alemão) pela Universidade de Oxford, onde também concluiu seu mestrado em Estudos Latino-Americanos e um doutorado em Ciência Política, com foco na representação feminina, partidos políticos, movimentos de mulheres e políticas públicas no Brasil e no Chile. Foi pesquisadora para o Brasil do Secretariado Internacional da Anistia Internacional. Entre 2000 e 2005, realizou pós-doutorado no Center for Brazilian Studies na Universidade de Oxford, onde coordenou o programa de pesquisa em Direitos Humanos. Foi professora do Institute of Latin American Studies na Universidade de Londres e, desde 2005, é professora titular do Departamento de Estudos para a Paz e Desenvolvimento Global da Universidade de Bradford, na Inglaterra, e diretora do Rotary Peace Center.
Esta entrevista teve por objetivo ressaltar a trajetória de Macaulay e das suas principais produções, em sua maioria fruto de sua inserção em campo na América Latina e, em especial, no Brasil, desde o início da década de 1990. As perguntas procuraram cobrir boa parte dos temas a que Macaulay tem se dedicado nas últimas três décadas em seus estudos e artigos publicados, transitando entre prisões, polícias, política brasileira, gênero, candidaturas de membros das forças de segurança do Estado, entre outros.
A entrevista foi realizada em 27 de novembro de 2024, nas dependências do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP), situado no Campus Cidade Universitária, com a participação dos/as pesquisadores/as Roberta Heleno Novello, Lucas Batista Pilau e Fernanda Novaes Cruz e de Marcos César Alvarez, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e coordenador do Núcleo. A entrevistada, Fiona Macaulay, participou a distância (videochamada). A estrutura audiovisual foi organizada por Edmilson de Lima Araújo, e a transcrição da entrevista foi realizada por Roberta Heleno Novello e Lucas Batista Pilau, com revisão de Fernanda Novaes Cruz e Marcos César Alvarez. Durante o processo de revisão, Macaulay esclareceu tópicos específicos e, em alguns trechos, editou o texto para incrementar suas respostas, o que tornou o conteúdo da entrevista ainda mais proveitoso.
Fernanda Novaes Cruz (FC): De onde veio o seu interesse por problematizar e pesquisar questões brasileiras nas suas pesquisas?
Fiona Macaulay (FM): O primeiro momento em que pisei na América Latina foi na Nicarágua. Estava estudando, entre 1984 e 1985, na Universidade de Massachusetts com uma bolsa do Rotary International1. Conheci lá muitas pessoas envolvidas em campanhas pelos direitos humanos na América Central. Decidi passar o ano dando aula na Nicarágua, na Universidade de León, representando Oxford e apoiando vários projetos de desenvolvimento social – de solidariedade, basicamente. Então, voltei da América Central e, depois de alguns anos trabalhando em uma Organização Não Governamental (ONG) voltada a educar jovens sobre questões globais, decidi fazer o mestrado em Oxford, no Centro de Estudos Latino-Americanos. E lá conheci dois brasileiros que começaram a ensinar português para mim. Fiz um módulo sobre o Brasil com o professor Leslie Bethell2. E mesmo que a minha dissertação de mestrado tratasse de Chile, o tema era a influência de movimentos de mulheres nos partidos políticos, em todo o leque ideológico de partidos políticos, e como isso influenciava não somente a representação da mulher, mas também as políticas públicas relacionadas com a mulher.
Terminei o mestrado e fiquei na dúvida se eu queria fazer o doutorado. Conversei com o meu orientador, sobre qual outro país para realizar um trabalho comparado com o Chile. Aí começamos a falar sobre a Argentina, mas ele disse que era muito complicado. Uruguai? É um pouco boring. Brasil? Sim, Brasil! Tem o PT3, que possibilitaria uma comparação interessante com Chile em vários aspectos. Ele falou assim: “Mas você fala bem português?”. Eu falei: “Sim!”. Menti completamente. Mas decidi ir para o Brasil porque dava para comparar o Partido Socialista no Chile, por exemplo, com o PT no Brasil. Tinha o movimento de mulheres, tinha a saída da ditadura, tinha o movimento de democratização. Mas tinha o contraste também, que o Chile é muito centralizado e o Brasil é um país enorme e descentralizado. Aí fui para o Brasil e passei seis meses em São Paulo em 1993. Me apaixonei completamente pelo Brasil e queria esquecer completamente o Chile.
Quando finalizei o doutorado, entrei literalmente no dia seguinte na Anistia Internacional para ser a pesquisadora responsável para o Brasil, que era realmente o meu emprego dos sonhos. É claro que eu já tinha um tipo de experiência na área, porque eu já tinha sido ativa nos movimentos de solidariedade da América Central voltados para a questão de direitos humanos. Já havia feito muitas campanhas, entrevistado pessoas presas, como por exemplo o líder do movimento de direitos humanos em El Salvador, que estava no cárcere na época. Aí entrei e foi na Anistia Internacional que várias coisas aconteceram. Primeiro, consolidei o meu entendimento sobre direitos humanos a partir de um ponto de vista muito mais institucional, ou seja, eu não tinha estudado direito internacional, então todo esse mundo de convenções, de reporting, de compliance, todo o resto, aprendi lá. E foi um mergulho muito intensivo para o meu conhecimento do Brasil, porque conheci todas as regiões do país em minhas pesquisas de campo e, principalmente, comecei a entender o sistema de justiça criminal. Porque claro que, se a Anistia Internacional ia criticar algum procedimento que eles consideravam errado, você tinha que saber o que deveria ser o procedimento correto. Tentei achar alguém que pudesse me explicar como funcionava o sistema de justiça penal no Brasil, qual era o seu fluxo correto. E achei uma pessoa só: o Renato Lima4. Lembro que fui tomar um café com ele, e lá ele abriu um papel enorme que mostrava o fluxo do procedimento criminal que ele pessoalmente tinha construído.
É claro que na época conheci muitas pessoas que hoje em dia são como vocês, são pesquisadores, líderes de ONGs, pessoas que já passaram pelas instituições como gestores, muitos ligados a redes interessadas em reformar políticas públicas, como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e, claro, o Núcleo de Estudos da Violência também. Esses eventos mudaram completamente meu rumo. Havia trabalhado exclusivamente com a questão de gênero, e a partir daí trabalhei não somente com direitos humanos, mas com várias outras questões importantes para mim. Primeiro, sempre me interessei pela questão institucional. Por que as instituições mudam ou não mudam? Como elas refletem demandas sociais ou não? E quais são essas dinâmicas institucionais? Por exemplo, na Anistia Internacional, a primeira pesquisa, a mais importante, foi sobre o sistema prisional. Na época, a Anistia Internacional não mexia muito com essa questão. Até os anos 1990, a Anistia Internacional só defendia os direitos individuais de presos políticos. Eles não faziam uma crítica institucional e estrutural de condições carcerárias. E quando cheguei ao Secretariado Internacional, dois estudos já haviam sido realizados sobre os Estados Unidos e a Rússia, que eram análises mais institucionais e estruturais. Porque eram na época os dois países – além do Brasil – com o maior número de presos. Fazia sentido, mas na verdade foi groundbreaking dentro da Anistia Internacional.
Lembro que na minha primeira visita ao Brasil, para a Anistia Internacional, visitei o Carandiru junto com o famoso padre Chico, Chico Riordan5, que era um herói entre os defensores dos presos da Pastoral Carcerária. Entrei no Carandiru e saí outra pessoa. Fomos para um lugar que se chama “a masmorra”, que provavelmente vocês já conhecem. Era o lugar mais horrível. Todos os presos jurados de morte, vinte por cela, horroroso em todos os sentidos, o lugar mais horroroso que já conheci, esgoto e água no chão, cheiro de desinfetante e de desespero. Decidi que a prioridade para o Brasil tinha que ser a questão carcerária. Já tínhamos publicado bastante sobre violência policial, o massacre de Eldorado de Carajás6 e de outros lugares. Quando decidi fazer essa pesquisa, nós convidamos um especialista de fora da Anistia, que foi o professor Roy King7. E foi ele que me ensinou que você tem que sempre procurar o positivo, além do negativo. Tinha muito negativo. É difícil falar do sistema carcerário brasileiro sem ficar no negativo o tempo inteiro. Mas, na época, lembro que o Human Rights Watch8 estava fazendo a mesma pesquisa. Mas o Human Rights Watch basicamente é muito voltado para documentar cuidadosamente, com muitos detalhes, e denunciar. Mas como a Anistia Internacional tem milhões de membros mundialmente, nós tínhamos que nos comunicar de outro jeito, não bastava só criticar, bater, bater, bater, dizer que está tudo errado. O Roy King falou: “É muito mais esperto se você achar algo que está dando certo e colocar isso no seu relatório. Elogia o que está dando certo, porque isso coloca o governo em uma situação diferente. Eles têm que justificar por que não podem implementar aquela política pública positiva em outros lugares. Se é possível aqui, por que não em outros lugares?”. Lembro muito bem que a recepção aos relatórios que foram publicados simultaneamente foi bem diferente. James Cavallaro9, um grande amigo, era o bad cop, eu era o good cop. E assim a gente trabalhava como uma espécie de dupla.
O governo não gostava muito do relatório do Human Rights Watch, mas pelo menos no relatório da Anistia, que mencionava as APACs10, por exemplo, constavam alguns aspectos positivos que eles podiam pelo menos dizer que a Anistia Internacional elogiou. Lembro que mencionei no relatório que tinha visitado uma penitenciária muito semelhante a uma APAC, em Caruaru/PE. Citamos isso no nosso relatório, como sendo um exemplo positivo de um lugar com tratamento mais humanizado dos presos. Por incrível que pareça, recebemos um telefonema do gabinete do governador de Pernambuco dizendo que aquela penitenciária não existia no Estado! Mas existia sim. Então, foi uma longa história.
Marcos César Alvarez (MA): Em outros países da América Latina, você chegou a fazer pesquisa em prisão?
FM: A primeira vez que entrei em uma penitenciária na América Latina foi na Nicarágua, em 1986, quando fui visitar integrantes da antiga Guarda Nacional do regime ditatorial de Somoza, detidos numa colônia agrícola. Em 1987, visitei duas penitenciárias em El Salvador, onde tinham mais presos políticos durante a guerra civil. Fazia tempo que eu não pensava sobre isso, até que realizei a pesquisa no Brasil para a Anistia Internacional. Hoje em dia, faço parte de vários grupos de pesquisa que surgiram, por exemplo, na Lasa, no CLACSO e em outros fóruns acadêmicos, com pesquisadores de várias disciplinas, incluindo vários antropólogos11. Pessoalmente não faço pesquisas de campo em penitenciárias de outros países, mas alguns textos meus tentam tirar conclusões de pesquisas feitas por outras pessoas na região sobre questões comparativas, tais como governança compartilhada, contestada, ausente ou criminosa dentro das prisões, o papel das prisões como um campo que produz violência em vez de reduzi-la e a multiplicidade de formas de violência institucional que operam dentro do sistema prisional, mesmo quando o sistema de justiça criminal tenta se “modernizar”.
MA: Pelas suas pesquisas aqui no Brasil, o que você pensaria que é mais específico do nosso sistema prisional?
FM: Bom, para mim o paradoxo era sempre que depois de tantos anos de críticas públicas ao sistema, de muitas análises, de declaração do “estado de coisas inconstitucional”12, o sistema é incapaz de se reformar e pensar de uma forma diferente, o que demonstra como ele é impulsionado por uma lógica subjacente profunda de controle social dos setores marginalizados. O que vejo no Brasil é uma capacidade do setor público de sempre absorver e resistir a qualquer iniciativa para mudar ou reformar o sistema. E isso, para mim, é a coisa mais frustrante, porque estamos sempre falando do mesmo conjunto de problemas. Mesmo com essas penitenciárias novas, você segue vendo um incremento constante da população carcerária. E isso não necessariamente é o caso em outros países. Na Rússia, nos Estados Unidos, em vários países europeus, houve nos últimos anos uma redução na população carcerária.
Lucas Batista Pilau (LP): E partindo do seu conhecimento da realidade carcerária brasileira desde os anos 1990 e comparando com dados internacionais, como você percebe a punição no mundo? Ela se intensificou, se manteve estável ou variou globalmente desde a década de 1990?
FM: Boa pergunta. É um quadro misto. Na América Latina, o uso da prisão tem aumentado constantemente nas últimas três décadas. Na região, há um fascínio pelo modelo americano de “supermax” e encarceramento em grandes números por delitos de menor gravidade. As leis antidrogas contribuíram para isso, assim como o medo de gangues e do crime organizado, que agora tem sido enquadrado como “narcoterrorismo”. A construção do Centro de Confinamiento del Terrorismo (Cecot) em El Salvador, com capacidade para 40 mil presos – quatro vezes maior que o Carandiru em seu auge – é a manifestação mais recente dessa tendência para o hiperencarceramento. Em termos globais, a maior expansão do sistema prisional está relacionada ao tratamento de imigrantes e refugiados, que têm sido sistematicamente demonizados e criminalizados. Porém, por que nos Estados Unidos eles decidiram tirar pessoas da cadeia, anistiar pessoas que foram presas por maconha, por exemplo, por crimes muito pífios? Será que estamos em uma nova época mais humanizada? Não, acredito que não. Acho que muitas vezes o Estado se dá conta de que é muito caro sustentar. O custo-benefício de um sistema penitenciário grande e sempre crescente não faz sentido principalmente, voltando para o paradoxo do Brasil, onde quem entra no sistema já pode ser recrutado pelas facções.
FC: Você pesquisou bastante instituições policiais. Pensando nessa trajetória, você percebe mudanças ou continuidades nas formas como essas instituições atuam no Brasil desde a democratização?
FM: Muita continuidade. Sabemos que faltam mudanças estruturais, institucionais e de governança democrática. O fato de que não houve nenhuma reforma substantiva da polícia na Constituição de 1988 já deixou muitas marcas. Atualmente estou pesquisando policiais que decidiram se candidatar a cargos políticos. Esse impulso começou já no final dos anos 1980. Houve uma resistência por parte das polícias na Constituinte, eles conseguiram sair do processo sem mudanças, mas, mesmo assim, sentiam a necessidade de se defenderem institucionalmente. Vários entrevistados relataram como começaram a ser chamados a entrar na vida política logo nos anos 1990. Por isso, esse fenômeno não é tão recente e mostra essa resistência cultural que a polícia tem contra o oversight democrático. É muito forte essa resistência – principalmente na Polícia Militar – e está completamente ligada ao fato de que o Brasil é praticamente o único país na América Latina onde não houve uma Comissão da Verdade com plenos poderes para levar à justiça os responsáveis pelos crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante a Ditadura Militar. A própria Lei da Anistia impediu isso. Não houve reconhecimento, nem accountability ou investigação. Os policiais que cometeram crimes não foram identificados, nem expulsos, nem processados. Tudo isso deixou um legado muito forte em relação às práticas, como a aceitabilidade da tortura, do uso excessivo de força, da execução extrajudicial. Tudo isso continua sendo parte do dia a dia, da lógica, ou uma expectativa sobre a atuação policial. Entendo o porquê de a Lei da Anistia ter sido aceita pelo movimento progressista, pois permitiu que os políticos exilados voltassem ao Brasil, mas depois ela nunca foi questionada, derrubada, como feito em outros países latino-americanos. Bom, para mim, isso foi decisivo.
Roberta Heleno Novello (RN): Fiona, desde o início dos anos 2000, você tem publicado estudos sobre as políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres. Você destacou o papel do PT na participação feminina no cenário político e nas políticas de igualdade. Só que os dados, por exemplo, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública de 202313, evidenciam um aumento considerável de violência contra as mulheres. Como você explica a persistência desse fenômeno, a continuidade da violência de gênero na sociedade brasileira?
FM: Bom, sempre aplico essa pergunta à nossa sociedade britânica também. Nós temos problemas enormes. Como que isso não mudou culturalmente? Podemos oferecer algumas análises sociológicas, como a crise da masculinidade. As questões de identidade são muito fáceis de serem mobilizadas por atores políticos. Por exemplo, na Europa temos esses influencers que têm um público masculino jovem enorme, caras como o Andrew Tate14 que vendem a ideia de que a masculinidade consiste em controle e poder sobre outras pessoas. Então, temos mudado bastante o nosso entendimento sobre violência doméstica, não mais apenas como violência física, como era há algumas décadas. Se desenvolveu o conceito de “controle coercitivo”, cujas dimensões são evidentes na definição de violência doméstica contida na Lei Maria da Penha, uma das legislações mais abrangentes sobre o tema.
Quando entramos em tempos caóticos, muitas pessoas compram a ideia de que suas identidades existem para se contraporem a outras identidades, como o racismo crescente na Europa. A violência doméstica é um recurso social da masculinidade. Por que isso persiste? Porque não é tratado com seriedade nas instituições sociais, na educação. Há um backlash hoje em dia, contra essa tal de “ideologia de gênero”, por exemplo, forte em países como Hungria, Polônia. Já existem cidades na Polônia que se autodeclararam como “zonas livres de LGBT”, cidades que declararam que não existem e não deveriam existir pessoas LGBT nesse espaço geográfico. O que é interessante em relação à questão de gênero é que os legisladores brasileiros, oriundos da polícia, adoram a Lei Maria da Penha, porque sempre podem achar alguma forma para aumentar as penas para isso. Criar um crime hediondo, defender as mulheres inocentes. Então, para mim é interessante como a direita no Brasil, mesmo que tenha essa fala sobre ideologia de gênero, não conecta a ideologia de gênero às mulheres. Ideologia de gênero para eles é apenas LGBT. As construções sociais de gênero não têm nada a ver com a violência contra “mulheres inocentes”? É uma divisão estranha.
Trabalho bastante com a questão de violência de gênero, porque para mim o gênero é uma divisão social que fornece a lógica a todas as outras divisões sociais. É um argumento interessante, não é causal, mas é um modelo, uma lógica para outras violências. Por isso que as violências baseadas em gênero são tão persistentes, porque é a raiz de todas as outras violências, sejam nacionalistas, sejam racistas.
Em 2024, o Conselho Nacional de Chefes de Polícia do Reino Unido declarou a violência contra mulheres e meninas uma “emergência nacional”, à medida que os números continuam a aumentar. O Brasil enfrenta um problema semelhante, mas pelo menos possui uma excelente legislação sobre violência doméstica e tem adotado iniciativas multi-institucionais muito positivas para identificar, processar e prevenir o feminicídio, conforme detalhado no meu livro recente15. No Reino Unido, duas mulheres por semana são assassinadas por seus parceiros ou ex-parceiros, um número que não se alterou em décadas.
LP: Em 2019, você publicou um artigo sobre a bancada da bala, discutindo o aumento de policiais candidatos a cargos eletivos e as implicações disso para a democracia brasileira. Como esse tema se tornou um objeto de pesquisa? E como você percebe o desenvolvimento desse fenômeno após o governo Bolsonaro?
FM: Eu me interessei quando estava escrevendo sobre a descentralização do poder e a corrupção no Brasil. Examinando a composição das assembleias estaduais, comecei a perceber em alguns estados, como, por exemplo, em Rondônia, vários esquemas de corrupção ligados com esquadrões de morte, que existiam devido a uma aliança entre as polícias e políticos locais. Queria entender as lógicas do nexo existente entre a corrupção e a violência e sua interação com as assembleias legislativas e a polícia local.
As análises feitas pelo Instituto Sou da Paz são excelentes nesse sentido no nível nacional e mostram como há uma tendência pragmática e uma tendência ideológica. Há interesses corporativos e punitivos. Nas entrevistas com “políticos-policiais” que tenho realizado com o Frederico Almeida16 e o Marco Antônio Faganello17, encontramos vários – numericamente não posso afirmar que são muitos – que iniciaram a vida política como líderes das greves nos anos 1990 em diversos lugares, na Bahia, em Pernambuco etc. Com muita frustração por falta de voz e representação, acharam que a única opção era entrar na vida política. Outros foram expulsos da polícia por conta do seu ativismo político e praticamente “obrigados” a entrar na vida política. Há muitas histórias diferentes que estou descobrindo. Um outro tipo são os policiais motivados mais por ideologia, que foram envolvidos no Congresso Nacional em propostas de lei mais punitivistas, como aumento de penas e criação de novos tipos penais. Então, no Congresso Nacional, houve uma clara influência da bancada da bala, que na verdade era um punhado de pessoas: políticos mais velhos, mais experientes que já tinham uma influência pontual. Eles sabiam como funcionava o sistema. Muitas vezes as pessoas confundem a bancada da bala com a Frente Parlamentar de Segurança Pública. Não é a mesma coisa. Da Frente de Segurança qualquer político pode fazer parte.
O que eu queria descobrir, junto com os meus colaboradores, era qual seria a influência nos âmbitos mais locais, nas assembleias e nas câmaras municipais. O que descobrimos até agora? Que, na verdade, hoje em dia eles não têm muita influência proativa nas assembleias. Por exemplo, em São Paulo há muitos policiais eleitos, com o governo Bolsonaro houve um boom que já caiu pela metade na Assembleia. Quando conversamos com as associações e sindicatos de polícia, as lideranças relataram que não têm tanta influência quanto gostariam. Houve uma expectativa de que, primeiro, esses policiais representariam os interesses corporativos e de que, segundo, influenciariam as políticas públicas em relação ao sistema de justiça criminal. E eles não fizeram nenhuma dessas coisas. Ou seja, os sindicatos e associações de polícia no estado de São Paulo estão muito frustrados com os próprios “representantes”.
Eles se elegem, ficam lá na Assembleia e não voltam mais a falar com os seus colegas, começam a construir suas carreiras políticas. Muitos entrevistados falaram que a dominância, até então, do PSDB fazia com que não houvesse muita interlocução entre os policiais da Assembleia e o governo. O governo fazia o que queria. Agora está um pouco diferente com o novo governador, Tarcísio de Freitas.
Outro ponto é que os ganhos políticos em relação aos interesses corporativistas foram pequenos, como em relação às aposentadorias, ou seja, foi algo difícil de defender. Quando comecei essa pesquisa, pensava que a influência seria maior no aspecto de políticas públicas. Fora do Congresso Nacional, acho que é pouca. Talvez no âmbito municipal, os policiais que se elegem tenham um conhecimento local e muitas vezes sejam colocados como secretários de segurança pública, o que tem mais influência, mas no âmbito concreto da criação, como gestor. Então, alguns eleitos acabam sendo gestores da segurança pública local, mas aí não entra muito a ideologia. Já falei com vários que eram bem ideológicos, outros que não são tanto. Nunca usavam a patente nas urnas, até a onda do bolsonarismo. Com o Bolsonaro, de repente, eles pegaram novamente as suas patentes e colocaram no nome da urna. Já outros fizeram o contrário: já estavam na vida política, eram ex-policiais, aposentados ou reformados e se recusaram a entrar na onda e sofreram: “Recusei a apoiar os policiais bolsonaristas e por isso perdi o meu mandato”. Agora percebi que há um tipo de backlash contra o Bolsonaro, um distanciamento. Em agosto, vários entrevistados falaram: “Não tenho nada a ver com eles, esses caras são loucos”. Interessante, porque a gente imagina que todos os policiais têm esse perfil de ultraconservador, mas agora começou esse distanciamento do tipo: “Eu sou profissional de segurança pública, vou servir meus eleitores, não quero me associar com essa turma do Bolsonaro”. Talvez mostre que o efeito Bolsonaro já está se dispersando. Não é que necessariamente diminuiu o número de candidatos policiais, mas a associação desses policiais é diferente. Então, há muitas dinâmicas, não é uma história só em relação a esses policiais.
LP: Quando analisamos a literatura sobre esse tema, um dado interessante se destaca: praticamente não tem pesquisa sobre policiais candidatos em outros países. Como você interpreta esse dado? Em algum momento você observou um fenômeno semelhante com a mesma intensidade em outros países?
FM: Juro que nunca vi, em termos numéricos, esse fenômeno que existe no Brasil em outros países. Os números de candidatos policiais no Brasil são excepcionais em termos comparados. Bom, primeiro vocês têm um sistema eleitoral específico, de lista aberta, o que facilita um número excepcional de candidatos. Em países com lista fechada, a seleção de candidatos é controlada pelos partidos, é preciso ter alguma trajetória interna aos partidos. O sistema eleitoral brasileiro é superaberto, qualquer um, praticamente, pode se candidatar. Os policiais que entrevistei confirmaram que, no mercado para candidatos, o poder está com os candidatos e não com os partidos. Então, eles podem escolher exatamente quem aceita a candidatura. Esse é o primeiro ponto, regras que são mais liberais. Nunca vi essa tendência em outro país da América Latina, nem em outros países que conheço. É bem possível que aqui, na Inglaterra, por exemplo, você possa se aposentar da polícia e começar uma nova carreira política, mas são pouquíssimos que consigo lembrar. Acho que é uma questão de identidade aqui, na Inglaterra: você entra na polícia, você é policial, se aposenta e cuida do seu jardim. Acho que essas trajetórias são diferentes. Hoje em dia, no Brasil, há policiais – delegados, por exemplo – entrando, passando cinco, dez anos como policial, somente para construir um perfil social, público – eventualmente político – nas redes sociais. Então, acho que está muito mais ligado a incentivos do sistema eleitoral e falta de voz. Hoje em dia, há o papel dos meios de comunicação: por que tantos se tornaram influencers? Delegados que colocam seus vídeos resgatando animais e de repente se elegem como deputado federal. É uma nova categoria de policial youtuber que vende uma imagem de policial duro, tipo robocop, defensor dos vulneráveis. Isso é algo novo.
RN: O lobby de policiais em outros lugares, você chegou a observar?
FM: Claro que tem um lobby de polícia em muitos lugares, mas, na maioria dos casos, o lobby opera de fora, e não de dentro das instituições representativas. Bom, voltando a uma análise estrutural, o sistema fragmentado de partidos no Brasil também é um ponto fora da curva. Existem muitos espaços informais no sistema brasileiro de representação, e a fragmentação partidária muito exagerada facilita a criação de bancadas. Então a influência se dá aí nesses cross-party groupings, que em outros países é muito mais difícil você ter esse tipo de lobby interno ao parlamento, porque os partidos são bem fortes. Acho que isso não existe tanto em parlamentos em que você tem ou um sistema partidário binário ou com menos partidos, onde está muito mais constituído em grupos ou constelações, coalizões formalizadas. Mais uma vez comparando com o Reino Unido, onde a polícia não tem um lobby forte. O Partido Conservador que estava no poder nesses últimos catorze anos cortou consistentemente o orçamento da polícia, e a polícia ficou muito infeliz e não podia fazer nada. Isso para mim mostra que realmente eles não têm voz, nem lobby, se eles não podiam nem sustentar o orçamento com o Partido Conservador, que seria intuitivamente mais ligado aos seus interesses.
MA: Fiona, muito obrigado, para nós foi muito boa a entrevista.
FM: Gostaria de estar na mesma sala com vocês para esta conversa.
Referências Bibliográficas
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"ANDREW TATE: QUEM É INFLUENCIADOR MISÓGINO e réu por estupro citado em Adolescência ". (27 mar. 2025), BBC News Brasil, https://www.bbc.com/portuguese/articles/cvge2n5n8zro
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APAC, Prosas, https://prosas.com.br/empreendedores/26678#!#tab_vermais_descricao
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PASTORAL CARCERÁRIA. (2 set. 2016), "Padre Chico: um inovador da Pastoral Carcerária". Disponível em https://carceraria.org.br/igreja-em-saida/padre-chico-um-inovador-da-pastoral-carceraria
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PROFESSOR ROY KING - Biography, Institute of Criminology, University of Cambridge, https://www.crim.cam.ac.uk/People/professor-roy-king
» https://www.crim.cam.ac.uk/People/professor-roy-king -
ROTARY INTERNATIONAL, https://www.rotary.org/pt
» https://www.rotary.org/pt
-
1
. Segundo consta no seu site, o Rotary International foi fundado em 1905 e é uma organização mundial formada por líderes profissionais, empresariais e comunitários para prestar serviços humanitários, promover elevados padrões de ética e ajudar a construir a paz no mundo (Para mais informações, cf. https://www.rotary.org/pt).
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2
. Leslie Bethell é conselheiro internacional do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri). Professor emérito de História da América Latina e antigo diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos, na Universidade de Londres. Emeritus Fellow, na St. Antony’s College, em Oxford, e diretor fundador do Centro de Estudos Brasileiros, na Universidade de Oxford.
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3
. Menção ao Partido dos Trabalhadores, partido político fundado em 1980 no Brasil e sigla do atual presidente eleito do país, Luiz Inácio Lula da Silva (2023-2026).
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4
. Menção a Renato Sérgio de Lima, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP) e diretor presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
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5
. Menção a padre Chico, missionário norte-americano dos Oblatos de Maria Imaculada, que ingressou na Pastoral Carcerária de São Paulo em 1985 e foi seu principal organizador, estruturando formações, reuniões e visitas a presos e familiares (Para mais informações, cf. Pastoral Carcerária, 2016).
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6
. O massacre de Eldorado de Carajás ocorreu em abril de 1996, quando 21 trabalhadores rurais ligados ao Movimento dos Sem Terra (MST) foram assassinados por policiais militares (Para mais informações, cf. Luz, 2024).
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7
. Criminólogo britânico, fundador do Centre for Comparative Criminology and Criminal Justice na Universidade de Gales (Bangor). Atuou como consultor da Anistia Internacional e de organismos europeus em reformas prisionais (Para mais informações, cf. Professor Roy King – Biography, Institute of Criminology, University of Cambridge, https://www.crim.cam.ac.uk/People/professor-roy-king).
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8
. A Human Rights Watch é uma ONG internacional fundada em 1978 dedicada à defesa e pesquisa sobre direitos humanos. Com sede em Nova York, possui escritórios em diversas cidades pelo mundo.
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9
. Professor de Direito e cofundador da University Network for Human Rights. Foi comissário (2014-2017) e presidente (2016-2017) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos.
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10
. A APAC (Associação de Proteção e Assistência aos Condenados) é uma entidade civil de direito privado, sem fins lucrativos, dedicada à recuperação e reintegração social de pessoas privadas de liberdade, atuando como auxiliar do Judiciário e do Executivo na execução penal. Fundada em 1972 em São José dos Campos (SP) por voluntários cristãos liderados pelo advogado Mário Ottoboni. Formalizou-se em 1974 para promover a recuperação de presos, a proteção à sociedade e a Justiça restaurativa. (Para mais informações, cf. APAC, Prosas, https://prosas.com.br/empreendedores/26678#!#tab_vermais_descricao).
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11
. Menção a Latin American Studies Association (Lasa), uma associação mundial de estudos sobre América Latina fundada em 1966 que promove pesquisa, ensino e debate sobre a região.
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12
. Menção ao reconhecimento pelo Supremo Tribunal Federal, na ADPF 347, do “estado de coisas inconstitucional” do sistema prisional brasileiro.
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13
. Para mais informações, cf. o 17º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, Acervo Digital do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (https://publicacoes.forumseguranca.org.br/items/6b3e3a1b-3bd2-40f7-b280-7419c8eb3b39).
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. Influenciador britânico-americano que se autoproclama misógino e tem milhões de seguidores nas redes sociais. No mês passado, ele deixou a Romênia, onde foi acusado de estupro, tráfico de pessoas e formação de um grupo criminoso para exploração sexual de mulheres (Para mais informações, cf. “Andrew Tate: quem é influenciador misógino e réu por estupro citado em Adolescência”, 2025).
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. Menção a Frederico Normanha Ribeiro de Almeida, professor do Departamento de Ciência Política (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
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. Menção a Marco Antônio Faganello, doutor em Ciência Política pela Unicamp e pesquisador do Centro de Política e Economia do Setor Público da FGV.
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Declaração de disponibilidade de dados:
Não se aplica.
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Trabalho realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil (Capes) – Código de Financiamento 001.
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Editora:
Ana Paula Hey
Não se aplica.
