Open-access Transformações no ethos de elites econômicas: Abertura e denegação social na produção da convicção de elite1

The transformations in the ethos of economic elites: openness and social denegation in the production of elite conviction

Resumo

O artigo busca compreender as atualizações dos valores e premissas da ação de elites econômicas engajadas com o que é enunciado como mudança social no Brasil a partir da análise da atuação transnacional e das iniciativas de “abertura social” da Fundação Lemann. Por meio de uma perspectiva compreensiva e posicional, a pesquisa documental (2002-2023) demonstra como valores historicamente característicos de frações dominantes, como o mérito e o individualismo, têm dado lugar a composições com valores como diversidade e responsabilidade, fenômeno que se declina globalmente. O estudo do lastro simbólico das posições de elite permite compreender a denegação social envolvida na produção da convicção de elite e das formas atuais de sua sociodiceia.

Palavras-chave:
Elites; Abertura social; Denegação social; Circulação internacional; Fundação Lemann.

Abstract

The article aims to comprehend the transformation of the values and premises of action of economic elites engaged with what is stated as social change in Brazil, based on the analysis of the Lemann Foundation’s transnational agency and “social opening” initiatives. Through a comprehensive and positional perspective, our documentary research (2002-2023) demonstrates how values historically characteristic of dominant fractions, such as merit and individualism, have given way to compositions with values such as diversity and responsibility, which is a global phenomenon. The study of the symbolic pillars of elite positions allows us to understand the social denegation involved in the production of elite conviction and the current forms of its sociodicy.

Keywords:
Elites; Social openness; Social denegation; International circulation; Lemann Foundation.

Introdução

“O desinteresse é suspeito”, afirma Bourdieu em sua aula de 19 de janeiro de 1989 (Bourdieu, 2022, p. 210). Na ocasião, ele afirma que “as disposições éticas, em uma sociedade diferenciada, são sempre ao mesmo tempo substanciais e relacionais” (2022, p. 238), ou seja, são próprias a cada classe, mas se constroem por oposição a outras classes. A partir do entendimento de que os agentes são razoáveis, antes que racionais, sustenta que “a ação virtuosa é virtuosa por acréscimo” (par surcroît) (2022, p. 239), que ela traz um ganho a quem a pratica, ganho que só pode existir, contudo, se ela não buscar conscientemente ganho algum. O autor emprega termos como autoengano, autoilusão, ficção sincera, denegação e má-fé - na acepção sartriana de mentir para si mesmo - para analisar os ganhos simbólicos implicados na negação do interesse (Bourdieu, 1980; 1997). Esboçando o projeto de uma “sociologia trans-histórica das disposições éticas”, ele afirma que só é possível entender “o interesse em ser desinteressado” quando se compreende que não se deve buscar nem cinismo, nem virtude nas boas ações (Bourdieu, 2022, p. 246), mas (dis)posições e tomadas de posição de classe.

Estudos recentes têm demonstrado que, tal como outras classes (Lamont, 1992; Sayer, 2005), as elites buscam justificar-se moralmente (Sherman, 2017; Kantola e Kusella, 2018). Nos últimos anos, temos acompanhado também o fenômeno global de “abertura social” de instituições de ensino de elite, bem como a transformação da diversidade em valor simbólico entre frações de elite. (Van Zanten, 2010, 2015; Khan, 2011, 2015; Allouch, 2022; Michetti, 2017; 2019, 2022; Ortiz, Michetti e Nicolau Netto, 2023). Annabelle Allouch (2022) analisa as iniciativas de abertura social a indivíduos de classes populares e a “economia moral da diversidade” que marca atualmente instituições como Science Po na França e Universidade de Oxford na Inglaterra. A autora percebe aí um esforço para se “acomodar moralmente o mérito” quando o ideal meritocrático, gramática historicamente empregada por tais instituições, passa a ser criticado como falacioso e injusto (Boltanski, 2009). Allouch et al. (2016) apontam ainda uma passagem do mérito à responsabilidade na justificação de posições de elite e relacionam distinção e responsabilidade ao estudar o senso moral dos estudantes daquelas instituições.

Em sentido convergente, Luc Boltanski (2009, p. 216) argumenta que a “classe dominante” seria constituída hoje pelos que se veem como “responsáveis” não apenas por sua própria vida, como coloca igualmente Shamus Khan (2011), mas também pela vida de um grande número de pessoas. Adam Howard (2013) também indica que atualmente os privilegiados negociam o próprio privilégio por meio de esforços em prol da justiça social.

Diante disso, este artigo analisa as iniciativas de fomento à circulação de estudantes, pesquisadores e profissionais brasileiros em instituições universitárias estadunidenses e europeias de prestígio, estabelecidas por organizações sem fins lucrativos ligadas a grandes famílias empresariais, buscando compreender os valores e premissas envolvidos em tais iniciativas, em especial nas que se dedicam à “abertura social”, isto é, ao recrutamento de agentes não oriundos de posições de elite.

Com isso, o texto almeja compreender as atualizações do ethos de elite em termos mundiais, no Brasil inclusive, o que concorre para preencher uma lacuna por aqui. Destaque-se que pesquisas anteriores sobre a percepção de elites brasileiras informavam que tais frações atribuíam exclusivamente ao Estado a resolução de problemas sociais (Reis, 2005), algo que se transforma recentemente, como é notável no engajamento de elites econômicas em reformas de escopo público e em suas iniciativas de “abertura social”, conforme demonstramos anteriormente (Michetti, 2019, 2020).

Para atingir tais objetivos, o recorte empírico é composto pela atuação de fundações privadas criadas e mantidas pelo empresário Jorge Paulo Lemann, primordialmente a Fundação Lemann (FL). Ela não é a única instituição envolvida no processo que analisamos, mas sua atuação é central e heurística para percebermos o lastro valorativo das iniciativas filantrópicas de elites econômicas.

Para analisar o fenômeno em tela, a metodologia empregada baseou-se centralmente em levantamento e análise documental de material produzido pelas organizações concernidas de 2002 até 2023. A partir dos respectivos websites, acessamos relatórios anuais das fundações e dos centros de pesquisa que financiam, bem como informações fornecidas pelas universidades “parceiras”. Ainda, levantamos as iniciativas a que se dedicam e depoimentos de participantes veiculados pelas organizações. Além disso, discursos e informações difundidos por outras mídias foram levados em consideração na construção do objeto, como entrevistas e matérias de jornal. Entre 2015 e 2017 realizamos ainda observações de campo em centros e eventos promovidos pela Fundação Leman tanto nos Estados Unidos (Nova York e Califórnia) como no Brasil (São Paulo). Esse corpus foi trabalhado qualitativamente por meio de análise de conteúdo compreensiva e posicional, como uma “fenomenologia relacional” (Atkinson, 2016), que busca compreender as tomadas de posição simbólicas e morais a partir de posições sociais (Jarness, 2018).

Quanto ao percurso do artigo, após essa introdução, apontamos brevemente alguns marcos teóricos e conceituais sobre a relação entre elites, instituições, campo do poder e circulação internacional, para, na sequência, apresentarmos as iniciativas da Fundação Lemann no circuito acadêmico globalmente consagrado. A seção seguinte analisa e sistematiza as premissas e os valores que lastreiam tais iniciativas, e desemboca na conclusão acerca da denegação implicada na produção da convicção de elite sobre seu lugar no mundo.

Elites, instituições, campo do poder e abertura social

Em termos teóricos, partimos da relação entre a sociologia das elites e a análise de classes, tal como postulado por Savage (2015), Savage et al. (2015) e Korsnes et al. (2018). Com Bourdieu (1994), pensamos as classes como realidades de múltiplas variáveis que se definem relacionalmente no espaço social. Por serem definidas a partir da concentração diferencial de vários tipos de capitais, as diferentes regiões do espaço social delineiam distintas frações de classe a depender do volume e da estrutura de capitais (Atkinson, 2017) e, portanto, também quando falamos elites, devemos pensá-las no plural (Hey, 2017). Entretanto, embora os “dominantes” de cada campo disputem os princípios legítimos de dominação (Bourdieu, 2011), lembramos que o capital econômico é o que mais facilita o movimento entre campos (Savage e Williams, 2008). Além de concentrarem capitais relevantes, as elites detêm condições privilegiadas de agência (Boltanski, 2009), são múltiplas e estabelecem entre elas relações de cooperação e competição. A tais propriedades objetivas se soma a incorporação de posições dominantes sob a forma de classificações, disposições e valores (Denord, Palme e Réau, 2020), processo que se dá através de experiências em instituições de elite, como famílias, escolas, clubes, redes (Khan, 2011). Outro aspecto importante dessa definição é que, por estarmos diante de classificações relacionais, é o próprio universo dos dominantes que define suas proximidades e distâncias, em suma, suas fronteiras (Pinçon e Pinçon-Charlot, 2007; Saint-Martin, 2008). Nessa direção, com Gérard e Wagner (2015, p. 7, tradução própria), empregamos o termo elite porque ele é “indissociável das formas de consagração e autoconsagração pelas quais as ‘elites’ se reconhecem e procuram ser reconhecidas como pertencentes a um grupo distinto na sociedade, permit[indo] questionar os fundamentos, que variam de acordo com os contextos históricos e sociais, da crença nesta superioridade”.

Acerca dessas formas de consagração, não é de hoje que a circulação por universidades europeias e estadunidenses constitui elemento do “campo do poder” no Brasil. (Loureiro, 1998; Almeida et al., 2004; Canedo, Garcia e Tomizaki, 2013). Não se trata, contudo, de algo exclusivo ao Brasil (Popeau, 2004; Wagner, 2007; Niane e Wagner, 2008; Dezalay, 2013; Dezalay e Nay, 2015; Wagner e Reau, 2015; Gérard e Wagner, 2015). De acordo com Monique de Saint-Martin (2008, p. 52), “A socialização e a formação dos membros das futuras elites dependem estreitamente das instituições educativas […] que favorecem a estruturação dos grupos, a constituição de redes e a aprendizagem de modos de gestão das relações e do exercício da autoridade”. Ela aponta também que “A frequentação a instituições estrangeiras por períodos mais ou menos longos, seja no próprio país, seja, mais frequentemente, no exterior” é parte importante dessa socialização.

Também baseados em Bourdieu, Gerard e Wagner (2015) afirmam ainda que “as instituições de elite têm como função primeira operar uma separação entre os ‘eleitos’ e os homens comuns e, para que um saber possa pretender a consagrar uma elite, é preciso que, por definição, ele seja reservado a uma minoria e que seja, portanto, excludente”. Para eles, tal seletividade

[…] anda de mãos dadas com a manutenção de laços privilegiados entre os eleitos. A autossegregação (entre-soi) é uma característica recorrente das instituições de elite, que selecionam indivíduos com propriedades semelhantes e cultivam simbólica e praticamente vínculos entre membros e ex-membros. A consolidação das redes de elite e a aprendizagem da sua diferença constituem uma das dimensões centrais do trabalho da instituição.

Recentemente, contudo, tais instituições, criticadas como excludentes e injustas, têm buscado se reformar com políticas de abertura e diversidade (Warikoo e Allen, 2020; Sampaio, 2014; Bowl, 2018; Khan, 2015; Van Zanten, 2015, Khan, 2011, 2015; Allouch, 2022). Ao mesmo tempo, elites econômicas estabelecem iniciativas filantrópicas de recrutamento de indivíduos de diferentes origens e trajetórias, com diferentes marcadores sociais, para circular por instituições de elite consagradas.

A Fundação Lemann e o fomento à circulação acadêmica internacional: a eleição dos “talentos”

Um dos maiores empresários do país, Jorge Paulo Lemann é um dos sócios da AB InBev e do grupo 3G capital2. Filho de imigrantes suíços, estudou na Escola Americana do Rio de Janeiro3 e se formou em Economia pela Universidade de Harvard no início dos anos 1960. Nos anos 1990, passou a atuar filantropicamente por meio de organizações sem fins lucrativos. Com os sócios Marcel Telles e Beto Sicupira, criou a Fundação Estudar em 1991 e, em iniciativa solo, inaugurou a Fundação Lemann em 20024.

Dentro da constelação de organizações sem fins lucrativos fundadas por empresários sócios de Lemann, o Ismart (Instituto Social para Motivar, Apoiar e Reconhecer Talentos) foi criado em 1999 por Marcel Telles, com foco na educação básica. A organização “identifica jovens talentos de baixa renda, de doze a quinze anos de idade, e lhes concede bolsas em escolas particulares de excelência e o acesso a programas de desenvolvimento e orientação profissional, do ensino fundamental à universidade”5. A “missão” enunciada é “concretizar o pleno potencial profissional de jovens talentos acadêmicos de baixa renda através de programas calcados na valorização da excelência, da ética e da criatividade produtiva” e, entre os “valores” enunciados, temos: “As diferentes formas de talento se distribuem por todas as classes sociais; as boas oportunidades catalisam a promoção social; o talento só se concretiza por meio do esforço pessoal” 6.

Embora também se baseiem na noção de “talento”, as organizações criadas por Lemann reforçam também a ideia de “formação de lideranças”. A Fundação Estudar busca qualificar profissionalmente os estudantes bolsistas de graduação e pós-graduação, principalmente de meios populares, para bons postos no mercado de trabalho. O Programa “Líderes Estudar”, até 2017 chamado de “Programa de Bolsas”7, “tem como objetivo despertar o potencial dos jovens mais promissores do Brasil” e “apoia o estudo nas melhores universidades no Brasil e no mundo”, prevendo ainda a “identificação com os valores da Estudar” e o “compromisso com deixar um legado para o país”8.

Já a Fundação Lemann tem uma atuação que - crescentemente - se pretende mais pública, isto é, formar “líderes” com “impacto social”, além de trabalhar junto a diferentes níveis de governo para a consecução de mudanças em escala nacional (Avelar e Ball, 2019; Tarlau e Moeller, 2020, Michetti, 2020). Estatui-se como “uma organização familiar e sem fins lucrativos que colabora com iniciativas para a educação pública em todo o Brasil e apoia pessoas comprometidas em resolver grandes desafios sociais do país”9. Tem por “missão” “atuar com iniciativas de grande impacto para ajudar a garantir uma aprendizagem de qualidade a todos os alunos e formar uma “rede de líderes” que resolvam os problemas sociais do país”10.

Divide sua atuação em duas frentes, cada uma com vários programas e iniciativas. Uma delas tem por objeto a “educação pública” e é de amplo escopo. Por pretender incidir em escala nacional, essa frente estabelece várias “parcerias” com o setor público em seus níveis federal, estadual e municipal. A outra consiste em “apoiar” o que é chamado de “lideranças”. Por meio de vários programas diferentes, apoia “lideranças com trajetórias e visões de mundo diversas, engajadas em temas como educação, saúde, gestão pública e empreendedorismo”, que têm “compromisso com a transformação social”11. A ideia de recrutar e formar “redes” de “talentos” é central.

O programa mais antigo da Fundação é o “Programa de Talentos Lemann Fellowship”, criado em 2007 com a seguinte concepção:

Juntas e comprometidas, as pessoas podem mudar uma cidade, um estado, um país. O programa Lemann Fellowship é uma das nossas principais iniciativas para apoiar gente talentosa que quer desenvolver o Brasil e buscar soluções para os grandes desafios sociais que enfrentamos. […] Em parceria com algumas das melhores universidades do mundo, o programa Fellowship ajuda a formar líderes para o Brasil. Com oportunidades de desenvolvimento e contatos com centenas de pessoas das redes Fundação Lemann, os Lemann Fellows podem se tornar líderes cada vez mais completos12.

Ele dá “acesso a bolsas de pós-graduação em universidades de ponta no exterior”, “investindo na produção de conhecimento e evidências sobre e para o Brasil”, “especialmente em áreas cruciais para o desenvolvimento do país, como educação, saúde, economia, gestão e políticas públicas”13. Além de incentivar a inserção “em algumas das melhores universidades do mundo”, o programa garante ainda a “participação em uma rede de talentos que ajuda os bolsistas a potencializar suas ideias e ações” e o “apoio para impacto social por meio de atividades de desenvolvimento de liderança e desenvolvimento de carreira”14. Em troca, os “compromissos dos Lemann Fellows” devem consistir em “desempenho acadêmico exemplar”, “grande capacidade de realização”, “claro comprometimento em trabalhar em áreas de crucial importância para o desenvolvimento do país15.

Outro programa, intitulado “Talentos da Educação”, foi criado em 2014 e “reúne professores, empreendedores, gestores públicos e membros do terceiro setor que colocam a mão na massa e fazem um trabalho relevante na área de educação”. Formada com “um monte de gente talentosa e comprometida com a qualidade do aprendizado”16, a rede de “pessoas inspiradoras” que já possuem “experiências” na área de educação tem por tarefa “pensar em novas ideias e soluções para a educação” e “oferece encontros de imersão, seminários, eventos, formação customizada e oportunidades de conexões para que os participantes possam aperfeiçoar suas habilidades de liderança e debater os desafios técnicos e políticos envolvidos em reformas educacionais” 17.

Como ramificação do programa, a Fundação Lemann criou o chamado “Ponte de Talentos”, recentemente rebatizado “Programa Alcance”18, que

[…] em parceria com a EducationUSA e a Voxy, quer colaborar para ampliar a igualdade de oportunidades e ajudar cada vez mais gente a chegar aonde sonha. A proposta é promover equidade racial e econômica entre brasileiros que fazem cursos de pós-graduação em algumas das melhores universidades dos Estados Unidos. O Ponte de Talentos selecionará preferencialmente estudantes de baixa renda, negros e indígenas, apoiando sua qualificação no processo seletivo para pós-graduação em universidades renomadas dos Estados Unidos. O programa apoiará até vinte pessoas e selecionará, preferencialmente, pessoas de baixa renda, negras, pardas e indígenas19.

Montado em 2017, o “Talentos da Saúde” tem por objetivo “transformar a saúde pública”, é formado por um grupo de “médicos, enfermeiros, gestores e outros profissionais” para “pensar juntos nos principais desafios da saúde”20. Em termos de foco de atuação, esse programa destoou das iniciativas anteriores da Fundação, que comumente privilegiam a área da educação, mas sua presença na área da saúde ganhou espaço com a pandemia de Covid-19.

Ainda na área de “lideranças”, em 2018 foi lançado, “em parceria com o Instituto Humanize”, o programa “Terceiro Setor Transforma”, que reuniu “pessoas e organizações do Terceiro Setor [que] colaboram para tornar o Brasil um país melhor”. O objetivo declarado é o de “conhecer, conectar e colaborar com a formação de lideranças com o apoio da THNK School of Creative Leadership”, escola baseada em Amsterdam que se apresenta como “especialista no desenvolvimento de lideranças para transformação em escala global”21.

Já o “Programa de Apoio ao Desenvolvimento de Lideranças Públicas”, também lançado em 2017, proclama o intuito de “formar e apoiar lideranças que querem transformar o país atuando na política”, de “auxiliar na formação e aperfeiçoamento de lideranças públicas, contribuindo dessa forma para um novo campo político democrático no país”22.. Busca

[…] atrair pessoas comprometidas em resolver desafios sociais, colaborando com os avanços que o Brasil precisa. Entretanto, muito além de novas lideranças, existe a necessidade de revigorar a gestão pública com os princípios de integridade, sustentabilidade e democracia - tudo isso somado à diversidade de ideias, trajetórias e pensamentos. Diversidade para lidar com desafios tão grandes quanto o Brasil23.

A “diversidade” é dos principais valores estatuídos nessa frente de atuação, sobre a qual a Fundação Lemann informa que

O programa chega na 2ª edição com mais de mil interessados de todos os estados, representando a diversidade do Brasil. Recebemos inscritos filiados em 31 partidos diferentes - e inscritos que não são filiados também. 43% das inscrições foram de mulheres e 55% são negros, pardos e indígenas. São pessoas de todas as cores e regiões, com diferentes trajetórias e visões políticas24.

O que unificaria gama tão diversificada de pessoas seria o objetivo comum a todas: “colaborar com os avanços que o país precisa a partir dos princípios de integridade, ética, sustentabilidade, democracia e diversidade”25.

Na primeira edição do Programa, as lideranças políticas recrutadas participaram “de um calendário de atividades de formação com bolsas de apoio” e, entre as atividades destacadas, evoca-se o curso “Integridade e Valores no Governo”, oferecido pela Escola de Políticas Públicas de Oxford, cujo objetivo é “equipar futuros candidatos políticos com uma base de valores e de integridade que os apoiará nas campanhas políticas de que farão parte”26. Mais recentemente, esse programa é subsumido ao programa “Líderes Públicos”.

Todos esses programas formam o que a FL chama de “rede de líderes”, parte de seu “ecossistema de impacto”. A rede é descrita como “um grupo de pessoas extraordinárias, que exercem liderança, com grande potencial de mudar o Brasil e que já estão agindo para transformá-lo em um país mais justo e avançado”. Os temas de interesse divulgados são “Desenvolvimento Econômico, Desenvolvimento Social, Educação, Gestão Pública, Infraestrutura, Justiça Social, Meio Ambiente/Sustentabilidade e Saúde. Em 2023, eram 698 membros paritários em gênero, dos quais 475 brancos, 125 pardos, 75 pretos, 17 amarelos, 6 indígenas, de todas as regiões do país, 80% atuando no Brasil e 20% no exterior27, nos setores indicados no Quadro 1.

QUADRO 1
Setores de atuação dos “líderes”

O propósito autoatribuído é o de “transformar o Brasil em um país mais justo e avançado ao garantir que pessoas de altíssimo potencial transformador e obstinadas em resolver os principais desafios do país liderem iniciativas de impacto social”28. Já os valores enunciados estão na Figura 1.

FIGURA 1
Valores da rede de líderes, segundo a FL (2023)

FIGURA 2
Foto aérea do “Encontro Anual de Líderes de 2019

Financiamentos em universidades consagradas e eventos da “rede Lemann”: a peregrinação e a congregação de “líderes”

Há algumas instituições centrais na atuação transnacional da FL, que pode ser dividida em duas modalidades: a) financiamento de estudantes, pesquisadores, profissionais e projetos específicos, no âmbito dos programas que apresentamos no item anterior. Ela destaca, contudo, que “O processo seletivo para admissão nas universidades é conduzido de forma independente do processo seletivo para a bolsa”29. Isso se conecta ao valor da meritocracia endossado pela instituição, com o qual, entretanto, ela pretende construir uma elite mais diversa, porque meritocrática, pois, como muitas vezes enunciado pelo próprio Jorge Paulo Lemann, “talento existe em todo lugar”; b) financiamento de centros de pesquisa e programas permanentes. Os centros e programas permanentes financiados por ela estão no Quadro 2.

QUADRO 2
Centros de pesquisa financiados pela FL
QUADRO 3
Edições do Lemann Dialogue

Tais centros são destino de estudantes, pesquisadores e figuras públicas selecionadas pela Fundação Lemann, lugar de congregação da rede Lemann, o que ocorre especialmente em eventos financiados pela organização. O Lemann Dialogue é uma conferência anual de vários dias organizada desde 2014 pelas quatro universidades estadunidenses com “endowments” da Fundação Lemann, para “construir conexões entre instituições acadêmicas e conectar líderes acadêmicos e especialistas em políticas públicas”30. São ocasiões de congregação entre figuras do campo do poder brasileiro e de proximidade com os fellows. Conforme pudemos observar, a sensação partilhada é de que a agenda e o futuro do Brasil se desenham ali. Eis os lugares e os temas das edições realizadas até o momento de escrita deste artigo:

Durante os dias de evento, ocorrem também encontros exclusivos entre os “fellows”, Jorge Paulo Lemann e convidados.

Já o Road Show é organizado desde 2014 e propõe “uma imersão com líderes brasileiros de diversos setores” cujo “objetivo é apoiar o desenvolvimento da carreira, expandindo e qualificando a rede profissional de alguns dos fellows no ano em que completam a formação”. O intuito é “reconectar os Lemann Fellows que estão concluindo os estudos no exterior com a realidade brasileira”, “os principais desafios nacionais” e com “lideranças de diversas áreas” 31. Quanto à programação do evento, afirma-se que:

A agenda é sempre democrática e planejada para promover diálogos ricos, respeitando a pluralidade de visões e escutando diferentes vozes a fim de compreender o Brasil. […] Em 2017, por exemplo, os Lemann Fellows tiveram a oportunidade de compartilhar ideias com a ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), a secretária executiva do MEC, Maria Helena Guimarães, e Pedro Abramovay, diretor para a América Latina da Open Society Foundations. […] Em 2016, a agenda também foi bastante plural e promoveu conversas dos Lemann Fellows com o ex-prefeito da capital paulista Fernando Haddad e o ministro do STF Luís Roberto Barroso32.

Já a edição de 2019 do Road Show foi conciliada com a Brazil Conference at Harvard and MIT, evento promovido por “estudantes brasileiros da região de Boston” que “existe desde 2014 com a proposta de ajudar a construir um espaço plural em que podemos refletir sobre o futuro com transparência, diálogo e diversidade”, com o intuito de “discutir pautas relevantes para o país com intelectuais, autoridades políticas, especialistas de vários setores e, claro, mais estudantes”33. Para dar uma ideia do teor do evento, entre os convidados estavam

os candidatos à presidência Ciro Gomes, Geraldo Alckmin, Guilherme Boulos e Henrique Meirelles. A conferência também recebe o general Hamilton Mourão (vice-presidente da República), Raquel Dodge (procuradora-geral da República), Dias Toffoli (presidente do STF), Flávio Dino (governador do Maranhão), Fernando Henrique Cardoso (ex-presidente do Brasil), Kátia Abreu (senadora do Tocantins), Tábata Amaral (deputada federal) e Helio Bolsonaro (deputado federal), Salman Khan (CEO da Khan Academy), Pelé (maior futebolista da história brasileira), Jout Jout (youtuber), Débora Garofalo (professora top 10 no Global Teacher Prize), Denis Mizne (diretor executivo da Fundação Lemann) e Jorge Paulo Lemann (presidente da Fundação Lemann) […]34 .

Ressalte-se que esse evento não é exclusivo aos integrantes da rede formada pela Fundação Lemann, mas esta é uma das patrocinadoras da iniciativa, que conta com outros financiadores, alguns dos quais também ligados a outras atividades de Lemann, como a Fundação Estudar, Cervejaria Ambev e as Lojas Americanas35.

Além disso, a FL é um dos financiadores do Brazil at Silicon Valley, “movimento liderado por estudantes de Stanford e Berkeley que visa a melhorar a competitividade do Brasil por meio de inovação e tecnologia”36. Ainda, apoia o St. Gallen Symposium, evento organizado na Suíça desde 1969, que “reúne líderes de hoje e de amanhã dos negócios, da política, da ciência e da sociedade civil, para promover a compreensão mútua e a ação conjunta nos nossos desafios e oportunidades mais prementes”37.

O principal encontro da rede, contudo, é o Encontro Anual de Líderes, uma “imersão” de três dias que acontece no Brasil, nas férias de verão do hemisfério Norte. A proposta é a de “uma agenda que permite explorar temas relevantes para o Brasil e principalmente gerar espaços de conexão, em um ambiente informal”38, que congrega bolsistas, ex-bolsistas e outras personalidades do campo do poder nacional. Tomemos, a título de exemplo, a edição de 2019, aberta pelo diretor-executivo da FL, Denis Mizne, com os seguintes dizeres: “Acreditamos na diversidade e nas diferentes visões de mundo. O Brasil é grande demais para uma ideologia única, precisamos de pluralidade”39. Além da “rede de líderes”, teve convidados como Flávio Dino, à época governador do Maranhão pelo PC do B; Rodrigo Maia, então presidente da Câmara dos Deputados e do Partido Democratas; Salim Mattar, secretário de Desestatização e Desinvestimento do governo de Jair Bolsonaro; Marina Silva, visiting Fellow em Columbia à época; e Raquel Lyra, então prefeita de Caruaru, “rede de ensino parceira da FL”. Houve ainda um painel que aglutinou José Frederico Lyra, Lemann Fellow e integrante do Movimento Acredito, Renan Santos, do Movimento Brasil Livre, Paulo Gontijo, do Livres, e Caio Tendolini, da Bancada Ativista40.

Observe-se que, sob financiamento da FL, tais eventos congregam agentes ou “líderes”, já que ocupam posições dominantes no campo do poder no Brasil, alguns dos quais “fellows” da Fundação, e agentes que são vistos como líderes em potencial ou em formação. Tal conjunção é fundamental para os objetivos das iniciativas que analisamos.

Premissas da ação e ethos dos agentes: “uma rede de pessoas extraordinárias”

As iniciativas de financiamento à circulação internacional funcionam como um programa de formação de um grupo de pessoas que, ao circular por tais ambientes, se reconheça, por direito e mesmo por dever, como parte do campo do poder, em especial - embora não exclusivamente - no Brasil41. Como apontam Gérard e Wagner (2015) ao analisarem a educação das classes dominantes, “A manutenção do espírito de corpo (esprit de corps) passa por um trabalho específico de socialização através do qual a instituição inculca uma visão específica do mundo e do seu lugar neste mundo social: as instituições de elite são também lugares de sociogênese dos habitus, ou seja, fabricam um tipo particular de pessoa”. Para os autores, entre as “qualidades que definem as elites e que devem ser cultivadas nas instituições que as formam” estão a “segurança social (assurance sociale), a certeza do direito de ocupar uma posição privilegiada e a capacidade de reconhecer e valorizar os membros do seu grupo”. Logo, “a consolidação de redes de elite e a aprendizagem de sua diferença seriam uma das dimensões centrais do trabalho da instituição”. Como aponta Bourdieu (2016, p. 931), os ritos de instituição instituem no herdeiro instituído a propensão a investir na herança. O autor lança mão da expressão “droit-devoir” (direito-dever) (2016, p. 934) para falar de tais ritos como ritos de discriminação, que separam os instituídos do restante por meio de uma diferença social sancionada, e os incumbem de levar a sério as regras do jogo ao qual devem se dedicar.

A ideia de uma “rede de pessoas extraordinárias” fica nítida nos depoimentos dos “fellows”:

Nós somos um grupo de pessoas formadoras de opinião, somos pessoas que vamos estar muito bem posicionadas profissionalmente e a gente tem muita força política e social mesmo para mudar. Então a gente consegue, através das nossas redes de relacionamento, do nosso trabalho, mudar isso, juntamente com um país que tá precisando, que tá buscando uma mudança social mesmo… Eu vejo essa junção de forças propiciando essa mudança que a gente precisa. (E. P.) 42.

A passagem pelas instituições de elite concorre para a formação do espírito de corpo de um grupo que se vê como uma rede de pessoas “talentosas”, “brilhantes”, “inspiradoras” e, também, “preparadas”, logo, como “líderes” “responsáveis” por “mudanças” que imaginam como desejáveis para o país.

Eu gosto de falar que não fui eu que encontrei o programa, acho que o programa que me encontrou e isso pra mim abriu muitas portas, me deu muitas oportunidades. O mais importante para mim é tá aqui. Tá aqui é o que? É fazer parte desse grupo. Eu me sinto assim, eu quando eu me torno melhor como pessoa é quando eu estou com essas pessoas ouvindo, ouvindo perspectivas diferentes, porque ali eu tô vendo como eu posso melhorar como ser humano, como brasileira, como cidadã… A gente tem um grupo muito especial, muito brilhante, muito engajado, muito dinâmico de pessoas que tiveram acesso a uma coisa em comum, que é uma educação de excelência. (S. B.) 43.

Contudo, diferentemente do estudo de Gérard e Wagner, nossa pesquisa demonstra como se busca fomentar esse “sentimento” em múltiplas ocasiões de encontro que incluem agentes com diferentes trajetórias e posições sociais, não apenas originados de frações de elite. Como elementos de coesão, aparecem a certeza de uma formação de excelência e o fato de fazer parte da mesma rede.

As noções de rede e de “ecossistema” são recorrentes, e a FL se aproxima do Estado em sua atuação (Michetti, 2020)44. Contudo, a premissa básica da FL é de que a mudança é necessária, urgente, realizável e tarefa de indivíduos extraordinários. A unidade a partir da qual se estrutura a agência da Fundação Lemann é a “pessoa”. O slogan da organização é “Por um Brasil que acredita nas pessoas. Por pessoas que acreditam no Brasil”45. O termo é frequentemente enunciado no plural, como em “pessoas de talento”, “pessoas que querem ter impacto”, dar oportunidades para “pessoas”, mas a concepção de base é individual. As histórias de “pessoas inspiradoras”, com destaque para o próprio Lemann, são trajetórias de indivíduos considerados extraordinários.

Outra categoria frequente é “gente”, como em “O Brasil é a sua gente”, “gente faz a diferença quando acredita no Brasil” 46. O próprio Jorge Paulo Lemann afirma que “A minha esperança é que os princípios da Fundação, a meritocracia, o pragmatismo, o escolher gente boa, sejam adotados pelo País, pelo governo”47. Diz ainda com frequência que “seu negócio é gente”48 e que o diferencial de suas empresas é “atrair talentos” e “dar oportunidades” a “pessoas que sonham grande”.

A “pessoa” é depositária do “talento”, outra categoria central. Os programas se dedicam a “apoiar” talentos que são ou podem se tornar “líderes”, desde que tenham oportunidades para alcançar “impacto social”. O talento seria o pré-requisito para ser uma liderança e seria ainda um unificador entre pessoas com diferentes trajetórias sociais. A noção de “oportunidade” é associada à “equidade”, juntas compõem o ideal de “igualdade de oportunidades”, sob o qual as diferenças justificáveis seriam apenas aquelas derivadas do mérito. Imagina-se que, se houver lugar para o “mérito”, pessoas que não são oriundas do que é entendido como elite no país possam vir a integrá-la. Uma das bandeiras do próprio Jorge Paulo Lemann é que “o Brasil precisa ser mais meritocrático”49 e que “O Brasil desperdiça talento”. Há uma busca pelos melhores “talentos” de todas as classes, raças e etnias, e da escola pública, para os quais se “oportuniza” uma formação de “excelência”.

“Sonho Grande” também é um termo chave das instituições em análise. O “Programa de Bolsas Líderes Estudar”, da Fundação Estudar, é destinado a “jovens que acreditam que podem transformar o Brasil, que têm postura de execução, sonham grande, querem deixar legados e estão buscando conhecimento de ponta”50. A FE afirma “Criar oportunidades para gente boa agir grande e transformar o Brasil”51. Sonho Grande é ainda o nome do instituto fundado por Marcel Telles em 2017. Sonho grande: Como Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Beto Sicupira revolucionaram o capitalismo brasileiro e conquistaram o mundo é inclusive o título de um livro assinado por Cristiane Correa e lançado em 2013, que pretende trazer “um relato detalhado dos bastidores da trajetória desses empresários”. Sonhar grande é pressuposto para “agir grande”. Essa ideia baseia-se em um voluntarismo idealista que não considera que a relação com o que é possível [e sonhável] é uma relação de poder (Bourdieu, 1980, p. 108). Vista como sem condicionantes sociais, a envergadura do sonho aparece também como equalizador no universo pesquisado (Michetti, 2019).

O agente da mudança é a pessoa que sonha grande, que tem “compromisso com o Brasil”. O país também é central ao léxico de financiadores e financiados52. Sua circulação é transnacional, mas o objetivo declarado é “mudar o Brasil para melhor”. Alinhada com a transformação da diversidade em valor simbólico e sua mobilização como gestão da diferença e mesmo da desigualdade (Ortiz, 2015; Michetti, 2015; Nicolau Netto, 2017), a gramática da diversidade e da pluralidade também é recorrente. Percebidos comumente como coletivos, tais valores são, contudo, compostos com a concepção individual de fundo. O que une o grupo de pessoas é o fato de serem líderes e quererem a mudança. Tanto melhor se isso for encontrado em diferentes orientações políticas, posições de classe e marcadores sociais.

“Pessoa”, “gente”, “talento” e “líder” são entidades individuais e neutras, sem marcadores nem condicionantes sociais. Essa gramática tem por fundamento a crença de que o peso da origem pode ser superado por indivíduos excepcionais, desde que haja oportunidades - donde a recorrência do termo equidade -, ao mesmo tempo que alivia o peso da origem na história de sucesso dos que estavam socialmente fadados a ele, aumentando seu mérito. Ela equipara indivíduos, explica os sucessos, abole o passado, abre o destino, desde que se sonhe grande.

Logo, esse conjunto valorativo implica uma denegação do social. Tal denegação social faz parte da illusio (Bourdieu, 2016) do campo do “investimento social privado” e integra a sociodiceia do privilégio da fração de elite analisada neste artigo, isto é, compõe os discursos destinados a justificar a existência de um grupo dominante como dominante (Bourdieu, 2016, p. 1056). Trata-se de uma operação simbólica algo complexa, que parte do reconhecimento e mesmo de uma crítica das injustiças e inequidades do social - de outro modo não haveria a pulsão reformadora -, mas os pressupostos das iniciativas para fazer frente às injustiças ignoram o social. Com o mundo social denegado, é possível conceber outro mundo, com oportunidades para talentos independentemente de sua origem, no qual pontes conectem um arquipélago de líderes obstinados e responsáveis pela mudança social, em que o mérito se coadune com a diversidade via abertura social. Um mundo de justiça social criado a partir da responsabilidade social de quem concentra capital econômico.

Conclusão: denegação social e convicção de elite

As posições de elite gozam de uma relação privilegiada com a ação, possibilitada pelo montante e multiplicidade de capitais que concentram e por uma relação flexível com as regras (Boltanski, 2009). Tal possibilidade objetiva inscrita na posição se coaduna com as disposições e as representações que têm de si como sujeitos de ação; são “do-ers”, “makers”, como aparece no léxico das instituições de elite. Lembremos que Boltanski (2009) indica que uma das características das classes dominantes atuais é que elas se enxergam como responsáveis pela mudança. Também no Brasil, pesquisas anteriores apontavam que a elite brasileira se percebe como um polo ativo, por oposição ao “povo” ou aos pobres, aos quais atribui a passividade (Reis, 2005; Silva e Lopez, 2015).

Contudo, nossa pesquisa avança também em relação a esse ponto. Por um lado, as iniciativas que analisamos se dedicam a reafirmar a prerrogativa de que a ação social é “responsabilidade” de líderes, mantendo, assim, o elitismo como premissa. Por outro, ao invés de simplesmente delinear uma fronteira com relação aos pobres, elas partem da ideia de “talento”, que pode existir também entre pobres e demais perfis considerados “diversos”, e se incumbem da responsabilidade de facilitar o acesso desses talentos à ação, capacitando-os como “lideranças”. Nesse sentido, mérito e abertura social coadunam-se. As crenças no individualismo e no voluntarismo que marcam tais posições podem ser conciliadas com a ideia de responsabilidade coletiva. A aposta no indivíduo desemboca no universal. O senso de lugar da elite, ao menos desta que analisamos aqui, pode, assim, se combinar com o que Allouch (2022) chama de “economia moral da diversidade” e com a gramática da abertura social, um fenômeno global.

Ainda que, possivelmente por uma questão de geração - Lemann e sócios são “homens do século XX” -, da estrutura dos capitais - marcada pela centralidade do capital econômico - e do tipo de capital cultural - centrado na Economia -, nas iniciativas de Lemann o mérito apareça com mais centralidade do que nos estudos sobre elites mais jovens, tal negociação entre privilégio e responsabilidade social se alinha com o ethos de frações de elite que circulam globalmente querendo mudar o mundo.

Os trabalhos sobre elites costumam destacar como elas buscam consagrar-se entre os pares e também se legitimar entre aqueles que ela pretende dominar (Gerard e Wagner, 2015). Acrescentamos a isso que parte da tarefa das posições de elite é (re)produzir a crença na própria legitimidade também para si. Daí a importância, para os financiadores, das iniciativas de “abertura social” e do engajamento em resolver, como uma espécie de metaliderança, os problemas do país; e, para os financiados - não necessariamente oriundos de posições dominantes - do acúmulo de legitimidade acadêmica, do “trabalho das instituições” ou “redes” de elite. Afinal, a sinceridade ou ao menos a “ficção sincera” é “uma das condições da eficácia simbólica” e do “poder da convicção” (Bourdieu, 2004, p. 56). E ela só é possível mediante a construção ou o reforço da crença no direito, e mesmo no dever, à posição.

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Jan 2024
  • Data do Fascículo
    Sep-Dec 2023

Histórico

  • Recebido
    13 Set 2023
  • Aceito
    26 Out 2023
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