Resumo:
O filósofo Ernst Bloch desenvolveu uma postura investigativa que pode ser chamada de hermenêutica da esperança. Consiste em uma hermenêutica que, no entanto, não se restringe a buscar significados ocultos por detrás de algum texto, mas que interpreta e analisa as tendências-latências contidas na própria realidade, tornando-se, assim, real-objetiva. Através dela é possível identificar, prospectar e estimular conteúdos utópicos subversivos contidos nos chamados excedentes culturais do presente os quais podem estar nas mais diversas manifestações culturais, sociais e técnicas da humanidade. Além disso, ela nos habilita a identificar conteúdos de esperança naqueles aspectos não contemporâneos da realidade, os quais também podem ser apropriados e herdados, de modo a subsidiarem a práxis. Bloch sugere, ainda, uma referência avaliativa para tais interpretações: “derrubar todas as condições em que o homem surge como um ser humilhado, escravizado, abandonado e desprezível”. A hermenêutica da esperança, portanto, é uma espécie de garantia para a vitalidade dialética na teoria de Ernst Bloch e, simultaneamente, um legado filosófico e crítico para a atualidade.
Palavras-chave:
Hermenêutica subversiva; Conteúdos de esperança; Práxis
Abstract:
The philosopher Ernst Bloch developed an investigative stance that can be called the hermeneutics of hope. A hermeneutics that, however, is not restricted to seeking hidden meanings behind some text, but that interprets and analyzes the tendencies-latencies contained in reality itself, thus becoming real-objective. Through it, it becomes possible to identify, prospect and stimulate subversive utopian content contained in the so-called cultural surpluses of the present and that can be in the most diverse cultural, social and technical manifestations of humanity. Moreover, it enables us to identify content of hope in those non-contemporary aspects of reality, which can also be appropriated and inherited in order to support praxis. Bloch also suggests an evaluative reference for such interpretations: ‘to overthrow all the conditions in which man appears as a being humiliated, enslaved, abandoned, and despicable.’ The hermeneutics of hope, therefore, is a kind of guarantee for dialectical vitality in Ernst Bloch’s theory and, simultaneously, a philosophical and critical legacy for today.
Keywords:
Subversive hermeneutics; Contents of hope; Praxis
INTRODUÇÃO
Um dos primeiros escritos do pensador que, mais tarde, viria a ser chamado de filósofo da esperança já sinaliza para uma postura teórica bastante peculiar: com o título Vestígios (Spuren), publicado em 1930, Ernst Bloch (1969) sugere que se trata de investigações, pistas, indícios e rastros a serem elucidados, questões não evidentes que precisam ser interpretadas e cujos significados muitas vezes ultrapassam nossa capacidade expositiva puramente racional. Conforme indicou Vedda (2021), nessa obra, Bloch exercita uma espécie de arte narrativa, na qual, por meio de contos literários que têm por base questões cotidianas, naturais e culturais, e, na forma como são narrados, se evidencia algo além do seu significado corriqueiro. São vestígios que, adequadamente interpretados, se tornam sinais de que algo poderia ser diferente, de que nem tudo é apenas aquilo que parece ser, de que nos é permitido esperançar por um mundo melhor. E esses vestígios estariam tanto nos elementos humanos quanto na natureza e nas coisas e fatos do nosso cotidiano. De certa maneira, aí se anuncia um dos elementos mais marcantes da filosofia de Bloch: seu esforço de investigar, interpretar e potencializar elementos e conteúdos utópicos emergentes e latentes, na realidade, a fim de que possam subsidiar a práxis humana.
Parece claro que, desde essa primeira obra, Bloch pressupõe o ser humano inserido produtiva e ativamente numa processualidade dinâmica tanto natural quanto histórica na qual o “esforço do conceito” implica sempre uma certa hermenêutica coprodutiva com o mundo, uma hermenêutica capaz de fazer uma “leitura do mundo”2, de modo a identificar nele elementos que possam contribuir para “transcender”, transpor e transgredir (überscheiten) o existente. Aquilo que ainda não é, mas que pode ser, nem sempre está evidente, necessita de um olhar aguçado de modo “[...] consciente-ciente pela função utópica” (Bloch, 2005, p. 144). Ou seja, um olhar que não se deixa paralisar nem por uma visão de mundo fatalista e resignada nem por uma fantasia abstrata, sem vínculos com a realidade: “Grudar nas coisas, sobrevoá-las: as duas atitudes são erradas” (Bloch, 2005, p. 2019). A interpretação do mundo possível desde essa “[...] esperança compreendida em termos dialético-materialistas” (Bloch, 2005, p. 20) pode ser denominada, como sugere Gerard Raulet (2017, p. 338), “hermenêutica subversiva”, ou seja, uma hermenêutica que, enquanto um modo de proceder (Verfahrensweise) busca, de forma imanente à realidade, conteúdos de esperança objetivamente capazes de transcender, no sentido de transgredir essa realidade. De certo modo, a hermenêutica da esperança é constitutiva do método investigativo de Bloch, assim como de sua concepção de utopia concreta, pois é através dela que se mantém um vínculo ativo da teoria com a dialeticidade viva do processo-mundo.
Neste artigo, pretendemos tematizar essa conceção de hermenêutica, a qual, embora não tenha sido exposta de maneira direta ou sistematizada em nenhuma de suas obras, é referida de diversas formas e em diversos momentos de sua teoria. Acreditamos que sua compreensão, apresentação e, de certa forma, formulação, pode, além de evidenciar alguns pressupostos e consequências da filosofia de Bloch, sinalizar para a produtividade teórica e crítica de sua filosofia na atualidade.
Curiosamente, há poucas produções teóricas que façam menção direta a essa atitude teórica de Bloch. No entanto, ele próprio nos fornece pistas que podem facilitar a tarefa investigativa proposta, como, por exemplo, quando afirma, no Prefácio de seu Princípio Esperança: “Anseio, expectativa e esperança necessitam, portanto, de sua hermenêutica, a aurora do que está diante de nós exige seu conceito específico, o novum requer o seu conceito avançado” (Bloch, 2005, p. 17). Em outras palavras, é sugerido que se faz necessário um esforço conceitual interpretativo da realidade, a fim de que “o melhor” do que está emergindo possa “ser parido”. Com um olhar atento, na medida em que avançamos na leitura de suas obras prestando atenção especial ao tema, nossa intuição inicial quanto ao caráter constitutivo da hermenêutica da esperança na filosofia de Ernst Bloch foi se fortalecendo.
E mais: encontrou eco, transformando-se em uma hipótese explícita de pesquisa, na leitura de um texto de Gérard Raulet (2024), escrito em 1978 e cuja tradução para o português foi publicada no Brasil com o título “O terceiro Jó. Sobre a hermenêutica dialético-materialista de Ernst Bloch”. Nesse texto, Raulet aborda explicitamente o tema e sugere que a filosofia de Bloch é perpassada de uma postura teórica fundamental, a qual poderia ser chamada de “hermenêutica da esperança” ou mesmo “hermenêutica subversiva” (2024, p. 146). Defende que a hermenêutica da esperança, enquanto conceito abrangente, poderia ser usada para nominar de modo adequado o conjunto da filosofia de Bloch, estando intimamente interligada com sua concepção de materialismo, uma vez que seria “[...] um princípio ativador no interior da dialética” (2024, p.143) e, consequentemente, vital para a práxis social situada em um horizonte teórico aberto para o devir histórico e material.
Segundo o comentador, tal hermenêutica não se deixa reduzir a uma utopia abstrata, pois a investigação e a interpretação de possibilidades reais lhes é constitutiva. Mas ela também não pode ser equiparada a um simples reflexo de automatismos econômicos ou determinismos sociais, uma vez que se trata de processos em devir, nos quais a capacidade de análise e intepretação humana [ou seja, a subjetividade humana] se torna decisiva para o desenvolvimento do “novo possível” (Bloch, 2005, p. 17), de sorte que ela própria pode ser considerada um momento ativo no interior da processualidade mais ampla da coprodutividade entre seres humanos e natureza.
Assim, ao que parece, para Bloch, a hermenêutica da esperança é necessária enquanto postura detetivesca (cf. Vidal, 2013), pois constitui um elemento fundamental através do qual o autor articula de modo produtivo e processual “[...] aquilo que verdadeiramente tem esperança e reside no sujeito e aquilo que verdadeiramente pode ser esperado e reside no objeto” (Bloch, 2005, p. 18). Ou seja, o desafio da filosofia seria, de acordo com Bloch, identificar e valorizar isso que está emergindo desde seu caráter subversivo, numa perspectiva emancipatória, tanto nos seres humanos quanto no mundo: hermenêutica da esperança.
1 DA LEITURA DA PALAVRA À LEITURA DO MUNDO: O USO SUBVERSIVO DA HERMENÊUTICA
Mesmo sendo a hermenêutica uma área do conhecimento que se originou especialmente no campo da interpretação mitológica e de textos teológicos, Bloch lhe atribui um significado próprio, muito mais próximo do materialismo do que da simples interpretação de textos ou da leitura e interpretação de signos divinos. Nesse sentido, Gerard Raulet sugere que ele realiza uma espécie de secularização do conceito. A hermenêutica, originalmente centrada na interpretação de textos religiosos e mitológicos, passa, em Bloch, a significar interpretação subversiva e crítica de textos e culmina numa hermenêutica objetivo-real da própria realidade.
Nessa apropriação produtiva da hermenêutica, Bloch, no entanto, não deixa de fazer uso também da hermenêutica tradicional, a qual se caracteriza, fundamentalmente, pela “[...] procura de um sentido espiritual para além do literal” na interpretação de textos, acrescentando-lhes, no entanto, um olhar prospectivo. E isso se daria de modo especial, por exemplo, na forma como Bloch interpretaria o texto bíblico, conduzindo “[...] o texto de volta para a comunidade histórica e real dos oprimidos” e “[...] transformando a bíblia no grande livro da revolta” (Raulet, 2024, p. 145). Donde se poderia afirmar, portanto, que “Bloch recorre à hermenêutica subversiva a fim de descobrir na Escritura sentidos rebeldes para a comunidade dos oprimidos” (Raulet, 2024, p. 146).
Ou, dito de outra maneira: “A passagem do uso tradicional para o objetivo-real da hermenêutica inicia já com a sua utilização subversiva na esfera tradicionalmente atribuída à religião. [...] Ela conduz o texto de volta para a comunidade histórica e real dos oprimidos” (Raulet, 2024, p. 145). Assim, vai constituindo um processo de secularização que vai situando, “traduzindo” e atualizando conteúdos de origem religiosa para contextos históricos e concretos, a fim de identificar conteúdos de esperança que possam ser herdados.
Como pesquisas recentes têm demonstrado (Schütz; Dietschy, 2024), essa leitura, a qual recupera o caráter subterrâneo, crítico e subversivo das religiões e, de modo especial, da Bíblia, realizado por Bloch, continua sendo uma referência fundamental para elaborações tanto filosóficas e teológicas quanto para práticas religiosas, numa perspectiva libertária. E isso se dá já pelo modo peculiar como a concepção hermenêutica de Bloch se diferencia da hermenêutica tradicional, no que diz respeito à interpretação do texto bíblico: enquanto, na hermenêutica tradicional, “[...] a verdade mediada “[...] é simultaneamente de origem humana e divina” (Raulet, 2024, p. 146), para Bloch, para quem Deus não é mais reconhecido enquanto produtor de signos a serem interpretados, “[...] a hermenêutica não revela mais um sentido divino que esteja para além do sentido literal, mas um sentido totalmente secular, embora, como sempre, para além do sentido imediatamente localizado” (Raulet, 2024, p. 147).
Por isso, por exemplo, Bloch defende, em seu livro Ateísmo no Cristianismo, que na Bíblia está contida uma “[...] contraparte subversiva e antiestática” (Bloch, 1977a, p. 24) do existente; sua identificação, no entanto, exigiria que atentemos para esses aspectos e os interpretemos enquanto tais. Ou, como sugere Haug (2024, p. 281), “Bloch traz à luz a heresia da teologia cristã contra si mesma, ou seja, que o ‘próprio filho do homem põe a si mesmo como messias no lugar do que até agora se chamava Deus’ e, desse modo, ‘o Novo prova ser a mais forte heresia na Bíblia’”. Para Bloch, só uma crítica interpretativa adequada seria capaz de identificar as “caixas de tesouros” (Bloch, 1977b, p. 121); ou, em outros termos, os conteúdos autênticos de esperança contidos nas religiões, conseguindo, assim, evitar uma “[...] secularização rasa da religião” (Bloch, 2006, p. 372).
Esse processo de secularização da hermenêutica - empreendido por Bloch - vai, progressivamente, identificando, nos seres humanos históricos e na natureza produtiva, a origem dos signos a serem interpretados. Desse modo, aos poucos, a própria realidade passa a ser o objeto da interpretação. A passagem da hermenêutica subversiva de textos para a hermenêutica objetivo-real parece se dar especialmente na medida em que Bloch amplia essa sua atitude hermenêutica para o mundo histórico e objetivo ou, como formula Raulet (2024, p. 149), “[...] a hermenêutica objetivo-real não tem seu objeto no horizonte de sentido de um texto, mas no horizonte de possibilidades da matéria processual”.
Isto é: também a natureza e o mundo histórico passam a ser encarados como se fossem livros que precisam ser lidos e interpretados, a fim de que possam ser identificados os possíveis futuros aí imanentes e latentes. De acordo com Raulet (2017, p. 338), embora essa hermenêutica se inscreva na tradição iniciada pela exegese bíblica, “Bloch a coloca a serviço de uma filosofia secular da emancipação” e, na medida em que se apropria dela, de modo secularizado, a transforma em um “[...] ativador no interior da dialética” (Raulet, 2024, p. 143). Seria uma espécie de herança metodológica da hermenêutica, por meio da qual Bloch, inclusive, superaria a aporia entre natureza e história, presente, principalmente, no marxismo ortodoxo. Explicitamente, Raulet sugere duas diferenciações que estariam pressupostas na maneira como Bloch empreenderia sua hermenêutica, quando comparada com a hermenêutica tradicional.
Em primeiro lugar, conforme Bloch, seria preciso superar uma postura que não tem sensibilidade diante do “[...] subversivo nem do transcender” (Bloch, 1977a, p. 22) e, para tanto, não se trataria de, apenas, interpretar um significado qualquer oculto por detrás de algum texto, por mais que essa tarefa tenha sua importância. A Bloch interessaria, sobretudo, trazer à tona, tornar herdáveis, aqueles conteúdos utópicos contidos na realidade e que indicariam para possíveis potenciais subversivos. Além disso, para Bloch, seria o caso de visualizar aportes para a práxis no horizonte aberto da realidade processual. Ou seja, o papel da hermenêutica seria o de indicar o “[...] possível objetivo-real” (Bloch, 2005, p. 232ss) latente tanto na história quanto na natureza, de sorte a subsidiar a práxis emancipatória. Raulet (2021, p. 149) exemplifica:
Enquanto Bloch, em sua obra O problema materialismo (Das Materialismusproblem), aborda a concepção de natureza de herança marxista-ortodoxa, sua hermenêutica permanece - ainda que rebelde - uma utilização da hermenêutica tradicional, assim como foi o caso na crítica rebelde e detetivesca da Bíblia. Quando, no entanto, nas duas obras, se trata de herdar algo efetivo, então ela se torna hermenêutica objetivo-real.
Assim, a hermenêutica passa a poder ser considerada um momento constitutivo da noção de utopia concreta, defendida por Bloch, em contraposição à utopia abstrata, uma vez que ela se insere no “[...] horizonte das possibilidades da matéria processual” (Bloch, 1975, p. 68). Ou seja, como referência mais ampla de sua teoria, Bloch pressupõe o devir processual em seu conjunto. A hermenêutica blochiana, portanto, intenta, sobretudo, o descortinar de potenciais humanos e naturais subversivos, emergentes e latentes na própria realidade, de sorte que possam constituir legados herdáveis para as lutas emancipatórias. Com isso, consequentemente, Bloch insere produtivamente o ser humano com sua história no próprio devir do mundo, por conseguinte, da natureza, o que leva, conforme Raulet (2024, p. 152), à formulação de uma noção de dialética materialista na qual a natureza não é considerada um simples palco da história humana, todavia, uma unidade processual viva, onde a coprodutividade entre seres humanos e natureza é levada a sério.
O comentador parece estar correto, ao afirmar que por “[...] hermenêutica não se compreende mais somente o lado humano do processo, mas, igualmente, a relação dialética desse lado humano com o processo objetivo” (Raulet, 2024, p. 152). Dessa convicção de Bloch, segundo a qual a “[...] utopia avança, tanto na vontade do sujeito quanto na tendência-latência do mundo em processo” (Bloch, 2005, p. 306), decorre o seu posicionamento teórico-metodológico diante do mundo, no qual a hermenêutica da esperança encontra sua fundamentação enquanto momento coprodutivo inserido na própria realidade em devir. Logo, a hermenêutica da esperança, enquanto uma hermenêutica objetivo-real, se torna uma espécie de garantia para que a dialética não se atrofie em algum automatismo ou determinismo, uma vez que é constantemente dinamizada a partir dos elementos utópicos do mundo em devir. É assim, pois, que “[...] se realiza a passagem da hermenêutica tradicional para a hermenêutica objetivo-real” (Raulet, 2024, p. 149).
Depois desse processo de secularização hermenêutica, empreendida por Bloch, em vez de “organon da interpretação”, agora se pode falar de “organon do devir” (Raulet 2024, p. 149; Bloch, 1977c, p. 212ss). Temos, portanto, um posicionamento filosófico com um olhar aguçado para os conteúdos de esperança que estejam emergindo ou latentes, na realidade, um olhar investigativo e interpretativo interessado em garimpar os tesouros utópicos onde quer que eles possam ser encontrados, já que “[...] a realidade não é completa sem a possibilidade real” (Bloch, 2005, p. 221).
2 EM BUSCA DOS TESOUROS PERDIDOS DA HUMANIDADE
A postura investigativa e filosófica de Bloch, explícita na noção de hermenêutica da esperança, nos desafia a desenvolvermos uma atitude filosófica coprodutiva no mundo, enquanto sujeitos humanos. Seria preciso qualificar esse olhar teórico aguçado, capaz de ver aquilo que ainda não está pronto, por ainda estar emergindo, ou que ainda tem validade utópica, por ser algo não liquidado (das Unabgegoldene) pela ideologia dominante. Segundo Bloch, até mesmo nos produtos culturais ideologicamente instrumentalizados pode ser encontrado um “[...] substrato de herança cultural passível de ser assimilada” (Bloch, 2005, p. 151).
Para tanto, porém, não basta descrever o já existente ou o que supostamente é. É preciso estar atento também ao que pode ser: “E daí é que vem a urgência de prestar atenção às imagens que permeiam a enciclopédia das esperanças no mundo. De realizar uma hermenêutica que encontre seus conceitos mais avançados” (Lorenzoni, 2019, p. 185). De fato, conforme diversas pesquisas e publicações têm indicado, recentemente, há conteúdos de esperança que podem ser extraídos, por exemplo, não só das religiões (Dietschy; Schütz, 2024), mas também do direito (Hahn, 2021), da arquitetura (Rodrigues, 2021), da técnica (Lorenzoni, 2016;Schütz, 2023), dentre outros produtos da cultura. Esses conteúdos humanos, enquanto tesouros humanos a serem descobertos e herdados, Bloch denomina excedentes culturais. Como Rodrigues e Schütz (2024) têm indicado, em artigo recente, a função utópica dos excedentes culturais é um fator decisivo da concepção filosófica de Ernst Bloch, pois sugere que podem ser extraídos conteúdos de esperança herdáveis em todas as manifestações culturais de humanidade, desde que submetidos a uma hermenêutica adequada. Aquilo que, por exemplo, Haug atribui à leitura que Bloch faz da religião, pode, no nosso modo de ver, ser dito de todas as manifestações culturais da humanidade: “Bloch está preocupado em trazer de volta ao mundo, ao aquém, os tesouros desperdiçados no além” (2024, p. 286).
Conforme demonstrou Hudson M. de Oliveira (2024), Bloch mantém sempre uma porta entreaberta para essa possibilidade, pois “[...] todas as obras de cultura têm, portanto, implícito, ainda que nem sempre explícito (como no Fausto de Goethe), um fundo utópico” (Bloch, 2005, p. 157), enquanto excedente cultural que pode ser herdado. Ou seja, trata-se da capacidade de fazer uso adequado da hermenêutica da esperança, a fim de encontrar os tesouros humanos já existentes, embora ainda não adequadamente manifestos, interpretados e valorizados. Para Bloch, na medida em que se percebem tais excedentes culturais enquanto subsídios da utopia concreta, “[...] se acende a luz [que leva à] salvação de todo aquele excedente cultural que constantemente nos afeta, especialmente em suas alegorias artísticas, símbolos religiosos, e que não está esgotado com a ideologia expirada” (Bloch, 1977a, p. 350).
Ao encontrar, identificar e valorizar os conteúdos utópicos nos excedentes culturais, na forma como eles nos aparecem, no presente, a hermenêutica da esperança certamente já está diante de infinitas oportunidades e possibilidades subversivas, uma vez que os excedentes culturais podem ser encontrados em praticamente todas as manifestações culturais da humanidade. De acordo com Bloch, entretanto, não se trata de abordar apenas as manifestações do presente simultâneo, aparentemente mais avançadas historicamente.3 Para o autor, também no passado há futuro, pois “[...] o futuro que ainda não veio a ser torna-se visível no passado; o passado vingado, herdado, mediado e plenificado, torna-se visível no futuro”; ora, trata-se de dimensões de um passado “[...] ainda vivo, o ainda não liquidado [...], do futuro no passado” (Bloch, 2005, p. 19-20).
Por conseguinte, também os “[...] elementos antecipatórios são um componente da própria realidade” (2005, p. 196). Daí sua concepção processual de mundo e história não se limitar ao presente: “O real é o processo e processo é a mediação vastamente ramificada entre o presente, o passado pendente e sobretudo o futuro possível” (Bloch, 2005, p. 194). Há, pois, um condicionamento mútuo, uma espécie de círculo hermenêutico4 concreto, no qual passado, presente e futuro se condicionam mutuamente. Para reforçar seu posicionamento, Bloch cita Hamann, quando este questiona: “Quem quer compreender corretamente o presente sem conhecer o futuro? O futuro condiciona o presente e este condiciona o passado” (Hamann, apudBloch, 1977b, p. 350).
Nesse sentido, a hermenêutica da esperança pode encontrar excedentes culturais subversivos até mesmo em elementos e dimensões reacionários do passado. Representam tesouros esquecidos nas profundezas obscuras da história, cujo valor e preciosidades ainda se mantêm válidos, como diria seu amigo Walter Benjamin5. E, de fato, já em sua obra chamada Herança dessa época (Erbschaft dieser Zeit), de 1935, portanto, no início do período de ascensão nazista, na Alemanha, Bloch (1977b) defende o diálogo com setores e dimensões da realidade numa perspectiva não ortodoxa, ou seja, com uma visão não linear do desenvolvimento histórico. Para tanto, defende, por exemplo, que “[...] há um impulso ‘anticapitalista’ também para além da camada proletária” e lança a pergunta se “[...] na burguesia decadente [...] não há elementos que podem contribuir para a construção de um novo mundo, e quais eventualmente seriam esses elementos?” (1963, p. 15)6.
Como acertadamente explicita Mascaro (2021, p. 16), Erbschaft dieser Zeit busca, além de “[...] compreender as conexões culturais, religiosas, espirituais, entre os nazistas e as classes pobres”, indicar que “[...] às lutas socialistas não bastava ser portadoras da verdade e da ciência: era preciso falar a linguagem do povo, tocar sentimentos, alcançar as múltiplas temporalidades que se sobrepunham em cada tempo histórico”. Com a finalidade de corroborar tal entendimento, acrescentamos que Bloch, além disso, reconhece muitas bandeiras dessas “múltiplas temporalidades” como legítimos “impulsos anticapitalistas”, cujos conteúdos subversivos poderiam ser libertados, por uma hermenêutica adequada, da sua instrumentalização fascista e colocados a serviço da práxis emancipatória.
Bloch parte do pressuposto de que “[...] nem todos estão no mesmo agora” (Bloch, 1977b , p. 104) e de que aqueles elementos que expressam descontentamentos, seja na juventude, seja na classe média ou nos camponeses ou mesmo nas manifestações religiosas, deveriam ser ressignificados, de modo a serem habilitados e “[...] implementados em um amanhã ampliado” (Bloch, 1977b , p. 106), evitando, assim, que sejam instrumentalizados pela regressão, pela qual geralmente são direcionados “[...] contra a realidade proletária” (Bloch, 1977b, p. 111). Esse passado vivo, com seus autênticos conteúdos de esperança, que, na época, estavam sendo mobilizados apenas pelo movimento nazista, nas palavras de Bloch, deveria ser interpretado de tal forma que seu caráter crítico e subversivo, contraposto à lógica da sociedade capitalista, pudesse ser mobilizado “[...] nos campos de batalha do hoje”, rumo a um “[...] amanhã autêntico”. Portanto, a
[...] tarefa consiste em interpretar/extrair (herauszulesen) os elementos passíveis de aversão e transformação também da contradição não simultânea, ou seja, os que são hostis ao capitalismo, que não estão em casa nele, e remontá-los de tal forma que adquiram uma nova função em outro contexto. (Bloch, 1977b, p. 123).
Isso serviria para que “[...] lutar pelo futuro” implique, também, “[...] alcançar os passados que ainda reinam e dão sentido às subjetividades” (Bloch, 1963, p. 15) no agora. Bloch (1977b, p. 123) defende que até mesmo na decadência de uma classe pode “[...] haver uma ‘herança’ dialeticamente útil” e, mesmo na realidade adversa de ascensão do nazismo de então, podem estar contidos “[...] conteúdos autênticos” (Bloch, 1977b, p. 111) comparáveis a um “[...] material revolucionário” (Bloch, 1977b, p. 19), capazes de ativar uma “[...] sociedade do futuro, com a qual a presente está grávida” (Bloch, 1977b, p. 120). Seria aconselhável “[...] retirar essas armas poderosas das mãos da reação”, a fim de reconhecê-las enquanto “[...] material revolucionário” (Bloch, 1977b, p. 19) capaz de subsidiar uma práxis emancipatória.
Ao identificar esses conteúdos não simultâneos (Ungleichzeitige), de modo a destacar seus “[...] elementos subversivos e utópicos” reprimidos e desencaminhados por uma falsa consciência, seria possível realizar uma “[...] dialetização (Dialektisierung) desses conteúdos ainda ‘irracionais’” (Bloch, 1977b, p. 127), com o fim de torná-los a base de uma “[...] dialética revolucionária multifacetada” (Bloch, 1977b, p. 124). Ou, como resume Hahn (2021, p. 184), para Bloch, “[...] uma consciência não simultânea também pode tomar uma posição crítica e romper com o simultâneo, antecipando novas perspectivas”.
Nesse sentido, Bloch (1977b, p. 157) sugere que o “[...] resto não liquidado e ‘cultural’ pode ser herdado enquanto substância” utópica. Em outros termos, Bloch “[...] postula o resgate e a transformação dialética do que merece ser herdado do passado, da não simultaneidade” (Hahn, 2021, p. 185), como autênticos impulsos para a práxis. Essa postura teórica de Bloch indica para uma leitura não linear da história, de modo a ampliar as possibilidades de hermenêutica subversiva inclusive no passado, naquelas manifestações e organizações humanas consideradas supostamente “atrasadas”, como era o caso dos camponeses, das juventudes insatisfeitas, da classe média e de muitas práticas religiosas da época.
Essa preocupação com uma postura hermenêutica adequada frente ao mundo, numa perspectiva crítico-dialética, é retomada, por exemplo, de modo explícito, na obra intitulada Tübinger Einleitung in die Philosophie (Introdução tübingueana à filosofia), de 1963, evidenciando tratar-se de uma questão que continuou presente nas preocupações teóricas de Bloch. Nela, afirma que, apesar de “[...] a vida toda estar contornada de exibições utópicas” (1970b, p. 94), é preciso desenvolver uma teoria adequada para a investigação dessas dimensões da realidade, pois, “[...] sem a dimensão do futuro, adequadamente pensável, que permaneça ativável, nenhuma existência suporta por muito tempo” (1970b, p. 97).
Só assim seria possível se “[...] apropriar do ‘excedente cultural’ da ideologia do presente” (1970b, p. 101), de maneira que a realidade possa ser vista desde uma “[...] possibilidade-objetivo-real” (objektiv-real-Möglichem) (Bloch, 1970b, p. 104), ainda que esta tenha de ser prospectada em construções da ideologia dominante. A possibilidade de interpretar aspectos da realidade, como, por exemplo, os arquétipos e as obras de arte, “[...] a partir de sua hermenêutica” (Bloch, 1970b, p. 103), poderia fazer toda a diferença no horizonte da práxis emancipatória. Esse “excedente utópico” poderia nos levar “[...] às pistas do que ainda não está disponível, de modo que possamos estimulá-lo” (Bloch, 1970b, p. 104), porque, para Bloch, a “[...] essência é aquilo que ainda não existe, que anda em busca de si mesmo no cerne das coisas, que espera sua gênese na tendência-latência do processo; ele próprio nada mais é que... esperança fundada, real-objetiva” (Bloch, 2006, p. 460), na qual estamos ativamente inseridos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: ‘NÃO ESQUECER O MELHOR’!
No que diz respeito a “[...] investigar de forma detetivesca a história até aqui e suas ideologias” (Bloch, 1977a, p. 349), é imprescindível, portanto, o engajamento ativo da subjetividade, o esforço do conceito instruído pela esperança consciente. Evidentemente, essa não consiste em uma interpretação qualquer, mas naquela que contribua, ou mesmo, que seja guiada pelo horizonte último, o qual, segundo Bloch, fora indicado por Marx: o “[...] imperativo categórico de derrubar todas as condições em que o homem surge como um ser humilhado, escravizado, abandonado, desprezível” (Marx, 2005, p. 151). Ou seja, uma hermenêutica que coopere para subverter essas situações e que o faça desde as “possibilidades-reais-objetivas” emergentes na própria realidade.
Zimermann (2005, p. 45) sugere que, para Bloch, “[...] fundamentalmente, trata-se de um engajamento genérico da interpretação (onde a lógica torna-se hermenêutica objetiva e real)” e que está, conforme indicação do próprio Bloch, “[...] desde o início até o fim, totalmente comprometida com a experiência a ser formada da história rumo ao para onde e para quê” (1977d, p. 52). É uma espécie de “[...] medida padrão, o critério de julgamento” (Bloch, 2005, p. 445), porque “[...] nenhuma meta a curto prazo [é] uma meta, se a sua meta a longo prazo, o onde e o porquê do que se busca almejar algo, do que ainda está em gestação, não estiver junto no experimento” (Bloch, 1977a, p. 22). Por consequência, aquilo que é almejado, embora em um horizonte aberto e dinâmico, já milita na própria dimensão utópica de humanidade (cf. Schütz; Rodrigues, 2024) e se torna efetivo, por meio da hermenêutica da esperança.
Daí a importância daquilo que nos move para adiante, o “[...] otimismo militante” (Bloch, 2005, p. 196) que compõe aquilo que o autor denomina “[...] corrente quente do marxismo” (Bloch, 2005, p. 207), a qual deveria ser mantida em constante equilíbrio com a “corrente fria”, a fim de manter ativo o “[...] realismo empolgado pela causa” (Bloch, 2006, p. 455). Melhor dizendo, para o nosso filósofo, “[...] não haveria humanismo suportável se ele não implicasse, além de sua moralidade, essas felicíssimas imagens limítrofes do ‘onde’, ‘para quê’ e ‘sobretudo’ (Überhaupt)” (Bloch, 1977a, p. 352).
Conforme Bloch (2005, p. 243), “[...] o que importa é transformar o mundo corretamente interpretado, o que significa justamente interpretado como estando num processo materialista-dialético, como inconcluso [...], teoria-práxis do possível real realizável na linha de frente do mundo, do processo mundo”. “Não esqueça o melhor” (Bloch, 2006, p. 399), por conseguinte, significa manter presente permanentemente esse horizonte último como critério orientador da práxis. Portanto, a hermenêutica da esperança se reapropria e reabilita também essa dimensão, geralmente capturada e muitas vezes instrumentalizada pelo messianismo religioso, sendo guiada mas também indicando para o front e ultimum do sentido humano e natural do reino da liberdade e da construção do mundo como pátria/lar (Heimat).
Por fim, é preciso ressaltar, como o faz Raulet (2017, p. 356), que “Bloch não imagina o Reino da Liberdade apenas como uma sociedade sem classes, mas [também] enquanto identidade entre ser humano e natureza”. Ou seja, a construção de um mundo que, além de viabilizar “[...] uma sociedade sem senhor nem servo” (Bloch, 2006, p. 448) nele também “[...] possamos sentir-nos acolhidos, como se estivéssemos a viver em paz em nosso lar (Heimat), pois nos sentiríamos verdadeiramente em casa conosco, com nossos semelhantes e com a natureza” (Schütz, 2021, p. 544). E, mesmo que estejamos vivendo em um mundo onde “[...] o melhor ainda permanece fragmento”, é esse “melhor” o farol a não ser esquecido, enquanto “[...] algo que brilha para todos na infância e onde ninguém esteve ainda: a pátria [Heimat]” (Bloch, 2006, p. 462).
REFERÊNCIAS
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2
Aqui estamos parafraseando Paulo Freire: “[...] a leitura do mundo precede a leitura da palavra” (Freire, 1982, p. 09).
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3
Conforme indicado por Zeilinger (2019, p. 55ss), ao conceber o mundo enquanto processo em devir (ontologia do ainda-não), onde o ser humano estaria inserido produtivamente, podendo, inclusive, extrair conteúdos de futuro do passado, Bloch se diferenciaria de Georg Lukács, seu amigo de juventude. Lukács teria partido da “aceitação de uma realidade já pré-existente” restringindo as possibilidades de futuro e práxis apenas aos impulsos advindos da esfera de uma “ontologia do ser social” decorrentes das condições e contradições do presente.
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4
Essa expressão - própria da hermenêutica filosófica de Gadamer (1997, p. 402ss) - encontra aqui uma evidente analogia; porém, não temos como abordar as possíveis afinidades e diferenças, no âmbito deste artigo.
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5
Em suas “Teses sobre o conceito de história”, especialmente na segunda tese, é um dos lugares onde Benjamin (2020, p. 92-93) aborda a questão.
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6
Todas as referências aos textos originais em língua alemã aqui feitas são tradução própria.
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Declaração de disponibilidade de dados:
O conjunto de dados deste artigo está disponível no SciELO Dataverse da Revista Trans/Form/Ação, no link: https://doi.org/10.1590/0101-3173.2026.v49.n1.e026004
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