Open-access Um Modelo Neopragmatista de Alavancagem Gramatical

A Neopragmatist Model of Grammatical Leverage

Resumo:

Apresentamos o conceito de alavancagem gramatical como um modelo neopragmatista e anticolonial de transformação normativa, conceitual e afetiva em formas de vida marcadas por dominação e exploração. A partir de Wittgenstein (1953, 1969) e Brandom (1994, 2000), articulados a perspectivas periféricas e quilombolas (Nascimento 2021), defende-se que reverter jogos de linguagem injustos exige não só reconstrução conceitual, mas também reversão afetiva, como a conversão de vergonha em orgulho coletivo entre grupos oprimidos. Com base na hinge epistemology de Wittgenstein, entende-se a gramática como um sistema de dobradiças normativas, ou seja, fulcros de sentido e valor que sustentam as formas de vida. Alavancar a gramática é reorientar esses fulcros, deslocando certezas tácitas que naturalizam hierarquias raciais, patriarcais e coloniais. Reinterpretam-se criticamente o inferencialismo semântico e o expressivismo lógico de Brandom, para incluir dimensões afetivas e corporais da normatividade, compreendendo o significado como parte de uma paisagem inferencial compartilhada. Propõem-se cinco níveis de resistência normativa, da consciência semântica à soberania gramatical, e três modalidades de alavancagem: interfixa (redefinição conceitual), inter-resistente (criação comunitária) e interpotente (reversão afetiva). Assim, alavancar a gramática é mover o mundo: a linguagem deixa de ser cativeiro e se torna território de resistência, autoria e autodeterminação coletivas.

Palavras-chave:
Neopragmatismo; Wittgenstein; Brandom; Beatriz Nascimento; Hinge epistemology

Abstract:

This article proposes the concept of grammatical leverage as a neopragmatist and anticolonial model of normative, conceptual, and affective transformation within forms of life marked by domination and exploitation. Drawing on Wittgenstein (1953, 1969) and Brandom (1994, 2000), in dialogue with peripheral and quilombola perspectives (Nascimento 2021), we argue that reversing unjust language-games requires not only conceptual reconstruction but also affective reorientation-such as the conversion of shame into collective pride among oppressed groups. Inspired by Wittgenstein’s hinge epistemology, we understand grammar as a system of normative hinges, that is, fulcrums of meaning and value that sustain forms of life. To leverage grammar is to redirect these fulcrums, shifting tacit certainties that naturalize racial, patriarchal, and colonial hierarchies. We critically reinterpret Brandom’s semantic inferentialism and logical expressivism to include the affective and embodied dimensions of normativity, conceiving meaning as part of a shared inferential landscape. We propose five levels of normative resistance-from semantic awareness to grammatical sovereignty-and three modalities of leverage: interfixal (conceptual redefinition), inter-resistant (community creation), and inter-potent (affective reversal). Thus, to leverage grammar is to move the world: language ceases to be a site of captivity and becomes a territory of resistance, authorship, and collective self-determination.

Keywords:
Neopragmatism; Wittgenstein; Brandom; Beatriz Nascimento; Hinge epistemology

“César é o senhor da gramática”

Introdução

Este artigo propõe os conceitos de alavancagem gramatical e de soberania gramatical como fundamentos orientadores de um modelo neopragmatista e anticolonial de transformação normativa, conceitual e afetiva em formas de vida atravessadas por práticas de dominação. A partir de uma leitura crítica de Wittgenstein (1953, 1969) e Brandom (1994, 2000), em diálogo com perspectivas periféricas e quilombolas (Nascimento, 2006, 2021), argumenta-se que reverter jogos de linguagem injustos requer não apenas deslocamentos conceituais, mas também reversões afetivas - a transmutação coletiva de vergonha em orgulho entre grupos oprimidos e de orgulho em vergonha crítica entre grupos dominantes. Os afetos, nesse quadro, não são estados psicológicos individuais, porém, operadores normativos coletivos: forças que estruturam e desestabilizam compromissos inferenciais, critérios de sentido e práticas de reconhecimento. Inspirados na hinge epistemology de Wittgenstein (1969), compreendemos a gramática como um sistema de dobradiças normativas - fulcros tácitos de significado e valor que sustentam as formas de vida (Lebensformen). Tais certezas fulcrais não são crenças explícitas, mas condições implícitas do agir e do julgar. Transformar uma gramática injusta significa, portanto, reorientar seus fulcros normativos, deslocando os pontos de apoio que conservam, por exemplo, hierarquias raciais, patriarcais, coloniais e heteronormativas. Mover o fulcro do sentido é libertar-se das imagens que nos mantêm cativos e reabrir, conceitual, inferencial e afetivamente, as portas de uma forma de vida compartilhada mais justa.

Para tanto, reinterpretamos criticamente o inferencialismo semântico e o expressivismo lógico de Brandom (1994, 2000) como instrumentos de resistência normativa e de emancipação de grupos minorizados. Para Brandom, compreender um conceito é dominar o conjunto de inferências que o tornam inteligível, participando de uma rede pública de compromissos e autorizações - o space of reasons de Sellars (1997). Sugerimos, contudo, uma ampliação anticolonial e afetiva desse modelo: em vez de um espaço de razões homogêneo e neutro em relação a tensões morais e políticas, falamos em uma paisagem inferencial, na qual gestos, emoções e práticas corporais também participam da tecelagem normativa dos vários conceitos implícitos em nossos jogos de linguagem mais básicos. Assim, o significado de nossas práticas não se limita ao domínio proposicional nem à centralidade da asserção, mas se enraíza nos hábitos encarnados e nos ritmos afetivos de nossos jogos de linguagem. Nesse contexto, a alavancagem gramatical designa a técnica de aplicar, por dentro desses jogos, uma força conceitual e afetiva capaz de deslocar os fulcros normativos que nos aprisionam. O que Wittgenstein (1953, §109) chamou de Verhexung, o encantamento gramatical que nos cativa, nos aprisiona, sob certas imagens do mundo, torna-se, aqui, ponto de apoio para a libertação, no qual o cativeiro da linguagem é revertido em um território de resistência, soberania e criação coletiva.

Propomos, pois, um modelo de cinco níveis de resistência normativa que descreve o percurso da normatividade tácita de conceitos em gramáticas injustas à soberania normativa de grupos historicamente oprimidos. O primeiro nível, a consciência semântica, corresponde ao domínio tácito dos usos e hábitos linguísticos que reproduzem formas de vida injustas, mantendo o Verhexung (encantamento) das imagens do senso comum. O segundo, a autoconsciência semântica, envolve a explicitação pública das relações inferenciais e das regras de significado que estruturam hierarquias. Esses dois níveis já estão presentes, contudo, sem o nosso aporte crítico, no inferencialismo de Brandom (1994, 2000). Segundo o autor, compreender um conceito é dominar as inferências materiais que o tornam inteligível, isto é, os quadros de incompatibilidade e do que se segue do uso desse conceito. Ampliamos, assim, esse modelo em uma direção anticolonial, entendendo a resistência normativa de grupos minorizados como a defesa, a reinvenção coletiva e autodeterminação gramatical de sua imagem de mundo: o esforço de proteger, assumir a autoria, e recriar os valores, regras e significados que sustentam os jogos de linguagem de comunidades minorizadas pelas próprias comunidades minorizadas.

A esses dois níveis brandomianos acrescentamos outros três passos neopragmatistas2. A epifania gramatical marca o momento wittgensteiniano do sehen als, no qual se “vê como” algo distinto o que antes parecia natural: o instante em que uma nova trilha conceitual ou afetiva se torna visível em nossos jogos de linguagem cotidianos, transformando, por exemplo, vergonha em orgulho e deficiência em potência. A alavancagem gramatical é a técnica coletiva e periférica de aplicar força conceitual e afetiva ao ponto de apoio certo, o fulcro que sustenta formas de vida injustas, reorientando dobradiças de sentido e desestabilizando gramáticas opressivas. Por fim, a soberania gramatical é o estágio de autodeterminação normativa, de assenhoramento das regras de nossos jogos de linguagem: o momento quando uma comunidade assume o controle das regras de uso e reconhecimento de sua forma de vida, redefinindo, protegendo e orientando seus próprios critérios de legitimidade e valor.

A metáfora da alavanca expressa o funcionamento desse modelo. Na física, para movermos uma estrutura muito maior que nós mesmos, nós podemos implementar uma técnica ou um procedimento a partir da investigação do ponto fulcral e alavanca adequados. Assim como na física, distinguimos três tipos de alavancagem gramatical. A interfixa gramatical, análoga à alavanca de primeira classe da mecânica, desloca o fulcro do sentido sem abandonar o vocabulário ou a malha inferencial do jogo de linguagem de base, como em Black is Beautiful ou nas reapropriações inferenciais e políticas do conceito de “mulher” pelo transfeminismo. A alavancagem gramatical inter-resistente, semelhante à segunda classe da física, mobiliza a força coletiva para mover o peso da exclusão: práticas como o rap, o funk, os terreiros e os quilombos criam espaços de reelaboração normativa e afetiva. A alavancagem gramatical interpotente, por sua vez, corresponde à terceira classe, operando deslocamentos internos e epifanias afetivas precisas em jogos de linguagem injustos: a conversão de vergonha em orgulho, de passividade em criação, de deficiência em potência, por exemplo.

Essas três modalidades se complementam como instrumentos de uma engenharia normativa imanente, permitindo mover estruturas simbólicas e conceituais muito grandes e poderosas, com forças coletivas precisas3. Militâncias e ativistas antirracistas, feministas e anticoloniais mobilizam essas técnicas, em seus contextos de luta, mostrando que resistir ao uso é resistir ao significado também4. Assim, inspirados por Wittgenstein, Brandom e Beatriz Nascimento (2021), propomos uma teoria imanente da soberania gramatical, na qual explicitamos, resistimos, disputamos e transformamos as regras de um jogo de linguagem injusto. Desse modo, reverter o encantamento das gramáticas opressoras significa simultaneamente uma reversão afetiva e um reencantamento normativo e conceitual. Mudar o fulcro do sentido é mudar o mundo - transformar a linguagem, historicamente cativa, em campo de criação e autodeterminação normativa.

O artigo desenvolve, em três frentes complementares, um modelo neopragmatista e anticolonial de transformação normativa. A primeira seção reconstrói a crítica neopragmatista ao cartesianismo, indicando, a partir de Wittgenstein e Brandom, que o significado emerge de práticas públicas e redes de inferência compartilhadas. A segunda seção amplia esse enquadramento para um neopragmatismo periférico e quilombola, incorporando dimensões afetivas, corporais e comunitárias da normatividade e formulando um modelo de cinco níveis de resistência gramatical: da consciência tácita ao assenhoramento coletivo da gramática. A terceira seção examina como três modalidades de alavancagem gramatical, a saber, interfixa, inter-resistente e interpotente, operam em práticas antirracistas, antipatriarcais, anti-LGBTfóbicas e anticoloniais, demonstrando como pequenas reversões conceituais e afetivas podem reconfigurar jogos de linguagem injustos.

1 NEOPRAGMATISMOS CONTRA O CARTESIANISMO

A crítica neopragmatista ao cartesianismo é, antes de tudo, uma crítica à gramática moderna do sujeito. O que aqui chamamos de “cartesianismo” não se limita à filosofia de Descartes, porém, designa uma forma de vida epistêmica e um modelo de racionalidade que instituiu o pensamento como interioridade autossuficiente e a razão como critério universal de legitimidade (Silva, 2017). Essa tradição consolidou uma gramática hierárquica de pares opostos - mente/corpo, razão/natureza, sujeito/objeto, civilizado/selvagem -, cuja assimetria é simultaneamente ontológica e normativa porque, no cartesianismo, essas distinções não são apenas modos de classificar o mundo, mas princípios que definem o que existe e o que vale. Elas são ontológicas porque organizam a própria estrutura do real: atribuem à “mente”, ao “sujeito” e ao “civilizado” um estatuto de substância superior, fonte de verdade e agência, enquanto rebaixam “corpo”, “natureza”, “objeto” e “selvagem” ao domínio da passividade e da mera extensão. E são normativas porque essas categorias funcionam como critérios de legitimidade: dizem quem pode conhecer, comandar, nomear, interpretar e agir racionalmente, e quem, ao contrário, deve obedecer, ser interpretado, ser governado, ser controlado ou permanecer silencioso. Nesse sentido, a assimetria do que chamamos de tradição cartesianista não descreve apenas uma diferença; ela prescreve uma ordem, naturalizando hierarquias de valor que estruturam jogos de linguagem.

Inspirados em Wittgenstein, podemos dizer que cada oposição funciona como uma dobradiça do mundo: um ponto de apoio invisível que orienta o agir, o julgar e o sentir, em muitos jogos de linguagem cotidianos. É o que Wittgenstein, em On Certainty (1969), chama de hinge, ou certeza fulcral, ou seja, uma espécie de pressuposto tácito que estrutura e organiza a inteligibilidade de nossos jogos de linguagem, sem ser objeto de dúvida ou escolha individuais. Essas dobradiças definem o horizonte de evidência, legitimidade, métodos e critérios de determinação de significado de uma comunidade. As certezas fulcrais de nossos jogos de linguagem determinam o que é possível questionar e o que é vivido como autoevidente, como óbvio5.

Além disso, a analogia entre esses fulcros normativos a la Wittgenstein e o conceito de ideologia é aqui decisiva. Assim como as hinges estabilizam o campo do sentido, a ideologia - em Gramsci, por exemplo- estabiliza e naturaliza uma visão de mundo, e o campo da crença e da ação. Ambas produzem imagens de vida: modos de ver e de sentir que tornam certas relações de dominação invisíveis, por parecerem naturais e muito cotidianas. Não é o indivíduo que “possui” uma ideologia ou uma gramática; é a ideologia, a gramática dominante, que possui o indivíduo, estruturando a paisagem conceitual, isto é, a rede inferencial de seus jogos de linguagem, sua percepção de mundo, o que toma como legítimo ou não, e a sua autocompreensão. A ideologia, na tradição marxista, assim como a gramática, na tradição filosófica inspirada em Wittgenstein, determinam os eixos invisíveis em torno dos quais o sujeito gira, e que delimitam o campo de sua própria liberdade. Wittgenstein descreve essa situação, ao afirmar que somos “[...] mantidos cativos por uma imagem” (1953, §115). Em ambos os casos, trata-se de estruturas normativas que nos habitam, antes que possamos habitá-las.

Em Gramsci (1971), por exemplo, a ideologia não é concebida como um conjunto de falsas crenças individuais, mas como uma estrutura material de dominação, historicamente sedimentada nas instituições, nos hábitos e nas formas de linguagem que organizam a vida social. Em nossa leitura wittgensteiniana de conceitos da tradição marxista, a ideologia opera como um sistema de certezas tácitas - análogo às hinges ou dobradiças normativas - que estabiliza o campo do que é tomado como “óbvio”, “natural” ou “racional”, em uma sociedade. Por isso, o poder ideológico não atua principalmente pela coerção, entretanto, pela fixação de certezas, pela naturalização das hierarquias e pela produção de consentimento. A classe dominante, afirma Gramsci (1971, p. 377, tradução nossa), “[...] organiza materialmente a sua estrutura ideológica para preservar, defender e desenvolver a frente teórica ou ideológica que justifica o seu domínio”. Assim, em nossa leitura neopragmatista, a ideologia funciona como uma gramática social que introduz e estabiliza fulcros normativos no senso comum, em nossos jogos de linguagem cotidianos, isto é, consolida um regime de certezas e regras que possui os indivíduos mais do que é possuído por eles, moldando suas paisagens conceituais, afetivas e inferenciais, e definindo o que pode ser pensado, dito e sentido dentro de uma forma de vida. Deslocar tais fulcros ideológicos equivale, portanto, a reorientar as dobradiças do sentido e a redistribuir a legitimidade, no espaço social.

O cartesianismo, nesse sentido, pode ser visto como uma forma ideológica e gramatical de cativeiro normativo. Ele fixa as hinges da modernidade (colonial) - “o homem é racional”, “a mente é transparente a si mesma”, “a alma isolada é o ponto inicial do conhecimento” “a civilização é europeia” - e as faz funcionar como fulcros normativos de uma arquitetura global de dominação. São certezas fulcrais colonialistas: dobradiças afetivas e conceituais que fixam o significado de jogos de linguagem e justificam a dominação do divergente, distribuem quem fala e quem é falado, quem interpreta e quem é interpretado, quem define a razão e quem é definido por ela, quem está dentro da racionalidade e quem está fora dela. Essa gramática, enfeitiçadora no sentido de Verhexung, não apenas descreve o mundo, mas o governa, ao nos governar, nos cativa no cativeiro de uma forma de vida. O cartesianismo representa, pois, um cativeiro gramatical de grupos minorizados.

No §109 das Investigações Filosóficas, Wittgenstein (1953, §109, tradução nossa) formula um dos gestos metodológicos mais decisivos de sua virada pragmática e terapêutica: “A filosofia é uma luta contra o enfeitiçamento (Verhexung) do nosso entendimento pela linguagem”. Com isso, Wittgenstein desloca a tarefa da filosofia da construção de sistemas teóricos para a dissolução dos encantamentos conceituais que nos mantêm cativos de imagens naturalizadas de pensamento, valor e mundo. O enfeitiçamento não é um erro intelectual, todavia, constitui uma forma de cativeiro gramatical - uma prisão de usos e hábitos que se tornaram invisíveis por sua própria familiaridade. A função da análise filosófica, então, é “[...] mostrar à mosca a saída do vidro” (§309), isto é, revelar os limites das nossas certezas tácitas e abrir caminhos alternativos dentro da linguagem. Essa concepção de filosofia como libertação gramatical fundamenta o modelo aqui proposto de alavancagem como passo normativo para a soberania gramatical: se o feitiço opera pela fixação de dobradiças normativas e afetivas que definem o que é “óbvio”, em uma forma de vida, a soberania consiste em reorientar esses fulcros - deslocar o ponto de apoio do jogo de linguagem injusto e restituir à linguagem sua plasticidade política e emancipadora.

A tarefa crítica do neopragmatismo pode ser vista como uma tentativa de desmontar os encantamentos cartesianistas. Segundo Rorty (1979, 2021), o gesto comum de um neopragmatista deve ser deslocar o foco da representação para a prática. O pensamento deixa de ser uma cópia interna do real e passa a ser uma atividade normativamente regulada, mediada por critérios públicos, coletivos, compartilhados: um modo de operar em redes de uso, inferência e justificação. Nessa perspectiva neopragmatista, o erro não é mais uma não correspondência entre ideia e fato, mas uma espécie de falha inferencial, um desajuste normativo nas práticas públicas de raciocínio e de uso conceitual. O conhecimento, assim, torna-se um saber-fazer normativo, uma competência situada dentro de um contexto coletivo de compromissos e regras, em nossos jogos de linguagem cotidianos6.

Brandom (1994, 2000) formula esse movimento com seminalidade. Para ele, compreender um conceito é dominar o conjunto de inferências materiais que o tornam inteligível, o que ele denomina inferencialismo semântico. O significado de uma expressão é determinado por sua posição numa rede de compromissos e autorizações públicas, o espaço de razões (space of reasons, Sellars, 1997). Esse espaço é normativo e social: falar é comprometer-se, e compreender é saber responder por esses compromissos. O expressivismo lógico de Brandom aprofunda esse quadro, ao entender a filosofia como prática de explicitação - tornar explícitas as normas implícitas que governam nossas práticas de uso. Brandom (1994) distingue dois níveis, no domínio conceitual: a consciência semântica e a autoconsciência semântica. No primeiro nível, entender um conceito significa saber usá-lo corretamente em contextos apropriados, mesmo sem ser capaz de explicitar as razões ou regras implícitas que tornam esse uso adequado. No segundo, o falante é capaz de tornar explícitas as inferências materiais que estruturam o significado do conceito - isto é, sabe justificar, negar, derivar proposições e corrigir usos, explicitando regras implícitas que governam nossas atividades conceituais.

Por exemplo, ao utilizar o termo “segunda-feira”, em enunciados como “tenho aula na segunda-feira”, exibimos consciência semântica: participamos competentemente de um jogo de linguagem compartilhado, mesmo sem precisarmos enunciar as regras que fixam seu significado. Já quando dizemos “se hoje é segunda, então amanhã é terça” ou “segunda é um dia da semana, portanto, se hoje for segunda, não é sábado”, realizamos o passo inferencial que caracteriza a autoconsciência semântica: tornamos explícitas as relações lógicas e materiais que conectam inferencialmente o conceito a outros conceitos (por exemplo, semanas, dias, meses, tempo etc.).

O mesmo se aplica a conceitos espaciais ou perceptuais. Uma pessoa que emprega corretamente o conceito de “vermelho” demonstra consciência semântica: domina o uso da palavra “vermelho”, em contextos relevantes diferentes. Todavia, ao afirmar “se algo é vermelho, então não é verde”, “se algo é abstrato, não tem uma cor”, “se algo é um ponto no campo visual, então deve ter uma cor”, ela exibe autoconsciência semântica, pois torna explícitas as inferências materiais que estruturam o espaço conceitual da cor, em nossos jogos de linguagem. De modo análogo, para Brandom, ao afirmarmos “a bola está à esquerda da caixa”, em contextos apropriados, operamos com consciência semântica; ao argumentarmos que, “se a bola está à esquerda da caixa, então a caixa está à direita da bola”, explicitamos a inferência material subjacente ao uso conceitual - e, portanto, exibimos autoconsciência semântica.

Esses exemplos mostram que, segundo Brandom, compreender um conceito é participar de uma rede de inferências materiais; e tornar-se autoconsciente semanticamente é saber explicitar publicamente as normas inferenciais que já seguimos, ao falar e agir7.

No entanto, ao permanecer restrito à racionalidade discursiva, o modelo brandomiano tende a excluir dimensões afetivas, corporais e políticas da normatividade. É nesse ponto que o neopragmatismo periférico e quilombola, inspirado em Nascimento (2006, 2021), oferece sua ampliação crítica: se a racionalidade é uma prática, ela também é uma prática encarnada, histórica, afetiva e política. O espaço de razões deve ser expandido para o que chamamos de paisagem ou nicho inferencial - uma topografia do sentido, na qual não apenas proposições, mas também emoções, gestos, ritmos, práticas sociais e políticas operam como vetores normativos. Assim, a gramática deixa de ser mero conjunto de regras sintáticas de um espaço de razão abstrato e torna-se uma ecologia viva de conceitos, regras, afetos e sentidos.

O que chamamos aqui de neopragmatismo quilombola e periférico parte da intuição - presente em Nascimento - de que o quilombo não é apenas um território físico, mas uma forma de vida normativa, uma gramática alternativa que articula corpo, memória, resistência, orgulho e autodeterminação. Nascimento escreve: “Quilombo é uma história. É uma palavra que tem história.” (Nascimento, 1985) - enfatizando que o quilombo é também uma estrutura simbólica e conceitual, um vocabulário de soberania que desloca os eixos coloniais de legitimidade. O corpo e a presença coletiva tornam-se fulcros normativos de existência: o sujeito quilombola funda sentido no próprio ato de estar, resistir e nomear o seu próprio território. Essa concepção permite compreender o quilombo como um operador normativo e expressivista, o qual institui e defende novas regras de reconhecimento, de auto-organização e de convivência, a partir da prática coletiva. Em diálogo com o inferencialismo e o expressivismo lógico, o neopragmatismo quilombola amplia o “espaço de razões” de Brandom para uma paisagem viva de razões, na qual ritmos, afetos e gestos periféricos também fixam significado e valor. A gramática se converte aqui em uma técnica comunitária de soberania: um modo de reescrever as normas de inteligibilidade, de autodeterminação das regras de jogos de linguagem, que sustentam formas de vida injustas.

Essa ampliação crítica do neopragmatismo em uma vertente periférica, inspirada em Nascimento (2021), também permite compreender a assim chamada hinge epistemology de Wittgenstein como ferramenta política. As hinges - nossas certezas fulcrais - funcionam como fulcros normativos: pontos de estabilidade que sustentam o mundo social e político, assim como um fulcro físico sustenta o movimento de uma alavanca. Na física, um fulcro é o ponto fixo em torno do qual uma força mínima pode mover um peso desproporcional. Analogamente, na gramática, uma hinge é o ponto de apoio conceitual e normativo que possibilita sustentar uma forma de vida, é o fulcro que fixa a normatividade implícita do nosso cotidiano, é o conceito-eixo a partir do qual nossos jogos de linguagem giram. Mas, se um fulcro físico pode ser deslocado pela aplicação da força correta no ponto adequado, também uma hinge pode ser movida, reorientada pela alavancagem gramatical.

Diferentemente de certas formulações brandomianas, o neopragmatismo aqui proposto evita conceber a normatividade fixada por um jogo muito abstrato de dar e pedir razões. A gramática aqui deve ser entendida como um campo vivo e orgânico, mais próximo dos jogos de linguagem e formas de vida wittgensteinianas do que de uma topologia lógica, abstrata e neutra. Essa paisagem conceitual funciona como uma ecologia normativa, na qual as dobradiças (hinges) são fulcros normativos, em uma imbricação entre o biológico e cultural, os quais estabilizam nichos de sentido. Organismos humanos (e não humanos) habitam e transformam esses nichos conceituais em suas práticas mais cotidianas, e o fracasso inferencial na operação com conceitos muito básicos de certos jogos, mais do que erro, significa a morte funcional de um sistema de práticas e valores. A gramática é, assim, um mecanismo ecológico de estabilização afetiva e normativa - e seus fulcros podem (e devem) ser movidos, quando se tornam injustos ou disfuncionais.

Quando uma dobradiça normativa sustenta exclusão ou dominação, a tarefa emancipatória é mover o fulcro: aplicar força conceitual e afetiva ao ponto certo, para deslocar a estrutura que ele ancora: é o que chamamos de alavancagem gramatical. As gramáticas coloniais e patriarcais prescrevem não apenas o que se pode dizer, mas também o que se pode sentir, mobilizando afetos, como vergonha, orgulho, medo, para manter hierarquias. A libertação começa quando esses afetos se revertem: vergonha em orgulho político, orgulho opressor em vergonha crítica, medo em solidariedade. Essa reversão conceitual é um passo importante para a soberania gramatical: o momento em que uma comunidade recupera o poder de nomear e determinar seus próprios critérios de valor.

O lema Black is Beautiful ilustra esse processo: o termo black, antes marcador de exclusão, é reconfigurado como signo de potência e dignidade: uma reversão conceitual, inferencial e afetiva que reorganiza uma forma de vida. O mesmo ocorre em determinadas práticas coletivas, como o rap, a capoeira ou o candomblé, verdadeiros quilombos gramaticais que reconfiguram valores, sentidos e legitimidades. Também há alavancagens expressas individualmente, como o neurodivergente que afirma “não sou deficiente, o mundo é que é disfuncional”, ou o indígena que devolve ao colonizador o título de “primitivo”. Em todos esses casos, uma hinge de um jogo de linguagem injusto é deslocada: muda-se o ponto de apoio do sentido.

Todo fulcro, físico ou gramatical, pode ser movido pela alavanca certa. Inspirados em Nascimento (2021), defendemos que a filosofia deve agir como essa alavanca: não eliminar a linguagem, mas reorientar suas dobradiças normativas, transformando a gramática de prisão em instrumento de emancipação e soberania.

2 EXPANDINDO CRITICAMENTE O MODELO DE BRANDOM E WITTGENSTEIN: POR UM NEOPRAGMATISMO PERIFÉRICO E QUILOMBOLA

O ponto de partida desse modelo neopragmatista quilombola que propomos é o inferencialismo semântico e o expressivismo lógico desenvolvidos por Brandom, especialmente em Making It Explicit (1994) e Articulating Reasons (2000). Como vimos, para Brandom, significar é desempenhar um papel inferencial em práticas públicas; usar vocabulário lógico é tornar explícitas as conexões de compromisso e autorização que já governam o uso regrado dos termos linguísticos. A linguagem não espelha o mundo, mas organiza e ilumina nossas práticas conceituais, segundo normas tácitas de nossas práticas que definem o que se pode afirmar, inferir ou contestar. Segundo Brandom, o sentido em nossos jogos de linguagem, portanto, é normativo antes de ser representacional: é produto de um tecido de compromissos inferenciais que vinculam os falantes uns aos outros, em um espaço de razões (Sellars, 1997). Cada ato de fala altera o “placar” normativo, ao redistribuir responsabilidades, autorizações e direitos (entitlements) de asserções.

Essa reconstrução pragmática do sentido oferece as bases conceituais para compreender a linguagem como prática social, mas conserva, em sua formulação estrita, um limite importante: tende a privilegiar repertórios proposicionais em um ato de fala nuclear, a asserção, minimizando as dimensões afetivas, corporais e políticas que também participam, de modo normativamente eficaz, da fixação e da revisão das regras. Inspirado em Nascimento (2021), o neopragmatismo periférico e quilombola defendido aqui preconiza, portanto, uma ampliação crítica e anticolonialista do modelo inferencialista: integrar ao funcionamento das redes de inferência o papel dos afetos, das experiências corporais e das práticas coletivas e políticas de resistência, como operadores legítimos de transformação normativa de jogos de linguagem injustos. Em vez de opor o emocional ao racional, esse modelo entende os afetos como variáveis normativas, forças que estabilizam ou desestabilizam o campo inferencial e, pois, pressionam e podem produzir mudanças efetivas em nossos jogos de linguagem e, por conseguinte, em nossas formas de vida8.

Essa ampliação crítica é reforçada pelo diálogo com Wittgenstein, especialmente em On Certainty (1969), onde o filósofo descreve as certezas básicas - ou hinges - como os pontos de apoio tácitos que tornam possível os nossos jogos de linguagem. Essas hinges não são proposições inferidas, mas certezas fulcrais: dobradiças normativas que sustentam como pensamos e como agimos, da mesma maneira que um fulcro físico sustenta o movimento de uma alavanca. O que Wittgenstein explicita é que a inteligibilidade de nossos jogos de linguagem repousa sobre um conjunto de pressupostos não tematizados, ou seja, sobre regras, crenças, hábitos e práticas que são aprendidas como autoevidentes e que estruturam nossa imagem de mundo. Como vimos, defendemos que, em contextos de injustiça estrutural, essas hinges se tornam também pontos de fixação ideológica: fulcros afetivos e conceituais que naturalizam hierarquias e delimitam quem é ouvido, quem é reconhecido e quem é tomado como sujeito racional.

A crítica ao intelectualismo presente em certas versões do inferencialismo brandomiano parte do reconhecimento de que a estrutura inferencial do pensamento e do significado não depende, necessariamente, de competências linguísticas plenamente desenvolvidas, nem de participação em práticas discursivas humanas formais. Em Making It Explicit (1994), Brandom formula o inferencialismo semântico como a tese de que o conteúdo conceitual de uma expressão é determinado pelos papéis inferenciais que ela desempenha, dentro de uma prática de giving and asking for reasons - dar e pedir razões -, ou seja, dentro de um espaço discursivo de justificações públicas. Essa formulação, embora poderosa, traz consigo um viés intelectualista, pois condiciona o estatuto conceitual à capacidade de participar ativamente de trocas linguísticas explícitas, de articular proposições, reconhecer compromissos e distribuir autorizações normativas entre agentes reconhecidos como “falantes competentes”. Em termos antropológicos, epistemológicos e políticos, esse recorte tende a restringir o domínio do conceitual a um subconjunto muito específico da experiência humana - e, frequentemente, a um ideal de racionalidade masculino, adulto, neurotípico, ocidental e linguisticamente homogêneo9.

O ponto de partida alternativo defendido aqui é que onde há conceitos há inferências - e onde há inferências, há já um modo de vida conceitualmente estruturado. Conceitos não são entidades linguísticas, mas nós de redes inferenciais, em nossas paisagens inferenciais, os quais se atualizam em práticas sensório-motoras, afetivas, sociais e políticas. A linguagem, longe de ser condição necessária para o pensamento, é uma forma particularmente complexa de tornar públicas, transmissíveis e revisáveis certas estruturas inferenciais que já operam implicitamente em outros domínios de atividade. Há inferências em comportamentos de orientação, antecipação, aprendizado, reconhecimento e coordenação que não dependem de vocabulário lógico nem de atos de fala.

Algumas inferências não precisam ser proposicionais, mas apenas normativas, em sentido pragmático: distinguem entre respostas adequadas e inadequadas, segundo padrões historicamente estabilizados de sobrevivência e interação. Assim, tem-se uma inferência, mesmo não havendo um ato de fala e mesmo não existindo vocabulário lógico disponível para explicitar o seu conteúdo10. Em lugar de um “espaço de razões” homogêneo, habitado apenas por agentes discursivos, defendemos a imagem de um nicho inferencial heterogêneo e histórico, onde múltiplas redes de inferência - humanas e não humanas, linguísticas e não linguísticas - coexistem, interagem e se sobrepõem, parcialmente. Nessas paisagens, o significado não é uma propriedade intrínseca das expressões, contudo, uma função ecológica das relações inferenciais que se estabilizam entre agentes e ambientes.

Essa abordagem desloca o foco do ato de fala assertivo para o nível ecológico e pragmático das práticas inferenciais incorporadas. As inferências não são geradas por sujeitos isolados, mas por sistemas vivos acoplados a ambientes que os solicitam, informam e regulam. O conteúdo conceitual, nesse contexto, é o resultado emergente da estabilidade inferencial dessas interações. A gramática humana, por sua vez, é um sistema de amplificação e estabilização de inferências pré-existentes, não o seu ponto de origem. Desse modo, enquanto Brandom ancora a normatividade conceitual na prática de atribuição e reconhecimento de compromissos discursivos, um neopragmatismo periférico e ecológico - como o aqui proposto - localiza a fonte da normatividade em sistemas de coordenação inferencial muito mais amplos, os quais incluem agentes não humanos, artefatos, instituições e ambientes materiais.

Em suma, o inferencialismo semântico pode - e deve - ser libertado de seu viés intelectualista. Onde há padrões de inferência estáveis e corrigíveis, há conceitualidade; onde há conceitualidade, há já um tipo de normatividade implícita que a lógica, como vocabulário expressivista, apenas torna explícita e controlável. A tarefa filosófica não é restringir o conceito de racionalidade às fronteiras da linguagem, todavia, compreender como as práticas linguísticas humanas se inserem em uma ecologia inferencial mais vasta, da qual são expressão e refinamento. Isso exige repensar a lógica não como espelho de uma mente discursiva, mas como parte da maquinaria evolutiva e social que sustenta a própria possibilidade do pensar - humano ou não.

Nesse contexto de apropriação crítica do inferencialismo, a analogia com a mecânica torna-se aqui decisiva. Na física, a alavanca é uma barra rígida que se move em torno de um ponto fixo: o fulcro. Aplicando força em um ponto, é possível deslocar um peso maior em outro. O movimento e a eficiência dependem da posição relativa entre força, fulcro e carga. Distinguem-se três classes, tradicionalmente, na mecânica: (1) na primeira classe, o fulcro situa-se entre a força e a carga, como em uma gangorra, um alicate ou uma alavanca de ferrovia, permitindo que uma força mínima mova um peso muito maior, desproporcional; (2) na segunda classe, a carga está entre a força e o fulcro, como em um carrinho de mão, e a força se amplifica, sustentando o peso com menor esforço; (3) na terceira classe, a força é aplicada entre o fulcro e a carga, como no braço humano ou em uma pinça, produzindo movimentos curtos, rápidos e precisos. O princípio físico é simples, porém, pode ser profundamente seminal, na filosofia: todo fulcro pode ser deslocado pela força adequada aplicada ao ponto correto.

Wittgenstein (1969) aponta para uma versão conceitual dessa mecânica. As hinges são os fulcros normativos, as dobradiças, os eixos que sustentam nossas certezas; são invisíveis, mas estruturam o campo inteiro do sentido. Na nossa visão neopragmatista periférica, quando uma hinge é injusta - quando fixa, por exemplo, a branquitude como padrão universal de humanidade, o masculino como paradigma de racionalidade, grupos indígenas como inferiores, a neurodivergência como deficiência ou a heteronormatividade como norma natural -, ela aprisiona a forma de vida em uma gramática de dominação. A filosofia, enquanto prática crítica, não deve deixar as coisas como estão, depois de revelar a gramática da dominação. A filosofia deve, então, funcionar como alavanca gramatical: aplicar força conceitual e afetiva sobre o fulcro normativo que sustenta a injustiça, movendo-o de modo a reorientar o campo do sentido, de gestos e de afetos dos nossos jogos de linguagem, depois de explicitar as regras que fixam seu significado. Essa força não vem de fora, mas de dentro das próprias práticas linguísticas e afetivas: é uma alavancagem imanente, não transcendente.

A partir dessa ideia, propomos compreender o processo de transformação normativa como uma dinâmica de passos interdependentes, em cinco níveis analíticos (e não ontológicos), os quais explicitam o percurso do uso e conceitos da mera reprodução, na categoria de consciência semântica de Brandom, à soberania gramatical em nosso neopragmatismo quilombola, inspirados em Nascimento. No primeiro nível, o da consciência semântica, o agente participa tacitamente das práticas linguísticas e normativas, sem explicitar suas regras; as hinges funcionam como pano de fundo indiscutido, estruturando o que é tomado como natural ou óbvio, em jogos de linguagem cotidianos. No segundo, o da autoconsciência semântica, essas regras implícitas de nossos jogos de linguagem se tornam explícitas: o sujeito passa a pensar sobre e a reconhecer as inferências que autoriza e os compromissos que assume, ao usar determinados conceitos. Esses dois níveis de análise são descritos por Brandom (1994, 2000).

A partir daqui, temos a nossa expansão crítica e anticolonial do inferencialismo e expressivismo. No terceiro nível, o da epifania gramatical, deve ocorrer um deslocamento de perspectiva - uma espécie de sehen als wittgensteiniano -, em que relações conceituais e afetivas se tornam visíveis no mesmo caminho normativo que fazemos todos os dias, em nossa paisagem conceitual, em nossos jogos de linguagem mais cotidianos. É o instante em que uma certeza fulcral vacila e algo, que antes era percebido como deficiência, desvio ou vergonha, se revela como potência, orgulho e identidade.

No quarto nível, o da alavancagem gramatical, essa descoberta de caminhos conceituais e afetivos novos é mobilizada coletivamente: as tensões inferenciais e afetivas latentes nos novos caminhos conceituais descobertos são usadas como pontos de apoio para reverter o jogo, mudando o fulcro do sentido e invertendo a polaridade normativa (por exemplo, vergonha em orgulho, orgulho excludente em vergonha crítica, deficiência em potência).

Finalmente, o quinto nível, o da soberania gramatical, é o momento quando a comunidade historicamente oprimida se assenhora das regras de uso e reconhecimento de sua forma de vida, preservando e consolidando um regime normativo e afetivo, determinando e autogovernando seus próprios jogos de linguagem: uma nova gramática coletiva de legitimidade, de autorregulação, de autodeterminação, de autoproteção, também de orgulho11.

Esses cinco níveis não descrevem uma sequência lógica, mas um continuum de resistência normativa: da reprodução irrefletida à autodeterminação, da dependência ao assenhoramento. O operador transversal desse movimento é o que chamamos de bootstrapping inferencial - uma técnica de extração, explicitação e recombinação de regras, a partir das práticas existentes: a habilidade de usar o jogo para reverter as regras do próprio jogo. Assim como uma alavanca reaproveita o fulcro que já está no sistema, o bootstrapping usa a própria gramática dominante como material de reversão: as regras que oprimem contêm, em sua estrutura inferencial, as condições normativas de sua transformação, caso sejamos suficientemente habilidosos no jogo de linguagem, na dinâmica de critérios, inferências e afetos, em nossa forma de vida.

Essa engenharia normativa pode ser ilustrada pela analogia direta entre as classes de alavancas físicas e as classes de alavancagem gramatical. Denominamos alavancagem interfixa o tipo de reversão gramatical correspondente à alavanca de primeira classe: o fulcro semântico é deslocado, contudo, o vocabulário permanece. Se, na gangorra, uma força mínima pode mover um peso desproporcional, aqui, um pequeno deslocamento conceitual - como as afirmações Black is Beautiful ou Black is power - desafia e inverte o eixo afetivo, conceitual e normativo de um jogo de linguagem inteiro, transformando o estigma em signo de valor. Com a alavancagem gramatical em uma estrutura muito poderosa, aquilo que era tomado tácita e explicitamente como deficiência se transformou em uma potência.

A alavancagem inter-resistente, análoga à segunda classe física, ocorre quando a força é coletiva: comunidades criam quilombos normativos, como o rap, o funk, a capoeira, as assembleias indígenas, os terreiros e as redes LGBTQIA+, onde novas regras de reconhecimento, orgulho e estima pública são praticadas e difundidas. O peso da exclusão é movido pela coordenação afetiva e conceitual de uma forma de vida e pela autoproteção simbólica e normativa do grupo.

Por fim, a alavancagem interpotente, paralela à terceira classe, designa a força interna que opera de dentro do próprio agente: epifanias gramaticais e afetivas que reorganizam o modo de sentir e de falar. O movimento é curto e preciso, entretanto, decisivo: como o gesto do braço humano, converte energia interna em deslocamento real. “Não, eu não deficiente, é este ambiente que é deficiente, por impedir que eu me desenvolva adequadamente”. “Quem é o selvagem aqui? Nós que estamos há muitos e muitos séculos na natureza, ou vocês, que vão destruí-la em poucos anos de exploração?” “Favela não é miséria, não. Favela é, na verdade, potência criativa”.

As três modalidades de alavancagem gramatical - interfixa, inter-resistente e interpotente - não competem, mas se complementam. A interfixa redefine conceitos dentro do mesmo jogo de linguagem; a inter-resistente cria as condições coletivas para estabilizar novas gramáticas; e a interpotente enraíza a transformação e a reversão, no plano afetivo e experiencial. Juntas, formam uma engenharia normativa imanente, capaz de reconfigurar jogos de linguagem injustos, sem recorrer à transcendência. O que muda é o fulcro normativo - e, com ele, toda a estrutura de sentido e valor que sustenta formas de vida.

Esse modelo oferece também um quadro analítico para compreender, resistir e reverter as violências gramaticais (Praxedes; Silva, 2025; Santana; Silva, 2025) que sustentam o racismo, o patriarcado, a colonialidade e a LGBTfobia. Cada uma dessas dominações repousa sobre certezas fulcrais específicas - “o branco é universal”, “o homem é racional”, “a genitália define o gênero” -, isto é, hinges que estabilizam gramáticas injustas. Reverter essas dobradiças exige reversão normativa e afetiva: transformar vergonha em orgulho e orgulho excludente em vergonha crítica. Essa transmutação altera o nicho inferencial que determina o que se segue de “ser negro”, “ser mulher” ou “ser indígena”, redistribuindo o campo do dizível e do legítimo. Certos conceitos críticos, como racismo estrutural, interseccionalidade e transfeminismo, operam como ferramentas expressivistas, as quais não apenas descrevem, mas pressionam mudança normativa, tornando visíveis novos caminhos conceituais em jogos de linguagem antigos, induzindo novas epifanias gramaticais e forçando revisões de uso, sentido e reconhecimento.

O horizonte político desse processo é o aquilombamento gramatical - conceito inspirado em Nascimento (2021) e análogo aos quilombos históricos, territórios autônomos de reinvenção, resistência e autodeterminação coletiva. Aqui, um quilombo gramatical designa os espaços comunitários - escolas populares, coletivos culturais, terreiros, redes de cuidado - onde novas regras de uso e valor são testadas e consolidadas. Nesses territórios conceituais, a soberania gramatical se torna poder comunitário de definir o significado e a legitimidade de seus próprios jogos de linguagem. Integrando a hinge epistemology de Wittgenstein e o inferencialismo expressivista de Brandom, o neopragmatismo quilombola mostra que toda gramática opressora é contingente - e que todo fulcro normativo pode ser movido. Quando o ponto de apoio muda, muda também o mundo que ele sustenta.

3 RUPTURA NORMATIVA: APLICAÇÕES DE ALAVANCAGEM, REVERSÃO E SOBERANIA GRAMATICAIS

O conceito de alavanca expressa a possibilidade de mover estruturas muito grandes e aparentemente imutáveis, com uma força mínima, desde que aplicada ao ponto de apoio correto, Em On Certainty, Wittgenstein (1969) denomina hinges as “dobradiças”, certezas fulcrais que, embora não sejam proposições justificáveis, sustentam a inteligibilidade dos jogos de linguagem e das formas de vida. Inspirado por essa hinge epistemology, o modelo de alavancagem gramatical sustenta uma técnica neopragmatista da emancipação: se o conhecimento depende de dobradiças conceituais, a transformação normativa de nossos jogos de linguagem exige relocalizar os fulcros que mantêm gramáticas injustas. Reverter o encantamento gramatical (Verhexung, Wittgenstein, 1953, §109) é reorientar os fundamentos invisíveis de hierarquias coloniais e patriarcais - como nas máximas “o branco é civilizado” ou “a mulher é frágil” -, substituindo-as por fulcros insurgentes que redistribuem valor e reconhecimento: “negro é potência”, “mulher é força”, “favela é invenção”.

A alavancagem gramatical é, assim, uma técnica conceitual e afetiva de resistência normativa imanente, a qual articula cinco movimentos interdependentes: (1) consciência semântica, o uso tácito de regras injustas; (2) autoconsciência semântica, a explicitação das inferências que as sustentam; (3) epifania gramatical, a percepção da possibilidade de reversão; (4) alavancagem, o esforço coletivo de deslocar os fulcros normativos; e (5) soberania gramatical, a autodeterminação e consolidação coletiva de novas regras e critérios de legitimidade.

Esses níveis se traduzem em três modalidades de força: interfixa, quando um termo muda de sentido, em função da disputa de relações inferenciais dentro do mesmo jogo de linguagem; inter-resistente, quando comunidades criam novos ambientes normativos de resistência; e interpotente, quando o deslocamento expressa uma reversão afetiva interna. Mover uma dobradiça gramatical é, portanto, mudar o mundo a partir de dentro da linguagem. Dobradiças coloniais, patriarcais e heteronormativas, por exemplo - “o branco é civilizado”, “o homem é o humano”, “a mulher é frágil”, “o indígena é primitivo”, “o corpo trans é desvio”, “a favela é carência” - sustentam redes de inferências e valências afetivas naturalizadas que organizam hierarquias sociais injustas, em nossos jogos de linguagem cotidianos. Logo, soberania gramatical, no neopragmatismo periférico, consiste no assenhoramento das regras do jogo de linguagem injusto e na reversão por fulcros insurgentes que redistribuem normas, valor, legitimidade e reconhecimento por grupos minorizados: “negro é potência”, “mulher é força”, “indígena é pluralidade cosmopolítica”, “favela é invenção”, “trans é beleza”, “periferia é mundo”. Cada mudança desse tipo não troca rótulos; não é uma disputa por nomes ou termos. É uma disputa gramatical, a fim de reconfigurar o sistema de inferências materiais (no sentido brandomiano) que define o que se segue de cada conceito e, assim, pressiona a reorganização do campo normativo e afetivo de nossos jogos de linguagem.

Quando tratamos de antirracismo, as dobradiças coloniais que associavam “branco” a “universal” e “negro” a “falta” estabilizavam um regime inferencial/afetivo, baseado em vergonha imposta e orgulho excludente. No plano da consciência semântica, “negro” opera cotidianamente como marcador de inferioridade e “branco”, como sinônimo de legitimidade. A autoconsciência semântica explicita que tais vínculos não são descritivos, porém, regras tácitas de uso de conceitos sobre a naturalização da racialização de pessoas. A epifania gramatical ocorre, quando se percebe que “negro” pode ser visto como nome de força e beleza, enquanto “universal” se revela como particular travestido de neutro e universal. Essa inversão afetiva fornece o ponto de apoio da alavanca. No passo seguinte, a alavancagem interfixa reposiciona o fulcro semântico, sem abandonar o jogo de linguagem: Black is Beautiful, Black is Power. Em paralelo, alavancagens inter-resistentes (quilombos normativos, redes de educação afro, coletivos artísticos e intelectuais etc.) criam práticas e instituições que consolidam o novo regime de sentido. A soberania gramatical manifesta-se, quando a comunidade negra determina, por si, critérios de uso e valor de seus jogos de linguagem: “branco”, por exemplo, deixa de operar como padrão universal e é reinscrito como mera particularidade histórica.

Quando discutimos antipatriarcado, a hinge “o masculino é racional e universal” ancorava inferências que subordinavam o feminino e dissidentes de gênero. A consciência semântica reproduz essa hierarquia; a autoconsciência semântica a explicita como gramática de exclusão. Na epifania gramatical, percebe-se que cuidado, vulnerabilidade e interdependência não precisam ser o oposto da razão, todavia, modos legítimos de normatividade incorporada. A epifania gramatical desvela, pois, a possibilidade de reversão afetiva (do constrangimento à estima, da vergonha ao orgulho) desloca o fulcro da razão do controle para a responsabilidade relacional. Aqui, a alavancagem gramatical deve ser sobretudo inter-resistente: coletivos feministas e transfeministas, pedagogias do consentimento, protocolos institucionais e epistemologias do cuidado redefinem regras de autoridade, legitimidade, valor, prova e fala. A soberania gramatical institui e consolida novos padrões de correção: “racionalidade” abrange agora deliberação afetiva e partilhada em nossos jogos de linguagem, e “mulher” é reinscrita como categoria política de alianças corporais múltiplas, em um novo quilombo gramatical e não como predicado de genitália.

Podemos aplicar o mesmo modelo neopragmatista periférico em relação à transfobia. A dobradiça injusta “genitália determina gênero” vincula corpo biológico à identidade legítima. A consciência semântica a reproduz, em nossos jogos de linguagem cotidianos; a autoconsciência semântica torna explícitas suas inferências imbricadas em um uso injusto. A epifania gramatical reconhece a possibilidade de o gênero ser tomado como arranjo político-corpóreo e linguístico. A reversão afetiva provocada pela alavancagem (vergonha → orgulho) autoriza e pressiona mudanças performativas e nominais. Segue-se uma combinação de interfixa e interpotente: reapropriações (“mulher trans”, “ele/elu”), políticas de pronome, currículos e protocolos clínicos-jurídicos pressionam a realocação do fulcro de sentido. A soberania gramatical se evidencia, quando as novas regras passam a integrar registros, políticas públicas e práticas acadêmicas/profissionais, tornando semanticamente ilegítimas as antigas inferências de exclusão em nossa forma de vida.

Podemos também alavancar gramaticalmente o supremacismo civilizatório e as epistemologias indígenas. As dobradiças “civilizado → europeu/moderno” e “indígena → primitivo/selvagem” sustentam tutela e epistemicídio. A consciência semântica reproduz o uso injusto; a autoconsciência semântica deixa claras as condições gramaticais da exclusão. Na epifania gramatical se induz à percepção da possibilidade de coletivos indígenas deterem normas sofisticadas de reciprocidade e cuidado planetário. Assim, a possibilidade de reversão afetiva (do estigma ao orgulho; do orgulho europeu à vergonha crítica) fornece o fulcro normativo. A alavancagem gramatical inter-resistente pode ocorrer, em escolas bilíngues, protocolos de consulta, assembleias e rituais, os quais instituem dobradiças alternativas para a pessoa, o tempo e o território. “Civilização”, alavancada sobre o fulcro do saque e da devastação ecológica, passa a carregar novas inferências críticas. A soberania gramatical emerge, quando povos indígenas instituem regimes próprios de decisão, resistência, orgulho e legitimidade nos jogos de linguagem, bloqueando sistematicamente a dobradiça “moderno → humano”, e se aquilombando gramaticalmente, em suas formas de vida.

Em todos os casos, a reversão gramatical é inseparável da reversão afetiva. Não há deslocamento normativo sustentável, sem redistribuição da economia normativa e afetiva coletiva. Vergonha, orgulho, culpa e desejo funcionam como marcadores posicionais, em nossos nichos conceituais, marcando caminhos e trilhas normativas e afetivas dos nossos jogos de linguagem cotidianos: converter vergonha em orgulho transforma uma regra de desvalorização em regra de estima; converter orgulho injusto em vergonha crítica corrói dobradiças de dominação. Aqui, a analogia mecânica esclarece a diversidade das intervenções. A alavancagem interfixa atua no nível semântico: usa o mesmo vocábulo para inverter seu papel inferencial e afetivo (“negro”, “mulher”, “índio”, “trans”, “civilização”). A inter-resistente opera no nível institucional-comunitário: quilombos, coletivos, terreiros, escolas, protocolos e redes de solidariedade criam infraestruturas do sentido e da resistência normativa de uma forma de vida. A interpotente se baseia em epifanias gramaticais que pressionam o deslocamento de fulcros internalizados, consolidando a mudança e impedindo o retorno do feitiço gramatical.

O aquilombamento gramatical nomeia o processo pelo qual comunidades de grupos minorizados transformam epifanias gramaticais dispersas em regras compartilhadas e públicas. Historicamente, quilombos foram “dobradiças territoriais” entre cativeiro e liberdade; em nossa proposta neopragmatista, são territórios de fulcralização normativa e afetiva entre silêncio e voz, tutela e soberania, vergonha e autodeterminação. Nesses espaços de aquilombamento gramatical, conceitos explicitam sua densidade normativa e se tornam matéria de criação coletiva, em nossos jogos de linguagem: “favela” deixa de ser carência e se transforma em potência criativa e invenção; “periferia” deixa de ser margem e converte-se em centro e protagonismo; “neurodivergência” desloca-se de deficiência para diferença e criatividade; “civilização” deixa de ser ideal e se torna diagnóstico de exploração e extermínio. O resultado é a passagem da gramática enquanto cativeiro à gramática enquanto emancipação e soberania.

Sob a ótica wittgensteiniana, cada deslocamento gramatical de um fulcro normativo equivale a realocar uma dobradiça: alavanca-se o que é tomado como óbvio, o que estrutura o “agir sem pensar”, a simples consciência semântica de uma forma de vida. Sob a ótica brandomiana, cada reversão gramatical reconfigura o placar normativo: quem pode afirmar o quê, com quais compromissos e qual autoridade. O ato de resistência normativa é, portanto, uma reescrita da paisagem ou nicho de inferências em que habitamos, quando habitamos nossos jogos de linguagem cotidianos. A ruptura normativa não destrói a linguagem; reconfigura-a pelas suas regras que fixam e reorientam o significado de nossas práticas. Significa, pois, reverter o feitiço, sem quebrar a ferramenta: usar a própria gramática como ponto de apoio para mover o mundo. Quando as dobradiças de práticas injustas são deslocadas - quando o orgulho de uns se torna vergonha e a vergonha de outros se torna orgulho -, o eixo dos nossos jogos de linguagem se reorienta. A linguagem deixa de operar como prisão e passa a operar como campo de emancipação. A filosofia, nesse contexto, não é espelho do mundo e tampouco apenas lâmpada: é uma habilidade de movimentar fulcros e de reencantar o mundo. A filosofia neopragmatista periférica, quilombola, é um modo de mostrar à linguagem as saídas de seus próprios feitiços. Aquilombar-se gramaticalmente é construir novos eixos de sentido, dentro da paisagem conceitual comum; e, quando a gramática se emancipa, o mundo efetivamente se move.

Conclusão

Defendemos que resistir à dominação não requer transcendência, todavia, uma habilidade imanente das formas de vida: um trabalho sobre as gramáticas normativas e afetivas que estruturam nossos jogos de linguagem. A linguagem, nesse horizonte, não é espelho da realidade nem lâmpada da mente, mas alavanca: uma técnica coletiva capaz de mover estruturas aparentemente imutáveis, quando se aplica força conceitual e afetiva no fulcro certo. Inspirados por Wittgenstein, Brandom e Beatriz Nascimento, propomos um modelo de resistência normativa composto por cinco movimentos: consciência semântica, autoconsciência semântica, epifania gramatical, alavancagem gramatical e soberania gramatical. Esses passos descrevem a passagem do cativeiro gramatical ao autogoverno normativo: da repetição irrefletida das regras que nos regem à capacidade de reorientar os eixos do sentido e do valor que definem nossas formas de vida.

Em Wittgenstein, o significado é o uso, e o uso repousa sobre hinges, isto é, certezas fulcrais que determinam o que é tomado como óbvio, em uma comunidade. Essas dobradiças funcionam como estruturas ideológicas: naturalizam hierarquias e delimitam o que é pensável, dizível e legítimo. A gramática, como a ideologia, não é algo que o indivíduo possui; é ela que o possui, configurando sua paisagem conceitual e afetiva. Todavia, como todo fulcro físico, esses pontos de apoio podem ser deslocados pela força adequada. A resistência normativa consiste em reorientar fulcros injustos por alavancagem gramatical. O inferencialismo de Brandom, ampliado criticamente aqui, em chave anticolonial, fornece a teoria do significado para compreender essa operação: transformar o sentido de um conceito é mudar sua posição na rede de inferências que regula sentido, compromissos e autorizações. Converter vergonha em orgulho é, nesse sentido, mover uma dobradiça de nossas formas de vida. A linguagem, enfim, deixa de ser espelho da natureza e se torna nossa alavanca de soberania.

Referências

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  • 2
    A diferença central entre o pragmatismo clássico e o neopragmatismo está no foco: enquanto o clássico parece privilegiar as consequências práticas das ações, o neopragmatismo enfatiza o domínio normativo e inferencial do uso conceitual. Ter significado é ocupar um lugar em uma rede social de inferências, onde o sentido depende de justificações e revisões possíveis. Diferindo de Brandom, propomos uma visão não homogênea, na qual múltiplas redes locais de práticas formam uma ecologia normativa, inúmeros nichos inferenciais e conceituais - não um único espaço de razões.
  • 3
    É importante observar que os cinco movimentos e as três modalidades de alavancagem gramatical, introduzidas neste trabalho, não foram concebidos como etapas rígidas, lineares ou mutuamente exclusivas. Ao contrário, trata-se de ferramentas analíticas que podem, e devem, ser combinadas conforme as condições concretas de luta, as necessidades situadas e as habilidades estratégicas de cada ativista ou coletivo minorizado. Logo, uma mesma ação política pode envolver simultaneamente epifania gramatical, alavancagem inter-resistente e inversão afetiva, enquanto outros contextos exigirão movimentos interfixos ou interpotentes. A pergunta orientadora é sempre pragmática: que tipo de alavancagem gramatical esse grupo está realizando, realizou ou pode vir a realizar, para resistir a uma gramática opressora e violenta? Meu intuito, aqui, é oferecer um modelo suficientemente flexível para ser generalizável às sagacidades periféricas, aos saberes práticos e às estratégias cotidianas de autodeterminação de grupos minorizados, ou seja, um know-how periférico que auxilie a evitar certas armadilhas normativas e, sobretudo, a fomentar não apenas aceitação, mas orgulho coletivo, autoafirmação e soberania gramatical.
  • 4
    Esse modelo de alavancagem gramatical pode ser generalizado para outras formas de ativismo, especialmente aquelas que envolvem disputas por reconhecimento e soberania conceitual, como o ativismo neurodivergente. Nesse campo, a reversão gramatical opera pela inversão dos fulcros normativos que definem deficiência e normalidade: não é o sujeito autista, TDAH, disléxico ou superdotado que é “deficiente”, mas o meio que é disfuncional, um ambiente normativo que só reconhece um modo legítimo de pensar, sentir e aprender. Expressões como “eu não sou deficiente, o mundo é que é deficiente” ou “são os neurotípicos que são muito burros” exemplificam epifanias gramaticais em que o eixo do valor é revertido e o orgulho toma o lugar da vergonha. Em perspectiva periférica e interseccional, essa inversão adquire sentidos políticos específicos: o que significa, no Sul Global, ser considerado “superdotado” ou “autista”, sendo negro e periférico? Que imagens de vida e de inteligência são impostas e naturalizadas? A comunidade neurodivergente, ao reivindicar a autodeterminação de seus próprios jogos de linguagem, realiza soberania gramatical, transformando a gramática da deficiência em um campo de potência coletiva e orgulho político.
  • 5
    Assim como o operador “eu sei que” marca crenças justificadas, expressões como “é óbvio que” funcionam como marcadores de certezas fulcrais (hinges), em nossos jogos de linguagem. Elas não descrevem fatos, mas fixam normativamente o que é tomado como evidente, mesmo quando injusto - por exemplo: “é óbvio que mulheres são inferiores”, “é óbvio que negros não são intelectuais”, “é óbvio que índios não são civilizados”. A gramática do óbvio naturaliza hierarquias e estabiliza ideologias, transformando o preconceito em certeza e a ideologia em gramática.
  • 6
    A passagem sublinha um dos gestos centrais do neopragmatismo: o giro normativo. Em vez de compreender erro e conhecimento como estados mentais avaliados por critérios epistemológicos de correspondência entre ideias e fatos, desloca-se o foco para o funcionamento normativo dos conceitos dentro dos jogos de linguagem. Erro deixa de ser falha representacional, para tornar-se falha inferencial: um uso que contraria, viola ou não se ajusta às regras tácitas que estruturam a legitimidade de nossos movimentos conceituais. Da mesma maneira, conhecimento não deveria ser um estado interno de crença justificada, mas uma competência prática, inserida em redes públicas de compromissos, autorizações e responsabilidades. Assim, verdade, erro, justificação e racionalidade são tratados prioritariamente como propriedades normativas, dependentes das regras que fixam critérios de correção dentro de formas de vida específicas - e não como espelhos de um mundo independente. O giro normativo do neopragmatismo que propomos, portanto, não nega a possibilidade de falar em verdade, porém, reinscreve esse vocabulário dentro da gramática social que o torna operante: é o uso regrado, e não um tribunal epistêmico exterior, que determina o que conta como conhecer, errar ou acertar.
  • 7
    Não utilizo a noção de espaço de razões da chamada “Escola de Pittsburgh” porque, embora potente como ferramenta inferencial, ela permanece excessivamente intelectualista e restrita. O modelo pressupõe agentes adultos, linguisticamente competentes, engajados em dinâmicas de asserção e de dar-e-pedir razões, um recorte que não captura assimetrias de poder, desigualdades de acesso a recursos normativos, nem condições materiais que moldam quem pode, de fato, participar desses jogos. Além disso, o espaço de razões é descrito como homogêneo e politicamente neutro, o que obscurece como certas comunidades são estruturalmente desautorizadas a ocupar posições de autoridade inferencial. Há ainda um problema especista: ao vincular o domínio do conceitual ao domínio da asserção, excluem-se animais não humanos e até crianças pré-linguísticas, apesar de ambos exibirem padrões estáveis e contextualmente modulados de inferência prática. Esse conjunto de restrições reforça uma fronteira normativa muito estreita, próxima demais da racionalidade adulta, ocidental e letrada, para servir às finalidades anticoloniais e periféricas deste trabalho, as quais requerem uma ecologia plural de práticas inferenciais, não um tribunal único da razão.
  • 8
    Agradeço a um revisor por levantar uma objeção crucial: ao mobilizar a noção wittgensteiniana de hinge ou “certeza fulcral”, não estaríamos reincorporando, pela porta dos fundos, um certo logocentrismo - precisamente aquilo que buscamos criticar? A preocupação é legítima, sobretudo porque operamos com ferramentas conceituais oriundas de tradições marcadamente logocêntricas (Sellars, Brandom). Nosso uso de certezas fulcrais, contudo, não pressupõe um fundamento cognitivo privilegiado, nem reinstaura uma hierarquia epistêmica centrada na razão abstrata. Ao contrário: reinterpretamos as hinges como dispositivos normativos e afetivos incorporados, distribuídos socialmente, pré-proposicionais e muitas vezes pré-discursivos, cuja função é estabilizar formas de vida - e não garantir verdades ou fundações racionais. Ou seja, uma hinge não é um princípio abstrato, porém, um ponto de apoio prático, frequentemente corporal, emocional e comunitário. Trata-se menos de logocentrismo que de pragmatismo ampliado, no qual o fulcro é uma condição de uso e convivência, não de justificação epistêmica. Assim, a apropriação desses conceitos não visa a restaurar um centro lógico, mas deslocá-lo: mostrar que até mesmo as categorias da tradição podem ser reviradas e reempregadas para descrever dimensões normativas, afetivas e políticas que essa tradição marginalizou. Nesse sentido, a operação é análoga ao próprio modelo de alavancagem gramatical: usar um instrumento conceitual herdado contra a gramática que o produziu, convertendo-o em ferramenta anticolonial e periférica.
  • 9
    A crítica ao ideal de racionalidade típico da Escola de Pittsburgh não pretende ser meramente assertiva, mas indicar uma tendência estrutural presente no modo como o space of reasons é formulado por Sellars, McDowell e Brandom. Nesse quadro, racionalidade é identificada com a capacidade de participar competentemente de jogos de dar e pedir razões - jogos que pressupõem (i) domínio da linguagem proposicional, (ii) competência inferencial explícita, (iii) responsividade a normas justificativas e (iv) agência discursiva plena. Esses requisitos, embora teoricamente neutros, descrevem de fato um perfil idealizado: o agente paradigmático é adulto, plenamente alfabetizado, neurotípico, racional no sentido pós-iluminista, inserido em práticas justificacionais ocidentais e relativamente homogêneas. Tal ideal exclui ou marginaliza, embora inadvertidamente, crianças pré-linguísticas, pessoas com formas não típicas de comunicação ou cognição, comunidades cuja normatividade opera predominantemente por práticas corporais, musicais, rituais ou afetivas, povos indígenas cujos jogos de linguagem não se estruturam por justificações proposicionais e animais não humanos, que exibem padrões inferenciais estáveis, mas não entram no regime da asserção. O ponto, portanto, não é acusar os autores de intencionalmente defender esse ideal, porém, apontar que, ao tomar a asserção proposicional como ato básico da racionalidade e o vocabulário lógico como o modo canônico de explicitação normativa, o modelo tende a privilegiar uma forma ocidental, masculina, letrada e neurotípica de agência racional. Nossa proposta - substituir o “espaço de razões” pela noção de paisagem inferencial - busca justamente responder a essa limitação, permitindo reconhecer normatividades plurais, corporificadas, afetivas e coletivas que não cabem no molde justificacional clássico.
  • 10
    Essa ampliação implica que a conceitualidade não é exclusividade de falantes racionais adultos. Crianças e animais não humanos exibem competências inferenciais estáveis, ainda que sem vocabulário lógico. O domínio do conceitual, pois, não se reduz ao proposicional: onde comunidades humanas tornam inferências explícitas, por meio da lógica, outras formas de vida as realizam por coordenação prática e sensibilidade normativa ao ambiente.
  • 11
    A aceitação individual, embora importante, é insuficiente como resposta normativa à opressão. Em contextos de dominação, “aceitar-se” permanece muitas vezes compatível com a manutenção da hierarquia, pois não desloca os fulcros afetivos e conceituais que definem o valor social de um grupo. Para que haja reversão gramatical efetiva, ou seja, mudança na estrutura das inferências e das emoções que regulam o reconhecimento, é necessária uma passagem da aceitação à autoafirmação coletiva, na forma de orgulho partilhado e institucionalizado. Somente quando vergonha e “deficiência” são invertidas publicamente em orgulho político é que se modifica o regime normativo que produziu tais afetos. A soberania gramatical, nesse sentido, não consiste em ajustar-se ao lugar concedido pelo jogo de linguagem injusto, mas em reconfigurar o próprio jogo, instaurando critérios de legitimidade definidos pelo grupo, o qual ressignifica sua existência a partir do próprio jogo.
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    O conjunto de dados deste artigo está disponível no SciELO Dataverse da Revista Trans/Form/Ação, no link: https://doi.org/10.1590/0101-3173.2026.v49.n1.e026003
  • Editor responsável:
    Marcos Antonio Alves

Disponibilidade de dados

O conjunto de dados deste artigo está disponível no SciELO Dataverse da Revista Trans/Form/Ação, no link: https://doi.org/10.1590/0101-3173.2026.v49.n1.e026003

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    06 Fev 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    16 Out 2025
  • Aceito
    26 Nov 2025
  • Revisado
    12 Jul 2025
  • Publicado
    15 Jan 2026
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