Resumo:
O artigo analisa uma variação nas condições de produção de pensamento filosófico de Gilles Deleuze, a partir da produção conjunta com Félix Guattari. O texto é dividido em três partes: em um primeiro momento, examina-se a influência do estruturalismo na obra de Deleuze, principalmente através do texto do próprio autor sobre essa corrente de pensamento e da sua influência na construção da noção de “ideia”, em Diferença e Repetição. Em um segundo movimento, analisa-se o aparecimento da noção de “máquinas”, na obra Psicanálise e Tranversalidade, de Guattari, e seu protagonismo na primeira obra conjunta dos autores, O Anti-Édipo. Por fim, observa-se o papel que as máquinas desempenham na definição de conceito, na última obra conjunta dos autores. Além de aspectos metodológicos, defende-se que a variação do estruturalismo para o maquinismo possui desdobramentos epistemológicos e ontológicos, sendo decisiva para a leitura dos autores.
Palavras-chave:
Método; Estruturalismo; Maquínico; Deleuze; Guattari
Abstract:
The article analyzes a variation in the conditions of production of Gilles Deleuze’s philosophical thought based on joint production with Félix Guattari. The article is divided into three parts: firstly, we analyze the influence of structuralism on Deleuze’s work, mainly through the author’s own text on this current of thought and its influence on the construction of the notion of “idea” in Difference and Repetition. In a second movement, we analyze the appearance of the notion of “machines” in Guattari’s work Psychoanalysis and Transversality and its protagonism in the authors’ first joint work, Anti-Oedipus. Finally, we analyze the role that machines play in defining concepts, in the authors’ latest joint work. In addition to methodological aspects, we argue that the variation from structuralism to machinism has epistemological and ontological ramifications, which are decisive for the authors’ reading.
Keywords:
Method; Structuralism; Machinic; Deleuze; Guattari
Introdução
Estamos aqui, tentando seguir as trilhas das mudanças operadas no pensamento de Gilles Deleuze (1925-1995), com base em um alerta dado por ele mesmo: “[...] faço, refaço e desfaço meus conceitos a partir de um horizonte movente, de um centro sempre descentrado, de uma periferia sempre deslocada que os repete e diferencia” (2006, p. 17). Há uma indicação metodológica do filósofo de que seus conceitos variam, pois respondem a campos conceituais diferentes. Defenderemos aqui que Félix Guattari (1930-1992) é um vetor de variação significativa, e o que desejamos investigar são as características dessa mudança.
Deleuze, na obra Conversações (1992), menciona a necessidade de intercessores para o processo criativo, já que eles são imprescindíveis para a própria expressão de pensamentos. No texto, há um aviso: “Félix Guattari e eu somos intercessores um do outro” (1992, p. 156). Guattari é um intercessor privilegiado, pois ele também usa Deleuze. Mais à frente, nessa obra, quando alude às fases pelas quais passou, deixa explícito esse privilégio: “Uma filosofia, isto foi então para mim como que um segundo período, que eu jamais teria começado e concluído sem Félix (1992, p. 171).
Em nosso percurso de leitura, para analisar uma variação significativa de um intercessor privilegiado, apontado acima, notamos que, nas obras Diferença e Repetição (2006)2 e Lógica do sentido (2007) 3, de Deleuze, aparece a noção de ideia, construída sob influência de uma leitura peculiar do estruturalismo. Porém, a partir do encontro com Guattari e o lançamento do livro O Anti-Édipo (2010) 4, o estrutural dá lugar às máquinas e estas vão proliferando, nessa obra e nas seguintes, quando aparecem as máquinas sociais, as máquinas desejantes, as máquinas abstratas, o inconsciente maquínico, as máquinas de guerra... Alliez (2011) analisa o efeito Guattari na filosofia de Deleuze e aponta justamente como o conceito de máquina exigiu uma nova definição da atividade do pensamento, marcando o segundo período da sua produção filosófica.
Dba constatação de que estamos diante de uma variação da forma de experimentar e produzir filosofia, para Deleuze, em função do encontro com Guattari, nossa investigação, então, passa a ter uma pergunta mais precisa, a saber, como se dá uma possível variação entre um certo estruturalismo da ideia para um maquinismo do conceito?
Para proceder à análise, reunimos um conjunto de textos que, articulados com as obras citadas inicialmente, possibilitassem uma resposta à indagação. De um lado, situando a produção de Deleuze anterior ao seu encontro com Guattari, mapeamos de interesse para nossa análise os artigos: “Em que podemos reconhecer o estruturalismo?”, “Método de Dramatização e Spinoza e o método geral de Martial Gueroult” - publicados na coletânea L’île Déserte (2002). Esses artigos foram produzidos na mesma época e, portanto, serão relacionadas com passagens de Diferença e Repetição e Lógica do Sentido, marcando, assim, o que poderia ser um certo estruturalismo da Ideia, no método de pensamento de Deleuze.
O encontro com Guattari rende quatro livros, dos quais vamos trazer passagens do primeiro e do último, O Anti-Édipo e O que é a filosofia? (2010) 5, porque, no primeiro, se encontra a apresentação do pensamento maquínico e, no último, a notória definição da filosofia como criação conceitual, tendo em vista que, em nossa análise, o maquínico exerce uma função crucial na definição do que é um conceito. No caso de Guattari, anterior ao encontro com Deleuze, o texto Máquina e Estrutura, produzido originalmente em 1969 e que compõe a coletânea Psicanálise e transversalidade (2004), será analisado. Ainda será de vital importância examinar algumas passagens do livro Caosmose, (2012) o qual, apesar de publicado nos anos 1990, faz reflexões importantes sobre como o conceito de máquina é construído, em contraposição ao de estrutura, assim como o texto curto “A propósito das máquinas” (2015), que é uma reflexão sobre a sua relação com as máquinas.
À primeira vista, nossas preocupações são de ordem metodológica, nas quais o que se está procurando definir são as condições de produção de pensamento filosófico para os autores. Contudo, acreditamos que também estamos diante de uma questão com desdobramentos epistemológicos e ontológicos, pois o tema estudado trata tanto da gênese quanto do funcionamento do pensamento e, em alguns momentos, da própria gênese do ser.
1 Em que podemos reconhecer o estruturalismo de Deleuze?
Deleuze, depois de formado, foi professor de filosofia na educação básica e na universidade de Lyon. Antes de fazer seu doutorado, publicou livros sobre a filosofia de certos autores, como D. Hume, F. Nietzsche, H. Bergson e I. Kant, durante os anos 1950 e 1960. Nesse contexto de produção sobre história de filosofia, encontramos o texto que analisaremos a seguir.
Para iniciar essa discussão, iremos percorrer os critérios apresentados no artigo “Em que podemos reconhecemos o estruturalismo?”6 de Deleuze, tendo em vista que o próprio autor reconhece a importância, ao tratar deste método de pensamento. O intuito do artigo é estabelecer quais seriam os critérios a partir dos quais se poderia chamar de estruturalismo todo um movimento metodológico do pensamento, o qual estava em voga na França na primeira metade do século XX.
Nossa preocupação, ao analisar esse texto, foi direcionada à necessidade de pensar em que medida os critérios elencados para reconhecer o estruturalismo seriam encontrados em obras do próprio Deleuze e, assim, poderíamos atestar um certo estruturalismo, nesse autor.
Pareceu-nos que o tom do artigo é de elogio ao estruturalismo e de afinidade com os critérios, pois alguns de seus processos argumentativos e explicações são também encontrados em Diferença e Repetição, notadamente no capítulo IV sobre a Ideia. Aliás, um dos panos de fundo que atestam essa coimplicação é uma frase desse capítulo: “[...] assim, a ideia se define como estrutura” (Deleuze, 2006, p. 261). no qual fica explícita a incorporação da noção de estrutura na produção de um conceito relevante na obra.
No artigo examinado, Deleuze descreve sete critérios, os mais simples, na sua visão, que poderiam ser encontrados na obra de diferentes autores, como Roman Jacobson, Claude Lévi-Strauss, Jacques Lacan, Michel Foucault, Louis Althusser, Roland Barthes e o grupo literário da revista Tel Quel, citados explicitamente Philippe Sollers e Jean-Pierre Faye. Os critérios que nos fariam reconhecer o estruturalismo nesses autores são sete: a criação do simbólico; a posição; diferencial e singular; o diferenciador e o diferenciante; as séries; a casa vazia; e a concepção de sujeito.
Deleuze assevera que o primeiro critério para reconhecer o estruturalismo é que ele inventou a pesquisa pelo simbólico, descrevendo o simbólico como uma noção que acrescenta uma dimensão a mais, uma terceira ordem, ao par conceitual real-imaginário, funcionando como um “objeto estrutural” (2002, p. 240). O simbólico é algo que expressa uma coisa para alguém: não é o real concreto, ou forma sensível, mas também não é o imaginário abstrato, ou figura da imaginação. Há um privilégio de Deleuze em destacar o aspecto simbólico como uma descoberta do estruturalismo. Como afirma Rugasa, há uma preferência por realçar o simbólico como uma característica do estruturalismo, diferentemente “[...] das abordagens teóricas mais habituais sobre os conceitos de estrutura e estruturalismo, como por exemplo, as análises que recorrem a conceitos como modelo, conjunto e sistema” (Rugasa, 2019, p. 248).
Hasegawa (2020) analisa a relação inovadora de Deleuze com o simbólico, e faz isso a partir do estudo de como esse conceito aparece de modos diferentes em Claude Lévi-Strauss e Jacques Lacan. Argumenta, assim, que Lacan aposta em uma autonomia do simbólico e propõe uma análise que leva em consideração a tríade formada pelo simbólico, o imaginário e o real, e que essa postura teria influenciado Deleuze.
E quais seriam as características atribuídas a esse simbólico? O simbólico não “[...] se reduz a uma essência simples” (Deleuze, 2002, p. 268) e “[...] ele tem tão somente um sentido” (Deleuze, 2002, p. 241). Ao não ser nem a coisa sensível, nem sua abstração, o simbólico é explicado como sendo um sentido e, por sentido, podemos entender aquilo que é expresso em uma determinada situação. Deleuze faz uma aproximação semântica dos conceitos de sentido e de simbólico. O sentido é o tema da obra Lógica do Sentido (2007), na qual é definido como “[...] o exprimível ou o expresso da proposição e o atributo do estado de coisas” (2007, p. 23). Assim como o simbólico, o sentido, ao ser o exprimível, não se confunde nem com a proposição que atribui o sentido a algo em uma frase, nem com o estado de coisas observado.
Nessa obra, Deleuze articula essa definição de sentido com o conceito de acontecimento. O sentido, enquanto o que é expresso, é explicado como um acontecimento: “[...] o acontecimento não é o que acontece (acidente), ele é no que acontece o puro expresso que nos dá sinal e nos espera”. O acontecimento é entendido como a transformação incorpórea, uma mudança qualitativa que acontece nos corpos e nos pensamentos, mas não se confunde com eles, pois são efeitos de superfície, os quais podem, por exemplo, ser expressos pelos verbos no infinitivo: verdejar, cortar, sequestrar.
Defendemos aqui que há uma correlação entre o simbólico, na leitura de Deleuze do estruturalismo, com suas definições de sentido e acontecimento em sua própria obra. Assim, podemos afirmar que o simbólico, não pertencendo nem ao estado de coisas nem a sua abstração, é um efeito expresso de algo que acontece. Dosse (2009) enfatiza que a articulação entre o simbólico e o acontecimento é uma das marcas de uma apreensão própria do estruturalismo.
Voltando ao texto sobre o estruturalismo, este possui uma segunda característica: o simbólico expressa-se através de uma topologia, na qual “[...] os lugares prevalecem sobre aqueles que os preenchem” (Deleuze, 2002, p. 244). O simbólico é um resultado de um efeito de posição, pois os estruturalistas propõem um conjunto de relações entre termos posicionais, ou seja, existem determinados lugares e espaços que definem posições, existem relações entre essas posições e o simbólico, como efeito de superfície, extrai-se como um acontecimento do conjunto das relações. E é possível extraí-lo, porque ele faz sentido. Ora, as relações de posição são comumente associadas à estrutura, ou arquitetura, desses sistemas de pensamento. De acordo com Deleuze, é por isso que os autores estruturais recorrem constantemente à noção de posição dos jogos e do teatro, recorrendo assim a um puro spatium:
[...] os lugares em um espaço puramente estrutural são primeiros em relação as coisas e aos seres reais que vem os ocupar, primeiros também em relação aos papéis e ao acontecimento sempre um pouco imaginário que aparecem necessariamente assim que são ocupados (Deleuze, 2002, p. 243).
É possível encontrar semelhanças entre essa citação acima com uma passagem de Diferença e Repetição (2006), na qual é descrita a noção de ideia, sendo que esta possui uma “estrutura”, conforme explicitada por Deleuze, na passagem acima. Esse é um momento crucial para defendermos uma posição de que essas obras marcam uma fase do pensamento de Deleuze a qual poderíamos chamar de estrutural. Vamos acompanhar a passagem:
O que se chama estrutura, sistema de relações e de elementos diferenciais, é igualmente, do ponto de vista genético, sentido, em função das correlações e dos termos atuais em que ela se encarna. A verdadeira oposição está em outra parte: entre a ideia (estrutura-acontecimento-sentido) e a representação (Deleuze, 2006, p. 271).
A passagem acima apresenta a relação argumentativa entre ideia e estrutura, expressando um acontecimento que faz sentido. A ideia está em oposição ao pensamento representativo, o antagonista teórico de Deleuze, nessa obra. Queremos ressaltar que as ideias são definidas por seus lugares de posição aqui chamados de relações diferenciais, mas também pela relação de posição entre as relações diferenciais virtuais e as singularidades diferençadas atuais e que é isso que se chama estrutura. Desse modo, há um jogo, ou drama, de lugares e posições traçados pelas relações, e as coisas e seres lhes vêm ocupar. Organizado desse modo, o pensamento é estruturante e não representativo. Se fosse representativo, ele reapresentaria, em uma instância transcendente abstrata e universal, as coisas.
Outro texto, imprescindível nessa leitura que estávamos tentando traçar, é chamado “Método de Dramatização”, conhecido como a própria arguição da tese Diferença e Repetição. Esse texto focaliza o conceito de Ideia, sintetizando, de certa forma, os capítulos quatro e cinco da tese. Nele encontramos a noção de que há “um drama sob todo logos” como característico da noção de ideia. Deleuze descarta a noção de ideia como a simplicidade da essência, representada pela questão “o que é?” e passa a defender que se use o pensamento para percorrer a ideia, enquanto multiplicidade, através de questões “quem?”, “como?”, “quanto?”, “onde?” e “quando?” funcionando como demarcadores de coordenadas espaço-temporais, as quais, portanto, traçam relações de posição. Há um campo intensivo de atualização das ideias e o pensamento precisa interagir com ele para, de fato, lidar com diferenças. Afirma Deleuze:
Ainda que a experiência nos coloque sempre na presença de intensidade já desenvolvidas em extensos, já recobertas por qualidade, devemos conceber, precisamente como condição da experiência, intensidade puras envolvidas numa profundidade, num spatium intensivo que preexiste a toda qualidade assim como a todo extenso (Deleuze, 2002, p. 135).
O próprio dinamismo da ideia, no seu jogo de virtualidade intensiva e atualidade extensiva, é pensado como um sistema, como uma estrutura. A questão ontológica e epistemológica, nessa fase do pensamento de Deleuze, parece operar do seguinte modo: dinamismos espaço-temporais encarnam ideias que dramatizam conceitos. O processo de encarnar ideias é o processo de atualização das relações diferenciais virtuais, distribuídas em um spatium, as quais serão atualizadas, encarnadas em singularidades atuais.
A bordo de Diferença e Repetição, podemos esquematizar a estrutura ontogenética da ideia. Essa estrutura é a que garante a diferença em si mesma e, para isso, Deleuze parte da existência de “indiferenças”, como sendo um “[...] nada negro onde tudo é dissolvido” ou um “[...] nada branco, superfície onde flutuam determinações não ligadas” (Deleuze, 2006, p. 55). Da indiferença, o jogo estrutural da ideia é um dinamismo espaço-temporal de dramatizações, definidos como um “[...] campo intensivo de individuação” (Deleuze, 2006, p. 347), nos quais a dimensão virtual da ideia, com uma variedade de relações entre seus elementos diferenciais e, com a distribuição de pontos singulares correspondentes a essas relações, encarna na parte atual. O atual é o dado diverso, a explicação, com especificação de espécies diferençadas e composição de partes diferençadas por nós percebidas. A ideia e seu processo de encarnação, portanto, constituem uma “estrutura”:
[...] assim, a ideia se define como estrutura. A estrutura da ideia, é o tema complexo, uma multiplicidade interna, isto é, um sistema de ligação múltipla não-localizável entre elementos diferenciais que se encarna em correlações reais e em termos atuais (Deleuze, 2006 p. 261).
A ideia como dramatização intensiva também é explicada Método de Dramatização:
Dado um conceito na representação, nós ainda nada sabemos. Só aprendemos na medida em que descobrimos a ideia que opera sob esse conceito, ou o campo de individuação, ou os sistemas que envolvem a ideia, os dinamismos que a determinam a encarnar-se, é somente sob essas condições que podemos penetrar nos mistérios da divisão do conceito. São todas essas condições que definem a dramatização e seu cortejo de questões: em qual caso, quem, como, quanto?” (Deleuze, 2002, p. 143).
Há, portanto, uma definição de ideia nessa fase do pensamento de Deleuze que é profundamente estrutural, pois é composta por elementos e singularidades virtuais diferenciadas, que vão se encarnar em elementos e singularidade atuais diferençadas. Os elementos e singularidades estão em relações de determinação recíproca e o processo de “encarnação” é um processo de diferenciação, de surgimento de diferenças que não são definidas a partir do negativo - que, aliás, é intenção filosófica dessa obra: afirmar as diferenças positivamente. O estrutural como modelo de pensamento serve para Deleuze mostrar que as ideias são complexas, porque possuem relações entre elementos e não são representativas de uma essência simples delimitada pela questão “o que é?”.
Acima, ao analisar os dois primeiros critérios para reconhecer o estruturalismo, a saber, o simbólico e o lugar de posição, fomos a outras obras de Deleuze desse período e enfocamos a noção de ideia que, para ser explicada em sua complexidade, precisamos dos seus componentes, descritos a partir das noções de diferencial e singular, assim como diferenciador e diferenciação, que são justamente o terceiro e quarto critérios para reconhecer o estruturalismo. Dessa maneira, já percorrermos os critérios três e quatro, utilizando os mesmos termos da caracterização da noção de ideia. Isso é perceptível, ao voltar ao texto sobre como reconhecer o estruturalismo e observar como a estrutura é formada por relações diferenciais em determinação recíproca de elementos simbólicos e por singularidades, afirmando que
[...] toda estrutura apresenta dois aspectos seguintes: um sistema de relações diferenciais segundo as quais os elementos simbólicos se determinam reciprocamente, um sistema de singularidades correspondente a essas relações e traçando o espaço da estrutura. Toda estrutura é uma multiplicidade (Deleuze, 2002, p. 247).
A organização complexa da estrutura é chamada de virtual, definida como “[...] real sem ser atual, ideal sem ser abstrata” (Deleuze, 2002, p. 250), e o processo de atualização é uma diferenciação. Resta evidente aqui que os recursos argumentativos de apresentação da noção de ideia, em Diferença e Repetição, também são utilizados para descrever os critérios de como reconhecer o estruturalismo, marcando profundamente a fase estrutural do pensamento deleuziano. Para Hasegawa, Deleuze vai além de Lacan e pensa o simbólico à sua maneira, ao argumentar que o simbólico é uma estrutura e que “[...] mais precisamente, a estrutura ‘se encarna nas realidades e nas imagens’ e ‘as constitui encarnando-se’, mas ‘não deriva delas’: é ‘mais profunda’ que as realidades e as imagens” (Deleuze, 2020, p. 21). Por esse motivo, o interesse de Hasegawa foi investigar a expressão “mais profunda” como sendo uma camada a mais do que o real, localizando-a nas noções de relação diferencial e de pontos singulares.
Podemos ainda acompanhar nova correlação com a definição própria de ideia, que são “multiplicidades” (Deleuze, 2006, p. 260) e “estrutura”, usando novamente o par atual e virtual, para explicar o seu processo de atualização:
A atualização do virtual, ao contrário, sempre se faz por diferença, divergência ou diferenciação. A atualização rompe tanto com a semelhança como processo quanto com a identidade como princípio. Nunca os termos atuais se assemelham à virtualidade que eles atualizam: as qualidades e as espécies não se assemelham às relações diferenciais que elas encarnam; as partes não se assemelham às singularidades que elas encarnam. A atualização, a diferenciação, neste sentido, é sempre uma verdadeira criação... Atualizar-se, para um potencial ou um virtual, é sempre criar linhas divergentes que correspondam, sem semelhança, à multiplicidade virtual (Deleuze, 2006, p. 298-299).
As estruturas organizam-se em séries e estabelecem relações entre séries. Num reforço do segundo critério, sobre os lugares e posições, há novamente uma afirmação de que a ordem dos lugares prevalece sobre as variações que os veem ocupar com a apresentação da noção de uma casa vazia, a qual permite que certos elementos privilegiados circulem pelas séries estruturais. Esse elemento também aparece em Diferença e Repetição, porém, como “díspar” ou precursor sombrio:
[...] o sombrio precursor, esta diferença em si, em segundo grau, que põe em conexão séries heterogêneas ou disparatadas. É, em cada caso, o seu espaço de deslocamento e seu processo de disfarce que determinam uma grandeza relativa das diferenças postas em conexão (Deleuze, 2006, p. 157).
Espaço de deslocamento é o que a casa vazia proporciona ao símbolo em uma estrutura. A última característica é um esboço de uma imagem do sujeito, proposta pelo estruturalismo, o qual Deleuze explicita:
O estruturalismo não é um pensamento que suprime o sujeito, mas um pensamento que o esmigalha e distribui sistematicamente, que contesta a identidade do sujeito que o dissipa e o faz passar de um lugar a outro, sujeito sempre nômade, feito de individuações impessoais ou de singularidades pré-individuais (2002, p. 267).
Ora, podemos perceber, nessa afirmação, que a ideia de que o sujeito é múltiplo e se distribui na análise dos acontecimentos é uma forma de ler o papel do sujeito, no estruturalismo. Na filosofia de Deleuze, em sua teoria do conhecimento, o sujeito é concebido a partir do dado e do ultrapassamento do dado, sendo que esse dado é sempre tomado como constituído em agenciamentos de múltiplos elementos. Ou seja, ambos são pensados compondo estruturas múltiplas. Essas ideias estão expressas pela proposta da exterioridade das relações presentes desde a obra sobre David Hume, nos anos 1950, e reaparecerá desde o encontro com Guattari.
Por fim, gostaríamos de destacar aqui uma perspectiva que vai além da exposição dos critérios em que se pode reconhecer o estruturalismo, na direção de pensar sobre como o estruturalismo operaria, enquanto método de análise, em um determinado domínio. Deleuze afirma que
[...] podemos neste ou naquele domínio, extrair os elementos simbólicos, as relações diferenciais e os pontos singulares que lhe são próprios? Os elementos simbólicos se encarnam nos seres e objetos reais do domínio considerado, as relações diferenciais se atualizam nas relações reais entre esses seres, as singularidades são outros tantos lugares na estrutura que distribuem os papéis e as atitudes imaginárias dos seres ou objetos que vem os ocupar (Deleuze, 2002, p. 247).
Elementos simbólicos, relações diferenciais e pontos singulares seriam as etapas a serem pesquisadas, ao se adotar o método estrutural para a leitura de textos filosóficos. Em consonância com essa afirmação, trazemos uma passagem do texto sobre o método de Martial Gueroult7, o qual definia a estrutura como uma ordem das razões e sua operacionalidade:
Ver a estrutura ou a ordem das razões, portanto, é seguir o caminho ao longo do qual as matérias são dissociadas segundo as exigências dessa ordem, ao longo do qual as idéias são decompostas segundo seus elementos diferençais geradores, ao longo do qual esses elementos ou essas razões se organizam em “séries”, havendo também cruzamentos pelos quais as séries independentes formam um “nexus” e entrecruzamentos de problemas ou de soluções (Deleuze, 2002, p. 204).
Guerroult operaria uma análise de Spinoza, a partir do destaque de elementos distintos que compõem uma estrutura a qual funciona e possui um efeito de conjunto. É aqui que talvez tenhamos outro ponto que escapa ao estruturalismo “tradicional”, isto é, é o privilégio que Deleuze dá a esse efeito de funcionamento que seria mais interessante do que os próprios elementos, as relações, os nexus e os entrecruzamentos da estrutura, os quais são os elementos privilegiados pelos estruturalistas.
Deleuze, em Conversações, menciona dois tipos de trabalho que desenvolveu, em história da filosofia: os “retratos mentais” (1992, p. 169) e as “enrabadas” (1992, p. 14). Em ambos os casos, ressalta que faz um estudo do que lhe interessa, nos outros autores, para configurar sua própria filosofia. Ao percorrer todos esses critérios, encontramos algumas correlações entre o que é afirmado como característico do estruturalismo como também estando presente nas próprias definições de noções da filosofia produzida por Deleuze. Nesse sentido, concordamos com Salles de que,
[...] ao buscar encaminhamentos para a questão apresentada e efetuar um exame de caracteres possivelmente comuns a autores tidos como estruturalistas, termina por constituir lhes uma vestimenta que inevitavelmente faz ressoar o próprio filosofar do nosso autor, como de resto ocorre em praticamente todos os seus ensaios de história da filosofia (Deleuze, 2006, p. 222).
Salles foca sua análise na relação corpo-linguagem de Lógica do Sentido; nós aqui focamos na relação com a noção de Ideia de Diferença e Repetição, em ambos os trabalhos, notando que há, de fato, uma espécie de estruturalismo de Deleuze. Peter Pelbart vai na mesma linha, ao salientar:
A estrutura, pois, tal como a entende Deleuze, nada tem a ver com uma forma fixa ou uma essência eternitária (por isso não é abstrata) [...] a leitura mais atenta deixa claro que a noção de estrutura que Deleuze enuncia aí [no texto Em que se pode reconhecer o estruturalismo?] é muito pouco estruturalista e que alguns anos antes [em relação à sua data de publicação] Diferença e repetição ja enunciava praticamente as mesmíssimas características como sendo constituintes da Ideia (Deleuze, 1998, p. 42-43).
Haveria, portanto, uma espécie de estruturalismo à moda de Deleuze, um tipo especial de estruturalismo, o qual seria uma abertura para o encontro com Guattari; todavia, este irá transformar, fazer variar, o seu pensamento. Dosse (2009), em um capítulo de sua biografia cruzada, nos informa que, entre 1966 e 1969, tanto Deleuze quanto Guattari, ainda sem se conhecerem, possuem um entusiasmo pelo estruturalismo, mas eram críticos de suas limitações. Se Deleuze, em suas obras iniciais, tentava articular o estruturalismo com as noções de ideia e de acontecimento, Guattari, em Máquina e Estrutura e outros textos, utiliza uma releitura da noção lacaniana de objeto a para dinamizar o equilíbrio estrutural. Dosse ainda sustenta que a obra conjunta inaugural radicaliza o reconhecimento das limitações do estruturalismo para uma verdadeira oposição.
2 Encontro com Guattari: máquinas contra as estruturas
Guattari tem uma atuação social e política, além de analista em La Borde, na clínica psiquiátrica em Cour-Cheverny, na França, desde os anos 1950. Dentro dessa articulação entre ativismo e clínica, produziu alguns pequenos textos que foram reunidos na obra Psicanálise e Transversalidade (2004), publicado em 1970, mas que reúne textos de 1955 até o ano de lançamento do livro. Esse livro foi prefaciado por Deleuze, que elogia justamente o artigo “Máquina e Estrutura”, que analisaremos a seguir.
Em O Anti-Édipo, primeiro livro da parceria de Deleuze com Guattari, uma máquina irrompe já nas primeiras páginas:
Isso funciona em toda parte: às vezes sem parar, outras vezes descontinuamente. Isso respira, isso aquece, isso come. isso caga, isso fode. Mas que erro ter dito o isso. Há tão somente máquinas em toda parte, e sem qualquer metáfora: máquinas de máquinas, com seus acoplamentos, suas conexões (Deleuze, 2010, p. 11).
Nesse livro, não se tratará mais de relações diferenciais e pontos singulares virtuais e relações diferençais e singularidade atuais, não haverá mais uma estrutura. Agora, são máquinas, com seus acoplamentos de elementos heterogêneos, seus fluxos e cortes de fluxos. As máquinas proliferam em todos os lugares. Não mais o sentido, ou o simbólico. Agora é a questão da produção: “Dado determinado efeito, qual é a máquina que poderá́ produzi-lo? E dada uma máquina, para que ela pode servir?” (Deleuze; Guattari, 2010, p. 13). O que importa, em uma máquina, é o seu funcionamento; assim, a questão do sentido, outrora ligada ao simbólico, passa a ser entendida aqui, nesse novo campo conceitual, como um funcionamento. Afirmam os autores: “O inconsciente não levanta problema algum de sentido, mas unicamente problemas de uso. A questão do desejo não é ‘o que isso quer dizer?’, mas como isso funciona” (Deleuze; Guattari, 2010, p. 149). Nosso argumento aqui é que Guattari é fundamental para essa mudança, e o próprio Deleuze reconhece, no texto “Pensamento Nômade”: “Eu mudei. A oposição superfície-profundidade não me preocupa mais em absoluto. O que me interessa agora são as relações entre um corpo pleno, um corpo sem órgãos, e os fluxos que fluem” (Deleuze, 2006, p. 364).
David Lapoujade corrobora com o argumento aqui defendido, quando compreende a passagem do estruturalismo para o maquinismo como uma necessidade de seguir Guattari, assegurando que Deleuze se interessa por Guattari, pois este o ajudaria a liquidar o problema com que ainda se debatia em Lógica do Sentido, ao “[...] pôr um fim à pergunta ‘o que isso quer dizer?’ e à exigência de sentido que supõe” (2015, p. 142). Esse movimento se realiza, pondo fim à primazia da linguística. Para Lapoujade, há ainda um desdobramento da liquidação, com a criação do conceito de corpo sem órgãos, que serve às máquinas desejantes a fim de não operarem através de um organismo, mas “[...] sim o corpo tal como produzido no e pelo desejo” (2015, p.151).
Por isso, em O Anti-Édipo, o campo conceitual são as máquinas desejantes, noção proposta para os autores se referirem à subjetividade humana e como ela se compõe com os elementos exteriores, ao seu redor, de maneira a produzir desejo. “Édipo” faz referência à psicanálise freudiana que propunha que o inconsciente é um fenômeno restrito à ordem interna do sujeito. Propor um anti-Édipo vem a ser a conexão com o campo social, econômico, político, cultural, no exterior do sujeito, como também enquanto campo de manifestação e interação do inconsciente. Por isso, há a opção pela noção de máquina, que é descrita como possuindo duas caraterísticas importantes: agenciamento de elementos heterogêneos e as suas relações com o que está fora.
Acredito que esse tema que aflora em Anti-Édipo é um desdobramento do último critério para reconhecer o estruturalismo do texto de Deleuze, no qual explicita que o sujeito é “esmigalhado e dissipado” em vários lugares, referindo-se à quebra de uma unidade subjetiva. Essa noção é carregada ao encontro com os pensamentos de Guattari. Este, entretanto, já possui um conceito de máquina operando em sua produção teórica; nesse sentido, a obra Psicanálise e Transversalidade (2004) pode evidenciar como o conceito de máquina vai aparecendo em seu pensamento e como ela influenciou Deleuze.
Há, nos primeiros textos desse livro, um tom crítico para as configurações subjetivas afetadas pela presença das máquinas cibernéticas de calcular, no sentido de que elas passam a formar um significante que concorre para a subjetividade, ao ser um modo de produção de desejo. Nós, humanos, entendidos como “[...] máquinas-consumidoras-de-máquinas-produtoras” (2004, p. 105), passamos a ter com as máquinas uma relação de produção de desejo:
Na ausência de um exército respeitável, de uma igreja e de um deus reconhecidos, de uma ordem social estável, a passagem à adultidade não poderia ocorrer, portanto, sem outro recurso senão o das drogas da sociedade de consumo? Um dado tipo de carro, de parceiro ou de papel que cobiço determinam o modo sob o qual o ‘eu’ me escapa. Eu é um outro (sic). Mas esse outro não é um sujeito. É uma máquina significante que predetermina aquilo que deverá ser bom ou ruim para mim e meus semelhantes nesse ou naquele ambiente potencial de consumo (Deleuze, 2004, p. 127).
As máquinas cibernéticas vão passar igualmente a produzir significante de desejo para a subjetividade humana, em concorrência com as estruturas sociais estáveis. Há aqui, por conseguinte, uma crítica a essas máquinas que possuem uma crescente presença em nossas vidas. A ordem social estável, representada, na passagem, pelo exército, a igreja e deus, são fontes de significantes para as configurações das subjetividades humanas, porém, são lidas por Guattari como fechadas em si mesmas e que repetem, por inércia, seus procedimentos, ou não os modificam fundamentalmente. O estrutural é concebido como um colocar em série elementos heterogêneos e que há um jogo de relações entre essas séries que “explicam” o real.
Guattari passa a ler esse jogo de relações como “fechado em si mesmo” e que não está aberto a elementos exteriores que podem vir e modificar a estrutura interna. O termo “máquina” é tomado emprestado das máquinas cibernéticas e passa a ser utilizado, ante o termo “estrutura”, para apresentar o potencial desejante do inconsciente na irrupção de desejos que escapam à lógica interna das relações estruturais. O tom crítico de “máquina cibernética” que era produtora de significantes, de desejos, passa a ser lido como uma “[...] ruptura maquínica do significante” (Deleuze, 2004, p. 236). E é desse modo que entendemos que da máquina é retido o seu potencial de “ruptura com o significante” estruturado.
Quando o artigo “Máquina e Estrutura” é produzido, parece criar uma relação de complementaridade entre essas noções - uma vez que é argumentado que uma máquina não é separável das articulações estruturais, ao mesmo tempo que toda estrutura é visitada por um espectro de máquina. Por estrutura, Guattari define “[...] um sistema de relações em que uns [elementos] remetem aos outros, e de tal maneira que possa ela mesma ser remetida a outra estrutura” (2004, p. 309) e para quem o sujeito está preso, pois não ultrapassa essa determinação recíproca, estando fechadas em si mesmas.
Como as máquinas possuem um funcionamento que permanece excêntrico, fora do sujeito, o acoplamento humano-máquina marca um “corte” nas cadeias significado-significantes estruturadas e há o irrompimento de um desejo que vem de outros lugares. É o próprio inconsciente se expressará desse modo: “[...] a essência da máquina, como fato de ruptura, como fundação atópica dessa ordem do geral, desemboca na impossibilidade de distinguir, com o passar do tempo, entre sujeito inconsciente do desejo e a própria ordem da máquina” (2004, p. 316). Para o sujeito, o objeto do desejo inconsciente funciona como corte maquínico, como ruptura, com a lógica interna do estrutural. Ressalta Guattari:
Nesta ou naquela etapa da História surge uma focalização do desejo no conjunto das estruturas; propomo-nos a reconhece-lo sob o termo geral “máquina”, quer se trate de uma nova arma, de uma nova técnica de produção, de uma nova axiomática religiosa, de grandes descobertas - a descoberta das Índias, da relatividade, da Lua, da China etc. (Guattari, 2004, p. 317).
Desse modo, o desejo é visto como uma ordem de ruptura com a lógica interna das determinações recíprocas das relações estruturais, como algo que depende do seu contato com o exterior, com o fora. Alliez destaca como o próprio princípio de uma máquina se distinguia da hipótese da estrutura e desprende os laços estruturais, visto que a ruptura passa pelo inconsciente estruturado como uma linguagem, pois Guattari “[...] entende a ruptura significante como uma ruptura subjetiva do significante que não depende mais de ‘efeitos linguísticos’ a-históricos” (Deleuze, 2011, p. 267). Em O Anti-Édipo, as máquinas desejantes em conexão com elementos extrínsecos compondo a subjetividade apareceram desde a primeira página, como frisado anteriormente.
Por diversas vezes, podemos notar a crítica de Guattari às insuficiências conceituais do estruturalismo e o porquê adota o conceito de máquina. No texto, afirma que a máquina permanece excêntrica ao fato subjetivo, pois o subjetivo tece relações com as máquinas em um agenciamento de elementos heterogêneos, enquanto, na estrutura, o fato subjetivo está encerrado nas determinações recíprocas características dos jogos de posição das relações estruturais. Tem-se nesse texto a noção de “corte”, fazendo referência a uma imagem de acoplamento maquínico no qual máquinas conectadas cortam fluxos. Cortar um fluxo é uma modificação do caminho, uma aceleração, ou desaceleração, ou ainda uma interrupção. A estrutura é um sistema fechado de determinações recíprocas de elementos estáticos, enquanto as máquinas são abertas, pois reorganizam seus elementos heterogêneos com o fora, estabelecendo novos fluxos e intercâmbios, em um processo.
Anne Sauvagnargues aponta a complementariedade teórica entre Deleuze e Guattari, ao assumirem o maquínico ante o estrutural:
Guattari desenvolve o conceito de máquina como complemento metodológico ao conceito de estrutura que é posto em prática em Diferença e Repetição e A Lógica do Sentido, o que lhe confere uma eficácia pragmática politicamente orientada e de acordo com a sua atividade militante. Deleuze atribui particular importância a este texto, onde “o mesmo princípio de uma máquina que se liberta da hipótese estrutural e se desprende dos laços estruturais” para apontar a falha do conceito de estrutura: o seu formalismo abstrato. Guattari combina a articulação simbólica da estrutura com um tipo histórico de máquina que é ao mesmo tempo social e político, que ele toma emprestado da história das técnicas. [...] A máquina de Guattari remodela, assim, as formações discursivas em formações não discursivas, e os segmentos tecnológicos estão ligados a tipos de subjetivação social (relações de produção e condições de trabalho) (Sauvagnargues, 2013, p. 83).
Sauvagnargues chega a essa afirmação, enquanto analisa a passagem operada no vocabulário de Deleuze, da noção de interpretação para a de experimentação em arte. A comentadora francesa enfatiza que Deleuze muda sua forma de proceder, saindo de uma referência individual, ou de uma estrutura significante, a serem interpretadas em uma produção artística, para entendê-la como uma atividade produtora, a qual, conectada ao social, experimenta efeitos políticos. A partir do encontro com Guattari, Sauvagnargues destaca como Deleuze, em uma reedição de Proust e os signos, troca a noção de interpretar pela noção de experimentar. Dosse (2009) ainda evidencia que, nessa nova edição, Deleuze adiciona uma segunda parte, chamada “máquina literária”.
Guattari escreveu outro pequeno texto, posterior a esse período, chamado “A propósito das máquinas”8, no qual afirma que seu conceito de máquina não faz alusão às máquinas mecânicas, como os relógios, ou os teares da revolução industrial (que são exemplos de máquinas fechadas). Também não seriam as máquinas ameaçadoras, as quais atacam seus criadores, como nas ficções científicas. Ambas as visões operam com um dualismo que ele quer recusar, aquele do natural contra o artifício, ou do técnico contra o humano. Para o autor, a história da filosofia toma a questão das máquinas como sendo apenas relativa à técnica.
Expandindo a noção para todos os domínios, assevera que usa o termo “máquina” para designar um método que está aberto ao seu meio e mantém relações com componentes sociais e subjetividades individuais. Em sua visão, deveríamos “[...] ampliar esse conceito de máquina tecnológica com o de agenciamentos maquínicos; categoria que inclui tudo o que se desenvolve como máquinas nos diferentes registros e suportes” (Guattari, 2015, p. 90). Logo, não apenas as máquinas precisam ser tomadas como agenciamentos mutantes e que se transformam, como nós mesmos procedemos a acoplamentos e processos de subjetivação com máquinas, nós também compomos máquinas.
Por conseguinte, a “ampliação” citada acima consiste em não mais sustentar certos dualismos, como ser/máquina e ser/sujeito, mas tomar o ser como aquele que se constitui, ao colocar em funcionamento elementos heterogêneos e cortar fluxos, constituindo-se, assim, em subjetividades que se diferenciam qualitativamente sobre uma pluralidade ontológica caótica do mundo. Não é uma metáfora: fazemos máquinas, ao reunir elementos heterogêneos e criarmos uma configuração que funciona em determinado campo. Por isso, as máquinas proliferam nos mais diversos campos: máquinas sociais, como as cidades; máquinas abstratas, como a linguística de Chomsky; células maquínicas, na Biologia; máquinas matemáticas de Turing; máquinas musicais, máquinas cósmicas, máquinas lógicas, máquinas de guerra, máquinas desejantes...
[...] a máquina tem mais do que estrutura. É mais do que estrutura porque não se limita a um jogo de interações, que se dão no espaço e no tempo, entre seus componentes, mas tem um núcleo de consistência, de insistência, de afirmação ontológica, anterior a esse desdobramento em coordenadas energéticas-espaço-tempo [...] A máquina é portadora de uma finitude, de algo da ordem do nascimento e da morte [...] (Guattari, 2015, p. 92).
O início do trecho acima traz a querela que aqui queremos realçar - máquinas contra estrutura. Essa passagem será desdobrada em Caosmose, quando Guattari, avesso ao que chama de “universais”, propõe considerar não mais um “[...] sujeito geral e uma enunciação individuada”, todavia, componentes parciais e heterogêneos de subjetividade (Deleuze, 2012, p. 144). No lugar do sujeito autocentrado, temos a produção de subjetividade, em sua heterogeneidade de componentes, produzida por instâncias individuais, coletivas e institucionais, as quais se articulam de modo polifônico em regime de autopoiese. Essa articulação é “fazer máquina”. As máquinas inclusive acabam, morrem, necessitando fazer surgir outras.
Sua discussão se dá a partir de um diagnóstico teórico ante a psicanálise (na sua segmentação estruturalista), ante a filosofia tradicional e, também, ante um diagnóstico político-social. Por um lado, há uma crítica à noção de sujeito individual e de inconsciente da psicanálise estruturalista. Por outro lado, há uma crítica à padronização da subjetividade pelos fluxos informativos dos mass media e do capitalismo mundial integrado.
Focando aqui no aspecto teórico, a crítica de Guattari será sobre a “escola” de Jacques Lacan de leitura estrutural do inconsciente. Com efeito, identifica na perspectiva lacaniana o predomínio de um significante e uma estrutura da linguagem, com base no estruturalismo da linguagem, em Ferdinand de Saussure, o qual concebeu que “[...] é toda estrutura da linguagem que a experiência psicanalítica descobre no inconsciente” (Lacan, 1998, p. 498). Em Caosmose, Guattari critica o estruturalismo, por “[...] pretender reunir tudo o que concerne a psique sob o único baluarte do significante linguístico” (Deleuze, 2012, p. 15). Para ele, o inconsciente como proposto por Freud, ao longo de sua história, acabou perdendo sua “riqueza efervescente” e, na versão estruturalista, acabou por privilegiar um significante universalizante que unifica as mais diferentes formas expressivas - como a língua, o gesto, o cinema, o urbanismo -, reduzindo a complexidade heterogênea a uma traduzibilidade geral do significante. Nas palavras do próprio autor:
Ainda mais do que a subjetividade das sociedades arcaicas, os agenciamentos maquínicos contemporâneos não tem referente padrão unívoco. Todavia estamos muito menos habituados à irredutível heterogeneidade - e mesmo ao caráter de heterogênese - de seus componentes referenciais. O Capital, a Energia, a Informação, o Significante são algumas das categorias que nos fazem acreditar na homogeneidade ontológica dos referentes biológicos, etológicos, econômicos, fonológicos, escriturais, musicais etc. (Deleuze, 2012, p. 60).
Se, na citação do texto dos anos 1960, eram o exército, a igreja e deus que formavam uma ordem social estável significante, aqui aparecem o Capital, a Energia, a Informação, os quais pretendem ser universais, ao reduzirem a heterogênese complexa da realidade. O Significante linguístico pensado como categoria operativa do inconsciente, para Lacan, não é atento às variações, aos complexos heterogêneos e à autopoiese do inconsciente maquínico e aos processos de singularização propostos por Guattari, nessa obra.
Chega-se a uma afirmação fundamental: “A máquina será doravante concebida em oposição à estrutura” (Guattari, 2012, p. 68). Os processos maquínicos não são eternos, mas surgem, duram um tempo e morrem. Além de serem autopoiéticos, eles engajam processos de heterogênese. Em uma citação mais acima, aparece o nome de Varela; trata-se de Francisco Varela, o qual, juntamente com Humberto Maturana, influenciou a perspectiva de Guattari na proposição de que os processos maquínicos são autopoiéticos, porque Guattari se apropria da proposta dos autores de que os seres vivos seriam autopoéticos e estende isso para as máquinas e aos acoplamentos máquinas-humanos, criando assim uma ideia ampliada de maquinismo:
Trata-se de algo mais dinâmico, que gostaria de situar no registro da máquina, que oponho aqui ao da mecânica. E foi na condição de biólogos que Humberto Maturana e Francisco Varela formularam o conceito de máquina autopoiética para definir os sistemas vivos. Parece-me que sua noção de autopoiese, como capacidade de auto reprodução de uma estrutura ou de um ecossistema, poderia ser proveitosamente estendida as máquinas sociais, as máquinas econômicas e até mesmo as máquinas incorporais da língua, da teoria, da criação estética. O jazz, por exemplo, se alimenta ao mesmo tempo de sua genealogia africana e de suas reatualizações sob formas múltiplas e heterogêneas (Guattari, 2012, p. 108).
Na frase, acompanhamos mais uma tentativa de definição do que seria o maquínico, para Guattari; no caso aqui, além do acoplamento de elementos heterógenos e o funcionamento por fluxo e corte de fluxo, temos a ideia de autocriação. Não podemos deixar de notar que as máquinas passam a ser o modo de pensar a própria realidade e o funcionamento do pensamento. Dessa forma, referem-se ao subjetivo, ao pensamento, mas também ao social, ao econômico, ao estético. Assim constituída, percebemos claramente a influência de Guattari, na produção conjunta com Deleuze, o privilégio de entender o inconsciente como um processo maquínico em O Anti-Édipo. Depois dessa obra, o maquínico aparecerá nas outras obras conjuntas dos autores: na constituição de uma leitura de Franz Kafka, como uma máquina de produção literária; na noção de rizoma, presente em Mil Platôs, como um operador do pensamento que atravessa o heterogêneo, a partir de suas conexões; e, por fim, a própria definição de filosofia, como criação conceitual, na última obra escrita em conjunto pelos filósofos.
3 A criação conceitual
Deleuze e Guattari, no final de suas vidas filosóficas, produziram O que é a Filosofia? (1992), quando já tinham idade suficiente para dizer o que fizeram a vida toda. Nesse texto, o que temos são os conceitos, mais precisamente, a criação dos conceitos. Porém, os conceitos são descritos de modo bastante próximo das características empregadas acima para o maquínico, afinal, eles são concebidos como formados por agenciamento de elementos heterogêneos em relação. Eis um dos momentos em que podemos encontrar o núcleo definicional do conceito: “Um conceito é um conjunto de variações inseparáveis, que se produz ou se constrói sobre um plano de imanência, na medida em que este recorta a variabilidade caótica e lhe dá consistência (realidade)” (Deleuze; Guattari, 1992, p. 245).
Para eles, a filosofia é criadora de conceitos: não é reflexiva, nem contemplativa, nem comunicativa. Mas então, o que seriam os conceitos? Estes são formados por um conjunto de diferentes elementos que, em variações inseparáveis, traçam um sentido e, por isso, possuem consistência. E os conceitos são criados por quê? O pensamento cria, porque é acossado por um caos que precisa atravessar. No caos, as determinações se criam e se apagam, em velocidades infinitas, mais rápidas que o pensamento; é a variabilidade caótica que aparece na citação acima. O caos caotiza, desfaz toda consistência nessa velocidade infinita que dissipa tudo o que nele se esboça. O filósofo pode estabelecer uma relação de criação com esse caos, ou seja, pode criar com consistência, mas Deleuze e Guattari pedem que também se mantenha uma relação com esse caos, para funcionar como um fora do pensamento e, assim, como fonte de variações no pensamento, de sorte a forçá-lo a pensar o novo.
A criação filosófica opera através de três fluxos criativos: os conceitos propriamente ditos, mas também a constituição de um plano de imanência e de personagens conceituais. Plano de imanência é definido como o recorte que se opera e a partir do qual se pode pensar. Ele é definido como uma “imagem do pensamento”, termo bastante caro a Deleuze e recorrente em suas obras, significando “[...] a imagem que ele se dá do que significa pensar, fazer uso do pensamento, se orientar no pensamento” (Deleuze; Guattari, 1992, p. 47). Dentro dessa perspectiva de definição do conceito em relação ao plano de imanência, aparece uma das poucas citações ao termo “máquina” nessa obra:
Os conceitos são agenciamentos concretos como configurações de uma máquina, mas o plano é a máquina abstrata cujos agenciamentos são as peças. Os conceitos são acontecimentos, mas o plano é o horizonte dos acontecimentos, o reservatório ou a reserva de acontecimentos puramente conceituais (Deleuze; Guattari, 1992, p. 46).
A essa altura do texto, o exemplo dado pelos filósofos é uma imagem para o “retrato maquínico de Kant” e fazem referência à exposição Os filósofos, de Jean Tinguely, que produziu “[...] monumentais retratos maquínicos dos filósofos” (Deleuze; Guattari, 1992, p. 69)9. A máquina abstrata é o plano de imanência no qual se inscrevem os conceitos, eles mesmos máquinas, por reunirem elementos heterogêneos em funcionamento que formam um conjunto maquínico.
Os conceitos aqui possuem duas características já traçadas em outros momentos deste texto e que são relativos a momentos da filosofia de Deleuze e de Deleuze com Guattari, a saber, agenciamento e acontecimento. Agenciamento se configura nas relações de acoplamento entre elementos heterogêneos. Acontecimentos são os efeitos de superfície que fazem sentido e que mostram uma mudança qualitativa, em face ao estado de coisas e ao pensamento. É possível notar os campos problemáticos que a filosofia de Deleuze e de Deleuze com Guattari vão enfrentando, e podemos ir recolhendo as características que estamos aqui defendendo como fazendo parte de uma mudança no paradigma metodológico. As ideias, inicialmente definidas sob influência de um estruturalismo, tinham a característica de serem acontecimentos de superfície, com seu sentido extraído das relações que estabelecem entre elementos em posição serial, para enfrentar o problema da filosofia representacional.
O maquínico, por sua vez, é introduzido como uma forma de apontar que essas relações escapam por todos os lados, que elas podem ser assignificantes e que, portanto, se configuram como acoplamentos de heterogêneos em articulação com o fora e o novo, respondendo a problemas relativos a um significante dominante e os significantes dos mass media. Os conceitos são construções de termos, ou noções, que carregam um sentido produzido por um filósofo, constituído de elementos heterogêneos em variações inseparáveis que possuem consistência, possuem sentido, ante um caos, tido como desprovido de determinações localizáveis e suficientemente estáveis para serem pensáveis.
Considerações Finais
Este artigo tem a proposta de pensar a filosofia desses autores como variando entre uma posição mais estruturalista de Deleuze, em seus escritos, produzidos apenas por ele, para uma posição maquínica, praticada por ambos, a partir do encontro. Mais notadamente, este texto pretendeu demonstrar a importância conceitual do legado de Guattari, nessa variação.
Se fossemos pensar em termos cronológicos o contexto do que descrevemos aqui, poderíamos sustentar que existe o estruturalismo, influente na França, no começo da carreira de Deleuze. O filósofo parece se apropriar das suas ideias e método, capturando o estruturalismo e criando uma leitura própria dele. Por exemplo, o comentador James Willians (2012) defende que o texto de Deleuze é sobre o estruturalismo, mas também sobre como sua leitura o fez criar um pós-estruturalismo. Tal gesto acaba por distanciá-lo dos estruturalistas e abrir suas perspectivas para novas possibilidades de produção filosófica. Guattari apresenta essas novas possibilidades, já que vai além, e atesta as insuficiências do estruturalismo, preferindo a noção de máquina como princípio metodológico. Quando se encontram, uma variação se opera no modo de pensar de Deleuze.
O que propomos aqui contraria a afirmação de Machado (1990, p. 161):
Sem dúvida alguns conceitos, e sobretudo a terminologia, têm variado durante todos esses anos de atividade filosófica. As modificações, no entanto, são secundárias para quem pretende compreender sua démarche filosófica em toda sua amplitude. O essencial do projeto de crítica da filosofia da representação [...] e o modo como Deleuze o realiza [...] permaneceram praticamente invariáveis.
No nosso entender, as modificações nos seus conceitos são o foco de Deleuze, como ele mesmo frisa, na citação que destacamos logo no início, que seu pensamento possui variações, sendo estranho, portanto, permanecer invariável o seu método. O encontro com Guattari é significativo, nesse contexto, pois o faz reorganizar os seus conceitos em função de um outro plano de pensamento, a partir de outros campos problemáticos. Com Guattari, Deleuze passa a agenciar os seus conceitos de outra maneira, e a estrutura dá lugar à máquina, não havendo um “essencial” que se mantém.
Acreditamos que essa pesquisa possa auxiliar aos interessados na obra de Deleuze e Deleuze com Guattari a perceberem as variações, ao trazer à tona processos argumentativos de diferentes períodos de suas obras e também para não minimizar um papel determinante de Guattari, na produção filosófica de Deleuze.
Referências
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- DELEUZE, Gilles. L’Île Désert. Texts et entretiens - 1953-1974. Edition preparé par David Lapoujade. Paris: Les Éditions de Minuit, 2002.
- DELEUZE, Gilles. Lógica do sentido. Trad. Luiz Roberto Salinas Fortes. São Paulo: Perspectiva, 2007.
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- GUATTARI, Félix. Caosmose. São Paulo: Editora 34, 2012.
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- HASEGAWA, Tomotaro. Le symbolique, une structure plus profonde que la réalité et son apparition la lecture deleuzienne du structuralisme. Résonances, n. 11, p. 17-28, 2020.
- LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.
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- PELBART, Peter. O tempo não-reconciliado. São Paulo: Perspectiva: Fapesp, 1998.
- RAGUSA, Pedro. O estruturalismo em Deleuze: a estrutura simbólica. Revista de Teoria da História, v. 22, n. 02, dez. 2019.
- SALES, Alexandre de Carvalho. Deleuze e a Lógica do Sentido: o problema da estrutura. Trans/Form/Ação, São Paulo, v. 29, n. 2, p. 219-239, 2006.
- SAUVAGNARGUES, Anne. Deleuze and art. Londres: Bloomsbury studies in continental philosophy, 2013
- WILLIAMS, James. Pós-Estruturalismo. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes. 2013.
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2
Lançado orginalmente em 1969, como fruto de seu doutoramento.
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3
Publicado originalmente em 1969.
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4
Lançada originalmente em 1972.
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5
Obra publicada originalmente em 1991.
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6
Escrito de 1967, mas publicado em 1972, na História da Filosofia, de François Chatelet; posteriormente, republicado na coletânea L’Île Désert (2002), por David Lapoujade, que utilizaremos neste artigo.
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7
Esse texto também foi lançado originalmente em 1969, na Revue de métaphysique et de morale, v. LXXIV, n. 4, p. 426-437, oct./nov. 1969 (Deleuze, 2002, p 407).
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8
Publicado na Revista Chimeres, n. 19, de 1993, após a morte do autor, mas o texto é a transcrição de uma conferência dada em Valencia, em novembro de 1990.
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9
As obras expostas no museu Georges Pompidou, no ano de 1988, podem ser visitadas on-line atualmente, na página do museu Tinguely, no endereço https://www.tinguely.ch/en/tinguely-collection-conservation/collection.html?period=1987-1991. Acesso em: 27 ago. 2024.
