Open-access Voz ativa, voz passiva, voz narrada: a diáspora dos courás no escravismo atlântico

Active Voice, Passive Voice, Narrated Voice: The Diaspora of the Courás in Atlantic Slavery

Voz activa, voz pasiva, voz narrada: la diáspora de los courás en el esclavismo atlántico

De reino traficante a povo traficado. : a diáspora dos courás do golfo do Benim para Minas Gerais (América Portuguesa, 1715-1760).Maia, Moacir Rodrigo de Castro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2022. 304

Maia, Moacir Rodrigo de Castro. De reino traficante a povo traficado: a diáspora dos courás do golfo do Benim para Minas Gerais (América Portuguesa, 1715-1760). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2022. 304 p.

Há alguns anos, a historiografia brasileira tem se preocupado com a temática dos grupos étnicos, não obstante essa noção ter sido inicialmente mais explorada pela Antropologia. Tema que coube bem à ampliação do escopo documental e metodológico praticado pela historiografia, especialmente após a década de 1980. Compreendeu-se que é na observação do cotidiano e nas dinâmicas de sociabilidade (AGULHON, 1968) que pode ser identificada a configuração de grupos e de identidades étnicas. As pesquisas que tratam disso têm esmiuçado os padrões de representação, as manifestações públicas e a construção de laços e de clivagens que evidenciam a formação de identidades étnicas, sobretudo no contexto do escravismo colonial. Têm sido uma forma de observar os meios de articulação pessoal e coletiva promovidos pelos escravizados em função de seus interesses.

Considerando o lastro dessa discussão na historiografia brasileira, agora convém pensar na possibilidade de sua ampliação: os processos de (re)configuração e identificação étnica dizem respeito tão somente às dinâmicas culturais dos africanos escravizados?1 O livro De reino traficante a povo traficado dá bons indícios de que as identidades étnicas no contexto do escravismo atlântico atuaram como resposta ao processo histórico que se desenvolvia e, ao mesmo tempo, mostra como tiveram participação nele. Embora esses indícios não sejam particularmente inéditos em pesquisas de semelhante teor, são notórios no livro de Moacir Maia as contribuições à historiografia. Se Carlos Líbano Soares, ao resenhar o Devotos da cor, de Mariza Soares, em 2001, identificou nessa obra um aceno ao futuro dos estudos sobre a diáspora africana e a escravidão atlântica, o livro de Maia certamente é testemunho de que aquele futuro anunciado já se tornou o nosso presente vivido. Um presente de verticalização dos estudos sobre a história cultural da escravidão, mas não somente.

Partindo da conhecida história de Rosa Egipcíaca, o autor introduz o universo das Minas setecentistas, tratando das trajetórias de vida de três mulheres africanas ex- -escravizadas, para, somente depois, viajar a um passado mais remoto e tratar do povo de onde Rosa teria vindo. Em comum às três mulheres estava a procedência courana. Esse grupo étnico foi indicado muitas vezes nos registros de batismo, de casamento, testamentos e assentos confraternais em Vila do Carmo/Mariana e em Vila Rica, ao longo do século XVIII. Daí teria sido despertado um dos motivos que nutriu a pesquisa de Maia, qual seja, a busca pelo local exato de onde teriam partido os africanos courás e a história desse povo diante da expansão da escravidão atlântica.

O estudo sobre a diáspora africana viabiliza a análise da provável procedência dos indivíduos postos em cativeiro, das identidades atribuídas pelo tráfico e construídas durante as travessias, e das (re)apropriações dos etnônimos pelos escravizados. Por isso, diversos autores têm dado destaque aos estudos de Fredrik Barth para compreender e identificar os grupos étnicos e suas fronteiras, o que tem permitido observar as alianças e as clivagens étnicas variáveis na diáspora, já que os etnônimos, embora não traduzissem as origens exatas dos indivíduos, viabilizavam a construção de novas identidades, que podiam ser modificadas ou justapostas, a depender das situações. Moacir Maia verticaliza essa proposta teórico-metodológica quando observa as redes de sociabilidade de um grupo particular, comumente reconhecido como proveniente da Costa dos Escravos.

Mas essa Costa, que aos colonos serviu como ponto de referência para uma região bem mais ampla, era diversificada em grupos étnicos, cada qual com seus próprios estados, cidades e portos. Alguns registradores tiveram o cuidado de indicar nos assentos a especificidade desse grupo étnico, segundo o levantamento documental do autor. Na busca pelo exato local de procedência dos courás, e através de meticuloso cruzamento entre relatos de viajantes e documentação arquivística, Moacir Maia identificou que o etnômio courá/coirá/courana referia-se especificamente ao reino Uidá (ao qual os portugueses se referiam como Ajudá), na chamada Costa da Mina. Foi a pesquisa sobre a história dessa localidade que viabilizou sua identificação como o local de procedência dos courás, bem como as trajetórias dos courás ajudaram a descortinar Uidá. Uidá era o reino traficante que passou a ser povo traficado, em razão da comercialização atlântica dos africanos escravizados.

É no primeiro capítulo, “Uidá: de reino traficante a povo traficado”, que o autor apresenta o dito estado, através de suas atividades comerciais, de sua composição étnica e, especialmente, de sua localização. O porto desse reino interessou sobremaneira ao reino daomeano (localizado mais a leste da costa), que, diante da expansão do tráfico de escravos, dominou e submeteu o reino de Uidá. Esse conflito pôs em exílio e carestia o povo do anterior reino traficante, que então se viu submetido ao lucrativo negócio atlântico de escravizados. O autor mostra a interferência da expansão do tráfico nas dinâmicas de comércio e de diplomacia entre os estados africanos do século XVIII: o interesse nos auspícios desse mercado motivou o poderoso reino do Daomé a conquistar um reino de localização fundamental para o sucesso no comércio de escravizados, como era o caso de Uidá.

No capítulo dois, “Uma identidade africana e sua metamorfose: do golfo do Benim para as Minas do Ouro”, Moacir Maia retoma as origens étnicas de Uidá. As adaptações fonéticas sofridas pelos termos que diziam sobre a identidade desses povos, a partir das diferentes pronúncias no inglês, no francês e no português, acabaram por modificar significativamente os etnônimos originais. O autor demonstra, no entanto, que a perseguição dessas adaptações fonéticas evidencia que os etnônimos utilizados pelo tráfico guardavam relações íntimas com as línguas nas quais se originaram, e que esse processo de modificação fonética é uma marca sensível do processo de expansão do tráfico. Tanto é assim que, já nas Minas Gerais do século XVIII, uma diversidade maior de registros da procedência específica dos africanos havia sido feita nas primeiras décadas da centúria, enquanto, nos períodos posteriores, os etnônimos se diluíram em categorias mais genéricas, em função da mudança na preferência do tráfico para a África Centro-Ocidental, além da crise da exploração aurífera.

É diante dessas circunstâncias que, no terceiro capítulo, “Tecendo redes de parentesco: as relações entre courás no batismo cristão em Vila Rica e Mariana”, Maia aborda a construção dos laços de parentesco entre os courás habitantes das duas principais localidades auríferas da capitania. A obrigatoriedade do batismo aos africanos escravizados fez que se criassem nas vilas redes de dependência e de solidariedade a partir do apadrinhamento dos cativos. Para o autor, “havia forte evidência de que a escolha do padrinho para o escravo adulto tinha por base o componente identitário” (MAIA, 2022, p. 172). Maia defende esse argumento recorrendo à microanálise das vidas e das redes sociais de africanos courás que apadrinharam ou foram apadrinhados por pessoas do mesmo grupo étnico. A opção metodológica é realmente mais elucidativa, uma vez que a exposição apenas quantitativa dos dados, também feita pelo autor, abre espaço para questionamentos, como, por exemplo, se a escolha pelo apadrinhamento entre pessoas do mesmo grupo étnico ou do mesmo grupo de procedência (incluindo aí os courás) se dava por decisões identitárias ou pela maior disponibilidade dessas categorias entre os africanos das Minas Gerais.

Mas é no quarto capítulo, “Reforçando a identidade e a autoridade: as casas dos libertos courás”, que Moacir Maia demonstra de forma aprofundada a sociabilidade entre os africanos courás que, através das relações de compadrio, de solidariedade ou de cativeiro, manifestavam a sua identidade. As relações de compadrio e mesmo as de cativeiro, ou seja, ex-escravos courás senhores de courás cativos, segundo o autor, constituíram nas vilas mineiras ambientes domésticos que reuniam pessoas desse grupo étnico. Nesses espaços, devido à variedade de hierarquias constitutivas (senhores e escravizados), a identidade courá se reconfigurava mesmo entre indivíduos de mesma procedência. O contraste e o confronto no interior do grupo étnico courá, bem como entre os courás e outros grupos, forjavam cotidianamente a identidade courana – era à luz dessas (re) configurações que essas pessoas viviam e se organizavam, segundo o autor.

A partir daí, no quinto e último capítulo, “A inserção religiosa dos courás: acotundá, gameleira e irmandades católicas”, Maia identifica na religiosidade uma das forças que convergiam os courás em Minas Gerais. Em alguns casos, uma religiosidade naturalmente sincrética, que absorvia o catolicismo sem perder de vista o antigo zelo pelas entidades africanas do golfo do Benim. Mais interessante é que, não obstante as práticas sincréticas reputadas aos courás, eles se mantiveram numerosos e protagonistas na direção das confrarias negras, com destaque para as de Nossa Senhora do Rosário. O enredo sobre as trajetórias das personagens couranas selecionadas por Maia, dignas de nota, é construído de modo complexo. Muitas vezes, o autor se utiliza da exposição quantitativa, mas são nas minúcias das redes de sociabilidade que se mostram as articulações entre os escravizados e libertos courás sob a infeliz égide do escravismo, assim como outros autores têm feito em estudos igualmente produtivos (PARÉS, 2014).

Ao final da narrativa, um tanto prazerosa e que transporta com gentileza o leitor entre as costas do sul do Atlântico e o interior da América portuguesa, é destacada pelo autor a “herança imaterial” dos courás, apoiando- -se em um clássico da micro-história italiana (LEVI, 2000). A prática religiosa sincrética, que coaduna as permanências originárias dos africanos e a inserção dos couranos no seio do catolicismo mineiro (através do batismo e do assento confraternal), se tornou identificadora da organicidade dessa identidade étnica. Mais do que contribuir para o entendimento do “lugar da cultura na definição dos grupos étnicos” (MAIA, 2022, p. 257), o livro de Moacir Maia fornece subsídio para compreender o papel da (re)configuração étnica diante do desenvolvimento do escravismo atlântico. Ao longo do livro, Maia mostra que, participantes ativos nesse “infame comércio” desde os fins do século XVII, os courás mantiveram-se presentes e atuantes, como por exemplo, enquanto escravizados, enquanto ex-escravizados e enquanto senhores de cativos também courás.

À medida que o tráfico atlântico e a diáspora impunham a necessidade de rearticulação a esse grupo ético, os courás marcavam cotidianamente o escravismo por meio de suas prósperas redes de sociabilidade.

De reino traficante (um estado na voz ativa), Moacir Maia mostrou como o povo identificado como courá foi submetido a um outro estado, em função da ampliação do tráfico atlântico, mormente após as descobertas auríferas nas Minas Gerais. O reino passa, então, a povo traficado, assim referenciado pelo autor na voz passiva. A descoberta do exato local que teria originado o etnônimo courá permitiu que esse povo, da referência na voz ativa para a referência na voz passiva, tivesse, por fim, uma voz narrada pela pesquisa histórica. Se, ao final dessa narrativa, os courás foram identificados pelo autor “enquanto sujeitos de sua história”, a sociabilidade praticada por esses indivíduos (em suas diversas formas), dada a partir do etnônimo em comum, extrapola a função de meio de convergência interno ao grupo étnico para se tornar um intermédio de atuação pessoal e coletiva no contexto do escravismo. A meu ver, esta é uma das contribuições mais produtivas oferecidas por Maia à historiografia da escravidão moderna e da diáspora africana: as (re)configurações étnicas como meio de coesão e de impacto nas dinâmicas do escravismo atlântico.

  • 1
    Essa indagação parte necessariamente da definição de cultura desenvolvida por Eunice Ribeiro Durham (2004, p. 231).

Referências

  • AGULHON, Maurice. Pénitents et Francs- Maçons de l'ancienne Provence. Essai sur la sociabilité méridionale Paris: Fayard, 1968.
  • DURHAM, Eunice Ribeiro. A dinâmica da cultura: ensaios de antropologia. Organização: Omar Ribeiro Thomaz. São Paulo: Cosac Naify, 2004.
  • LEVI, Giovanni. A herança imaterial: trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
  • PARÉS, Luis Nicolau. Milicianos, barbeiros e traficantes numa irmandade católica de africanos minas e jejes (Bahia, 1770-1830). Tempo, Rio de Janeiro, v. 20, p. 1-32, 2014.
  • SOARES, Carlos Eugênio Líbano. Um Rio de impérios e “nações”. Tempo, Rio de Janeiro, v. 6, n. 12, p. 181-183, 2001. Disponível em: https://www.historia.uff.br/ tempo/resenhas/res12-2.pdf Acesso em: 3 jun. 2024.
    » https://www.historia.uff.br/ tempo/resenhas/res12-2.pdf
  • SOARES, Mariza de Carvalho. Devotos da cor: identidade étnica, religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro, século XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
  • Editoras responsáveis: Luiza Larangeira e Silvia Liebel

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    23 Set 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    03 Abr 2023
  • Aceito
    23 Ago 2023
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