Open-access Visões que sustentam discursos ouvintistas: o exemplo de duas reportagens televisivas

Views underlying audist discourses: the example of two television reports

Resumo

Este trabalho está norteado por dois objetivos: o primeiro é apresentar alguns elementos gerais que constroem discursos ouvintistas, à luz da análise do texto verbal de duas reportagens televisivas, com base no chamado “nível narrativo” da semiótica francesa; o segundo é voltado à análise dessas reportagens, a fim de depreender os temas ouvintistas nela presentes. As reportagens em questão foram veiculadas nos programas Domingo Espetacular, da TV Record e Jornal Hoje, da TV Globo. Ambas apresentam histórias de crianças que receberiam implantes cocleares. Cabe dizer que o trabalho é parte de uma pesquisa maior que se propõe a analisar textos, discursos, percepções e atitudes sobre a surdez e as línguas sinalizadas. A análise demonstra que há, como fio condutor das reportagens, a ideia da surdez como um problema a ser dirimido, aliada a uma concepção de “renascimento” a partir do momento em que se passa a ouvir.

Palavras-chave
ouvintismo; estudos surdos; discurso; visões sobre a surdez

Abstract

This study has two main objectives. The first is to outline some of the general elements that shape audist discourses, through an analysis of the verbal text in two television reports, using the “narrative level” framework of discourse semiotics. The second is to examine these reports in order to identify the audist themes they convey. The reports were broadcast on Domingo Espetacular (TV Record) and Jornal Hoje (TV Globo), both telling stories of children who were about to receive cochlear implants. This work contributes to a broader research effort that investigates texts, discourses, perceptions, and attitudes toward deafness and sign language. The analysis shows that both reports are structured around the idea of deafness as a problem to be solved, intertwined with a notion of “rebirth” that begins once hearing is restored.

Keywords
audism; deaf studies; discourse; views on deafness

INTRODUÇÃO: SITUANDO O TRABALHO E APRESENTANDO A NOÇÃO DE OUVINTISMO

Este trabalho tem dois objetivos. O primeiro é identificar e descrever alguns elementos gerais que constituem discursos ouvintistas, com base na análise do texto verbal de duas reportagens televisivas, a partir do chamado “nível narrativo” da semiótica francesa. O segundo objetivo consiste em examinar essas reportagens para depreender os temas ouvintistas nelas presentes. As reportagens analisadas foram exibidas nos programas Domingo Espetacular, da TV Record (DOMINGO ESPETACULAR, [s.d.].), e Jornal Hoje, da TV Globo (JORNAL HOJE, [s.d.]). Ambas relatam histórias de crianças que receberiam implantes cocleares.

O artigo se situa no campo da Linguística Aplicada, já que compreende a linguagem como prática social e investiga como discursos midiáticos constroem e disseminam ideologias sobre a surdez. Ao se debruçar sobre reportagens televisivas, buscamos evidenciar como o chamado ouvintismo é reproduzido, contribuindo para a manutenção de relações de poder que marginalizam sujeitos surdos e invisibilizam as línguas de sinais. É nesse sentido que o estudo se articula a perspectivas críticas da Linguística Aplicada, voltadas à problematização de desigualdades sociais mediadas pela linguagem. Os resultados aqui apresentados têm implicações para a compreensão crítica do papel da mídia na construção de representações sobre a surdez, especialmente no que diz respeito à reprodução de ideologias que podem impactar práticas sociais, educacionais e linguísticas voltadas às pessoas surdas.

O termo “ouvintismo” vem sendo trabalhado por alguns autores. Trata-se da discriminação de pessoas em função de sua condição de surdez (Humphries, 1975 apud Bauman, 2004) e também de “um conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo está obrigado a olhar-se e narrar-se como se fosse ouvinte” (Skliar, 1998, p. 15). Humphries (1975), cunhador do termo, também coloca que o ouvintismo emerge, ainda, quando “se presume que a felicidade da pessoa surda depende da aquisição da fluência na língua da cultura ouvinte” (Humphries, 1975 apud Bauman 2004, p. 240, tradução nossa). Está na raiz do ouvintismo a ideia de que a vida sem ouvir é fútil, ou triste; que a vida sem ouvir é uma tragédia (Pelka, 1997). Em decorrência desse posicionamento, observa-se uma valorização excessiva, por parte do ouvintismo, do uso da audição residual, da fala e da leitura orofacial por pessoas surdas (Reed; Teuber apud Pelka, 1997). Segundo Perlin (2016, p. 59), o ouvintismo está enraizado na hegemonia ouvinte, considerando que, “o ouvinte estabelece uma relação de poder, de dominação em graus variados, em que predomina a hegemonia por meio do discurso e do saber”. Lane (1992) descreveu o ouvintismo numa esfera menos individual e mais geral como uma maneira de dominação dos surdos pela sociedade ouvinte, ideia que se sustenta a partir da observação de que ambientes próprios para pessoas surdas são limitados.

A partir dessas definições, propomos que o ouvintismo pode ser definido como a perspectiva ideológica que considera a vivência e os referenciais dos ouvintes como normativos e hierarquicamente superiores, o que acaba por marginalizar as experiências e identidades surdas. Trata-se de um fenômeno associado à dominação linguística e cultural que desvaloriza e até mesmo apaga as línguas sinalizadas e impõe a oralidade como padrão.

O discurso sobre a surdez permanece amplamente ancorado em concepções ouvintistas, ainda que haja um aumento dos esforços de visibilização das comunidades surdas — evidenciado tanto pela presença de narrativas surdas na mídia quanto por políticas públicas, especialmente educacionais e linguísticas, direcionadas aos surdos.

Segundo Almeida (2024), a partir de uma perspectiva ouvintista, a surdez é concebida como algo a ser superado, o que resulta na invisibilização da experiência surda enquanto diferença, entendida como um modo específico de viver e de experienciar o mundo. Assim, em uma sociedade majoritariamente ouvinte, a surdez tende a ser interpretada como deficiência ou falta, o que motiva a adoção de práticas voltadas à eliminação dessa suposta carência, ainda que de forma parcial, por meio de tentativas de aproximar o indivíduo surdo do padrão ouvinte, tomado como norma, ao passo que o surdo é discursivamente construído como desvio. Nesse contexto, a sociedade ouvintista busca, portanto, “normalizar” o sujeito surdo.

A concepção da surdez sob o prisma da falta ou da deficiência se relaciona à negação do estatuto linguístico das línguas de sinais, frequentemente tratadas como formas “menores” de comunicação ou como meros sistemas de gestos (Almeida, 2024). Nas palavras de Krausneker (2015, p. 418, tradução nossa) “Em algum momento, a ideologia que considera a audição como essencial e percebe as formas de entender o mundo através da audição como superiores volta-se contra qualquer coisa que questione isso, como as línguas de sinais”1.

Ao longo da História, tentou-se “amenizar” a surdez de uma forma ou de outra. Num primeiro momento, ganhou força o oralismo, conjunto de métodos de ensino de surdos que consistia em focar a sua educação em aprender a “oralizar”, isto é, a produzir língua na modalidade oral e/ou “ler os lábios”2. Se os surdos não podiam ouvir, que ao menos pudessem falar (ideia que se ligava também ao fato de que se entendia que as línguas eram necessariamente orais). Então, se o “poder-ouvir” não podia ser atingido, entrou em cena a ideia de que o surdo “deveria-falar”. A fala seria um meio do caminho entre o que era considerado ideal e normal e a surdez. Mais recentemente, esse “poder-ouvir” aparece figurativizado em tecnologias tais como os aparelhos auditivos ou implantes cocleares.

Convém destacar que em nenhum momento nos colocamos como ferrenhos opositores de tais tecnologias, mas é inegável seu caráter normalizador. Ademais, em termos de textos e discursos, abundam aqueles que as colocam como “salvadoras” e único potencial de uma vida plena do sujeito surdo, como se pode ver no exemplo extraído de uma das reportagens analisadas.

Neste contexto, é relevante tentar entender como os discursos ouvintistas se organizam e, para tanto, este trabalho emprega como percurso teórico-metodológico a semiótica francesa (Greimas; Courtés, 2008 [1979]), focando na especificamente as categorias de análise provenientes do chamado “percurso gerativo do sentido”3, mais especificamente pensando no nível narrativo e, em menor grau, no nível fundamental; isso é feito na próxima seção. Na seção seguinte, o foco está no nível discursivo do percurso, na depreensão dos temas que emergem dos textos analisados.

O percursos gerativo do sentido é tanto um modelo de geração do sentido quanto um modelo analítico (Almeida, 2021). São muitas as categorias que compõem esse modelo, estabelecidas nos níveis que acabamos de mencionar (fundamental, narrativo, discursivo), sendo que a proposta é que o sentido se constrói de um patamar mais simples e abstrato e vai se se complexificando/concretizando. A Figura 1, a seguir, pode ajudar a compreender essa ideia:

Figura 1.
Percurso gerativo do sentido

Almeida (2021), para explicar brevemente o funcionamento do percurso gerativo do sentido, propõe o seguinte breve texto como exemplo:

Ana não aguentava mais as picadas de pernilongo, nem o galo cantando às 4:30. Queria mesmo o barulho das sirenes e das buzinas de São Paulo, seus companheiros há tanto tempo que já não a incomodavam; pelo contrário: traziam o alento de estar na civilização. Queria seu apartamento sem insetos, sem nenhum tipo de animal. Aquele cheirinho de Veja Multiuso e não esse de estrume do sítio da avó. Arrumou as malas, deu uma desculpa para os parentes e caiu na estrada rumo à selva de pedra, o paraíso.

O nível narrativo na semiótica francesa não tem a ver com “narrativa” no sentido de “um texto narrativo”, uma história relatada, mas sim “de uma organização narrativa que está ‘por trás’ de todos os tipos de textos” (Almeida, 2021).

Segundo Almeida (2021),

Esse nível costuma ser formulado em termos de transformações, envolvendo o ponto de vista de um Sujeito que está em busca de um Objeto [...]. Sujeito e Objeto são apenas “posições” gramaticais que serão preenchidas diferentemente em cada texto, assim como acontece na gramática da frase. Por exemplo, uma das estruturas de frase canônicas, em Português, é “Sujeito + Verbo + Objeto” e essas posições (Sujeito, Verbo e Objeto) estão sempre lá, em diversas frases diferentes. A diferença, então, está no que as preenche, no que as figurativiza, as reveste (pensemos, como exemplo, nas frases “O professor ensina matemática” ou “Maria gosta de bolo”).

O preenchimento (ou revestimento, ou figurativização), mencionado na citação acima está no nível discursivo, mais concreto do que o narrativo.

Nessa “gramática” textual, há também a posição de um Destinador que atua sobre um Sujeito para levá-lo a estabelecer conjunção com um Objeto. Almeida (2021) exemplifica da seguinte forma:

Essas posições, num filme como Karatê Kid (1984), são revestidas por “Senhor Miyagi” (Destinador) agindo para que “Daniel san” (Sujeito) vença o campeonato de karatê (Objeto). Vejamos um exemplo na esfera jurídica: na Decisão Judicial de julho de 2018, do desembargador Rogério Favreto, que mandava soltar o ex-presidente Lula após a defesa deste ter entrado com pedido de habeas corpus (para detalhes, ver Venâncio, 2021), temos que a defesa de Lula (Destinador) age sobre o desembargador Favreto ao entrar com o pedido de habeas corpus. Favreto aceita os argumentos da defesa (passa a Sujeito) e se põe a emitir a decisão que deveria culminar com a liberdade de Lula (Objeto). Voltemos um momento à história de Ana, longe de casa; nela, a posição de Sujeito é revestida por “Ana” e seu “Objeto” é voltar para casa.

Obviamente, os exemplos aqui apresentados são simples, apenas com o intuito de esclarecer o modelo que seguimos para os não iniciados nele. Esperamos que fique clara na próxima seção as relações entre destinadores, sujeitos e objetos no nível narrativo na configuração do ouvintismo.

Os revestimentos do nível discursivo são fundamentais para a compreensão dos temas e dos valores mobilizados pelo texto, bem como daqueles que são nele enaltecidos, valorizados. Na seção 3, nosso intuito é depreender os temas, as visões sobre a surdez presentes nas reportagens.

Com este trabalho, procuramos contribuir para a discussão acerca do ouvintismo e suas manifestações discursivas, no âmbito dos estudos sobre surdez e linguagem. Esperamos que, ao tornar mais visíveis as visões ouvintistas que circulam em nossa sociedade através dos textos/discursos, possamos colaborar com a disseminação de valores positivos em torno da surdez enquanto diferença, e das línguas de sinais.

1.

A ESTRUTURA NARRATIVA DOS DISCURSOS OUVINTISTAS: SUJEITOS, VALORES E OBJETOS

Antes de prosseguir, é importante apresentar a existência de pelo menos dois modelos de surdez; duas formas de enxergá-la: uma visão clínica e uma sócio-antropológica. A visão clínica, também chamada de terapêutica ou patológica, enxerga a surdez como uma deficiência. Aqui, a ideia é reabilitar o surdo, porque se parte da noção de que o ouvinte é o “normal”. As terapias e métodos para oralização do surdo se encaixam nesta visão4. Em oposição a esta visão, está o modelo social ou sócio-antropológico da surdez, que não mais enxerga o surdo como um sujeito em falta, mas apenas diferente; que não define o surdo pela ausência de algo (da audição), mas pela presença (da própria surdez, enquanto identidade).

Na visão sócio-antropológica, a surdez é vista como um modo particular de vivenciar o mundo. O sujeito não precisa se transformar para ser como um ouvinte; ele já é inteiro e capaz. O fato de não ouvir não significa que ele não possa ter desenvolvimento linguístico e cognitivo adequados, sendo que tais desenvolvimentos são possibilitados principalmente pela valorização e reconhecimento de que o surdo tem, sim, uma língua e uma cultura próprias e “completas” (no sentido de não “menores”, nem “deficitárias”). Em resumo, nesta visão sócio-antropológica, há o reconhecimento das línguas de sinais enquanto línguas de fato (e não apenas meros sistemas comunicativos “menores”), da surdez como diferença, e dos surdos enquanto uma comunidade linguística e cultural; o “ser como um ouvinte” não é o objeto visado pelo surdo; ao contrário, é o reconhecimento da surdez enquanto identidade. O que há aqui não é mais uma neutralização ou apagamento da diferença, mas um reconhecimento desta.

O discurso oralista/ouvintista é presente em diversas áreas, mas particularmente presente no discurso de uma parcela considerável de profissionais de saúde ligados à audição e fala (alguns médicos otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos, por exemplo). Também se vê a visão ouvintista praticamente impregnada em nossa estrutura social. Na abordagem ouvintista: “a língua de sinais é vista como obstáculo à aquisição da fala e seu uso, portanto, é desestimulado” (Silva; Favorito, 2008, p. 13). Silva e Favorito (2008) também ressaltam que o discurso no modelo clínico-patológico é habitado por termos como “reabilitar”, “restituir”, “adestrar”, “treinar”, “reforçar”.

Em termos da semiótica francesa (também chamada de discursiva ou greimasiana) (Greimas; Courtés, 2008 [1979]), sabemos que, no chamado “percurso gerativo do sentido”, em um de seus níveis, o narrativo, propõe-se a ideia de um sujeito que vai em busca de um objeto. Essas posições são simples posições gramaticais, “vazias” e que serão “preenchidas” num nível mais concreto, superior, como já vimos, o nível discursivo. Nas reportagens em questão e na maior parte dos discursos ouvintistas, esse sujeito é o “surdo” ou a “família do surdo” em busca do objeto “ser como um ouvinte”. Esse querer-ser como um ouvinte “vem de” ou é motivado pelas pressões de um destinador que o “doa” (“transfere-o”) ao destinatário-sujeito. No nível discursivo, podemos chamar esse destinador de “sociedade ouvintista”.

Segundo os valores da sociedade ouvintista, o surdo é aquele que está ou deve estar em disjunção com as línguas de sinais e a cultura surda, e em conjunção com os valores e práticas dos ouvintes. A sociedade ouvintista enxerga o surdo como desprovido de um poder-fazer em geral, embora ele apenas não possa ouvir. O objeto modal (o que se deve atingir antes de se atingir o objeto/ivo final) nesses discursos tem sido figuratizado como “oralização” e, mais recentemente, como as tecnologias de aparelhos auditivos e implantes cocleares. O objeto descritivo (final) é “ser como um ouvinte” (o mais próximo que for possível) e aparelhos e implantes, bem como terapias de leitura labial e oralização de outrora, seriam os meios para tal fim. Percebe-se que num nível mais superficial do discurso, a figurativização do objeto modal agora é outra, mas permanece tudo igual num nível mais profundo, assim como permanece o objeto “ser como um ouvinte”.

Em muitos casos, surdos sinalizantes, com uma língua de sinais como primeira língua, afirmam que passaram a usar aparelhos ou implantes em determinado momento da vida porque queriam fazê-lo. No entanto, frequentemente observa-se que esse querer pode não estar plenamente consciente da atuação de um destinador “invisível”, que se mostra também pela sobreposição de vários textos, discursos e práticas ouvintistas em sua raiz. Assim, o que parece ser um “querer” intrínseco está, na maioria das vezes, atrelado a essa construção do “poder-ouvir” como objeto de valor, pela cultura ouvinte hegemônica. Os ouvintes acabam assumindo um papel de “salvadores” e há pouco espaço aqui para um protagonismo surdo, ao menos para um protagonismo que inclua as línguas de sinais e a cultura surda. Aqui cabe uma afirmação de Perlin (2016, p. 64), segundo quem:

A hegemonia dos ouvintes exerce uma rede de poderes difícil de ser quebrada pelos surdos, que não conseguem se organizar ou mesmo ir às comunidades para resistirem ao poder. Aí pode dar início ao que chamo de situações dominantes de tentativa de reprodução da identidade ouvinte, com atitudes ainda necessárias para sustentar as relações dominantes.

Na base dos discursos ouvintistas, uma oposição entre ouvinte e surdo está presente, mesmo que implicitamente, como veremos nas reportagens analisadas. Nesta oposição, o que se vê é uma euforização do ouvinte e uma negação da surdez por um lado, e uma disforização do surdo e afirmação da surdez por outro. Contudo, o percurso, se colocado num “quadrado semiótico” nunca chega a se completar porque o surdo nunca chega a ser ouvinte de fato, ele fica sempre sendo um “não-surdo”. A Figura 2 a seguir tenta mostrar essa questão:

Figura 2.
Ouvinte “versus” Surdo: representação num quadrado semiótico

Todos esses pontos elencados acima podem ser constatados nas reportagens analisadas, cuja transcrição está na próxima seção, em que também procedemos à depreensão dos temas nelas presentes.

2.

OS TEMAS DEPREENDIDOS DAS REPORTAGENS

Vimos na Introdução que as reportagens em questão foram veiculadas nos programas Domingo Espetacular, da TV Record e Jornal Hoje, da TV Globo. Ambas trazem histórias de crianças que receberiam implantes cocleares. Primeiramente, apresentamos cada reportagem separadamente. Num segundo momento, elencamos as visões e temas que estiveram presentes em ambas, mas já aqui gostaríamos de destacar que o fio condutor dos dois textos é uma ideia de “renascimento” a partir do momento em que se passa a ouvir e o “instrumento” que possibilita essa virada no percurso do sujeito surdo é o implante coclear.

Cirurgias de implantes cocleares existem há cerca de 40 anos (Chapman; Dammeyer, 2017). No Brasil, a primeira dessas cirurgias foi realizada, segundo Albernaz (2008), em 1977, mas a regulamentação do procedimento só ocorreu em 1999, a partir da Portaria no 1.278 do Ministério da Saúde. O implante é definido como “um dispositivo eletrônico utilizado como parte dos processos terapêuticos para as pessoas com surdez, inata ou adquirida, do tipo neurossensorial de grau profundo, visando a possibilitar o acesso ao som” (Lima; Queiroz, 2021, p. 58)5.

Como dito anteriormente, o implante é a figurativização de um objeto modal, aquilo que deve ser atingido para se alcançar um objeto descritivo (final), que no caso dos discursos ouvintistas é “ser como um ouvinte”. Aqui, veremos, por meio da análise temática das reportagens escolhidas como exemplo, como o implante é representado como salvação e a única possível saída para que uma pessoa surda tenha uma vida plena, sendo que a surdez é vista como um grande problema. Veremos a textualização de visões sobre a surdez que são comuns em discursos ouvintistas.

Passemos à transcrição da primeira matéria, a do Domingo Espetacular, intitulada “Bebê que nasceu com deficiência auditiva ouve sons pela primeira vez”6.

Apresentadora: Imagine conhecer o mundo em um silêncio absoluto, sem nenhum barulho, sem nenhum ruído. A pequena Maitê, de apenas 1 ano e 2 meses, nasceu com deficiência auditiva. Não conseguia nem ouvir a voz dos próprios pais.

Apresentador: É, mas essa história teve uma reviravolta. Maitê passou por uma cirurgia para usar um implante auditivo. E você vai acompanhar agora com a gente o exato momento em que ela escuta um som pela primeira vez.

Repórter: A gente para no olhar da Maitê. No sorriso que ela entrega para o biscoitinho, para o bolinho de arroz.

[risos dos pais]

Repórter: Para ela mesma. Ou vai dizer que a alegria não está aí, dita e feita? É que esse rostinho fala tanto, mesmo sem nenhuma palavra. O olhar sempre foi a única conexão da Maitê com tudo que existe.

Pai: Ela nem precisa de muita coisa para entender o que a gente precisa dela e o que ela precisa da gente, sabe? Algo meio que conectado já.

Mãe: É só amor, né?

Repórter: Mas para entender direitinho por que o sorriso e os olhos são tão expressivos na vida dela, a gente vai entrar agora no mundo da Maitê. O primeiro capítulo dessa história começa logo que ela nasceu. Abril de 2020. A Maitê nasce no meio da pandemia. Com isso, a mãe e o pai decidem esperar um pouco para fazer o exame da orelhinha, um dos mais importantes para diagnosticar precocemente possíveis problemas auditivos.

[risada de Maitê]

Mãe: A gente foi fazer ela tinha quase um mês e aí deu que não teve respostas.

Otorrinolaringologista: Quando essa triagem dá negativa, ela tem que ser encaminhada para um otorrino para começar o diagnóstico e ver se a criança tem alguma perda de audição.

Repórter: Os pais já tinham notado que o som não atrapalhava em nada o sono da Maitê.

Mãe: Teve uma live de um vizinho aqui que colocou o som mega alto que até eu fiquei incomodada. Falei: nossa, tem criança pequena e não abaixa o som. E aí eu olhei para ela, assim, e ela dormindo, tranquila.

Repórter: E os exames confirmaram, a Maitê tinha nascido completamente surda.

Pai: A gente ficou, assim, desesperado porque, é, não conhecia, não sabia. Como é que a gente vai falar com ela, vai se comunicar com ela?

Repórter: Do baque, do susto, esses dois tiraram força para virar a página e começar então o segundo capítulo da história com a ajuda de uma equipe médica.

Fonoaudióloga: Ela tem uma surdez profunda, bilateral, então ela é uma paciente super candidata ao implante mesmo, para ter o desenvolvimento de fala e linguagem.

Repórter: Implante coclear é quando se coloca um dispositivo eletrônico na região do ouvido, que transforma sons em estímulos elétricos e os envia então ao nervo auditivo no cérebro.

Otorrinolaringologista: A criança, de 1 a 3 anos, ela tem o desenvolvimento da audição. Então, com esse desenvolvimento da audição que ela ganha a capacidade da linguagem, capacidade emocional, social. Então é o ideal você agir nesse tempo de 1 a 3 anos na criança.

Repórter: Era tudo novo para os pais, que decidiram aceitar essa missão e nem sabiam que esse seria então o capítulo mais tenso da vida deles.

Mãe: Exames, cirurgia, ter que ficar de jejum. Ela ficou de jejum de 10 horas para fazer a cirurgia e eu não poderia, não podia dar peito para ela.

Otorrinolaringologista: E a cirurgia do implante, você abre o osso do ouvido e pela cóclea, que é o responsável pela audição, você enfia um eletrodo, um minúsculo fio, tá, com pequenos eletrodos que vão estimular toda a escala timpânica.

Repórter: Depois da operação, faltava ativar o implante. E isso está prestes a acontecer. E finalmente chegou o momento que todo mundo esperava tanto e ele vai acontecer aqui nesse hospital de Guarulhos na grande São Paulo. Onde, aliás, a família da Maitê chegou bem cedinho porque hoje ela sai daqui ouvindo. Isso significa que se abre um novo mundo para a Maitê. E olha, tem tanta expectativa, tanto amor, tanta gente envolvida. Nesse momento, por exemplo, vão começar os primeiros testes e eu vou dar um spoiler aqui, viu: vai ter festa hoje para a Maitê, porque, afinal, ela vai ouvir pela primeira vez. Como é que tá esse coração aí? [risada]

Mãe: Cheio de expectativas, né? De novas descobertas. Agora ela vai começar a descobrir que existem sons, né? Devagarzinho ela vai descobrindo esse mundão. [risada]

Pai: Cada palavrinha que ela aprender, né? Cada palavrinha que ela ouvir nova e aprender, e falar, vai ser uma nova conquista.

Repórter: Até porque, o processo é lento. São vários testes para a Maitê não assustar. O que é essa sensação, né? Uma criança que não ouve e o que representa no momento em que ela ouve pela primeira vez?

Otorrinolaringologista: Ela vive num silêncio absoluto. Ela se relaciona pela visão e pelo tato, né? A partir do momento que ela vai ter esses sons, ela vai começar a ouvir a mãe, ouvir o pai, o som da mãe e do pai. Ela começa uma nova parte desse desenvolvimento dela.

Repórter: Ainda vai um tempinho bom pela frente, mas a Maitê já está se saindo tão bem.

Fonoaudióloga: É como se ela estivesse escutando alguns sons não tão claros porque a gente acabou de ligar uma orelha que a gente diz que ela é nova, né? Como se ela estivesse nascendo para o som nesse momento. Como se ela fosse, de idade auditiva, um bebê que nasceu agora. Conforme ela vai percebendo que o som é agradável, que isso dá percepções novas para ela, ela tende a aceitar melhor o uso.

Repórter: É tão emocionante que é difícil até de contar. Mas eu quero falar em alto e bom som para a Maitê ouvir no futuro. O nome do capítulo? A primeira vez que eu ouvi.

Fonoaudióloga: Ela escutou [risada].

Repórter: Escutou, você viu? [risada]. O que você sentiu a hora que ela falou: ela está ouvindo, ela está ouvindo.

Mãe: Deu certo, valeu a pena todo o trabalho, todo o esforço que a gente fez, né, que não é fácil, né. É um ano de caminhadas. E valeu a pena, agora é só os ganhos, né?

Repórter: Eu acho que ela merece um parabéns. [todos cantam juntos: Parabéns para você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida]

Repórter: Ai, está com uma cara de final, né? Não, tem mais um capítulo, ainda mais especial. Quem vai conhecer um parque pela primeira vez? A Maitê!

Mãe: Veio brincar no parquinho.

Repórter: A Maitê tem um ano e dois meses e é a primeira vez que ela vem para um parque. E agora faz quase uma semana que a Maitê ativou o aparelhinho dela. E a gente quer entender se ela está ouvindo, o que ela está ouvindo, como ela tem reagido. Como que está?

Mãe: Por enquanto ela está ouvindo bem baixinho, né?

Pai: Sons bem altos a gente começou a ter uma percepção agora, ela, ontem bateu a porta e ela já se assustou, já procurou onde é que estava a porta que bateu.

Repórter: Está na cara que a Maitê está diferente, conhecendo um mundo completamente novo.

[risada da Maitê]

Mãe: A gente percebeu, quando está tudo em silêncio e tem um barulho só, ela escuta melhor, aí ela responde melhor.

Repórter: Helicóptero passando. Tchau! [risada].

Mãe: Tchau! [risada].

Pai: Isso aí.

Repórter: E não é que aquele olhar está ainda mais brilhante? Ah, tem outra coisa diferente também, batendo mais forte.

Mãe: A cada coisinha nova que ela faz, a cada movimentinho que a gente vê que ela se atentou, ali o coração já fica a mil, né? A gente até se controla, né, para não criar expectativa mais rápido do que o momento dela.

Repórter: Imagine como vai ficar esse coração quando ela falar “mamãe”, “papai”. [risada]

Pai: Ai, nem fala.

Mãe: Vai explodir de alegria.

Pai: É o momento de todos o mais esperado, né? Ela aprender a falar para a gente se comunicar com ela.

Repórter: Ah, agora sim, pode subir o letreiro. O próximo episódio vai começar a rodar agora. E olha, vai ser tão bonito quanto esse, pode apostar.

Passemos à verificação das passagens do texto que culminam em visões, ou temas, ouvintistas.

Um primeiro tema que emerge é a ideia de “surdez como ‘tragédia’ ou ‘fardo’”. As passagens a seguir nos permitem deprendê-lo: “APRESENTADORA: Imagine conhecer o mundo em um silêncio absoluto, sem nenhum barulho, sem nenhum ruído. A pequena Maitê [...] nasceu com deficiência auditiva. Não conseguia nem ouvir a voz dos próprios pais”; “PAI: A gente ficou desesperado porque, é, não conhecia, não sabia”; “REPÓRTER: Do baque, do susto, esses dois tiraram força para virar a página (...)”; “REPÓRTER: Era tudo novo para os pais, que decidiram aceitar essa missão”. As escolhas lexicais presentes nesses enunciados produzem efeitos de sentido que associam a surdez a sofrimento, ruptura e enfrentamento. Termos e expressões como “silêncio absoluto”, “desesperado”, “baque”, “susto” e “missão” contribuem para a construção discursiva da surdez como experiência marcada pela falta e pela adversidade, reforçando uma valoração negativa do sujeito surdo e de sua condição.

Já em “APRESENTADORA: Imagine conhecer o mundo em um silêncio absoluto, sem nenhum barulho, sem nenhum ruído. A pequena Maitê [...] nasceu com deficiência auditiva. Não conseguia nem ouvir a voz dos próprios pais”, pode-se ver o “silêncio total como limite sensorial e emocional”. Essas passagens produzem efeitos de sentido que associam a surdez à privação e à ausência de experiências consideradas fundamentais à vida social e afetiva. A ênfase em expressões como “silêncio absoluto”, “sem nenhum barulho” e “não conseguia nem ouvir a voz dos próprios pais” reforça a construção da surdez como condição de isolamento sensorial e emocional, mobilizando uma percepção de falta e incompletude.

As passagens “FONOAUDIÓLOGA: Como se ela estivesse nascendo para o som nesse momento”; “REPÓRTER: Se abre um novo mundo para a Maitê”; “REPÓRTER: Eu acho que ela merece um parabéns [todos cantam juntos: Parabéns para você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida]”; “REPÓRTER: O próximo episódio vai começar a rodar agora”; “MÃE: Agora ela vai começar a descobrir que existem sons, né? Devagarzinho ela vai descobrindo esse mundão” remetem ao “‘renascimento’ através do som (associado à descoberta do mundo)”. Tais excertos mobilizam efeitos de sentido que associam o acesso ao som a ideias de nascimento, descoberta e transformação existencial. Expressões como “nascendo para o som”, “se abre um novo mundo” e “vai descobrindo esse mundão” constroem discursivamente a experiência auditiva como marco inaugural de entrada plena no mundo e na vida social. Desse modo, a surdez é implicitamente significada como estado de privação anterior a esse “renascimento”, enquanto o som assume um valor positivo e quase redentor.

A visão de que “o oro-auditivo é imprescindível” porque sem essa capacidade não seria possível a comunicação, o desenvolvimento da linguagem ou o descobrimento do mundo pode ser obtida a partir das seguintes passagens: “PAI: A gente ficou desesperado porque, é, não conhecia, não sabia. Como é que a gente vai falar com ela, vai se comunicar com ela?”; “OTORRINO: A criança, de 1 a 3 anos, ela tem o desenvolvimento da audição. Então, com esse desenvolvimento [...] que ela ganha a capacidade da linguagem, capacidade emocional, social”; “MÃE: Agora ela vai começar a descobrir que existem sons, né? Devagarzinho ela vai descobrindo esse mundão”; “REPÓRTER: É tão emocionante que é difícil até de contar”. Os trechos relacionam a audição ao desenvolvimento da linguagem, da socialização e da relação do sujeito com o mundo. Ao vincular a capacidade de comunicação, o desenvolvimento emocional e a descoberta de novas experiências à aquisição da audição, a reportagem constrói o oro-auditivo como condição fundamental para uma vida socialmente integrada. Nesse contexto, a surdez é significada, ainda que implicitamente, como um impedimento ao desenvolvimento pleno e ao acesso às experiências valorizadas socialmente.

A ideia de que “apenas a modalidade oro-auditiva é língua/linguagem” se vê a partir de “REPÓRTER: Imagine como vai ficar esse coração quando ela falar ‘mamãe’, ‘papai’”; “OTORRINO: A criança, de 1 a 3 anos, ela tem o desenvolvimento da audição. [...], com esse desenvolvimento [...] que ela ganha a capacidade da linguagem, capacidade emocional, social”; “FONOAUDIÓLOGA: Ela é uma paciente super candidata ao implante [...], para ter o desenvolvimento de fala e linguagem”; “PAI: Cada palavrinha que ela aprender, né? Cada palavrinha que ela ouvir nova e aprender, e falar, vai ser uma nova conquista”. A valorização da fala, evidenciada em expressões como “quando ela falar ‘mamãe’, ‘papai’”, “desenvolvimento de fala e linguagem” e “cada palavrinha que ela aprender”, constrói a modalidade oro-auditiva como forma legítima e desejável de linguagem e comunicação. Nesse movimento, outras possibilidades linguísticas, como as línguas de sinais, são silenciadas ou colocadas à margem do campo discursivo.

As passagens “REPÓRTER: E não é que aquele olhar está ainda mais brilhante? [depois do implante]”; e “MÃE: Agora ela vai começar a descobrir que existem sons, né? Devagarzinho ela vai descobrindo esse mundão”, revelam a visão do “ouvir como uma ‘ponte’ para a felicidade geral ou para a vida plena”, ou seja, tais passagens mobilizam efeitos de sentido que associam a audição à felicidade, à plenitude e à ampliação das experiências de vida. A referência ao olhar “ainda mais brilhante” após o implante e à descoberta gradual de “esse mundão” reforça a construção do ouvir como elemento transformador e capaz de proporcionar uma existência mais completa e positiva.

Pode-se perceber o tema de “grandes expectativas quanto à audição” por meio dos trechos “APRESENTADOR: [...] essa história teve uma reviravolta. Você vai acompanhar [...] o momento em que ela escuta um som pela primeira vez”; “REPÓRTER: E finalmente chegou o momento que todo mundo esperava tanto [ativação do implante]”; “PAI: É o momento de todos o mais esperado, né? Ela aprender a falar para a gente se comunicar com ela”; “MÃE: Cheio de expectativas, né? De novas descobertas”. As referências à “reviravolta”, ao “momento que todo mundo esperava tanto” e às “novas descobertas” colocam a audição como acontecimento altamente desejado e cercado de expectativas positivas; a ativação do implante é construída como marco transformador, associado à realização pessoal, à comunicação e à possibilidade de uma nova etapa de vida.

A visão de que “o implante é superação e recompensa” pode ser vista em “MÃE: Deu certo, valeu a pena todo o trabalho, todo o esforço”. Tal afirmação da mãe constrói o implante como resultado positivo de um percurso marcado por dificuldades e enfrentamentos. Nesse contexto, o procedimento é significado como conquista e recompensa.

Os trechos “REPÓRTER: E olha, tem tanta expectativa, tanto amor, tanta gente envolvida”; e “MÃE: É só amor, né?” associam-se ao “oferecimento da reabilitação como forma de amor”, como gesto de cuidado e dedicação afetiva. Nesse contexto, o implante e o processo terapêutico são significados não apenas como intervenção médica, mas também como expressão de amor e compromisso familiar.

Por último, pode-se ver o “modelo clínico-patológico da surdez” sustentado fortemente pelas passagens a seguir e também pelo fato de que: a) o texto inclui explicações médicas sobre surdez e seu diagnóstico; b) apenas profissionais da saúde aparecem falando de aquisição de linguagem e surdez; e c) há total desconsideração (na verdade um apagamento) da Libras como possibilidade. As referidas passagens são “REPÓRTER: Com a ajuda de uma equipe médica”; “REPÓRTER: Implante coclear é quando se coloca um dispositivo eletrônico…”; “REPÓRTER: [...] fazer o exame da orelhinha um dos mais importantes para diagnosticar precocemente possíveis problemas auditivos”. A centralidade atribuída ao discurso médico, tanto nas explicações sobre a surdez quanto na legitimação das formas de linguagem e comunicação consideradas válidas, reforça a construção da surdez como condição clínica a ser diagnosticada, tratada e reabilitada. O texto é todo voltado para a importância de se reabilitar o surdo, claramente inserido numa visão de surdez como deficiência. Além disso, o apagamento da Libras e a ausência de perspectivas culturais ou identitárias da surdez contribuem para a predominância de uma abordagem patologizante, centrada na deficiência auditiva e em sua intervenção terapêutica.

Importante mencionar também que, além das visões acima elencadas, vê-se, ainda, uma grande reação passional com relação à fala e à audição, como se pode ver no trecho abaixo:

Repórter: Imagine como vai ficar esse coração quando ela falar “mamãe”, “papai”. [risada]

Pai: Ai, nem fala.

Mãe: Vai explodir de alegria.

Pai: É o momento de todos o mais esperado, né? Ela aprender a falar para a gente se comunicar com ela.

Passemos à segunda reportagem, a do Jornal Hoje, intitulada “Ouvindo pela primeira vez: bebê de 1 ano recebe aparelho auditivo e reação emociona”7. Segue sua transcrição:

Apresentador: Vamos agora conhecer a história do Gael. É um bebê do Paraná que descobriu o mundo de novo.

Fonoaudióloga: Oi, Gael!

[Gael faz sons e todos na sala exclamam: Ah!]

Mulher ao fundo do vídeo: Que lindo!

Fonoaudiologia: Oi!

Repórter: Gael tem somente um ano e a reação dele ao ouvir pela primeira vez emocionou a equipe de saúde e a mãe.

Mãe: Agora ele vai falar, agora ele vai me escutar falando com ele, né? Ah, é muito… ai, dá um alívio, né? É uma coisa muito, muito boa.

Repórter: O filho da Jhenifer nasceu com uma deficiência auditiva. Ela percebeu o problema no segundo mês de vida do menino e levou ele ao pediatra.

Repórter: Todo o tratamento do Gael é feito pelo Sistema Único de Saúde nesse Centro de Reabilitação. Aqui são atendidos mais de 400 bebês que correm o risco de perder a audição. E para ter acesso a esse serviço as famílias precisam do encaminhamento de um profissional, seja de um posto de saúde ou de um hospital que atenda pelo SUS.

Repórter: O direito ao tratamento é regido por uma portaria do Ministério da Saúde e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente

Fonoaudióloga: Toda criança que nasceu, ela tem direito a fazer a triagem auditiva, tá? É o chamado teste da orelinha. Então nesse exame você vai ver se a criança tem alguma coisa ali que pode comprometer a parte auditiva.

Repórter: No Centro de Reabilitação são feitas avaliações de comportamento e uma audiometria estimulada. Com o diagnóstico, os profissionais avaliam se a criança precisa de um aparelho, um procedimento cirúrgico ou se dá para resolver apenas com terapia.

Fonoaudióloga: Um bebezinho, ele começa a ouvir dentro da barriga desde a vigésima semana. Então uma criança que você, pensando assim, que ela nasceu, tem deficiência auditiva, ela já perdeu pelo menos metade da audição, de ter vivido ali aquele momento dentro da barriga ouvindo.

Repórter: Daqui para frente, o Gael vai passar por um tratamento com fonoterapia oferecido pelo SUS. Serão sessões com estímulos para a audição e para a linguagem.

Fonoaudióloga: A gente precisa ver se está dando um resultado, se ele vai conseguir desenvolver e se ele tem a possibilidade, né, de desenvolver a fala. E caso, né, tenha essa possibilidade de conseguir desenvolver aí a gente faz alguns outros encaminhamentos, né? Que é o caso do implante coclear.

Repórter: O Gael ainda está se acostumando com esse negócio diferente pendurado na orelha.

[Gael emite sons]

Repórter: E daqui para frente, a cada voz que ele ouvir vai ser assim.

Mulher ao fundo do vídeo: Está ouvindo, amor?

Mãe: Que foi?

[Gael emite sons e todos riem]

Mãe: Desde que nasceu, lutando, é, ele é um menino guerreiro.

Assim como na reportagem anterior, passamos a mostrar os temas que emergiram e as passagens do texto associadas a eles.

Da mesma forma que na primeira reportagem, e isso pode nos fazer pensar se esta não seria uma característica em outros textos ouvintistas, o tema do “‘renascimento’ através do som (associado à descoberta do mundo)” está presente, como se pode ver, explicitamente, pela fala do apresentador: “É um bebê do Paraná que descobriu o mundo de novo”. Ao afirmar que o bebê “descobriu o mundo de novo”, a reportagem atribui à audição um valor de renovação e ampliação da existência. A formulação sugere que o contato com os sons inaugura uma nova forma de vivenciar a realidade, reforçando a percepção de que a experiência de mundo estaria condicionada ao ouvir.

A visão de que “apenas a modalidade oro-auditiva é língua/linguagem”, dada pelo trecho “REPÓRTER: Serão sessões com estímulos para a audição e para a linguagem” também estava presente na reportagem anterior. Como já dito em outro momento, a associação direta entre “audição” e “linguagem” reforça a ideia de que o desenvolvimento linguístico estaria necessariamente vinculado à experiência oro-auditiva. Com isso, outras formas de linguagem e comunicação, especialmente as de modalidade visuoespacial, permanecem ausentes do campo de possibilidades construído pela reportagem.

O tema do “alívio” aparece por meio de “MÃE: Ah, é muito... ai, dá um alívio, né? É uma coisa muito, muito boa”, o que, neste trecho, se liga muito à ideia de “surdez como tragédia ou fardo”, também presente na primeira reportagem. Na verdade, outras passagens também se associam a isso: “REPÓRTER: O filho da Jhenifer nasceu com uma deficiência auditiva. Ela percebeu o problema no segundo mês de vida”; “REPÓRTER: Com o diagnóstico, os profissionais avaliam se a criança precisa de um aparelho, um procedimento cirúrgico ou se dá para resolver apenas com terapia”; “MÃE: Desde que nasceu lutando, é, ele é um menino guerreiro”. A ideia de que o bebê surdo nasce lutando e é um guerreiro também pode ser vinculada à ideia de “superação” de que falamos na reportagem anterior. Ainda sobre “alívio” e “superação”, há o trecho “MÃE: Agora ele vai falar, agora ele vai me escutar... dá um alívio”. O percurso é marcado pelo sofrimento inicial e pela posterior superação, e a surdez aparece associada a um problema que demanda enfrentamento, intervenção e conquista. A recorrência desse tipo de formulação nas duas reportagens reforça a associação da surdez a experiências de dificuldade, carência e adversidade.

Importante de se destacar no exame desta reportagem é a “naturalização e ‘ludicização’ do aparelho”, vista em “REPÓRTER: Gael ainda está se acostumando com esse negócio diferente pendurado na orelha [dito em tom de brincadeira]. O tom descontraído empregado na referência ao aparelho contribui para suavizar e normalizar sua presença no cotidiano da criança. Ao tratar o dispositivo de maneira lúdica e leve, a reportagem favorece sua associação a algo positivo, desejável e facilmente incorporável à rotina infantil.

Os trechos “MÃE: Agora ele vai falar, agora ele vai me escutar falando com ele, né?”; e “APRESENTADOR: É um bebê do Paraná que descobriu o mundo de novo” remetem ao tema do “oro-auditivo como imprescindível”, que também já apareceu na primeira reportagem. Ao relacionar diretamente a possibilidade de falar, escutar e “descobrir o mundo” à aquisição da audição, a reportagem reforça a ideia de que a experiência oro-auditiva seria condição fundamental para a comunicação e para a plena vivência social. Assim como na primeira reportagem, outras formas de interação e linguagem permanecem ausentes desse horizonte discursivo.

Outra coisa que se repete com relação à primeira reportagem é a visão médica da surdez, o modelo clínico-patológico. Mais uma vez há apenas profissionais de saúde e a desconsideração da Libras como possibilidade, além da visão de surdez enquanto doença e do surdo enquanto sujeito que precisa de reabilitação. Vejamos os trechos que mais claramente remetem a isso: “FONOAUDIÓLOGA: Toda criança que nasceu, ela tem direito a fazer a triagem auditiva, tá? É o chamado teste da orelinha”; “FONOAUDIÓLOGA: a gente faz alguns outros encaminhamentos, né? Que é o caso do implante coclear”; “REPÓRTER: O direito ao tratamento é regido por uma portaria do Ministério da Saúde [...]”; “REPÓRTER: Todo o tratamento do Gael é feito pelo Sistema Único de Saúde nesse Centro de Reabilitação”; “REPÓRTER: Com o diagnóstico, os profissionais avaliam se a criança precisa de um aparelho, um procedimento cirúrgico ou se dá para resolver apenas com terapia”.

Assim como na reportagem anterior, vê-se também aqui uma grande reação emocional diante da audição. Vejamos os trechos a seguir:

Mulher ao fundo: Que lindo! [quando o menino ouve].

Repórter: A reação dele ao ouvir pela primeira vez emocionou a equipe de saúde e a mãe.

Mãe: Agora ele vai falar, agora ele vai me escutar... dá um alívio, É uma coisa muito, muito boa

Como se pode perceber, as reportagens em tela nem mesmo mencionam a cultura surda e as línguas sinalizadas como possibilidades, se não na vida dessas crianças sendo implantadas, em outras. Além disso, elas não mostram os riscos (poucos, mas há; ver, e.g. Kronenberger et al., 2014; Achiques et al., 2010, Capovilla, 1998) da cirurgia para colocar o implante, nem mesmo suas desvantagens e o fato de que algumas pessoas não se adaptam tão bem a ele. Tal tecnologia é apresentada como uma salvação e como o único meio para que as crianças surdas se desenvolvam e as reportagens estão pautadas na ideia de que a audição é imprescindível para desenvolvimento da pessoa surda.

Os dois textos, em termos temáticos, têm em comum a modalidade oro-auditiva como imprescindível para a vida plena e a ideia de que língua/linguagem só se desenvolve a partir da audição. Além disso, estão presentes em ambos: a questão da superação da surdez (vista como tragédia ou problema) e a visão médica da surdez, explicada anteriormente. Esses temas se sobrepõem e culminam no fio condutor dos textos: a ideia de renascimento, de descoberta de um novo mundo, a partir da possibilidade de audição proporcionada pelo implante coclear. Aliás, a descoberta do mundo aparece de modo textualmente quase idêntico, como se pode ver em “Devagarzinho ela vai descobrindo esse mundão” (reportagem 1) e “É um bebê do Paraná que descobriu o mundo de novo” (reportagem 2).

Apontamos, na reportagem 2, que há uma ludicização do implante na fala do Repórter: “Gael ainda está se acostumando com esse negócio diferente pendurado na orelha”, dito em tom de brincadeira. E embora tenhamos indicado que neste trabalho o foco está no texto verbal, não podemos deixar de notar que há, na reportagem 1, a presença de uma boneca com o implante coclear, na mesma tentativa de ludicização do implante, visando à sua normalização.

Em termos narrativos, a ativação do implante aparece como uma recompensa pelo que foi descrito como um esforço (conseguir a cirurgia; por exemplo, a fala da mãe de Maitê: “Deu certo, valeu a pena todo o trabalho, todo o esforço”).

Ambos os textos também apelam sobremaneira à emoção, mencionando o quanto é comovente ver a criança ouvir pela primeira vez. Aliás, esse “ouvir pela primeira vez” aparece nos títulos das duas reportagens e ajuda a reforçar a ideia de que a vida dessas crianças só começa de fato uma vez que há a possibilidade de audição, uma vez que se vislumbra a possibilidade de que essas crianças sejam como a maioria ouvinte. A importância desse momento inicial de audição é bem forte na reportagem 1: “O exato momento em que ela escutou um som pela primeira vez”.

Importante também notar o que não está nos dois textos. Nos dois textos, há uma desconsideração da cultura surda e da língua de sinais. Por exemplo, na reportagem 2, quando passam a falar das possibilidades diante do quadro de surdez, a única explicação vai para o lado “médico”: “Com o diagnóstico, os profissionais avaliam se a criança precisa de um aparelho, um procedimento cirúrgico ou se dá para resolver apenas com terapia”. A aquisição de Libras nem mesmo é aventada. A mesma coisa quando explicam sobre aquisição de linguagem como se apenas a modalidade oral existisse.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As reportagens em tela ignoraram as línguas de sinais e a cultura surda. Isso é comum dos discursos ouvintistas, que as invisibilizam. Essa invisibilização está de mãos dadas com as tentativas de tornar os indivíduos surdos o mais parecidos possível com os indivíduos ouvintes. O ouvintismo considera aquele que ouve o “normal” e o surdo o “desvio”. O ouvintismo busca, então, normalizar o surdo e os discursos ouvintistas, explícita ou implicitamente contribuem para manter esse status quo.

Vimos que, nas reportagens analisadas, a figura do implante coclear aparece como um objeto modal que possibilitará ao surdo a audição, fazendo-o alcançar, então, o objeto de “ser como um ouvinte”. Além disso, as reportagens se constroem de modo a indicar que uma “felicidade plena” ou uma “vida plena” do sujeito figurativizado pela criança surda só poderia se dar através do ganho auditivo. As visões sobre a audição e o implante depreendidas das reportagens corroboram seu caráter ouvintista e seu afastamento, como sói acontecer com discursos ouvintistas, dos modelos sócio-antropológicos da surdez. Essas visões (que aqui também estamos chamando, intercambiavelmente, de temas), são: a surdez como “tragédia” ou problema, o oro-auditivo como imprescindível, a descoberta do mundo apenas depois da colocação do implante (ou um “renascimento” a partir do implante), apenas a modalidade oral-auditiva como língua/linguagem, o ouvir como uma “ponte” para a felicidade geral, a surdez como algo a ser superada.

Terminamos o trabalho com a reflexão a seguir, de Sparrow (2005, p. 136, tradução nossa): “A busca pela cura da surdez representa o desejo de uma maioria cultural de impor a sua língua e os seus valores sobre as pessoas surdas, em vez de modificar as suas instituições para levar em conta as perspectivas e necessidades dos membros de outra cultura”.

Em trabalhos futuros pretendemos analisar outros gêneros textuais para verificar se as mesmas visões emergem.

  • 1
    Para uma breve história da educação de surdos e das filosofias sobre a educação de surdos, ver Silva e Favorito (2008) e Capovilla (2000).
  • 2
    Entre outros, Silva e Favorito (2008) e Dalcin (2009) falam sobre tais modelos.
  • 3
    Não está em nosso escopo neste trabalho apresentar detalhadamente a teoria semiótica, embora exemplifiquemos alguns conceitos. Para uma visão panorâmica, ver Almeida (2021). Para uma visão mais aprofundada, ver Barros (2001) e Greimas e Courtés (2008 [1979]).
  • 4
    Texto original: “Eventually, the ideology that sees hearing as essential and perceives hearing ways of understanding the world as superior turns against anything that would question this, such as sign languages” (Krausneker, 2015, p. 418).
  • 5
    Importante ressaltar que nem todas as pessoas surdas estão aptas a receberem o referido implante.
  • 6
    O vídeo está disponível em https://www.youtube.com/watch?v=eR_YAWJ-AMY&t=119s. Acesso em 11 abr. 2026.
  • 7
    O vídeo está disponível em https://globoplay.globo.com/v/10671726/?s=0s. Acesso em 12 abr. 2024.
  • DECLARAÇÃO DE DISPONIBILIDADE DE DADOS DA PESQUISA
    Quaisquer dados referentes ao artigo “Visões que Sustentam Discursos Ouvintistas: o Exemplo de Duas Reportagens Televisivas” podem ser requeridos enviando-se pedido por email para a autora.
  • DECLARAÇÃO DE USO DE IA
    Declaro que não foi usada tecnologia de IA para/na produçãodo artigo “Visões que Sustentam Discursos Ouvintistas: o Exemplo de Duas Reportagens Televisivas”.

REFERÊNCIAS

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  • Editora-chefe
    Simone Tiemi Hashiguti

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Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    06 Fev 2026
  • Aceito
    09 Jun 2026
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