Resumo:
O ensaio discute a crise generalizada da historiografia disciplinada nos Estados Unidos, o que é chamado de “problema do problema da história”, a partir da controvérsia contra o “presentismo” lançada por James Sweet, presidente da American Historical Association, em 2022. Para tanto, o texto inicia com um breve panorama sobre as condenações do “presentismo” típicas da historiografia norte-americana para, na seção seguinte, debater a polêmica em si. Por fim, conclui com considerações mais gerais sobre o colapso material e institucional da profissão nos Estados Unidos, que foram tanto ocluídas quanto reveladas pela contenda.
Palavras-chave:
Presentismo; Disciplina; Historiografia norte-americana
Abstract:
The essay discusses the widespread crisis of disciplined historiography in the United States, what we call “the problem of the problem of history”, based on the controversy against “presentism” launched by James Sweet, president of the American Historical Association, in 2022. To this end, the text begins with a brief overview of the condemnations of “presentism” typical of American historiography and, in the following section, discusses the controversy itself. Finally, it concludes with some more general considerations about the material and institutional collapse of the profession in the United States, that were both occluded and revealed by the dispute.
Keywords:
Presentism; Discipline; American historiography
Introdução
Para ele, a história era tão clara em linha e sentido quanto a forma de um peixe; enquanto o presente parecia selvagem, sem rumo e absurdo.
Brink (2008, p. 21)1
Os historiadores e historiadoras norte-americanos costumam ser ansiosos. Com exceção, talvez, dos anos iniciais da profissionalização, quando a confiança acerca do porvir era comum, a regra entre eles e elas tem sido uma incerteza recorrente sobre o lugar da história na sociedade estadunidense, seu status disciplinar e a continuidade de sua estrutura institucional. Desde a década de 1930, quando, após o período original de otimismo, nomes como Carl Becker ([1931] s.d.) e Charles Beard ([1949] s.d.) manifestaram suas apreensões sobre o futuro da história caso o “cientificismo” simplório continuasse a seduzir seus e suas colegas, até os anos 1970, quando avisos sobre a lamentável “fragmentação” e “politização” da disciplina supostamente causada pela nova história social tornaram-se língua franca em certos setores da historiografia, a disciplina viu-se permanentemente açodada por dúvidas em relação aos seus dias vindouros. Fosse a deferência excessiva às falsas “garantias sólidas” de Ranke (Beard, 1933), que impedia uma “modernização filosófica” dos estudos históricos, fosse a “ideologização” da disciplina pelos “historiadores-ativistas” da nova história social, como reclamavam os mais conservadores (Novick, 1988), ou fosse a “fratura” do “método histórico” gerada pelo crescimento exponencial de temas e objetos (Tyrrell, 2005), as razões para o nervosismo eram muitas e multiformes. Como bem comprovou o trabalho clássico, e que segue fundamental, de Peter Novick (1988), a história da história norte-americana no século XX foi a de uma longa e ininterrupta tensão acerca de si mesma e sua posição no mundo.
Em relação a isso, nada supera (ainda) os debates sobre o temível “pós-modernismo” que, no crepúsculo daquela centúria, deixaram transparecer uma consternação, que às vezes raiava a paranoia caricata (LaCapra, 2018), com o possível “fim da história” aventado pelos “pós-modernos”. Basta vermos as ilações de Gordon Wood (1982) ou de Victoria Bonnelle Lynn Hunt (1999) contra o “abandono” da “epistemologia realista” que deveria sustentar a historiografia disciplinada ou as imprecações de Carlo Ginzburg (1994) ou Caroline Walker Bynum (1996) contra o insidioso “presentismo” que fazia tábula rasa do “distanciamento” temporal e subjetivo básico à pesquisa histórica. Por trás dessas, e de muitas outras, defesas da história, que iam do neurótico ao entediante, era notável uma enorme ansiedade acerca da sua própria existência continuada. Felizmente, a “epistemologia realista” (ou, na terminologia de Ethan Kleinberg, o “realismo ontológico”) tão apreciada e protegida por eles teve sua vitória (de Pirro): afastadas as ameaças contra ela, tudo voltou àquela normalidade tensa e hábil em reprimir os temores que insistiam em se esgueirar por entre as rachaduras de suas oficinas. Todavia, para parafrasear Eli Zaretsky (2015, p. 14), o resultado temporário dessa repressão foi o fracasso em encarar a crise imensa que se avizinhava no horizonte de Clio. Tal falha, por sua vez, levou a uma regressão que, fingindo ser normalização (ou, pior, progresso), terminou por repetir os pontos cegos acerca da pretensa estabilidade dos fundamentos disciplinares e seu arcabouço institucional.
Três décadas depois, já nesse século XXI desassombrado pelo fantasma pós-modernista, mas amedrontado sabe-se lá por quantas outras aparições, a tempestade finalmente chegou. Nos anos 2010, alguns relatórios elaborados pela American Historical Association (AHA) sobre as condições laborais dos historiadores e historiadoras e as percepções de milhares de indivíduos a respeito da utilidade da história demonstravam que o chão estava cedendo: da diminuição rápida dos postos de trabalho disponíveis à desvalorização cognitiva e prática das humanidades, tudo apontava para uma veloz deterioração das condições de produção, reprodução e legitimação da historiografia disciplinada e profissional que “epistemologia realista” alguma conseguia aplacar. Diante de tais circunstâncias, Eric Alterman (2019), em texto famoso para a revista The New Yorker, acabou diagnosticando um grave “declínio do pensamento histórico” nos Estados Unidos, e Steven Mintz (2024a), historiador e colunista da publicação Inside Higher Ed, terminou por perguntar-se se a disciplina, dada a “exaustão” de seus tópicos, não havia alcançado um provável ponto sem retorno e “exaurido a si mesma” no século XXI. Um terceiro, Daniel Bessner (2023), não titubeou em prognosticar o literal fim da história, se o curso dos acontecimentos não fosse revertido, porque o mercado de trabalho, em particular, havia se tornado um “abatedouro” para os jovens recém-ingressados nele. E, seguindo uma toada semelhante, James Grossman (2021), secretário-geral da AHA, anteviu uma “história sem historiadores e historiadoras” para um futuro próximo, pois o interesse contemporâneo geral pelo pretérito não se convertia em interesse pelas produções disciplinadas. O reprimido, enfim, retornou. A normalidade tensa tornou-se crise incessante.
Nesse contexto, a fortaleza institucional e epistemológica da história deixa de ser autoevidente porque torna-se impossível escapar ao que Dominick LaCapra (2004) e Lewis Gordon (2006), cada um a sua maneira, chamaram de “historicidade da disciplina”, ou seja, seu caráter contingente, inevitavelmente situado e atrelado aos dramas mundanos dos quais ela ferventemente anseia escapar. As conclusões e augúrios citados acima são, assim, um indício de que os infortúnios hoje sofridos pela história não podem ser reduzidos a uma mera disputa metodológica capaz de ser solucionada com o devido reposicionamento das fronteiras disciplinares. Pelo contrário: isso rescinde a um fetichismo metodológico que, ao não enfrentar a historicidade da disciplina, acaba transformando-se em um convincente, apesar de frágil, mecanismo de repressão. Como desnudaram Jon Lauck (2022), Ethan Kleinberg (2023) e Brian Connolly (2023), o que está ocorrendo nos Estados Unidos é uma infeliz combinação entre o colapso material das estruturas que sustentaram a profissão até aqui e o desalinhamento dos protocolos e políticas de tempo disciplinares com as tarefas políticas-existenciais da representação histórica no presente. Ou seja, diversos sujeitos percebem que, dada a impressão de que o passado não é algo a ser simplesmente estudado, mas enfrentado em suas continuidades e recursividades no presente, a historiografia disciplinada - com suas ênfases na “distância” e na “diferença” supostamente ontológicas entre ontem e hoje -, não está mais à altura do desafio: antes de serem uma solução, suas políticas de tempo hegemônicas passam a ser o problema a ser solucionado.
Uma polêmica, em especial, ilustrou a extensão da desorientação dos historiadores e historiadoras nesse contexto. Refiro-me ao “affair James Sweet”, que tomou a profissão de assalto por algumas semanas em 2022. Em agosto daquele ano, Sweet, então presidente da AHA, inquiriu em sua coluna mensal na revista Perspectives on History se, diante do “presentismo”2 alegadamente hegemônico, velho monstro em roupas novas, a história continuava sendo história. Seu argumento era símile àqueles feitos durante as theory wars das décadas de 1980 e 1990, a começar pela reiteração da necessidade de “distanciamento”, o discurso de separação do qual falava Michel de Certeau (2002), e a imposição de limites estritos à prática historiográfica e a identidade disciplinar. No entanto, a conjuntura de sua intervenção é substancialmente diferente, porque aquele triunfo pírrico se evanesceu: não só inexistem garantias para a sobrevivência institucional da história, como a “epistemologia realista” da qual se envaidece não parece mais política e socialmente convincente para dar conta das demandas de um presente que é radicalmente diverso do que lhe deu origem. A tormenta subsequente à publicação da coluna revelou o mal-estar que amargava o coração da história: não obstante sua celeridade, ilustrativa da era das redes sociais, ela trouxe à baila as rupturas internas à disciplina, ao mesmo tempo que ilustrou a ineficiência dos antigos mecanismos de repressão. Se a controvérsia arrefeceu, não significa que tenha sido desimportante, um mero desacordo acalorado entre acadêmicos e acadêmicas; seus ditos e não ditos, seus dilemas e impasses, apresentam repercussões de largo alcance para o ofício. São sintomáticos, diríamos.
Em virtude disso, a controvérsia ao redor do texto de Sweet torna-se um ótimo laboratório para escrutinarmos o problema do problema da história, termo que tomo emprestado a Hayden White (2014), nos Estados Unidos atuais. Se nos Oitocentos celebremente analisados por White, o problema do problema da história referia-se tanto ao seu atribulado processo de disciplinarização quanto a interrogações sobre como levar uma “vida histórica sã em uma situação de sofrimento e conflito”, no século XXI estadunidense ele igualmente diz respeito à dissolução das condições gerais de possibilidade da história e das exigências ético-políticas e existenciais feitas a ela no capitalismo tardio. Chegamos à hipótese principal do ensaio: a de que estamos testemunhando mudanças epocais, aceleradas na situação norte-americana, das/nas formas de se fazer e pensar sobre a história, sobretudo no que se refere às suas políticas do tempo, e conectadas à erosão de sua institucionalidade acadêmica. Nos Estados Unidos, esses dois polos do problema do problema da história, um simbólico e o outro material, estão fortemente conexos e o affair James Sweet nos auxilia a compreender sua magnitude.
Antes de entrar nele, todavia, farei uma breve recapitulação das várias apreensões dos historiadores e historiadoras norte-americanos nos primeiros decênios do século XXI, suas ansiedades e temores acerca do “presentismo” e do lugar da história nos Estados Unidos, para, ato contínuo, passar ao detalhamento da contenda em torno do texto de Sweet. Finalmente, à guisa de encerramento, tratarei do citado colapso material da profissão em terras norte-americanas, assinalando a devastação sem precedentes recentes que realmente nos dá o terrível vislumbre de um mundo sem um lugar institucional para a história - a visão que o fetichismo metodológico de Sweet, repetindo exemplos anteriores, tentou acobertar. Não foi bem-sucedido: sua redução do problema do problema da história a um “presentismo”, que serviu muito bem como um espantalho assustador, não nos dá a dimensão exata da crise da história naquele país porque nem sequer consegue antevê-la em sua profundidade.
Tempo de ansiedades, ansiedades do tempo
Em 2002, quando o “positivismo redivivo” (“giro arquivístico”, “retorno ao referente”, “volta à prática” etc.), que se seguiu à retração da “ameaça pós-modernista”, estava em seu auge, Lynn Hunt (2002) publicou um breve libelo contra o “presentismo”, na mesma Perspectives onde, mais tarde, Sweet lançaria o seu. Um misto de falha metodológica com desvio ético sério, o “presentismo” de Hunt antecipava o de Sweet em seu potencial desagregador para a historiografia disciplinada: segundo ela, se deixado desimpedido, o “presentismo” desempregaria historiadoras e historiadores, pois, sem seus procedimentos de distanciamento e diferenciação entre passado e presente, os profissionais se tornariam supérfluos. Quem, afinal de contas, prestaria atenção a um passado indistinguível ao presente? Para que ele serviria? E como se justificaria um conhecimento histórico centrado somente em temas ou imperativos atuais? Suas preocupações com o “senso de superioridade temporal” derivada de um “presentismo” exacerbado eram certamente corretas, mas suas invectivas iam mais longe do que isso: eram um chamado à manutenção acrítica do discurso de separação e das políticas de tempo disciplinares, sem as quais, receava Hunt, a historiografia não conseguiria se sustentar como atividade autônoma.
Interessantemente, observou Sarah Maza (2024), a contribuição de Hunt não suscitou grandes discordâncias, o que talvez refletisse os consensos gerais em uma disciplina que acreditava ter deixado as impertinências teóricas “pós-modernas” para trás. Era um índice, em resumo, de dias (pretensamente) mais alvissareiros. Ainda assim, o subtexto das ponderações de Hunt era o de uma possível, embora inadmitida, inadequação entre as políticas de tempo disciplinares e uma situação histórica em que, para citar David Scott (2013, p. 6), os antigos “ritmos existenciais” entre passado, presente e futuro pareciam ter se quebrado. Hunt suspeitava disso e é isso que confere ao seu texto uma falsa tranquilidade. No fundo, sua pregação contra o “presentismo” fora um intento de salvaguardar os protocolos disciplinares de temporalização, confundidos com o tempo histórico “natural”, em um momento em que eles sinalizavam seu desgaste. De todo modo, seguindo as observações de Kleinberg (2023) e Daniel Steinmetz-Jenkins (2020; 2023), as usuais interdições hegemônicas ao “presentismo” continuaram tendo tração nos Estados Unidos, mas em um ambiente no qual o presente tornava-se uma questão histórica de primeira ordem, nem tanto como objeto de estudo, mas como algo, já o disse, que deveria ser confrontado - uma das facetas do problema do problema da história. Com isso, nos diz Steinmetz-Jenkins (2023), estabeleceu-se uma contradição difícil de ser resolvida pela disciplina: se ela reivindicava a relevância de suas produções com apelos às “questões do presente” que inspiravam suas jornadas ao pretérito, ela também manifestava sua desaprovação com essa invasão do presente em seus domínios.3
Em virtude disso, matizado ou não, o veto ao “presentismo” constituiu-se em um ponto quase inegociável da disciplina, sendo a régua usada para medir a legitimidade de certas histórias em detrimento de outras. Na prática, entretanto, o “peso dos acontecimentos” recentes, da pandemia do novo coronavírus à excruciante persistência do terror racial nos Estados Unidos, passando pela crise de 2008, a eleição de Donald Trump e o revigoramento do supremacismo branco explícito, levou a uma inevitável confrontação da história com o presente ao longo da década de 2010 (Steinmetz-Jenkins, 2023). O discurso de separação mostrou-se insuficiente. Joanne Meyerowtiz (2020, p. 324), presidenta da Organization of American Historians (OAH), sumarizou essa disposição ao interrogar seus colegas sobre, frente ao que estava posto, “como tornar o presente histórico”. Essa “pedagogia pública”, para Meyerowtiz (2020, p. 335), demandava uma crítica das políticas de tempo disciplinares, pois, sem isso, a história veria sua autoridade e credibilidade públicas fragilizarem-se mais e mais. Ironicamente, porém, no reconhecimento da própria Meyerowitz (2020, p. 323), as ansiedades acerca do “presentismo” não diminuíram, como testemunha o affair Sweet, porque havia o medo de que uma virada excessiva à atualidade (repitamos: não como tema específico, mas como um problema) pudesse “ideologizar” a disciplina, transformando-a em refém das famigeradas culture wars que, desde os anos 1990, conflagram o espaço público norte-americano. Nas décadas de 2010 e 2020, a contradição identificada por Steinmetz-Jenkins atingiu, portanto, seu paroxismo: enquanto a disciplina se esforçava em tentar responder, nas melhores de suas habilidades, os enigmas colocados pela atualidade,4 ela mantinha-se em suspeição política e teórica em relação a esse mesmo “presentismo”. No entanto, à medida que a história se tornava uma prioridade política para diversos sujeitos, à esquerda e à direita, tal “presentismo” veio a ser, na sua visão, inescapável, gostassem dele os historiadores e historiadoras ou não.
O notório 1619 Project elaborado pelo New York Times é aqui exemplar. Ponto fulcral de inúmeras discórdias públicas, incluindo a de Sweet (e é por esse motivo que é importante mencioná-lo), o projeto, cuja intenção era a de reescrever a história nacional dos Estados Unidos sob a perspectiva da escravidão e do terror racial, era inapelavelmente “presentista” em seu escopo e seu imenso sucesso também derivou disso. Vários historiadores e historiadoras, ofuscados e irritados pelo êxito de um projeto no qual foram coadjuvantes, denunciaram as “imposturas” da iniciativa, sem perceberem que eram elas que lhe davam apelo popular (a versão em livro do 1619 Project alcançou o primeiro lugar na lista de best-sellers de 2021) (Avila, 2021, p. 147-180). Para eles e elas, porém, o “abandono” da objetividade e do distanciamento em prol do “presentismo” era um pecado difícil de absolver porque envolvia uma transformação intolerável das políticas de tempo e protocolos de representação usuais à história (Wood, 2019; Wilentz, 2021). Por outro lado, o sucesso do 1619 Project evidencia, como pontuou Kleinberg (2023, p. 271), a disjunção entre os preceitos convencionais da disciplina e as “tarefas de representação histórica” na esfera pública, que não necessariamente levam em conta a “distância” tão ferreamente salvaguardada pela ortodoxia disciplinar.
Talvez esse hiato crescente explique a diferença negativa, encontrada em uma pesquisa da AHA sobre a história na esfera pública (Burkholder; Shaffer, 2021), entre uma crença continuada na utilidade da história como instrumento de justiça social e reparação e o baixo valor atribuído à importância dos historiadores e historiadoras na sociedade norte-americana - justamente o paradoxo que espantou Grossman e que será um dos pretextos para a coluna de Sweet. Por esse motivo, pode-se dar o caráter de sintoma a todas essas ansiedades sobre o “presentismo”: nas palavras de Kleinberg (2023, p. 271), elas diziam mais sobre a “precariedade da disciplina histórica” nos dias de hoje do que “sobre as relações entre o passado, o presente e o futuro” que eram seu conteúdo óbvio. Dito diferentemente, elas expressam uma das facetas, quiçá a mais grave, do problema do problema da história nos Estados Unidos contemporâneos. Com sua dramaticidade ímpar, o affair Sweet, ao qual estamos finalmente chegando, deu visibilidade e corpo a esses mal-estares difusos porque, na colocação de Maza (2024, p. 317), expôs tanto a profundidade da “crise política da história”, a disjunção acima comentada, quanto canalizou, por vias tortas, a discussão sobre seu colapso material em terras estadunidenses. Passemos a ele.
O affair Sweet
O angustiado título do pequeno artigo de Sweet já dava a tônica de suas aflições: nele, o historiador se perguntava se, dados os impasses epistêmicos e políticos por ele encarados, “a história ainda seria história?”. Consternado com as “políticas de identidade” e o “presentismo” que estariam engolindo a disciplina, Sweet quis instigar seus e suas colegas a pensarem mais profundamente sobre ambos (mas, como ensina um velho adágio, de boas intenções…). Até aí, nada a se objetar. A provocação contra a complacência, e a disciplina costuma ser bastante complacente, é sempre bem-vinda. O resultado, todavia, foi conceitualmente ruim, pois Sweet misturou os proverbiais alhos e bugalhos, e politicamente péssimo, porque deu a impressão de que, do alto de seu posto, o líder da maior associação de historiadores e historiadoras do mundo estava juntando-se ao coro dos que acusavam a historiografia acadêmica de ser “ideológica” e, por isso, desprovida de competência científica. No ambiente público turbulento da Era Trump, as provocações inábeis de Sweet não poderiam sair impunes, quaisquer fossem as vontades de seu autor. Quando a história assume prioridade política e quando o abatedouro laboral se converte em realidade cotidiana para a maioria dos e das profissionais, todo debate “metodológico” corre o risco de ser capturado por essa urgência. Foi o que aconteceu com a “catastroficamente desajeitada” (Maza, 2024, p. 320) coluna de Sweet.
Retomando em espírito as condenações prévias ao “presentismo”, Sweet atacava as pressões por “justiça social” e “relevância” atiradas à historiografia acadêmica: para ele, tais pressionamentos significariam o abandono da historiografia como “um método de análise do bagunçado processo de mudança ao longo do tempo” em direção à sua utilização como “dados anacrônicos para articulação de políticas antagônicas” (Sweet, 2022). Negligente com os “valores dos sujeitos em seus próprios tempos” (Sweet, 2022), essa história “presentista” diluía a expertise científica da área, subordinando-a “à solução de questões legais, sociais e econômicas contemporâneas” (Sweet, 2022) ao invés de privilegiar a interpretação do passado com base nas categorias nascidas dos “mundos dos atores históricos” (Sweet, 2022). Sweet via isso acontecendo de várias maneiras: no 1619 Project, com seu “jogo de soma-zero de heróis e vilões visto pelo prisma da identidade racial contemporânea”, em produções de Hollywood, tal qual A mulher-rei e sua “simplificação” da história africana, e nos usos do pretérito pela Suprema Corte conservadora em suas decisões. Sem deter-se em minúcias analíticas, o que dava um ar por demais simplista às suas análises, Sweet adjudicou todos esses fenômenos à depreciação da história resultante de uma “superabundância de passados” motivada pelo “presentismo” todo-poderoso. Essa simplificação, contudo, era funcional à sua contraposição, ideológica de cima a baixo, entre a presumida “integridade” de uma disciplina comprometida com o discurso de separação e a “corrupção” inerente a representações do pretérito que não o levavam a sério. Daí, para Sweet, a importância de um cordão sanitário ao redor da historiografia: se o mundo da vida estava sendo seduzido pelas sereias presentistas, cabia aos historiadores e historiadoras fecharem seus ouvidos.
Essa invasão do passado pelo presente tinha outra implicação severa: a perda de interesse pelos períodos mais distantes do passado e um foco excessivo em tópicos contemporâneos, que, corretamente, Sweet temia ser prejudicial à historiografia acadêmica. Sua conclusão, parecida com a de Hunt, em 2002, era a de que, consumida pela “mesmidade” que o “presentismo” impunha ao que era uma alteridade ontológica, a história deixaria de ser história. Disso decorria um embargo disciplinar axiomático: “a história não é uma ferramenta para a articulação de um imaginado futuro ideal. Ao invés disso, ela é um modo de se estudar o bagunçado e desigual processo de mudança ao longo do tempo” (Sweet, 2022). Com esse aviso final, o presidente da AHA conclamava seus e suas colegas a abjurarem do “presentismo metodológico” e a respeitarem a “integridade” da história. O problema do problema da história era, com isso, solenemente ignorado.
Não sejamos injustos, todavia: algumas das inquietudes de Sweet eram justificadas. Segundo ele, se “as interpretações do passado recente se confundissem com os termos familiares dos debates contemporâneos” (Sweet, 2022), a capacidade disciplinar em oferecer interpretações desafiadoras estaria comprometida. Concordo: a mimetização acrítica de determinados jargões e chavões polemistas pela disciplina é um comportamento a ser evitado. Há um afastamento aí que precisa ser respeitado. A questão, todavia, é que com sua indigência teórica Sweet jogou mobilizações díspares do passado na vala comum do “presentismo”: de “A mulher-rei” à Suprema Corte há um oceano de distância, e de ambos ao 1619 Project há dois. E, para entortar o que já estava torto, Sweet não citou nenhum trabalho historiográfico disciplinado que se enquadrasse em suas acusações - o que levou, acertadamente, seus críticos a denunciarem suas ilações como ataques a espantalhos (Maza, 2024, p. 321-323). Ademais, a noção de “presentismo” que embasava seu texto era vaga demais (Sweet não é Hartog), incluindo desde o privilégio dado a temas contemporâneos, até a metodologia “falha” que observa o passado pelas lentes do presente. Nessa confusão teórica e conceitual, pouco se salvava: a impressão, confirmada por Sweet em uma entrevista dada em meio ao temporal gerado por sua coluna, é a de que ele estava lutando contra um sentimento geral, um Zeitgeist, mais do que contra desdobramentos historiográficos específicos (Green, 2023).
Por essas razões, o que poderia ter sido mais uma das desavenças teóricas que ocasionalmente estremecem os assuntos internos da disciplina sem, contudo, serem registrados pela audiência leiga (salvo engano, “presentismo” não é um tema que inflama multidões), converteu-se em uma querela de enorme visibilidade. Nas redes sociais, a agitação foi rápida e intensa: como documentam Maza (2024) e Georg Gangl (2022), para além das réplicas justas a Sweet, que notavam sua mixórdia conceitual, algumas historiadoras e historiadores jovens, também confundindo alhos com bugalhos, tomaram um equívoco analítico por um desvio ético que, à moda moralista dos nossos dias, exigia penitência e retratação, pediram sua renúncia à presidência da AHA, ordenaram sua demissão do cargo que ocupava na Universidade de Wisconsin e recriminaram Sweet por sua “insensibilidade”, coagindo-o a pedir desculpas (ele acabou cedendo: o pedido de perdão veio um dia após a publicação da coluna). De “lixo absoluto” a “troll posando de historiador”, os impropérios circularam sem freio pelas redes sociais (Gangl, 2022). Outros indignaram-se, não sem razão, com a dispensa arrogante de Sweet das demandas existenciais dos sujeitos, como os afro-americanos e afro-americanas, interpelados emocionalmente pelo 1619 Project e o prospecto de reparação histórica pelos longos anos de terror e violência.5 Se a história disciplinada, na figura de um de seus líderes, era incapaz de compreendê-las, diziam eles e elas, então azar o dela (e de Sweet): seria condenada à desimportância (Maza, 2024, p. 321-322). Como disse Elizabeth Hinton (apudGreen, 2023, s.p.), renomada historiadora negra e professora em Yale, em sua réplica indireta a Sweet e ecoando o horizonte normativo de produções como o 1619 Project: o trabalho de historiadores e historiadoras “não se resume somente a fazer história. Ele é necessariamente parte desse projeto político e social mais amplo de uma sociedade mais justa e igualitária”.
Os respondentes a Sweet ecoaram essas expectativas em seus rebates - o que indica, no meu entendimento, o descrédito dos habituais vetos ao “presentismo” e, em certas searas, uma gradual reorganização das políticas de tempo disciplinares para longe do discurso de separação. Malcolm Foley (2022), com sua ponderação incisiva, resgatou a tradição radical negra norte-americana, para quem o afastamento e a objetividade defendidos por Sweet, embora bem-intencionados, eram mistificações da dominação. Para ele, a história seria, antes de qualquer outra coisa, a busca pelo bem-viver em situações de opressão: um caminho para a libertação que não pressupunha de antemão a diferença ou a semelhança entre passado e presente. Essas seriam relações construídas, mais do que características ontológicas a serem preservadas. “O que fazer?” era, assim, a interrogação vital para sujeitos que, mais do que “conhecer” o passado, almejavam livrar-se de suas sobrevidas para terem existências históricas minimamente sãs. Uma história justa, não uma história objetiva, era o que buscavam, inspiradora de um “exercício moral da liberdade” capaz de regenerar o mundo. A politização responsável da história era, desse modo, ineludível. Recuperando essa mesma tradição radical negra, Keisha Blain (2022), escrevendo para a revista liberal The New Republic, reiterou a importância da história a aqueles e aquelas para quem o passado nunca está divorciado das circunstâncias de suas existências: para eles e elas, a história era uma “questão de vida ou morte” que os propelia a agir. O “presentismo” nem sequer era uma opção: era uma obrigação tão grande quanto a expertise técnica do historiador ou da historiadora. Igualmente, Priya Satia (2022), além de lamentar a legitimidade que a coluna de Sweet dava aos ataques reacionários à história, via em seu chamado à “história íntegra” nada mais do que um regresso a uma objetividade cúmplice do poder, teoricamente estéril e tão “presentista” quanto o ativismo que visava combater; “quando a historiografia norte-americana não foi política?”, Satia terminou por perguntar, acertada e provocativamente.
Outros moderaram os incômodos de Sweet, mas não os contrariaram decisivamente. David Bell (2022) e Thomas Sugrue (apudMaza, 2024, p. 323-324), ao comentarem sobre a contenda, defenderam uma espécie de “presentismo produtivo” que, mutatis mutandis, mantinha o discurso de separação em sua posição privilegiada. Para ambos, o presente podia inspirar as questões dos historiadores e historiadoras contanto que eles e elas tivessem o cuidado de não impor suas categorias ao mundo pregresso: “o passado, como seguidamente se diz, é um país estrangeiro: bizarro, maravilhoso e estranho” (Bell, 2022, s.p.) e romper com esse pilar basilar seria aceitar a conversão da história em uma “peça moralista de heróis e vilões”, tal qual admoestara Sweet. Os “dois vivas” que Bell (2022) deu ao “presentismo” não são nada mais do que elogios puramente retóricos, porque não há nada deles que de fato contradiga Sweet: são apenas caminhos diferentes para se chegar à velha casa disciplinada. Sugrue (apud Maza, 2024, p. 324), por sua vez, ponderou que, não obstante a importância de se tocar em assuntos contemporâneos, o “presentismo” descuidado equivalia à “distorção das pesquisas para adequá-las a posições políticas”, o que era, evidentemente, um interdito inatacável (e reducionismo fácil, porque não era isso o que estava em jogo). Mesmo Arjun Appadurai (2022), que ofereceu uma contribuição teoricamente mais sofisticada à controvérsia ao diferenciar “presentismo” de “passadismo”, não fugiu ao discurso de separação ao reiterar a “descontinuidade” natural do presente em relação ao pretérito, embora, para seu crédito, o cientista social indiano tenha criticado abertamente a artificialidade das políticas de tempo disciplinares caninamente defendidas por Sweet.
A documentação das repercussões da coluna de Sweet, muito bem realizada por Maza (2024), Jennifer Schuessler (2023) e Emma Green (2023), demonstra como o litígio ao seu redor adquiriu as proporções de uma crise existencial acerca dos fundamentos disciplinares e da sobrevivência da história no século XXI. Os testemunhos ouvidos por Green (2023) e os depoimentos colhidos por Schuessler (2023) no encontro nacional da AHA, realizado em janeiro de 2023, são ilustrativos dessas gretas. Para os defensores e as defensoras de Sweet, a politização indevida da história levaria a um descrédito ainda maior do que estava se abatendo sobre ela e a única saída para isso seria a reafirmação da importância da “objetividade” e do distanciamento como pilares epistêmicos inegociáveis. Já seus opositores e opositoras, ou simplesmente aqueles e aquelas que discordavam da forma como Sweet havia encaminhado suas conclusões, argumentavam que uma parcela das aflições da disciplina nascia precisamente de uma “objetividade” incapaz de responder às demandas de um país em franco processo de desagregação social e política. David Blight (apud Green, 2023), importante historiador da Guerra Civil norte-americana, resumiu tais posicionamentos ao reiterar tanto a necessidade de comprometimento político da historiografia quanto a de solidez empírica e conceitual. As duas coisas, e Blight estava correto sobre elas, não se autoeliminam, pelo contrário: prioridade política e prioridade “científica” se retroalimentam, formando um círculo virtuoso para a historiografia acadêmica - talvez o único capaz de devolver a ela a possibilidade de enfrentar o problema do problema da história de peito aberto. Davarian Baldwin, em conversa com Green (2023) e ressoando as críticas de Blain, Satia e Foley a Sweet, ressaltou que uma repolitização “presentista” seria uma saída para a paralisia de uma disciplina excessivamente ensimesmada em um tempo em que isso era um luxo perigoso. Se houvesse um futuro para a história, ele passaria fundamentalmente por sua competência em reorganizar suas políticas de tempo para, voltando a Meyerowitz (2020), historicizar o presente em toda sua complexidade, deixando de lado o discurso de separação para, quem sabe, realinhar a historiografia disciplinada com as tarefas político-existenciais hodiernas da representação histórica.
Decadência disciplinar e colapso material: a história em ruínas
O que emerge dessa querela, então, é aquele senso de desorientação mencionado anteriormente, consequente, como escrevemos nas páginas iniciais do ensaio, da dissolução das condições gerais de possibilidade da história, ao menos nas modalidades hegemônicas por meio das quais ela tem sido praticada desde sua disciplinarização nos Estados Unidos. É por esse motivo que o “presentismo” reconverte-se em questão candente, à medida que seus embargos e defesas, diferentemente do que ocorreu quando a normalidade tensa era a regra, desnudam um mal-estar com as políticas de tempo da história que não pode ser facilmente amainado por apelações a uma “nova virada” qualquer ou por mecanismos de repressão regressivos, como os de Sweet. O presente se interpôs à historiografia acadêmica não por causa da irresponsabilidade metodológica de ativistas em vestes de historiadores e historiadoras, mas porque o discurso de separação tornou-se inconvincente para a reflexão sobre como viver uma vida histórica sã em situações de sofrimento e conflito. Mintz (2024b, s.p.) sintetizou bem esse impasse, pois, de acordo com ele, as humanidades, e a história em especial, foram convocadas pelos “desafios sociais e políticos contemporâneos” a “compreender e desafiar as estruturas que perpetuam a desigualdade”: “essa transformação reflete uma demanda da sociedade por mudança, colocando as humanidades em engajamento direto com assuntos do mundo real e a busca por justiça social”. Sweet não quis, ou não pôde, vê-lo, porque, para ele, essa politização, confundida com instrumentalização pura e simples, era o problema (do problema?) a ser evitado a todo custo: reprimido.
Seu fetichismo metodológico e sua aderência tenaz a uma visão “desistoricizada” da disciplina equivalem, dessa maneira, ao que Gordon (2006, p. 6; 2015, p. 5-6) nomeou “decadência disciplinar”, isto é, a ontologização e a reificação de uma disciplina que, ao considerá-la eterna (ou, pelo menos, incambiável), leva a um bloqueio de suas capacidades críticas e a uma recusa do confronto com a realidade que deveria lhe servir de inspiração. Consequentemente, a disciplina “perde a visão de si mesma como um esforço para compreender o mundo para ceder à hybris de se afirmar como o mundo” (Gordon, 2006, p. 8; destaques meus) (o julgamento que Sweet faz do 1619 Project e de A Mulher Rei é paradigmático disso). O que a posição política (porque, enfim, é disso que se trata) de Sweet, que encontrava respaldo até pouco nos consensos hegemônicos da historiografia nos Estados Unidos, ambiciona, talvez inconscientemente, é a “erradicação do mundo externo” (Gordon, 2006, p. 10): mais importantes do que seus vínculos com ele são seus “compromissos com o método” (Gordon, 2015, p. 6) (ou com suas políticas de tempo) que, impassíveis, devem ser mantidos mesmo que suas condições de possibilidade estejam desabando ao seu redor. Por isso, o caráter repressor da coluna de Sweet: o “presentismo” funciona ali como mecanismo para a criação de “bodes expiatórios pelos quais a ansiedade e insegurança do grupo” (LaCapra, 2018, p. 32) são projetadas em outrem por meio de uma oposição binária rígida (história íntegra x histórias não íntegras). A responsabilidade pela desordem da história, nessa visão, só pode ser das pessoas e grupos que atentam contra sua “integridade”, jamais de um “método” que dá nítidos sinais de exaurimento. Os críticos de Sweet, não obstante suas ocasionais desmesuras e erros de alvo, tinham, por sua vez, a lucidez de compreender que, se há duas ou três décadas, no ambiente de normalidade tensa, as injunções similares às de Sweet tinham o poder de seduzir a disciplina, elas não são mais convincentes hoje porque, retomando a terminologia de Gordon, a realidade está a bater na porta - e ela não traz boas novas.
Nesse sentido, no julgamento de Jacob Bruggeman (2023), e em repetição ao que escrevi na abertura deste ensaio, a intervenção de Sweet pode ser também pensada como “o sintoma mórbido de uma profissão em declínio terminal”: o colapso material indicado por Lauck (2022), Kleinberg (2023) e Connolly (2023). A precarização aguda da estrutura institucional da história aponta para algo impensável até recentemente, isto é, sua provável extinção institucional, resultante da infeliz conjunção entre cortes massivos no seu financiamento, razias políticas, limitações orçamentárias, má administração, a crescente preeminência dos cursos STEM no mundo acadêmico e sua colonização por uma razão neoliberal que entende tudo pela métrica do “impacto”, da “utilidade” e do “capital humano”. Na trágica asseveração de Connolly (2023, p. 282), nesse cenário não são conteúdos específicos que são considerados “inúteis”, mas as humanidades como um todo. Se o fetichismo metodológico de Sweet alcança aí o seu limite, o “presentismo” orgulhoso de seus antagonistas também é insuficiente porque, apesar de enfrentar o problema do problema da história em seu aspecto político-existencial, não leva em conta a gravidade de seu âmbito material. Nessa situação de ruína, giro algum, ortodoxo ou heterodoxo, tem grandes chances de prosperar.
De acordo com relatórios elaborados pela AHA em 2021, 2022 e 2023, não somente o número de postos de trabalho acadêmicos diminuiu sensivelmente desde o auge da “Grande Recessão” nos Estados Unidos, entre 2008 e 2010, como a qualidade dos empregos se alterou: a maioria deles, quando existiam, era para posições temporárias, institucionalmente frágeis, com raras oportunidades de estabilidade vindoura (tenure) e majoritariamente centradas em áreas contemporâneas (pós-século XIX) (Ruediger, 2021; Grigoli, 2022, 2023).6 O balanço de 2022 é particularmente sinistro: dos 1.799 recém-doutores que entraram no mercado de trabalho, somente 175 obtiveram posições profissionais de relevo (abatedouro, sem dúvida), a maioria em história contemporânea. Se as poucas chances de contratação estão localizadas nesse campo, o “presentismo” profissional atacado por Sweet deixa de ser uma “moda” lastimável e passa a ser visto como uma estratégia de sobrevivência laboral de trabalhadoras e trabalhadores acadêmicos precarizados. A conclusão do relatório de 2022, acerca disso, é cabal: para historiadores e historiadoras, “encontrar uma posição professional permanente está e continuará extremamente difícil no futuro visível” (Grigoli, 2022). Para piorar, os cortes, intensificados durante a recessão, nos departamentos e programas de pós-graduação em humanidades nas universidades menores e nas faculdades públicas, locais que tradicionalmente empregavam uma boa parte dos recém-doutores, têm o efeito de concentrar ainda mais os postos de trabalho em um menor conjunto de instituições. Lauck (2022), avaliando somente os departamentos de história do Meio-Oeste norte-americano, fornece um panorama sombrio: nas principais universidades da região, o decênio entre 2010 e 2020 foi de cortes que, em determinados locais, alcançaram quase um terço das vagas docentes. Praticamente não há reposição de postos perdidos e, quando isso ocorre, há a conversão de cargos estáveis em vagas temporárias. Consequentemente, o prognóstico é desalentador: o abandono en masse da profissão por jovens historiadores e historiadoras, com repercussões devastadoras em toda a cadeia do Ensino Superior. A queda acentuada das matrículas em programas de pós-graduação (quem se arriscaria em um campo profissional devastado?) retroalimentaria a inevitável redução, quando não a eliminação, de financiamento para os departamentos e programas de pós-graduação em história, gerando um círculo potencialmente catastrófico.
Duas outras tendências tornam o contexto ainda mais desanimador: a queda acentuada no número de estudantes matriculados em cursos de história nos Estados Unidos e a extinção de fontes de recursos para pesquisas em ciências humanas. No primeiro caso, o declínio, de acordo com a AHA (Brookins, 2022), tem se dado a uma média de 2% ao ano, o que promete uma hecatombe demográfica para a profissão em um prazo não muito longo. Esses dados estão intimamente relacionados com a decaída universal de matrículas no Ensino Superior estadunidense, gerada por uma lógica de endividamento privado insustentável e pela desvalorização da própria ideia de ascensão ou estabilidade social por intermédio do acesso ao ensino universitário. Para a história, que não promete lautas somas aos seus trabalhadores e às suas trabalhadoras, muito menos um retorno financeiro imediato, essa conjuntura é funesta, pois, de um lado, estimula os ataques de políticos e “gestores” já ideologicamente indispostos em relação às ciências humanas, e, de outro, induz o fechamento dos cursos por administradores mais zelosos dos cofres de suas instituições do que do conhecimento em si. No que tange à contração do investimento em investigações humanísticas, Bessner (2023) é categórico ao afirmar que, frente ao abandono das humanidades pelos órgãos de fomento privados e públicos, é provável que as “pesquisas movidas por curiosidade” que formaram a espinha dorsal da prática dos historiadores e historiadoras cheguem a um triste termo ou, o que é apenas um pouco melhor, concentrem-se nas mãos daqueles e daquelas com recursos disponíveis e tempo livre para fazê-las. Voltaríamos ao modelo dos gentlemen scholars que a profissionalização enterrou ainda no princípio do século XX: “áreas inteiras de nossa história compartilhada jamais serão conhecidas porque ninguém receberá um salário digno para recuperá-las e estudá-las. É implausível esperar que pesquisadores com empregos inseguros possam oferecer visões inovadoras sobre a história” (Bessner, 2023). Nesse mundo, lamenta Bessner (2023), a história não será “escrita pelos vitoriosos, mas pelos ricos”. Em face disso, preocupações exageradas sobre o “presentismo”, como as de Sweet, assemelham-se a uma piada de mau gosto e a um “espetáculo de irrealidade”, na expressão de Connolly (2023, p. 280) - ou, como estou insistindo, em uma repressão do problema do problema da história em seu aspecto material. A decadência disciplinar serviria, assim, para ocluir a decadência profissional.
Considerações finais
Com o colapso material da estrutura institucional da história e das ciências humanas nos Estados Unidos, a historicidade da disciplina adquire contornos mais graves, porque significa que, de fato, pode-se alcançar um porvir no qual a história, para usar o título da coluna de Sweet, seja “história”, isto é, passado. Por esse motivo, a querela ao redor do “presentismo” adquiriu as proporções que teve: na atual conjuntura, em que a normalidade tensa cedeu à crise incessante, ela não podia se resumir a meras discordâncias metodológicas, intensas mas fugazes, entre historiadores e historiadoras, tornando-se um verdadeiro escrutínio existencial acerca de seus fundamentos, seu lugar na sociedade norte-americana e o caminho a seguir, não obstante os bloqueios na estrada (ou a possibilidade de que ela leve a um abismo…). Foi por essa razão que o problema do problema da história reapareceu com força nesse contexto. A conjunção entre, em uma ponta, a exaustão de suas políticas de tempo, a “invasão do presente” que põe em dúvida o discurso de separação e que levanta questionamentos incisivos sobre a função da historiografia disciplinada nos nossos dias e, em outra, o colapso material da história, que nos dá o prospecto de sua extinção, deram e continuarão dando uma premência inaudita a debates sobre o “presentismo” e afins que fetichismo metodológico algum conseguirá dirimir. A inquirição sobre “como viver uma vida histórica sã em situações de sofrimento e conflito” combina-se com a incerteza acerca da factibilidade da historiografia disciplinada, como atualmente organizada, em prover respostas a ela. Parte das objeções ao dogmatismo de Sweet nasceu daí. A “invasão do presente” não é uma impostura metodológica e ética de “ativistas” em vestes de “cientistas”, mas uma consequência das alterações nas percepções, inclusive dos próprios historiadores e historiadoras, acerca do papel da história no mundo após a exaustão da temporalidade moderna. Daí que um debate sobre políticas do tempo acabe se transformando em um embate sobre o significado geral da disciplina para o século XXI: esse depende daquele, principalmente em momentos de crise. O affair Sweet apenas deixou-o evidente. Quando se adiciona o colapso material à equação, seria virtualmente impossível a controvérsia não ter tomado a dimensão que tomou porque também era virtualmente impossível que a operação de repressão levada a cabo por Sweet fosse bem-sucedida.
Com tais desdobramentos em vista, que não se encerram no exemplo norte-americano e cuja probabilidade para o Brasil não deve ser descartada de antemão, é possível imaginar a continuidade da crescente dissociação entre o “passado” e a “história” que pode levar à paradoxal circunstância de um mundo (por enquanto, ainda hipotético) onde uma multiplicidade de representações do passado convive com a ausência da história. Sua revigorada prioridade política, as incessantes guerras em torno do pretérito e a proliferação de sentidos, lugares de produção e mecanismos de validação irreconciliáveis nos dão uma dimensão dessa separação do “passado” da “história” propriamente dita, da qual a ansiosa coluna de Sweet e a controvérsia que inflamou são sintomas. Um dia, quem sabe, o desquite pode ser completo, porque se alguma relação com o passado é indispensável para os sujeitos no capitalismo tardio, a disciplina não é. Essa, claro, é uma prognose que nos assusta, pelo simples fato de nos obrigar a confrontar a historicidade inclemente da própria historiografia, delírios de imortalidade à parte, e que consiste no problema do problema da história continuamente denegado por seus e suas praticantes. O presente (sempre ele, no fim das contas) nos mostra quão custoso pode ser nosso futuro se persistimos alimentando essa ilusão.
Referências
-
ALTERMAN, Eric. The decline in historical thinking. The New Yorker, 4 fev. 2019. Disponível: Disponível: https://www.newyorker.com/news/news-desk/the-decline-of-historical-thinking Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.newyorker.com/news/news-desk/the-decline-of-historical-thinking -
APPADURAI, Arjun. Stop weaponizing history. The Chronicle of Higher Education, 27 set. 2022. Disponível em: Disponível em: https://www.chronicle.com/article/stop-weaponizing-history Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.chronicle.com/article/stop-weaponizing-history - ÁVILA, Arthur Lima de. O desejo e a impossibilidade de reparação: o 1619 Project e os usos do passado nos Estados Unidos contemporâneos. In: ÁVILA, Arthur Lima de. A história no labirinto do presente Vitória: Milfontes, 2021. p. 147-180.
-
BECKER, Carl. Everyman his own historian Annual address of the president of the American Historical Association, [29 dez. 1931] s.d. Disponível em: Disponível em: https://www.historians.org/presidential-address/carl-l-becker/ Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.historians.org/presidential-address/carl-l-becker/ -
BELL, David. Two cheers for presentism. The Chronicle of Higher Education, 23 ago. 2022. Disponível em:Disponível em:https://www.chronicle.com/article/two-cheers-for-presentism Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.chronicle.com/article/two-cheers-for-presentism -
BESSNER, Daniel. The dangerous decline of the historical profession. The New York Times 14 jan. 2023. Disponível em: Disponível em: https://www.nytimes.com/2023/01/14/opinion/american-history-college-university-academia.html Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.nytimes.com/2023/01/14/opinion/american-history-college-university-academia.html -
BLAIN, Kesha. Black historians know there’s no such thing as objective history. The New Republic, 9 set. 2022. Disponível em: Disponível em: https://newrepublic.com/article/167680/presentism-history-debate-black-scholarship Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://newrepublic.com/article/167680/presentism-history-debate-black-scholarship -
BEARD, Charles. Written History as an act of faith Annual address of the president of the American Historical Association, [jan. 1949] s.d. Disponível em:Disponível em:https://www.historians.org/presidential-address/carl-l-becker/ Acesso em: 30 abr. 2026.
» https://www.historians.org/presidential-address/carl-l-becker/ - BONNELL, Victoria E.; HUNT, Lynn. Introduction. In: BONNELL, Victoria E.; HUNT, Lynn. Beyond the Cultural Turn: new directions in the study of society and culture Los Angeles: University of California Press, 1999. p. 1-15.
- BRINK, André. Rumors of rain Naperville: Source Books, 2008.
-
BROOKINS, Julia Akinyi. An uncertain trend. Perspectives on History, 23 fev. 2022. Disponível em: Disponível em: https://www.historians.org/perspectives-article/an-uncertain-trend-the-ahas-2022-survey-of-history-undergraduate-enrollments-march-2023/ Acesso em: 29 abr. 2025.
» https://www.historians.org/perspectives-article/an-uncertain-trend-the-ahas-2022-survey-of-history-undergraduate-enrollments-march-2023/ -
BRUGGEMAN, Jacob. Down and out at the AHA. The Chronicle of Higher Education, 10 mar. 2023. Disponível em: Disponível em: https://www.chronicle.com/article/down-and-out-at-the-aha Acesso em: 29 abr. 2025.
» https://www.chronicle.com/article/down-and-out-at-the-aha -
BURKHOLDER, Peter; SCHAFFER, Dana. History, the past, and public culture: results from a National Survey Washington: American Historical Association, 2021. Disponível em:Disponível em:https://www.historians.org/teaching-learning/current-events-in-historical-context/history-the-past-and-public-culture-results-from-a-national-survey/ Acesso em: 28 abr. 2025
» https://www.historians.org/teaching-learning/current-events-in-historical-context/history-the-past-and-public-culture-results-from-a-national-survey/ -
BYNUM, Caroline Walker. Wonder Presidential Address at the American Historical Association, 1996. Disponível: Disponível: https://www.historians.org/pre_sidential-address/caroline-walker-bynum/ Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.historians.org/pre_sidential-address/caroline-walker-bynum/ - CONNOLLY, Brian. Presentism, spectacle, unreality. History of the Present, v. 3, n. 2, p. 275-283, out. 2023.
- DE CERTEAU, Michel. A escrita da história Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002.
-
FOLEY, Malcolm. History as love. Perspectives on History, set. 2022. Disponível em: Disponível em: https://www.historians.org/perspectives-article/responses-to-is-history-history-october-2022/ Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.historians.org/perspectives-article/responses-to-is-history-history-october-2022/ -
GANGL, Georg. History now! On presentism and a strange online debate in American historiography (part 1). Geschichtstheorie am Werk, 15 nov. 2022. Disponível em: Disponível em: https://gtw.hypotheses.org/9274 Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://gtw.hypotheses.org/9274 - GINZBURG, Carlo. Killing a Chinese mandarin: the moral implications of distance. Critical Inquiry, v. 21, n. 1, p. 46-60, 1994.
- GORDON, Lewis R. Disciplinary decadence: living thought in trying times London: Routledge, 2006.
-
GORDON, Lewis R. Disciplining as a human science. Quaderna, n. 3, 2015. Disponível em: Disponível em: https://quaderna.org/3/disciplining-as-a-human-science/ Acesso em: 29 abr. 2025.
» https://quaderna.org/3/disciplining-as-a-human-science/ -
GRAFTON, Anthony; GROSSMAN, James. No more Plan b. Perspectives on History, out. 2011. Disponível em: Disponível em:https://www.historians.org/perspec_tives-article/no-more-plan-b-a-very-modest-proposal-for-graduate-programs-in-history-october-2011/ Acesso em: 29 abr. 2025.
» https://www.historians.org/perspec_tives-article/no-more-plan-b-a-very-modest-proposal-for-graduate-programs-in-history-october-2011/ -
GREEN, Emma. The right side of history. The New Yorker, 7 mar. 2023. Disponível em: Disponível em: https://www.newyorker.com/news/annals-of-education/the-right-side-of-history Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.newyorker.com/news/annals-of-education/the-right-side-of-history -
GRIGOLI, Leland Renato. The 2022 Academic Jobs Report. Perspectives on History, 29 ago. 2022. Disponível em: Disponível em: https://www.historians.org/perspectives-article/the-2022-academic-jobs-report-a-new-normal-september-2022 /. Acesso em: 29 maio 2024.
» https://www.historians.org/perspectives-article/the-2022-academic-jobs-report-a-new-normal-september-2022 -
GRIGOLI, Leland Renato. The 2023 Academic Jobs Report. Perspectives on History, 13 set. 2023. Disponível em: Disponível em: https://www.historians.org/perspectives-article/the-2023-academic-jobs-report-september-2023/ Acesso em:29 abr. 2025.
» https://www.historians.org/perspectives-article/the-2023-academic-jobs-report-september-2023/ -
GROSSMAN, James. A paradox? Perspectives on History, 9 fev. 2021. Disponível em: Disponível em: https://www.historians.org/perspectives-article/a-paradox-history-without-historians-march-2021/ Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.historians.org/perspectives-article/a-paradox-history-without-historians-march-2021/ -
HUNT, Lynn. Against presentism. Perspectives on History, 1 maio 2002. Disponível em:Disponível em:https://www.historians.org/perspectives-article/against-presentism-may-2002/ Acesso em:28 abr. 2025.
» https://www.historians.org/perspectives-article/against-presentism-may-2002/ - KLEINBERG, Ethan. Hauntinghistory: for a deconstructive approach tothe past Stanford: Stanford University Press, 2017.
- KLEINBERG, Ethan. Hiding (from the present) in the past. History of the Present, v. 3, n. 2, p. 265-274, 2023.
- LACAPRA, Dominick. History in transit Ithaca: Cornell University Press, 2004.
- LACAPRA, Dominick. Understanding others: peoples, animals, pasts Ithaca: Cornell University Press, 2018.
- LAUCK, Jon. Introduction: the ongoing History crisis. The Middle West Review, v. 9, n. 1, p. vii-xii, 2022.
- LIMERICK, Patricia Nelson. Turnerians all: the dream of a helpful history in an intelligible world. The American Historical Review, v. 100, n. 3, p. 697-716, 1995.
- MAZA, Sara. Presentism and the politics of history: revisiting the 2022 James Sweet affair. Past & Present, v. 265, n. 1, p. 315-334, nov. 2024.
- MEYEROWITZ, Joanne. 180 Op-Eds: or how to make the present historical. The Journal of American History, v. 107, n. 2, p. 323-335, set. 2020.
-
MINTZ, Steven. Can an academic discipline exhaust itself?Inside Higher Ed, 29 jan. 2024a. Disponível em: Disponível em: https://www.insidehighered.com/opinion/blogs/higher-ed-gamma/2024/01/29/can-academic-discipline-exhaust-itself Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.insidehighered.com/opinion/blogs/higher-ed-gamma/2024/01/29/can-academic-discipline-exhaust-itself -
MINTZ, Steven. Understanding the humanities’ political turn. Inside Higher Ed, 13 dez. 2024b. Disponível em: Disponível em: https://www.insidehighered.com/opinion/blogs/higher-ed-gamma/2024/12/13/its-not-rejection-humanities-historic-core Acesso em:29 abr. 2025.
» https://www.insidehighered.com/opinion/blogs/higher-ed-gamma/2024/12/13/its-not-rejection-humanities-historic-core - NOVICK, Peter. That noble dream: the “objectivity question” and the American historical profession Cambridge: Harvard University Press, 1988.
-
RUEDIGER, Dylan. The 2021 academic jobs report, 1 jan. 2021. Disponível em: Disponível em: https://www.historians.org/perspectives-article/the-2021-academic-jobs-report-2019-20-data-show-relative-stability-in-the-year-before-covid-february-2021/ Acesso em: 29 abr. 2025.
» https://www.historians.org/perspectives-article/the-2021-academic-jobs-report-2019-20-data-show-relative-stability-in-the-year-before-covid-february-2021/ -
SATIA, Priya. The present is a trap. Perspectives on History, set. 2022. Disponível em:Disponível em:https://www.historians.org/perspectives-article/the-presentist-trap/ Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.historians.org/perspectives-article/the-presentist-trap/ -
SCHUESSLER, Jennifer. As historians gather, no truce in the history wars. The New York Times, 8 jan. 2023. Disponível em: Disponível em: https://www.nytimes.com/2023/01/08/arts/american-historical-association-james-sweet.html Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.nytimes.com/2023/01/08/arts/american-historical-association-james-sweet.html - SCOTT, David. Omens of adversity: tragedy, time, memory, justice Durham: Duke University Press, 2013.
-
STEINMETZ-JENKINS, Daniel. Beyond the end of history. The Chronicle of Higher Education, 14 ago. 2020. Disponível em: Disponível em: https://www.chronicle.com/article/beyond-the-end-of-history Acesso em:28 maio 2024.
» https://www.chronicle.com/article/beyond-the-end-of-history - STEINMETZ-JENKINS, Daniel. Introduction: Whose present? Which history?Modern Intellectual History, n. 20, p. 559-570, 2023.
-
SWEET, James. Is history history? Identity politics and teleologies of the present. Perspectives on History, 17 ago. 2022. Disponível em: Disponível em: https://www.historians.org/perspectives-article/is-history-history-identity-politics-and-teleologies-of-the-present-september-2022/ Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.historians.org/perspectives-article/is-history-history-identity-politics-and-teleologies-of-the-present-september-2022/ - TYRRELL, Ian. Historians in public: the practice of American history (1890-1970) Chicago: University of Chicago Press, 2005.
- WHITE, Hayden. Metahistory: the historical imagination in nineteenth-century Europe. 40th anniversary edition. Baltimore: The Johns Hopkins University Press, 2014.
- WILENTZ, Sean. The 1619 Project and living in truth. Opera Historica, v. 22, n. 2, 2021.
-
WOOD, Gordon. Writing history: an exchange. The New York Review of Books, v. 29, n. 20, 1982. Disponível em: Disponível em: https://www.nybooks.com/articles/1982/12/16/writing-history-an-exchange/ Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.nybooks.com/articles/1982/12/16/writing-history-an-exchange/ - WOOD, Gordon. Presentism in history. In: WOOD, Gordon. The purpose of the past: reflections on the uses of history New York: Penguin, 2008. p. 267-280.
-
WOOD, Gordon. An interview with historian Gordon Wood on the New York Times’ 1619 Project. [Entrevista concedida a Tom Mackaman]. World Socialist Web Site, 2019. Disponível em: Disponível em: https://www.wsws.org/en/articles/2019/11/28/wood-n28.html Acesso em: 28 abr. 2025.
» https://www.wsws.org/en/articles/2019/11/28/wood-n28.html - ZARETSKY, Eli. Political Freud: a history New York: Columbia University Press, 2015.
-
1
No original: to him, history was as clear in line and meaning as the shape of a fish; whereas the present appeared wild, aimless and absurd. Nesta e nas demais citações de textos em outros idiomas, a tradução é livre e foi feita pelo autor.
-
2
Escrevo essa palavra entre aspas para marcar duas coisas: primeiramente, sua diferenciação das formas usuais que o termo adquiriu na teoria da história contemporânea, derivadas principalmente da obra de François Hartog e de sua hipótese presentista, que pouco tem a ver com o uso que Sweet fez dele; e, em segundo lugar, para realçar a recorrente falta de rigor de seu uso nas polêmicas norte-americanas, mais propensas a pânicos morais do que a discussões teóricas aprofundadas. Nesse caso, o “presentismo” converte-se em um significante vazio, esgrimido como uma arma para diferenciar os “bons” historiadores e historiadoras dos “maus”, podendo referir-se ao “anacronismo”, a uma perversa “ideologização” da história ou à hegemonia da história do tempo presente em relação a outros períodos e temas.
- 3
-
4
Interessantemente, a própria AHA, também durante a gestão de Sweet, lançou um programa de “defesa pela história” que dava ao engajamento com o presente um lugar central na atuação dos historiadores e historiadoras norte-americanos justamente para recuperar ou revigorar seu papel público. Ver https://www.historians.org/why-history-matters/aha-advocacy/.
-
5
Nesse ponto, o exemplo utilizado por Sweet para “provar” seu argumento improvável foi o de uma família negra norte-americana que, sentada ao seu lado no restaurante de um hotel em Gana, trazia consigo um exemplar da edição em livro do 1619 Project bastante manuseado - o que, para Sweet, era evidência de que estavam sendo interpelados “emocionalmente”, mas não “intelectualmente”, pelo projeto e suas “políticas de identidade”. Além de fazer um julgamento incabível (o que poderia ele saber tão peremptoriamente sobre as intenções e desejos daquelas pessoas?) e paternalista, ele insinuou, em um tom condenável, que aqueles sujeitos precisavam, para conhecer o “passado real”, ser guiados por um historiador competente como ele e, infere-se, não envolvido emocionalmente com os eventos da escravidão e da diáspora (branco, em suma).
-
6
Em 2012, Anthony Grafton, presidente da AHA naquela ocasião, e James Grossman já alertavam para a persistente e perturbante retração do mercado de trabalho nos Estados Unidos: “em 2009-2010 o número de empregos anunciados pela AHA caiu 29,4%, de 806 para 569, enquanto foram concedidos 989 doutorados. Essa não é a primeira vez que esses dois números estiveram longe um do outro. Em 1972, o primeiro ano para o qual existem estatísticas acuradas, quase 1.200 novos doutores competiram por um pouco mais de 600 postos. Com exceção de dois breves períodos no fim dos anos 1980 e nos anos 2000, o número de vagas de em departamentos de história tem ficado para trás, às vezes por ampla margem, do número de doutorados concedidos” (Grafton; Grossman, 2011).
-
7
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do texto.
Editado por
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do texto.
