Open-access A máquina da negação: do polemismo na mídia tradicional ao negacionismo sistêmico no universo digital

The machine of denial: from polemics in traditional media to systemic denialism in the digital sphere

Resumo:

Este artigo propõe que estamos diante de uma nova forma de negacionismo, articulada aos processos informacionais, políticos e econômicos de uma sociedade imersa em um ethos midiatizado, conceito de Muniz Sodré que designa uma forma de existência atravessada pela virtualidade. Argumenta que as atuais manifestações negacionistas são inerentes a esse novo modo de vida, no qual realidade e virtualidade se fundem sob o controle das grandes corporações de tecnologia e seus sistemas de vigilância e gestão de dados comportamentais. O estudo aborda dois momentos: do polemismo e da subversão da pluralidade de vozes nos grandes jornais ao negacionismo como negócio no universo digital. Toma como base dados colunas do jornal O Globo, cartas de leitores e comentários de internautas sobre um produto da empresa Brasil Paralelo para refletir sobre os impactos dessa dinâmica na apropriação do conhecimento e da informação.

Palavras-chave:
Negacionismo; Bios midiático; Negacionismo histórico

Abstract:

This article proposes that we are facing a new form of denialism, articulated with the informational, political, and economic processes of a society immersed in a mediated ethos, a concept by Muniz Sodré that designates a form of existence permeated by virtuality. It argues that current denialist manifestations are inherent to this new way of life, in which reality and virtuality merge under the control of large technology corporations and their systems of surveillance and behavioral data management. The study addresses two moments: from polemism and the subversion of the plurality of voices in major newspapers to denialism as a business in the digital sphere. It draws on data from opinion columns in the newspaper O Globo, letters from readers, and online comments about a product by the company Brasil Paralelo to reflect on the impacts of this dynamic on the appropriation of knowledge and information.

Keywords:
Denialism; Mediatic bios; Historical denialism

Ainda podemos chamar de negacionismo os ataques generalizados aos campos do conhecimento e da informação a que assistimos, sobretudo, a partir de 2016, quando muitos acreditam ter sido inaugurada uma era da pós-verdade? Estaríamos diante de outro processo histórico não claramente delineado? Ainda que se trate de negacionismo, em que medida a prática pode ter assumido uma dimensão sistêmica no universo digital? Essas são algumas das perguntas com as quais temos nos deparado nos últimos anos e para as quais ainda não encontramos todas as respostas. Neste artigo, procuro historicizar alguns processos que podem nos indicar caminhos para reflexão; no centro da análise investiga-se o papel dos meios de comunicação tradicionais e digitais na capilarização contemporânea desse fenômeno.

Em termos de negacionismos históricos, até o início dos anos 2000, a abordagem se situava, sobretudo, na negação do Holocausto, com contribuições significativas de autores como Henry Rousso (2008), Pierre Vidal-Naquet (1988), Deborah Lipstadt (2012) etc. Mas, é necessário ressaltar que, mesmo nos anos 1990, o conceito já vinha tendo seu universo alargado ao ser relacionado também aos reiterados ataques às teorias climáticas que denunciavam o aquecimento global, ou a outros acontecimentos históricos como o Genocídio Armênio.

Em todos eles, há um elemento em comum: a atuação direta ou indireta dos meios de comunicação, aspecto já ressaltado na obra de Vidal-Naquet, impulsionado pelo caso Faurisson no jornal Le Monde, quando seu artigo “‘Le problème des chambres à gaz’ ou ‘la rumeur d’Auschwitz’” acendeu um intenso debate na imprensa europeia.

A historiadora Deborah Lipstadt (2012) argumentava que se recusou inúmeras vezes a debater com negacionistas em programas de rádio e televisão, pois ela sustentava que “a existência do Holocausto não estava sujeita a debate”. A autora destacou que a mídia havia descoberto o negacionismo e o tornara tema recorrente em diversos programas. Em uma dessas tentativas de convencê-la a debater com negacionistas, após sua recusa, a historiadora narra que a jornalista usou o seguinte argumento: “certamente não concordo com eles, mas você não acha que nossos telespectadores deveriam ouvir o outro lado?” (Lipstadt, 2012, p. 9).

A negação mitigada: ouça sempre o outro lado, mesmo que ele seja um negacionista

Também conhecido como o princípio de “ouvir o outro lado”, presente em praticamente todos os manuais de redação dos grandes jornais contemporâneos, o princípio da pluralidade de vozes tornou-se uma espécie de mantra do jornalismo moderno. No Brasil, em 1984, a Folha de S.Paulo lançou o primeiro Manual da redação, em que introduziu o verbete “ouvir o outro lado”: “todo fato comporta mais de uma versão”. A Folha deve sempre “‘ouvir o outro lado’, se possível para publicar na mesma edição” (Folha de S. Paulo, 1984, p. 64). Na versão de 1992, o princípio é detalhado: “dar exemplo proporcional é, por exemplo, dedicar outro box de coluna dentro de um texto de três colunas […]. O texto que não contém o outro lado exige uma explicação” (Folha de S.Paulo, 1992, p. 39). O jornal O Globo tratava de afirmar que “sempre que houver choque de opiniões […] deve-se cuidar para que os textos a respeito estejam próximos uns dos outros” (O Globo, 1992, p. 27).

Ramos e Souza (2019) destacam que, com a modernização jornalística, desde 1950, o princípio difundiu-se em periódicos como Zero Hora e O Estado de S. Paulo, que registra: “versões conflitantes sobre um mesmo assunto sempre devem conter atribuição de fonte” (O Estado de S. Paulo, 1992, p. 56).

A ideia, cuja inspiração remete ao jornalismo norte-americano, contribuiu para a noção de que toda informação apresentada possui diferentes lados igualmente legítimos. Isso erigiu o consenso de que diferentes pontos de vista poderiam sustentar certo padrão de objetividade e neutralidade dos veículos. Compreende-se que, como princípio ético, a prática estabeleceu um parâmetro relevante ao abrir espaço, por exemplo, para que acusações ou denúncias fossem respondidas. Entretanto, considerando a complexidade de diferentes instâncias, especialmente quando a produção da informação está umbilicalmente atravessada por interesses do mercado, em muitos casos se estabeleceu um círculo vicioso e, em lugar de uma contraposição crítica de visões, criou-se uma falsa equivalência de posições, estabelecendo uma polifonia de vozes dissonantes que rivalizam num mesmo horizonte simbólico de significação, sem considerar os contextos de desigualdade sob os quais as vozes são produzidas.

O princípio abriu a possibilidade para efetivar justamente o oposto de seu objetivo inicial, uma vez que, como chama a atenção Cortez (2019), tratar desiguais como iguais no jornalismo, sob o pretexto de “ouvir os dois lados”, pode legitimar discursos desonestos e servir a interesses de grandes grupos midiáticos.

As últimas décadas nos mostraram vários exemplos dos usos abusivos do princípio. As indústrias do tabaco e as empresas petrolíferas articularam-se com cientistas renomados que, ao emprestarem suas credenciais e reputações, contribuíram para lançar dúvidas sobre dados científicos estabelecidos. Pires-Oliveira, Simões e Carvalho (2022) demonstram como grandes lobbies petrolíferos atuaram de forma decisiva na deslegitimação dos resultados sobre o aquecimento global. Ao analisarem o documentário europeu “A campanha contra o clima”, ressaltam a criação de uma “relação nebulosa entre jornalistas e ‘especialistas’ vinculados a think tanks”. Essa cumplicidade entre ciência e imprensa também foi observada por Faria (2007), ao analisar a figura do “especialista consultado pela reportagem” e a complexa rede de discursos autorizados em revistas como Veja, IstoÉ e Época (Pires-Oliveira; Simões; Carvalho, 2022, p. 15).

Estratégias semelhantes já haviam sido denunciadas por Naomi Oreskes e Eric Conway em Merchants of doubt: how a handful of scientists obscured the truth on issues from tobacco smoke to climate change, publicada em 2011, obra que, segundo José Correa Leite (2014), esclarece vínculos entre empresas, cientistas e mídia na criação de um verdadeiro “mercado da dúvida”. Leite (2014, p. 3) destaca ainda a “doutrina da equidade” (fairness), aprovada em 1949 nos EUA, “pela qual os veículos de radiodifusão deveriam dedicar tempo à discussão de temas controversos e apresentar de maneira equilibrada as posições contrastadas”, foi um dispositivo constantemente acionado por cientistas negacionistas. Assim, ao se apoiarem nessa norma e em sua força econômica como patrocinadores da mídia, empresas do tabaco e do petróleo ampliaram sua capacidade de difundir narrativas negacionistas, negando ou desacreditando pesquisas legítimas.

A utilização dessa estratégia foi um dos elementos-chave na formação de uma espécie de negação mitigada na grande mídia. Contudo, ela não foi a única. Entre os anos 1980 e 1990, ganhou espaço nas páginas dos grandes jornais a figura do polemista, respaldada pelo crescente anti-intelectualismo nesses veículos.

Frias Filho, proprietário e editor da Folha de S.Paulo, via na atuação de polemistas uma força que se insurgiu contra os intelectuais “decadentes” de universidades como a USP, segundo ele, uma espécie de revisionismo cultural:

Nesta década Nelson Rodrigues foi canonizado, Paulo Francis e Roberto Campos foram consagrados, Arnaldo Jabor converteu-se em polemista, o escritor Olavo de Carvalho acaba de virar capa de revista, o poeta Bruno Tolentino deflagrou controvérsias violentíssimas. Os anos 90 são uma era de intenso revisionismo cultural (Frias Filho, 21 ago. 1997 apudMeirelles, 2024, p. 246).

Essa tradição foi marcada pela referência ao polemista Paulo Francis, cuja presença foi acentuada nos grupos Folha, Estadão e Globo. Francis foi uma espécie de modelo para a consolidação de colunas de opinião marcadas pelo exagero, estilo performático e ironia ácida. Segundo Allana Meirelles (2024), vários outros escritores ou jornalistas seguiram os passos de Francis (de forma crítica ou laudatória) e se consolidaram como representantes do estilo, “ou foram reconhecidos, ao menos em parte, pela grande imprensa como potenciais substitutos”. Nomes como Arnaldo Jabor, Diogo Mainardi, Luiz Felipe Pondé, Reinaldo Azevedo, Olavo de Carvalho, Rodrigo Constantino, Guilherme Fiuza e Leandro Narloch se destacaram nesse novo mercado de opiniões (Meirelles, 2024, p. 241).

Em 2012, era dessa forma que o jornalista Diogo Mainardi explicava sua estratégia de polemista para se referir ao então presidente Lula, ainda em seu segundo mandato: “a minha função era debochar com liberdade, ironizá-lo [Lula] […] Eu não sei se é verdade, eu confio em qualquer um que me diga algo negativo a respeito do presidente da República, então eu publico” (Mainardi, 2012 apudMeirelles, 2024, p. 248). O jornalista ganhou destaque como colunista da Veja e por suas críticas à política brasileira, especialmente ao PT e a Lula.

Para avaliar o impacto dessas práticas em manifestações negacionistas no universo da grande imprensa, foi realizado um levantamento no acervo digital de O Globo e na Folha de S.Paulo sobre o tema. A primeira ocorrência do termo no jornal O Globo aparece em 3 de maio de 2008, na matéria “A Europa de um historiador militante”, sobre o historiador Tony Judt e sua obra sobre o pós-guerra. O negacionismo surge como questão central ao conhecimento histórico no pós-guerra. Na Folha de S.Paulo, em 13 de julho de 1993, foi publicada a matéria: “O mundo será uma ‘Telecidade’, diz Virilio”. A primeira menção ao conceito ocorre em uma entrevista realizada com o filósofo Paul Virilio. A discussão sobre negacionismo aparece ligada à negação dos fatos, associada à reflexão sobre a velocidade contemporânea dos processos de apropriação midiáticos. Diferentemente da Folha de S.Paulo, que cobriu extensamente debates internacionais, como o caso Irwin-Lipstadt nas décadas de 1980 e 1990, O Globo não conferiu grande destaque ao tema.

Localizei no jornal O Globo 27 matérias que abordam diretamente o termo negacionismo, entre 2008 e março de 2020, começo da pandemia, quando o assunto explodiu no periódico (Quadro 1). Dessas matérias, foi possível estabelecer a seguinte distinção temática:

Quadro 1
Matérias sobre negaci onismo em O Globo, 2008-2020

Atendo-me somente ao O Globo, foram realizados novos recortes para avaliar a ocorrência de conteúdos negacionistas que não implicassem usos diretos do termo. Assim, optei pelas colunas do escritor e polemista Olavo de Carvalho, publicadas semanalmente no jornal. Essa escolha me pareceu a mais adequada, uma vez que, além de se destacar como um notório polemista desde os anos 1990, as ideias desse autor transpuseram os canais midiáticos tradicionais e tiveram grande impacto nas chamadas novas mídias digitais. Assim, sua menção aqui não se dá pelo conjunto de sua obra, mas como indício das práticas que pretendo demonstrar.

Entre 2000 e 2005, Olavo de Carvalho publicou 259 artigos de opinião em O Globo. Para esse levantamento, foram selecionados textos a partir das palavras-chave “nazismo” e “ditadura”, temas recorrentes em suas colunas e centrais às teorias negacionistas dentro e fora do Brasil. Foram identificados 38 artigos relacionados ao nazismo e 21 à ditadura militar. Para reflexão, destaco o artigo “Tortura e terrorismo”, publicado em 6 de janeiro de 2001, um dos textos de maior repercussão junto aos leitores até sua saída do jornal em 2005. O objetivo foi observar como opiniões enviesadas podem produzir confusão e legitimar ideias abusivas sobre crimes, violências e acontecimentos históricos. Vejamos:

Maus-tratos a um prisioneiro podem resultar do súbito impulso de fazer justiça com as próprias mãos, enquanto o ato terrorista supõe premeditação fria, planejamento racional e execução precisa. A tortura admite graus […] ao passo que o homicídio não pode ser meio homicídio. […] Condenar o terrorismo como crime hediondo é falar de um delito definido, claro, insofismável, ao passo que usar o mesmo termo para qualificar a ‘tortura’ é um expediente linguístico para meter no mesmo saco o torcionário científico que aplicou choques a um prisioneiro por meses a fio, o sargento que lhe deu um pontapé numa explosão de raiva, o médico que lhe aplicou uma injeção para que não morresse […]. Tortura e terrorismo enfim não estão no mesmo plano: aquele é hediondo em si, esta depende de graus e circunstâncias (Carvalho, 6 jan. 2001, destaques meus).

O artigo apresenta uma crua banalização dos crimes de tortura na ditadura militar, valendo-se de uma estratégia de abrandamento e generalização da prática sistematicamente empregada durante o regime. Esse extrato é considerado aqui como uma discussão negacionista não direta, uma vez que não nega diretamente a existência da tortura, mas procura relativizá-la, justificá-la, ou amenizá-la em seus efeitos. Ainda que o texto seja perturbador, foi publicado como opinião legítima nas páginas do jornal. Podemos perguntar: quais os limites para uma opinião veiculada em um espaço público de um grande jornal de referência? O princípio do contraditório (ouvir o outro lado) é suficiente para equilibrar posicionamentos antiéticos ou mesmo criminosos quando difundidos? Os acontecimentos que se seguiram naqueles dias parecem oferecer indícios de resposta.

Colocando em prática o princípio de “ouvir o outro lado”, três dias depois, em 9 de janeiro de 2001, o jornal publica um artigo de Márcio Moreira Alves, político de oposição à ditadura de 1964, perseguido e exiliado, intitulado “Defesa da tortura” no qual critica duramente o artigo precedente. Diz Moreira Alves:

Pessoalmente sou inteiramente favorável que a direita e a extrema direita tenham seus espaços garantidos nos meios de comunicação pluriideológico que existem hoje no Brasil. Nenhum desses antigos ideólogos da direita, no entanto, ousou defender publicamente um crime hediondo e covarde como é a tortura (Alves, 9 jan. 2001, destaques meus).

Moreira Alves nomeia com todas as letras o que de fato ocorreu no texto publicado por Olavo no O Globo: a justificação e defesa de um crime que é o de tortura. Àquela altura, já havia sido aprovada a lei n. 9.455, de 7 de abril de 1997, que definia os crimes de tortura e dava outras providências sobre o tema.

No dia 10 de janeiro, mais um artigo foi publicado sobre a questão: “Sobre tapas e torturas” de Cecília Molina e Gilberto Molina, respectivamente presidente e vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais.1 Este último é ainda mais contundente na crítica ao artigo de Carvalho:

Que a ignominiosa tentativa de dar foro filosófico à defesa da tortura seja repudiada como indigna e aviltante, algo que qualquer pessoa, de qualquer credo político, considere como incapaz de frequentar uma consciência humana (Coimbra; Molina, 11 jan. 2001).

No dia 13 de janeiro, Carvalho escreve outro artigo como resposta aos dois últimos.

Fazer do meu artigo de sábado passado uma defesa da tortura requer uma dose anormalmente grande, seja de idiotice, seja de má-fé. Em casos análogos, procuro sempre apostar na hipótese da idiotice, para poder continuar acreditando que há algo de bom no fundo das almas mais estragadas. No caso presente, não posso. Nem o sr. Marcio Moreira Alves é um idiota, nem é idiota a dona Cecília Coimbra. São ambos caluniadores maliciosos, perversos, que, com plena consciência da mentira, atribuem a um jornalista opiniões que ele não tem, com o intuito preciso de danar-lhe a reputação para em cima da sua ruína construir a prosperidade do negócio mais sujo que existe na face da terra, o comércio do ódio (Carvalho, 13 jan. 2001, destaques meus).

Olavo de Carvalho mobiliza como estratégia uma retórica agressiva característica do seu estilo histriônico. O texto organiza-se em torno da ideia de que o autor foi injustamente acusado de “defender a tortura”. A partir daí, constrói um contraste entre duas hipóteses para explicar a acusação: “idiotice” ou “má-fé”. Essa oposição binária conduz o leitor a uma interpretação direcionada, na qual não haveria crítica legítima, apenas erro grosseiro ou ataque malicioso. Para sustentar essa lógica, Carvalho recorre a diferentes recursos retóricos, como a desqualificação de seus opositores, chamando-os de “idiotas”, “caluniadores maliciosos” e “perversos”, deslocando o debate da questão substantiva, a tortura, para a subjetivação sobre a moralidade dos interlocutores.

Ao nomear as críticas como parte do “comércio do ódio” cria uma imagem amplificada de conspiração e atribui intenções obscuras a seus opositores. Carvalho não busca diálogo ou refutação, mas, sim, pretende deslegitimar seus interlocutores ao transformar o espaço jornalístico em arena de ataque pessoal. Como veremos, esse recurso foi eficaz para mobilizar leitores em torno de uma posição, reforçando o “nós contra eles” e reduzindo a complexidade da questão, a tortura como crime, a uma disputa moral maniqueísta.

Consideradas as devidas distinções, o debate realizado no O Globo nos lembra o que ocorreu no caso Faurisson, na França, com a publicação do já citado artigo no jornal Le Monde. No mesmo dia da publicação do artigo de Faurisson, 29 de dezembro de 1978, prevendo a grande repercussão, o jornal já havia preparado respostas aos argumentos de Faurisson em dois textos: o primeiro, seu editorial, intitulado “Les chambres à gaz” (Le Monde, 29 dez. 1978), no qual o jornal identifica a gravidade da argumentação de Faurisson e, ao mesmo tempo, justifica sua publicação, permitindo-lhe lugar no debate público, para que fosse imediatamente contraposto por respostas de historiadores e testemunhas. No editorial, o jornal reconheceu que, mesmo sendo uma tese aberrante, ela contaminou setores da opinião pública, em especial gerações mais jovens, menos inclinadas ao consenso histórico sem questionamento.

Assim, o jornal argumentava que era indispensável levar esse argumento ao debate público, acompanhado de outras visões, a fim de dar ao público elementos para rechaçar suas falsificações. Portanto, a publicação se justificaria sob o argumento de que trazer uma teoria marginal a público para rechaçá-la imediatamente, na mesma arena de divulgação, ajudaria a combatê-la de forma mais contundente e controlada. No mesmo número, foi publicado também o texto do historiador Georges Wellers, com uma refutação direta, “Abondance de preuves” (Le Monde, 29 dez. 1978), insistindo no respaldo documental substancial à existência das câmaras de gás.

Todavia, se o Le Monde tentou realizar um certo controle de danos, imediatamente se posicionando contra Faurisson, o mesmo não ocorreu com O Globo. No dia 13 de janeiro de 2001, o jornal apresenta uma estatística geral das interações dos leitores com o primeiro artigo escrito por Olavo de Carvalho e o de Márcio Moreira Alves. O que poderia ser uma oportunidade de posicionamento sobre a questão torna-se apenas uma apresentação de dados que favorecem a visão de Carvalho:

O artigo ‘Tortura e terrorismo’, do filósofo Olavo de Carvalho, publicado sábado, provocou polêmica. Nos quatro dias que se seguiram a sua publicação 25% das cartas comentavam esse artigo e o de Marcio Moreira Alves, ‘Defesa da tortura’, de terça-feira. Delas, 50% eram em apoio a Olavo de Carvalho e 38% de crítica (O Globo, 13 jun. 2001).

Identifiquei quase setenta cartas de leitores publicadas (nas colunas “O leitor no Globo” e “Cartas dos leitores”2) entre os dias 9 e 17 de janeiro de 2001 em resposta aos artigos. Embora não haja espaço neste texto para explorá-las em sua totalidade, selecionei algumas a fim de demonstrar os efeitos da contenda no jornal na perspectiva dos leitores. Comentarei aspectos gerais presentes nelas.

Em primeiro lugar, nota-se um conjunto de manifestações de apoio entusiástico, que destacam a “brilhante” abordagem do artigo (Marcos Hoffmann, 6 jan. 2001) ou a “profundidade sem limites” das ideias de Olavo de Carvalho (Gilberto P. Martins, 6 jan. 2001). Esses elogios reforçam a autoridade intelectual atribuída ao articulista e demonstram como parte do público legitima sua estratégia de confrontar os defensores dos direitos humanos, deslocando a crítica à tortura para o terreno da defesa da ordem contra o “terrorismo”. Há aqui uma adesão à retórica maniqueísta de Carvalho, em que a figura do opositor é desqualificada e associada a uma ameaça à sociedade.

Outro grupo de cartas busca defender Carvalho contra as acusações de que teria feito apologia da tortura, como no caso de Marcelo de Polli Bezerra (10 jan. 2001), que afirma ser “evidente que Olavo de Carvalho não fez nenhuma defesa da tortura”, mas sim um alerta para a gravidade do terrorismo. Essa linha de recepção ecoa diretamente o argumento do próprio autor, segundo o qual a sua crítica teria sido deturpada. Assim, observa-se como leitores reproduzem a autojustificação de Olavo, ajudando a consolidar sua posição de vítima de ataques maliciosos.

Por outro lado, surgem também manifestações de crítica frontal, como a de Marcelo Chevitarese de Oliveira (6 jan. 2001), que qualifica como “infantil” a tentativa de Olavo de atribuir defeitos humanos genéricos à esquerda. Essa carta indica resistência à simplificação retórica do autor e denuncia sua estratégia, evidenciando que parte do público não apenas rejeitou suas ideias, mas também identificou o caráter reducionista de sua argumentação.

As cartas demonstram uma recepção polarizada: de um lado, leitores que exaltam o estilo e reforçam a autoridade de Olavo; de outro, vozes que denunciam a fragilidade e o enviesamento de seus argumentos. Entre esses polos, encontra-se ainda a legitimação da narrativa de “mal-entendido” ou “má-fé” contra o autor, que reproduz a retórica vitimista presente em seus próprios textos. Esse conjunto de respostas atesta como o discurso polêmico de Olavo de Carvalho não apenas dividiu opiniões, mas produziu um efeito de ressonância, em que seus apoiadores replicam e amplificam suas estratégias discursivas no espaço público.

A reflexão sobre essa série de artigos e cartas sem dúvida nos traz uma complexa rede de temas muito mais abrangentes do que os colocados aqui, porém, gostaria de reforçar um deles, já sugerido na análise dos polemistas: a emergência de um mercado de opiniões como um núcleo fundamental na produção da informação nos grandes grupos de mídia em fins dos anos de 1990 e início de 2000, num momento que antecede mesmo sua proeminência posterior, proveniente do domínio das novas mídias de compartilhamento.

É certo que nem todos os articulistas são necessariamente polemistas, mas a presença desses, nos canais de comunicação, pavimentou uma série de práticas discursivas que ajudarão a explicar, no futuro, uma certa gramática negacionista. Tais práticas irão ladrilhar o novo espaço midiático estabelecido no novo circuito da informação que terá por base um processo acelerado de digitalização e midiatização. É o que tentarei demonstrar a seguir.

Negacionismo sistêmico: uma nova gramática da negação

Agora passaremos a analisar o avanço das questões que destacamos na passagem das mídias tradicionais para o universo digital. Gostaria de propor três linhas de reflexão advindas das transformações nos processos comunicacionais e na distribuição de informações, na transição do século XX para o século XXI, a fim de tentar lançar luz sobre a exacerbação de discursos e práticas negacionistas no tempo presente: a) o estabelecimento de uma sociedade midiatizada logo no começo do século XXI. Nesse sentido, a partir de uma leitura de Muniz Sodré, talvez seja necessário pensarmos em um ethos midiatizado como a grande questão para a era digital; b) a crise programada do conhecimento e da informação, aspecto que não começou com o universo digital, mas foi ampliado por ele, que é o enfraquecimento dos vários campos do conhecimento e seus formuladores; c) a negação sistêmica como negócio a partir da manipulação algorítmica capaz de interferir em vários processos sociais, políticos e econômicos.

A estruturação de uma nova racionalidade: o bios midiatizado

Há uma questão recorrente quando tratamos a profusão de teorias negacionistas, conspiracionistas e fake news como uma realidade na contemporaneidade: como tais formulações conseguem mobilizar tantas pessoas e em números cada vez maiores? As respostas são muitas e, boa parte delas, nos demonstram como o poder de manipulação de grandes bancos de dados tem sido um fator decisivo, uma vez que o entendimento refinado sobre comportamentos, preferências políticas, credos religiosos e elementos morais constituem um forte motor para formulações aceitáveis de teorias aparentemente frágeis e até absurdas que teimam em se legitimar na cena pública digital com muita facilidade.

Muniz Sodré (2002) argumenta que o sujeito contemporâneo é cada vez mais constituído em função de sua presença na mídia, não apenas a tradicional, mas sobretudo a digital. O autor argumenta que, nesse cenário, se estruturou uma espécie de ethos midiatizado, uma nova forma de “perceber, pensar e contabilizar o real” (Sodré, 2002, p. 16). Essa realidade que se apresenta na virtualidade das relações torna plausível, segundo Sodré, “‘compossíveis’ outros mundos, outros sistemas de visibilidade pública” (Sodré, 2002, p. 16) de identidades performadas para e através dos meios, que formam e/ou deformam o modo como as pessoas se relacionam com o mundo e com o saber. Organizou-se, nesse processo, uma cultura incessante da simulação e do fluxo que faz da “representação apresentativa”, estar e ser performando por meio da mídia, uma forma de vida na qual saber e sentir podem ser também delegados às máquinas.

O conceito de bios, recuperado por Sodré da tradição aristotélica, articulado à dimensão midiatizada, nos colocaria diante de uma vida precária, marcada pela força das demandas de um mercado digital cada vez mais predatório e disruptivo das dimensões subjetivas. Segundo o autor, trata-se de um arremedo de sociabilidade. Sodré afirma que “partindo da classificação aristotélica, a midiatização pode ser pensada como tecnologia de sociabilidade ou novo bios, uma espécie de quarto âmbito existencial no qual predomina a esfera dos negócios com uma qualificação cultural própria, a tecnocultura” (Sodré, 2002, p. 25).

Mas a midiatização também é um processo econômico associado ao aprofundamento do fenômeno do neoliberalismo crescente a partir dos anos de 1980 e, se a internet emerge como sendo a promessa de consolidação da democracia, é ao fortalecimento de forças antidemocráticas que ela mais se associa, fazendo ecoar aquelas dimensões mais radicais da lógica neoliberal como “a combinação de libertarianismo, moralismo, autoritarismo, nacionalismo e ódio ao Estado, conservadorismo cristão e racismo” (Brown, 2019, p. 10).

O que temos hoje não é necessariamente uma ruptura total com o passado, mas a intensificação e reconfiguração de racionalidades preexistentes - como o anti-intelectualismo, o moralismo seletivo e a lógica binária de “nós vs. eles”. A midiatização potencializou essas formas de pensamento. As subversões do princípio da pluralidade de vozes, frequentemente instrumentalizado para atender a demandas de cunho reacionário ou negacionista, aliado à presença marcante de polemistas em jornais e revistas, ajudou na migração dessas formas de ação para as novas mídias.

Por que entendermos esse novo ethos midiático, conforme propõe Muniz Sodré, nos ajuda na compreensão das novas formas de negação? Em primeiro lugar, a consideração desse modo de existência pode explicar uma nova relação com o tempo e o espaço, como mencionado

A partir dessa lógica, assistimos a um rearranjo nos processos de cognição e de interação com as informações, bem como de suas formas de produção. Valdei Araujo e Mateus Pereira (2019), ao trabalharem o conceito de atualização, chamam a atenção para como o tempo é experimentado em sociedades midiatizadas: não como uma sucessão linear de passado-presente-futuro, mas como um fluxo de presentes em constante reinterpretação. Assim, no universo da midiatização, o passado é continuamente reatualizado, seja em memes, séries, posts ou polêmicas e colocado em disputa com o presente, perdendo a estabilidade de um “já concluído”. O futuro, por sua vez, aparece comprimido, quase sempre como ameaça ou urgência. Essa lógica da atualização reconfigura a experiência temporal, intensificando a sensação de aceleração e de simultaneidade, em que os acontecimentos não cessam de reaparecer sob novas roupagens. Assim, a mídia não apenas comunica fatos, mas cria temporalidades próprias, marcadas pela repetição, pela circulação incessante e pelo curto-circuito entre passado e presente.

Sodré (2002) nos chama ainda a atenção para o fato de que esse processo de midiatização, que tem por base a virtualidade das relações, gera uma espécie de despolitização tecnológica e um enfraquecimento ético-político relacionados com as antigas formas de mediação, desviando as ações dos atores para uma “performance imagística” (Sodré, 2002, p. 34).

Por conseguinte, a presença midiática (seja nas redes sociais, nos grupos de WhatsApp, nas plataformas de vídeo, nos aplicativos de mensagens e de entretenimento) torna-se um elemento constitutivo do sujeito. Isso nos leva a uma reconfiguração do tempo (a vida em tempo real, o presente contínuo das notificações, a aceleração da informação); e uma reconfiguração do espaço (a dissolução das fronteiras entre o público e o privado, o doméstico e o político, o íntimo e o social).

O saber, a noção da verdade e a própria realidade passam a ser negociadas com base na visibilidade, na viralização e na adesão emocional. Essa vida midiatizada estabelece uma nova relação com as informações que pessoas e grupos passam a viver, consumir, produzir e reproduzir. Um circuito no qual o “Eu”, o individualismo e as experiências pessoais passam a valer como balizadores. Uma lógica ancorada e estimulada pela própria demanda neoliberal, que percebe todos os aspectos da vida como eminentemente fruto de escolhas individuais. Como afirmam Cabanas e Illouz (2022), trabalho, educação, saúde, amor e identidade passaram a ser vistos como expressões de projetos pessoais, competências individuais, hábitos de vida, compatibilidades afetivas e escolhas de personalidade. Mas como isso tem reverberado nas nossas relações com a informação e os diversos campos dos conhecimentos, e em especial a história?

A crise programada: cansaço, hiperexposição e a corrosão das formas tradicionais de conhecimento e informação

Na vida conectada, a crise deixou de ser um evento excepcional para se tornar uma constante estrutural. A partir das reflexões de Wendy Hui Kyong Chun (2011), observa-se que as redes digitais programam crises como parte inerente de seu funcionamento: falhas de segurança, atualizações obrigatórias, ameaças à privacidade e a propagação instantânea de pânicos morais. A crise é, nesse contexto, um estado esperado, desejado e cultivado. Em vez de oferecer estabilidade, as tecnologias codificadas geram um regime de instabilidade permanente, no qual os usuários são chamados a responder incessantemente. Para a autora:

crise é a diferença crítica das novas mídias: sua norma e sua exceção. As crises interrompem o fluxo constante de informações, diferenciando o que tem valor temporal do que é mundano, oferecendo aos usuários um vislumbre de responsabilidade e empoderamento em tempo real. No entanto, elas também ameaçam minar essa experiência, ao nos capturar e exaurir em uma série interminável de respostas repetitivas3 (Chun, 2011, p. 92).

Esse regime de crise contínua tem como efeito direto a exaustão. Para Wendy Chun, a exaustão não é apenas física ou cognitiva, mas sobretudo afetiva: trata-se de um estado em que a atenção é fragmentada, os afetos são constantemente mobilizados, e a capacidade de construir narrativas estáveis sobre a própria experiência é corroída. Viver conectado significa viver em prontidão constante, em um ciclo de reatividade que desgasta corpo, mente e laços sociais.

Como chamou a atenção Sodré, não se trata apenas de consumir mídia, mas de existir em função dela: a mídia molda a percepção do real, organiza as emoções, acelera o tempo vivido. A vida midiatizada é, assim, uma vida de aceleração, choque e fragmentação saturada pela necessidade de resposta imediata, pela multiplicação de urgências, pela produção incessante de afetos de medo, indignação e desejo.

A experiência midiatizada transforma o sujeito em um corpo afetivo vulnerável, sempre em estado de alerta, incapaz de sustentar tempos de elaboração, pausa ou reflexão profunda. Para Sodré (2002, p. 27), esse novo bios nos colocou frente a uma “outra condição antropológica”, uma vida atravessada pela exaustão e pela disputa contínua da atenção.

Letícia Cesarino (2022) considera que nesse cenário houve o desencadeamento de uma espécie de crise de contextos e de uma condição epistêmica na qual a manipulação algorítmica tem atuado para a dissolução das fronteiras entre os domínios científicos e outros campos discursivos. “Multiplicam-se oportunidades comerciais para agentes que operam como mercadores da dúvida, questionando temas como o aquecimento global, a confiabilidade das vacinas ou até mesmo o formato do planeta terra” (Cesarino, 2022, p. 220-221).

A erosão do tempo da reflexão abre espaço para novos regimes de verdade, conforme nos apresentou Michel Foucault (2017), nos quais a informação deixa de ser aferida por critérios sustentados nos tradicionais campos do conhecimento e passa a ser avaliada pelo seu impacto afetivo imediato. Em meio ao caos informacional, marcado pela profusão de notícias, opiniões e dados contraditórios, a experiência subjetiva emerge como único critério de validação. A prevalência do “eu” e da experiência individual, transformados em autoridades autorreferenciais, tem suplantado os tradicionais processos de verificação e validação coletiva do conhecimento. Nesse cenário, as formulações dos campos científicos que dependem de práticas institucionais rigorosas de validação passam a figurar como mais uma “opinião” em meio a outras.

Se, num primeiro momento, assistimos a uma prática latente de anti-intelectualismo nos grandes jornais, como discutido na primeira parte do artigo, houve um aprofundamento nesse processo de erosão que tem gerado um colapso generalizado da autoridade epistêmica. Assim, a aceitação de dados científicos, evidências empíricas ou relatos jornalísticos passa a ser uma questão de escolha individual e de preferências afetivas. Cesarino (2022, p. 72) ressalta que:

os sistemas de peritos pré-digitais ofereciam um campo socialmente compartilhado de controle da entropia, ao fixar normativamente binarismos organizadores do real como público-privado e fato-ficção. Sem esse campo comum, às antigas categorias não desaparecem, mas se desestabilizam, oscilando e se recombinando nos termos de novas matrizes sistêmicas ainda emergentes.

Nesse ambiente, a aceitação de informações falsas e negacionistas não se dá, primariamente, por desconhecimento ou ignorância, mas pela constituição desse ethos que tem privilegiado a experiência imediata em detrimento da mediação crítica. A crise constante, a exaustão e o colapso da confiança em instituições de produção de saber convergem para um cenário em que a própria ideia de verdade é dissolvida em meio a ruídos emocionais, escolhas identitárias, mas também de interesses de mercado.

Proliferam bolhas afetivas, nas quais “verdades alternativas” e “fatos opcionais” são legitimados pela adesão emocional dos indivíduos. Segundo Max Fisher, repórter no The New York Times, em 2018, numa palestra interna para os funcionários do Facebook, pesquisadores da própria empresa afirmavam que: “nossos algoritmos exploram a atração do cérebro humano pela discórdia”. Fisher continua: “na verdade, prosseguia a apresentação, os sistemas do Facebook eram projetados de tal modo que levavam aos usuários ‘cada vez mais conteúdos de discórdia, de forma a conquistar a atenção e aumentar o tempo do usuário na plataforma’” (Fisher, 2024, p. 19).

Portanto, a crise permanente e a exaustão existencial não são apenas sintomas do nosso tempo: são também vetores estratégicos de desestabilização epistêmica, favorecendo o avanço de práticas negacionistas, a desinformação e o colapso dos pactos democráticos baseados na racionalidade pública.

A negação como negócio ou o negacionismo sistêmico

O que antes era um fenômeno excepcional, marginal e identificável, como no caso clássico do negacionismo do Holocausto, com autores e estratégias relativamente mapeáveis, agora se tornou um campo de proliferação difusa, fragmentária, quase viral. Formulações negacionistas estão em toda parte, como pudemos observar na pandemia de covid-19, quando o próprio conceito de negacionismo tornou-se saturado. São diluídas, estilizadas, humorizadas, estetizadas e hipercompartilhadas. É uma nova gramática marcada por uma lógica de circulação na qual o algoritmo age quase como curador de memórias e da verdade histórica.

Em vez de negar diretamente a história, ou outros campos do conhecimento, esse modelo parece envolver a distorção da informação de forma contínua e massiva, criando um ambiente no qual a verdade histórica se dilui não por falta de fontes ou dados, mas pela superabundância de versões conflitantes, pela produção incessante de narrativas e realidades paralelas, uma estratégia mais invisível e sistêmica, que se alimenta dos mecanismos algorítmicos das redes sociais e das plataformas digitais.

Em 2023, quando teve início um dos confrontos mais sangrentos entre Israel e Palestina, com a notória prática de genocídio à qual os palestinos foram submetidos, proliferaram denúncias nas redes sociais de que conteúdos pró-Palestina estavam sendo sumariamente excluídos ou sofrendo a prática de shadow banning, forma de censura que restringe a visibilidade de determinados conteúdos. Exatamente porque as grandes empresas da internet, como Meta, Google, X e similares, têm acesso ilimitado aos aspectos mais íntimos de nossas vidas, são capazes de produzir uma espécie de política de reprogramação comportamental, pois “nós somos as fontes do superávit crucial do capitalismo de vigilância: os objetos de uma operação de extração de matéria-prima tecnologicamente avançada e da qual é cada vez mais impossível escapar” (Zuboff, 2019, p. 26).

O avanço do neoliberalismo também é uma peça-chave nesse cenário. Ele não só legitima a centralidade do mercado e a privatização da informação, mas também se conecta com essa transformação digital, em que o conhecimento se torna mercadoria e a produção de consenso se faz por meio de uma economia digital que extrai lucros com a manipulação das percepções sociais. Ao mesmo tempo, a astúcia da direita e da extrema direita sobre o potencial dessas tecnologias foi estratégica ao reconhecer as possibilidades da manipulação algorítmica, mas também de se apropriar dessas ferramentas para disseminar sua agenda.

A negação (seja do Holocausto, da ditadura militar, ou das mudanças climáticas, por exemplo) faz uso das estratégias que as redes sociais mais favorecem, como a potencialização das emoções, das identidades de grupos, ou a tentativa de criar um senso de exclusividade sobre um “verdadeiro conhecimento” que os outros não percebem. A ideia de que a verdade foi omitida, de que se apresentaria a verdadeira história, aciona uma espécie de sentimento de pertencimento a um grupo de escolhidos. Tais conteúdos muitas vezes apelam para uma mistura de sentimentos milenaristas, religiosos, senso de patriotismo e defesa da nação. Vejamos como essa lógica vem sendo disseminada no universo digital a partir da análise das apropriações dos internautas sobre um produto da empresa Brasil Paralelo.

A Brasil Paralelo é o que podemos chamar de empreendimento bem-sucedido no universo digital da manipulação algorítmica. Em matéria publicada no final do ano de 2024, o jornal Folha de S.Paulo apresentou os principais investidores em anúncios na Meta, tendo a produtora Brasil Paralelo figurado em primeiro lugar. Segundo o jornal, o grupo gastou R$26,6 milhões para impulsionar 75.391 anúncios entre agosto de 2020 e agosto de 2024, período para o qual há dados disponíveis na biblioteca de anúncios da Meta (Tavares, 19 dez. 2024).

Do mesmo modo que as cartas dos leitores publicadas em O Globo, no início dos anos 2000, apresento outra dimensão de leitura dos produtos midiáticos: as interações de internautas sobre um produto da empresa, no caso, o documentário 1964: o Brasil entre armas e livros, publicado em 2 de abril de 2019.

Segundo Silva e Colacios (2023), o documentário constitui um exemplo emblemático do negacionismo histórico. Como observam os autores, seus realizadores constroem uma narrativa baseada em depoimentos selecionados e análises contrafactuais, a exemplo da tese de que o golpe de 1964 teria sido um ato preventivo contra uma iminente revolução comunista. O filme reivindica objetividade, mas opera com o acionamento de “autoridades forjadas”, sustentadas em entrevistas com intelectuais alinhados ao olavismo e ao conservadorismo.

É importante mencionar que, também em termos estéticos, trata-se de uma produção conservadora e pouco criativa. Conforme observa Ítalo Nelli Borges (2019, p. 156): “o documentário é pouco criativo e obsoleto no uso da linguagem do cinema, podendo ser caracterizado como um talking heads restrito apenas ao plano fixo do entrevistado (normalmente utilizando plano americano)”. Ainda segundo o autor, o filme recorre a recursos previsíveis e monótonos, como “a narração em off que também tem a intenção de moldar o raciocínio do espectador diante do conteúdo audiovisual” (Borges, 2019, p. 156).

De forma geral, tanto Silva e Colacios (2023) quanto Borges (2019) convergem ao afirmar que o filme opera como uma argumentação que pretende justificar a ditadura como uma ação necessária, seja ao alinhar-se com os pressupostos olavistas, figura-chave na estruturação narrativa, seja pela apropriação de teses historiográficas “que alimentam um projeto do Brasil Paralelo de distorção interpretativa do golpe e da ditadura” (p. 161).

A partir das reflexões sobre o filme, realizei um mapeamento entre seus mais de 77 mil comentários, selecionando pouco mais de 800 intervenções.4 O objetivo foi avaliar em que medida o empreendimento foi bem-sucedido em convencer os internautas sobre suas teses, ponderando sobre os elementos discutidos anteriormente: o acionamento de um ethos midiatizado, a noção de crise e engajamento algorítmico, tendo por base a disseminação de narrativas que já circulavam em nossa cena pública há bastante tempo.

Dada a quantidade de informações, foram produzidos prompts para análise por meio da plataforma de inteligência artificial OpenAI 4.0. Uma vez capturado o conjunto de comentários sobre o documentário, houve o tratamento do material com a retirada de todos os elementos gráficos do arquivo, deixando apenas o elemento textual. Com a criação do arquivo limpo, foi estabelecido um novo prompt para análise em termos semânticos.

Prompt de análise:

Faça uma análise semântica do arquivo. Este é um arquivo de comentários sobre o documentário ‘1964: o Brasil entre armas e livros’ da empresa Brasil Paralelo. Procure analisar três aspectos: 1. linhas de argumentação sobre a história (relação com o tempo, verdade, função, escola, ensino de história). 2. identifique elementos políticos ou religiosos (tendências ideológicas, alinhamento com a direita ou esquerda, usos de termos mais recorrentes para representar esses elementos) 3. Apropriações sobre a ditadura militar: (interpretação do acontecimento, se há posições positivas ou negativas sobre ele; principais conceitos que representam o acontecimento nas falas dos internautas).

A partir das respostas apresentadas, elaborei o Quadro 2, com os principais argumentos dos internautas nas interações com o vídeo, divididos em três categorias:

Quadro 2
Apropriações de internautas sobre o filme 1964: o Brasil entre armas e livros

Muitos internautas expressaram uma sensação de “acesso à verdade oculta”, sugerindo que o filme cumpre um papel de “desvelamento”. Eles se colocaram como vítimas de uma história manipulada, supostamente ensinada nas escolas e universidades, e celebraram o documentário como uma espécie de correção histórica. Nesse sentido, pudemos perceber como se mantém o sentimento de anti-intelectualismo, agora ampliado numa escala muito mais significativa, além do confronto com as universidades e o desprezo pelo conhecimento daí advindo.

Não surpreende que inúmeros comentários reforcem a ideia de que a escola pública estaria capturada por um projeto ideológico. A recepção do filme mobiliza afetos intensos, que vão da exaltação da pátria ao temor de uma ameaça comunista, passando pela saudade de um tempo idealizado como “ordem” e pela expectativa de um renascimento moral. Nessa chave, o passado deixa de ser objeto de investigação crítica e se converte em repertório de legitimação em que referências políticas, religiosas e morais se entrelaçam. O resultado é uma narrativa simplificada, que transforma a ditadura em palco de disputas entre vencedores e inimigos, dois lados, conforme perspectiva que procurei discutir anteriormente. Vejamos alguns comentários:5

É de arrepiar a parte da marcha cristã com cartazes ‘O Brasil é Verde e Amarelo’! […] Gratidão, Brasil Paralelo, pelo conteúdo riquíssimo em informações!

Nasci em 1964. Vida boa na ditadura militar até 20 anos de idade vivi nessa época. DITADURA NÃO. DEMOCRACIA SIM. TEMPOS MARAVILHOSOS DEUS É SOBERANO AMÉM. (caixa alta da internauta)

A ‘ditadura’ foi a melhor coisa que aconteceu no Brasil!

Os conteúdos negacionistas não se limitam a disputar fatos históricos, mas constroem um regime alternativo de verdade, capaz de responder a necessidades morais e políticas. Ao acusar a escola e a universidade de esconderem “o outro lado da história”, o que não deixa de ter influência do pressuposto jornalístico mencionado no começo do artigo, esses discursos se apresentam como libertadores, oferecendo ao público a sensação de acesso exclusivo a um conhecimento antes ocultado, por meio dos conteúdos digitais. Essa operação tem forte apelo afetivo, pois transforma o passado em fonte de pertencimento e orgulho, ao mesmo tempo em que convoca sentimentos de medo e esperança: medo do comunismo ou da corrupção associada aos inimigos políticos e esperança de uma redenção nacional pela revelação da “verdadeira história”. Como chama a atenção Artur Lima de Ávila (2021, p. 169), “o que o Brasil Paralelo nos fornece, sob a forma de um produto tecnicamente muito bem elaborado, é, não obstante algumas reprimendas pontuais ao regime, a normalização do que Ricoeur (2007, p. 341) alcunhou de ‘o injustificável’”.

Tais elementos indicam que as questões levantadas anteriormente, nos três níveis de manifestação das novas mídias, podem ser exemplificadas nos comentários analisados: a) a manifestação de um bios midiatizado, no qual a vida se justifica e adquire valor sobretudo pelo que se apresenta no digital, por exemplo, fazendo com que conteúdos históricos como a ditadura militar sejam subjetivados em um nível de escolha moral e quase religiosa, sustentada pela comunidade digital; b) o acionamento constante da insegurança e do medo de perder pressupostos morais e religiosos, produzindo uma sensação permanente de crise e um estado de defesa contínuo; desse modo, o temor do comunismo, a defesa da família e da pátria se apoiam na ativação incessante dos afetos e das emoções; c) a mobilização desses afetos em uma extensa rede de manipulação de dados, operada por mecanismos de engajamento, monetização e viralização, que se sustenta em um mercado algorítmico altamente preciso, que amplia e reforça tais percepções.

A análise dos comentários corrobora que não estamos diante de um negacionismo episódico ou de meras opiniões isoladas, mas da conformação de um negacionismo sistêmico, sustentado por engrenagens que operam de forma articulada no universo digital. O bios midiatizado converte a experiência histórica em espetáculo moralizado, o acionamento constante da insegurança projeta a sociedade em uma crise permanente de valores e o mercado algorítmico captura e reconfigura afetos, transformando-os em mercadoria circulante e “viralizável”.

Essa tríade nos demonstra que a negação contemporânea não se limita a um déficit de informação ou a um erro interpretativo: trata-se de um regime de verdade que se impõe como experiência existencial, que organiza identidades, afetos e práticas políticas, um circuito no qual tecnologia, moralidade e emoção se entrelaçam para produzir um modo de estar no mundo.

Considerações finais

Esta reflexão pretendeu argumentar que estamos diante de uma estrutura de negação condizente com os processos informacionais, políticos e econômicos fortalecidos pelo aprofundamento de nossas relações com as novas mídias. Nesse sentido, sugeri que as formas de negação e negacionismos que temos presenciado são elementos intrínsecos dessa nova forma de vida, na qual virtualidade e realidade confluem em um mundo marcado pelo controle econômico e de vigilância de grandes empresas de tecnologia gestoras de nossos dados comportamentais. Um controle jamais visto que tem possibilitado uma manipulação refinada de elementos morais, religiosos e políticos.

Mas esse processo não foi construído do nada, nem é totalmente novo. Muitas das teses e práticas negacionistas, como o anti-intelectualismo, o polemismo, o enfraquecimento dos campos do conhecimento, já vinham sendo lentamente introduzidas pela atuação das mídias tradicionais, ancoradas por interesses econômicos, com maior visibilidade na década de 1990. Com a estabilização de um bios midiatizado, advertência realizada por Muniz Sodré, progressivamente acentuou uma gramática que tem enfraquecido as experiências democráticas e modificado nossa relação com o conhecimento e a informação.

A transição das mídias analógicas para as digitais não significou apenas uma mudança de suporte tecnológico, mas aponta para a constituição de uma ecologia comunicacional que naturaliza o falseamento (histórico, científico, político etc.) e converte a negação em produto cultural de largo alcance. As questões levantadas neste texto chamam a atenção para um ambiente em que o passado é reconfigurado como arma política, a experiência social é corroída pela lógica da polarização e as possibilidades de construção democrática se veem continuamente fragilizadas.

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  • ZUBOFF, Shoshana. A era do capitalismo de vigilância Rio de Janeiro: Intrínseca, 2019. E-book.
  • 1
    O Grupo Tortura Nunca Mais, fundado em 1985, reúne familiares de mortos e desaparecidos políticos da ditadura militar brasileira. Teve papel central na luta por reparação às vítimas e no apoio à criação de políticas públicas de memória.
  • 2
    Essas cartas correspondem a recortes e extratos do jornal publicados em páginas específicas destinadas à manifestação do público leitor, funcionando como espaço editorial de interação e repercussão das matérias e opiniões veiculadas pelo periódico. Considerando o elevado número de ocorrências, optou-se por não referenciar individualmente cada carta nas referências finais, uma vez que se trata de manifestações breves, seriadas e concentradas em uma mesma seção editorial do jornal ao longo do período indicado. É importante considerar, contudo, que tais cartas não constituem uma expressão espontânea e integral da opinião pública, mas discursos mediados pelo próprio jornal. Sua publicação dependia de seleção, edição, cortes e enquadramentos definidos pela linha editorial do periódico, o que significa que esses textos circulavam em um espaço rigidamente controlado pela instituição jornalística.
  • 3
    No original: “crisis is new media’s critical deference: its norm and its exception. Crises cut through the constant stream of information, differentiating the temporally valuable from the mundane, overing users a taste of real time responsibility and empowerment. They also threaten to undermine this experience, however, by catching and exhausting us in an endlessly repeating series of responses” (traduzido por OpenAI 4.0).
  • 4
    Nota metodológica: No canal do Youtube, foi realizada uma coleta manual dos comentários, dos mais recentes para os mais antigos. A plataforma permite a visualização de uma quantidade específica de comentários e todos quanto foram possíveis foram coletados; após isso a seleção foi transformada em um arquivo em PDF, documento que foi tratado por meio do ChatGPT para otimizar a análise de dados, explicada no texto
  • 5
    Disponível no YouTube. Ver: Brasil Paralelo. 1964: o Brasil entre armas e livros (filme completo). YouTube, 2 abr. 2019. 1 vídeo (1h 53 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yTenWQHRPIg. Acesso em: 27 maio 2026. [11.626.413 visualizações]
  • **
    Esta pesquisa tem apoio financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), com bolsa de produtividade, e da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), por meio do edital Mulheres na Ciência, de 2022.
  • ***
    Nota metodológica: este artigo fez uso de inteligência artificial, especificamente da plataforma OpenAI .4.0/5.0 - ChatGPT. Seus usos foram os seguintes: traduções e pesquisas em textos em outros idiomas; sistematização de dados por meio de prompts de análise quantitativas de fontes. A autoria completa e responsabilidade pela reflexão é inteiramente humana.
  • 8
    Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do texto.

Editado por

  • Editores responsáveis:
    Fabrina Magalhães Pinto (https://orcid.org/0000-0001-5088-9125), Karla Carloni (https://orcid.org/0000-0001-7586-3802) e Norberto Osvaldo Ferreras (https://orcid.org/0000-0003-3801-0418).

Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do texto.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    20 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    29 Abr 2025
  • Aceito
    08 Out 2025
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