Resumo:
O artigo argumenta que, antes de Gilberto Freyre se consolidar, a partir dos anos 1940, como o principal nome associado ao mito da democracia racial brasileira, o ideário da brasilidade mestiça foi difundido nos Estados Unidos e em Cuba, em 1937, mediado pelo conceito de raça cósmica do intelectual mexicano José Vasconcelos, por meio do artigo “Brazil and the Negro: the process of race revindication” de Richard Pattee, e de sua tradução para o espanhol por Gustavo E. Urrutia. Esses textos repercutiram a produção intelectual sobre o negro no Brasil e os congressos afro-brasileiros de 1934 e 1937.
Palavras-chave:
Mestiçagem; Congressos afro-brasileiros; Democracia racial
Abstract:
The article argues that the idea of mestizo Brazilianness was popularised in the United States and Cuba before Gilberto Freyre was established as the main name associated with the myth of Brazilian racial democracy from the 1940s onwards. The article “Brazil and the Negro: the process of race revindication”, published by Richard Pattee in 1937, and its translation into Spanish by Gustavo E. Urrutia, evaluated the Brazilian mestizo, supported by the concept of the cosmic race of the Mexican intellectual José Vasconcelos. Pattee and Urrutia’s texts echoed the intellectual production on the Negro in Brazil and the Afro-Brazilian congresses of 1934 and 1937.
Keywords:
Racial mixing; Afro-Brazilian congresses; Racial democracy
Introdução
Aobra Casa-grande & senzala ([1933] 1983), de Gilberto Freyre (1900-1987), é frequentemente considerada a síntese mais sofisticada dos discursos nacionais que, desde o século XIX, enalteciam o Brasil como uma sociedade mestiça e harmoniosa. Em boa medida devido à grande repercussão nacional e internacional dessa obra e da produção posterior de Freyre, que colocou a mestiçagem no centro da formação social e histórica do Brasil, o intelectual pernambucano também é apontado como o principal arquiteto do mito da democracia racial brasileira.
Neste artigo, deslocando a ênfase sobre Freyre, argumento que, no final da década de 1930, o autor de Casa-grande & senzala ainda não era uma referência incontornável nos discursos que exaltavam o Brasil como exemplo de sociabilidade e fraternidade inter-racial. Com base na análise de fontes periódicas, defendo que, em 1937, o ideário da brasilidade mestiça foi difundido em Cuba e nos Estados Unidos, mediado pelo conceito de “raça cósmica”, formulado pelo intelectual mexicano José Vasconcelos (1882-1959). Ao adotar esse foco de análise, busco dialogar com a historiografia que problematiza o protagonismo de Freyre na construção do ideário da brasilidade mestiça e na consolidação da expressão “democracia racial”, investigando os fatores sociais e históricos que o produziram e sustentaram (Costa, [1977] 1999; Campos, 2007; Seigel, 2009; Alberto; Hoffnung-Garskof, 2018; Graham, 2019; Guimarães, 2021; Weinstein, 2022).
Quando Vasconcelos publicou a primeira edição de La raza cósmica: misión de la raza iberoamericana, em 1925, seu nome já era amplamente conhecido no meio hispano-americano, em grande medida por seu apoio ao movimento reformista universitário iniciado em Córdoba, na Argentina, em 1918 (Fell, [1989] 2009). No entanto, suas redes de sociabilidade também alcançavam os círculos intelectuais norte-americano e brasileiro, o que contribuiu para a intensa circulação e repercussão de seu livro em todo o continente. Nele, Vasconcelos reuniu o relato de sua viagem ao Brasil e a outros países da América do Sul, realizada em 1922 (Tenório, 1994; Crespo, 2003, Fell, [1989] 2009), e um prólogo-manifesto que exalta a miscigenação racial na América Latina. Segundo o intelectual mexicano, os países herdeiros da tradição ibérica e cristã estariam predestinados a formar uma nova raça mestiça, a raza cósmica, resultante da fusão de todos os tipos raciais existentes, e a constituir uma civilização definitiva e universal (Vasconcelos, [1925] 1948).
No Brasil, o livro de Vasconcelos foi apropriado, sobretudo, por intelectuais brancos ligados à vertente verde-amarela do modernismo paulista, formada por Cassiano Ricardo (1895-1974), Menotti Del Picchia (1892-1988) e Plínio Salgado (1895-1975), em meados da década de 1920 (Cuccagna, 2014; El-Dine, 2017; Coelho, 2018). Em artigos publicados no Correio Paulistano, a partir de 1926, a teoria da raça cósmica serviu de base para um discurso elogioso à mestiçagem e às relações raciais no país, que atualizou a tese das três raças formadoras da nacionalidade brasileira, remontando à tradição estabelecida pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), no século XIX (Guimarães, 1988).
Entre 1930 e 1945, parte do grupo modernista ocupou cargos em órgãos culturais e de propaganda do governo de Getúlio Vargas (Velloso, 2013). Foi durante esse governo que a fórmula do nacionalismo mestiço e, com ela, o mito da democracia racial brasileira consolidaram-se como discurso oficial sobre o país (Gomes, 1997; Domingues, 2005; Weinstein, 2006), tornando-se elemento central de sua imagem no exterior. O Brasil passou a ser apresentado como um contraponto ao regime de segregação nos Estados Unidos e à perseguição racial na Alemanha nazista, uma representação reiterada por diferentes atores nas décadas de 1930 e 1940, entre eles intelectuais e políticos brasileiros, além de viajantes estrangeiros, muitos dos quais eram exilados europeus. Essa construção discursiva exerceu particular influência no cenário internacional após a Segunda Guerra Mundial, a ponto de, no início da década de 1950, as relações raciais no Brasil se tornarem objeto de estudos da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), como parte de suas ações para o combate ao racismo (Maio, 1998).
Antonio Sérgio Alfredo Guimarães (2021), em diálogo com a pesquisa de Maria José Campos (2007), explica que o significado da expressão “democracia racial” começou a se consolidar no modernismo paulista. Com Menotti Del Picchia, em 1935, o conceito de democracia passou a ser entendido como sociabilidade, ou seja, um modo de convivência social, dissociando-se do sentido de forma de governo. Já com Cassiano Ricardo, em 1938, “a expressão ‘democracia racial’ foi utilizada para realçar o papel de liderança da raça branca, europeia, na organização do Estado-nação”. Ainda segundo Guimarães, na leitura de Ricardo, “a democracia brasileira teria sido formada a partir da hierarquia intrínseca das qualidades raciais de seus povos componentes” (Guimarães, 2021, p. 230-231).
Passando do modernismo às ciências sociais, o médico e sociólogo baiano Arthur Ramos (1903-1949) foi o primeiro a empregar a expressão, em 1941, em um artigo publicado no periódico estadunidense The Journal of Negro Education. Nesse contexto, procurou estabelecer uma “ponte entre democracia como política e direitos, tal como usada pelos norte-americanos, e democracia como sociabilidade” (Guimarães, 2021, p. 240). Com relação a Gilberto Freyre, ele não utilizou “democracia racial” antes de 1962, período em que estava envolvido no debate sobre o luso-tropicalismo e na defesa do colonialismo português no continente africano. Em Casa-grande & senzala, Freyre empregava a expressão “democracia social” (Guimarães, 2012, p. 160).
Ao revisitar a história da “democracia racial”, Guimarães (2021) analisa suas origens transnacionais, enfocando, especialmente, sua relação com as redes africanistas, que, a partir da década de 1930, reuniram cientistas sociais e intelectuais dos Estados Unidos e da América Latina, incluindo os brasileiros Gilberto Freyre e Arthur Ramos. Considerando essa perspectiva, argumento que, no contexto dessas redes, a circulação do livro de Vasconcelos contribuiu para consolidar o imaginário do Brasil como uma sociedade sem preconceitos, marcada por uma convivência racial harmoniosa. Assim, antes de esse imaginário ser amplamente denominado “democracia racial brasileira”, a partir dos anos 1940, ele aparecia associado ao conceito de “raça cósmica”, formulado por Vasconcelos.
Minha hipótese fundamenta-se na análise de textos publicados pelo intelectual branco norte-americano Richard Pattee (1906-?) e pelo intelectual negro cubano Gustavo E. Urrutia (1881-1958). Respectivamente, o artigo “Brazil and the Negro: the process of race revindication”, publicado por Pattee na revista nova-iorquina Opportunity: A Journal of Negro Life, em outubro de 1937, e sua tradução abreviada para o espanhol, assinada por Urrutia e veiculada no Diario de La Marina, um dos principais jornais de Cuba, entre outubro e novembro do mesmo ano.1
O texto de Pattee e sua tradução por Urrutia repercutiram os estudos brasileiros sobre a participação da população negra na formação histórica e social do país, bem como os congressos afro-brasileiros realizados nas cidades de Recife (1934) e Salvador (1937). Esses textos evidenciam as redes e os diálogos transnacionais das ciências sociais no Brasil, então em processo de institucionalização, nos anos 1930, corroborando o que a produção acadêmica tem apontado nos últimos anos (Maio; Lopes, 2017; Guimarães, 2021; Sansone, 2022). Ao mesmo tempo, indicam que, em 1937, Pattee e Urrutia, integrantes dessas redes, recorreram menos a Casa-grande & senzala e mais à obra de Vasconcelos para abordar o contexto racial brasileiro.
Para desenvolver esse argumento, nas seções seguintes, contextualizo a publicação desses textos periódicos, destacando os circuitos intelectuais e de sociabilidade que interligavam a obra de José Vasconcelos, os estudos sobre a população negra e o nacionalismo mestiço brasileiro na década de 1930.
La raza cósmica e suas apropriações no Brasil
La raza cósmica foi publicado em uma década marcada por intensas reflexões sobre o tema nacional na América Latina (Funes, 2006). Além de representar uma referência central do nacionalismo mestiço mexicano, o livro contribuiu para a consolidação de um discurso transnacional de valorização da identidade mestiça, que se contrapunha ao sistema Jim Crow nos Estados Unidos. No meio intelectual brasileiro, Vasconcelos conferiu autoridade a interpretações otimistas da mestiçagem e reforçou o imaginário do Brasil como um país sem preconceito racial. Sua teoria da raça cósmica foi mencionada na imprensa brasileira em artigos que endossavam a fórmula da brasilidade mestiça, antes e depois da publicação de Casa-grande & senzala.
Já no século XIX, diversos estrangeiros que visitaram o Brasil associaram a identidade nacional à mistura racial. Embora muitos de seus relatos se tenham notabilizado por prognósticos sobre a degeneração do mestiço brasileiro, com base no racismo científico, a convivência inter-racial foi frequentemente observada por viajantes, que, assim como Vasconcelos, contribuíram para a construção do mito da democracia racial brasileira (Domingues, 2005, p. 119-120).
Apesar de as primeiras décadas do século XX terem consolidado uma tradição de ensaios de interpretação nacional produzidos por autores brasileiros, os escritos de viajantes estrangeiros continuaram a despertar o interesse das elites nacionais. Suas visitas eram amplamente noticiadas nos jornais locais, que destacavam cada detalhe de suas estadas, desde o desembarque nos portos brasileiros até as publicações sobre o país após o retorno a suas nações de origem. Em 1933, o próprio Freyre, no prefácio da primeira edição de sua obra de estreia, valorizou esses textos, ressaltando sua importância para o estudo da história brasileira (Freyre, 1983, p. LXXIX).
Em 1925, o ambiente intelectual era propício à recepção de livros de viagem como o de José Vasconcelos, e os modernistas verde-amarelos encontraram em sua obra um modelo para a valorização da mestiçagem que não desestabilizava as hierarquias sociais e raciais enraizadas na tradição brasileira. A perspectiva de que o progresso e a civilização do Brasil dependeriam do branqueamento fundamentou os projetos de incentivo à imigração europeia promovidos pelo estado de São Paulo. Nesse contexto, a concepção de mestiçagem eugenizadora, apresentada por Vasconcelos, mostrava-se compatível com esse projeto. Como aponta Nancy Leys Stepan (2005), em La raza cósmica o intelectual mexicano anunciou o surgimento de uma nova raça mestiça no continente americano, sem esconder sua expectativa de que nela prevalecessem as características supostamente superiores da raça branca (Stepan, 2005, p. 160-163). Ao mesmo tempo, a cordialidade, a tolerância e a bondade, que Vasconcelos identificava como características da cultura latino-americana, ganharam destaque nos manifestos verde-amarelos dos anos 1920 e no discurso da brasilidade mestiça a partir da década de 1930.
Plínio Salgado foi o primeiro a fazer referência a José Vasconcelos no texto “A raça harmoniosa”, publicado em 1926 (Salgado, 1926, p. 3). Nos últimos anos da década de 1920, a expressão “raça cósmica” tornou-se recorrente nos textos programáticos do verde-amarelismo, que se dedicaram à interpretação da mestiçagem brasileira. Como costuma ocorrer nos processos de apropriação e transferências culturais (Chartier, 1990; Espagne, 2017), o texto de José Vasconcelos adquiriu novos significados nos artigos programáticos do modernismo verde-amarelo. A maior propensão à mistura racial, considerada pelo intelectual mexicano uma característica intrínseca à raça ibérica, foi reinterpretada nos textos verde-amarelos como uma herança indígena. Opondo-se ao movimento lançado por Oswald de Andrade (1890-1954) e à sua simbologia indígena associada à violência do ritual antropofágico, o grupo modernista verde-amarelo preconizava um indígena pacífico, que se deixou absorver pelo conquistador europeu (Jardim, 2016, p. 99-100; 103) e se tornou o amálgama de todos os elementos que conformam a nacionalidade brasileira (Del Picchia et al., 1929, p. 4).
Essas ideias foram sintetizadas em um manifesto verde-amarelo de 1929. No entanto, a aproximação entre os termos “raça” e “democracia” tornou-se mais evidente no artigo de Cassiano Ricardo, “Ser brasileiro”, publicado em junho de 1930. Nele, Ricardo refere-se ao indígena como o “primeiro elemento fundamental da raça brasileira” e explica que suas qualidades - nomeadas como mansidão, aceitação, concórdia e ausência de preconceitos - constituíram o “profundo espírito de tolerância” do brasileiro. Na perspectiva de Ricardo, o indígena fez do “Brasil futuro” “a pátria que vem juntando o tesouro de todas as raças para operar o milagre da raça cósmica” e que, “nessa fusão simpática dos elementos mais díspares”, representa “a maior democracia do mundo!” (Ricardo, 1930, p. 1).
As viagens de Vasconcelos e a difusão de La raza cósmica
José Vasconcelos estava exilado na Europa quando publicou seu livro mais célebre, em 1925. No ano anterior, ele havia deixado o governo do presidente mexicano Álvaro Obregón, de quem foi secretário de Educação Pública entre 1921 e 1924. Foi durante esse período que Vasconcelos viajou à América do Sul, em 1922, representando o México nas celebrações do Primeiro Centenário da Independência do Brasil. Sua viagem estendeu-se ao Uruguai, à Argentina e ao Chile. Desiludido com a política mexicana, Vasconcelos vislumbrou um sentido histórico para um presente marcado por fraturas sociais. Em sua visão, a mestiçagem seria a ponte para o futuro, permitindo a incorporação de indígenas e negros a uma cultura considerada superior - a da raça branca, europeia, especialmente em sua vertente latina -, resultando na formação de um mestiço cósmico e de uma civilização definitiva.
Em 1925, antes de partir para o exílio europeu, Vasconcelos visitou Cuba e proferiu uma conferência para estudantes da Universidade de Havana. Na ocasião, mobilizou a história do país como ensaio para a teoria que sustentava o mito da raça cósmica (Fell, 2009, p. 587). Segundo Vasconcelos, Cuba representava um campo de batalha entre as raças espanhola e inglesa, um embate no qual o elemento espanhol prevaleceria, alcançando a “universalidad en el amor” e o destino da “civilización iberoamericana”. Ainda segundo Vasconcelos, a juventude cubana defendia uma “raza en la que caben todas las culturas y todos los colores de la piel”, enquanto a “raça rival” promovia a hegemonia do branco sobre todo o planeta (Vasconcelos, 1925 apud Fell, 2009, p. 587-588).
No mesmo ano, no prólogo de La raza cósmica, Vasconcelos expandiu sua teoria para abranger toda a Ibero-América. Quanto ao relato de viagem, a maior parte é dedicada ao Brasil. O intelectual mexicano relata sua experiência no país, mediada por cicerones da elite brasileira e desfrutando dos privilégios reservados a visitantes ilustres e chefes de Estado, como prova da validade de sua teoria. Vasconcelos sugere que uma nova capital universal surgiria na região amazônica, e que o Brasil, juntamente com seus vizinhos hispano-americanos, seria o berço da futura raça cósmica. No entanto, os limites de sua celebração à mestiçagem tornam-se evidentes em sua visão ambígua e, por vezes, abertamente racista, especialmente em relação a indígenas, negros e asiáticos.
O livro vendeu cerca de 5 mil exemplares em um ano (Molina, 2021, p. 23), e Vasconcelos retornou ao continente em 1926, convidado para um ciclo de conferências na Universidade de Porto Rico, localizada em um território sob o controle dos Estados Unidos desde a Guerra Hispano-Americana de 1898. No ano seguinte, Richard Pattee, autor do artigo sobre o Brasil, publicado na revista Opportunity: A Journal of Negro Life, começou a lecionar nessa universidade, possivelmente a tempo de testemunhar os efeitos da visita de Vasconcelos. Após sua estada em Porto Rico, o intelectual mexicano palestrou em São Domingos, capital da República Dominicana, e seguiu viagem para Nova York, onde ministrou uma conferência na Universidade Columbia. Entre 1926 e 1928, atuou como professor visitante nas universidades de Chicago e da Califórnia (Blanco, 1977, p. 142).2
Após um breve retorno ao México, em 1929, para disputar as eleições presidenciais - das quais saiu derrotado -, Vasconcelos voltou ao exílio. Nos anos seguintes, viveu na França, na Espanha e na Argentina, além de viajar diversas vezes aos Estados Unidos (Molina, 2021, p. 23). Nesse período, teve várias oportunidades de divulgar suas ideias para audiências estrangeiras, especialmente para o público estadunidense, contribuindo para a valorização de aspectos da mestiçagem e do pensamento racial latino-americano.
As décadas de 1920, 1930 e o início dos anos 1940 constituíram um período favorável ao estabelecimento de pontes entre intelectuais latino-americanos e norte-americanos. No meio intelectual e político dos Estados Unidos, havia um crescente interesse pela América Latina, motivado tanto por exotismos culturais quanto por questões geopolíticas (Pike, 2012), que se intensificaram com o início da Segunda Guerra Mundial. Foi nesse contexto que, em 1938, Pattee aceitou o convite para chefiar a Divisão Cultural para as Américas no Departamento de Estado dos Estados Unidos (Guimarães, 2021, p. 236, 248). Já no início da década de 1940, os Estados Unidos aprofundaram sua Política da Boa Vizinhança (1933-1945) como estratégia de aproximação com os países da América Latina (Tota, 2000), buscando garantir seu apoio aos Aliados durante a Segunda Guerra.
Os congressos afro-brasileiros e suas conexões internacionais
Os congressos afro-brasileiros, realizados em 1934 e 1937, marcaram uma reconfiguração das reflexões sobre as relações raciais, estabelecendo um diálogo com a antropologia culturalista norte-americana, representada pelo alemão Franz Boas (1858-1942). No entanto, também evidenciam continuidades com a tradição antropológica brasileira influenciada pelo pensamento racialista, como no caso da reavaliação da obra de Raimundo Nina Rodrigues (1862-1906), especialmente no congresso de 1937.
Freyre foi o principal organizador do Congresso de Recife, em 1934, ocasião em que apresentou o trabalho “Deformações de corpo dos negros fugidos”. Com base na análise de anúncios publicados em jornais do período imperial, Freyre identificou diferentes marcas nos corpos de pessoas negras escravizadas, associando essas deformações às precárias condições de vida a que eram submetidas (Morais, 2020). Sua conclusão, assim como a referência ao antropólogo carioca Edgard Roquette-Pinto (1884-1954), no prefácio de Casa-grande & senzala, reflete a mudança de perspectiva promovida pelo movimento sanitarista brasileiro nas décadas de 1910 e 1920. Esse movimento passou a atribuir as doenças observadas em populações denominadas mestiças - especialmente no interior do Brasil - a causas sociais, políticas e econômicas, e não a fatores raciais (Lima; Hochman, 1996).
O Segundo Congresso Afro-Brasileiro foi organizado pelo sociólogo negro baiano Edison Carneiro (1912-1972) e buscou retomar a tradição de estudos sobre o negro iniciada no século XIX por Nina Rodrigues. Na década de 1930, seu legado passou a ser reivindicado pela chamada Escola Baiana de Medicina, com destaque para Arthur Ramos (Corrêa, 2013). Ramos propôs uma atualização da obra de Nina Rodrigues, substituindo o conceito de raça pelo de cultura e o de mestiçagem pelo de aculturação (Morais, 2020). Tendo contribuído com um trabalho no Primeiro Congresso Afro-Brasileiro, Ramos também assinou o prefácio do segundo volume dos anais desse evento. No Congresso de Salvador, manteve um diálogo com Carneiro e enviou dois trabalhos para discussão.
Os congressos reuniram um grupo heterogêneo de participantes, incluindo médicos, psiquiatras, antropólogos, escritores, artistas e religiosos afro-brasileiros. No entanto, o congresso de 1934 foi marcado por uma abordagem do negro sob a perspectiva da medicina, da psiquiatria e da antropologia física, com muitos debates refletindo as discussões do Primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia, realizado em 1929 (Skolaude; Lima, 2020, p. 12).3 Já o congresso de 1937 deu maior ênfase aos aspectos sociais e culturais da população negra, além de adotar uma pauta mais política, com a defesa da liberdade religiosa (Morais, 2020).
Além da repercussão na imprensa brasileira, na qual seus organizadores escreviam regularmente, os congressos afro-brasileiros também foram noticiados pela imprensa internacional (Skolaude; Lima, 2020, p. 96-97). Em um relato sobre o Congresso de Recife, Freyre menciona que o evento foi destaque no The New York Times e em jornais europeus, além de ter sido bem recebido por figuras como Boas, o alemão Rüdiger Bilden (1893-1980) - que promoveu no meio acadêmico norte-americano uma visão otimista da mestiçagem como um “laboratório da civilização brasileira” -, e o escritor português Nuno Simões (1894-1975) (Freyre et al., 1937, p. 351-352).
Os congressos contaram com a participação de pesquisadores estrangeiros. O antropólogo judeu norte-americano Melville Herskovits (1895-1963) enviou trabalhos para os dois eventos, enquanto o sociólogo branco norte-americano Donald Pierson (1900-1995), que realizava pesquisas de doutoramento no Brasil, esteve presente no segundo congresso, realizado em Salvador (Morais, 2020). Nesse mesmo evento, o intelectual negro cubano Salvador García Agüero (1907-1965) apresentou um trabalho sobre a influência africana na música nacional cubana, conforme assinalado nos textos de Pattee e Urrutia. Suas publicações sobre os congressos afro-brasileiros, analisadas a seguir, confirmam o depoimento de Freyre, evidenciando a ressonância desses eventos em Cuba e nos Estados Unidos.
As redes intelectuais de Gustavo Urrutia e Richard Pattee
Urrutia se formou em arquitetura na Universidade Nacional de Cuba em 1917, mas abandonou a carreira para se dedicar ao jornalismo. Em 1928, passou a escrever para o Diario de la Marina (1844-1960), um dos jornais de maior circulação em Cuba. Embora conservador, o periódico atraía colaboradores e leitores de diversas orientações políticas (Albis, 2019, p. 268). Na década de 1920, lançou um suplemento literário, que publicou escritores cubanos e estrangeiros, incluindo José Lezama Lima, Alejo Carpentier, Pedro Henríquez Ureña, Jorge Luis Borges e José Carlos Mariátegui.
No periódico, Urrutia esteve à frente do projeto cultural “Ideales de una raza” (1928-1931) e da seção “Armonias”, na qual foi veiculada, em 1937, a tradução do artigo de Pattee feita por Urrutia. Ele transformou esses espaços em plataformas para o debate sobre discriminação racial, de gênero e de classe e foi um dos primeiros intelectuais negros a mobilizar esses temas na imprensa cubana de grande circulação (Albis, 2019, p. 267-268).
Nas décadas de 1920 e 1930, Cuba passou por um movimento de revisão das bases da nacionalidade, envolvendo escritores, artistas e intelectuais (Nogueira, 2022). No Diário de la Marina, Urrutia defendeu um diálogo de conciliação nacional, buscando envolver brancos e negros em igualdade. Nesse período, ideais de fraternidade racial, voltados para a homogeneização e a formação de uma raça nacional, ganharam força entre a intelectualidade cubana, e o conceito de “raça cósmica”, de Vasconcelos, tornou-se uma proposta influente nesse debate (Cubas Hernández, 2018, p. 170, 172-173).
A valorização das tradições culturais africanas despertou o interesse de intelectuais brancos e negros, cujas vozes foram incorporadas ao Diario de la Marina. A participação em “Ideales de una raza” marcou a estreia do poeta negro cubano Nicolás Guillén e de García Agüero (Oliveira, 2015, p. 96), mencionado anteriormente como um dos participantes do Segundo Congresso Afro-Brasileiro. Outra colaboração significativa foi a do intelectual branco cubano Fernando Ortiz (1881-1969), que, em 1937 - ano do Segundo Congresso Afro-Brasileiro -, fundou a Sociedade de Estudos Afro-Cubanos (Oliveira, 2015, p. 102--103). Ao longo de sua trajetória, Ortiz consolidou uma ampla rede de contatos intelectuais no exterior, tornando-se um elo importante entre os movimentos negros em Cuba e nos Estados Unidos. A tradução feita por Urrutia do texto de Pattee também evidencia esse trânsito, estendendo-se ao Brasil.
Quando publicou seu artigo na revista Opportunity: A Journal of Negro Life, em 1937, Pattee era diretor do Instituto Hispano-Americano da Universidade de Porto Rico. Formado pela Universidade do Arizona em 1926, concluiu o mestrado em história na Universidade Católica da América, em Washington, entre 1926 e 1927. Nos anos 1930, integrou uma rede de cientistas sociais e intelectuais brancos e negros da América Latina e dos Estados Unidos, que incluía W.E.B. Du Bois (1868-1963), Alain Locke (1885-1954), o porto-riquenho Arturo Alfonso Schomburg (1874-1938), o haitiano Jean Price-Mars (1876-1969), além de Herskovits, Bilden, Ramos e Ortiz (Guimarães, 2021, p. 236).
Pattee frequentou o Harlem e colaborou com o jornal The Crisis (1910-). Em 1935, iniciou correspondência com Arthur Ramos e, em 1937, publicou uma resenha do livro Novos estudos brasileiros (Anais do Congresso Afro-Brasileiro de Recife) no The Journal of Negro History, além de ter sido convidado para o Congresso Afro-Brasileiro de Salvador. Em 1938, quando assumiu o cargo de chefe da Divisão Cultural para as Américas no Departamento de Estado dos Estados Unidos, Pattee já contava com uma sólida rede de contatos na América Latina (Guimarães, 2021, p. 247-248).
A revista Opportunity: a Journal of Negro Life (1923-1949), na qual Pattee publicou seu texto sobre o Brasil e os congressos afro-brasileiros, foi editada em Nova York, no auge do movimento Harlem Renaissance. Criada pelo sociólogo negro Charles S. Johnson, então diretor da National Urban League, a publicação tinha como objetivo divulgar jovens artistas, escritores e intelectuais negros.
Quanto a Urrutia, seus primeiros contatos com o Harlem remontam a 1907, quando teria realizado sua primeira viagem aos Estados Unidos (Nogueira, 2022, p. 277). Já em 1932, encontrou-se em Havana com Schomburg, um dos principais intelectuais do Harlem, que estava reunindo manuscritos e impressos sobre autores negros para a Biblioteca Pública de Nova York. Na ocasião, Schomburg levou consigo uma coleção de artigos publicados em “Ideales de una raza” (Urrutia, 1932).
Richard Pattee e os estudos sobre o negro no Brasil
No mesmo ano em que Opportunity publicou o texto de Pattee, o Departamento de Ciências Sociais da Universidade de Fisk, do Tennessee, dirigido por Charles S. Johnson desde 1926, contratou Bilden para ministrar um curso sobre a sociedade escravocrata brasileira e a mistura racial, em perspectiva comparada com os Estados Unidos. Foi Schomburg quem, em 1936, colocou Bilden e Johnson em contato. O plano de trabalho de Bilden visava ampliar a área de atuação do Departamento de Ciências Sociais para incluir a situação racial na América Latina, com especial atenção ao Brasil. Simultaneamente, a Universidade de Fisk recebeu Donald Pierson, recém-chegado do Brasil, e, em 1937, ele conduziu um seminário com a colaboração de Bilden e da antropóloga norte-americana Ruth Landes (1908-1991) que, posteriormente, realizaria pesquisas no país (Pallares-Burke, 2012, p. 226-227, 230-231).
Nesse contexto de crescente interesse pelo cenário racial no Brasil, Pattee apresentou ao público de Opportunity um panorama das pesquisas brasileiras sobre o negro, destacando as contribuições de Roquette-Pinto, Ramos e Freyre para a consolidação desse campo. Seu artigo, “Brazil and the Negro: the process of race revindication”, tem cinco páginas, com texto distribuído em duas colunas e sem ilustrações.4 Nas duas primeiras páginas, Pattee discute a emergência dos estudos sobre o negro e a mistura racial no Brasil. Em seguida, apresenta os principais pesquisadores brasileiros do tema. Na página final, informa sobre os congressos afro-brasileiros de Recife e Salvador.
Na abertura do artigo, Pattee afirma que o “renascimento negro” no Brasil coincide com o “renascimento indianista” observado no Peru, no México e na América Central. Comparando-o ao movimento cubano, argumenta que a afirmação de Fernando Ortiz, ao criar a Sociedade de Estudos Afro-Cubanos - segundo Pattee, de “que o índio cubano é o negro” -, também se aplicava ao Brasil, onde o indígena não teria alcançado o nível de cultura das raças andinas e mexicanas (Pattee, 1937, p. 301). Essa comparação entre os movimentos negros brasileiro e cubano é retomada na conclusão do texto, na qual, além de ecoar Casa-grande & senzala, ao afirmar que o negro é, assim como o português, parte inerente e intrínseca da nacionalidade brasileira, Pattee conclui que, enquanto o renascimento negro avançava no Brasil e em Cuba, nos demais países do continente os “preconceitos artificiais” impediam o reconhecimento da “civilização afro-americana” (Pattee, 1937, p. 305; minha tradução).
Embora Freyre seja mencionado no artigo, na segunda página, Pattee recorre a La raza cósmica para ilustrar a dinâmica da mestiçagem no Brasil e seus efeitos na formação de uma nova raça. Afirma que nenhum outro país moldava tantos tipos humanos divergentes e que a sociedade brasileira seria um “entrecruzamento de raças quase universal”. Apropriando-se das ideias do intelectual mexicano, conclui que “o Brasil está se aproximando da realização da raça cósmica de José Vasconcelos mais do que as outras repúblicas deste hemisfério” (Pattee, 1937, p. 301-302; minha tradução).
É interessante notar que, no México, país de origem de Vasconcelos, o debate sobre a mestiçagem estava vinculado ao indigenismo e ao consenso de que era prioritário incorporar as populações indígenas à vida nacional. O principal nome do indigenismo oficial, o antropólogo Manuel Gamio (1883-1960), aplicou a essa causa os princípios da escola de antropologia de Franz Boas, com quem estudou entre 1909 e 1910, na Universidade Columbia. Em sua atuação à frente de instituições como a Escola Internacional de Arqueologia y Etnologia, o Departamento de Monumentos Arqueológicos, o Departamento de Antropologia e o Instituto Indigenista Interamericano, ficaram evidentes as contradições entre a valorização da cultura indígena e a busca por sua integração, processo que envolvia a dissolução de suas tradições (Brading, 1989; Zermeño Padilla, 2019).
A tensão entre a valorização das culturas indígenas e africanas, por um lado, e a imposição de sua assimilação cultural e racial, por outro, repetiu-se em outros contextos nacionais, incluindo o Brasil. No texto de Pattee, essas ambiguidades também se fazem presentes. Embora exalte as contribuições culturais africanas, há passagens que, dialogando com a bibliografia brasileira, apresentam um viés biológico e eugênico. Um exemplo disso é sua afirmação de que o cruzamento racial com o negro moldou um tipo racial mais forte e flexível. Os comentários do autor sobre o trabalho de Rodrigues de Carvalho, apresentado no Congresso Afro-Brasileiro de 1934, reforçam essa interpretação. Pattee destaca que, na visão de Carvalho, “o negro” seria um elemento “indispensável para a concretização do tipo humano mais adequado às condições [ambientais] do país” (Pattee, 1937, p. 302; minha tradução). A ideia de uma mestiçagem eugênica, aliás, é compatível com a própria concepção de José Vasconcelos.
Em La raza cósmica, os conceitos de raça e mestiçagem são apresentados de maneira flexível e multifacetada. O conceito de raça mescla noções de cultura, civilização, povo e costumes. Quanto à mestiçagem, Vasconcelos sustenta que a humanidade futura - a chamada raça cósmica - será portadora de todas as riquezas da história, fruto de uma integração étnica e espiritual (Fell, [1989] 2009, p. 639, 646), indicando que o conceito ultrapassa os limites da biologia. Junto a outros artífices da mestiçagem como eixo do nacionalismo mexicano e do ibero-americanismo, Vasconcelos buscou atribuir um sentido filosófico a essa concepção (Zermeño Padilla, 2008, p. 81). Ao recorrer à linguagem da eugenia, Vasconcelos propôs uma “eugenia espiritual”, com base nos princípios da estética e do gosto, que, na sua visão, deveriam prevalecer sobre os critérios científicos. Entretanto, o afastamento da linguagem do determinismo biológico não impediu Vasconcelos de reproduzir preconceitos do racismo científico. Nesse sentido, ele chegou a prever que o desenvolvimento sistemático de uma “eugenia estética”, na qual os indivíduos belos e saudáveis de cada raça buscariam parceiros semelhantes a si próprios, resultaria no desaparecimento completo da raça negra. Esse processo, segundo Vasconcelos, ocorreria por meio do progresso de uma eugenização negativa, voluntária e estética (Stepan, 2005, p. 160-163).
Em relação à bibliografia brasileira comentada em “Brazil and the Negro: the process of race revindication”, Casa grande & senzala é incluído entre os estudos “fundamentais, criteriosos e sólidos” da literatura sobre o negro no Brasil. Segundo Pattee, o livro é “uma reprodução fiel da realidade da escravidão brasileira”, em todos os “detalhes repugnantes da relação social criada através deste sistema”. Pattee acrescenta que o estudo de Freyre “marcou época no Brasil e foi aclamado em outros lugares, por africanistas notáveis como o Dr. Fernando Ortiz”, sendo considerado “o trabalho de maior valor documental para o estudo do negro em condições de escravidão” (Pattee, 1937, p. 304; minha tradução).
Apresentado ao público de Opportunity como um texto historiográfico que expõe os “detalhes repugnantes” da escravidão no Brasil, Casa-grande & senzala aparece sob uma perspectiva distinta daquela que, anos mais tarde, consolidaria Freyre como o principal arquiteto do mito da democracia racial brasileira. Paradoxalmente, a construção dessa reputação esteve fortemente ligada à atuação de Pattee no Departamento de Estado dos Estados Unidos (1938-1943). Nesse período, as ideias de Freyre passaram a circular academicamente nos Estados Unidos, por meio de conferências públicas, antes mesmo da publicação de seu primeiro livro em inglês, Brazil: an interpretation (1945), escrito especificamente para o público norte-americano (Guimarães, 2021, p. 238).
A obra de Arthur Ramos também foi mencionada em “Brazil and the Negro”. Pattee destacou seu trabalho como editor da Biblioteca de Divulgação Científica da Editora José Olympio, que incluiu, sob o título Novos estudos afro-brasileiros, o segundo volume dos Anais do Congresso Afro-Brasileiro do Recife. Entre os livros publicados por Ramos, Pattee menciona O negro brasileiro, O folclore negro do Brasil, além de dois volumes que, segundo ele, estariam em fase de preparação: Negros escravos e As culturas negras no Novo Mundo. A propósito desse último, sua publicação em inglês, sob o título The Negro in Brazil, em 1939, contou com a colaboração de Pattee, Bilden, Herskovits, Schomburg e do historiador negro norte-americano Carter Woodson (Pallares-Burke, 2012, p. 239).
Segundo Guimarães, Pattee demonstrava grande interesse pela América Latina e por seu modelo de relações raciais. Já na década de 1930, admirava o ditador português Antônio de Oliveira Salazar (1889-1970) e a civilização luso-brasileira exaltada por Freyre. Em 1943, ao deixar o Departamento de Estado dos Estados Unidos, Pattee viveu por um período no México, país de Vasconcelos, onde atuou como professor visitante da Universidade Nacional Autônoma do México (Guimarães, 2021, p. 246, 255).
Na década de 1930, escrevendo para periódicos da imprensa negra dos Estados Unidos, Pattee tornou-se um importante divulgador da tese de que a mestiçagem caracterizava a formação social dos países colonizados por Portugal e Espanha. Ao mesmo tempo, seu uso de La raza cósmica para discutir o contexto racial brasileiro sugere que, apesar de suas contradições, o livro de Vasconcelos circulava nos meios negros e pode ter sido mobilizado para fomentar um ideal de interação ou sociabilidade racial, em oposição às leis segregacionistas nos Estados Unidos. Comparações desse tipo foram recorrentes nos anos 1930, impulsionadas pela emergência de discursos nacionalistas mais inclusivos, que defendiam a incorporação das culturas negras no imaginário nacional norte-americano (Graham, 2019).
“La raza cósmica en el Brasil” e em Cuba
A tradução de “Brazil and the Negro: the process of race revindication”, assinada por Urrutia, incorporou novos sentidos ao texto de Pattee, a começar pelo desaparecimento do título original na versão em espanhol. O texto foi subdividido em artigos publicados entre 31 de outubro e 10 de novembro de 1937. O primeiro artigo da série recebeu o título “La raza cósmica en el Brasil”, enfatizando a interpretação do contexto racial brasileiro sob a perspectiva da raça cósmica de Vasconcelos. Já os artigos publicados em 9 e 10 de novembro foram intitulados “Primer Congreso Afro-Brasileño” e “El Segundo Congreso Afro-Brasileño”, respectivamente.
Enquanto “La raza cósmica en el Brasil” corresponde às duas primeiras páginas do original em inglês, “Primer Congreso Afro-Brasileño” e “El Segundo Congreso Afro-Brasileño” reproduzem o conteúdo da página final do texto de Pattee. Na edição de 31 de outubro, Urrutia referiu-se a esses textos como uma “tradução sintética” e, no dia 9 de novembro, descreveu os trechos publicados como “fragmentos” do “magnífico estudo” do “Dr. Richard Pattee”, “catedrático da Universidade de Porto Rico”, publicado na revista nova-iorquina “Opportuny” [sic]. Contudo, as intervenções de Urrutia no texto original foram pontuais, possivelmente visando adequá-lo ao formato da imprensa diária.
Em “La raza cósmica en el Brasil”, Urrutia omitiu o nome do intelectual negro brasileiro Evaristo de Morais (1871-1939), que abre o texto de Pattee. O leitor do jornal cubano não é informado de que o parágrafo inicial do artigo faz referência a uma publicação de Morais na revista da Sociedade Luso-Africana do Rio de Janeiro. Da mesma forma, a autoria de Rui Barbosa (1849-1923) foi suprimida do trecho em que se lamenta o episódio da destruição dos registros de compra e venda de escravos, em 1891. Por fim, no artigo “El Segundo Congreso Afro-Brasileño”, não foi incluída, na lista dos trabalhos apresentados no congresso de 1937, “Folclore negro no Nordeste do Brasil”, do escritor negro modernista, o paulista Mário de Andrade (1893-1945). Essas supressões, no entanto, não parecem suficientes para justificar a noção de “síntese” que Urrutia associa à sua tradução. Outra hipótese é que a referência à síntese diga respeito à exclusão de duas páginas do original, nas quais Pattee discute a bibliografia brasileira, destacando as contribuições de Freyre e Ramos.5
A ausência desses autores, somada ao deslocamento de ênfase do negro - presente no título de Pattee - para o mestiço ou a “raça cósmica”, no título escolhido por Urrutia, posiciona Vasconcelos como a principal referência para a interpretação do panorama racial no Brasil. Além de indicar a ampla circulação da obra de Vasconcelos, a tradução de Urrutia sugere suas apropriações no debate nacional cubano, evidenciando que seu projeto editorial não esteve alheio ao discurso de valorização da mestiçagem promovido pelo intelectual mexicano.
O projeto editorial de Urrutia dialogou com as vanguardas artísticas e sua oposição ao hispanismo, que ignorava as interações culturais nas Américas, bem como com a estruturação de um campo de estudos afro-cubanos, desde a formação da Sociedade do Folclore e a publicação dos Arquivos do Folclore Cubano, a partir de 1923, com a colaboração de Ortiz. Ao mesmo tempo, Urrutia acompanhava as transformações no campo cultural norte-americano, especialmente os movimentos do Harlem Renaissance. Porém, como aponta Fábio Nogueira de Oliveira (2015), “o nacionalismo cubano e, em especial, o projeto de ‘fraternidade racial’ […] tornava mais difícil a afirmação de uma ‘cultura negra’ separada da cultura cubana”. Nesse contexto, a afirmação de um orgulho negro e o afro-cubanismo “estava subsumido a um nacionalismo cultural engajado em construir a diferença entre Cuba e os Estados Unidos” (Oliveira, 2015, p. 104-105).
No final da década de 1930, “o projeto de ‘Ideales de una raza’ de reunir intelectuais brancos e negros para desenvolver estudos a respeito da temática racial cubana ganhou corpo com a Sociedade de Estudos Afro-Cubanos e sua revista de divulgação, Revista de Estudos Afro-Cubanos” (Oliveira, 2015, p. 147). A Sociedade de Estudos Afro-Cubanos, conforme mencionado anteriormente, foi fundada por Fernando Ortiz em 1937, no mesmo ano da publicação da série de artigos iniciada por “La raza cósmica en el Brasil”. Em um contexto de acentuada instabilidade política e agravamento das tensões raciais, a sociedade propunha-se a estudar os fenômenos produzidos pela convivência inter-racial, promovendo maior integração e entendimento mútuo entre os grupos que compunham a nacionalidade cubana (Oliveira, 2015, p. 137-142).
Na década de 1930, portanto, movimentos intelectuais no Brasil, em Cuba e nos Estados Unidos construíram ideários nacionalistas que valorizavam a mestiçagem e a convivência inter-racial, estabelecendo fortes conexões internacionais. Essas iniciativas buscaram responder a mudanças culturais e políticas internas e ao contexto internacional marcado pelo crescimento dos movimentos nazifascistas. Em 1937, por meio dos textos de Pattee e Urrutia, essas reflexões tomaram como cenário ideal as relações raciais no Brasil, recorrendo ao mito da raça cósmica de Vasconcelos, e circularam nos meios intelectuais negros dos Estados Unidos e de Cuba, constituindo uma oposição ao sistema Jim Crow.
Considerações finais
Segundo Guimarães (2021), Gilberto Freyre “foi o principal cientista social e historiador a propagar a imagem do Brasil como locus de um sistema de relações raciais peculiar”, “marcado pela ausência de preconceitos raciais sistemáticos”, “pela ausência de uma linha de cor que impedisse a mobilidade social”, “por relações raciais fraternas entre brancos e negros” e “pela intensa miscigenação biológica e cultural” (Guimarães, 2021, p. 238). Os textos de Richard Pattee e Gustavo Urrutia, contudo, sugerem que, em 1937, uma visão positiva das relações raciais no Brasil circulava, não necessariamente com base em Freyre, mas por meio do relato de viagem do mexicano José Vasconcelos. A concepção de raça cósmica foi mobilizada por Pattee e, sobretudo, por Urrutia, como chave de leitura para a sociedade mestiça, os estudos sobre o negro e os dois primeiros congressos afro-brasileiros, dedicados a essa temática e realizados no Brasil. Além de evidenciar a ampla audiência que a teoria da mestiçagem de Vasconcelos alcançou na década de 1930, nos meios intelectuais norte-americanos e cubanos, esse dado evidencia a relevância do tema da mestiçagem e da convivência inter-racial no período entre guerras.
Alguns anos mais tarde, no contexto pós-Segunda Guerra Mundial e dos primeiros estudos da Unesco sobre as relações raciais no Brasil, realizados na década de 1950, o país foi tido como contramodelo ao nazifascismo (Maio, 1998). Essa imagem do Brasil foi cultivada pela política cultural varguista e endossada por muitos viajantes, exilados e pesquisadores estrangeiros que estiveram no país nas décadas de 1930 e 1940. No caso dos acadêmicos, suas visitas ocorreram no contexto da formação de um campo transnacional dos estudos africanistas, em meio a redes intelectuais que impulsionaram a publicação e a circulação de textos como os de Pattee e Urrutia. Esses textos conferiram novos enquadramentos ao imaginário positivo das relações raciais no Brasil, articulados ao campo das ciências sociais e aos seus estudos sobre o negro na sociedade brasileira. A partir de então, o suposto congraçamento racial na sociedade brasileira passou a ser definido cada vez menos pela expressão cunhada por Vasconcelos. Na configuração da mitologia racial sobre o Brasil, a ideia de raça cósmica foi progressivamente substituída pelo conceito de democracia racial.
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- VELLOSO, Monica Pimenta. Os intelectuais e a política cultural do Estado Novo. In: FERREIRA, Jorge; DELGADO, Lucilia de Almeida Neves (org.). O Brasil republicano: o tempo do nacional-estatismo: do início da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira , 2013. p. 145-180.
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WEINSTEIN, Barbara. Racializando as diferenças regionais: São Paulo x Brasil (1932).Esboços: histórias em contextos globais, Florianópolis, v. 13, n. 16, p. 281-303, 2006. Disponível em: Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/esbocos/article/view/133/177 Acesso em: 10 set. 2024.
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Os artigos de Urrutia foram consultados no Arquivo Histórico do Itamaraty, no Rio de Janeiro, no dossiê temático: 540. Assuntos Sociais. Código 540, lata 1263, maço 28484, Assunto: “Raça. Problemas e preconceitos de raça”, Ano 1932-1938. Os recortes do Diario de la Marina foram enviados ao Brasil pela Legação em Havana como informação sobre a repercussão dos congressos afro-brasileiros, entre outubro e novembro de 1937. A publicação de Richard Pattee em Opportunity: A Journal of Negro Life pode ser consultada em https://archive.org/details/sim_opportunity-a-journal-of-negro-life_1937-10_15_10/page/300/mode/2up.
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As conferências de Vasconcelos na Universidade de Porto Rico foram reunidas no livro Indología (1926). As que Vasconcelos realizou na Universidade de Chicago foram compiladas em uma publicação daquela universidade, intitulada Aspects of Mexican civilization. Em 2010, foram traduzidas para o espanhol e publicadas pela Editorial Almadía, no México. Nelas, Vasconcelos revisita o prólogo que escreveu para La raza cósmica (1925) ampliando suas reflexões sobre a mestiçagem, seu contraponto à ciência racial dos povos anglo-saxões e suas críticas ao imperialismo estadunidense. No entanto, nas conferências de Chicago, o discurso de Vasconcelos é menos duro em relação aos Estados Unidos, aos quais passa a atribuir um papel na construção da civilização definitiva (Yépez, 2010, p. 19-24).
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3
Sobre o movimento eugênico no Brasil e os debates sobre miscigenação racial, seleção imigratória e branqueamento da população no Primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia, em 1929, veja Souza (2022).
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Nas segunda e terceira páginas, o texto de Pattee divide espaço com as poesias de Marguerite Janvrin Adams “Conversation (In Youth)” e “Conversation (In Age)”.
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Com base na pesquisa no Acervo Histórico do Itamaraty, não foi possível saber se essas páginas foram incluídas na série de artigos de Urrutia.
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Esta pesquisa foi financiada pela FAPERJ - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, processo SEI-260003/014801/2021. A autora agradece aos pareceristas pelas observações que enriqueceram e permitiram deixar mais claro o argumento deste artigo.
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Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do texto.
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Editores responsáveis:
Fabrina Magalhães Pinto (https:// orcid.org/0000-0001-5088-9125), Karla Carloni (https://orcid.org/0000-0001-7586-3802) e Norberto Osvaldo Ferreras (https://orcid.org/0000-0003-3801-0418)
Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do texto.
