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Open-access Armas sob letras: o céu intelectual do mundo luso-brasileiro à luz do Discurso sobre a Revolta de Vila Rica

Weapons beneath words: the intellectual sky of the Luso-Brazilian world in light of the Discurso on the Vila Rica Revolt

Resenha de MONTEIRO, Rodrigo Bentes. . O códice endiabrado: da sublevação nas Minas em 1720. Niterói: EdUFF, 2023.

Resumo:

Nesta resenha pretendo demonstrar como o livro de Rodrigo Bentes Monteiro realiza nova interpretação do Discurso sobre a Revolta de Vila Rica em 1720, lançando hipóteses para a autoria, as leituras e as influências teológicas e poéticas presentes no códice.

Palavras-chave:
Conde de Assumar (1688-1756); Retórica; Jesuítas

Abstract:

In this review, I aim to show how Rodrigo Bentes Monteiro’s book offers a new interpretation of the Discourse on the Vila Rica Revolt of 1720, proposing hypotheses about the manuscript’s authorship, as well as the theological and poetic readings and influences present in the codex.

Keywords:
Conde de Assumar (1688-1756); Rethoric; Jesuits

benigno Sol deste hemisferio, e na altura, à que os tem elevado o seu ouro naō conhecem Rey, nem obedecem a ordem sua [...] abraze, gaste, e destrua tantas fezes: que lhe danam as suas Minas.

Discurso historico... (f. 160-161).

Como compreender a conexão entre um dos acontecimentos mais marcantes da história do Brasil e suas analogias poéticas? De que modo se poderia extrair o horizonte de poesia de um texto sobre um evento militar? Pode-se realizar a hermenêutica de um códice repleto de referências clássicas, mas de autoria incerta? Haveria uma maneira de adentrar nos intestinos das fezes do ouro, e nos infernos ocultos das ficções produzidas em Minas Gerais no século XVIII?

Em O códice endiabrado, Rodrigo Bentes Monteiro se propõe a responder a algumas dessas indagações. Com base no manuscrito anônimo Discurso historico, e político sobre a soblevação, que nas Minas houve no anno de 1720, o historiador realiza um grande inventário para recuperar o horizonte intelectual da América portuguesa de princípios do século XVIII. Trata-se de um dos mais importantes textos produzidos no Brasil colonial. De autoria misteriosa, esse livro trata da repressão do conde de Assumar contra a Revolta de Vila Rica, também frequentemente chamada de Revolta de Filipe dos Santos - ocorrida em 1720. Longe de descrevê-la segundo um “informe” ordinário, a pena por detrás deste códice endiabrado narra, justifica e poetiza o triunfo do então governador da capitania de São Paulo e Minas do Ouro por meio de centenas de referências eruditas, históricas e poéticas. Com uma abordagem de história intelectual e do livro, Rodrigo defende que a obra em questão é de belas-letras, produzida para fins particulares.

A proposta do livro é muito coerente com a formação de Rodrigo Bentes Monteiro. Professor titular de História Moderna na Universidade Federal Fluminense desde 2020, ele possui doutorado pela Universidade de São Paulo (USP). Em sua sólida trajetória acadêmica, escreveu O rei no espelho (2002), livro no qual, dentre outras coisas, examinou o vocabulário político em torno da revolta/aclamação do “rei paulista” Amador Bueno e do próprio Discurso de 1720, em versão impressa. Além disso, organizou obras nas quais produziu capítulos que se associam com a dita temática, como em Maquiavel no Brasil (Monteiro, 2015, p. 179-221) e Modernos em curso (Monteiro, 2022, p. 157-208) e publicou outros estudos (Almada, Monteiro, 2019; Monteiro, 2021) sobre o assunto como qual vem trabalhando de forma ativa há mais de 15 anos - incluindo um estágio pós-doutoral na Unicamp. Sendo uma versão de sua tese para professor titular, trata-se de um trabalho de fôlego de 483 páginas, dividido em cinco grandes capítulos. Editado pela EdUFF, e contando com um belo prefácio de Leila Mezan Algranti, o livro de Bentes Monteiro é uma potente investigação da cultura escrita no Brasil e no Portugal do Antigo Regime.

Desde o primeiro capítulo, cujo título é “Matéria infernal”, Rodrigo Bentes dá mostras da trajetória fantástica do(s) documento(s) em questão. O manuscrito do depois chamado “libello difamatorio” (Monteiro, 2023, p. 44) atravessaria grande parte da história luso-brasileira. O códice do Discurso historico… foi vendido, no final do século XIX, pela casa nobre portuguesa em decadência (dos Sousas Coutinho) a membros de uma comitiva do período republicano no Brasil, sob forte influência do barão do Rio Branco. Desde 1898, o livro então impresso foi fundamental para o desenvolvimento dos debates em torno de Filipe dos Santos como um possível herói nacional que antecedeu Tiradentes. Diversos autores abordaram o assunto, como Diogo de Vasconcelos, Gilberto Freyre e Cecília Meireles. Mas essa é a trajetória de apenas um dos documentos.

Outro, denominado Noticia da sublevação, que nas minas do ouro preto houve no anno de 1720, foi adquirido na Europa por Alberto de Moraes Lamego, uma figura ligada a Assis Chateaubriand, que acumulava uma grande biblioteca em seu solar em Campos dos Goytacazes, no estado do Rio de Janeiro. Ali, Lamego recebeu historiadores como Afonso d’Escragnolle Taunay. Foi Taunay quem sugeriu a Mário de Andrade que visitasse o bibliófilo fluminense e adquirisse a sua coleção para o estado de São Paulo, em 1935. Dali, o manuscrito da Noticia foi incorporado na coleção Lamego, pertencente à USP, desde 1968 no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP) e disponível ao público (Monteiro, 2023, p. 46-48). Décadas depois, Laura de Mello e Souza (1994) lançou uma edição crítica sobre a versão impressa do Discurso, mencionando também o manuscrito da Noticia. O estudo foi uma das bases para O sol e a sombra (Souza, 2006). Inserindo-se nesse percurso investigativo de grandes mestres, Bentes se debruçou sobre o manuscrito original do Discurso no Arquivo Público Mineiro, em Belo Horizonte, com colaborações técnicas. Após examinar os interstícios do “AVC-017”, ele apresenta uma das hipóteses centrais do livro: o manuscrito do Discurso historico… não foi produzido para ser público, mas destinado a um fim particular, enquanto o texto da Noticia voltava-se para um círculo de elite.

O segundo capítulo, “Memória fidalga”, foi construído em coerência com a hipótese apresentada anteriormente. Nele, o autor realiza uma investigação exaustiva em torno das principais figuras relacionadas à custódia do manuscrito. Confere particular destaque a Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos (1688-1756), que, a partir de 1718, recebeu o título de 3º conde de Assumar. Seu principal objetivo, aqui, consiste em demonstrar como os “Almeidas” se constituíram em Portugal, na Índia, na Catalunha ou nas Minas como uma casa nobre associada às armas, mas também às letras. Ao examinar os vínculos desses nobres com o conde de Ericeira, Barbosa Machado e os Sousas Coutinho, Rodrigo demonstra sua vasta experiência como historiador das monarquias ibéricas. Nesse vai e vem no tempo e no espaço, o autor se dedica também a recuperar a história da biblioteca da família. Esse extenso capítulo ajuda a entender não apenas como o manuscrito foi guardado, mas também a resgatar uma série de figuras associadas a essa casa nobre - como a conhecida poetisa Alcipe, Leonor de Almeida Portugal.

Esse esforço de reconstituição ampla também marca o capítulo 3, “Textura espelhada”. Aqui, o autor envereda pelas possíveis leituras do códice naquele início do século XVIII. Trata-se de uma tarefa árdua, tendo em vista que não há nenhuma evidência de leitores desse livro entre os seus contemporâneos. Para tanto, Bentes Monteiro parece proceder com uma espécie de “descrição densa” das inúmeras referências poéticas contidas no texto em si ou nas notas. Rodrigo faz algumas separações dessas leituras. Entre as figuras mitológicas gregas e personagens da história romana, ele destaca Salústio e Cícero. Entre os autores modernos, vai de Maquiavel a Botero, passa pelo jesuíta Nicolas Caussin e chega ao poeta Sá de Miranda. Percorre os escritos de filósofos e juristas modernos ibéricos citados, como Sebastião César de Meneses e Solórzano Pereira - cuja obra provavelmente inspirou o título do Discurso. Bentes Monteiro também reúne muitas comparações entre os espaços de Minas e os da história clássica (real ou imaginada), ligando mundos improváveis, como os núcleos urbanos mineiros rebeldes a cidades como Cartago e Florença, e a própria Revolta de Vila Rica às “Catilinárias” de Cícero, desde um estudo anterior (Monteiro, 2015, p. 179-221).

Rodrigo reúne frases antológicas do manuscrito, tais como: “hé propriedade, e virtude do ouro tornar inquietos e bulliciozos os animos dos que habitam as terras”, produzindo “gigantes, e poderosos, que atrevidos, rebeldes, e insolentes intentaram levantar-se contra o seu soberano” (Monteiro, 2023, p. 164-165). Tal declaração toca as raias do processo que Luciano Figueiredo (2015, p. 127) bem analisou nas revoltas de Minas, onde o mais importante princípio da monarquia começava a ser paulatinamente arranhado: a legitimidade e o respeito pelo soberano. O rei devia, assim, podar a árvore da desobediência “que aqui se acha tam crescida, que pretende fazer sombra à Soberania, e independencia do throno”, para que governadores e vassalos, “à custa do sangue de suas veas”, opusessem-se aos transgressores da sua lei (Monteiro, 2023, p. 197). Afinal, como no manuscrito se diria mais à frente, “el respeto alma dela sen’oria, es um cadaver, nó Principe, el que cae en desprecio” (Monteiro, 2023, p. 338). Tais argumentos foram levantados, entre outras razões, para justificar a pesada punição dirigida aos rebeldes que desafiaram o rei. Talvez isso explique, ao menos em parte, porque há mais referências às letras pagãs do que às cristãs (Monteiro, 2023, p. 230).

Em “Discursos vários”, tema do capítulo 4, Bentes Monteiro procurou comparar o contexto social, intelectual e as muitas escritas externas ao Discurso. No primeiro âmbito, mediante a análise de cartas do período, ele contextualiza como essa revolta foi reprimida arduamente, em virtude do receio de que o movimento se convertesse em um processo semelhante ao de Palmares e ao motim de Catas Altas, ocorrido alguns anos antes. Nessa altura, Rodrigo concede espaço às explicações da atitude de Assumar frente à repressão da revolta, desde o século XVIII, com Rocha Pita, que o elogia de maneira providencialista, até o contemporâneo Diogo Ramada Curto, que lê suas ações posteriores na Índia com base na “linguagem das virtudes” (Curto, 2009). No segundo âmbito, isto é, no contexto intelectual, Rodrigo deu especial destaque à ação dos jesuítas Antonio Correia e José Mascarenhas. Além de evidenciar a dimensão da casuística e do probabilismo moral, bem como a herança da mitologia greco-romana na retórica “cristianizada” de Nicolas Caussin (uma das autoridades modernas mais citadas no códice), o autor também recupera alguns aportes significativos de Antônio Vieira, Valentin Stancel e Antonio Maria Bonucci. Para isso, vale-se de atualizada e diversificada bibliografia. Ao recuperar importantes epístolas, Rodrigo conclui que o conde de Assumar buscava um refrigério nos livros eruditos para lidar com aqueles tempos conturbados, e que os doutos padres ligados ao colégio jesuítico do Rio de Janeiro, seus confessores, forneciam esse alívio (Monteiro, 2023, p. 279-322).

Rodrigo Bentes chega ao quinto e último capítulo, “A arte oculta”. Se esta é a mais erudita seção do seu livro, é também a mais ousada. Aqui, Bentes busca responder qual é a concepção de história existente no manuscrito, bem como as possíveis influências do misterioso e eloquente autor. As fronteiras entre história e retórica no universo do Antigo Regime ganham destaque, como aquelas ligadas ao 4º conde de Ericeira, a Virgilio Malvezzi e aos primórdios da Academia Real da História Portuguesa, criada no mesmo ano da Revolta de Vila Rica. Num segundo movimento, o autor inventaria o gênero e a filiação da obra em questão, comparando-a à sátira e à poesia comuns nas Minas e na Bahia (Hansen, 2004; Romeiro, 2018; Monteiro, 2019). Finalmente, também busca compreender o impacto e os limites da recepção das artes ocultas e de Lucrécio em certas imagens e analogias utilizadas. Essa leitura permite revelar as múltiplas fronteiras entre estética, ficção e facticidade.

Em uma conclusão sucinta e elegante, Rodrigo reforça as principais teses do livro: a central, qual seja, de que o Discurso foi, em origem, um livro destinado ao próprio conde de Assumar; e as secundárias, isto é, que ele foi produzido em Minas e no Rio de Janeiro, tendo recebido forte influência da cultura jesuítica, mas também do mundo pagão cristianizado, como se percebe no universo das letras daquele período e nos autores esquadrinhados. Tendo em vista os documentos e hipóteses anteriores, Rodrigo reserva para o final a tese de que o livro foi escrito por dois jesuítas ligados a Assumar, Antonio Correia e José Mascarenhas, embora não exclua a possibilidade de o próprio conde ter contribuído com algumas informações factuais (Monteiro, 2023, p. 407-415).

Apesar das grandes virtudes e dos avanços do livro, ele possui alguns limites. Além da extensão de alguns capítulos, e talvez do próprio livro, o título O códice endiabrado: da sublevação nas Minas em 1720 não condiz com os objetivos do trabalho. Além de praticamente não abordar o contexto social de Minas na altura - o que, por si só, não seria um problema -, o historiador poderia explicar melhor a dimensão demoníaca do manuscrito, sendo essa apenas uma das muitas alegorias presentes no texto. Nesse sentido, se o autor reconhece que o manuscrito aponta para uma realidade que vai além do próprio título, o mesmo pode ser dito sobre o seu próprio livro.

Nesse caso, entretanto, talvez a limitação se converta em virtude. O fato de o livro ultrapassar as expectativas criadas pelo título torna possível recuperar o contexto intelectual do século XVIII, da história do livro e as fronteiras entre poesia, retórica e história. Em outras palavras, esse trabalho não se limitou a investigar as linhas que oferecem respostas a questões fundamentais de O códice endiabrado, mas também usou o manuscrito como um valioso testemunho erudito de seu tempo. Desde a recepção da retórica ciceroniana no mundo português até os debates sobre razão de Estado e alquimia, Rodrigo realiza rigorosas análises da genealogia dos possíveis autores e examina a trajetória de um documento extraordinário. Dessa forma, ele escreve um livro que pode interessar tanto a especialistas no manuscrito e na revolta, quanto àqueles envolvidos na história intelectual do século XVII e princípios do século XVIII.

Referências

  • ALMADA, Márcia; MONTEIRO, Rodrigo Bentes. O Discurso e a Noticia: manuscritos sobre a revolta de 1720 atribuídos a Pedro Miguel de Almeida, 3o conde de Assumar. Tempo(Niterói), v. 25, n. 1, p. 1-25, 2019. Disponível em: Disponível em: https://www.scielo.br/j/tem/a/ktCSmffsbcddqgmWrmVCKXB/?format=pdf⟨=pt Acesso em: 8 maio 2025.
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  • CURTO, Diogo Ramada. Cultura imperial e projetos coloniais (séculos XV a XVIII) Campinas: Editora Unicamp, 2009.
  • FIGUEIREDO, Luciano. Pombal cordial: reformas, fiscalidade e distensão política no Brasil: 1750-1777. In: FALCON, Francisco; RODRIGUES, Cláudia(org.). A época pombalina no mundo luso-brasileiro Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015. p. 175-214.
  • HANSEN, João Adolfo. A sátira e o engenho: Gregório de Matos e a Bahia do século XVII São Paulo: Ateliê Editorial; Campinas: Editora Unicamp , [1989] 2004.
  • MONTEIRO, Rodrigo Bentes. O rei no espelho: a monarquia portuguesa e a colonização da América (1640-1720). São Paulo: Hucitec, 2002.
  • MONTEIRO, Rodrigo Bentes . Catilinária mineira: o discurso da revolta de 1720 em Vila Rica. In: MONTEIRO, Rodrigo Bentes ; BAGNO, Sandra(org.). Maquiavel no Brasil: dos descobrimentos ao século XXI Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015. p. 179-221.
  • MONTEIRO, Rodrigo Bentes . Discurso histórico, e político metamorfoseado. In: MEGIANI, Ana Paula Torres; MONTEIRO, Rodrigo Bentes (org.). Traços: da obra de Laura de Mello e Souza Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2021. p. 311-353.
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  • ROMEIRO, Adriana. Vila Rica em sátiras: produção e circulação de pasquins em Minas Gerais, 1732 Campinas: Editora Unicamp, 2018.
  • SOUZA, Laura de Mello e(org.). Discurso histórico e político sobre a sublevação que nas Minas houve no ano de 1720 Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, 1994.
  • SOUZA, Laura de Mello e. O sol e a sombra: política e administração na América portuguesa do século XVIII São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
  • Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do texto.
  • **
    Bolsista de pós-doutorado do Instituto de Investigações Históricas da Unam, sob a supervisão do doutor Jorge Traslosheros.

Disponibilidade de dados

Os dados de pesquisa estão disponíveis no corpo do texto.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Ago 2025
  • Data do Fascículo
    2025

Histórico

  • Corrigido
    02 Out 2025
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