Open-access COMPETÊNCIA CULTURAL PARA TRABALHAR COM MULHERES REFUGIADAS EM SITUAÇÃO DE VIOLÊNCIA: REFLEXÃO TEÓRICA PARA O CUIDADO

RESUMO

Objetivo:  refletir sobre a contribuição do uso, por profissionais da saúde, de um Quadro de Competência Cultural no cuidado a mulheres refugiadas em situação de violência.

Método:  estudo reflexivo, que considerou o modelo teórico do Quadro Conceitual de Competência Cultural de Balcazar e colaboradores, que foi desenvolvido para trabalhar com minorias étnicas com deficiência física. Sugerimos as possibilidades de incorporar esse modelo teórico na enfermagem e saúde a fim de desenvolver melhores cuidados que respeitem e apoiem as mulheres refugiadas em situações de violência.

Resultados:  sobre o modelo existente, entende-se que, para trabalhar com mulheres refugiadas em situação de violência, o construto da Consciência Cultural precisa estar justaposto ao desejo de engajar-se pelo profissional, para dar início ao processo de tornar-se culturalmente competente. Reflete-se sobre a necessária adequação dos Modelos de Atenção em saúde vigentes, e tecem-se dimensões que se entende serem necessárias para um Cuidar com Competência Cultural, que componham as dimensões do Cuidado Universal e Equitativo, Cuidado Cultural, Cuidado Contextual e Cuidado Único entre o profissional e o paciente.

Conclusão:  a competência cultural, quando compreendida na sua totalidade ou alcançada, pode ser chamada de Inteligência Cultural, visto que o pensar e o agir culturalmente estarão alinhados. Estas reflexões contribuem teoricamente ao modelo de Competência Cultural já existente, e para futuros pesquisadores, que buscam evidências de procedimentos e práticas culturalmente competentes para trabalhar com mulheres em situação de refúgio e violência entrecruzados, demonstrando compreensão e respeito à diversidade populacional.

DESCRITORES:
Competência cultural; Migração; Prática profissional; Refúgio; Violência contra a mulher; Enfermagem; Assistência à saúde culturalmente competente

ABSTRACT

Objective:  to reflect on the contribution of using a Cultural Competence Framework by health professionals in providing care for refugee women in situations of violence.

Method:  a reflective study which considered the theoretical model of the Conceptual Framework of Cultural Competence by Balcazar et al., which was developed to work with ethnic minorities with physical disabilities. We suggest the possibilities of incorporating this theoretical model into nursing and health in order to develop better care that respects and supports refugee women in situations of violence.

Results:  regarding the existing model, it is understood that the construct of Cultural Awareness needs to be juxtaposed with the desire to engage by the professional to begin the process of becoming culturally competent in order to work with refugee women in situations of violence. The article reflects on the necessary adaptation of current healthcare models, and discusses dimensions that are considered necessary for Culturally Competent Care. These dimensions consist of Universal and Equitable Care, Cultural Care, Contextual Care and Single Care between the professional and the patient.

Conclusion:  when cultural competence is understood in its entirety or achieved, it can be called Cultural Intelligence, since cultural thinking and acting will be aligned. These reflections theoretically contribute to the existing Cultural Competence model, and to future researchers who seek evidence of culturally competent procedures and practices to work with women in situations of refuge and violence, demonstrating understanding and respect for population diversity.

Descriptors:
Cultural competence; Migration; Professional practice; Refuge; Violence against women; Nursing; Culturally competent healthcare

RESUMEN

Objetivo:  reflexionar sobre la contribución del uso, por parte de los profesionales de la salud, de un Marco de Competencias Culturales en la atención a mujeres refugiadas en situación de violencia.

Método:  estudio reflexivo, que consideró el modelo teórico del Marco Conceptual de Competencia Cultural de Balcazar y colaboradores, el cual fue desarrollado para trabajar con minorías étnicas con discapacidad física. Sugerimos las posibilidades de incorporar este modelo teórico a la enfermería y la salud para desarrollar una mejor atención que respete y apoye a las mujeres refugiadas en situaciones de violencia.

Resultados:  respecto al modelo existente, se entiende que, para trabajar con mujeres refugiadas en situación de violencia, el constructo de Conciencia Cultural necesita yuxtaponerse con el deseo del profesional de involucrarse, de iniciar el proceso de volverse culturalmente competente. Se reflexiona sobre la necesaria adecuación de los Modelos de Atención en Salud actuales, y se crean dimensiones que se entienden necesarias para el Cuidado con Competencia Cultural, que conforman las dimensiones de Cuidado Universal y Equitativo, Cuidado Cultural, Cuidado Contextual y Cuidado Único entre los profesionales. y el paciente.

Conclusión:   la competencia cultural, cuando se entiende en su totalidad o se logra, puede denominarse Inteligencia Cultural, ya que pensar y actuar culturalmente estarán alineados. Estas reflexiones contribuyen teóricamente al modelo de Competencia Cultural existente, y para futuros investigadores, que busquen evidencia de procedimientos y prácticas culturalmente competentes para trabajar con mujeres en situaciones de refugio y violencia entrelazadas, demostrando comprensión y respeto por la diversidad poblacional.

DESCRIPTORES:
Competencia cultural; Migración; Práctica profesional; Refugio; Violencia contra las mujeres; Enfermería; Atención sanitaria culturalmente competente

INTRODUÇÃO

Os profissionais da saúde, incluindo-se a enfermagem, têm a possibilidade de assistir indivíduos de diversas origens étnicas e culturais na sua prática diária. No entanto, há um fenômeno mundial relacionado ao crescente aumento do fluxo migratório em que pessoas se deslocam à força devido à violência gerada por conflitos e violação dos direitos humanos1. Por isso, os refugiados demandam para os serviços de saúde necessidades decorrentes da vivência de violências2-3.

Tais violências perpassam um processo histórico enraizado nas forças estruturais e sistemas interligados de opressão, que são indicados como determinantes da violência4, o que está convergente com o referencial da violência interseccional5. Nesta perspectiva, as estruturas, o funcionamento das sociedades e dos determinantes sociais geram violências, opressões, desigualdades e vulnerabilidades nas pessoas6, com destaque nesta reflexão para as mulheres.

Nesse lastro, uma mulher refugiada é uma pessoa que se viu compelida a deslocar-se devido à crise das condições estruturais, econômicas e/ou ambientais, ou à situação política de seu país de origem, além das violências relacionadas ao gênero. Toda mulher refugiada carrega uma experiência de violência que precisa ser considerada quando se pensa na atenção à sua saúde7,2.

Na assistência às mulheres refugiadas, há problemas relacionados à visão do profissional de saúde que presta o cuidado. Entre eles, a escassez de informação sobre as características culturais e a tendência de uma visão etnocêntrica da saúde. Isso poderá implicar no agir dessas mulheres refugiadas, que muitas vezes sentem- se inibidas para a busca por apoio, permanecendo na invisibilidade e no isolamento, ou até mesmo sendo discriminadas dentro de ambientes de saúde8.

Cabe destacar que essas mulheres apresentam complicações e agravamentos de saúde que demandam um cuidado efetivo e condizente com suas necessidades culturais, uma vez que tais necessidades podem não ser contempladas nas práticas assistenciais a que são submetidas nos países de asilo, gerando desconfortos e/ou desrespeito9. As normas culturais dos seus países de origem, fatores culturais e societais, associados aos papéis sociais de gênero, aos costumes, à língua e aos padrões de comunicação são fatores que podem limitar o acesso dessa população aos serviços de saúde10-11. Então, será necessário que o profissional da saúde considere em sua prática este contexto e credite a sua devida importância ao implementar o cuidado de saúde.

Preconceitos e estereótipos também são elementos frequentemente presentes, e os profissionais de saúde não são menos suscetíveis a preconceitos do que os outros prestadores de serviços12. Isso vai ao encontro da violência interseccional, em que a atitude discriminatória com base na raça ou etnia ocorre em contexto estrutural. Embora o efeito dos preconceitos sobre os cuidados prestados aos pacientes possa não ser imediatamente aparente, há evidências suficientes para concluir que o impacto negativo dos preconceitos explícitos e implícitos nas populações marginalizadas nos cuidados de saúde merece atenção especial e intervenções urgentes13. Assim, pensar em um modelo assistencial às mulheres refugiadas em situação de violência pautado na competência cultural requer, primeiramente, a quebra de (pré)conceitos internos dos profissionais de saúde que as atendem.

Destarte, observa-se a premente necessidade de os profissionais da saúde desenvolverem Competência Cultural desde sua formação, que está ancorada no paradigma holístico, que considera todas as dimensões da pessoa biológica, cultural, social e espiritual, família e comunidade14. O modelo assistencial e a atenção à saúde pautados na Competência Cultural poderão fortalecer o Sistema Único de Saúde, que atende às necessidades dos refugiados e migrantes. É preciso superar o modelo de assistência predominante, marcado pela concepção hospitalocêntrica e individualizante11.

O conceito de Competência Cultural deve ser compreendido como um processo contínuo, em que o profissional de saúde se esforça para desenvolver a capacidade de trabalhar considerando respeitosamente o contexto cultural do paciente15. Isso ocorre quando o profissional compreende, aprecia, reconhece e respeita as diferenças nas crenças e comportamentos de saúde que ocorrem dentro dos grupos culturais e é capaz de intervir adequando suas ações para pessoas de várias etnias16. Também acreditamos que ao trabalhar com populações multiculturais, em que há comportamentos padronizados nas diferentes culturas, a singularidade e individualidade precisam ser o centro do cuidado, pois não existe uma universalidade identitária, que muitas vezes é imposta a grupos específicos5,17 - como os refugiados.

Frente ao exposto, as reflexões direcionam-se para contribuições teóricas ao modelo de competência cultural, para que profissionais da saúde, entre eles da enfermagem, incorporem-no à sua prática de cuidado.

ONDE ESTAMOS: QUADRO CONCEITUAL DE COMPETÊNCIA CULTURAL

O modelo teórico que permeia este estudo é o Quadro Conceitual de Competência Cultural desenvolvido e validado por Balcazar e colaboradores18-19, a partir de estudos com minorias étnicas com deficiência (Figura 1). A competência cultural é então apresentada como um conjunto de construtos, consensualmente agregados em três dimensões: cognitiva, em que se consideram as atitudes, crenças e o conhecimento cultural; a comportamental, em que é relevante o desenvolvimento da prática de modo competente; e a de suporte organizacional19.

Figura 1 -
Modelo Conceitual de Competência Cultural.

A Consciência cultural diz respeito à compreensão e opinião acerca da cultura, reconhecimento de seus preconceitos em relação a outras culturas; o Conhecimento cultural diz respeito à proximidade que o profissional desenvolve com as histórias de outras culturas, bem como com características, valores, crenças e comportamentos; a Competência corresponde às habilidades e aptidões necessárias para ajustar a prática assistencial de forma a atender às necessidades das populações multiculturais; e o Apoio organizacional remete à necessidade de promoção da capacidade dos profissionais para intervir de forma culturalmente adequada ancorados na implementação de práticas individuais e organizacionais.

Nesta proposta18, a prática laboral começa com o desejo pessoal de engajar outras culturas, viabilizando o conhecimento de diferentes culturas, a compreensão crítica de preconceitos pessoais e o desenvolvimento de habilidades. Isso permitiria incluir efetivamente pessoas de diversas culturas e aumentar o grau de apoio organizacional para o envolvimento em práticas culturalmente competentes18-19. No modelo, após o processo iniciado pelo desejo de engajamento, o profissional percorre os construtos de forma cíclica, devendo este ser um movimento contínuo e interativo em sua experiência, como uma jornada por toda a vida.

PARA ONDE VAMOS: DA COMPETÊNCIA CULTURAL AO TRABALHO COM INTELIGÊNCIA CULTURAL

Nossa reflexão quanto ao modelo conceitual é sobre a possibilidade de confrontar o ponto inicial do processo, como o de engajamento, quando aplicado aos profissionais que prestam assistência a mulheres refugiadas que vivenciam situações de violências. Entrecruzada com os elementos da cultura, há também toda a carga cultural e de conhecimento que envolve as questões da violência. Há crenças e visões de mundo dos profissionais acerca desses dois elementos, que são, frequentemente, limitantes para atender às necessidades dessa população20,21. Deste modo, tendo em vista a contribuição teórica deste ensaio, apresentamos um redesenho do modelo de competência cultural (Figura 2), que emergiu de reflexões ancoradas nos resultados do estudo inicial.

Figura - 2
Redesenho do Modelo de Competência Cultural.

Assim, consideramos que o construto da Consciência Cultural precisa estar justaposto ao desejo de engajar, para dar início ao processo de tornar-se culturalmente competente. Sem uma compreensão crítica e uma consciência de que existem outras culturas além de sua própria, de que marcadores sociais - como a cultura - edificam posições privilegiadas na sociedade, incluindo diferenças de classe e experiências de opressão e violência, e sem uma reflexão crítica dos nossos pré-conceitos em relação às pessoas que estão em contextos diferentes do nosso, a probabilidade de engajar-se na competência cultural será muito baixa.

O desenvolvimento de uma consciência cultural reflexiva permite, portanto, que o profissional desperte para o engajamento do cuidado dentro de um quadro cultural, perpassando os outros três construtos. Quando isso ocorre, entendemos que esse profissional tem condições de desempenhar um cuidado pautado em um raciocínio cultural dinâmico, ou para além disso, com uma Inteligência Cultural, visto que o pensar e o agir culturalmente estarão alinhados. E consequentemente, a inteligência cultural viabilizará o desenvolvimento de um raciocínio social para trabalhar com populações multiculturais e multiétnicas.

No decurso do atendimento às pessoas, a enfermagem - e demais áreas da saúde - centram-se no cuidado pautado em um raciocínio clínico, sendo a capacidade de desenvolver um raciocínio social geralmente negligenciada. Assim, independentemente do contexto de atuação, o profissional precisa ponderar: Quem é a população sob meus cuidados? Quais os aspectos culturais, contextuais e os marcadores sociais entrecruzados que envolvem o seu cuidado? A capacidade de exercer um raciocínio social é uma habilidade que precisa ser praticada e aplicada, e precisa perpassar o entendimento amplo dos marcadores sociais de diferenças22-23 que se entrecruzam potencializando situações já agravadas, principalmente quando há marcadores sociais interseccionados causadores de identidades estereotipadas - como acontece com as mulheres refugiadas17.

Na esteira dos marcadores sociais, é importante clarificar que estes são componentes determinantes em nossa sociedade que, de certa forma, sustentam preconceitos, estigmas e comportamentos discriminatórios nas relações sociais, tanto na esfera pública como na privada22-23. A violência contra as mulheres em situação de refúgio e as disparidades na saúde não podem ser totalmente compreendidas sem examinar como se cruzam com marcadores sociais de diferenças. Concordamos que marcadores de diferença geram opressão e são socialmente construídos, estando relacionados às questões de gênero e da cultura, além da raça, etnia, nacionalidade e o status socioeconômico. Deste modo, examinar uma questão sem considerar padrões de opressão resulta em uma análise incompleta.

A consciência dá início, portanto, à competência cultural, pois não basta nos apropriarmos dos conceitos de competência cultural somente ao nível teórico e discursivo. Quando aplicado no campo da saúde e da enfermagem, é imprescindível que este construto integre e operacionalize a ação de cuidado às pessoas, de uma forma crítica e consciente, o que implica compreender a essência humana e o significado de cuidar de si e do outro, para prosseguir sob a conduta mais apropriada24.

Nesse lastro, a relevância deste redesenho do modelo de competência cultural voltado para profissionais que trabalham com mulheres refugiadas reside no fato de que apreciar e compreender uma cultura envolve, primeiramente, a análise dos seus próprios preconceitos em relação ao Outro25, o reconhecimento da alteridade presente em cada sujeito e o reconhecimento de que existem posições privilegiadas na sociedade, e que a cultura, como marcador social, interseccionada com outros marcadores, possui ação determinante na sociedade sobre seu posicionamento no mapa social26.

Nesse sentido, a presença da consciência cultural também reflete, entre outros, na construção da empatia pelo Outro25 e no seu acolhimento. O cuidado deve residir no respeito e consideração ao paciente, na esfera do sujeito-cidadão27 e respeitando-se sua existência e alteridade. Deste modo, o cuidado precisa ser individualizado, afetuoso e humanizado, independentemente de nos reconhecermos no outro, sob o risco de se cometer injustiças e desassistência. Assim, a empatia se constrói pelo desejo genuíno de cuidar e acolher, a partir do reconhecimento de que o Outro carrega em si a singular necessidade de saúde, que é legítima. E, portanto, compreendemos que a consciência cultural tem o potencial de capilarizar construções de empatia e de acolhimento.

O QUE QUEREMOS: CUIDAR COM COMPETÊNCIA CULTURAL

O Cuidar é essencial para a vida, o bem-estar e a dignidade no enfrentamento às violências. Em uma linha tênue, discute-se que a cultura é a base essencial no cuidado e nos encontros de cuidado. Os quatro construtos da competência cultural permitem que o profissional de saúde desenvolva a capacidade de prestar um Cuidado Cultural, o qual é entendido como o “cuidar numa determinada cultura”, e deve ser dinâmico, mesmo que existam características comuns.

Reflete-se que o cuidado cultural seja variável com o tempo (ou seja, modifica-se nas gerações e mudanças no encontro com outras culturas), sofrendo processos de aculturação. Circunstâncias externas, como educação e economia, também podem influenciar o cuidado. Portanto, é importante que os profissionais da saúde, entres eles os da enfermagem, sejam cautelosos ao aplicar teorias de cuidado, evitando generalizações culturais, e considerando as necessidades e circunstâncias individuais de cada paciente. Os cuidados variam em diferentes culturas e contextos. Existem diferentes tradições e práticas de cuidado esperadas na assistência ou atenção à saúde das mulheres em situação de violência, em diferentes culturas.

Quando o profissional de saúde respeita a mulher e tem algum conhecimento da sua cultura, ela ousa fazer perguntas sensíveis e difíceis. Quando o interesse real é demonstrado, juntamente com o conhecimento especializado e a empatia, confiança e vínculo são formados e aumentam as chances de a mulher contar sobre sua real vivência e necessidades28. Frente a isso, principalmente considerando como a Inteligência Cultural é fundamental para elaborar um modelo de atendimento em saúde, teceu-se uma abordagem de Cuidado Cultural para mulheres refugiadas em situação de violência, com a finalidade de viabilizar orientações e reflexões para um modelo de cuidado com competência cultural. O cuidado intercultural não ocorre automaticamente na relação entre profissional e paciente, ele necessita de conhecimento e planejamento prévio.

Portanto, para a necessária adequação dos Modelos de Atenção em saúde vigentes - que correspondem à forma pela qual a instituição e os profissionais se organizam e consideram a assistência em si, à maneira como ocorrem os encontros de cuidado e à tecnologia oferecida para esse setor - tecem-se reflexões de que um modelo de atendimento que contemple um Quadro Cultural precisa abranger algumas dimensões de cuidado. Assim, este estudo apresenta quatro dimensões que se entende serem necessárias para um cuidado que respeite e seja orientado por um quadro cultural, que componha as dimensões do Cuidado Universal e Equitativo, do Cuidado Cultural, do Cuidado Contextual e do Cuidado Único entre o profissional e o paciente.

O cuidado universal independe de tempo e lugar, e contempla a dignidade, respeito e segurança cultural. Deve centrar-se na abordagem dos direitos humanos em que a dignidade do ser humano seja respeitada independentemente da origem, pois o país do nascimento - que se trata de um ato involuntário da pessoa - não pode ser determinante para a garantia da assistência à sua saúde, ou o acesso a qualquer um dos seus direitos humanos. Na verdade, não pode haver qualquer determinante; o acesso deve ser pleno e absoluto. Do mesmo modo, o cuidado equitativo deve orientar o cuidado, levando em consideração as particularidades e necessidades individuais de cada mulher, mesmo que pertencentes ao mesmo grupo étnico. É importante que o profissional compreenda a distinção de uma abordagem de “cuidados equitativos” e de “cuidados iguais”, priorizando equidade ao invés de igualdade com populações multiculturais.

O cuidado cultural significa que são considerados o capital cultural, fatores culturais e outros fatores de base (isto é, sociais, econômicos, educacionais, etc.), o desejo pessoal da mulher de aculturar-se ou não, e o acesso aos cuidados e à rede de enfrentamento às violências. Na perspectiva do profissional, significa que é desempenhado um cuidado com Inteligência Cultural e gerenciamento do seu próprio contexto cultural para que não influencie no cuidado dispendido, desenvolvendo habilidades para trabalhar com populações multiculturais, igualdade de gênero e aculturação, e modificação no padrão de cuidado à mulher em situação de violência, adaptando os cuidados de saúde e a cultura de cuidado de acordo com as necessidades da mulher.

O cuidado contextual significa reconhecer os contextos em que essa mulher está inserida, e traçar análises para avaliar se esse contexto se comporta como rede de apoio ou como contexto de violências. Ainda, na perspectiva do profissional, são necessárias mudanças no processo de trabalho e nos espaços de encontro de cuidados, para que sejam acolhedores e ofereçam privacidade.

O cuidado único significa que a comunicação funciona, a mulher é respeitada e as suas necessidades são satisfeitas, e então a confiança pode ser construída. A perspectiva de cuidado único é destacada em atividades de cuidado, como ouvir a história da mulher, ser flexível, empático, estar disposto a compreender a situação de vida e ajudá-la, não ser crítico, resolver conflitos, mantendo a continuidade e o relacionamento.

Inferem-se reflexões de que, se essas quatro dimensões forem consideradas, tem-se a possibilidade de promoção da saúde e do bem-estar, o sofrimento pode ser aliviado, e redes de enfrentamento às violências podem ser alcançadas, mesmo que seja uma jornada lenta por meio do trabalho e do vínculo estabelecido. Poderá haver menos mal-entendidos e conflitos, menos experiências negativas e a relação de cuidado será mantida, mesmo que o profissional não concorde com a mulher em todas as questões.

Os conflitos éticos do profissional em relação à cultura do paciente precisam ser gerenciados e discutidos em equipes multidisciplinares para chegar a uma resolução e não deixar a mulher desassistida. O choque cultural e a sensibilização pelas histórias de vida relatadas pelas mulheres não podem ser fatores impeditivos para exercer o cuidado a elas. Se isso for muito difícil para o profissional, um trabalho multidisciplinar é muito valorizado. Assim, reafirma-se o compromisso ético do profissional de saúde de trabalhar independentemente do choque cultural e circunstâncias externas.

Mencionam-se ainda três contextos de circunstâncias externas que podem influenciar a prática do cuidado pelo profissional. Assim, o cuidado é influenciado pela sociedade em geral, pela comunidade étnica da mulher e pelo entorno imediato da mulher. No contexto da sociedade, destacam-se as circunstâncias políticas e econômicas, os atos, decretos e recomendações que afetam a capacidade de cuidá-la. Podem existir, por exemplo, atos e decisões políticas (locais ou nacionais) que dificultem a assistência às mulheres refugiadas.

No contexto comunitário, pode haver figuras étnicas como líderes comunitários e religiosos ou conselheiros influenciando a mulher e sua família acerca das questões de violência. A comunidade étnica tem papel fundamental na decisão de iniciar a Rota Crítica29 e romper ciclos de violência. O estigma e o ostracismo, que muitas comunidades impõem às mulheres quando estas decidem denunciar violências, ainda é um grande obstáculo no cuidado a elas. No contexto do entorno da mulher, os familiares são elementos-chave, tanto a sua própria família como a de seu marido/companheiro, que muitas vezes também são agentes perpetradores de violências.

Na experiência de cuidar expressa-se a relação entre profissional da saúde e mulher, sendo que nos encontros de cuidado interculturais, os conflitos e experiências negativas podem levar a mudanças na cultura dos cuidados, em que a mulher é cuidada, ou no cuidado único que a mulher recebe, quando o profissional compreende o significado de cuidar ou a situação de vida da mulher. Também pode acontecer de a mulher passar a confiar no profissional e mudar sua atitude em relação à ele nos encontros de cuidado. Reflete-se, por fim, que a competência cultural provém de um continuum de vivências pessoais, conhecimentos aprofundados e habilidades profissionais adquiridas. O profissional desenvolve a inteligência cultural permanentemente na prática e na reflexão sobre essa prática.

CONCLUSÃO

Os quatro construtos do modelo conceitual formam um conjunto necessário para alcançar a competência cultural; logo, são indissociáveis e complementares. Assim, a competência cultural quando compreendida na sua totalidade (no que diz respeito aos quatro construtos interligados) e alcançada, pode ser chamada de Inteligência Cultural, visto que o pensar e o agir culturalmente estarão alinhados. Nesse lastro, a inteligência cultural refere-se ao alcance dos profissionais em tornarem-se culturalmente competentes para promover um Cuidado Cultural pautado em um raciocínio e compreensão social.

Desenvolver uma inteligência cultural na prática laboral da saúde e da enfermagem permite orientar condutas profissionais e auxiliar no desenvolvimento de estratégias de cuidado compatíveis com as visões de mundo das pessoas que recebem a assistência, o que implica no compromisso ético do profissional de saúde em desenvolver o cuidado independente da cultura da pessoa ou de circunstâncias externas.

Assim, é necessário reconhecer que respeitar a cultura durante o cuidado poderá ser uma questão complexa e desafiadora, pois se esta cultura for permeada por violência, machismo, sexismo, poder-se-á considerar que há violação de direitos humanos, e aí teremos conflitos conceituais. É nesse sentido que este ensaio contribui para a saúde, pois a inteligência cultural deverá permear o cuidado a populações multiculturais, e as habilidades para trabalhar com um raciocínio social e uma inteligência cultural precisam ser objetivos profissionais permanentes de qualificação e aprimoramento de competências práticas.

Os modelos de atendimento assistencial, e as atitudes e o comportamento do profissional de saúde são uma área-alvo importante para pesquisadores. Nesta esteira do pensamento, a implementação deste referencial precisa ser testada e avaliada, a fim de avançar a fronteira do conhecimento e, também, erradicar os cuidados de saúde injustos. Isso incide na contribuição para a sociedade, uma vez que o redesenho da Competência Cultural pode ser base para orientar processos de cuidados à saúde das pessoas, promover o despertar da consciência cultural e o engajamento dos profissionais da saúde a uma postura profissional e pessoal de cuidados culturalmente competentes, como uma jornada por toda a vida.

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NOTAS

  • ORIGEM DO ARTIGO
    Extraído da tese - Experiências de competência cultural de profissionais de saúde na atenção às mulheres refugiadas em situação de violência: Revisão Sistemática Qualitativa, apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, da Universidade Federal de Santa Maria, Brasil, em 2023.

Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Jaime Alonso Caravaca-Morera, Maria Lígia Bellaguarda.
    Editor-chefe: Elisiane Lorenzini.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    11 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    16 Jan 2024
  • Aceito
    31 Jul 2024
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