RESUMO
Objetivo: comparar a pressão da interface nos indivíduos sentados em seis diferentes almofadas para cadeira de rodas.
Método: estudo clínico de fase I, realizado com 37 participantes em julho de 2024 no Laboratório de Tecnologia e Inovação, totalizando 222 avaliações. As almofadas foram alocadas para um grupo controle (A - células de ar) e cinco grupos intervenção (B e C - espuma de poliuretano; D, E e F - polietileno C-CORE). A variável independente foi o tipo de almofada, e a dependente, a pressão de interface. As variáveis de controle foram idade, sexo, altura, peso e circunferência do quadril, utilizando análise de covariância.
Resultados: a média de idade foi de 27,38 anos (±DP 10,39); 56,8 % eram homens, média de peso 72,6 kg (±DP 20); média da altura 1,70 m (±DP 0,11); média da circunferência do quadril 101,1 cm (±DP 12,6). A média de pressão variou de 3.735,1 mmHg a 5.380,8 mmHg. Comparações múltiplas entre os grupos revelaram que a almofada do grupo A (controle) apresentou valores significativamente menores de pressão em comparação às almofadas dos grupos intervenção (p < 0,001). Dentre as almofadas de polietileno C-CORE, a do Grupo D apresentou menor pressão de interface (p<0,05).
Conclusão: o uso da almofada de células de ar teve menor pressão de interface, seguida de uma das almofadas de espuma e uma de polietileno C-CORE, nova tecnologia. Houve diferença na pressão entre as três almofadas de polietileno C-CORE. Estudo foi registrado no Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos, sob número RBR-9vsvKn5.
DESCRITORES:
Projetos de desenvolvimento tecnológico e inovação; Pressão; Cadeiras de rodas; Lesão por pressão; Tecnologia de cuidados de saúde; Pesquisa em enfermagem clínica; Enfermagem
ABSTRACT
Objective: to compare the interface pressure in individuals sitting on six different wheelchair cushions.
Method: phase I clinical study, carried out with 37 participants in July 2024 at the Technology and Innovation Laboratory, totaling 222 evaluations. The cushions were allocated to a control group (A - air cells) and five intervention groups (B and C - polyurethane foam; D, E and F -C-CORE polyethylene). The independent variable was the type of cushion, and the dependent variable was the interface pressure. The control variables were age, sex, height, weight and hip circumference, using analysis of covariance.
Results: the mean age was 27.38 years (±SD 10.39); 56.8 % were men, mean weight 72.6 kg (160 lbs) (±SD 20); mean height 1.70 m (5.6 ft) (±SD 0.11); mean hip circumference 101.1 cm (±SD 12.6). The average pressure ranged from 3,735.1 mmHg to 5,380.8 mmHg. Multiple comparisons among groups revealed that the cushion in group A (control) presented significantly lower pressure values compared to the cushions in the intervention groups (p < 0.001). Among the C-CORE polyethylene cushions, Group D presented the lowest interface pressure (p<0.05).
Conclusion: the use of the air cell cushion had the lowest interface pressure, followed by one of the foam cushions and one of C-CORE polyethylene, new technology. There was a difference in pressure between the three C-CORE polyethylene cushions. The study was registered in the Brazilian Clinical Trials Registry, with number RBR-9vsvKn5.
DESCRIPTORS:
Technological development and innovation projects; Pressure; Wheelchairs; Pressure ulcer; Biomedical technology; Clinical nursing research; Nursing
RESUMEN
Objetivo: comparar la presión de la interfaz en personas sentadas en seis cojines de sillas de ruedas diferentes.
Método: estudio clínico de fase I, realizado con 37 participantes en julio de 2024 en el Laboratorio de Tecnología e Innovación, totalizando 222 evaluaciones. Los cojines se asignaron a un grupo de control (A - celdas de aire) y cinco grupos de intervención (B y C - espuma de poliuretano; D, E y F - polietileno C-CORE). La variable independiente fue el tipo de cojín y la variable dependiente fue la presión de la interfaz. Las variables de control fueron edad, sexo, altura, peso y circunferencia de cadera, mediante análisis de covarianza.
Resultados: la edad media fue de 27,38 años (±DE 10,39); el 56,8 % eran hombres, peso medio 72,6 kg (±DE 20); altura media 1,70 m (±DE 0,11); circunferencia de cadera media 101,1 cm (±DE 12,6). La presión media osciló entre 3.735,1 mmHg y 5.380,8 mmHg. Múltiples comparaciones entre grupos revelaron que el cojín del grupo A (control) presentó valores de presión significativamente más bajos en comparación con los cojines de los grupos de intervención (p < 0,001). Entre los cojines de polietileno C-CORE, el Grupo D presentó la presión de interfaz más baja (p<0,05).
Conclusión: el uso del cojín de celda de aire tuvo la presión de interfaz más baja, seguido por uno de los cojines de espuma y uno de polietileno C-CORE, nueva tecnología. Hubo una diferencia de presión entre los tres cojines de polietileno C-CORE. El estudio fue registrado en el Registro Brasileño de Ensayos Clínicos, con el número RBR-9vsvKn5.
DESCRIPTORES:
Proyectos de desarrollo tecnológico e innovación; Presión; Sillas de ruedas; Úlcera por presión; Tecnología biomédica; Investigación en enfermería clínica; Enfermería
INTRODUÇÃO
Usuários de cadeira de rodas têm risco maior de desenvolver lesão por pressão, pois ficam confinados a uma postura sentada por um período prolongado. A prevenção demanda descarga com suspensão do próprio corpo ou interações constantes com o cuidador. Quando não há assistência para que o indivíduo se mova na cadeira, o corpo desenvolverá lesão devido à pressão e ao peso constantes sobre os tecidos moles (pele, tecido subcutâneo e músculo)1.
A frequência das transferências de peso para os usuários de cadeira de rodas é crítica para perfusão do tecido, e deve ser realizada a cada 15-30 minutos. Isso exige monitoramento constante pelo usuário e pelo profissional de saúde2. Os usuários de cadeira de rodas devem receber e utilizar almofadas especializadas para posicionamento e proteção da pele. Embora as almofadas forneçam alguma redistribuição de pressão, a estratégia de mitigação da transferência de peso é necessária para descarregar pressão adicional de áreas de alto risco3.
A almofada para cadeira de rodas é geralmente usada para gerenciamento da pressão criada quando os indivíduos com comprometimento da mobilidade ou sensibilidade permanecem sentados2. Em ambientes com menos recursos, 80 % das pessoas com trauma na medula espinhal morrem de complicações de lesões por pressão (LP) em dois anos. Portanto, a almofada para cadeira de rodas atua como um complemento ao tecido mole da nádega para reduzir a alta pressão focal sob as proeminências ósseas e distribuir a pressão uniformemente por toda a área de contato4. As almofadas adequadamente indicadas são eficazes na redução da incidência e gravidade das lesões por pressão5.
As almofadas podem ser categorizadas como de espuma, de gel e de ar, de acordo com o material de enchimento. As almofadas para cadeira de rodas preenchidas com o mesmo tipo de material podem variar amplamente em design, como almofada de espuma com design plano ou de contorno ou segmentado, almofada de ar com célula de ar segmentada ou membrana de ar individual4.
A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias (CONITEC) do Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro estabeleceu a incorporação das almofadas de assento com células de ar para prevenção de lesões por pressão. Ocorreu a inserção das almofadas com células de ar interconectadas na Tabela de Procedimentos, Órteses, Próteses e Medicamentos do SUS, com o objetivo de prevenir lesões por pressão6.
Estudos compararam diferentes almofadas para cadeira de rodas em termos de efeito de redução da pressão da interface. No entanto, alguns relataram melhor efeito da almofada de ar comparada às outras almofadas; outros relataram melhor efeito da almofada de espuma comparada à almofada de gel7-8. As inconsistências entre os estudos limitam os profissionais de saúde na implementação de práticas clínicas baseadas em evidências.
O desenvolvimento de novas almofadas para cadeira de rodas se tornou um desafio para os fabricantes nos últimos anos. Em particular, as propriedades de redução da pressão de interface, o controle do microclima e os efeitos no conforto do usuário são fatores importantes na avaliação de um novo produto. Em 2022, iniciou-se no Brasil a produção da tecnologia C-CORE, desenvolvida a partir de filamentos de polietileno de cadeia longa, que conferem ao material alta flexibilidade e resistência. Essa inovação resultou no lançamento, a partir de 2023 e 2024, de almofadas para cadeiras de rodas no mercado nacional.
Almofadas desenvolvidas com a tecnologia C-CORE prometem oferecer mais conforto e proteção contra lesões para usuários de cadeira de rodas. A hipótese deste estudo foi de que as almofadas de células de ar, de espuma e de polietileno C-CORE apresentariam pressões de interface similares. Os resultados e análises desta pesquisa contribuirão para a identificação do tipo de almofada mais adequado, oferecendo subsídios técnicos aos profissionais de saúde na indicação clínica e beneficiando diretamente os usuários de cadeiras de rodas, os principais interessados em produtos respaldados por evidências científica. Portanto, este estudo foi desenvolvido com o objetivo de comparar a pressão da interface nos indivíduos sentados em seis diferentes almofadas para cadeira de rodas.
MÉTODO
Trata-se da fase I de estudo clínico, não randomizado, comparativo, sem mascaramento para elucidar a hipótese: as almofadas de polietileno (C-CORE), de poliuretano (espuma) e de células de ar têm a mesma eficácia na redução de pressão na inferface. Para a comunicação do estudo, foram considerados os pressupostos do enunciado CONsolidated Standards Of Reporting Trials (CONSORT), especificamente do Template for intervention description and replication (TIDieR). Esta é uma extensão sobre como descrever as intervenções de um ensaio clínico. O estudo testou seis almofadas, sendo todas novas, sem sinais de desgaste, capa fornecida pelo fabricante. As almofadas foram alocadas no grupo controle (almofada de células de ar) e cinco grupos intervenção (dois grupos com almofadas de espuma e três grupos com almofadas de polietileno C-CORE) (Figura 1). O desfecho principal foi a pressão da interface na posição sentada.
A almofada de células de ar interconectadas foi selecionada para o grupo controle (A), conforme a recomendação da CONITEC para prevenção de lesão por pressão. Nos grupos intervenção, foram incluídas duas almofadas de espuma de poliuretano (B, C) e três de polietileno C-CORE (D, E, F). Todas as almofadas são produzidas e comercializadas no Brasil. Para proteção das empresas, o nome original foi substituído por algarismo romano.
Características das almofadas do grupo controle (A) e grupos intervenção (B, C, D, E, F). Belo Horizonte, MG, Brasil, 2025.
No grupo controle, a almofada é composta por células de ar interconectadas; portanto, o parâmetro de densidade não se aplica. Ela foi calibrada, tendo como referência um voluntário com 66 kg. A definição do peso se baseou nas avaliações preliminares com a participação de cinco voluntários: 39,3 kg; 49,4 kg; 66,0 kg; 73,4 kg; 105,4 kg. Após organização dos dados em ordem crescente, identificou-se a mediana como 66,0 kg, valor adotado como parâmetro de calibração da almofada. Esta decisão foi confirmada ao identificar que esta calibração foi capaz de redistribuir a pressão quando os indivíduos, de todos os pesos citados, sentaram-se nesta almofada.
O modelo de almofada com células interligadas por canais que regulam e transferem o ar de uma célula para a outra equilibra o peso do corpo quando o usuário está sentado. A almofada conta com duas regiões independentes de ajuste de pressão, cada uma equipada com uma válvula de ar, o que possibilita ao usuário ajustar a pressão para compensar o posicionamento ou garantir maior estabilidade ao se sentar na cadeira de rodas.
O tamanho amostral foi determinado com base na necessidade de detectar diferenças significativas entre as pressões de interface das diferentes almofadas avaliadas. A hipótese assumida foi a de que a almofada A (células de ar), as almofadas B e C (espuma) e as almofadas D, E, F (polietileno C-CORE) apresentam pressões de interface semelhantes, considerando que todas foram desenvolvidas com o objetivo de redistribuição de pressão em regiões de proeminência óssea. Para isso, foi estabelecido um mínimo de 30 pessoas. Esse número tem como referência a fase I de estudo clínico, cujo produto desenvolvido é testado em um grupo de 20 a 100 voluntários sem comorbidades ou complicações, com o objetivo de avaliar a segurança, compatibilidade e eficácia do produto9.
O recrutamento foi realizado entre maio e junho de 2024, a partir de convite em rede social. Após contato por e-mail, os interessados preencheram um formulário no Google Forms® com dados pessoais e critérios de elegibilidade, bem como informaram o dia e horário mais adequados para a realização da entrevista. Incluíram-se participantes de ambos os sexos, saudáveis, com idade superior a 18 anos, possuindo todos os membros do corpo, independência de movimento, permitindo que a pessoa se mova de forma autônoma e sem restrições e peso de até 120 kg. Excluíram-se relatos de incontinência urinária ou fecal, presença de desvio acentuado da coluna à inspeção, doenças dermatológicas do tipo descamativa, feridas cutâneas ou cicatrizes na região glútea.
Os participantes conheceram o espaço físico do laboratório de pesquisa no período de maio a junho de 2024, quando receberam explicações sobre o estudo e tiveram a oportunidade de esclarecer eventuais dúvidas. Além disso, uma das pesquisadoras fez medições do peso, altura e circunferência do quadril, utilizando balança, trena e fita métrica, respectivamente.
A variável dependente foi a pressão de interface, e a variável independente foi o tipo de almofada, com seis grupos: células de ar (grupo A - controle); espumas de poliuretano (grupos B e C - intervenção); e polietileno C-CORE (grupos D, E e F - intervenção). Também foram consideradas as seguintes variáveis de controle: idade (anos completos); sexo; altura (em metros); peso (em quilos); circunferência do quadril (em centímetros); Índice de Massa Corporal (IMC) (kg/m²). Posteriormente, o IMC foi classificado em baixo peso (<18,5 kg/m²), peso adequado (≥18,5 e <25 kg/m²), sobrepeso (≥ 25 e < 30 kg/m²) e obesidade (≥30 kg/m²).
A coleta de dados ocorreu em julho de 2024 com as almofadas do grupo controle e grupos intervenção. O estudo foi realizado no Laboratório de Tecnologia e Inovação, localizado na escola de enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais. O ambiente foi mantido na temperatura de 23°C. Cada almofada foi colocada sobre a mesma superfície rígida, plana, com altura ajustada para o participante manter os pés apoiados no chão. A vestimenta consistiu em calção ou calça leve, tipo legging, sem bolso traseiro ou costura.
Para avaliação do desfecho (pressão de interface), foi utilizado sensor SR Soft Vision ®, que é uma manta feita de minúsculas células que captam a magnitude da pressão e a área de contato da superfície do corpo da pessoa, convertendo em dados por um software compatível com Windows ®. Para este estudo, foram considerados os pontos de pressão iguais e acima de 79 mmHg, classificados como elevados, conforme recomendação do fabricante. Para o cálculo da pressão total, foram somados todos os pontos de pressão elevada.
Foram utilizados a trena, para manter o alinhamento do corpo, e o goniômetro, para aferir a angulação das articulações e garantir o posicionamento desejado. O participante foi posicionado sentado com glúteos e coxas apoiadas. É importante que a antropometria da pelve seja bem-posicionada, para que a carga seja transferida da posição inferior das tuberosidades isquiáticas para outras superfícies anatômicas que suportam carga2. A cabeça foi posicionada com face voltada para frente, os ombros alinhados e relaxados, tronco reto sem encosto, joelhos separados na mesma distância do quadril, articulação do joelho a 90 graus, com pés apoiados no chão. Após o posicionamento do participante sobre cada almofada, aguardava-se um minuto para registrar a foto gerada pelo sensor no software. A avaliação minuciosa do alinhamento do corpo proporcionou a capacidade de cada indivíduo reproduzir consistentemente a posição orientada pelo avaliador, para que não ocorresse desvio do posicionamento.
Um banco de dados foi criado no Microsoft Excel ® 2019, onde os dados foram lançados durante a sua coleta. Posteriormente, após a conferência, os dados foram transferidos para o software Statistical Package for the Social Sciences, versão 21.0, para realização das análises e geração dos resultados. Essa etapa foi realizada por uma doutora com graduação em estatística.
Para comparação do total da pressão entre os diferentes tipos de almofadas, foi utilizada a Análise de Variâncias com vários fatores. Esse modelo fornece uma comparação do desfecho com a variável que define os grupos (nesse caso, o total da pressão por almofada), ajustando por possíveis fatores confundidores (nesse caso, as variáveis confundidoras ajustadas foram sexo, peso e altura). Quando detectadas diferenças significativas entre os grupos, foram feitos testes de comparações múltiplas DSM e elaborados gráficos de linhas com as médias marginais dos grupos para ilustrar os resultados. Foi realizada uma subanálise, considerando apenas as três almofadas C-CORE, por meio dos mesmos testes supracitados. Em todas as análises, foi considerado um nível de significância de 5 %.
O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. A pesquisa foi registrada na base de dados Registro de Ensaios Clínicos Brasileiros, com o número RBR-9vsvKn5.
RESULTADOS
A Figura 2 apresenta o diagrama CONSORT de seleção dos participantes do estudo8. Foram recrutados 50 participantes para o estudo. Desses, 47 foram elegíveis e dez foram excluídos no processo de avaliação. Deste modo, os 37 participantes que fizeram parte do estudo foram alocados para o grupo controle e para os cinco grupos de intervenção. Não houve perda de seguimento nos grupos. Ao final do estudo, foram analisados os 37 participantes por grupo, totalizando 222 avaliações, com 37 avaliações realizadas por almofada.
A idade dos participantes variou de 18 a 53 anos, com média de 27,38 anos (desvio-padrão 10,39) e mediana de 24 anos. Além disso, 16 (43,2 %) eram mulheres e 21 (56,8 %) eram homens. O peso corporal variou de 43,3 kg a 115,9 kg, com mediana de 74,2 kg e média de 72,6 kg (desvio-padrão 20,0). O Índice de Massa Corporal apresentou valores entre 15,71 kg/m² e 43,09 kg/m², sendo categorizado como: 6 (16,2 %) - baixo peso; 13 (35,1 %) - peso normal; 11 (29,7 %) - sobrepeso; e 7 (18,9 %) - obesidade. A circunferência do quadril variou de 79 cm a 131,5 cm, com mediana de 102 cm e média de 101,1 cm (desvio-padrão 12,6). A altura variou de 1,53 m a 1,94 m, com mediana de 1,69 m e média de 1,70 m (desvio-padrão 0,11).
A pressão de interface foi comparada entre os grupos controle e intervenção (Tabela 1 e Figura 3), cujo resultado confirmou diferença significativa entre os grupos (Valor de p<0,001), com menores níveis de pressão para o grupo A (Controle).
Gráfico das médias marginais do total da pressão (mmHg) por grupo (tipo de almofada). Belo Horizonte, MG, Brasil, 2024.
Considerando os testes de comparações múltiplas (Tabela 2), houve diferença significativa entre o grupo A (controle) e os grupos intervenção (B, C, D, E, F). Em todos os grupos, foram observados menores valores médios de pressão para o grupo A (controle).
Foram realizados testes de comparações múltiplas com os grupos intervenção (D, E, F) referentes as almofadas de polietileno C-CORE (Tabela 3), por ser a inovação tecnológica.
Os resultados apresentaram diferença significativa entre o grupo D e os demais grupos (E, F) com almofadas polietileno C-CORE. O grupo D teve uma pressão em média 414,5 mmHg menor que o grupo E e 423,3 mmHg menor que o grupo F.
DISCUSSÃO
A escolha do assento da cadeira de rodas é uma importante ação para prevenção da lesão por pressão. No estudo realizado, a almofada de células de ar (grupo A) apresentou melhor capacidade na redução da pressão, seguida de uma das almofadas de espuma (grupo B) e uma outra C-CORE (grupo D). Essas três almofadas apresentaram superioridade em relação às demais almofadas de espuma de poliuretano (grupo C) e polietileno C-CORE (grupos E e F). O resultado é semelhante ao da revisão, que incluiu dez estudos. A almofada de ar demonstrou ser mais eficaz na redução da pressão de interface do que as almofadas de gel e de espuma4.
A referida revisão não analisou estudo de almofada polietileno C-CORE. O fato se deve à inexistência de publicações sobre o produto, considerando que esta almofada é fruto de inovação tecnológica e sua comercialização para cadeira de rodas iniciou em 2023. Os resultados da pesquisa confirmam que uma das almofadas polietileno C-CORE pode ser mais uma opção para prevenção de lesão por pressão, visto ser uma nova tecnologia disponível comercialmente no Brasil. Contudo, foi possível perceber que há diferença no desempenho dessas almofadas conforme a sua firmeza.
As almofadas de células de ar proporcionam alívio de pressão satisfatório, devido à imersão da pessoa, desde que estejam com a regulagem da quantidade de ar inflado em conformidade com as recomendações do fabricante. Este dispositivo é recomendado para usuários de cadeira de rodas que não conseguem ajustar a postura de forma independente, apresentando alto risco de desenvolver lesões por pressão ou que já sofram com essas condições6. Contudo, as almofadas de ar não são amplamente utilizadas pelos usuários de cadeira de rodas nos diversos segmentos da sociedade, devido ao seu alto custo. Apresentam como desvantagem a possibilidade de ser furada com instrumento ou superfície perfurante.
Almofadas de ar para cadeira de rodas necessitam ter um reservatório para o ar inflar de forma adequada, para que tenham eficácia em relação à distribuição de pressão. Uma vulnerabilidade dessas almofadas é a pouca estabilidade, causada pelo rápido deslocamento de ar entre as células. Por isso, faz-se necessária uma base plana e rígida para sua efetividade10. Na pesquisa realizada, as almofadas testadas foram posicionadas sobre a mesma superfície rígida, fato que pode ter contribuído para a melhor performance da almofada de células de ar em relação às demais almofadas avaliadas.
A necessidade de regulagem individualizada da almofada de células de ar conforme o usuário é uma limitação para a sua utilização10. Esta fragilidade agrava para aqueles usuários de cadeira de rodas que apresentam comprometimento na mobilidade e sensibilidade. Visando sanar este problema, novos projetos têm sido desenvolvidos pelos fabricantes.
Os dados obtidos pela análise de elementos finitos foram usados para simular a inflação e a deflação das células de ar de bolhas macias. Os sistemas de controle de uma única célula de ar e de toda a almofada foram projetados e simulados para criar uma almofada de assento capaz de reconhecer zonas de maior e menor risco de geração de lesão por pressão com o fornecimento de compensação automática11.
Outra proposta de almofada dinâmica que apresenta um design para detectar áreas de alta pressão e atuar para aliviar essa pressão foi o uso de sensores resistivos em uma formação de grade para mapear a pressão no assento. Para aliviar a pressão, foi proposta uma grade de bexigas (células) pneumáticas personalizadas para inflar em resposta aos limites do sensor, redistribuindo a pressão. Elas foram selecionadas na forma geométrica de toro (círculo) para otimizar a durabilidade, estabilidade e aumentar a respirabilidade no design final. O design personalizado da almofada permite que os usuários aliviem a pressão dinamicamente, eliminando a necessidade de reajustar constantemente a posição12.
Revisão sistemática, publicada em 2024, sobre a eficácia das almofadas de alívio de pressão constatou que a maioria dos estudos de comparação geralmente aborda uma população específica, como lesão da medula espinhal, ou apenas alguns estilos de design/materiais de almofada. Os resultados sugerem que almofadas de célula de ar fornecem alívio de pressão ideal e redução de cisalhamento7. Contudo, almofadas de descarga oferecem alívio de pressão superior ao das almofadas de célula de ar7,12, mas requerem pesquisa adicional para maior generalização2,7. Outros resultados sugerem que almofadas feitas de espuma de poliuretano13, blocos de espuma de poliuretano de célula aberta com dureza variável e almofada de espuma de poliuretano de célula aberta parecem proporcionar alívio de pressão mais eficaz do que aquelas injetadas com espuma de poliuretano e gel8. Até então, há dúvidas sobre a melhor almofada para prevenção de lesão por pressão ou auxílio para cura na existência dela. Por isso, o conhecimento sobre a capacidade de novas tecnologias na redução da pressão traz a possibilidade de mais uma opção que pode ser utilizada pelas pessoas em risco de lesão por pressão14.
No que tange às almofadas compostas de polietileno C-CORE, ainda são incipientes os estudos publicados na literatura. Os resultados desta pesquisa contribuem com o avanço do conhecimento ao apresentar uma nova tecnologia para prevenção de lesão por pressão em usuários de cadeira de rodas. As três almofadas com tecnologia C-CORE (D, E, F) apresentam altura de 7 cm, mas com firmezas diferentes. A almofada D, que era a de menor firmeza, foi a mais efetiva na redução da pressão de interface quando comparada às outras duas de mesma composição. O tamanho do efeito (redução da pressão) foi semelhante ao da almofada de células de ar. O resultado confirma que há diferença na capacidade de redução da pressão de interface entre as almofadas C-CORE, e isto pode ter relação com a firmeza da almofada. Suspeita-se que almofadas C-CORE para assento de cadeira de rodas com densidades mais baixas possuem melhor distribuição de pressão do que densidades mais altas. Contudo, mais estudos são necessários para generalização da informação.
A espuma de poliuretano plana, embora seja mais facilmente encontrada no mercado e com preços mais acessíveis, não apresenta efetividade na prevenção de lesões por pressão quando comparadas a outros tipos de almofadas4. Qualquer almofada que possua características de imersão e contorno do complexo nádega-coxa supera consistentemente as almofadas de espuma plana no que tange à redução da interface de pressão7.
As almofadas de espuma de poliuretano apresentam diferenças em sua estrutura. Há formação de uma espuma mais rígida quando há maior grau de reticulação entre as cadeias de polímero de poliuretano e a densidade é mais alta. A espuma se torna mais flexível quando a reticulação é menor e a densidade é menor15. Outro aspecto relevante é quanto maior a densidade de uma espuma de poliuretano, maior a sua resistência16. Esta afirmativa não se aplica quando se trata da espuma viscoelástica. As almofadas de espuma do estudo (B e C) possuíam características distintas em relação à dimensão, incluindo altura e densidade.
Um fato importante é a forma de fabricação das almofadas. As que são confeccionadas de poliuretano de célula aberta podem ser mais eficazes no potencial de redistribuir a pressão de interface do que almofadas de assento feitas de espuma de poliuretano de célula fechada injetada com gel17. No entanto, os recursos de fabricação não parecem ter um grande impacto na resposta térmica ou no conforto percebido8.
A pressão da interface entre o corpo e a almofada da cadeira de rodas, medida pelo sistema de mapeamento de pressão e apresentada como valores numéricos codificados por cores, é um parâmetro comumente utilizado para apresentar o efeito da redução da pressão4. Esse parâmetro é fundamental diante do cenário em que há disponíveis no mercado inúmeras almofadas, pois é fundamental que haja informações claras e concisas para permitir uma tomada de decisão condizente com as necessidades do usuário.
Neste estudo, foi usado o sensor SR Soft Vision ® para verificar a pressão na interface. O mapeamento de pressão é uma ferramenta clínica que tem sido utilizada para avaliar a distribuição de pressão do corpo humano em superfícies de suporte, uma vez que permite visualizar e quantificar tal distribuição8. O uso de mapas de pressão para interpretar pressões na interface, avaliados por operadores experientes ou pouco experientes, é um método confiável17. A avaliação individualizada da pressão da interface é sugerida para prescrição de almofada para cadeira de rodas pelos profissionais da clínica4,18. É preciso considerar a preservação do microclima da pele e a estabilidade da almofada, uma vez que as de células de ar são consideradas instáveis19.
Este estudo apresenta algumas limitações, como a falta de calibração individualizada da almofada de células de ar interconectadas, mesmo tendo apresentado superioridade em relação às demais almofadas avaliadas. Outro ponto a ser considerado foi a utilização de uma superfície rígida onde todas as almofadas foram apoiadas em substituição à cadeira de rodas. Contudo, esta conduta teve o objetivo de parametrizar o ambiente de teste, considerando que cada fabricante de almofada tem cadeira de rodas específica, inclusive com capacidade de peso distinta. Destaca-se ainda a não consideração do material da capa das almofadas para esta pesquisa.
Pesquisas adicionais com grupos maiores são necessárias para verificar a eficácia das almofadas polietileno C-CORE, considerando as diferenças na firmeza do material, para redução da pressão em áreas comprimidas (proeminências ósseas) e melhorar o microclima da pele. Para avaliar a experiência dos participantes usando a nova tecnologia C-CORE, deve ser incluído um questionário de feedback sobre as sensações na utilização da almofada polietileno C-CORE. Além disso, deve-se prosseguir com o estudo clínico na fase II para avaliação de eficácia na população real.
Em contrapartida, este estudo contribui com o avanço do conhecimento ao apresentar resultados da pressão de interface com o uso de almofadas de cadeira de rodas com uma nova tecnologia denominada de C-CORE, abrindo possibilidade para que o produto seja incorporado com segurança na prática clínica.
CONCLUSÃO
A hipótese de semelhança entre os grupos não se confirmou, considerando que houve diferença estatística na pressão de interface entre a almofada de células de ar do grupo controle (grupo A) e as almofadas de espuma e polietileno dos grupos intervenção. O uso da almofada de células de ar teve menor pressão de interface, seguida de uma das almofadas de espuma (grupo B) e uma de polietileno C-CORE (gupo D), a nova tecnologia avaliada. Dentre as almofadas de polietileno C-CORE (D, E, F), a do Grupo D apresentou menor pressão de interface.
AGRADECIMENTO
Os autores agradecem ao acordo de parceria para Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) celebrado entre a Escola de Enfermagem da Universidade Federal de Minas Gerais e a Empresa C-CORE Indústria e Comércio de Artefatos Plásticos LTDA por apoiar este projeto, ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) pelo financiamento de bolsa de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC). Os autores apreciam a valiosa ajuda dos voluntários para concluir este estudo.
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NOTAS
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APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
Aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais, parecer nº 6.853.674, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética (CAAE) 78828624.3.0000.5149
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DISPONIBILIDADE DE DADOS
Os dados que fundamentam este estudo são confidenciais e não estão disponíveis publicamente, pois derivam de um Projeto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D&I) realizado em parceria público-privada com a empresa C-CORE Brasil.
Editado por
Os dados que fundamentam este estudo são confidenciais e não estão disponíveis publicamente, pois derivam de um Projeto de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D&I) realizado em parceria público-privada com a empresa C-CORE Brasil.




Fonte: elaboradapelos autores, 2025

