Open-access VÍDEO EDUCACIONAL SOBRE PREVENÇÃO DA VIOLÊNCIA SEXUAL INFANTIL PARA CUIDADORES FAMILIARES: ELABORAÇÃO, VALIDAÇÃO E AVALIAÇÃO

RESUMO

Objetivo:  descrever a elaboração, validação e avaliação de um vídeo educacional sobre a prevenção da violência sexual infantil para cuidadores familiares.

Método:  estudo metodológico desenvolvido em três etapas: 1) Elaboração do vídeo educacional; 2) Validação de conteúdo e aparência com 22 juízes; e 3) Avaliação semântica com 11 cuidadores familiares. Para a validação de conteúdo e aparência com os juízes, bem como para a avaliação semântica, utilizaram-se instrumentos de coleta de dados validados. O critério para a validação foi a concordância superior a 80%, analisada por meio do índice de validade de conteúdo, teste binomial e frequência absoluta. Para a avaliação semântica, utilizou-se amostragem não probabilística intencional.

Resultados:  o vídeo contemplou elementos como conceito, perfil da vítima e do agressor, identificação (relato da criança e sinais e sintomas), formas de prevenção, formas de denúncia e rede de proteção, distribuídos em abertura, oito cenas e fechamento, com tempo total de nove minutos e 35 segundos. Na validação de conteúdo, a concordância foi satisfatória, com média do índice de validade de conteúdo de 0,99, e na validação de aparência, a média do índice de validade de conteúdo foi de 0,83. A avaliação semântica, realizada com 11 representantes do público-alvo, obteve concordância de 100% para todos os itens avaliados.

Conclusão:  o vídeo foi considerado válido quanto ao conteúdo e à aparência pelos juízes e compreensível pelos representantes do público-alvo, tornando-se uma tecnologia que pode contribuir para a prevenção da violência sexual infantil.

DESCRITORES:
Filme e vídeo educativo; Tecnologia educacional; Delitos sexuais; Criança; Cuidadores; Maus-tratos infantis; Abuso sexual na infância

ABSTRACT

Objective:  to describe the development, validation, and evaluation of an educational video on the prevention of sexual violence against children for family caregivers.

Method:  Methodological study developed in three stages: 1) Development of the educational video; 2) Content and appearance validation with 22 referees; and 3) Semantic evaluation with 11 family caregivers. Validated data collection instruments were used for content and appearance validation with referees, as well as for semantic evaluation. The validation criterion was agreement above 80%, analyzed using the content validity index, binomial test and absolute frequency. For semantic evaluation, intentional non-probabilistic sampling was used.

Results:  the video included elements such as concept, victim and aggressor profile, identification (child's report and signs and symptoms), forms of prevention, forms of reporting, and protection network, distributed in opening, eight scenes, and closing, with a total time of nine minutes and 35 seconds. In content validation, agreement was satisfactory, with an average content validity index of 0.99, and in appearance validation, the average content validity index was 0.83. The semantic evaluation, conducted with 11 representatives of the target audience, obtained 100% agreement for all evaluated items.

Conclusion:  the video was considered valid in terms of content and appearance by the referees and understandable by representatives of the target audience, becoming a technology that can contribute to the prevention of sexual violence against children.

DESCRIPTORS:
Educational films and videos; Educational technology; Sexual Offenses; Child; Caregivers; Child maltreatment; Sexual abuse in childhood

RESUMEN

Objetivo:  describir el desarrollo, validación y evaluación de un video educativo sobre prevención de la violencia sexual infantil para cuidadores familiares.

Método:  estudio metodológico desarrollado en tres etapas: 1) Elaboración del video educativo; 2) Validación de contenido y apariencia por 22 jueces; y 3) Evaluación semántica por 11 cuidadores familiares. Para la validación de contenido y apariencia por los jueces, así como para la evaluación semántica, se utilizaron instrumentos validados de recolección de datos. El criterio de validación fue la concordancia mayor al 80%, analizada mediante el índice de validez de contenido, prueba binomial y frecuencia absoluta. Para la evaluación semántica se utilizó un muestreo no probabilístico intencional.

Resultados:   el video incluyó elementos como concepto, perfil de la víctima y del agresor, identificación (relato del niño/a, signos y síntomas), formas de prevención, formas de denuncia y red de protección, distribuidos en apertura, ocho escenas y cierre, con tiempo total. de nueve minutos y 35 segundos. En la validación de contenido, la concordancia fue satisfactoria, con un índice de validez de contenido promedio de 0,99, y en la validación de apariencia el índice de validez de contenido promedio fue de 0,83. La evaluación semántica, realizada con 11 representantes del público objetivo, obtuvo un 100% de acuerdo para todos los ítems evaluados.

Conclusión:  el video fue considerado válido en términos de contenido y apariencia por los jueces y comprensible para los representantes del público objetivo, convirtiéndose en una tecnología que puede contribuir a la prevención de la violencia sexual infantil.

DESCRIPTORES:
Película y vídeo educativo; Tecnología educativa; Delitos sexuales; Niño/a; Cuidadores; Maltrato infantil; Abuso sexual en la infancia

INTRODUÇÃO

O abuso e a exploração sexual de crianças, considerados violações dos direitos humanos, são problemas de saúde pública com consequências significativas para a saúde global. A violência sexual praticada contra a população infantil consiste em atos ou jogos sexuais aos quais as crianças são submetidas por um agressor, seja este um estranho, um amigo da família ou, até mesmo, um familiar. Esses indivíduos se aproveitam da vulnerabilidade da criança para satisfazer seus próprios desejos e ambições, em detrimento do bem-estar da vítima1-2.

No Brasil, no período de 2015 a 2021, foram notificados 202.948 casos de violência sexual contra crianças (n=83.571) e adolescentes (n=119.377). Em 2021, o número de notificações foi o mais alto registrado durante o período analisado, totalizando 35.196 casos3. Dados recentes do “Panorama da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil” publicado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef)4 demonstraram que no período de 2021 a 2023, somente entre os fatos notificados à polícia, foram registrados 164.199 estupros com vítimas de até 19 anos no país, com um aumento significativo em 2022 e 2023. Em 2021, foram contabilizados 46.863 casos nessa faixa etária; em 2022, o número subiu para 53.906; e, em 2023, alcançou 63.4304.

Houve um aumento significativo nos casos de estupro de crianças e adolescentes entre 2021 e 2023, com um crescimento de 6% entre 2021 e 2022 e de 13,8% em 2023. Esse aumento foi mais acentuado entre as faixas etárias mais jovens, especialmente entre crianças de 0 a 9 anos, que representaram 35,8% das vítimas4. Esses dados destacam a gravidade da violência sexual contra crianças, muitas das quais não têm capacidade de compreender o ato violento, dificultando ainda mais a proteção das vítimas e a responsabilização dos agressores.

Os casos de violência sexual infantil podem ocorrer tanto no âmbito intrafamiliar quanto extrafamiliar. Quando a agressão é cometida por alguém que pertence à esfera familiar da criança, configura-se como intrafamiliar; já quando o agressor não pertence ao contexto familiar, caracteriza-se como extrafamiliar5.

O enfrentamento da violência sexual infantil exige esforços, especialmente quando envolve relações familiares ou indivíduos pelos quais a criança tem apreço. Assim, o fenômeno chamado “Síndrome do Segredo” torna-se evidente. Esse fenômeno abrange a ocultação da verdade sobre os eventos vivenciados pela criança, o que pode ser reforçado pelos próprios familiares, que, ao reconhecerem as agressões praticadas, não realizam a denúncia, ou quando estão diretamente envolvidos. No entanto, é preciso entender que a violência sexual é silenciosa, assim como o pedido de ajuda da criança6.

Percebe-se, assim, que a violência sexual praticada contra a população infantil pode gerar graves consequências. Após vivenciar a violência, a criança pode apresentar transtornos mentais, como ansiedade, depressão e estresse pós-traumático, o que pode levar ao isolamento e, até mesmo, à tentativa de suicídio2. Isso ocorre devido à necessidade de acusação verbal pela criança e à falta de credibilidade que, muitas vezes, lhe é dada. Ademais, as consequências da revelação podem incluir ameaças físicas e psicológicas, medo de ser punida por ter revelado a verdade, além de culpa e negação pela agressão vivenciada6.

O advento da tecnologia e da realidade virtual expõe, cada vez mais, crianças e adolescentes às telas, muitas vezes sem a devida supervisão dos pais. Como resultado, o crime de extorsão sexual contra o público infantil tornou-se uma realidade4. Caracterizada como uma exigência, sob ameaça, da prática de atos libidinosos, com material vendido ou divulgado em redes direcionadas à pornografia7, a extorsão sexual traz repercussões negativas na saúde física e mental dessas vítimas8.

Mães, pais e outros cuidadores familiares, responsáveis por promover o cuidado, dar atenção e suprir as necessidades das crianças, desempenham um papel importante na prevenção e detecção de casos de violência sexual nesse público. Contudo, quando a violência sexual ocorre no âmbito intrafamiliar, as denúncias podem ser omitidas e a proteção vinda da família é, praticamente, negada à criança5.

Os enfermeiros, profissionais indispensáveis na percepção dos sinais e sintomas físicos, psicológicos ou comportamentais que indicam violência sexual, podem analisar, em sua assistência, a relação que a criança tem com seus familiares e, assim, perceber possíveis indícios de violência sexual, de forma a efetuar a notificação5.

É oportuna, portanto, a elaboração de estratégias para prevenir esse agravo contra as crianças, sendo as tecnologias digitais, como o vídeo educacional abordado no presente estudo, uma possibilidade para a aquisição de informações seguras pelos cuidadores familiares, de modo a contribuir para a prevenção da violência sexual infantil e para a denúncia nos casos em que as crianças forem vitimadas. Do exposto, objetiva-se descrever a elaboração, validação e avaliação de um vídeo educacional sobre prevenção da violência sexual infantil para cuidadores familiares.

MÉTODO

Estudo metodológico de construção, validação e avaliação de vídeo, desenvolvido em três etapas distintas: elaboração do vídeo educacional; validação de conteúdo e de aparência com juízes; e avaliação semântica com cuidadores familiares.

Na primeira etapa, foi realizado um levantamento bibliográfico em sites oficiais, nacionais e internacionais, sobre a temática, além de uma revisão integrativa da literatura, que permitiu o reconhecimento dos principais sinais e sintomas da violência sexual em crianças. O vídeo, elaborado de acordo com o referencial metodológico de Kindem e Musberg, seguiu quatro etapas: pré-produção, a partir da construção da ideia; roteiro e elaboração do storyboard para a gravação; produção com a seleção das cenas, imagens, personagens e gravação dos áudios; e, por fim, a pós-produção para a edição das cenas e sincronização com os áudios9.

Além disso, foi realizado um grupo focal com 16 cuidadoras familiares (mães e avós) de crianças entre 6 e 10 anos, de um Centro Comunitário da Paz - Compaz, localizado em Recife-PE, para conhecer as demandas de conhecimento e vivências sobre a temática, além de identificar a tecnologia mais adequada, no caso, o vídeo educacional.

No roteiro do vídeo, construído com base em ideia, conflito, personagens, ação dramática, tempo dramático e unidade dramática9, foram utilizadas vozes adultas e infantis, gravadas em um aplicativo de gravador de voz de smartphone, para torná-lo mais atrativo.

Na segunda etapa, foi considerado o cálculo amostral de 22 juízes, selecionados de acordo com os critérios de Jasper10 (experiência profissional na assistência e docência, conhecimento especializado, titulação acadêmica, publicações científicas e premiações na área de violência sexual infantil).

Inicialmente, foram recrutados 30 juízes na plataforma Lattes por meio do portal do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Na ocasião, aplicou-se a técnica “Bola de Neve”, na qual um juiz previamente selecionado indicava outro11. Após atingir o quantitativo amostral, o formulário online foi fechado para novas respostas.

Os juízes foram contatados via e-mail e receberam o link do vídeo educacional pelo Google Forms®, além do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), do questionário para caracterização dos juízes e dos dois instrumentos validados: Instrumento de Validação de Conteúdo Educacional em Saúde (IVCES)12 e Instrumento de Validação de Aparência de Tecnologia Educacional em Saúde (IVATES)13.

O IVCES contém 18 questões divididas em três domínios: “Objetivos” (propósitos, metas ou finalidades), “Estrutura/apresentação” (organização, estrutura, estratégia, coerência e suficiência) e “Relevância” (significância, impacto, motivação e interesse), com respostas em escala Likert, variando de 0 a 2: 0: discordo, 1: concordo parcialmente e 2: concordo totalmente. Para cada item avaliado, havia espaço destinado às sugestões dos juízes12. O IVATES é constituído por 12 itens, que avaliam a harmonização dos elementos que constituem a tecnologia educacional, como cores, imagens, texto, quantidade e tamanho das figuras, com respostas em escala Likert com cinco opções: 1: discordo totalmente, 2: discordo, 3: discordo parcialmente, 4: concordo e 5: concordo totalmente13.

Na análise do grau de relevância, da validação de conteúdo e de aparência, os itens foram analisados de acordo com o cálculo do Índice de Validade de Conteúdo, com concordância mínima entre os juízes de 0,80, seguindo duas formas: o I-CVI (item-level content validity index), que mede a proporção de concordância entre os juízes para cada item; e o S-CVI/Ave (scale-level content validity index, average calculation method), que calcula a média dos I-CVIs11. Foi realizado, também, o teste binomial dos itens do instrumento para verificar a razão de concordância entre os juízes, considerando um nível de significância (α) de 5% = 0,05.

Após a validação de conteúdo e aparência pelos juízes, procedeu-se à terceira etapa, a avaliação semântica. Para tanto, utilizou-se amostragem não probabilística intencional. Onze cuidadores familiares foram recrutados, em maio de 2023, por meio de um convite impresso enquanto aguardavam as crianças ou realizavam alguma atividade, no mesmo centro de cidadania do grupo focal.

Os critérios de inclusão adotados foram: ser mãe, pai ou outro cuidador familiar de crianças na faixa etária entre 6 e 10 anos, que frequentavam alguma atividade no Compaz, localizado no Recife-PE. A escolha dessa faixa etária específica foi motivada pelo aumento alarmante dos casos de violência sexual entre crianças nessa idade3-4.

O instrumento aplicado, composto por questões objetivas com respostas “sim” ou “não”, avaliou a compreensão dos cuidadores familiares sobre o vídeo educacional, de acordo com os critérios de “organização” (forma como as informações foram dispostas), “estilo da escrita” (linguagem clara e acessível ao público), “aparência” (distribuição das informações, adequação de layout, fonte e ilustrações) e “motivação” (capacidade de interação, promovendo interesse e/ou motivação do público-alvo).

Para a análise das respostas aos critérios da avaliação semântica, aplicou-se a estatística descritiva em valores absolutos e relativos. Utilizou-se o Índice de Concordância Semântica (ICS), com, no mínimo, 80% de concordância para as respostas “sim”.

A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco. Todos os participantes foram informados quanto aos objetivos do estudo e o direito de desistir de participar da pesquisa a qualquer momento. Aqueles que aceitaram participar, assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido (TCLE).

RESULTADOS

O vídeo, disponível em https://youtu.be/AbkC2gU2qWg?si=pbPou85MXxFZLcsM, com duração total de nove minutos e 35 segundos, incluiu uma cena de abertura; oito cenas apresentando casos baseados em situações da vida real, focando na descredibilidade do relato da criança, nos sinais e sintomas que ela pode manifestar, na importância do acolhimento pelos familiares, na educação para a prevenção, nas formas de denúncia e na rede de proteção; e uma cena de fechamento (Figura 1).

Figura 1 -
Representação das cenas do vídeo educacional para prevenção da violência sexual infantil para cuidadores familiares. Recife, PE, Brasil, 2023.

Na validação de conteúdo e aparência, participaram 22 juízes, com predominância do sexo feminino (n=19; 86,4%), idade entre 25 e 35 anos (n=11; 50,0%), sendo a maioria enfermeiros (n=12; 54,6%), com atuação na assistência e docência (n=10; 45,4%), tempo de formação entre 11 e 20 anos (n=9; 41,0%), tempo de atuação de até 10 anos (n=9; 41%) e titulação de mestre (n=11; 50%). As atividades mais frequentes dos juízes foram: experiência anterior na elaboração/avaliação de tecnologias educacionais (n=15; 68,2%); publicações (resumos/artigos) na área de tecnologias educacionais (n=11; 50,0%); pesquisa na área de violência sexual infantil (n=9; 40,9%), seguida de publicações/resumos na área de violência sexual infantil (n=8; 36,4%).

Sobre as medidas de validade de conteúdo, verificou-se que o teste binomial não foi significativo apenas para os itens “Linguagem interativa, permitindo envolvimento ativo no processo educativo” (p-valor=0,154) e “Tamanho do vídeo adequado” (p-valor=0,154). Contudo, esses itens também obtiveram I-CVI > 0,90, indicando concordância entre os juízes. O S-CVI/Ave apresentou valor igual a 0,99 e p-valor significativo no teste binomial, indicando maior relevância do instrumento em relação ao valor de referência (0,80) (Tabela 1).

Tabela 1-
Medidas de validade de conteúdo para os itens relacionados aos objetivos, estrutura/avaliação e relevância do vídeo educacional para prevenção da violência sexual infantil para cuidadores familiares. Recife, PE, Brasil, 2023.

Na validação de aparência, verificou-se que, em todos os itens avaliados, o teste binomial não foi significativo (p-valor>0,05), indicando que o valor do CVI é estatisticamente semelhante ao valor de referência, exceto para o item “As ilustrações estão em tamanho adequado no material educacional” (p-valor = 0,048), no qual o valor do CVI foi estatisticamente maior do que o valor de referência (0,80).

O S-CVI/Ave foi 0,83, e o teste binomial para comparação com o valor de referência não foi significativo (p-valor = 0,166). O resultado, contudo, indica a aprovação dos juízes, considerando que a média dos itens apresentou valor superior ao valor de referência (0,80) (Tabela 2).

Tabela 2-
Medidas de validade para os itens na etapa de validação de aparência do vídeo educacional para prevenção da violência sexual infantil para cuidadores familiares. Recife, PE, Brasil, 2023.

O Quadro 1 apresenta as principais sugestões dos juízes e as alterações realizadas para tornar o vídeo mais coerente com o que se propõe.

Quadro 1-
Descrição das sugestões dos juízes e as modificações realizadas. Recife, PE, Brasil, 2023.

Quanto à avaliação semântica, participaram 11 representantes do público-alvo, predominantemente mulheres (n=10; 90,9%) com idade entre 30 e 39 anos (n=4; 36,3%), a maioria mães (n=7; 63,64%) e com ensino médio (n=8; 72,7%). O vídeo educacional foi bem compreendido e aceito em todos os aspectos avaliados, apresentando resultados satisfatórios em todos os itens (Tabela 3).

Tabela 3-
Avaliação dos cuidadores familiares quanto à organização, estilo da escrita, aparência e motivação do vídeo educacional. Recife, PE, Brasil, 2023.

DISCUSSÃO

O vídeo educacional, desenvolvido e validado neste estudo, oferece informações motivadoras para o aprendizado. Apresenta casos que se assemelham à realidade vivenciada por muitas crianças e demonstra a relevância de perceber o ambiente intrafamiliar, visto que a maioria dos episódios de violência sexual cometidos contra crianças tem como agressores, principalmente, seus familiares. Quando a criança sofre violência no meio intrafamiliar, pode haver piora no quadro psicológico, sendo mais grave do que no caso de uma agressão extrafamiliar, visto que ela passa a não se sentir segura dentro do próprio lar14.

O processo de validação do vídeo desenvolvido foi realizado por especialistas na temática abordada e em tecnologias educacionais, conferindo mais confiabilidade e adequação tanto das informações quanto da forma como foram transmitidas. A recomendação de que a tecnologia, antes de ser aplicada, seja validada por juízes especialistas torna o produto potencialmente eficaz para a propagação da educação em saúde no enfrentamento dos agravos15, neste caso da violência sexual infantil.

O abuso sexual na infância é utilizado como instrumento para a satisfação sexual de adultos. A frequência e os fatos associados a essa ocorrência envolvem o processo de sedução, imposição de poder por meio de força física e emocional, ameaças e chantagens16. O vídeo educacional, desenvolvido e validado, apresenta as formas de ocorrência da violência sexual e o perfil dos agressores, facilitando o reconhecimento desse ato pela população-alvo.

O abuso sexual infantil é definido como qualquer ato de cunho sexual envolvendo a criança por meio de violência física, mental, imposição e/ou incitação, relacionados a atos com ou sem contato físico. Os atos físicos podem incluir carícias, toques, penetração anal ou genital e sexo oral. Já os atos sem contato físico geralmente envolvem pornografia, exibicionismo, assédio, parafilia/voyeurismo e/ou exploração sexual17. Os resultados da pesquisa evidenciam fenômenos que precisam ser discutidos, interpretados e compreendidos pelos cuidadores familiares para ações efetivas no combate a essa injúria.

Além disso, esse debate se estende quando se questionam os tipos de violência e sua relação com a saúde pública e problemas como: altos índices de incidência; atraso do desenvolvimento afetivo, cognitivo e social; traumas; conflito entre vítima e família; evasão escolar; risco de gravidez precoce; dentre outros16.

Estudo mostra a gravidade da elevada incidência do abuso sexual, as consequências desse crime e as preocupações de órgãos nacionais e internacionais de defesa das crianças e adolescentes, voltados à proteção e garantia de seus direitos e condicionantes de desenvolvimento. Ações interligadas à prevenção e proteção infantojuvenil têm surgido nos últimos anos, facilitando a compreensão das vítimas, para que possam identificar os abusos, compreender sua gravidade e, assim, procurar ajuda16.

Igualmente, o abuso sexual impacta negativamente o desenvolvimento da criança, causando efeitos diversos, como violência, agressividade, irritabilidade, depressão, afastamento social, ansiedade, picos de estresse, culpa, atos autodestrutivos, baixa autoestima, pensamentos suicidas, bloqueio emocional, medos, conduta sexualizada e inseguranças7. Independentemente de o abuso sexual infantil ser ocasionado por incesto ou não, a criança vítima de violência vivencia o sentimento de desamparo, especialmente quando o agressor é alguém que deveria protegê-la e proporcionar segurança18.

A ausência de suporte adequado frequentemente gera um sentimento profundo de culpa tanto nas vítimas quanto nos cuidadores familiares, resultando em um sofrimento contínuo que, em muitos casos, pode levar ao desenvolvimento de transtornos mentais14. Essa culpa é amplificada pela sociedade, que tende a atribuir responsabilidade à vítima, conforme abordado no vídeo educacional. O sentimento de culpa vivenciado pela criança, aliado à negligência na denúncia por parte dos cuidadores, dificulta significativamente o processo de cuidado e intensifica o impacto da violência sofrida.

Diante desse cenário, o uso de tecnologia educacional direcionada ao cuidado infantil emerge como uma estratégia promissora para fornecer informações seguras, desmistificar conceitos errôneos e quebrar tabus em torno do tema19. Reconhecendo essa importância, o estudo incluiu a avaliação dessa tecnologia pelos cuidadores familiares, que consideraram o vídeo educacional não apenas compreensível, mas também motivador. Essa avaliação positiva ressalta a relevância de ferramentas educativas no apoio aos cuidadores, auxiliando-os a lidar de maneira mais informada e eficaz com as complexidades da proteção infantil19.

A família representa o primeiro contato da criança com o mundo, sendo responsável por transmitir saberes básicos, promover a convivência social e fornecer experiências que podem influenciar profundamente sua trajetória de vida e apoio emocional. Cabe à família proteger e cuidar da criança, especialmente em situações de violência e outros males que possam prejudicá-la. O fortalecimento do vínculo familiar e a integração da criança em um ambiente saudável, com cuidados adaptados às suas necessidades individuais, são fundamentais20. A exposição a ambientes conflituosos pode prejudicar o desenvolvimento infantil, e viver em condições adversas, violentas ou que limitem o potencial da criança desestabiliza seu processo de formação durante a infância20.

Nesse sentido, a prevenção da violência sexual infantil no nível individual inclui o desenvolvimento de habilidades de autorregulação, competência social, funcionamento adaptativo e autoestima nas crianças, ajudando-as a lidar com situações estressantes e traumáticas. Um ambiente familiar acolhedor, caracterizado por relações de apoio e carinho, é crucial para fornecer a segurança emocional necessária. Além disso, a prevenção do uso de drogas é um fator protetor importante, pois o abuso de substâncias está associado a um aumento do risco de maus-tratos. Promover um ambiente livre de drogas e apoiar a saúde mental e física dos cuidadores contribui significativamente para a proteção e o bem-estar das crianças20.

Na validação de conteúdo e aparência, etapa relevante para garantir informações adequadas ao público-alvo12-13, dos trinta itens avaliados pelos juízes, apenas três não atingiram os valores esperados. Não obstante, o vídeo foi considerado adequado para o envolvimento dos cuidadores familiares no combate à violência sexual infantil, considerando as médias das avaliações de todos os itens. Ademais, as alterações realizadas de acordo com as sugestões dos juízes contribuíram para o aprimoramento do vídeo.

No que se refere à avaliação semântica, percebeu-se a importância dos cuidadores no processo de análise do vídeo educacional, pois isso permitiu uma visão da interação dessa população-alvo com a tecnologia educacional escolhida. A avaliação semântica permite uma tecnologia mais compatível com a realidade da população-alvo, com explanação da temática de forma adequada e compreensível, visando à construção de conhecimentos e atitudes que contribuam para o combate à violência sexual infantil21.

Consideram-se como limitações do estudo o fato de o vídeo não abordar os fatores socioculturais associados à violência sexual infantil, bem como a avaliação semântica ter sido realizada com um grupo restrito de representantes do público-alvo, vinculados a uma única instituição.

CONCLUSÃO

O vídeo educacional sobre a prevenção da violência sexual infantil, desenvolvido com base nas necessidades de conhecimento e nas experiências de cuidadores familiares, foi considerado válido pelos juízes em termos de conteúdo e aparência, além de ser compreensível para o público-alvo. Portanto, o vídeo pode ser utilizado como uma estratégia de promoção de educação em saúde direcionada a cuidadores familiares, incentivando o protagonismo e esclarecendo direitos e deveres no combate a essa violação. Sugere-se, por fim, a realização de estudos de intervenção utilizando a tecnologia apresentada, a fim de verificar sua efetividade em alcançar os objetivos propostos.

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NOTAS

  • ORIGEM DO ARTIGO
    Extraído da dissertação - Vídeo educacional sobre prevenção da violência sexual infantil direcionado para cuidadores familiares, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, da Universidade Federal de Pernambuco, em 2023.
  • APROVAÇÃO DE COMITÊ DE ÉTICA EM PESQUISA
    Aprovado no Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Pernambuco, parecer n.º 5.517.174/2022, Certificado de Apresentação para Apreciação Ética: n.º 58758222.6.0000.5208.

Editado por

  • EDITORES
    Editores Associados: Manuela Beatriz Velho, Maria Lígia Bellaguarda.
    Editor-chefe: Elisiane Lorenzini.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    22 Nov 2024
  • Data do Fascículo
    2024

Histórico

  • Recebido
    20 Mar 2024
  • Aceito
    15 Ago 2024
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