RESUMO
Objetivo: mapear os aplicativos móveis para o cuidado na insuficiência cardíaca.
Método: revisão de escopo baseada no método proposto pelo Instituto Joanna Briggs. Com a seguinte questão de pesquisa: quais os aplicativos móveis sobre insuficiência cardíaca são utilizados por profissionais da saúde, pessoas com insuficiência cardíaca e seus familiares/cuidadores? Foram analisados bases e portais de saúde captados via busca com os descritores “Insuficiência cardíaca”, “Aplicativos móveis”, “Pacientes”, “Pessoal de saúde”, “Família” e “Cuidadores” e a palavra-chave “Aplicativos”. Foram selecionados 47 estudos para análise.
Resultados: foram analisados 47 estudos publicados, que permitiu mapear 39 aplicativos móveis, oriundos de quatro continentes, dentre os quais 20 (51,3%) tinham como finalidade o cogerenciamento e 19 (48,7%) tinham como população-alvo pacientes e profissionais da saúde; 23 (58,9%) aplicativos não utilizaram referencial teórico para sua construção. A temática e os recursos prevalentes envolveram cuidados diários (36; 92,3%) e gerenciamento dos dados (37; 94,9%), respectivamente.
Conclusão: as temáticas e recursos dos aplicativos auxiliaram pacientes, familiares e profissionais na gestão da insuficiência cardíaca. Contudo, identificou-se hiato em diversas temáticas que envolvem o indivíduo e seu entorno, imprescindíveis para o cuidado integral.
DESCRIPTORES:
Insuficiência cardíaca; Tecnologia; Telemedicina; Aplicativos móveis; Promoção da saúde; Enfermagem
ABSTRACT
Objective: to map mobile apps for care in heart failure.
Method: this is a scoping review based on the method proposed by the Joanna Briggs Institute. The following research question was used: which mobile apps on heart failure are used by health professionals, people with heart failure and their family/caregivers? Health bases and portals were analyzed through the search with the descriptors “Heart Failure”, “Mobile Applications”, “Patients”, “Health Personnel”, “Family” and “Caregivers” and the keyword “Applications”. Forty-seven studies were selected for analysis.
Results: a total of 47 published studies were analyzed, which allowed mapping 39 mobile applications from four continents, among which 20 (51.3%) were intended for co-management and 19 (48.7%) had as target population patients and health professionals; 23 (58.9%) applications did not use theoretical framework for its construction. The prevalent theme and resources involved daily care (36; 92.3%) and data management (37; 94.9%), respectively.
Conclusion: the themes and resources of the applications assisted patients, family members and professionals in heart failure management. However, a gap was identified in several themes involving individuals and their surroundings, essential for comprehensive care.
DESCRIPTORS:
Heart failure; Technology; Telemedicine; Mobile applications; Health promotion; Nursing
RESUMEN
Objetivo: mapear aplicaciones móviles para el cuidado de la insuficiencia cardíaca.
Método: revisión del alcance basado en el método propuesto por el Instituto Joanna Briggs. Con la siguiente pregunta de investigación: ¿qué aplicaciones móviles de insuficiencia cardíaca utilizan los profesionales sanitarios, las personas con insuficiencia cardíaca y sus familiares/cuidadores? Se analizaron bases de datos y portales de salud capturados mediante búsqueda con los descriptores “Insuficiencia cardíaca”, “Aplicaciones Móviles”, “Pacientes”, “Personal de Salud”, “Familia” y “Cuidadores” y la palabra clave “Aplicaciones”. Se seleccionaron 47 estudios para su análisis.
Resultados: se analizaron 47 estudios publicados, que permitieron mapear 39 aplicaciones móviles, de cuatro continentes, de las cuales 20 (51,3%) tenían la finalidad de cogestión y 19 (48,7%) tenían como población objetivo pacientes y profesionales de la salud; 23 (58,9%) aplicaciones no utilizaron un marco teórico para su construcción. El tema y los recursos prevalentes fueron el cuidado diario (36; 92,3%) y la gestión de datos (37; 94,9%), respectivamente.
Conclusión: los temas y características de las aplicaciones ayudaron a pacientes, familias y profesionales en el manejo de la insuficiencia cardíaca. Sin embargo, se identificó una brecha en varios temas que involucran al individuo y su entorno, los cuales son fundamentales para la atención integral.
DESCRIPTORES:
Insuficiencia cardíaca; Tecnología; Telemedicina; Aplicaciones móviles; Promoción de la salud; Enfermería
INTRODUÇÃO
A insuficiência cardíaca (IC) é uma ameaça mundial emergente, com prevalência mundial de 64,34 milhões de casos (8,52 por 1.000 habitantes), representando 9,91 milhões de anos perdidos por incapacidade e gastos de US$346,17 bilhões,1 com perspectiva de aumento, apesar do avanço terapêutico. A IC coloca seu portador sob alto risco de morte súbita ou progressiva falência dos órgãos, além de acarretar distúrbios físicos, clínicos, sociais e psicológicos. Assim, melhorar atendimento e prognóstico desses pacientes é meta essencial da saúde pública.
Nesse sentindo, o cuidado de saúde deve extrapolar o restabelecimento dos parâmetros clínicos; demanda condições de promoção, proteção e recuperação da saúde, por envolver fatores como alimentação, trabalho, renda, acesso a bens, serviços e informação,2-4 o que requer dos profissionais, pacientes e cuidadores/familiares capacidade de adaptação e habilidades para reinventar o cuidar, devido ao caráter crônico da IC, que tem sintomas e tratamentos por períodos prologados. Nessa perspectiva, adotar tecnologias de saúde digital e móvel, como aplicativos (APP), é alternativa para ampliação do cuidado, sem desconsiderar o sujeito a quem se destinam as ações do cuidar, além da capacidade de interação e praticidade.5
Na IC, os APPs podem estimular adoção de comportamentos saudáveis, permitir monitoramento de pacientes, aumentar conhecimento da doença e, ainda, auxiliar profissionais na tomada de decisão clínica, =6 pois possibilitam acesso a informações e aplicações em qualquer lugar e momento. Entretanto, a indicação e inserção dessa tecnologia na rotina de cuidados de profissionais, pacientes com IC e seus familiares para atender demandas que resultem em ganhos efetivos, deve ser avaliada.
Por conseguinte, justifica-se mapear os APPs já desenvolvidos para avaliar sua qualidade e sua real utilização na rotina de cuidados de pacientes com IC. Não obstante, constata-se que temáticas já abordadas na literatura mostram-se reduzidas e fragmentadas no contexto do autocuidado e gerenciamento, e excluem profissionais e familiares/cuidadores.5-6 Nessa seara, este estudo é relevante por preencher lacuna literária acerca de APP sobre IC, destacando-se a necessidade de ampliar o conhecimento existente, de forma a conhecer conteúdos e recursos apresentados. Assim, foi objetivo desta pesquisa mapear os aplicativos móveis para o cuidado na insuficiência cardíaca.
MÉTODO
Trata-se de revisão de escopo, cuja construção seguiu as diretrizes da Joanne Briggs Institute (JBI)7 e as recomendações do checklist Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses - Extension for Scoping Review (PRISMA-ScR).8 Por se tratar de um estudo de revisão, não se faz necessária aprovação em Comitê de Ética em Pesquisa.
A questão de pesquisa constituiu-se como: quais os aplicativos móveis sobre IC são utilizados por profissionais da saúde, pessoas com IC e seus familiares/cuidadores? Os critérios de elegibilidade foram definidos por meio do acrônimo PCC (População, Conceito e Contexto). Para a população, optou-se por profissionais da saúde, pessoas com IC e seus familiares/cuidadores; para o conceito, foram selecionados estudos sobre desenvolvimento, usabilidade, viabilidade e validação de APP na área da IC; e, como contexto, insuficiência cardíaca. Foram tipos de fontes de evidência: artigos publicados eletronicamente na íntegra, sem restrição de idioma ou ano de publicação.
Para isso, os estudos foram pesquisados nas bases de dados eletrônicos da Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Índice Bibliográfico Espanhol de Ciências da Saúde (IBECS) ScienceDirect, Web of Science, Scopus, Cumulative Index to Nursing and Allied Health Literature (CINAHL), EBSCO, Embase, PsycInfo e portal PubMed.
As buscas e o processo de seleção dos estudos ocorreram de dezembro de 2019 a agosto de 2020. Foram utilizados os descritores de acordo com a terminologia dos Descritores em Ciência da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH): “Insuficiência cardíaca”, “Aplicativos móveis”, “Pacientes”, “Pessoal de saúde”, “Família” e “Cuidadores”. Reitera-se que houve inclusão da palavra-chave “Aplicativos” nas buscas, no intuito de ampliar os achados. Com esses termos foram realizadas buscas, integrando-os mediante os operadores booleanos “AND” e “OR”.
Optou-se por realizar a busca com descritores na língua inglesa, pois a equação possibilitou a identificação de maior quantidade de artigos, quando comparada às buscas com descritores nas línguas portuguesa e espanhola. Na LILACS e IBECS, montou-se a estratégia (tw:(insuficiência cardíaca)) AND (tw:(aplicativos móveis)) OR (tw:(aplicativos)) AND (tw:(pessoal da saúde)) OR (tw:(paciente)) OR (tw:(família)) OR (tw:(cuidadores)); no portal PubMed, ((((((heart failure) and mobile applications) or applications) and pacients) or health personnel) or family) or caregivers; na Web of Science e ScienceDirect, utilizou-se a equação (heart failure) AND (mobile applications or “applications”) AND (patients) OR (health personnel) OR (family) OR (caregivers) AND TÓPICO: (“heart failure”); na Scopus, (TITLE-ABS-KEY (heart failure) AND TITLE-ABS-KEY (mobile applications or “applications”) AND TITLE-ABS-KEY (pacients) OR TITLE-ABS-KEY (health personnel) OR TITLE-ABS-KEY (family) OR TITLE-ABS-KEY (caregivers); na EBSCO, CINAHL e Embase, (heart failure) AND (mobile applications or “applications”) AND (patients) OR (health personnel) OR (family) OR (caregivers); e, por fim, na PsycInfo, Title: heart failure AND Any Field: mobile applications OR Any Field: “applications” AND Any Field: “health personnel” OR Any Field: “patients” OR Any Field: “family” OR Any Field: “health caregivers”.
Outrossim, os estudos foram selecionados por dois revisores independentes. Controvérsias foram solucionadas com discussão crítica entre os revisores. Caso não conseguissem alcançar um consenso, um terceiro revisor auxiliaria no processo. Ademais, a coleta de dados foi realizada em setembro de 2020 e foram organizados em uma planilha no Microsoft Excel®. Cada estudo foi codificado com a letra “A”, seguido de um número.
Para extração dos dados, adaptou-se o instrumento da JBI,7 considerando os seguintes aspectos: identificação (título, autores, idioma, país, local, periódico, ano de publicação e nome do APP); aspectos metodológicos (objetivos, delineamento de pesquisa, referencial, amostragem, tratamento de dados); e análise crítica (temáticas abordadas, recursos, pontos positivos e negativos e principais conclusões).
Finalmente, a apresentação dos dados obtidos se deu em tabela, com síntese dos estudos e figuras para mapear as informações relativas ao país de desenvolvimento das pesquisas e conteúdos e recursos identificados nos APPs.
RESULTADOS
A pesquisa identificou 747 estudos potencialmente relevantes, dos quais 409 foram removidos por duplicidade. Os 338 estudos restantes foram selecionados por título e resumo. Desse total, 132 estudos foram incluídos para análise de texto completo por dois revisores independentes. Em seguida, após leitura na íntegra, mais 85 estudos foram excluídos por não responderem à questão da pesquisa, restando 47 estudos (Figura 1).
Diagrama do processo de seleção dos estudos conforme diretrizes do PRISMAScR. Fortaleza, CE, Brasil, 2021.
Portanto, dos estudos primários foram extraídos dados pertinentes ao acrônimo que fundamentou a questão de pesquisa e ao objetivo da presente revisão, como: autores, nome do aplicativo, finalidade, método e população-alvo, sendo caracterizados a seguir no Quadro 1.
O continente americano concentrou maior número de publicações (26; 55,3%), com destaque para Estados Unidos (23; 48,9%),12-13,16,20,22,24,26-27,29,31-33,36-37,39-42,44,46,48,50,54 Canadá (1; 2,1%)18 e Argentina (2; 4,3%),14-15 seguido do continente europeu, com treze (27,7%) estudos, sendo três (6,4%) oriundos do Reino Unido,45,49,51 Alemanha (2; 4,3%)19,55 e Aústria,28 Suíça,21 Grécia,34 Bélgica,35 Itália,43 Dinamarca,47 Espanha52 e Finlândia,53 com uma (2,1%) publicação cada. O continente asiático concentrou cinco (10,6%) publicações, provenientes da China (1; 2,1%),30 Tailândia (1; 2,1%)10 e Irã (3; 6,4%),11,25,38 e a Oceania, três (6,4%), desenvolvidos pela Austrália (3; 6,4%).9,17,23
Os estudos foram publicados entre os anos de 201154-55 a 2020.9-21 Os métodos foram variados, mas predominaram estudos de validação clínica dos APPs (15; 31,9%).10-11,15-16,18,20,24,26,28,30,35,37,43,50,53 Os 47 estudos publicados trouxeram 39 APPs sobre IC, dentre os quais 20 (51,3%)14,16-17,19,22,26,29,34-35,38-39,41-42,44-45,48,52-55 tinham como finalidade cogerenciamento e oito (20,5%)9,30,34,38,41,50,53,55 não tiveram os nomes divulgados.
As demais informações extraídas dos estudos versaram sobre população-alvo dos APPs, referencial teórico e temáticas e recursos utilizados. Observou-se que 19 APP (48,7%)14,16,19,21-22,28,30,34,38-39,41-42,44-55,48,52-55 tinham como população-alvo os pacientes e profissionais da saúde; 15 (38,5%)9,11-13,18,20,24,26-27,29,31-32,46,50-51 eram direcionados apenas para pacientes; dois (5,1%)40,47 para pacientes e seus familiares; um (2,6%)43 apenas para profissionais e um (2,6%)17 para todos os envolvidos no processo de cuidar: pacientes e seus familiares e profissionais da saúde.
Verificou-se que 23 (58,9%)14,16,19-20,22,24,28-30,32,35,38-39,43-44,46,50-55 estudos não relataram o uso de referencial teórico para o desenvolvimento e/ou validação dos APPs construídos. Dentre os que utilizaram, destacou-se o Design Centrado no Usuário (6; 37,5%).13,27,31,40,42,47 seguido do Codesign (4; 25%).9,11-12,17 Os demais referenciais foram utilizados apenas por um (6,2%) estudo, cada: Diretrizes de Design Contínuo,21 Teoria Social Cognitiva,26 Internet of Things,34 Pesquisa Científica de Design,41 Metodologia de desenvolvimento ágil45 e Teoria Unificada de Aceitação e Uso de Tecnologia,18
Todos os estudos incluídos coletaram diversas informações referentes ao conteúdo (temáticas) e recursos (funcionalidades) contidos nos APP (Figura 2). As temáticas envolveram cuidados diários (36; 92,3%),9,11-38,40-42,45-55 bem-estar (10; 25,6%).11-12,21,24,29,34-35,42-45 e tratamentos e exames (7; 17,9%).13,21-22,39,41,43-44 Os recursos (funcionalidades) disponíveis foram categorizados em: requisitos de configuração (6; 15,4%),11,14,17,34,50,52 gerenciamento dos dados (37; 94,9%),11-18,20-55 transferência de dados (22; 56,4%)11-12,14,17,19-22,28,30-34,38-39,41-42,45,50,53-55 e gamificação (5; 12,8%).9,21,28,46-47
Categorias das temáticas e recursos identificados nos estudos. Fortaleza, CE, Brasil, 2021.
Buscou-se identificar, ainda, aspectos positivos e negativos do desenvolvimento e uso dos APPs selecionados. De forma geral, possibilitaram melhor gerenciamento dos dados;9-10,12,16-18,26-27,31,36-38,41,46,51,54 orientaram tomada de decisão clínica;21-22,36-37,43 permitiram cuidado personalizado;14-15,28,31 auxiliaram na organização e uso adequado de medicamentos;9,18,26-27,31 podem ser utilizadas em qualquer momento;18,54 as informações puderam ser compartilhadas e possibilitaram comunicação diária com profissionais da saúde;18-19,28,31,41,53-55 permitiram executar tarefas e atividades diárias propostas mais rapidamente31,38,43,54 e reduziram custos com a saúde.52
Contudo, algumas limitações foram ressaltadas, como problemas técnicos e/ou de design;18,31,40-41,51 exigência de letramento tecnológico e compreensão dos tipos de usuários;9,29,31,36-37,42,47 necessidades de conectividade e proteção das informações pessoais;9-11,14-15,20-23,25,28-32,34,37-39,41-42,44-46,49-50,53-55 restrição quanto ao sistema operacional;9,19-29,31 necessidade de outros dispositivos31,35,39,54-55 e alto custo para desenvolvimento, manutenção e uso.28,31
DISCUSSÃO
A crescente busca pela qualidade do cuidado por meio de APP para pessoas com IC retrata a relevância de novas modalidades terapêuticas que favoreçam usuários, familiares e profissionais, potencializando resultados positivos de saúde com maior flexibilidade. Com o crescimento da Internet, aumenta a venda de smartphones e, com isso, intensifica o desenvolvimento de estudos de construção, validação, usabilidade, legibilidade, acessibilidade e adequabilidade de APP.
Na IC, os primeiros estudos publicados sobre APP foram em 2011, oriundos dos Estados Unidos e Alemanha. Apesar da expansão ao longo dos anos, os norte-americanos ainda concentram a maioria dos estudos. Os Estados Unidos são marcados por intensas inequidades sociais, evidenciadas pela variação geográfica das taxas de mortalidade da doença.12-13 Ainda, são muitos os fatores de risco para o desenvolvimento da IC, como hábitos de vida inadequados.16 que corroboram para elevada prevalência da doença no País.
Ressalta-se inexistirem estudos oriundos do Brasil, apesar da elevada prevalência da doença no País. Apesar da existência de APPs brasileiros nas principais lojas virtuais (Google play e Apple store), não foi possível localizar, na literatura, pesquisas que descrevam o processo de construção e validação. Esse achado é preocupante, pois a criação dessas ferramentas tecnológicas requer etapas definidas e estruturadas de forma adequada para que o APP seja útil ao usuário final.
A heterogeneidade clínica da IC é percebida em diversas estratégias de manejo e ações de cuidados implementadas. Pensar na pessoa com IC é valorizar o indivíduo, compreendendo a singularidade do outro. Assim, não se pode conceber o cuidado de forma pontual, e sim, por meio de um olhar ampliado. Nessa perspectiva, justifica-se a pluralidade das finalidades, temáticas (conteúdos) e recursos identificados nos estudos. Contudo, desenvolver uma tecnologia para o cuidado exige cautela. Ainda, demanda dos pesquisadores investigação minuciosa de aspectos socioeconômicos, comportamentais e cognitivos dos usuários, além da escolha do método adequado para estruturação tecnológica. Sobressaíram diferentes referenciais teóricos que orientam a construção de APP, com destaque para o Design Centrado no Usuário (DCU) e o Codesign.
O método DCU foi utilizado para desenvolver APP com objetivo de aumentar níveis de conhecimento,13 autocuidado.27,40 autogerenciamento31 e cogerenciamento.36-37,42 Estabelece colaboração entre usuários e pesquisadores na fase de concepção.27,47 O Codesign foi empregado em APP cuja finalidade era aumento do conhecimento e autocuidado,9-11 automonitoramento12 e cogerenciamento.17,23 É o processo criativo e participativo que envolve grupo diverso de indivíduos interessados em explorar, desenvolver e testar uma tecnologia.9-12,17
As duas abordagens convergem na relevância da inserção dos usuários no projeto, pois os designers nem sempre são capazes de compreender suas demandas de saúde. Ora, a cronicidade e a complexidade da IC não estão associadas apenas às alterações biológicas advindas da doença, mas envolvem o entorno do indivíduo, onde determinantes sociais, econômicos e demográficos influenciam no prognóstico,12-13,17,19,27,34 tornando-o vulnerável. Assim, métodos com participação de todos os envolvidos no processo de cuidar, que considerem aspectos sociais, físicos e cognitivos do seu público, são essenciais para o desenvolvimento,33,38-39 aceitabilidade,9 adequabilidade29,31 e viabilidade do APP.46-47,52,55
Quanto às finalidades, constatou-se preocupação dos pesquisadores em estimular autocuidado e gerenciamento da IC. O autocuidado envolve tomada de ações e adoção de comportamentos que mantenham a saúde,11,20,24,26 enquanto o gerenciamento ou gestão é a participação ativa do paciente em seu tratamento.16,21,24,36 Na IC, essas finalidades estão interligadas, pois o autocuidado é vital ao gerenciamento bem-sucedido.
Nos estudos analisados, os pacientes que utilizaram APP para autocuidado e cogerenciamento apresentaram melhores resultados de saúde, por possibilitarem a organização do cuidado e o compartilhamento de informações com os profissionais de saúde.29,31,36-37 Assim, contribuíram para autopercepção dos sintomas de alarme,33 participação dos pacientes no processo de tomada de decisão clínica dos profissionais,21,43 contribuindo na elaboração de diagnósticos fidedignos e orientações/condutas terapêuticas direcionadas.14-15
Houve predomínio de estudos com pacientes e profissionais, poucos foram desenvolvidos de maneira a integrar os familiares/cuidadores. As práticas de autocuidado e gerenciamento da doença são mais efetivas quando todos participaram ativamente das ações de cuidado. Portanto, é relevante que os familiares se apropriem dessas ferramentas, para fortalecer a assistência e investir em cuidados mais seguros.43 Quando desenvolvidos para paciente, os APPs funcionam como estratégias facilitadoras do autocuidado, da manutenção da autonomia e da independência. Para familiares/cuidadores que desempenham papel importante no cuidado de pacientes com IC, os APPs são uma forma adicional de informação.17,47
Múltiplas temáticas foram abordadas nos estudos, principalmente relacionadas aos cuidados diários. Entretanto, apesar do quantitativo de estudos, temáticas como funcionamento do sistema de redes e políticas públicas; suporte econômico, com explanação acerca dos direitos, benefícios e auxílios do governo; atividade sexual e planejamento familiar; exercícios respiratórios; higiene bucal; vacinação; cuidados paliativos; alta hospitalar e vulnerabilidade em saúde, foram negligenciadas. Essa ausência reafirma a complexidade da doença e evidencia lacunas relevantes na literatura científica.
A IC exige reorganização diária das pessoas acometidas. Aderir à terapêutica requer disciplina e resiliência, além da compreensão das diversas situações de vulnerabilidade experienciadas.10 Nesse escopo, a incorporação de recursos é estratégia essencial para gerir informações e, assim, facilitar o cuidado. A IC demanda ações inovadoras e que permitam reinventar a forma de cuidar, de maneira criativa e, por várias vezes, lúdicas, com reforços positivos. Nos estudos, recursos programados e investidos nos APPs incluíram requisitos de configuração, gerenciamento, transferência dos dados e gamificação.
O caráter crônico da IC exige mudanças no estilo de vida, podendo aumentar a qualidade e a expectativa de vida dos pacientes. O monitoramento contínuo e o cuidado dos sinais vitais diários permitem reconhecer alterações ou complicações precocemente. Porém, as taxas de automonitoramento são baixas, pois os pacientes frequentemente esquecem de registrar informações relevantes, como sinais e sintomas, sinais vitais e medicações em uso.21,56 Isso complica os check-ups e dificulta a identificação de agravamento de sua condição.
Isso posto, APPs que outorguem recursos que ofereçam uso confortável ao paciente, com elementos interativos que disponibilizam informações confiáveis, como a inserção e a transmissão de dados, pode aumentar a segurança do paciente, diminuir episódios de internação, além de compartilhar seus dados com os profissionais de saúde. APP com recurso de estratificação de risco e diagnósticos são ferramentas essenciais aos profissionais da saúde e pacientes por fornecerem prognóstico e tratamento personalizado.22,43
Enfim, entre os recursos, estratégias como gamificação com uso de avatares e jogos motivacionais, mostraram-se eficazes no treinamento de saúde personalizado, melhorando conhecimento, manutenção e confiança para o autocuidado, por meio de desafios diários e sistemas de pontuação, além do ganho de medalhas e recompensas.9-10,47
Os métodos adotados, finalidades, temáticas e recursos permitiram a disponibilização de APP com inúmeros aspectos positivos. Todavia, autores reforçaram a necessidade em conhecer os perfis dos usuários, que podem afetar a forma como o sistema é utilizado,31 o que demanda cuidado na utilização de APPs oriundos de outras culturas. Ademais, é importante observar a necessidade de adaptação para pessoas com problemas visuais e/ou audição.9 A dependência de um sistema de tecnologia, do tipo Internet sem fio, também foi fator limitante para populações com baixo poder econômico.31-32 É importante destacar, também, que APPs gamificados podem gerar sensação de derrota por trabalharem com pontuação e exigirem elevado letramento digital.47
Esta revisão de escopo traz como limitações a inclusão de estudos selecionados em nove bases de dados e portais da saúde, e foram analisados apenas os disponíveis eletronicamente na íntegra, fatores que podem ter limitado o acesso a outros dados relevantes.
CONCLUSÃO
O mapeamento dos aplicativos móveis para o cuidado na IC permitiu evidenciar que, apesar da expansão tecnológica mundial e globalizada, os norte-americanos ainda concentram a maioria dos estudos sobre a temática. Mesmo existindo APPs brasileiros nas principais lojas virtuais (Google play e Apple store), não foi possível localizar, na literatura, pesquisas que descrevam o processo de construção e validação dos aplicativos brasileiros disponíveis nas lojas virtuais. Esse achado é preocupante, pois a criação dessas ferramentas tecnológicas requer etapas definidas e estruturadas de forma adequada para que o APP seja útil ao usuário final. Por conseguinte, sobressaíram diferentes referenciais teóricos que orientam a construção de APP, com destaque para o DCU e o Codesign.
Não obstante, os achados evidenciaram pouca quantidade de APPs voltados para familiares e/ou cuidadores de pessoas com IC. Inclusive, apontaram hiatos em diversas temáticas que envolvem o indivíduo e seu entorno, imprescindíveis para o cuidado integral.
Espera-se que, a partir das realidades identificadas e apresentadas ao longo desta revisão, novas pesquisas possam surgir e que sirvam como suporte para conscientização da temática. Almeja-se, ainda, auxiliar na produção de tecnologias baseadas em referenciais teóricos sólidos para, então, reestruturar as práticas de cuidado ao paciente com IC
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