Open-access Feminismo materialista em movimento: repercussões e contribuições para o Serviço Social brasileiro

Materialist feminism in motion: repercussions and contributions to Brazilian Social Work

Resumo:

O artigo aborda o pensamento feminista materialista, em especial a tradição francófona, a partir de suas repercussões no feminismo brasileiro e de possíveis contribuições para o Serviço Social. Realizamos um diálogo entre materialismo histórico-dialético e epistemologia feminista, que considera análises em torno das relações sociais de sexo, “raça”/etnia e classe, da divisão sexual do trabalho e da crítica às ideologias essencialistas, potentes para o enfrentamento à dominação das mulheres.

Palavras-chave:
Feminismo materialista; Materialismo francófono; Relações sociais de sexo; Divisão sexual do trabalho; Serviço Social

Abstract:

This article examines materialist feminist thought, particularly the francophone tradition, through its impact on brazilian feminism and its potential contributions to Social Work. We engage in a dialogue between dialectical historical materialism and feminist epistemology, which considers analyses of social relationships of sex, “race”/ethnicity and class, the sexual division of labor, and critiques of essentialist ideologies, all of which are powerful tools for confronting the domination of women.

Keywords:
Materialist feminism; Francophone materialism; Social relations of sex; Sexual division of labor; Social Work

Introdução

Muitos são os esforços atuais em definir o feminismo materialista, que está circulando com maior notoriedade entre a produção de conhecimento feminista nos últimos anos, possivelmente em função do aprofundamento das políticas neoliberais e conservadoras que tensionam as relações sociais1 de sexo, “raça”2/etnia e classe, que impacta, sobretudo, mulheres racializadas, periféricas, lésbicas e da classe trabalhadora. Kergoat (2018), por exemplo, o define como uma perspectiva em que há “materialismo”, isto é, em que há a concepção da história que considera que aquilo que os indivíduos são coincide com o que produzem e com a forma como produzem. Já Gimenez (2023), em contrapartida, questiona a viabilidade de um feminismo que, embora reivindique o método materialista, mantém uma postura crítica e, por vezes, pouco amistosa com a tradição marxista.

Inicialmente, discordâncias como essas significam que o feminismo materialista está em constante movimento: suas origens remontam a mais de 50 anos de construção e reinvenção feminista, no limiar da assim chamada “Segunda Onda”, que se ocupou em superar os limites da luta estritamente política e individual. Ao seu turno, buscou “constituir-se como força política autônoma” (Delphy, 2015, p. 100) à revelia de organizações socialistas que inibiam a tomada de consciência sobre as razões estruturais, que fazem com que a abolição do Capital em si não baste para a libertação de todas as mulheres (Delphy, 2015).

Os recursos à centralidade do trabalho, ao conceito de relações sociais e a assim chamada ideologia dominante, tomados da tradição marxista, renovaram o fôlego do feminismo materialista e, decerto, o aproximou da produção de conhecimento em Serviço Social no Brasil, onde encontrou terreno fértil recentemente, em virtude dos compromissos assumidos entre produção de conhecimento feminista da profissão com a defesa do projeto ético-político e sua relação com o pensamento crítico (Olivio, 2021). Trabalhos como os de Cisne (2014) e Cisne e Santos (2018) foram inovadores nesse sentido, sendo fortalecidos por novas produções desde que traduções dos originais franceses chegaram ao país.

O feminismo materialista, em especial o de tradição francófona,3 vem exercendo particular influência no pensamento feminista brasileiro e no Serviço Social. Destacamos, em síntese, três grandes contribuições: (i) o movimento da teoria feminista, sem prejuízo da “ortodoxia do método”, capaz de atribuir à divisão social do trabalho seus aspectos patriarcais e raciais; (ii) o paradigma da consubstancialidade das relações sociais que, com sua bagagem dialética e materialista, aponta para a imbricação das relações de sexo, “raça”/etnia e classe; e (iii) a crítica às teorias feministas idealistas e essencialistas que, influenciadas pelo movimento próprio do sistema do Capital e da ideologia dominante, não permitem a construção de um feminismo de viés emancipatório, que preze pela diversidade humana.

Dito isso, propomo-nos a abordar o pensamento feminista materialista, especificamente sua tradição francófona, a partir da análise de suas atuais repercussões no feminismo brasileiro e de possíveis contribuições para a produção de conhecimento em Serviço Social. Para tanto, utilizamos um diálogo entre epistemologia feminista materialista e o materialismo histórico-dialético.

1. Relações sociais de sexo e divisão sexual do trabalho: entre teoria e método

A análise da realidade, no que concerne à manifestação das relações sociais de exploração, dominação e opressão, é implacável: são as mulheres que vivenciam um paradoxo de aparência permanente, ilustrado pela melhoria de suas condições socioeconômicas, devido às tensões históricas provocadas pelas lutas sociais feministas, ao mesmo tempo que permanecem impactadas pela manutenção das diferenças salariais e pelo maior risco de serem vitimadas pela violência (Kergoat, 2010). Cisne e Ferreira (2021) retomam o sentido de “modernização conservadora” ao se referirem a esse mesmo paradoxo, revelando que a ampliação da inserção das mulheres no trabalho assalariado, por exemplo, e das leis que, em nível mundial, permitiram a descriminalização do aborto, não é suficiente para barrar os conflitos inerentes à divisão sexual do trabalho e às relações sociais de sexo.

É necessário analisar criticamente essa paradoxal realidade, fugindo de explicações superficiais. Lukács (2003) nos lembra de que há, na ilusão do idealismo, a confusão entre a reprodução da realidade e o processo de construção da própria realidade, já que esta perspectiva tende a restringir os fundamentos da análise a fatores ideoculturais e simbólicos, como se as relações de dominação se limitassem às construções culturais, aos costumes e aos comportamentos individuais. Ao subsumir a essência à aparência dos fenômenos, ao não conhecer contradição nem antagonismo, as perspectivas idealistas contribuem para “julgar as contradições que se impõem ao pensamento de maneira inevitável não como fenômenos pertencentes à essência desse modo de produção [capitalista], mas como simples fenômenos de superfície” (Lukács, 2003, p. 80). Por consequência, fixam as categorias analíticas, tornando-as destinadas a existir desde e para sempre.

A leitura da realidade em torno da dominação das mulheres não passa ilesa do idealismo, que tem implicações e desdobramentos em todas as áreas do conhecimento e da teoria crítica. Como afirmam Cisne e Ferreira (2021, p. 7): “Um fantasma não deixa de rondar a teoria social: o fantasma do idealismo”. É este um dos grandes responsáveis pela interação tardia do pensamento feminista materialista nos estudos sobre a dominação das mulheres no Brasil, conforme sua hegemonia se expressa por meio da presença do estruturalismo na tradição marxista entre 1960 e 1970; das perspectivas culturalistas que repercutem desde a década de 1990 até os dias atuais, através dos “estudos de gênero”; e do pensamento abstrato-formal-tecnicista vinculado à programática neoliberal.

Dessa forma, são muitos os momentos históricos em que discursos sobre a “mudança de mentalidade” e a “superação de valores e costumes” foram utilizados como fim último das lutas sociais feministas, influenciadas pelo idealismo, descurando-se do horizonte emancipatório e dos valores radicais que marcaram o feminismo da segunda metade do século XX. No entanto, sustentamos que a produção de conhecimento feminista vem buscando recuperar a radicalidade no enfrentamento à dominação das mulheres e o sentido de contradição e conflito que constitui as relações sociais, parte considerável dessa produção através do retorno aos fundamentos que marcam o feminismo materialista, especialmente o de tradição francófona. Nesse sentido, duas categorias se destacam: a de relações sociais de sexo e a de divisão sexual do trabalho.

Apreender as relações entre homens e mulheres em termos de relações sociais de sexo contribui para um duplo movimento: afastar o feminismo de concepções essencialistas4 que atribuem a homens e mulheres uma complementariedade baseada na biologia, provocando uma inevitável relação de dependência sexual e romântica entre ambos; e contribuir para o fortalecimento do sentido de antagonismo, contradição e hierarquia inerente às tensões sociais que atravessam a vida social de homens e mulheres. Destacamos que o uso de “inerente”, aqui, não significa que as relações sociais de sexo são fixas e imutáveis, ao contrário: “a reflexão em termos de relações sociais exige a ênfase na noção de processo e ao caráter dinâmico das relações sociais, movidas pelos seus antagonismos imanentes, o que remete, por sua vez, à historicidade” (Ferreira, 2017, p. 42).

Nesses termos, a tradição francófona do feminismo materialista buscou no marxismo o recurso para apreender o antagonismo da relação entre os sexos ao desenvolver a categoria “classes sexuais”. Kergoat (2018) afirma que o que une as autoras que reivindicam esta perspectiva é a ideia de classe de sexo e, portanto, a pressuposição do conceito marxista de relação social. Ainda que as francófonas trabalhem em campos e disciplinas diferentes, todas partilham a ideia de que são as contradições e os conflitos que fazem avançar as lutas rumo à emancipação.5 Entretanto, diferentemente da natureza da relação de dominação entre as classes sociais, com base na exploração da força de trabalho da classe trabalhadora pela burguesia, Guillaumin (2014) oferece outra via de entendimento sobre a natureza da dominação entre as classes sexuais: a apropriação. É através da apropriação, característica das relações de servidão feudal e escravidão de plantation, que as mulheres sofrem um verdadeiro açambarcamento de sua unidade material, de sua pessoa inteira (Falquet, 2019) ou, ainda, de sua “máquina-de-força-de-trabalho” (Guillaumin, 2014, p. 33).

Além disso, o antagonismo entre homens e mulheres possui uma base material: a divisão sexual do trabalho, caracterizada pela destinação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva (Kergoat, 2009). Na medida em que a venda da força de trabalho é o único recurso para a classe dos homens (Mano, 2022), em termos de sobrevivência, para as mulheres, as atividades associadas à reprodução, como o trabalho de cuidados, o trabalho sexual, as tarefas domésticas e o trabalho psicológico com membros da família, são impostas sem mensuração de tempo e submetem as mulheres não a jornadas intermitentes ou a uma conciliação de tarefas (Kergoat, 2018), como comumente se analisa, mas às relações de dominação que são próprias da divisão sexual do trabalho.

Dito isso, é evidente que o recurso ao materialismo não é mero apêndice teórico na produção do feminismo materialista, ainda que haja, sobretudo entre as francófonas, a reivindicação de uma independência do marxismo (Mano, 2022). Em contrapartida, Gimenez (2023) apresenta uma linha argumentativa distinta, ao defender uma forte ruptura entre o que ela chama de “MatFem” e “MarxFem”,6 sob a defesa de retorno deste último, diante de uma suposta sensibilização do feminismo materialista às teorias pós-modernas, de ausência de historicidade por fundamentar o patriarcado fora do modo de produção capitalista e de uma “supergeneralização” da opressão das mulheres, já que os diferentes tipos de relações de opressão no capitalismo exigem níveis correspondentes de análise (Gimenez, 2023).

Eu também criticava o uso de “mulheres” e “homens” como categorias de análise (eles ignoravam classe, raça e divisões étnicas, e diferenças de status socioeconômico) [...] dadas as reais contradições nos interesses materiais dos capitalistas e das mulheres da classe trabalhadora. [...] Eu não era, consequentemente, convencida pelas teorias que supergeneralizavam sobre a dominação masculina e a opressão das mulheres e que não eram sensíveis às realidades da vida sob o capitalismo, onde a maioria dos homens não são poderosos e não têm controle sobre suas vidas nem todas as mulheres são desprovidas de poder (Gimenez, 2023, p. 443).

Entretanto, concordamos com Cisne e Ferreira (2021), que argumentam em favor de uma relação de mais conciliações que antagonismos entre feminismo materialista e marxismo. O recurso às categorias de relações sociais e divisão do trabalho, sobre o qual falamos, é responsável por atribuir a esse feminismo o entendimento do trabalho como categoria ontológica central e fundante das relações sociais (Cisne, 2020), aproximando-o da teoria revolucionária. A partir da problematização das relações sociais de sexo, “raça”/etnia e classe, o feminismo materialista contribui para a análise da totalidade social que é própria do método marxista (Cisne; Ferreira, 2021). Isso porque as autoras partem do pressuposto, já empreendido por Lukács (2003), de que a verdadeira ortodoxia do marxismo reside em seu método. São os princípios da totalidade, da contradição e da perspectiva revolucionária que exigem conformidade e rigor, na medida em que a teoria está em constante movimento.

Isso significa que é importante apresentar algumas mediações quando a proposta é refletir sobre a dominação das mulheres na contemporaneidade, a produção de conhecimento em torno dessa dominação e a repercussão da perspectiva feminista materialista nos dias de hoje e em um país do “Sul Global”. Reflexo disso é que, embora Guillaumin (2014) tenha sido uma das primeiras autoras francófonas a criticar o entendimento de “raça” como um fenômeno biológico (Mano, 2020), por exemplo, é possível observar que sua tese sobre a apropriação não reflete sobre as formas distintas que mulheres brancas e racializadas vivenciam o patriarcado. Nesse sentido, sobretudo para pensar as implicações do Feminismo Materialista Francófono (FMF) no Brasil e no Serviço Social, é necessário apreender a pluralidade das relações de dominação na atualidade.

2. Consubstancialidade das relações sociais: uma posição radical

Na França, três principais tendências feministas disputaram a produção de conhecimento, influenciadas pelas lutas sociais derivadas do feminismo da segunda metade do século XX: as tendências “radical”, “luta de classe” e “Psyképo”. Foi na esteira da tendência radical que o feminismo materialista de tradição francófona se desenvolveu, caracterizado pelo materialismo e pelo antinaturalismo que se opunham à vinculação sindical da tendência “luta de classe” e às reflexões essencialistas da “Psyképo” (Curiel; Falquet, 2014). Embora a radicalidade feminista seja, muitas vezes, atribuída às reivindicações em torno do corpo, da defesa do aborto e da liberdade individual, foi através da análise do trabalho doméstico realizado gratuitamente pelas mulheres que a radicalidade do FMF se formou (Kergoat, 2009).

A partir disso, Delphy (2015) mobilizou a compreensão sobre a qual já falamos de que existe uma divisão sexual do trabalho, e não apenas social (Mano, 2020). A autora parte da pressuposição de um modo de produção patriarcal coexistente ao capitalismo, caracterizado pela atribuição exclusiva (ou prioritária) do trabalho doméstico às mulheres, definindo a posição destas nas relações de produção, e o ambiente familiar e doméstico como o lugar central de sua dominação (Delphy, 2015).

O trabalho doméstico como uma das bases da dominação das mulheres, conforme destaca Delphy (2015), é elementar para o argumento inicial das francófonas de que se nenhuma mulher é preservada da dominação patriarcal, então todas formam uma unidade de classe. À época, a pressão das organizações de esquerda que cobravam justificativas teóricas para a autonomização do movimento feminista (Abreu, 2016) exigiu não só definir um “inimigo principal” e específico de todas as mulheres, mas também qual elemento está presente em todas elas que possibilita a construção de uma consciência coletiva. Com a maturação da teoria, a ideia de que as mulheres formam uma classe de sexo precisou de uma mediação: não se trata de definir uma unidade sem considerar a pluralidade das formas pelas quais mulheres distintas são dominadas, mas de pensar a unidade na diversidade. É uma perspectiva que se mantém importante para compreender a dinâmica do patriarcado e as formas organizativas do movimento feminista, que exigem a construção de um horizonte emancipatório em comum.

Além disso, é possível observar que Delphy (2015) se limitou a pensar o patriarcado como um modo de produção distinto e autônomo ao Capital, cuja relação entre ambos ainda carregava a ordem do aditivo: “era preciso considerar tanto o trabalho assalariado quanto o trabalho doméstico” (Kergoat, 2018, p. 176), o que ocorreu a partir da ideia de “articulação”. Isto é, de que maneira o patriarcado e o capitalismo se articulam, na medida em que o capitalismo poderia ser superado sem que o patriarcado fosse, necessariamente, enfraquecido (Delphy; Leonard, 1992 apudAbreu, 2016). Entretanto, no final dos anos 1970, os limites visualizados na ideia de “articulação” permitiram a construção da perspectiva de consubstancialidade das relações sociais como instrumento teórico capaz de superar a simples análise das diferenças entre trabalho produtivo e reprodutivo, e entre homens e mulheres.

Nesses termos, Kergoat (2018) argumenta que o conceito de consubstancialidade ou de “imbricação” (Falquet, 2019) surge a partir de dois objetivos: tomar como central a complexidade dos mecanismos de opressão e, por consequência, abarcar sua pluralidade e entrelaçamentos; e ter a emancipação como horizonte. Dizer que as relações patriarcais, raciais e capitalistas são consubstanciais ou estão dialeticamente imbricadas significa afirmar que tais relações possuem propriedades comuns, uma origem comum e, embora sejam diferentes, não podem ser tratadas separadamente (Galerand; Kergoat, 2018). Tais relações oprimem, dominam e exploram os grupos sociais, produzindo não apenas desigualdades entre homens e mulheres ou entre pessoas brancas e racializadas, mas também contradições e antagonismos, cuja superação somente a via da emancipação humana é capaz de alcançar.

Em outras palavras: o recurso à consubstancialidade significa apostar na unidade entre três elementos distintos, convidando-nos a pensar o mesmo e o diferente em um só movimento (Galerand; Kergoat, 2018). Com efeito, sexo, “raça”/etnia e classe conformam relações sociais que agem entrecruzadas, imbricadas, sem que uma seja reduzida à outra (Ferreira, 2017). Falquet (2019, p. 132) exemplifica como tais relações sociais estão imbricadas na realidade concreta: “pois são mulheres empobrecidas e proletarizadas de todas as raças e pessoas racializadas empobrecidas e proletarizadas de todos os sexos que são conjuntamente empurradas a realizar o trabalho de reprodução social e as demais atividades desvalorizadas e mal pagas”, demonstrando que a exploração econômica capitalista age necessariamente associada à dominação e à opressão patriarcal e racista, assim como também nos relembra Maria Betânia Ávila no que tange ao contexto brasileiro:

O trabalho doméstico no Brasil, compreendendo as duas relações, remunerado e gratuito, é uma realidade que expressa bem a imbricação de raça, classe e gênero. As mulheres da classe dominante, burguesas e aquelas com maior poder de renda, contratam outras mulheres para realizarem o trabalho doméstico em suas próprias casas, cuja responsabilidade é atribuída a elas pela divisão sexual do trabalho, delegando para essas outras, de acordo com a divisão de classe, as tarefas de trabalho doméstico e de cuidados. São as mulheres negras que constituem, nesse contexto, a maioria das trabalhadoras dessa categoria. Uma divisão racial do trabalho, imbricada na divisão de classe e na divisão sexual do trabalho (Ávila, 2018, p. 189).

Isso significa, em nossa concepção, que a tradição feminista materialista francófona, ao contrário do que afirmou Gimenez (2023), não conduz a uma “supergeneralização” da dominação das mulheres, ignorando ou atenuando as relações de exploração e opressão que homens, sobretudo racializados e da classe trabalhadora, vivenciam. O “inimigo principal”, aqui, não diz respeito aos homens como sujeitos individuais; tampouco a tendência à autonomização do feminismo, que pretere a vinculação das mulheres às organizações mistas, significa uma prática feminista separatista. Trata-se, na verdade, da condução de uma teoria e de uma prática militante que politiza os espaços atribuídos historicamente às mulheres, privilegia seu protagonismo e liberdade na produção de conhecimento feminista, adere às contribuições de pensadores marxistas sem idolatrias e aposta na luta pela emancipação das mulheres como uma via para a emancipação humana.

Da mesma forma, o feminismo materialista não diz respeito a uma teoria que particulariza a experiência de dominação das mulheres brancas e do “Norte”, por ter se originado em um país europeu a partir das elaborações de pensadoras feministas brancas. Acreditamos que as limitações visíveis na teoria feminista francófona em relação ao debate racial fazem jus às determinações de classe e “raça” que estão postas, na medida em que é apenas a partir do início do século XXI que “raça” passa a se impor no debate público na França, mas não superam a constante renovação da teoria provocada pelas contribuições atuais de feministas brasileiras e latino-americanas.

Exemplo disso ocorre quando Ferreira (2017) aprofunda elementos de crítica não adensados por Guillaumin (2014) sobre um dos efeitos ideológicos da apropriação: o discurso dominante que utiliza a força física das mulheres para naturalizar sua suposta inferioridade e fragilidade, em comparação ao suposto vigor natural dos homens e, assim, justificar a divisão sexual do trabalho entre “trabalho de homem” e “trabalho de mulher”. Ferreira (2017, p. 38) complementa este raciocínio ao afirmar que: “A ideologia da inferioridade corporal como justificativa para a divisão sexual do trabalho é confrontada pelas formas históricas, concretas, de utilização do trabalho das mulheres [...] ao largo do desenvolvimento histórico das sociedades”. Foram notadamente as mulheres racializadas, em variadas sociedades e em diferentes períodos da história, que tiveram sua força de trabalho utilizada a serviço dos modos de produção.

Por fim, o paradigma da consubstancialidade das relações sociais confronta outras perspectivas de análise (a exemplo da interseccionalidade) que, embora contenham o mesmo objetivo de identificar e analisar as formas pelas quais os diversos mecanismos de opressão se entrelaçam, não mobilizam o materialismo histórico, a centralidade do trabalho e o horizonte da emancipação humana. Como afirmam Galerand e Kergoat (2018), as disputas que giram em torno das perspectivas de consubstancialidade e de interseccionalidade exigem pensarmos sobre suas diferenças, semelhanças e maneiras de utilizá-las sem prejuízo das características que as determinam, pois não se trata de colocá-las em concorrência, mas de fazer jus ao conteúdo materialista, dialético e radical que contribuiu para um feminismo emancipatório, que se “propõe antes a retrabalhar do que a afastar as noções-chave da herança marxiana que a onda culturalista levou ao esvaziamento” (Galerand; Kergoat, 2018, p. 146).

É justamente essa herança, sob a predominância da “ortodoxia do método”, que parece estar aproximando a perspectiva materialista francófona da teoria feminista brasileira, em geral, e da produção de conhecimento em Serviço Social, em particular. É fato que são várias as abordagens que disputam teórica e metodologicamente a análise da dominação das mulheres no Brasil e no Serviço Social, cujas preocupações em torno da agenda feminista passaram a ocupar um espaço importante no interior da profissão nas últimas décadas.

3. O feminismo materialista em movimento: aproximações com o Serviço Social brasileiro

Em termos de teoria feminista, é fato que o Brasil tem frequentemente importado as macroteorias dos países “do Norte”, em especial França e Estados Unidos (Carneiro; Mano, 2020). A troca intelectual entre Brasil e França, inclusive, desponta desde meados da ditadura civil-militar brasileira e se destaca no campo das Ciências Sociais (Mano, 2020). Saffioti (1987) afirmou que foram as perspectivas liberal-burguesas e socialistas que influenciaram o pensamento feminista brasileiro em suas origens, na medida em que o feminismo marxista, o radical e o materialista francófono foram subutilizados. Nesses termos, se o “economicismo” do primeiro (feminismo marxista) e a conservação do essencialismo feminino (Saffioti, 1987) do segundo (feminismo radical) foram suficientes para a pouca incipiência dessas perspectivas no Brasil, foi sobretudo em razão da hegemonia idealista e culturalista a partir dos anos 1990 que o FMF chegou tardiamente ao país (Cisne; Ferreira, 2021).

Durante a ditadura civil-militar brasileira e o desenvolvimento de um pensamento feminista no país, Mano (2020) sugere que, em relação às pensadoras brasileiras e francesas, é possível identificar apenas alguns diálogos entre Heleieth Saffioti e Nicole-Claude Mathieu na obra de Saffioti, quando a autora utiliza reflexões de Mathieu para criticar posições feministas que defendem a cumplicidade entre mulheres agredidas e seus agressores. Além disso, há influências de Mathieu e Christine Delphy nas pesquisas de Helena Hirata sobre divisão sexual do trabalho; e de Colette Guillaumin na obra de Elisabeth Souza-Lobo sobre a naturalização da função doméstica e as implicações da apropriação material das mulheres.

Os anos 1990, que marcam a incorporação de uma perspectiva feminista idealista, através da palatabilidade do conceito de gênero e do financiamento de estudos sobre mulheres realizado por agências de fomento (Olivio, 2021), marcam também a incorporação do debate feminista no Serviço Social. Ao mesmo tempo que as teorias feministas passaram a ser consideradas potenciais aportes teórico-metodológicos para a profissão (Lisboa, 2010), diante da possibilidade de reflexão sobre as relações de dominação e as expressões da “questão social” necessária a uma profissão cujo significado social perpassa pelo fortalecimento de um projeto político crítico e emancipatório, isso não ocorreu sem os impactos do contraditório contexto histórico da época. É justamente através da inclusão do termo “gênero”, atualmente contestado por perspectivas marxistas e materialistas do feminismo, nos documentos normativos da categoria, que a profissão passa a se apropriar da teoria feminista (Olivio, 2021).

O que Olivio (2021) destaca são as controvérsias presentes no significado de tal incorporação. Na medida em que Lisboa (2010) argumenta que o debate feminista na profissão foi apagado pela hegemonia marxista em sua produção de conhecimento, Olivio (2021) defende o contrário: é a partir do constante movimento da teoria social crítica marxista, elaborando sobre temáticas e conceitos antes pouco aprofundados, que o debate feminista (e antirracista) se avoluma na profissão, reconhecendo as dimensões de sexo e “raça”/etnia como indissociáveis das relações capitalistas. Isso parece fazer sentido ao visualizarmos o movimento dessa incorporação que, embora tenha surgido mediante o aporte do a-histórico e demasiadamente amplo conceito de “gênero”, ganhou novos contornos a partir da crítica à sua utilização na obra de Cisne (2014) e das elaborações marxistas e materialistas presentes na obra de Cisne e Santos (2018), marcantes na introdução do pensamento feminista francófono na profissão.

É fato que tal introdução ocorre mediante um conjunto de disputas cada vez mais insurgentes no Serviço Social, que analisa, a partir do diálogo entre a teoria e as lutas sociais feministas, um campo profícuo para a instrumentalidade da(o) assistente social (Oliveira, 2021). Na medida em que Olivio (2021) defende que o FMF permite o fortalecimento do projeto ético-político da profissão, contribuindo para a construção de mediações necessárias em torno da produção e da reprodução da vida sob o Capital, Oliveira (2021), em contrapartida, compreende que a incorporação dessa perspectiva feminista na profissão pode representar uma adesão contraproducente, que contrasta com o viés marxista defendido pela categoria profissional, diante das controvérsias teórico­-metodológicas entre feminismo materialista e marxismo.

Oliveira (2021) e Gimenez (2023) argumentam que a tradição feminista materialista francófona carrega “sensibilidades” pós-modernas, por se fundamentar em matrizes teóricas distintas, por vezes, avessas ao marxismo, recaindo em uma fragilidade metodológica; e se distancia de uma perspectiva de historicidade ao fundamentar a origem da dominação das mulheres “fora” da história (Gimenez, 2023), isto é, “fora” do capitalismo. Entretanto, atribuir a constituição do patriarcado às origens da divisão sexual do trabalho e das hierarquias sexuais, que não se desenvolvem com o modo de produção capitalista, mas são por ele constantemente modificados e ampliados, é fundamental para a percepção de que a superação do Capital não permite um triunfo direto e automático da emancipação das mulheres.

Defendemos, por fim, que o Serviço Social vem contribuindo fortemente para a ampliação do FMF, inclusive através da atuação de grupos de pesquisa feministas vinculados a universidades da região Nordeste. Podem-se citar como exemplos o Grupo de Estudos e Pesquisas em Trabalho, Ética e Direitos (GEPTED), do Departamento e do Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN); e o Núcleo de Estudos sobre a Mulher “Simone de Beauvoir” (Nem), da Faculdade de Serviço Social da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). Ambos realizam discussões sobre a interlocução entre feminismo materialista, marxismo e Serviço Social, seja em grupos internos, seja em debates públicos, em uma evidente vinculação à tradição francófona.

Considerações finais

O debate feminista no Brasil tem sido fundamental para analisar criticamente a realidade de dominação imposta a todas as mulheres de “raça”/etnia, classe e sexualidades diversas. Sua vertente materialista aparece em um contexto no qual perspectivas mais economicistas do marxismo deixam intocadas temáticas que pareciam apenas atravessar a experiência de classe, mas que na verdade estão nela dialeticamente imbricadas e exigem, cada vez mais, que a teoria feminista se instrumentalize para melhor analisá-las. Nesses termos, defendemos que um caminho profícuo para tal instrumentalização pode ocorrer mediante aprofundamento de categorias teóricas próprias do Feminismo Materialista Francófono, como relações sociais de sexo, divisão sexual do trabalho e apropriação, sem prejuízo da “ortodoxia do método”.

Certamente, a produção de conhecimento em Serviço Social também vem reconhecendo o potencial do diálogo entre feminismo materialista e marxismo. Isso possibilita afastar, ao mesmo tempo, perspectivas economicistas, idealistas, essencialistas e conservadoras de uma profissão cujo direcionamento crítico aponta para a defesa dos interesses da classe trabalhadora, em toda a sua diversidade, e para o horizonte da emancipação humana. Temos, aqui, um terreno fértil para a constante elaboração e atualização do debate feminista entre a categoria profissional, permanentemente preocupada em buscar na teoria diálogos producentes à dimensão técnica e instrumental, em favor da construção das “armas da crítica” (Cisne; Santos, 2018). O tempo histórico atual exige que não percamos de vista a reafirmação dos interesses críticos que tal disputa possibilita, sempre em direção ao desvelamento das relações sociais de dominação e da emancipação humana.

Referências

  • ABREU, M. L. G. de. Politizando a anatomia: antinaturalismo e materialismo no pensamento feminista francês (1960-1980). 2016. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) - Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2016.
  • ÁVILA, M. B. Nas veredas do feminismo materialista. In: ÁVILA, M. B.; FERREIRA, V. (org.). Teorias em movimento: reflexões feministas na Articulação Feminista Mercosul. Recife: SOS Corpo, 2018. p. 177-242.
  • CARNEIRO, T.; MANO, M. K. Práxis feminista: a presença de Heleieth Saffioti nos estudos e nas lutas no Brasil. Caderno CRH, Salvador, v. 33, p. 1-12, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ccrh/a/LfQRcD87hgGLQWbmK3NqpHk/?format=pdf⟨=pt Acesso em: 3 fev. 2026.
    » https://www.scielo.br/j/ccrh/a/LfQRcD87hgGLQWbmK3NqpHk/?format=pdf⟨=pt
  • CISNE, M. Feminismo e consciência de classe no Brasil São Paulo: Cortez, 2014.
  • CISNE, M. Feminismo e marxismo: ortodoxia do método e teoria em movimento. In: MIGUEL, L. F.; BALLESTRIN, L. Teoria e política feminista: contribuições ao debate sobre gênero no Brasil. Porto Alegre: Zouk, 2020. p. 39-57.
  • CISNE, M.; FERREIRA, V. Feminismo e desigualdade: uma análise materialista das relações de opressão-exploração das mulheres. Argumentum, v. 13, n. 3, p. 7-20, 2021. DOI: 10.47456/argumentum.v13i3.37191. Disponível em: https://periodicos.ufes.br/argumentum/article/view/37191 Acesso em: 2 fev. 2026.
    » https://doi.org/10.47456/argumentum.v13i3.37191» https://periodicos.ufes.br/argumentum/article/view/37191
  • CISNE, M.; SANTOS, S. M. M. Feminismo, diversidade sexual e Serviço Social São Paulo: Cortez, 2018.
  • CURIEL, O.; FALQUET, J. Introdução. In: FERREIRA, V. et al (org.). O patriarcado desvendado: teorias de três feministas materialistas: Colette Guillaumin, Paola Tabet e Nicole-Claude Mathieu. Recife: SOS Corpo, 2014. p. 7-26.
  • FALQUET, J. A combinatória straight. Raça, classe, sexo e economia política: análises materialistas e decoloniais. Crítica Marxista, Campinas, v. 26, n. 48, p. 127-145, 2019. Disponível em: https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/cma/article/view/19069 Acesso em: 2 fev. 2026.
    » https://econtents.bc.unicamp.br/inpec/index.php/cma/article/view/19069
  • FERREIRA, V. Apropriação do tempo de trabalho das mulheres nas políticas de saúde e reprodução social: uma análise de suas tendências. 2017. 202 f. Tese (Doutorado em Serviço Social) - Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2017.
  • GALERAND, E.; KERGOAT, D. Consubstancialidade versus interseccionalidade? A propósito da imbricação das relações sociais. In: KERGOAT, D. Lutar, dizem elas... Recife: SOS Corpo, 2018. p. 145-166.
  • GIMENEZ, M. E. O que há de material no feminismo materialista? Uma crítica feminina marxista. Tradução: Luciana Iost Vinhas. Revista Leitura, v. 1, n. 76, p. 432-450, 2023. Disponível em: https://periodicos.ufal.br/revistaleitura/article/view/14432 Acesso em: 5 mar. 2026.
    » https://periodicos.ufal.br/revistaleitura/article/view/14432
  • GUILLAUMIN, C. Prática de poder e ideia de natureza. In: FALQUET, J. et al O patriarcado desvendado: teorias de três feministas materialistas: Colette Guillaumin, Paola Tabet e Nicole-Claude Mathieu. Recife: SOS Corpo, 2014, p. 27-99.
  • INÁCIO, M. O. Feminismos materialistas, socialistas e marxistas: desafios à emancipação humana das mulheres. Serviço Social & Sociedade, São Paulo: Cortez, v. 148, n. 3, 2025. Disponível em: https://www.scielo.br/j/sssoc/a/vQ7xx9pkRKbQgF7z5MhPkzF/?format=pdf⟨=pt Acesso em: 5 mar. 2026.
    » https://www.scielo.br/j/sssoc/a/vQ7xx9pkRKbQgF7z5MhPkzF/?format=pdf⟨=pt
  • KERGOAT, D. Divisão sexual do trabalho e relações sociais de sexo. In: HIRATA, H. et al (org.). Dicionário crítico do feminismo São Paulo: Fundação Editora Unesp, 2009. p. 67-75.
  • KERGOAT, D. Dinâmica e consubstancialidade das relações sociais. Novos Estudos Cebrap, v. 86, p. 93-103, mar. 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/nec/a/hVNnxSrszcVLQGfHFsF85kk/ Acesso em: 10 jan. 2026.
    » https://www.scielo.br/j/nec/a/hVNnxSrszcVLQGfHFsF85kk/
  • KERGOAT, D. Dominação, lutas e emancipação: entrevista com Danièle Kergoat. Entrevista concedida a Maira Abreu. In: KERGOAT, D. Lutar, dizem elas... Recife: SOS Corpo, 2018. p. 167-189.
  • LISBOA, T. K. Gênero, feminismo e Serviço Social - encontros e desencontros ao longo da história da profissão. Katálysis, Florianópolis, v. 13, n. 1, p. 66-75, jun. 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rk/a/hHdq7R7vg7bsQvQ6gbNfz3h/?format=pdf⟨=pt Acesso em: 5 mar. 2026.
    » https://www.scielo.br/j/rk/a/hHdq7R7vg7bsQvQ6gbNfz3h/?format=pdf⟨=pt
  • LUKÁCS, G. História e consciência de classe: estudos sobre a dialética marxista. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
  • MANO, M. K. As contribuições do Feminismo Materialista Francófono para a realidade brasileira. In: MIGUEL, L. F.; BALLESTRIN, L. Teoria e política feminista: contribuições ao debate sobre gênero no Brasil. Porto Alegre: Zouk, 2020. p. 59-76.
  • MANO, M. K. Escolher as armas: a utilização de conceitos do Norte para os feminismos brasileiros. Caderno Espaço Feminino, v. 34, n. 2. 2022. p. 15-32. Disponível em: https://seer.ufu.br/index.php/neguem/article/view/65089 Acesso em: 5 mar. 2026.
    » https://seer.ufu.br/index.php/neguem/article/view/65089
  • OLIVEIRA, R. N. Serviço Social, classe, gênero e raça: tendências teórico-metodológicas e as possíveis contribuições da Teoria Unitária. 2021. 227 f. Tese (Doutorado em Serviço Social) - Centro de Ciências Sociais Aplicadas, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2021.
  • OLIVIO, M. C. Feminismo e capitalismo: contribuições teóricas a partir do feminismo materialista francês. 2021. 210 f. Tese (Doutorado em Serviço Social) - Centro Socioeconômico, Programa de Pós-Graduação em Serviço Social, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2021.
  • SAFFIOTI, H. I. B. Feminismos e seus frutos no Brasil. In: SADER, E. (org.). Movimentos sociais na transição democrática São Paulo: Cortez, 1987. p. 105-157.
  • 1
    Diferentemente do português, o idioma francês possui dois termos distintos referentes à ideia de “relações sociais”: relations sociales e rapports sociaux. O primeiro designa relações em nível microssocial e interpessoal, já o segundo designa relações sociais de poder estruturais, capazes de produzir as classes sociais e sexuais sobre as quais falaremos no decorrer do texto. O feminismo materialista de tradição francófona se debruça sobre o segundo.
  • 2
    Entende-se que embora a utilização sócio-histórica do termo “raça” esteja carregada de sentidos discriminatórios, trata-se de uma relação socialmente construída, por isso as aspas (Kergoat, 2010).
  • 3
    O feminismo materialista é, por vezes, utilizado como sinônimo de feminismo marxista, diante da conhecida vinculação do método à tradição marxista/marxiana. Entretanto, conforme pensadoras feministas buscaram reivindicar o materialismo para realizar a leitura da realidade das mulheres, afastando-se de um marxismo de viés economicista (Abreu, 2016), o feminismo materialista e o debate sobre suas definições permanecem em curso. Nesse processo, destaca-se o Feminismo Materialista Francófono (FMF), originado na década de 1970 na França, em meio a uma intensa produção teórica vinculada a autoras como Colette Guillaumin, Christine Delphy, Nicole-Claude Mathieu, Paola Tabet, Monique Wittig, entre outras. Além dessas, Jules Falquet, Danièle Kergoat e Helena Hirata se vinculam à tradição francófona e são autoras mais conhecidas no Brasil.
  • 4
    O essencialismo é uma ferramenta ideológica patriarcal caracterizada pela redução de grupos sociais historicamente dominados às suas características biológicas e/ou fisiológicas (Abreu, 2016).
  • 5
    Galerand e Kergoat (2018) afirmam que existe uma oposição determinante no seio da teoria crítica entre “emancipação” e “subversão”. A partir da influência idealista nos estudos feministas, a emancipação humana deixou de ser horizonte, preterido pela ideia de subversão das identidades oprimidas. Entre as feministas materialistas, entretanto, o compromisso com a emancipação é fortalecido, diante da concepção de que as relações sociais capitalistas, racistas e patriarcais formam uma totalidade social (Inácio, 2025) e que a subversão no interior dessas relações, embora fundamental, não é suficiente para transformá-las.
  • 6
    A tradução para o português do artigo de Gimenez (2023) mantém as siglas MatFem, Materialist Feminism (Feminismo Materialista); e MarxFem, Marxist Feminism (Feminismo Marxista), conforme constam no original.
  • Declaração de disponibilidade de dados:
    Neste artigo, nenhum dado de pesquisa foi gerado ou utilizado.
  • Editora responsável:
    Priscila Flório Augusto

Disponibilidade de dados

Neste artigo, nenhum dado de pesquisa foi gerado ou utilizado.

Datas de Publicação

  • Publicação nesta coleção
    27 Jul 2026
  • Data do Fascículo
    2026

Histórico

  • Recebido
    30 Mar 2026
  • Aceito
    03 Jun 2026
location_on
Cortez Editora Ltda Rua Ministro Godói, 1113 - Perdizes, 05015-001, São Paulo / SP - Brasil, Tel. + 55 11 3864-0111 - São Paulo - SP - Brazil
E-mail: servicosocial@cortezeditora.com.br
rss_feed Acompanhe os números deste periódico no seu leitor de RSS
Ir para o topo Reportar erro